segunda-feira, outubro 23, 2017

Logan Lucky - Roubo em família, de Steven Soderbergh ***

Parece que aquela síntese entre os gêneros policial e ação envolvendo uma trama relacionada a grandes roubos e falcatruas afins é a praia favorita do diretor norte-americano Steven Soderbergh. “Logan Lucky – Roubo em família” (2017) é a sua mais nova incursão a esse estilo de filme, com uma estrutura narrativa que remete diretamente à franquia de “Onze homens e um segredo”, só que com adicional de cenários e personagens remeterem ao universo de caipiras sulistas. Se os filmes anteriores tinham uma atmosfera irônica e sequências de caráter cômico, “Logan Lucky” acentua ainda mais o caráter jocoso, com momentos que beiram a paródia. O roteiro é bem menos lapidado e a condução da narrativa em certo momentos evidencia uma certa frouxidão. Dá a impressão de que Soderbergh e elenco estavam mais a afim de se divertir fazendo o filme do que propriamente interessados em uma produção bem-acabada. Esse desleixo fica evidente na meia-hora inicial do longa, que cai com frequência na indulgência e na pura chatice. Mas é quando a trama começa a esboçar os preparativos para o grande assalto que é o mote principal do roteiro que a obra diz a que veio. Daí sim podemos sentir a habitual habilidade narrativa de Soderbergh de transformar clichês formais e temáticos em algo envolvente para o espectador. A encenação fica bem mais precisa, a montagem apresenta uma dinâmica sedutora, as atuações do elenco se configuram com mais nuances dramáticas e cômicas. De bônus, há uma interessante abordagem mista de sacanagem e carinho com os valores sulistas e uma sensacional trilha sonora cancioneira. Ou seja, no final das contas Soderbergh não entrega uma obra-prima na linha de “Irresistível paixão” (1998), mas ainda se mostra capaz de gerar um trabalho bastante divertido e memorável.

quinta-feira, outubro 19, 2017

Detroit em rebelião, de Kathryn Bigelow ***

A combinação parecia infalível: a diretora de “Guerra ao terror” (2008) e “A hora mais escura” (2012), obras antológicas na síntese de cinema de ação e realismo dramático, filmando uma revoltante história real envolvendo brutalidade policial durante conflitos raciais na Detroit de 1967. O resultado final de “Detroit em rebelião” (2017), entretanto, fica aquém das altas expectativas. A junção de elementos dos gêneros de thriller e drama de tribunal com alguns elementos de técnicas documentais, além da inserção de registros de arquivos da época, não soa tão orgânica. A diretora Kathryn Bigelow cai em alguns momentos numa encenação de tendências excessivamente melodramáticas e convencionais e mesmo a direção de arte soa um artificialismo estilizado incômodo. Tais ressalvas, entretanto, não implicam necessariamente em um mau filme. Pelo contrário – em suas quase duas horas e meia de duração, a produção consegue apresentar uma narrativa envolvente, ainda que sem maiores arroubos criativos. As longas sequências em que um grupo de policiais sádicos tortura psicológica e fisicamente um grupo de jovens negros num hotel apresentam uma tensão dramática quase palpável em seu detalhismo cênico, na sua atmosfera fatalista e na sua brutalidade gráfica explícita. Vale mencionar ainda a coerência sombria e melancólica da forma com que o roteiro se desenvolve, em que ao invés de se buscar conclusões moralizantes ou conciliadoras, evidencia-se uma visão crua e pessimista sobre a possibilidade de uma convivência racial pacífica nos Estados Unidos.

quarta-feira, outubro 18, 2017

Especialista em crise, de David Gordon Green **

O diretor norte-americano David Gordon Green não é exatamente um grande inovador em termos de linguagem cinematográfica. No melhor de sua filmografia, entretanto, mostrou-se como um cineasta de talhe clássico na elaboração de narrativas sóbrias, no formalismo preciso e em roteiros bem delineados. Assim, uma obra tão genérica e sem inspiração como “Especialista em crise” (2014) causa frustração. Em um primeiro momento, o longa-metragem em questão até parece promissor ao evidenciar uma trama que sugere uma crítica às hipocrisias do marketing político típico da sociedade ocidental, ao mostrar um duelo de dois consultores políticos dos Estados Unidos numa eleição de um país latino-americano fictício. Os desdobramentos do roteiro vão desbotando essa boa impressão ao apresentarem caracterizações simplórias e ingênuas de situações e personagens, sempre embalado por estética e narrativa preguiçosas e sem graça. Tal resultado final frustrante faz pensar que Gordon Green aceitou meio de má vontade um projeto de encomenda...

terça-feira, outubro 17, 2017

Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve **1/2

Se a continuação de um filme marcante só aparece 35 anos após o lançamento da obra original é de se presumir que tal “demora” seja justificada por um tremendo cuidado artístico em sua concepção e realização. Assistindo-se a “Blade Runner 2049” (2017), entretanto, não é essa a impressão que salta aos olhos. Há elementos na produção que realçam algo de diferente – a bela trilha sonora que sintetiza com bizarra harmonia melodias e dissonâncias, a direção de arte que concilia estilização e realismo sórdido, a fotografia de requintada sobriedade imagética e mesmo a composição dramática precisa de Ryan Gosling no papel do protagonista K/Joe. O problema é que a junção dessas partes não resulta em um todo convincente, principalmente pela narrativa irregular e por um roteiro que resvala por várias vezes no simplório. Se a obra-prima de 1982 dirigida por Ridley Scott foi um verdadeiro marco da ficção científica, ao juntar aspectos fundamentais e singulares do gênero mencionado com preceitos de cinema noir e influenciando uma série de filmes na linha futurista distópica ou apocalíptica, essa continuação dirigida por Denis Villeneuve mais parece um pálido derivativo dessas obras herdeiras do longa-metragem original. Não há aquela atmosfera enigmática, a ambientação algo imprecisa, os personagens ambíguos, a sensualidade insólita, as econômicas e antológicas sequências de brutalidade. O que fica em “Blade Runner 2049” é a necessidade contemporânea de amarrar todas as pontas da trama para deixar tudo mastigado para o espectador, as cenas de ação marcadas pelo banal tom apoteótico, os clichês mal ajambrados do roteiro, o tedioso tom solene da narrativa. Isso sem falar que a atuação de Harrison Ford mais faz lembrar um Han Solo aposentado e canastrão do que um Rick Deckard amadurecido e amargo.

segunda-feira, outubro 16, 2017

Quanto mais quente melhor, de Billy Wilder ****

Assim como vários outros clássicos norte-americanos da época do Star System dos grandes estúdios, “Quanto mais quente melhor” (1959) foi realizado com a intenção primeira de divertir as platéias, mais até do que se tornar uma obra de grande expressão cultural. Só que a genialidade do diretor Billy Wilder na concepção e execução da narrativa do filme teve também como resultado final um longa-metragem que pode ser considerado grande arte. Isso fica evidente em expressivos detalhes como um elegante formalismo baseado em sutis nuances imagéticas, encenação perfeitamente coreografada que sintetiza precisão e desenvoltura alucinada, roteiro engenhoso no desenvolvimento de hilários quiproquós e na elaboração dos sagazes diálogos e direção de atores que extrai atuações inesquecíveis de todo o elenco principal e de boa parte dos coadjuvantes. 

sexta-feira, outubro 13, 2017

Cícero Dias, o compadre de Picasso, de Vladimir Carvalho ***

Na filmografia de documentários do cineasta Vladimir Carvalho se pode perceber a busca por uma síntese narrativa-existencial a traçar a particular trajetória histórica-cultural do Brasil na exposição de eventos marcantes ou de figuras de relevo na história do país. Em seu longa-metragem mais recente, “Cícero Dias, o compadre de Picasso” (2016), o diretor mantém a sua habitual abordagem artística ao contar a história do pintor Cícero Dias. A obra não mostra maiores arroubos criativos e dramáticos, estando longe da força estética e temática de trabalhos antológicos como “Conterrâneos velhos de guerra” (1990) e “Rock Brasília – A era de ouro” (2011). Ainda assim, é um documentário acima da média na maneira envolvente e didática com que consegue conciliar os aspectos intimistas da vida do biografado com o contexto sócio-político-cultural que o cercava. Em tempos que a iniciativa de reacionários e fascistas em determinar o fechamento de exposições que desafiam o moralismo hipócrita e oportunista é vista como algo normal e louvável, é saudável assistir a uma obra que exalta a sensibilidade e a ousadia de um artista que buscou em sua atividade criativa transcender o óbvio e as concepções repressoras daquilo que é considerado “belo”.

segunda-feira, outubro 09, 2017

Polícia em poder da máfia, de John Hillcoat ***

Em alguns de seus filmes anteriores, o diretor australiano John Hillcoat se mostrou um criativo recriador do cinema de gênero, enveredando com resultados extraordinários pelo faroeste (“A proposta”), pela ficção científica (“A estrada”) e pelo policial de época na linha gangster (“Os infratores”). Assim, ao se saber que o seu projeto seguinte, “Polícia em poder da máfia” (2016), trilharia o gênero policial contemporâneo, as expectativas só poderiam ser altíssimas. O resultado, entretanto, ainda que competente, acaba soando frustrante. O elenco é carismático (ainda que Kate Winslet abuse da canastrice), algumas sequencias de ação são bem executadas e a narrativa é até envolvente, mas o filme está longe da marcante fúria sensorial e da estética mista de crueza casca grossa e requinte visual dos celebrados trabalhos pregressos de Hillcoat. Parece mais uma eficiente produção genérica de um diretor tarefeiro de Hollywood do que a obra de um cineasta de talento singular.

