sexta-feira, junho 30, 2006


Jason X, de James Isaac ***

A série de filmes "Sexta-Feira 13" é vista com desdém por crítica e público. É claro que boa parte de tais produções acaba justificando essa visão. A verdade, entretanto, é que tal generalização acaba sendo injusta, pois eventualmente a franquia acaba gerando algum derivado de interesse. Dentro dessa linha, destaca-se as boas primeira e sexta partes, e também esse "Jason X".

O que se destaca logo de cara nesse último é que o terror não é a tônica principal do filme. O diretor James Isaac literalmente joga Jason no espaço e no futuro, o que acaba rendendo uma boa aventura de ficção científica. Vários clichês desse gênero são reciclados de forma consistente pelo roteiro, mas alguns dos velhos elementos de horror e suspense da série também não são esquecidos. É essa insólita mistura, aliada a boas influências de quadrinhos, que acaba dando uma inesperada revitalização tanto para a figura de Jason quanto para a própria série. A trama de "Jason X" é recheada de muita ação e violência e consegue com naturalidade prender a atenção de quem assiste. A meia-hora final, especialmente, é fortemente tensa, quando Jason é transformado em um ser de carne e aço por um improvável computador curandeiro, o que acaba tornando-o virtualmente invencível.

Depois desse interessante "Jason X" e do sensacional "O Filho de Chucky", ficamos até imaginando que "A Hora do Pesadelo" ou "Halloween" possam a voltar a ter filmes decentes.

quinta-feira, junho 29, 2006


Cão de Briga, de Loius Terrier ***

É claro que um filme que tem Jet Li como protagonista sempre vai ter lutas de artes marciais como atrativo principal. Mas a trama de “Cão de Briga” tem alguns aspectos bem interessantes, principalmente na caracterização inicial de Li como um verdadeiro cão treinado para brigar e na sua estranha e violenta relação com o seu dono (um asqueroso Bob Hoskins). O roteiro só começa a ficar descaracterizado quando o personagem de Li conhece uma espécie de novo mentor (Morgan Freeman, interpretando burocraticamente o seu eterno papel de velhinho sábio e judiado pela vida), o que acaba tirando um pouco da vitalidade do filme. Mesmo assim, “Cão de Briga” é uma produção bem cuidada visualmente que merece uma conferida, sendo que tem algumas das melhores seqüências de ação dos últimos anos, principalmente as alucinadas seqüências de lutas em ringues clandestino e nos seus momentos finais, quando Jet Li enfrenta dezenas de bandidos em um velho prédio caindo aos pedaços, e tudo isso ao som de uma espetacular trilha sonora composta e executada pelo grupo inglês Massive Attack (eu tinha ouvido antes do filme essa trilha, mas não tinha gostado muito. Assistindo a “Cão de Briga”, contudo, ela faz sentido totalmente).

quarta-feira, junho 28, 2006


Marcas da Violência, de David Cronenberg ****

Muita gente foi assistir “Marcas da Violência”, a mais recente produção do mestre canadense David Cronenberg, com a expectativa de ser alguma espécie de reflexão sobre a violência. Acabaram dando com os burros n’água. O que Cronenberg fez foi um clássico filme policial e de ação que envolve questões como culpa e redenção, cheio de influências da obra de Don Siegel e Sam Peckinpah.

O roteiro é baseado em uma graphic novel escrita por John Wagner. Li os quadrinhos e afirmo com convicção que o filme ficou ainda melhor que a obra original. A influência dos “comics” não se limitou apenas à trama, mas também em enquadramentos de câmeras criativos, na caracterização magnífica dos personagens e nos compactos diálogos.

A trama de “Marcas da Violência” é simples, girando em torno de Tom Stall (Virgo Mortensen), um aparente pacato dono de restaurante de uma cidade interiorana que vê a sua tranqüila rotina desmoronar quando num episódio violento de assalto o seu tenebroso passado vem à tona. A partir disso, Tom tentará recolocar as coisas em ordem ao mesmo tempo que terá de conter a sua até então insuspeita natureza violenta. Cronemberg explora com genialidade esse conflito. Cria fortes de clima de tensão que funcionam como uma espécie de aviso para os momentos de explosão de violência, sendo esses últimos econômicos, mas altamente impactantes. Nesse contexto, a ótima trilha sonora de Howard Shore casa-se com perfeição com as imagens, acentuando ainda mais o suspense elaborado por Cronenberg.

