terça-feira, abril 25, 2017

As falsas confidências, de Luc Bondy **

Adaptação para o cinema de uma peça teatral, “As falsas confidências” (2016) não resolve de maneira satisfatória a conexão entre os dois meios de expressão artística. As intenções estéticas do diretor Luc Bondy até são ousadas, principalmente por apostar numa encenação e numa atmosfera que busca um caráter mais libertário e que se afaste do mero realismo, dando para a produção um interessante elemento fora do tempo e do espaço. Além disso, o elenco conta com algumas atuações expressivas e carismáticas. Falta para o filme, entretanto, um maior rigor na sua condução narrativa no sentido de conseguir gerar alguma tensão e interesse para o espectador. Os fatos se sucedem na tela dentro de uma síntese formal-temática amorfa e banal, impressão essa acentuada por um roteiro excessivamente frívolo e previsível.

segunda-feira, abril 24, 2017

John From, de João Nicolau ***1/2

A analogia pode soar forçada e simplista para alguns, mas a produção portuguesa “John From” (2015) faz pensar na hipótese bastante imaginária de que alguma produção clássica oitentista dirigida por John Hughes fosse refilmada sob a batuta surrealista de Luis Buñuel. Em um primeiro momento, a concepção estética-temática dessa produção do cineasta João Nicolau se vincula a um estilo realista, ao retratar o cotidiano da adolescente Rita (Júlia Palha) marcado pelos dilemas e delícias inerentes à sua idade. A partir do momento em que a personagem se descobre apaixonada pelo vizinho mais velho, de forma progressiva elementos de cinema fantástico vão se inserindo de maneira sutil na narrativa. É como se o imaginário da garota se tornasse a principal perspectiva daquilo ao que o espectador assiste. Nesse sentido, signos do mundo contemporâneo se misturam a referências passadistas com uma naturalidade insólita e encantadora, além de nuances do roteiro que poderiam soar estapafúrdias acabam adquirindo uma estranha e coerente lógica. Nesse sentido, a obsessão com fatos históricos e povos exóticos que permeiam a trama aludem ao conturbado passado colonialista de Portugal. Dentro desse particular ideário artístico-existencial, é um dado fundamental de “John From” a ambígua encenação encadeada por Nicolau, que se vale de uma fascinante síntese entre o libertário e o solene.

quinta-feira, abril 20, 2017

Martírio, de Vincent Carelli ****

Se em “Corumbiara” (2009), obra anterior do diretor Vincent Carelli, a narrativa convencional e apenas correta não acompanhava a contundência de sua temática, em “Martírio” (2016) esse descompasso desaparece, tendo por resultado uma obra inquietante e muito bem resolvida em termos estéticos e existenciais. E isso fica evidente logo nas primeiras sequências do filme, em que o brilhante jogo de edição contrapõe o discurso preconceituoso de políticos e da mídia oficial em relação à questão indígena com a realidade desoladora dos nativos. Tal engenhoso recurso narrativo também serve para estabelecer como o trabalho de Carelli transcende a simples reportagem informativa, deixando claro que o gênero do documentário cinematográfico tem como uma de suas funções principais oferecer uma perspectiva humanista e artística que vai além da abordagem jornalística “imparcial” da grande imprensa. Para o diretor, não basta que a sua obra se limite a uma descrição cronológica e minuciosa de fatos – na verdade, o que ele se propõe é jogar o espectador dentro de uma perturbadora jornada histórica e sensorial sobre a trajetória de sistemática dizimação física e cultural de povos indígenas no Brasil a partir do relato das experiências traumáticas sofridas pelo grupo Guarani Kaiowá. Para isso, Carelli constrói uma narrativa que se vale de recursos variados (relato histórico, registro etnográfico, depoimentos, filmagens amadoras, farto material de arquivo audiovisual, perspectiva emocional e intimista) e lhes dá uma unidade artística admirável e também desconcertante, pois se há momentos de intensa melancolia, principalmente nas entrevistas com os indígenas a descreverem seus calvários, e até mesmo assustadores (com destaque para as falas hipócritas de latifundiários e políticos), há também sequências em “Martírio” que trazem um comovente encanto pelo dimensão cultural de rezas e danças nos rituais indígenas.