sexta-feira, outubro 06, 2017

De volta ao jogo, de David Leitch e Chad Stahlski ***1/2

Pelo menos em termos de blockbusters, o gênero do cinema de ação contemporâneo, com algumas honrosas exceções, dá a impressão que se converteu em um grande vídeo game genérico. Coreografias de lutas e perseguições dependem de recursos óbvios de efeitos digitais e câmeras lentas que por vezes beiram o estático, por outras se aproximam de vídeos publicitários. O resultado final de tais obras acaba sendo enfadonho, ainda que o espectador não consiga dormir devido à barulheira excessiva que predomina em tais narrativas. “De volta ao jogo” (2014) é uma obra que se coloca na contramão de tal tendência. Os diretores David Leitch e Chad Stahelski conseguem para o filme uma convincente síntese entre violência cartunesca e uma certa densidade dramática, sabendo dosar com precisão sequências brutais e cenas que valorizam diálogos e uma tensa interação psicológica entre os personagens. Com essa abordagem artística, de certa forma, até fazem lembrar alguns trabalhos clássicos do cineasta francês Jean Pierre Melville. A encenação é outro dos grandes trunfos de “De volta ao jogo” – pode-se perceber tantos nas sequências mais frenéticas quanto naquelas de caráter reflexivo uma atenção acurada em nuances imagéticas e na fluidez do movimento cênico. Nesse sentido, até dá para dizer que há algo de nostálgico nessa visão sobre o cinema de ação, fazendo lembrar alguns longas marcantes dos anos 80, mas sempre conseguindo evidenciar também um traço contemporâneo na concepção estético-temática da obra. E é claro que há o mérito inquestionável de conseguir extrair de um notório canastrão como Keanu Reeves uma forte e carismática atuação.

quinta-feira, outubro 05, 2017

Lamparina da aurora, de Frederico Machado **

Parece ser uma tendência no cinema contemporâneo filmes que procuram uma síntese entre o horror e o alegórico carregado de simbolismos, procurando subverter alguns dos principais preceitos do cinema de gênero. Nessa perspectiva, destacam-se obras memoráveis como “Quando eu era vivo” (2014), “A bruxa” (2015) e “Mãe” (2017). A produção brasileira “Lamparina da aurora” (2017) trilha por caminhos artísticos parecido, mas seu resultado final é bem frustrante. Roteiro e composição imagética até revelam ousadia na forma com que buscam uma narrativa atmosférica baseada em metáforas visuais e temáticas. Falta para tal narrativa, entretanto, ritmo e consistência para envolver o espectador no que deveria ser uma espécie de vórtice sensorial perturbador e desconcertante. Do jeito que ficou, o filme mais induz ao sono do que a uma tensão consistente.

quarta-feira, outubro 04, 2017

Kingsman: O círculo dourado, de Matthew Vaughn **

O escritor escocês Mark Millar é um nome fundamental para se entender não só o cenário dos quadrinhos contemporâneos como também a cada vez mais intensa relação que se estabelece entre as indústrias das HQs e do cinema. Millar é o roteirista de algumas das principais obras dos comics nos últimos 25 anos, além do fato de que boa parte dos títulos que fazem parte do seu selo Millarworld já recebeu versões para a tela grande – sem contar que os filmes dos Vingadores se baseiam em conceitos que Millar desenvolveu na série “Os supremos” (no caso, os Vingadores do alternativo universo Ultimate da Marvel). A franquia cinematográfica “Kingsman” é originária de uma minissérie da MIllarworld, com um detalhe a mais: esse “Kingsman: O círculo dourado” (2017) é uma continuação para os cinemas, mas que ainda nem se efetivou nos quadrinhos! A curiosidade de tais dados estatísticos e comerciais exemplificam como os quadrinhos se tornaram uma inesgotável fonte de estratégias de marketing e lucro para as grandes corporações midiáticas, mas, no final das contas, não são garantia de que o filme em questão será relevante como narrativa cinematográfica. E nesse último quesito, o longa-metragem dirigido por Matthew Vaughn deixa bastante a desejar. Para começar, os principais motes dramáticos da trama da obra original de Millar são explorados de maneira superficial. Se na minissérie havia uma certa ambiguidade na atmosfera e uma visão crítica sobre o dilema político do conflito segurança versus liberdade, tema esse recorrente nos quadrinhos de Millar, em “O círculo dourado” praticamente tais características se perdem em meio a uma concepção estética e textual bastante esquemática e superficial, com um roteiro que escancara um discurso sócio-político maniqueísta e conservador. Mesmo no quesito de aventura escapista o filme de Vaughn é frustrante, perdendo-se numa encenação e ritmo narrativo que mais remetem a um vídeo game genérico. Vaughn até procura dar uma certa credibilidade para a obra ao inserir algumas referências à cultura pop e um tom galhofeiro em algumas sequências, mas tudo isso acaba soando estéril ou forçado diante do convencionalismo inexpressivo das suas escolhas formais e do desenvolvimento do roteiro. E a sensação de decepção fica ainda mais reforçada quando vem à lembrança de que se trata do mesmo cineasta de trabalhos memoráveis como “Nem tudo é o que parece” (2004), “Kick ass” (2010) e “X-Men: Primeira classe” (2011).

terça-feira, outubro 03, 2017

Filha de ninguém, de Hong Sang-soo ***1/2

Há um detalhe narrativo em “Filha de ninguém” (2013) que sintetiza de maneira contundente as particulares concepções artísticas do diretor sul-coreano Hong Sang-soo – em algumas cenas do filme, o personagem do professor (Lee Sun-kyun) com o qual a protagonista Haewon (Jeong Eun-Chae) tem um caso fica ouvindo uma canção instrumental em um pequeno aparelho eletrônico, com tal áudio sendo reproduzido diretamente em cena, sem truques de edição de som. O que poderia parecer um recurso que beira o amadorismo na verdade tem um efeito estético e dramático bastante desconcertante. Por toda a narrativa do longa predomina essa noção de desconstrução formal que oscila entre o estranhamento e o encantador que se mostra em notável sintonia com o roteiro que evidencia um universo que abarca com naturalidade a realidade, o onírico, banalidades do cotidiano e noções de parábola moral. Nesse sentido, para Hong Sang-soo não parece haver muitas diferenciações entre as caracterizações de uma abordagem naturalista e de uma estilização que evoque o delirante, com tais planos de realidade se misturando como se fosse um registro único entre o documental e o caseiro. Dentro dessa singular linguagem cinematográfica também entra uma encenação marcada pela fluidez e por insólitas nuances cômicas (a sequência em que Haewon e seu referido amante encontram por acaso seus colegas de faculdade em um restaurante, por exemplo, é antológica em sua dinâmica e ironia). Assim, ao invés de apelar para óbvios arroubos de virtuosismo técnico ou de grandes viradas dramáticas em sua trama, “Filha de ninguém” conquista pela lenta e hipnótica sedução do espectador ao propor um despojado e original conjunto existencial-formal.

segunda-feira, outubro 02, 2017

Psiconautas - As crianças esquecidas, de Pedro Rivero e Alverto Vásquez ****

Na animação “A crise carnívora” (2007), o diretor espanhol Pedro Rivero investia numa equação narrativa insólita baseada em grafismo sujo, humor negro, violência, escatologia e alegoria política. Voltando ao gênero animação em “Psiconautas – As crianças esquecidas” (2015), Rivero, junto ao quadrinista Alberto Vásquez, refina a estética e a temática de seu trabalho anterior e entrega uma obra memorável. O roteiro combina de maneira natural e poética aventura pós apocalíptica, uma visão sombria sobre a dependência química e simbolismos diversos, sempre sob uma perspectiva humanista e complexa. No desenvolvimento e resolução da trama, não há espaço para o simples maniqueísmo ou moralismo fáceis, havendo uma exposição crua e amarga das hipocrisias e preconceitos típicos da sociedade ocidental contemporânea. Rivero e Vásquez investem num formalismo personalíssimo – ao invés da perfeição realista ou da estilização padrão de boa parte das animações dos grandes estúdios, há a valorização de um traço de bizarra beleza pictórica, repleta de nuances imagéticas plenas de lirismo e sagacidade. Repare-se, por exemplo, na figura do protagonista Birdboy, cuja caracterização visual remete a uma estranha síntese de pássaro e criatura gótica. Aliás, a própria concepção dos personagens do filme reflete as ideias desconcertantes de “Psiconautas”, em que aparentemente “fofinhos” seres antropomorfizados são inseridos em situações e cenários desoladores e sórdidos. No conjunto geral das escolhas artísticas da produção, fica a impressão de um contundente trabalho a evidenciar um mundo se desagregando em meio a um cenário de obscurantismo místico e exploração econômica, reflexo não muito distante de nossa realidade.