Uma das coisas que me deixa cada vez mais entusiasmado cada vez que assisto ou penso em “Marcas da Violência” é a poderosa concepção cinematográfica que Cronenberg ofereceu para o seu filme. Montagem e fotografia revelam muito mais sobre a trama em si do que os próprios diálogos. A começar pela magnífica abertura: o movimento da câmera revela fielmente a natureza psicótica da dupla de assassinos que deflagrará o conflito da história. Esse estilo perpassa por toda a precisa metragem do filme. Olhares, gestos, até mesmo na forma em que pessoas são espancadas ou tiros são desferidos: todos esses atos refletem de forma contundente o conceito de “Marcas da Violência”. E a seqüência final também é um exemplo disso: sem um único comentário por parte dos personagens, Cronenberg sintetiza com perfeição o espírito do seu filme.

Outro ponto forte de “Marcas da Violência” é o trabalho dramático de seu elenco. Virgo Mortensen está impressionante no pele do atormentando protagonista, caracterizando com sutileza um personagem que é pura agressividade represada. É magnífica a cena em que apenas através do olhar ele demonstra o que Tom Stall traz dentro de si. Já Ed Harris e William Hurt estão completamente à vontade nos seus papéis: os vilões que interpretam são primorosos nos quesitos crueldade e canalhice.

Em tempos de politicamente correto, “Marcas da Violência” é tudo aquilo que quem gosta de cinema espera: um filme policial sem constrangimentos de ser violento e brilhantemente dirigido. E depois do susto do apenas mediano “Spider”, Cronenberg mostra que continua sendo o mesmo apaixonado cineasta de obras primas como “Scanners – Sua Mente Pode Destruir” e “Mistérios e Paixões”.

terça-feira, junho 27, 2006


Oliver Twist, de Roman Polanski ***1/2

Antes de mais nada, devo confessar que não li o livro "Oliver Twist" de Charles Dicken e nem assisti a adaptação clássica de David Lean para esse clássico da literatura. Sei que isso representa uma lacuna miserável na minha formação cultural (culpa do tempo que perco lendo gibis e ouvindo rock), sendo que pretendo corrigir o mais breve possível tal omissão. Dessa forma, faço esse breve comentário sobre a mais recente versão cinematográfica realizada por Roman Polanski a luz do próprio filme em si.

Dentro da cinematografia recente de Polanski, "Oliver Twist" não atinge os patamares de genialidade do horror virtuosista "O Último Portal" ou da frieza irônica de "O Pianista". Mesmo assim, é uma obra de peso no atual panorama cinematográfico, trazendo algumas das boas qualidades presentes nas obras mencionadas acima.

O que impressiona logo de cara é a magnífica reconstituição de época que Polanski oferece da Inglaterra vitoriana. A pobreza e a sujeira daquela época parecem quase palpáveis para o expectador, tamanha a obsessão estilística do diretor polonês na caracterização da ambientação. A Londres recriada no filme é opressora e sinistra, cheia de becos e esquinas que escondem o pior da maldade humana, compondo um cenário adequado para a saga do órfão Oliver Twist (Barney Clark). A câmera inquieta de Polanski registra a trajetória do protagonista com uma versatilidade admirável, indo de belos momentos intimistas como aquele em que Oliver é acudido no meio da estrada por uma velha senhora até seqüências de ação afiadas. Nesse último quesito, é de se destacar o momento em que o nosso herói foge de uma multidão que o acusa de ladrão, uma perseguição que revela um trabalho de edição fantástico.

Polanski também acerta na composição dos personagens e direção de elenco. A começar por Fagin, o velho trambiqueiro judeu que utiliza crianças em seus golpes, que recebe uma das melhores interpretações da carreira de Ben Kingsley (que parece estar no seu auge artístico, vide as suas atuações igualmente brilhantes em "Sexy Beast" e "Casa de Areia e Névoa"). A atuação de Kingsley é cheia de nuances: Fagin é francamente odioso e repulsivo ao explorar a sua gangue de trombadinhas, mas ao mesmo tempo é patético e desperta pena pela decadência em que vive. Outro destaque no elenco é Jamie Foreman, que faz de Bill Sykes um vilão devidamente assustador e violento, disposto até mesmo a assassinar crianças para reforçar o seu poder.