quarta-feira, abril 19, 2017

Virei um gato, de Barry Sonnelfeld **

O cineasta norte-americano Barry Sonnelfed nunca chegou a ser propriamente um diretor de traço autoral próprio, mas dentro do seu padrão convencional e comercial foi responsável por algumas produções memoráveis e divertidas como “A família Addams 2” (1993) e “O nome do jogo” (1995). Dessa forma, “Virei um gato” (2016) traz uma certa impressão de decepção. Não que a sua premissa de roteiro seja especialmente promissora ou original, mas o tratamento formal e a narrativa concebidos por Sonnelfed são tão genéricos e destituídos de vigor criativo que mais faz pensar de que se trata de uma obra de um tarefeiro qualquer de Hollywood do que o trabalho de um profissional veterano e com algum talento. Por vezes, dá até para dar umas risadas com a cretinice de algumas situações da trama, mas a impressão final é de que se trata de muito pouco para alguém como Sonnelfeld.

terça-feira, abril 18, 2017

Cães selvagens, de Paul Schrader ***1/2

Não é muito frequente que um filme de Paul Schrader apareça nos cinemas brasileiros. E dá para entender o motivo – sua carreira como diretor é errática e imprevisível, ainda que tenha uma quantidade considerável de obras memoráveis. “Cães selvagens” (2016) é uma demonstração enfática do caráter conturbado da arte de Schrader. Ao invés das rigorosas narrativas bressorianas de “O gigolô americano” (1980) e “O acompanhante” (2007), nessa produção mais recente o cineasta envereda por uma concepção mais anárquica e delirante, como se quisesse evocar uma longa trip alucinada movida a cocaína e crack. Ainda assim, seu direcionamento estético nunca perde a coerência existencial e um forte traço autoral – ainda que se abuse de truques gráficos e de uma direção de fotografia de cores estouradas, além de uma barulhenta trilha sonora baseada em temas rock e eletrônico, paira sobre a narrativa e a atmosfera do filme um certo classicismo que impede que tudo caia na mera estilização estéril. Mesmo o tom over das atuações do elenco, com destaque para a interpretação extraordinária de Willem Dafoe, consegue se enquadrar de maneira precisa dentro do conceito ambíguo da obra. As escolhas formais de Schrader acentuam com sensibilidade e humor o tom misto de melancolia e sordidez do roteiro, que faz um retrato vigoroso e irônico da rotina de marginais e perdedores. Nesse sentido, as sequências finais de “Cães selvagens” são exemplares na forma com que sintetizam o particular ideário-artístico e temático arquitetado pelo diretor e também por evidenciarem a moral difusa e hipócrita do “american way of life”.

segunda-feira, abril 17, 2017

Souvenir, de Bavo Defume ***

Por debaixo das aparentes frivolidades e breguices de “Souvenir” (2016) há um interessante exercício de estética e ironia por parte do diretor Bavo Defume. A produção recicla clichês de melodramas e musicais, com direito a citações e referências diretas a clássicos do gênero, e os recria num contexto artístico de certa originalidade. Direção de arte e fotografia evocam uma insólita atmosfera entre o realista e o camp, fazendo lembrar algumas obras marcantes de Jacques Demy, principalmente “Os guarda-chuvas do amor” (1964). A própria atuação de Isabelle Huppert no papel da protagonista Liliane, alternando sobriedade e exagero nas doses certas, se mostra em sintonia com essa proposta estética e formal de Defume.

quinta-feira, abril 13, 2017

Paraíso, de Andrei Konchalovsky **1/2

O diretor russo Andrei Konchalovsky tem uma filmografia marcada por um rigoroso academicismo narrativo. Dentro dessa opção artística, sua carreira não apresenta grandes arroubos criativos, ainda que seja um competente artesão cinematográfico e por vezes tenha apresentado algumas obras memoráveis como “Os amantes de Maria” (1984) e “Gente diferente” (1987). Sua produção mais recente, “Paraíso” (2016), versa sobre a perseguição a judeus na 2ª Guerra Mundial e, em um primeiro momento, até sugere algumas ousadias estéticas, principalmente nas sequências em que evoca técnicas documentais, onde os principais personagens falam diretamente com a câmera. Tais recursos, entretanto, aos poucos vão se esvaindo na sua capacidade de gerar efetiva tensão dramática e mesmo uma convincente densidade psicológica para os personagens. Ainda que detalhes formais como fotografia e direção de arte revelem forte cuidado em suas respectivas concepções, narrativa e atmosfera se mostram excessivamente solenes e previsíveis, fazendo com que “Paraíso” se configure como um trabalho derivativo dentro do gênero ao qual pertence.