sexta-feira, setembro 29, 2017

Bellini e o demônio, de Marcelo Galvão *

É de se elogiar a pretensão do diretor Marcelo Galvão pela concepção do que deveria ter sido “Bellini e o demônio” (2008), algo como uma releitura abrasileirada do misto de cinema noir e horror sobrenatural do clássico “Coração satânico” (1987), com direito ainda a toques da estética metafísica-delirante de David Lynch. As bem sacadas referências da obra, entretanto, não encontram uma execução à altura de suas intenções artísticas. O filme padece de uma narrativa trôpega e encenação vacilante, além da canastrice irremediável do elenco e do roteiro estapafúrdio. Diante de tais equívocos formais e temáticos, o resultado final é de uma ruindade constrangedora que por vezes acaba caindo na comicidade involuntária – no final das contas, isso até faz com que assistir ao filme de Galvão até seja uma experiência divertida!

quinta-feira, setembro 28, 2017

Joe, de David Gordon Green ***

No melhor de sua filmografia, o diretor norte-americano David Gordon Green se mostrou um inspirado reciclador de preceitos narrativos clássicos de gêneros como o melodrama (“Prova de amor”), policial (“Contra corrente”) e comédia (“Segurando as pontas”). “Joe” (2013) não está no mesmo nível artístico das obras mencionadas, mas ainda assim é uma obra eficiente como drama no estilo realista. O roteiro cai em alguns recursos óbvios em termos de estruturação de situações e personagens, o que é compensado pelo vigor da encenação concebida por Green. Além disso, há alguns detalhes que dão um realce diferenciado para a produção, como a sombria trilha sonora e as sóbrias composições dramáticas do elenco – nesse último quesito, Nicolas Cage surpreende por sair daqueles registros entre a preguiça e o exagero de boa parte de suas recentes atuações.

quarta-feira, setembro 27, 2017

Zoolander 2, de Ben Stiller **1/2

Pode-se dizer que a trajetória de Ben Stiller como cineasta é bem mais interessante do que na função de ator. Se interpretando ele se mantém dentro de uma linha linear entre dramas realistas e previsíveis comédias “família”, com algumas exceções, quando assume a direção os rumos artísticos que toma são mais ousados, vide o humor delirante de obras memoráveis como “Zoolander” (2001) e “Trovão tropical” (2008). Dentro desse contexto, “Zoolander 2” (2016) acaba parecendo bem frustrante em seu resultado final. Stiller requenta piadas e maneirismos do primeiro filme, por vezes até acaba obtendo algumas sequências memoráveis em termos de comicidade nonsense, mas está bem longe daquela antológica atmosfera alucinada de seus melhores longas. 

terça-feira, setembro 26, 2017

Mãe!, de Darren Aronofsky ***1/2

Quem for assistir a “Mãe!” (2017) achando que se trata de um filme de terror tradicional vai dar com os burros n’água. O filme do diretor Darren Aronofsky está mais para uma equação bizarra: imagine alguma obra típica de Lars Von Trier, como “Anticristo” (2009) ou “Melancolia” (2011), refilmada por James Cameron. O resultado dessa combinação aparentemente improvável pode não ser exatamente uma obra-prima, mas ainda assim é um trabalho perturbador e fascinante em seus exageros de encenação e na sua intrincada simbologia. Ao contrário de “O lutador” (2008) e “Cisne negro” (2010), longas anteriores de Aronofsky marcados por uma narrativa mais equilibrada e concepção estética mais sutil, “Mãe!” se aproxima dos delírios barrocos e do ritmo narrativo irregular de “Fonte da vida” (2006). Tal opção artística do cineasta não é gratuita ou acidental, pois o que o diretor faz é jogar o espectador direto na mente caótica e fervilhante de ideias e concepções megalomaníacas de um escritor (Javier Barden) para fazer um cortante retrato existencial sobre o patriarcalismo e opressão religiosa na sociedade ocidental. O contraponto que se estabelece entre o protagonista e sua esposa (Jennifer Lawrence) se manifesta num primeiro momento como de caráter intimista e aos poucos vai ganhando contornos cada vez mais épicos e complexos, com o roteiro recheando várias sequências com metáforas visuais e mesmo textuais desconcertantes que transformam “Mãe!” em uma sombria parábola moral que se conecta com uma linhagem recente de filmes como “A bruxa” (2015) e “O ornitólogo” (2016) que questionam de maneira ácida a pérfida e indissociável relação entre obscurantismo religioso e os mecanismos de dominação político-social.

sexta-feira, setembro 22, 2017

It - A coisa, de Andy Muschietti ***

A figura do escritor Stephen King não se restringe apenas ao âmbito literário. O alcance de sua obra se estendeu a outras mídias, fazendo com que o autor se configurasse numa espécie de universo cultural próprio, tornando-se uma referência no imaginário popular ocidental, principalmente no que diz respeito na caracterização das referências estéticas e temáticas dos anos 80, época em que alguns dos seus principais livros e filmes baseados em seus originais foram lançados. Nesse sentido, a nova versão cinematográfica de “It – A coisa” (2017), um de seus livros mais conhecidos, é um exemplar expressivo dessa síntese entre King e anos 80. O filme do diretor Andy Muschietti evoca na sua estrutura narrativa e no seu roteiro uma combinação da exaltação da amizade na adolescência de “Conta comigo” (1986), da aventura juvenil escapista de “Goonies” (1985) e do terror sobrenatural explícito da franquia oitentista “A hora do pesadelo”. Ou seja, pura nostalgia divertida reciclada com os efeitos especiais contemporâneos. Dentro de tal concepção, é uma obra que até surpreende por doses de violência gráfica maiores que o habitual nesse tipo de produção, por vezes beirando até o escatológico. A trama evoca em determinadas passagens questões espinhosas como racismo, pedofilia, incesto e opressão religiosa, mas sempre de forma mais sutil, com a narrativa privilegiando a ação e o grafismo sangrento. Tal direcionamento acaba fazendo com que “It” resvale por vezes no convencionalismo excessivo, quando justamente as melhores passagens da obra estão naquelas sequências que valorizam um horror mais atmosférico e perturbador que se relaciona com os segredos e medos obscuros de uma cidadezinha interiorana típica do “american way of life”.

quinta-feira, setembro 21, 2017

Feito na América, de Doug Liman ***

Pelo menos em termos da concepção e realização de seus filmes, dá para dizer que o diretor Doug Liman é um grande admirador da obra de Martin Scorsese. “Swingers” (1996), um de seus primeiros longas e talvez o seu melhor trabalho como cineasta, fazia uma explícita homenagem à “Os bons companheiros” (1990), uma das mais expressivas obras-primas de Scorsese, na sequência em que um grupo de amigos atravessava as portas de serviços de um restaurante para demonstrar o seu poder de influência. Em “Feito na América” (2017), recente produção dirigida por Liman, essa aproximação com a aludida influência se mostra novamente evidente. Roteiro e estrutura narrativa remetem diretamente a filmes como “Os bons companheiros” e “O lobo de Wall Street” (2013) – tramas baseadas em histórias reais mostrando as conturbadas trajetórias pessoais de protagonistas que atingiram grandes picos de riqueza econômica ao transitarem em um tênue limite entre a livre-iniciativa e a franca bandidagem, em abordagens que trazem em seu subtexto uma visão crítica e irônica sobre a relação intrínseca entre capitalismo e ilicitudes. No caso da obra de Liman, a biografia do piloto de avião Barry Seal (Tom Cruise), misto de agente da CIA e traficante de drogas, também traz à tona segredos obscuros da política internacional dos Estados Unidos na era Reagan. Liman não tem o mesmo nível artístico de Scorsese, que transformou seus citados filmes em vertiginosas viagens sensoriais sobre a ambição humana e degradação ética – Liman é mais tradicionalista e previsível na condução de sua narrativa. Ainda assim, “Feito na América” tem momentos memoráveis, principalmente nas sequências de ação e na boa caracterização de Cruise no papel principal. Aliás, em termos de ação cinematográfica, não há como não fazer uma outra associação com Scorsese na obra em questão nas divertidas cenas em que Seal aterrissa seu avião no meio de uma cidadezinha do interior, evocando uma cena parecida em “O aviador” (2004).

terça-feira, setembro 19, 2017

Cauby - Começaria tudo outra vez, de Nelson Hoineff ***

A partir do surgimento da bossa nova no final dos anos 50, a música brasileira sofreu um processo de polarização que perdura até hoje, em que em uma visão simplificadora e reducionista, e por isso mesmo equivocada, foi estabelecida uma divisão entre aquilo que é considerado “de qualidade” e outro que é determinado como “brega”. O cantor Cauby Peixoto, que surgiu alguns anos antes da bossa nova, foi um artista que, diante de tal concepção restritiva, encontrou dificuldades em ser catalogado. Dessa forma, sua importância e talento, localizados numa insólita área entre o popular e o sofisticado, nunca tiveram um reconhecimento mais amplo por público e crítica. Esse dilema existencial-artístico é captado com notável sensibilidade e perspicácia pelo diretor Nelson Hoineff no documentário “Cauby – Começaria tudo outra vez” (2013). Na concepção narrativa do longa, a vida pessoal e a trajetória profissional do biografado se entrelaçam de maneira indissolúvel como uma coisa só – o estilo misto de técnica impecável e exageros maneiristas de Cauby se relaciona com sua personalidade sedutoramente ambígua. O roteiro passeia com naturalidade e conhecimento de causa tanto pelos “causos” e fofocas que marcaram a biografia de Cauby, sem parecer apelativo ou gratuito, como pela sua evolução como intérprete. Nesse último aspecto, sintetiza exemplarmente detalhes e singularidades de seus principais discos e canções, realçando a beleza atemporal da arte do cantor para admiradores de primeira hora e neófitos.