É de mencionar ainda que a caracterização elaborada por Polanski da gangue de trombadinhas e prostitutas juvenis liderada por Fagin é um capítulo a parte. Em nenhum momento conseguimos esquecer que dentro daquelas típicas roupas de escroques e dos vestidos e maquiagens vulgares há crianças. Essa junção de inocência perdida e sordidez traz um impacto visual perturbador.

Apesar da temática de "Oliver Twist" envolver questões como crianças abandonadas e criminalidade, por boa parte da duração do filme podemos sentir uma certa frieza e distaciamento emocional de Polanski ao retratar o verdadeiro calvário do protagonista, o que acaba sendo uma opção mais do que feliz do cineasta. Uma abordagem mais sentimental provavelmente tiraria muito do impacto que o filme tem. Tanto que Polanski reserva para o final de "Oliver Twist" o seu momento mais catártico, que é quando Oliver visita Fagin na prisão. O pedido de perdão e redenção do velho marginal impressiona justamente por contrariar ao espírito emocionalmente contido que permeia durante quase todo o filme.

É claro que "Oliver Twist" não pode ser considerado uma grande obra-prima de Roman Polanski. Contudo, reafirma o nome do cineasta como um dos grandes mestres cinematográficos da realidade, mostrando que ele mantém a mesma chama criativa de obras como "Chinatown" e "Repulsa ao Sexo".

segunda-feira, junho 26, 2006


Manderlay, de Lars Von Trier ****

Um dos maiores lugar comum que se costuma falar sobre "Manderlay", assim como "Dogville", é a de que o mesmo seria "teatro filmado". Ora, isso é uma tremenda besteira. O fato de Lars Von Trier utilizar como cenário um tablado com marcações de giz representando casas e sem maiores adereços não faz com que seu filme caia nessa armadilha. Muito pelo contrário. Os bem cuidados enquadramentos de câmera e edição de "Manderlay" são puramente cinematográficos, e mesmo a atuação naturalista do elenco nada tem de teatral. O cineasta dinamarquês não se limita também a apenas repetir a concepção de "Doville". Melhor ainda: em alguns aspectos "Manderlay" representa um passo além, tanto no estilo de filmar quanto na caracterização de personagens. Um exemplo disso é o sensacional plano de abertura, em que há uma tomada aérea de um mapa que cada vez mais se aproxima do chão até chegar ao grupo de gangsters liderado pelo pai da protagonista (William Dafoe). Aliás, a personagem Grace é ainda melhor delineada nesse episódio da trilogia de Trier, mostrando-se aspectos ainda mais complexos de sua personalidade. Nesse sentido, a atuação expressiva de Bryce Dalllas Howard colabora consideravelmente. Ela dá muito mais profundidade à personagem do que Nicole Kidman em "Dogville". Outro fator criativo fundamental em "Manderlay" é a abordagem oferecida sobre o racismo, mote central da trama. A visão oferecida por Trier é extremamente lúcida, ácida e cruel. Tanto que é conhecido o episódio em que vários atores negros americanos recusaram-se a participar do filme quando leram o roteiro nem um pouco politicamente correto do cineasta.

Todas essas virtudes fazem de “Manderlay” uma das experiências cinematográficas mais radicais e marcantes dos últimos e reafirmam o nome de Lars Von Trier como um dos cineastas de estilo e visão mais originais da atualidade.