quarta-feira, abril 12, 2017

O ornitólogo, de João Pedro Rodrigues ***1/2

Uma intrigante simbologia permeia toda a narrativa de “O ornitólogo” (2016). Nas sequências iniciais, em que o protagonista Fernando (Paul Hamy) estabelece uma rotina de silenciosa e rigorosa observação de pássaros no meio de uma floresta, o diretor João Pedro Rodrigues utiliza um registro audiovisual típico do estilo naturalista – fotografia e edição evocam trejeitos de cinema documental, encenação remete à escola realista, há um certo distanciamento emocional na abordagem temática, trilha sonora musicada praticamente ausente. Tais opções de linguagem cinematográfica revelam sutilmente um universo marcado pelo predomínio da ciência e da razão. Quando Fernando acidentalmente se perde na floresta, ambientação e atmosfera existencial da obra se transformam radicalmente, como se o personagem tivesse ultrapassado para uma dimensão paralela. Nesse novo contexto de teor fantástico e delirante, surgem figuras e situações estranhas e perturbadoras, como as amigas chinesas adeptas de um catolicismo obtuso, um grupo de nativos que celebram rituais pagãos, amazonas fora do tempo e do espaço, um pastor de ovelhas mudo e gay, até mesmo um pombo branco que parece configurar uma espécie de espírito da floresta. A conexão entre “O ornitólogo” e os conflitos e dilemas do mundo contemporâneo é claro, ainda que tal ligação se estabeleça por caminhos insólitos – quanto mais Fernando, agnóstico e homossexual, se embrenha na floresta, mais ele se confronta com o atavismo e a tradição opressores de um lugar marcado pelo misticismo obscurantista. Ao avançar por trilhas e matos, sua individualidade e sua psique vão se dissolvendo aos poucos num assustador processo de “sublimação”. Ou seja, a metáfora exata a retratar a retomada de uma sufocante religiosidade no mundo contemporâneo. Nesse sentido, “O ornitólogo” se irmana com outra extraordinária obra de temática semelhante, “A bruxa” (2015), em que truques e efeitos habituais do gênero horror são transformados em valiosos recursos na composição de narrativas de forte caráter libertário.

terça-feira, abril 11, 2017

O mundo fora do lugar, de Margarethe Von Trotta **1/2

Há pelo menos um mérito considerável por parte da diretora alemã Margarethe Von Trotta na realização de “O mundo fora do lugar” (2015) – diante de uma trama genérica típica do gênero melodrama, a abordagem da cineasta é marcada pela sobriedade emocional e pela elegância formal. Mas também nada que vá além disso, pois apesar da narrativa se desenvolver de maneira agradável e sem maiores sobressaltos, falta algum elemento artístico que dê alguma transcendência à obra. Ou seja, é um filme fácil de ver, mas também fácil de esquecer. E o que no caso de Von Trotta acaba sendo algo frustrante, principalmente se lembrarmos da contundência estética e temática de sua produção anterior, “Hannah Arendt” (2012), um dos melhores trabalhos cinematográficos recentes a discorrer sobre a 2ª Guerra Mundial.

segunda-feira, abril 10, 2017

Para sempre, de Juan Zapata 1/2 (meia estrela)

Ainda que marcada por uma narrativa irregular, “Simone” (2013) demonstrava evolução dentro da filmografia do diretor Juan Zapata. Podia-se perceber na produção mencionada algumas inquietações estéticas e mesmo uma certa ambiguidade na abordagem emocional de sua temática. Em “Para sempre” (2016), o cineasta parece voltar à estaca zero ao se limitar a revolver de maneira nada inspirada clichês narrativos de melodrama barato. Nos dez minutos iniciais do filme ele já delimita, e esgota, todo o seu arcabouço formal e textual – em uma trama envolvendo perda e trauma, haverá uma variação nos planos temporais (presente e passado) a indicar um processo de aceitação e aprendizado de uma viúva (Daniela Escobar). Nada contra a opção por usar elementos convencionais na narrativa. O grande problema é que truques e recursos estéticos são jogados na tela de maneira mecânica e sem criatividade. E a noção de construção de uma jornada existencial é bastante rasteira, pois “Para sempre” emula uma síntese de literatura de autoajuda e ficção romântica banal. Pode-se até perceber uma intenção de sofisticação visual, principalmente pela trama se situar em algumas fotogênicas cidades europeias. Acaba ficando só na tentativa mesmo, pois o registro de Zapata nesses cenários fica limitado a uma concepção imagética de cartão postal. Esse aspecto, inclusive, é emblemático do grande equívoco artístico-existencial de “Para sempre”, em que Zapata parece se deslumbrar com alguns signos de pretensos requinte e profundidade psicológica e se adequa a um comodismo de retratar de forma asséptica e sem vigor a “alma” de uma típica dondoca pequeno-burguesa, impressão reforçada pela interpretação canastrona de Daniela Escobar. Nesse sentido, a obra de Zapata parece uma derivação da franquia “50 tons de cinza” no uso de um formalismo “publicitário” e na caracterização sentimental estilo “romances Sabrina” atualizado.