No conjunto geral, a visão do documentário sobre o seu protagonista traz em seu subtexto uma espécie de radiografia da alma popular do brasileiro, com todas as suas grandezas e contradições, coisa que Hoineff já havia feito também com muitos acertos em “Alô, alô, Terezinha!” (2009).

segunda-feira, setembro 18, 2017

As duas Irenes, de Fábio Meira ***

Os dois longas-metragens que mais ganharam prêmios e chamaram à atenção na edição de 2017 do Festival de Gramado, “Como nossos pais” e “As duas Irenes”, têm em comum o fato de que as premissas básicas de sua trama versam sobre a oprimida condição feminina perante uma sociedade patriarcal, além dos seus respectivos subtextos também indicarem possibilidades de reação diante desse quadro. Se no primeiro filme há elementos temáticos de modernidade que acabam se perdendo por vezes em uma narrativa que caem em alguns apelativos truques melodramáticos, na obra dirigida por Fábio Meira a abordagem artística-existencial se mostra mais sóbria e universal. O acabamento formal da produção é tradicional e não mostra grandes arroubos estéticos, mas a edição e fotografia formam um conjunto narrativo de ritmo sereno, quase contemplativo, que se mostra em perfeita sintonia com o espírito de sutil e ácida contestação presente no roteiro. A encenação valoriza a síntese de vigor e delicadeza nas composições dramáticas das duas garotas protagonistas, além de realçar os aspectos contraditórios da figura paterna dominadora e carismática de Tonico (Marco Ricca). Em alguns momentos, Meira até brinca com alguns clichês narrativos, como se insinuasse um caminho mais previsível e conciliador para a trama do filme. Em seu terço final, entretanto, “As duas Irenes” se direciona para caminhos mais libertários e questionadores, com uma conclusão que evoca um desconcertante misto de desafio e ironia.

sexta-feira, setembro 15, 2017

Billi Pig, de José Eduardo Belmonte *

A intenção do diretor José Eduardo Belmonte é até louvável em “Billi Pig” (2011) – reciclar o gênero comédia na linha pastelão/chanchada sob uma perspectiva autoral e com forte viés sócio-cultural. De certa forma, é o que ele fez posteriormente dentro do gênero policial com o sofrível “Alemão” (2013), logrando resultado artístico semelhante. Falta para o filme uma maior convicção na execução de sua proposta. A encenação não tem fluência, o elenco se perde em desempenhos caricaturais e o roteiro trabalha clichês sem maiores inspirações. No conjunto geral, trata-se de uma obra bem distante dos melhores momentos de Belmonte como cineasta, vide trabalhos memoráveis como “A concepção” (2005) e “Se nada mais der certo” (2008).

quinta-feira, setembro 14, 2017

Como nossos pais, de Laís Bodanzky **1/2

De todos os meios de expressão artístico-cultural, a música popular é aquele formato que melhor traduziu as alegrias, mazelas, dilemas e contradições da nação brasileira, ou seja, a alma de um povo. Há um infindável número de artistas expressivos e canções antológicas que formaram esse rico panorama histórico e existencial. Dentro desse contexto, dois nomes que certamente se destacam é Belchior e Jorge Mautner. O primeiro na articulação de um cancioneiro marcado pela rebeldia estética-comportamental em boa parte de seus temas, o segundo pela configuração de uma síntese de musicalidade e poesia que une filosofia libertária, lirismo desconcertante e a fusão insólita entre o erudito e o popular. Assim, a presença de Belchior e Mautner dentro da concepção do longa “Como nossos pais” (2017) não é gratuita. É como se a diretora Laís Bodanzky quisesse transpor o ideário artístico de tais figuras para o subtexto de seu filme. Para isso, há uma premissa básica até bastante engenhosa na sua trama: ao anunciar para a filha Rosa (Maria Ribeiro) que essa na verdade é filha de outro homem e de que também estaria com câncer terminal, a personagem Clarice (Clarisse Abumjara) pretende detonar um processo de mudança na vida de Rosa para que ela saia de um limbo marcado pelo marasmo profissional e pessoal. Ocorre, entretanto, que iniciado tal processo, ele foge do controle dos padrões desejados por Clarice – Maria passa a questionar todos os aspectos que regem a sua vida, principalmente no que diz respeito aos seus relacionamentos pessoais. O que era para ser um pequeno ajuste dentro de um ordenamento pequeno-burguês, acaba caindo num mergulho no caos. Se tal pretensão temática pode até soar radical, na prática as coisas não são bem assim. O maior equívoco de Bodansky é que por vezes a produção cai numa formatação narrativa previsível e formulaica, quase como se fosse um manual dos sofrimentos da mulher moderna. Em termos sociológicos, isso pode até funcionar, no sentido de fazer com que a plateia masculina crie uma empatia com o universo feminino (ainda que restrito dentro de um padrão classe média). Como cinema, entretanto, o resultado final é falho porque o formalismo da obra se mostra conservador diante da proposta libertária do seu subtexto. A presença xamânica de Mautner no elenco é prova desse problema de abordagem estética de “Como nossos pais” – sempre que está em cena, ele rouba atenção justamente porque sua composição dramática foge do previsível e do linear. Aliás, em termos de atuações, justiça seja feita, a interpretação de Maria Ribeiro também é de se destacar pela fúria e vigor que expressa. No mais, “Como nossos pais”, a canção de Belchior evocada pelo título do filme, é um tema que versa sobre amargura e irresignação diante da capitulação final perante a ordem pequeno-burguesa, e não uma ode ao conformismo geracional conforme sugere a sequência em que a música é tocada ao piano. Mas ainda que o longa de Bodansky seja equivocado em boa parte de suas soluções narrativas, é de se louvar a inquietude criativa de suas intenções, o que fica bem evidente na contundência das suas sequências finais.

quarta-feira, setembro 13, 2017

O reencontro, de Martin Provost **1/2

Se em “Violette” (2013) o diretor francês Martin Provost conseguiu estabelecer uma narrativa marcada pelo classicismo sóbrio para contar uma história real que refletia de forma vigorosa alguns dos principais dilemas e conflitos artísticos-existenciais do século XX, em “O reencontro” (2017) ele envereda pelo gênero do melodrama de maneira bem menos contundente. A trama de caráter intimista até evoca um certo viés sócio-político no retrato de uma sociedade europeia cada vez mais desumanizada e vinculada a um regime sócio-econômico excludente e individualista. Por outro lado, Provost se rende a truques sentimentais um tanto apelativos e a soluções narrativas bastante formulaicas, ainda que a sua encenação guarde uma interessante síntese entre rigor e naturalidade. Além disso, há boas atuações em seu elenco, principalmente no trio protagonista vivido por Catherine Deneuve, Catherine Frot e Olivier Gourmet. Mas faltou para o filme aquela crueza formal cortante e o humanismo sem concessões que tornam as produções dos irmãos Dardenne, por exemplo, tão memoráveis dentro dessa linhagem de obras sócio-intimistas.

terça-feira, setembro 12, 2017

Uma mulher fantástica, de Sebastián Lelio ***

O diretor chileno Sebastián Lelio já havia demonstrado competente domínio narrativo para o drama intimista em “Gloria” (2013). Em “Uma mulher fantástica” (2017), ele até amplia o seu direcionamento artístico, combinando uma temática repleta de questões tabus e uma abordagem estética que transita com notável desenvoltura entre o realismo sóbrio e sutis elementos fantásticos. Dentro de tal abordagem, sequências que tinham tudo para cair no sentimentalismo excessivo ou mesmo na polêmica gratuita acabam demonstrando uma densidade dramática perturbadora, além de revelarem uma forte riqueza simbólica na caracterização de personagens e situações. Lelio sempre contrapõe no roteiro do filme uma delicada visão de mundo libertária e humanista a uma postura repressora e hipócrita de manutenção de valores patriarcais – nesse processo, por vezes sua obra cai em um certo maniqueísmo, principalmente no que diz respeito a uma encenação que remete ao caricatural quando entra em cena aqueles personagens de índole preconceituosa. Ainda assim, pode-se dizer que geralmente as ações moralistas na vida real têm uma carga de ridículo e caricatural (vide a patética e reacionária postura de direitistas fascistas no recente fechamento de uma exposição de temática “queer” no Santander Cultural em Porto Alegre). Nesse contexto, “Uma mulher fantástica” ganha ainda mais ressonância artística e existencial diante os conflitos sócio-políticos-culturais típicos da sociedade contemporânea.