domingo, junho 25, 2006


O Barco - Inferno no Mar, de Wolfgang Petersen ****

Dentro de uma carreira com filmes magníficos como “Inimigo Meu”, “A História Sem Fim” e “Na Linha de Fogo”, “O Barco – Inferno no Mar” representa o auge criativo do diretor alemão Wolfgang Petersen. É certamente um dos grandes filmes de guerra já realizados, e é um dos melhores filmes, junto com “A Cruz de Ferro” de Sam Peckinpah, a retratar a 2ª Guerra Mundial sob a perspectiva dos alemães. O que considero de mais fascinante nesse filme é que pelo menos 90% de sua longa duração (são três horas e meia na sua versão em DVD) se passa no espaço claustrofóbico de um submarino e mesmo assim Petersen consegue lhe dar uma agilidade narrativa impressionante, utilizando com precisão e criatividade o espaço da embarcação, tendo como resultado seqüências sensacionais de aventura e suspense. Aliás, nesse último quesito o cineasta consegue criar climas de tensão altamente angustiantes, quase como se fosse um Hitchcock dos filmes de guerra, principalmente nos momentos da trama em que o submarino entra em pane e chega ao fundo do mar. Fantástico também em “O Barco” é o fato de que Petersen realizou um brilhante trabalho de caracterização de personagens carismáticos e muito bem construídos, com destaque para o heróico e amargo Capitão (Jürgen Procnow) e o jornalista interpretado por Herbert Gronemeyer. Outro aspecto interessante no filme é a abordagem sobre a questão do nazismo. Não há em nenhum momento uma declaração expressa de algum personagem criticando o regime, mas a visão ácida sobre o regime nazista pode ser percebida de forma sutil no tom desiludido de alguns diálogos e na própria ambientação quando a trama se passa em terra firme na Alemanha, onde impera um clima de decadência e desesperança, o que acaba tendo um tom muito mais contundente do que obras como “A Queda”.

sábado, junho 24, 2006


Fome de Viver, de Tony Scott ***1/2:

Em sua obra de estréia, Tony Scott já trazia algo do estilo que o consagrou (ou o desgraçou, na opinião de alguns...), mas utilizado de forma mais contida. A fotografia em tons estourados e a edição frenética, herança clara dos seus tempos de diretor de comerciais, estão lá, só que utilizados de maneira parcimoniosa. A brilhante seqüência de abertura ilustra isso: cortes bruscos e muito bem realizados alternam simultaneamente a ação de “caça” do casal de vampiros em uma lúgubre discoteca (onde aparece a cultuada banda gótica Bauhaus tocando a clássica “Bela Lugosi is Dead”) e o momento em que os mesmos atacam as suas presas em seu belo e sofisticado apartamento. Aliás, é extremamente interessante como Tony Scott consegue conciliar climas e cenários elegantes com momentos de violência brutal explícita de puro mau gosto, com muito sangue espirrando e vampiros-zumbis, obtendo dessa forma um contraste fantástico. Contribui bastante também para esse estranho vampirismo-chic de “Fome de Viver” a atuação do casal protagonista. Catherine Deneuve parece ter nascido para o papel de vampira socialite, sendo que repete com precisão os mesmos trejeitos glaciais de sempre. Já David Bowie executa com perfeição o papel dele mesmo, só que com hábitos alimentares sanguinários e um pequeno problema de envelhecimento acelerado...

No geral, pode-se dizer que “Fome de Viver” é uma versão melhorada de alguns clássicos do gênero vampirismo erótico, como “Vampiras Lésbicas” de Jesus Franco e “Fascinação” de Jean Rollin. É olha que isso não é pouca coisa.

sexta-feira, junho 23, 2006


Um Coração Para Sonhar, de Pupi Avati ****

Pupi Avati é um diretor italiano que se tornou conhecido dentro do gênero horror (é dele o sensacional "The House With Laughing Windows", exibido ano passado no I Festival Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre). O fato de "Um Coração Para Sonhar" ser uma comédia dramática pode fazer supor que o cineasta esteja tentando se enquadrar dentro de um gênero mais "respeitável". Nada mais longe da verdade... O que torna essa obra magnífica é justamente o fato de Avati enquadrá-la na mesma lógica de seus filmes de terror: há em "Um Coração Para Sonhar" uma propensão para o exagero e até mesmo o grotesco. A dramaticidade operística, o comportamento e reação estabanados de seus personagens, a música fortemente emotiva de Ric Ortolani (e que em vários momentos remete o filme para "Morte em Veneza", de Visconti). Em todos esses elementos existe uma espécie de conceito para o excesso. Ao mesmo tempo, Avati sabe conciliar esse aspecto extremo de seu filme com uma admirável sensibilidade para retratar as relações humanas. Esse constrate entre o verossímel e o exagerado é que torna "Um Coração Para Sonhar" uma das obras mais impactantes exibidas recentemente nos cinemas.

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