terça-feira, abril 04, 2017

Fátima, de Philippe Faucon ***

A concepção narrativa e a temática de “Fátima” (2015) remetem o filme para um viés melodramático. Em termos formais a obra é convencional e a sua trama é uma conjunção de elementos marcados pela previsibilidade. Ainda assim, a produção francesa dirigida por Philippe Faucon consegue ser envolvente e plena de tensão dramática devido à sua abordagem emocional sóbria, ao rigor da encenação e a um roteiro que sabe ressaltar com sensibilidade e lucidez perturbadoras as complexidades e sutilezas da questão da vida dos imigrantes na França. O filme dispensa maniqueísmos e soluções fáceis – assim como disseca de maneira crítica a exploração e o preconceito sofridos por imigrantes e descendentes em seu dia-a-dia, também mostra um olhar de contestação sobre os valores culturais ditos “tradicionais” propagados pela religião muçulmana que na prática tem uma função primordial de opressão moral e de incentivar o obscurantismo. Nesse sentido, o subtexto da obra tem um caráter até libertário ao sugerir uma possibilidade de mudança e transcendência pela educação e pela arte. A contundência desse conteúdo é amplificada pelas interpretações vigorosas do elenco, principalmente das garotas que atuam nos papéis das irmãs Nesrine e Souad.

segunda-feira, abril 03, 2017

Era o Hotel Cambridge, de Eliana Caffé ***

É claro que um filme como “Era o hotel Cambridge” (2016) ganha uma ressonância diferenciada diante de uma conjuntura sócio-política nacional e mundial tão conturbada quanto a do presente, principalmente devido à sua temática. Dentro da questão da invasão e ocupação de imóveis abandonados por movimentos sociais, a diretora Eliana Caffé também não se furta em deixar claro de que lado está. O que se tem aqui é um cinema político e mesmo panfletário em sua essência. A cineasta, entretanto, não se prescinde de desenvolver com sensibilidade o aspecto intimista da trama do filme. Nesse viés, a encenação e a interação entre personagens fictícios e pessoas “reais” são repletas de fortes nuances dramáticas e mesmo um insólito aspecto de comicidade, o que amplia de maneira profunda e comovente o teor humanista da produção. “Era o Hotel Cambridge” também se mostra capaz em ousar dentro da sua parte estética. Nesse último caso, há uma simbiose contundente entre conteúdo de discurso e a síntese narrativa-formal da obra – a opção de fazer um entrelaçamento entre ficção e documentário configura um método artístico ousado e de caráter guerrilheiro, o que se pode verificar nas melhores sequências do filme que são aquelas que mostram o processo de ocupação de um imóvel e o conflito no final contra a polícia numa ação de reintegração de posse. Mais importante para a diretora do que fechar pontas do roteiro ou deixar “redonda” a narrativa é evidenciar uma atmosfera de angústia e incerteza diante de uma sociedade que legitima a opressão e o preconceito contra os deserdados e os “diferentes”.

sexta-feira, março 31, 2017

Débi & Lóide: Quando Debi conheceu Lóide, de Troy Miller *1/2

Se “Debi & Lóide: Dois idiotas em apuros” (1994) é uma pérola da comédia grosseira e escatológica e a continuação “Debi & Lóide 2” (2014) é uma sequência digna e divertida, o derivado “Debi & Lóide: Quando Debi conheceu Lóide” (2003) é uma produção bem menos inspirada. A explicação é simples: o diretor Troy Miller está bem distante de ter o mesmo domínio narrativo e senso de humor alucinado dos irmãos Farrelly, enquanto Derek Richardson e Eric Christian Olsen não chegam aos calcanhares do carisma de Jim Carrey e Jeff Daniels. Assim, o que resta é uma produção genérica e sem graça, incapaz de manter o interesse do espectador.