segunda-feira, setembro 11, 2017

A minha grande noite, de Álex de la Iglesia ***

O diretor espanhol Álex de la Iglesia conseguiu atingir um feito para o cinema contemporâneo que é de estabelecer um estilo artístico indelével, algo como se fosse uma síntese improvável entre aquelas atmosferas bagaceiras e sórdidas típicas das primeiras produções de Pedro Almodovar com o barroquismo distorcido que remete a algumas das obras mais delirantes de Fellini. Nesse sentido, os primeiros momentos de “A minha grande noite” (2015) são bastante promissores, em que as habituais brutalidade cartunesca e comicidade escrota embalam um roteiro que versa sobre a vulgaridade e hipocrisia da mídia e o caos social-econômico da sociedade ocidental contemporânea. Com o desenrolar da narrativa, entretanto, as boas expectativas não se cumprem em sua totalidade, principalmente pelo fato que não fica aquela impressão de que Iglesia tenha levado tudo às últimas consequências, coisa que ele já tinha realizado com propriedade em intensas obras como “O dia da besta” (1995), “Muertos de risa” (1999) e “Balada do amor e do ódio” (2010). Por vezes, o longa se entrega a algumas facilidades formais e temáticas, sugerindo quase uma amena comédia romântica. É claro que há bons momentos, principalmente pelo humor beirando o surrealismo de algumas sequências e pelas grotescas caracterizações dos personagens, além das ótimas cenas envolvendo alucinadas e perturbadoras batalhas campais entre policiais e manifestantes desempregados. Ainda assim, na conclusão de “A minha grande noite” fica a constatação que Iglesia perdeu a chance de entregar um trabalho antológico e contundente sobre os conturbados tempos que vivemos.

sexta-feira, setembro 08, 2017

O novato,de Roger Donaldson **1/2

Não dá para chegar ao exagero de dizer que o australiano Roger Donaldson seja um diretor que deixe marcante um traço autoral em seus trabalhos. Ele está mais para um competente “tarefeiro” dos grandes estúdios de Hollywood que de vez em quando acaba apresentando obras acima da média (“Sem saída”, “13 dias que abalaram o mundo”, “Efeito dominó”). “O novato” (2003) não se enquadra entre os momentos de maior brilho artístico de Donaldson. Sua narrativa e formalismo até fazem com que o espectador acompanhe o longa com algum interesse, mas a obviedade das soluções do roteiro, a canastrice preguiçosa do elenco e a falta de uma tensão dramática mais convincente configuram um filme que é fácil de ver e também de esquecer.

quarta-feira, setembro 06, 2017

Atômica, de David Leitch ***1/2

O diretor David Leitch é uma avis rara no panorama cinematográfico contemporâneo – é um cineasta que conseguiu imprimir um traço autoral trabalhando dentro do gênero do cinema de ação. Os longas “De volta ao jogo” (2014) e “John Wick – Um novo dia para matar” (2017) estabeleceram um estilo personalíssimo baseado em uma narrativa estilizada, roteiro baseado numa insólita síntese entre tensão dramática e brutalidade cartunesca e sequências de ação coreografadas com requinte e fluência em tiroteios, perseguições automobilísticas e inúmeros confrontos físicos. Tal abordagem artística é retomada na obra mais recente de Leitch, “Atômica” (2017), com um resultado final notável. O fato da trama se desenvolver na Berlin do final dos anos 80, nos últimos dias do famigerado muro que separava os lados oriental e ocidental, faz com que o diretor se sinta à vontade em colocar em prática as suas obsessões estéticas. O trabalho de composição imagética e de reconstituição de época formam um conjunto audiovisual que mais se vincula a recriação de um imaginário do que à reconstituição realista. Os anos 80 representaram o período final da paranoia nuclear estimulada pela Guerra Fria, e um dos grandes méritos de “Atômica” é justamente realçar com sutileza e criatividade esse clima de suspense e fragilidade existencial de um mundo que sempre parece no limite de uma queda inexorável. Essa ambientação sombria e sórdida se mostra em perfeita sintonia com uma trama repleta de reviravoltas e personagens ambíguos. Os elementos típicos da época são inseridos com naturalidade e sensibilidade, o que se verifica no trabalho de direção de arte que alterna sobriedade e delírio e na forma com que clássicas canções rockers e eletrônicas da época se inserem na narrativa. A conclusão do filme, muito inclinada para clichês habituais e forçados de filme de espionagem, até acaba soando um tanto frustrante. Ainda assim, “Atômica” consegue se manter como um trabalho memorável e reforça o nome de Leitch como um dos grandes nomes do cinema dessa década.

terça-feira, setembro 05, 2017

Sexta-feira em apuros, de F. Gary Gray **

A ascensão artística do diretor Spike Lee nos anos 80 marcou também o renascimento do cinema negro norte-americano. Ao contrário do panorama setentista blaxploitation, mais voltado para uma revisão radical do cinema de gênero, esse novo cenário se concentrou em dramas e comédias de formato mais tradicional que abordavam em suas respectivas temáticas, em maior ou menor grau, questões sociais inerentes à população negra nos Estados Unidos. Foi justamente nesse contexto que apareceu “Sexta-feira em apuros” (1995), produção cômica que trazia em sua narrativa elementos-chaves para aquela cultura: roteiro que apresenta situações cotidianas nos bairros de predominância black, trilha sonora recheada de hip-hop, uma atmosfera lúdica movida a maconha e piadas sexistas. E no meio de tal concepção artística bastante vinculada à diversão escapista, havia rasgos de crítica social sobre criminalidade, preconceito racial e opressão estatal. A junção de todos esses aspectos estéticos e temáticos por vezes soava um tanto forçada, ficando evidente uma encenação ingênua e truncada, além de um roteiro esquemático em demasia. Ainda assim, é uma obra que acaba tendo um inesperado encanto pelo tom nostálgico de ser o retrato de uma época. E é curioso saber que o diretor F. Gary Gray décadas depois foi o responsável pela vigorosa cinebiografia “Straight Outta Compton – A história do N.W.A.” (2015), longa que contou a história da banda do cantor e ator Ice Cube, que interpretou o papel de protagonista em “Sexta-feira em apuros”.

segunda-feira, setembro 04, 2017

Um instante de amor, de Nicole Garcia ***

O título em português e o cartaz de “Um instante de amor” (2016) podem sugerir aqueles rotineiros e mofados melodramas exacerbados típicos de uma certa linguagem previsível de produções francesas de “qualidade”. Na prática, entretanto, ainda que o filme dirigido por Nicole Garcia tenha uma narrativa marcada por um classicismo acentuado, existem determinados fatores artísticos no longa que o afastam do estigma da irrelevância. Por trás de uma trama que valoriza elementos característicos dos melodramas românticos, há também uma arguta e sutil visão crítica sobre como a concepção de amor romântico pode ser opressor e alienante paras os indivíduos. Tal direcionamento existencial se vale de um engenhoso jogo de simbologias, além de uma abordagem emocional bastante sóbria e de uma atmosfera mista de ironia e morbidez. A caracterização de personagens e situações é muito bem delineada – nesse sentido, é fascinante como a construção dos três principais personagens da história se inter-relacionam com notável e fluida coerência, servindo como metáfora precisa do espectro sócio-político-cultural da Europa da primeira metade do século XX. Mesma o aparente tom novelesco do filme guarda em sua essência uma melancólica e resignada constatação sobre as relações humanas dentro de um contexto de hipócrita idealização romântica e preconceito social.

sexta-feira, setembro 01, 2017

Cheech e Chong atacam novamente, de Tommy Chong ***

Não é preciso estar exatamente chapado para apreciar “Cheech e Chong atacam novamente” (1980). É até provável que estando em um estado de consciência alterado algumas pessoas poderão curtir a “viagem” melhor, mas a verdade é que o filme foge dos padrões comportados do que seria considerado “aceitável” em termos de uma comédia norte-americana comercial contemporânea. Dentro da concepção artística da obra, elementos temáticos e estéticos vão sendo jogados na narrativa de uma maneira que beira o aleatório – encenação por vezes beirando o mambembe, paródia de ficção científica, comicidade que sintetiza ingenuidade e escrotidão. Dentro de tal concepção narrativa que simula amadorismo há uma certa coerência artística-existencial que joga o espectador em uma espécie de universo paralelo movido à maconha e a um muito particular senso de humor. No cômputo geral, uma produção deliciosamente anacrônica de estranho encanto.

quinta-feira, agosto 31, 2017

Hara-Kiri: A morte de um samurai, de Takashi Miike ****

Em um primeiro momento, pode parecer uma tremenda heresia fazer um remake de uma obra-prima monumental como o “Harakiri” (1962) de Masaki Kobayashi. Seria, realmente, se a refilmagem em questão estivesse nas mãos de um qualquer, mas quando o responsável é um Takashi Miike inspirado o risco acaba valendo à pena. Em termos de roteiro, “Hara-Kiri: A morte de um samurai” (2011) não acrescenta muito ao original de décadas atrás. A sua força está na encenação e narrativa de tremendo rigor artístico de Miike, bem como naquela atmosfera sutilmente demente que é característica no melhor da filmografia do cineasta. A beleza imagética, a forte densidade dramática e o humanismo pungente da trama compõem uma obra memorável que se equivale a outro expressivo de trabalho de Miike no campo das releituras, o insano “13 assassinos” (2010).

