sexta-feira, dezembro 22, 2006

O Fim e o Princípio, de Eduardo Coutinho ***1/2

Um dos maiores lugares comuns que se tem dito atualmente entre críticos e público em geral é que a produção de documentários no Brasil está em alta e que os mesmos têm tido uma média de qualidade muito mais elevada que os longas de ficção. Considero tal afirmação discutível. Boa parte dos filmes desse gênero que assisti nos últimos anos carece de maiores ousadias. Com algumas raras e boas exceções, os mesmos parecem obedecer a uma fórmula bem estabelecida: câmera sem maiores movimentos, na maioria com um enquadramento direto em alguma pessoa falando, e temática com algum fundo social relevante. E é isso que acho mais irritante: é como se o fato de discutir alguma mazela da nossa sociedade já desse para o filme legitimidade artística. Diante de um quadro como esse, é extremamente salutar assistir a uma obra como “O Fim e o Princípio”, de Eduardo Coutinho, o melhor cineasta documentarista brasileiro em atividade.

Mesmo não atingindo a perfeição de obras-primas anteriores de Coutinho como “Cabra Marcado Para Morrer” e “Edifício Máster”, essa produção de 2005 têm grandes momentos, mostrando que um documentário não é apenas um simples registro da “realidade”. O cineasta tem um senso estético apurado no filmar. Mesmo quando sua lente só foca uma pessoa falando, ele consegue obter enquadramentos que criam um clima adequado para os seus “personagens”, fazendo do próprio ambiente uma entidade que interage com o que está sendo dito. Isso fica evidente ainda mais quando Coutinho entrevista pessoas que mal conseguem articular alguma frase coerente: a maneira como a câmera enquadra tais indivíduos, aproveitando de forma magnífica a iluminação natural do sertão nordestino, torna o mutismo dos mesmos fortemente eloqüentes. E aí é que está talvez o grande mérito de Eduardo Coutinho: pegar um tema aparentemente árido em idéias (afinal, o que se ainda poderia falar sobre o tão decantado sertão nordestino e a pobreza de seus habitantes?) e dar um enfoque renovado e até mesmo bem-humorado, oferecendo a um grupo de pessoas que vivem praticamente no meio do nada uma dignidade quase épica.

2 comentários:

Fernanda Barros disse...

Olá, André! Obrigada por me passar o endereço do teu blog.... estou adorando.. bem, quero agora comentar um pouco sobre esse documentário "O Fim e o Princípio". Concordo quando vc diz q a crítica pode estar um pouco equivocada quando praticamente admite que os documentários estão em alta, na verdade, já é um lugar comum vermos por aí documentários com temas sociais... parece que os roteiros são feitos pela mesma pessoa...(risos). Mesmo assim concordo com vc, acredito que os documentários sao bem mais interessantes (de um modo geral), pois nao ficam apenas em historinhas intercaladas. "Eles" entram realmente na alma dos personagens e isso faz com que o espectador se identifique, se choque, se divirta e se emocione de uma forma mais viva, mais crua e por que nao dizer, mais real. Posts assim é q valem a pena, pois fazem a gente pensar.... valeu!!! Até mais.

André Kleinert disse...

Como eu disse no meu comentário, considero fundamental que haja uma preocupação com a concepção cinematográfica e com a própria visão original do cineasta num documentário. Senão, o filme será apenas um mero registro de realidade. Nesse sentido, os melhores documentários que assisti esse ano nos cinemas foram "o Homem Urso" e "Tarnation".