quinta-feira, março 30, 2017

T2: Trainspotting, de Danny Boyle **1/2

A ideia para uma continuação de “Trainspotting” (1996) não chega a ser meramente oportunista. Pelo fato de ser uma produção bastante emblemática para a época, era natural que houvesse uma expectativa para ver como os principais personagens estariam enquadrados dentro das contradições, dilemas e conflitos típicos da atualidade (e que de certa forma são decorrentes de tais elementos correspondentes da década de 90). O resultado final de “T2: Trainsportting” (2017), entretanto, é bem decepcionante. É claro que seria difícil chegar no mesmo nível do primeiro filme, uma das grandes obras-primas do cinema das últimas décadas. Mas a abordagem artística escolhida pelo diretor Danny Boyle foi equivocada em suas concepções e falha na sua realização. Ao invés daquela formatação original de comédia dramática de atmosfera ambígua, hedonista e algo delirante, essa produção mais recente se desenvolve como um melodrama mais convencional, moralista e beirando o sentimentalismo excessivo, ainda que Boyle insira na narrativa alguns maneirismos estéticos “moderninhos”. É claro que existem aspectos positivos que dão uma certa aura carismática para o filme: algumas sequências são bem divertidas na sua síntese de comicidade ácida e violência gráfica, a trilha sonora cancioneira é excelente e foge do óbvio, o quarteto principal de personagens conta com ótimas caracterizações dramáticas. Mas são detalhes isolados que acabam engolidos pela estética preguiçosa e por um roteiro que se rende a soluções conservadoras e previsíveis. Por vezes o espectador pode até dar umas risadas ou ficar tenso em algumas passagens mais expressivas, mas a sensação geral é de indiferença diante da apatia criativa do trabalho de Boyle. Provavelmente, deve ser por isso que ao longo da narrativa são exibidos vários trechos do primeiro filme, como se fosse necessário lembrar da importância artística da obra de 1996 diante da irrelevância de “T2”.

quarta-feira, março 29, 2017

Super, de James Gunn ***1/2

A premissa inicial da trama de “Super” (2010) nem chega a ser exatamente uma grande novidade: depois de alguns desgostos pessoais, o pacato Frank (Rainn Wilson) decide se tornar um vigilante uniformizado pronto para combater o crime. O grande diferencial do filme está na abordagem do diretor James Gunn para essa pequena e um tanto ridícula “saga”. Não há grandes efeitos especiais e nem coreografias espetaculares de lutas – a narrativa envereda mais por um misto de humor negro de comicidade perturbada, escatologia e violência explicitas e caracterização psicológica marcada pela crueza. A atmosfera do filme se alterna entre o sombrio e o sórdido, enquanto a encenação também mostra um caráter ambíguo na combinação entre realismo e exagero escrachado. Em meio as sequências de explosões grotescas de brutalidade e delírios metafísicos, há um contundente subtexto de reflexão sobre a solidão e o vazio existencial do indivíduo na sociedade ocidental contemporânea. Nesse sentido, “Super” se mostra uma produção singular na forma com que entrelaça o aspecto de ser bem divertida na sua síntese de comédia tresloucada e ação casca-grossa com uma visão existencial bastante arguta na sua ácida lucidez.

terça-feira, março 28, 2017

Irmã, de Zach Clark **1/2

Para os acostumados com os melodramas padrão Hollywood sobre famílias disfuncionais, “Irmã” (2016) pode até causar alguma surpresa por algumas aparentes “esquisitices” formais e temáticas – personagens com algumas bizarrices em suas caracterizações, formalismo com um certo tom de crueza, roteiro que sugere uma visão mais libertária e menos moralista em suas soluções, a ótima trilha sonora baseada em solos de baterias desgovernados e memoráveis canções no estilo “metal punk gótico”. Além disso, a trama traz um interessante recorte histórico, pois se desenrola pouco antes da primeira eleição de Barack Obama para presidente dos Estados Unidos, o que evidencia a expectativa e a esperança de tempos melhores depois de uma gestão republicana marcada por guerras e perseguições políticas. No final das contas, entretanto, tais aspectos diferenciais não conseguem interagir de forma plenamente satisfatória, resultando em uma narrativa oscilante e por vezes despersonalizada na sua constante reciclagem de clichês típicos do cinema independente norte-americano. É claro que por vezes em algumas passagens o filme até consegue divertir e mesmo gerar algum encanto, principalmente na sequência da festa de halloween particular da família da protagonista Colleen (Addison Timlin), mas falta uma direção mais segura e ousada por parte do diretor Zach Clark no sentido de explorar com mais criatividade alguns fatores promissores da trama. Nesse sentido, é só lembrar do extraordinário “O casamento de Rachel” (2008), que a partir de temática e estética semelhantes à “Irmã” tinha um resultado final bem mais impactante.