quarta-feira, agosto 30, 2017

Anabelle 2 - A criação do mal, de David F. Sandberg **1/2

A franquia “Invocação do mal” e os filmes derivados com a boneca Anabelle têm uma certa coerência artística e temática, propondo-se a uma atualização dos principais clichês narrativos do gênero horror, principalmente dentro de uma fórmula acessível para o grande público em que o roteiro evoca no seu âmago a proteção dos valores familiares diante de ameaças satânicas e o formalismo se baseia em uma concepção mais limpa em termos visuais – claro que há os momentos de violências e trucagens explícitas de monstros e efeitos sobrenaturais, mas nada também que ofenda ou traumatize o gosto das plateias. O fato das tramas se passarem em um determinado período entre os anos 60 e 70 faz também com que a estética das produções se aventure dentro de uma discreta abordagem retrô. Dentro de tal abordagem do gênero, o ponto alto foi "Invocação do mal 2” (2016), onde todos esses elementos adquiriam uma harmonia narrativa mais coesa e eficiente. Em “Anabelle 2 – A criação do mal” (2017), a fórmula já começa a apresentar alguns desgastes. Há alguns aspectos que se mostram promissores, principalmente na questão do roteiro centralizar boa parte das ações dentro de um grupos de garotas órfãs, que oscilam de idade entre a infância e a adolescência, fazendo com que o subtexto da história guarde algumas sacadas interessantes relativas a ritos de passagem e sexualidade feminina. Tais pontos existenciais, entretanto, são apenas tangenciados diante da necessidade comercial de se atender aos preceitos mais previsíveis do gênero. O mecanismo de sustos do filme por vezes consegue criar alguma tensão e impacto para o espectador, mas nada que chegue a ser especialmente memorável. Falta para a produção dirigida por David F. Sandberg sutileza e ousadia na construção de uma atmosfera de mistério, pois sempre fica patente a necessidade de não deixar pontas soltas e fazer ligações protocolares com os roteiros dos demais filmes da franquia.

terça-feira, agosto 29, 2017

Julho-agosto, de Diastème **

A conjunção cinema francês e juventude sempre vai despertar algum tipo de atenção. Partindo de obras clássicas como “Zero de comportamento” (1933) e “Os incompreendidos” (1959) e chegando a obras mais recentes memoráveis como “O verão do Skylab” (2011), a filmografia da França sempre contou com filmes que trouxeram um retrato vigoroso e poético sobre a temática relacionada ao universo de crianças e adolescentes. Dentro da riqueza desse contexto histórico-artístico, uma obra como “Julho-agosto” (2016) acaba soando bastante frustrante. A sequência inicial até parece indicar algo de promissor ao mostrar a adolescente Laura (Luna Lou) incendiando a caixa de correspondência da própria casa e depois saindo para fumar. A boa impressão inicial vai se desfazendo, entretanto, com o desenrolar da narrativa, com o diretor Diastème se contentando com uma encenação pouco imaginativa e um roteiro esquemático, previsível e conservador. Faltou para o cineasta mais ousadia estética e temática para entregar um trabalho capaz de causar alguma tensão ou atrito para o espectador. Dentro dessa concepção artística meia-boca, salva-se apenas a atuação marcada por alguma crueza da jovem Luna Lou.

segunda-feira, agosto 28, 2017

Corpo elétrico, de Marcelo Caetano ***1/2

A presença de Hilton Lacerda, diretor de “Tatuagem” (2013), na elaboração do roteiro de “Corpo elétrico” (2017) não é gratuita, assim como o fato do diretor Marcelo Caetano ter participado em produções como “Boi neon” (2015), “Mão só há uma” (2016), “Aquarius” (2016) e o próprio “Tatuagem”. Seu longa-metragem de estreia como cineasta se coloca numa certa tradição recente das obras mencionadas, combinando temática e encenação de caráter libertário e estética criativa e de feroz coerência artística. Por vezes, a ambição do filme no seu retrato-manifesto existencial esbarra em algumas soluções óbvias do roteiro, principalmente na sequência em que o protagonista Elias (Kelner Macêdo) é assediado moralmente por seu chefe para não se misturar com seus colegas subordinados. Mas tal equívoco é apenas um detalhe menor, pois o que predomina na narrativa é um formalismo desconcertante, que se alterna de maneira fluida entre o rigor realista e atmosferas hedonistas que beiram o delirante. A naturalidade e rigor com que tal concepção artística é colocada em prática geram alguns momentos antológicos, como o plano-sequência em que Elias e amigos descem uma rua e desenvolvem uma interação cênica repleta de nuances dramáticas-cômicas ou as cenas em que uma gangue de drags tocam o horror nas ruas e em boates. Além disso, as despudoradas cenas de sexo são filmadas dentro de uma síntese de fúria e lirismo, enquanto a sequência de encenação do casamento de um casal proletário repleto da junção de signos ritualísticos de diversas religiões e culturas traz uma atordoante carga simbólica de contestação sócio-política. Coroando tais escolhas artísticas ousadas, há uma poética conclusão da trama que se mostra em sensível e contundente sintonia com o belo discurso temático-estético de “Corpo elétrico”.

sexta-feira, agosto 25, 2017

Os campos voltarão, de Ermanno Olmi ***1/2

O diretor italiano Ermanno Olmi atinge um feito memorável na produção “Os campos voltarão” (2014) ao obter uma síntese insólita e pungente entre poesia e brutalidade. O retrato que oferece de uma frente de batalha na I Guerra Mundial em um primeiro momento impressiona pela sua crueza realista em termos de recriação imagética – fotografia e direção de arte valorizam uma composição visual marcada pela sujeira e por uma atmosfera sombria, ainda que por vezes faça um contraste perturbador com a beleza das paisagens interioranas onde o conflito se desenvolve. Aliás, esse pendor para ressaltar nuances de um ambiente agrário remete diretamente ao grande clássico da filmografia de Olmi, “A árvore dos tamancos” (1978), de onde também se assemelha em um certo teor de beatitude de algumas passagens do roteiro. Nesse ponto, reside o grande ponto de transcendência artística do filme, onde a perspectiva principal da narrativa se encontra na rotina melancólica e desesperada de um grupo de soldados italianos em uma trincheira violentamente acossada pelos inimigos germânicos. A obra capta com sensibilidade detalhes existenciais contundentes, como a resignação fatalista de soldados e praças oriundos das camadas mais pobres da sociedade até a alienação e perplexidade de seus oficiais. Olmi consegue conciliar com maestria essa profunda abordagem intimista a uma dinâmica de ação típica do gênero filme de guerra. Nesse sentido, os ataques finais dos morteiros alemães impressionam pelo sensorialismo devastador de sua encenação.

quinta-feira, agosto 24, 2017

Rifle, de Davi Pretto ***1/2

Se em “Castanha” (2014) o diretor Davi Pretto focava o seu olhar sobre um sombrio cenário urbano de Porto Alegre, em “Rifle” (2016) volta sua câmera para um ambiente rural contemporâneo. Não se trata, entretanto, de uma revisão óbvia de um desgastado cinema “regional” típico de uma ala das produções gaúchas contemporâneas. Na produção em questão, alguns preceitos típicos do gênero faroeste recebem uma releitura radical e peculiar e se entrelaçam com os elementos de forte teor social do subtexto do roteiro. Em uma descrição mais simbólica, é como se a estrutura narrativa clássica estabelecida em “Os brutos também amam” (1953) fosse perpassada pelo viés melancólico e naturalista do conceito do “gaúcho à pé” firmado na obra literária concebida por Cyro Martins. Assim, o que está em pauta não é uma visão idealizada e idílica daquele interiorano puro e corajoso, discutível mito tão valorizado em comemorações “farroupilhas” e afins, mas sim o sujeito humilde inserido num contexto sócio-econômico de exploração e abandono. Ainda que tomado por esse caráter de crítica social, a perspectiva do roteiro foge de maniqueísmos e outras simplificações – a revolta e fúria do protagonista Dione diante do assédio inclemente de um grande latifundiário é difusa e desordenada, fruto de uma alienação incontornável, fazendo com que seus atos de brutalidade soem patéticos e pouco eficazes. Dentro desse complexo panorama existencial, as escolhas estéticas e narrativas de Davi Pretto são desconcertantes, em que um classicismo imagético que evoca o cinema de grandes paisagens de John Ford se une com naturalidade a uma encenação vigorosa e precisa herdada do neo-realismo italiano. Nesse último aspecto, é extraordinário o trabalho de direção dos atores amadores, em que a força das composições dramáticas do elenco está justamente na veracidade de suas caracterizações (a forma truncada como falam configura um quase dialeto em que a riqueza do sentido está dentro do contexto daquilo que falam e não nos conceitos previsíveis de dicção e clareza). No mais, Preto pontua “Rifle” com detalhes narrativos expressivos como a sóbria e expressiva trilha sonora baseada em drones sonoros e na bela homenagem que faz ao clássico “Targets – Na mira da morte” (1968) na sequência em que Dione sai atirando a esmo em veículos que transitam solitários em estradas pampeanas.