segunda-feira, março 27, 2017

Fragmentado, de M. Night Shyamalan ***1/2

Na conclusão da trama de “Fragmentado” (2017), fica estabelecida uma conexão com “Corpo fechado” (2000) no sentido de que haja uma inter-relação entre as obras pelo fato de pertencerem a um mesmo universo existencial, havendo até uma sugestão de que haverá uma continuação ou assemelhado promovendo o encontro entre personagens de ambas as produções. Mas a aproximação que se pode fazer entre esses dois filmes não se dá apenas por essa questão. Nos dois trabalhos se pode observar semelhanças em termos de concepção artística, tanto pelo lado estético como o temático – é como se o diretor M. Night Shyamalan promovesse uma espécie de releitura particular do gênero “aventura de super-heróis” no cinema, com a diferença de que em “Corpo fechado” ele mostrou a gênese de um campeão do “bem”, enquanto que em “Fragmentado” está em foco a origem de um supervilão. Se no filme mais antigo havia algumas ideias interessantes que foram mal trabalhadas e acabaram resultando em uma obra um tanto vacilante e truncada em termos de narrativa e que se levava demasiadamente a sério, em “Fragmentado” abordagem e execução demonstram uma evolução impressionante. Shyamalan não temeu cair no exagero e mesmo no ridículo, dando ao seu filme uma atmosfera tensa, sórdida e beirando o delirante. Filmes de super-herói exigem uma dimensão épica e icônica em sua concepção, e o cineasta parece ter entendido tal necessidade. Ao invés de se prender em caracterizações psicológicas pretensiosas ou nos excessos melodramáticos de histórias paralelas como havia ocorrido em “Corpo fechado”, “Fragmentado” investe numa dinâmica narrativa mais objetiva, com direito a sequências de ação de notável desenvoltura cênica e a uma atuação alucinada de James McAvoy (é impressionante como olhares e gestos se alternam com naturalidade a cada personalidade que se muda do protagonista Kevin). E mesmo as sequências de flashback com Casey (Anya Taylor-Joy) se incorporam à trama de forma surpreendente, sem a necessidade de “amarrar pontas” e reforçando o caráter ambíguo e misterioso de “Fragmentado”. Assim, no seu conjunto geral, “Fragmentado” até faz imaginar como seria se Shyamalan fosse dirigir algum filme da Marvel ou da DC.

sexta-feira, março 24, 2017

As senhoras de Salem, de Rob Zombie ***

Pode-se perceber um padrão autoral peculiar no cinema de horror praticado pelo diretor norte-americano Rob Zombie. Ainda que trafegue por alguns dos tradicionais preceitos narrativo do gênero, o cineasta consegue se diferenciar por uma visão mais sombria e ambígua nas tramas de seus filmes, em que maniqueísmos na oposição entre o bem e o mal ficam mais difusos, assim como pela abordagem formal apresentar um estranho e perturbador misto de crueza e delírio barroco. Tal concepção artística atingiu seu grande ponto alto na obra-prima “Rejeitados pelo diabo” (2005), mas “As senhoras de Salem” (2013) preserva ainda bastante do estilo de Zombie. O roteiro centra num dilema básico dos filmes sobre bruxas, a de mulheres moradoras de Salem que nos dias atuais ainda sofrem a influência das feiticeiras que séculos atrás foram mortas pelos fanáticos religiosos da região. O trunfo da produção está na atmosfera sórdida que permeia a narrativa e na encenação austera realizada por Zombie – nesse conjunto estético, o filme avança como uma espécie de trágico e algo irônico conto gótico, em que a sensação de inevitabilidade do triunfo do mal é permanente. As caracterizações dos personagens são convincentes e carismáticas e se revelam em sintonia com a ambientação de teor épico e macabro de algumas marcantes sequências, principalmente na conclusão brutal do filme.

quinta-feira, março 23, 2017

Personal shopper, de Olivier Assayas ****

Depois de se aventurar por drama de época (“Destinos sentimentais”), policial (“Clean”) e memorialismo (“Depois de maio”), o diretor francês Olivier Assayas voltar a enquadrar o cinema de gênero dentro de seus peculiares padrões autorais. Em “Personal shopper” (2016), o cineasta envereda pelos preceitos do horror sobrenatural e os recicla dentro de uma narrativa que versa sobre alienação e vazio existencial. Pode até parecer pretensioso em suas intenções artísticas, mas o resultado final é orgânico e contundente. Roteiro e encenação obedecem a um padrão estético e existencial marcado pelo rigor e pela coerência, em que alguns clichês formais e temáticos do gênero fantástico (casas assombradas, espíritos desajustados) vão se moldando dentro de um formato misto de conto moral e crônica de costumes. Essa abordagem artística de Assayas tem uma ambiguidade ora atraente, ora perturbadora, fazendo com que o filme utilize signos visuais que aludem à modernidade, tanto nos aspectos tecnológicos quanto nos padrões de beleza, para reforçar uma ideia de fascinação por alguns prazeres mundanos. Diferente da patética glorificação do materialismo perpetrada por “Cinquenta tons de cinza” (2015), entretanto, tal direcionamento narrativo tem a função de caracterização do ambiente que circunda a protagonista Maurenn (Kristen Stewart), mostrando os aspectos contraditórios de sua personalidade que trafegam no limite entre o intimismo de seus desejos e inquietações pessoais e a sua vivência social/profissional. Nesse sentido, a visão da obra sobre o metafísico se distancia bastante das obviedades moralistas e maniqueístas, em que a vontade de Maurenn em contatar com o irmão falecido esconde de maneira sutil a sua incapacidade de lidar de forma lúcida com a realidade fática em sua volta, evidenciada, principalmente, na forma com que a personagem é envolvida na sórdida trama de sexo, dinheiro e assassinato entre a sua empregadora e o amante. 