quarta-feira, agosto 23, 2017

Valerian e a cidade dos mil planetas, de Luc Besson ***

Depois de enveredar pela ficção-científica pós-moderna metida à besta de “Lucy” (2014), o diretor francês Luc Besson muda o seu foco artístico e busca uma concepção mais clássica do mesmo gênero em “Valerian e a cidade dos mil planetas” (2017). Tanto que o roteiro se baseia numa série de HQs dos anos 60. O resultado final é bem divertido e, por vezes, até ousado na sua estética que combina atmosfera retrô e trucagens digitais na linha estabelecida por “Avatar” (2009). Alguns cânones temáticos da ficção científicas são ordenados com coerência e sensibilidade por Besson, principalmente no confronto que se estabelece dos princípios idealizados de uma sociedade futurista avançada na sua síntese de tecnologia de ponta e princípios humanistas com a realidade de uma distopia marcada pela injustiça social e pela violência. É claro que tal visão existencial se estabelece como sutil subtexto em meio a uma típica narrativa de aventura que por vezes beira o frenético, mas também é o mote que dá a convincente tensão dramática para a obra. Os efeitos especiais não chegam a ser algo tão chamativo em termos de originalidade. Em conjunto, entretanto, com o criativo trabalho de direção de arte acabam gerando uma concepção imagética memorável. Besson também mostra um forte domínio da ação cinematográfica, fazendo lembrar aquele cineasta que nos legou o antológico policial casca-grossa “O profissional” (1994). Nesse sentido, estão entre os melhores momentos de “Valerian” a sequência em que o protagonista (Dane DeHaan) e sua parceira Laureline (Cara Delevingne) entram numa perseguição alucinada em meio a um mercado que oscila entre os planos dimensionais real e virtual e aquela em que o personagem principal corre alucinado pela tal cidade dos mil planetas atravessando paredes, pulando prédios e outras demências.

terça-feira, agosto 22, 2017

Planeta dos macacos: A guerra, de Matt Reeves ***1/2

Depois do melodrama excessivo de “Planeta dos macacos: A revolta” (2014), o diretor Matt Reeves arruma a casa e faz com que a franquia retome um rumo mais convincente e divertido em “Planeta dos macacos: A guerra” (2017). Ainda que a trama apresente os seus momentos sentimentais, o roteiro consegue fazer uma síntese eficiente entre a aventura e as implicações morais da história. Logo no início do filme, já é apresentada uma memorável sequência de batalha envolvendo símios e humanos, aproximando novamente a série daquela atmosfera casca-grossa das clássicas produções de décadas atrás da franquia. Reeves conseguiu desenvolver de maneira inspirada os preceitos básicos do gênero aventura fantástica pos-apocalítptica – a caracterização imagética é impactante, os principais personagens apresentam efetivas nuances psicológicas (com destaque para o atormentado protagonista César e seu antagonista humano Coronel), as sequências de ação são coreografadas com detalhismo e fúria. E mesmo o subtexto do roteiro apresenta elementos surpreendentes na visão de contundente acidez crítica na exposição sem atenuantes do militarismo obtuso e desumano da sociedade ocidental, bem como à intolerância em relação àquilo que é considerado diferente. Nesse sentido, a figura dos macacos em fuga à procura de um lugar em que possam viver em paz tanto se conecta as passagens bíblicas quanto aos episódios recentes de refugiados da África e Ásia que são perseguidos por questões políticas e religiosas e são tratados com desdém desumano pelos povos ocidentais. Poucos blockbusters nos últimos anos tiveram a ousadia de fazer tal reflexão.

segunda-feira, agosto 21, 2017

Saint Amour - Na rota do vinho, de Benoit Delépine e Gustave Kervern **1/2

Em sua concepção artística-narrativa, “Saint Amour – Na rota do vinho” (2016) apresenta uma intrigante conjunção de preceitos formais e temáticos, misturando estética realista, atmosfera libertária, traços de comicidade ingênua, crítica social e truques sentimentais. Tal receita é até simpática por vezes, rendendo momentos genuinamente engraçados e outros desconcertantes. Predomina, entretanto, uma percepção de uma obra que avança em sua narrativa de maneira desajeitada, faltando um rigor mais consistente na direção de Benoit Delépine e Gustave Kervern. Se houvesse um maior controle na junção de tais elementos tão diversos talvez o impacto sensorial e textual da obra fosse bem maior para o espectador.

sexta-feira, agosto 18, 2017

O estranho que nós amamos, de Sofia Coppola **1/2

Em seus dois primeiros filmes, “Virgens suicidas” (1999) e “Encontros e desencontros” (2003), a diretora norte-americana Sofia Coppola delineou uma assinatura artística de sutileza autoral, em que um certo classicismo de filmar se aliava a discretos elementos modernizantes – nesse último aspecto, pode-se dizer que havia a utilização de aspectos de uma cultura indie, partindo de um olhar existencial de caráter feminino e se aproveitando de signos pop contemporâneos, principalmente na forma com que se utilizava de canções da trindade rock-pop-eletrônico. Posteriormente, essa receita narrativa se diluiu e banalizou de maneira considerável, ainda que a cineasta tenha mostrado um amadurecimento no acabamento formal de seus filmes (ainda que isso implicasse na perda da espontaneidade criativa de suas duas mencionadas obras iniciais). “O estranho que nós amamos” (2017) se encaixa justamente no caso de seus trabalhos mais recentes. Pode-se perceber uma sofisticação em sua arquitetura estética, além de sua abordagem emocional mostrar uma considerável sobriedade. E é claro que ela tinha todo o direito de oferecer uma nova perspectiva criativa para a obra literária original que também serviu de base para o filme de 1971 de Don Siegel. O problema, no entanto, é que no inevitável embate de comparação entre os dois trabalhos a balança pende de maneira ostensiva para o clássico setentista. Falta para a produção recente o vigor narrativo e a irônica atmosfera de ambiguidade que tornaram “O estranho que nós amamos” de Siegel uma produção referencial. Assim, a nova visão de Coppola acaba soando irrelevante por não acrescentar algo de novo para uma história que em sua versão cinematográfica anterior já havia recebido um tratamento artístico definitivo.

quinta-feira, agosto 17, 2017

O culto a JT Leroy, de Marjorie Sturm ***

A história do escritor fake JT Leroy já é fascinante por si só em todas as suas circunstâncias que envolvem questões artísticas e picaretagens editoriais. Nesse sentido, o documentário “O culto a JT Leroy” (2014) impressiona pela quantidade de informações e cenas de arquivo que focam toda a saga de ascensão, apogeu e queda do seu protagonista, com a diretora Marjorie Sturm conseguindo conciliar tais elementos em uma narrativa tensa, sombria e algo irônica. Trata-se de uma obra que também tem o mérito de conseguir captar muito bem o espírito de uma época no que diz respeito a uma síntese perturbadora de vazio existencial, culto a celebridades e a visão romantizada da decadência. Além disso, Sturm consegue construir um sofisticado subtexto a partir de sutis nuances narrativas – é de se reparar que a trama se estrutura por vezes quase como uma trama policial ou detetivesca, realçando a revolta de artistas e fãs com os desdobramentos da farsa que envolvia Leroy, mas em pequenos detalhes fica evidente uma exposição crua e impiedosa de um meio editorial marcado pelo machismo e elitismo que propicia toda uma teia de mentiras e enganos.

quarta-feira, agosto 16, 2017

Dunkirk, de Christopher Nolan ***1/2

Um dos aspectos mais interessantes na carreira do diretor Christopher Nolan é a forma como conseguiu desenvolver e manter um certo padrão autoral em grandes produções dos estúdios norte-americanos. Esse seu traço artístico peculiar se aplica até para alguns dos equívocos estéticos que são recorrentes em suas obras, principalmente no que diz respeito a uma certa assepsia visual. Em “Dunkirk” (2017), seu filme mais recente, tal incômodo persiste – para um filme de 2ª Guerra Mundial repleto de violência brutal, chega a ser estranho a ausência de sangue e uma “limpeza” na caracterização de personagens e situações. Por outro lado, daria para dizer que isso se vincula a uma concepção de narrativa que se liga muito mais à recriação de um imaginário do conflito do que ao desejo de uma reconstrução mais realista de fatos históricos – é de reparar, por exemplo, nas ótimas interpretações no estilo icônico de Tom Hardy e Mark Rylance. Ou seja, aquilo que era para ser um “erro” acaba adquirindo um sentido estético-temático e se torna uma condição estilística de efetiva coerência. É fato também que outros aspectos pertinentes do estilo de Nolan também ficam evidentes em “Dunkirk”, principalmente no que diz respeito a uma encenação precisa e a fluidez do ritmo narrativo. Dentro de tais preceitos formais, Nolan consegue realizar um feito admirável ao articular com que lugares comuns do roteiro ligados a patriotismo e sentimentalismos adquiram uma dimensão mais ampla e complexa, em que as ações relacionadas à retirada de tropas francesas e inglesas sob inclemente ataque alemão se mostram como uma intensa luta pela sobrevivência sob uma perturbadora atmosfera de pesadelo. Nesse sentido, uma das grandes sacadas narrativas de Nolan está no uso do som ambiental e dos temas musicais da trilha sonora, que se entrelaçam de maneira orgânica e insólita, resultando em algumas sequências de angustiante tensão dramática.

terça-feira, agosto 15, 2017

Monsieur & madame Adelman, de Nicolas Bedos **1/2

É difícil não lembrar de “Cenas de um casamento” (1973) ao se assistir a “Monsieur & Madame Adelman” (2017). Em ambos os filmes, roteiro e estrutura narrativa se baseiam na exposição dos fatos mais relevantes e emblemáticos na história de um casamento, passando por uma gama considerável de situações, sentimentos e sensações inerentes a esse tipo de relacionamento amoroso. Nas duas obras há também o desejo de se afastar das idealizações romantizadas que geralmente produções no gênero costumam cair, com enfoques, dessa maneira, que buscam uma certa crueza realista em sua abordagem artística-existencial. Outro ponto em comum é que nas produções mencionadas há o questionamento do papel da mulher dentro do matrimônio diante de um contexto sócio-cultural ocidental que ainda guarda fortes traços machistas e patriarcais. Feitas essas aproximações, cabe deixar uma coisa bem clara – por mais que se simpatize com algumas escolhas criativas da produção francesa dirigida por Nicolas Bedos, ela ainda se encontra a milhas de distância da obra-prima concebida por Ingmar Bergman. Algumas passagens do roteiro até surpreendem pela sua síntese de ironia divertida e nuances dramáticas inquietantes, mas a encenação por vezes previsível, o didatismo primário na caracterização do ambiente histórico e a queda excessiva para o convencionalismo formal atenuam muito o impacto sensorial de “Monsieur & madame Adelman”, ao contrário do rigor estético e da cruel (e muito humana) dissecação filosófica-emocional de um casamento arquitetados no perturbador filme de Bergman.

segunda-feira, agosto 14, 2017

O filme da minha vida, de Selton Mello *

Na função de diretor, Selton Mello se mostrou um nome promissor em seus dois primeiros longas-metragens, “Feliz natal” (2008) e “O palhaço” (2011), obras que, ainda que mostrassem alguns tropeços em suas respectivas narrativas, evidenciavam um vigor admirável na reciclagem de clichês formais e temáticos inerentes aos gêneros melodrama e comédia, na encenação equilibrada entre o sutil e o rascante e no belo trabalho de direção de elenco. Dentro desse contexto pregresso, a produção mais recente de Mello como cineasta, “O filme da minha vida” (2017), é uma expressiva decepção artística. Se nos mencionados filmes anteriores se podia perceber um considerável caráter desafiador no conjunto estético-existencial, agora Mello se mostra de maneira escancarada com a intenção de se adequar a moldes mofados e despersonalizados de concepção narrativa, como se procurasse uma linguagem mais “acessível” para buscar a aceitação comercial de um público maior. Na busca de tal intento, articulou uma fórmula medíocre e sem graça de “contar uma história”, algo como a assepsia audiovisual de uma minissérie global somada ao sentimentalismo óbvio e barato de produções “de qualidade” como “Cinema Paradiso” (1988) e “O carteiro e o poeta” (1994) – não é à toa que o roteiro se baseou na obra literária original de Antonio Skarmeta, mesmo escritor de “O carteiro e o poeta”. Diante de tais escolhas artísticas, não adianta contar com Walter Carvalho como diretor de fotografia se enquadramentos e iluminação vão emular um traço imagético de cartão postal ou ter alguns nomes interessantes no elenco se todos eles vão afundar com a mãe pesada de Mello na encenação. Isso sem falar no constrangedor caráter machista de algumas passagens do roteiro que vêm travestidas de humanismo e sensibilidade. Há de se convir, entretanto, que “O filme da minha vida” acaba traduzindo com fidelidade o espírito do nosso tempo nesse reacionário Brasil pós-golpe em que vivemos – seu mercantilismo conservador disfarçado de “qualidade artística” é sintomático da hipocrisia e moralismo obtusos que grassam em nossa sociedade.

sexta-feira, agosto 11, 2017

O ninho, de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon **1/2

Em termos conceituais, a produção gaúcha “O ninho” (2016) se mostra bastante inquietante. Sua abordagem da temática LGBT foge bastante de estereótipos e obviedades – é claro que no roteiro perpassa a questão do preconceito, mas os diretores Filipe Matzembacher e Márcio Reolon buscam também um enfoque contundente que sintetiza uma narrativa de ritmo sereno e sequências pontuais de violência catártica. Ou seja, é uma obra de caráter desafiador tanto pelo lado formal quanto pelo aspecto existencial. Nesse sentido, talvez o grande acerto artístico seja a forma como os diretores conduzem as intepretações de seu elenco, principalmente a ala “não profissional” dos garotos que formam um grupo “anarco-queer”. São atuações espontâneas, vigorosas, e que aliadas a uma caracterização visual de forte presença cênica acabam rendendo algumas das sequências mais memoráveis da produção. Outro destaque positivo é a forma como Porto Alegre é retratada: nesse conjunto de hotéis e apartamentos algo decrépitos, de desolado cenários externos noturnos e de hedonistas e obscuras boates gays, é como se despontasse uma capital gaúcha de um perturbador e atraente universo paralelo. O problema de “O ninho” é que todas essas boas ideias e sacadas estéticas-temáticas, por vezes, não encontram uma narrativa equilibrada e envolvente. É como se seus realizadores se perdessem em alguns momentos no seu fascínio por esse universo e privilegiassem um olhar excessivamente fetichista.

quinta-feira, agosto 10, 2017

Em ritmo de fuga, de Edgar Wright ****

Assim como em “De canção em canção” (2016), o rock and roll não é exatamente o tema principal de “Em ritmo de fuga” (2016), mas os dois, estilo musical e filme, acabam apresentando um coerente paralelo existencial tal havia ocorrido também no trabalho mencionado de Terrence Malick. Tal relação se estabelece não apenas pelo fato da produção dirigida por Edgar Wright usar como elemento essencial da narrativa várias canções do tripé rock-pop-soul, mas também por um peculiar conceito artístico. Nesse sentido, é preciso ter em mente que o rock and roll entendido como fenômeno sociológico comportamental é algo que hoje em dia é de influência nula. Em termos musicais, ele pode até ter uma ascendência e mesmo assim se restringindo a um âmbito mais subterrâneo ou a pequenos nichos. Mas no sentido de se relacionar com as principais questões culturais e sociais do mundo contemporâneo, o rock não tem a mesma relevância de anos atrás, como aconteceu, por exemplo, com a sua ligação com a contracultura dos anos 60 ou com o niilismo e alienação da década de 90. Resumindo: o rock and roll hoje em dia é um artigo nostálgico de museu, congelado no tempo. Ou seja, perfeitamente de acordo com a estética retrô trabalhada por Wright em “Em ritmo de fuga”. No roteiro e na atmosfera de tal obra, há uma queda pela reconstituição de um imaginário particular, uma espécie de síntese sensorial dos preceitos básicos dos filmes de gangsteres e de jovens rebeldes, tudo embalado por temas musicais rockers. Longe da mera reciclagem, o que Wright faz é combinar tais referências em uma linguagem cinematográfica bastante ousada e dinâmica, em que o ritmo da narrativa se liga a intensidade rítmica e melódica de cada canção que surge em cena. Isso fica evidente logo de cara na sensacional sequência de abertura, em que cada passo de um assalto e da consequente perseguição automobilista parece determinado pela evolução da agitada e sinuosa “Bellbottoms” de Jon Spencer Blues Explosion. Como já havia mostrado de maneira contundente em filmes anteriores antológicos como “Todo mundo quase morto” (2004), “Chumbo grosso” (2007) e “Scott Pilgrim contra o mundo” (2010), Wright demonstra em “Em ritmo de fuga” um domínio expressivo da ação cinematográfica, vide sequências de perseguições e tiroteiros marcadas por coreografias ricas em detalhes e precisão cênicas, além de incorporar com sensibilidade e inteligência em diálogos e nuances imagéticas uma gama incrível de referências culturais.

quarta-feira, agosto 09, 2017

O sonho de Greta, de Rosemary Myers *1/2

Ter influências artísticas na concepção de uma obra não é algo errado por si só. O problema é como tais influências são utilizadas. Em “O sonho de Greta” (2015), dá para perceber referências claras à encenação anti-naturalista típica de Wes Anderson, à estilização visual habitual de Tim Burton e ao onirismo característico de David Lynch. Na pretensão conceitual da diretora Rosemary Myers provavelmente estava o desejo de misturar tais influências com uma narrativa a versar sobro o rito de passagem da infância para a adolescência para a protagonista Greta (Belthany Whitmore) com todos os desdobramentos emocionais inerentes a tal mudança. O problema é que Myers não consegue dar uma fluência narrativa para tal ambição artística-existencial, vide uma encenação engessada, um formalismo pouco inspirado e um roteiro nada sutil que joga sem cerimônia o seu subtexto na cara do espectador (por vezes, dá a impressão de que o filme parece ser uma produção institucional a ser exibida em escolas). Mesmo elementos que poderiam trazer algum fator diferencial para o trabalho de Myers, como as citações setentistas da direção de arte e uma certa atmosfera sombria, acabam soando mais como forçadas tentativas de parecer cool do que propriamente como fatores criativos que se inserem de maneira orgânica e coerente na narrativa.