quarta-feira, março 22, 2017

Insubstituível, de Thomas Lilti **1/2

É bem provável que se “Insubstituível” (2016) fosse realizado dentro dos padrões “normais” de Hollywood o resultado final seria bem diferente. E para pior. O estilo do diretor Thomas Lilti tem uma certa discrição emocional e há uma sobriedade na condução da narrativa. O subtexto da trama tem carga simbólica considerável em termos de observação política e social – fala de um conjunto de valores típicos de uma concepção de bem-estar social que foi típica da Europa Ocidental por décadas e que agora se encontra em declínio. Ainda que tenha esses pontos relevantes, essa produção francesa se mostra um tanto anacrônica e desprovida de uma maior identidade artística tendo em vista estar muito ligadas a convencionalismos formais típicos do melodrama. A estética discreta da direção de Lilti é até por vezes agradável, mas falta a “Insubstituível” aquela tensão dramática e mesmo a fúria existencial que tornaram tão cativantes e memoráveis filmes como “Aquarius” e “Eu, Daniel Blake”, outros dramas sociais lançados em 2016.

quinta-feira, março 16, 2017

A origem da vida, de Dennis Lee *

Há produções que conseguem sintetizar o estereótipo negativo de determinadas vertentes cinematográficas. “A origem da vida” (2012) é um exemplar claro desse tipo de situação. No filme do diretor Dennis Lee se concentra aquilo que há de pior e mais caricato no cinema “indie” norte-americano – assepsia formal, melodrama rasteiro travestido de pseudoprofundidade, personagens caricatos, atmosfera entre o meloso e o “fofinho”. Resultado final: dispensável e esquecível.

quarta-feira, março 15, 2017

Kong: A Ilha da Caveira, de Jordan Vogt-Roberts ***

Ao contrário das produções de 1976 e 2005, “Kong: A ilha da caveira” (2017) não é uma refilmagem da obra clássica de 1933. O filme dirigido por Jordan Vogt-Robert pega alguns conceitos e elementos já trabalhados nas obras anteriores e as recria sob uma perspectiva diferente e mesmo uma nova trama. Assim, o espírito de cinema B, ou mesmo de cultura “pulp”, está mais presente, não havendo a dimensão trágica dada anteriormente ao protagonista. E a escolha de situar a trama na primeira metade da década de 70 não é gratuita, pois o subtexto do roteiro faz uma analogia clara entre o caráter belicoso de um pelotão do exército norte-americano perdido na Ilha da Caveira e com a missão de exterminar Kong e a postura intervencionista dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã e em outros conflitos pelo mundo que grassaram nas últimas décadas. Tal paralelo político é feito até de maneira eficiente, e surpreende que uma produção de um grande estúdio norte-americano faça com que o público torça descaradamente pelo macacão contra as forças armadas do Tio Sam. Como aventura, o filme não tem aquele fascinante clima de pesadelo da versão original dos anos 30 e nem aquele senso alucinado de encenação da obra dirigida por Peter Jackson. Ainda assim, é uma divertida aventura, com boas cenas de ação e ótima caracterização imagética dos monstros, além da direção de arte trazer uma síntese expressiva de estilização exagerada e recriação de época de razoável fidelidade histórica. Nesse sentido, é interessante a forma com que as canções roqueiras da época se inserem da narrativa – aliás, a sequência em que os helicópteros entram pela primeira vez na Ilha da Caveira ao som de uns rocks da pesada faz lembrar algumas cenas memoráveis de “Apocalypse Now” (1979).

terça-feira, março 14, 2017

Jovens, loucos e mais rebeldes, de Richard Linklater ***1/2

As comédias “estudantis”, formato que trazia obras cômicas que retratavam o cotidiano de jovens classe média em meio a confusões pueris e descobertas sexuais, se consolidaram como expressivo gênero cinematográfico no final da década de 70 e boa parte dos anos 80, vide obras como “Clube dos cafajestes” (1978) e “Porky’s” (1982). O diretor Richard Linklater realiza em “Jovens, loucos e mais rebeldes” (2015) uma recriação bastante particular desse universo. Estão lá no filme boa parte dos elementos narrativos inerentes ao gênero, mas o que diferencia a abordagem de Linklater é a sua encenação sutil e levemente reflexiva e o estabelecimento de um contexto existencial mais amargo e irônico. Situada em 1980, a trama se concentra nos últimos dias que antecedem o começo das aulas em um campus universitário. Há algo de solene na forma com que Linkater marca o decurso do tempo, como se o passar das horas indicasse os últimos momentos de inocência e de uma saudável alienação por parte do protagonista Jake (Blake Jenner) antes que a rotina de obrigações estudantis e sociais se concretize. Nesse viés, ainda que o verniz aparente seja de homenagem a um determinado estilo de filme, há também uma intenção de fazer uma dessacralização do gênero focado. Em meio a esse subtexto mais profundo e às discretas ousadias do diretor, o filme também sabe preservar as qualidades desse tipo de comédia: ótimas sequências cômicas, personagens carismáticos e a preservação carinhosa do velho ideário “sexo, drogas e rock and roll”.

Silêncio, de Martin Scorsese ****

No livro de ensaios “A civilização do espetáculo”, o escritor peruano Mario Vargas Llosa emite um controverso comentário sobre a religião – ainda que declaradamente ateu, considera que a religião ainda seja a melhor forma de civilizar o homem moderno, no sentido que esse sentimento místico lhe atribuiria um conjunto de valores e ideais que lhe dariam alguns princípios éticos e morais que o impediriam de cair na barbárie, ainda mais pelo fato de que a arte, o conhecimento científico e a cultura, outros motores desse processo de humanização, tem uma ascendência cada vez menor perante esse homem no mundo contemporâneo. Ainda que tal raciocínio seja questionável, evidencia que a religião como instituição e sentimento não pode ser dissociado do contexto histórico-político em que está inserida. “Silêncio” (2016), a mais recente produção dirigida por Martin Scorsese, é uma obra que retrata de forma contundente essa conturbada relação da humanidade com a sua religiosidade. Para isso, Scorsese utiliza uma abordagem narrativa-existencial fascinante pela sua ambiguidade – ao mesmo tempo que reforça uma admiração pela fé cristã de seu protagonista, o padre Sebastião Rodriguez (Andrew Garfield), em seu poder de lhe dar tenacidade em fazer valer o seu credo diante das mais terríveis circunstâncias, também insinua uma crítica à incapacidade do personagem em entender e aceitar o complexo cenário social e cultural do Japão do século XVII, o que reflete uma visão de mundo eurocêntrica e colonialista.


As sutilezas da temática de “Silêncio” se relacionam de maneira perturbadora com as escolhas formais de Scorsese, em que prevalecem um rigor estético em termos de encenação, fotografia e edição. O registro audiovisual evoca sintonia com um olhar estrangeiro – os cenários e o povo do Japão são envoltos numa atmosfera que sintetizam crueza naturalista, mistério e exotismo. Nesse sentido, o filme faz lembrar “Apocalypse Now” (1979) e algumas das obras de Werner Herzog, como “Aguirre e a cólera dos deuses” (1972) e “Fitzcarraldo” (1982), principalmente no sentido em que estranhamento e desconforto sensoriais se relacionam com o sentimento atávico de temor do indivíduo ocidental diante de cenários, nativos e costumes que lhes são desconhecidos. Essa singular linguagem cinematográfica que Scorsese delineia em “Silêncio” também é marcada pela dubiedade, em que o deslumbre imagético de várias cenas se confunde com uma certa crueldade na forma com que a violência gráfica se manifesta em cena e mesmo com a aridez emocional de outros momentos. Nesse último quesito, o filme é bastante radical em sua coerência artística – é de se reparar, por exemplo, que praticamente não há temas incidentais na trilha sonora para enfatizar a dramaticidade das cenas. Aliás, dentre outras escolhas desconcertantes de Scorsese para “Silêncio” está a forma com que a própria cultura japonesa é retratada no filme. Mais do que simples antagonistas na trama, a caracterização de fatores comportamentais e personagens japoneses tem uma notável profundidade e sensibilidade. Se em termos cênicos a produção revela influências claras e bem trabalhadas de clássicos do cinema nipônico, principalmente aqueles que aludiam ao universo dos samurais, há também o cuidado no roteiro de expor as particularidades do pensamento e filosofia particulares que norteiam as concepções existenciais daquela sociedade. Nesse sentido, os diálogos entre membros do governo com o padre Rodriguez sobre a impossibilidade do cristianismo se firmar no Japão são fascinantes no seu misto de fundamentação cultural e ironia.

sexta-feira, março 10, 2017

Um duende em Nova York, de Jon Favreau ***

O diretor norte-americano Jon Favreau parece manter em sua filmografia um certo ideário artístico: fazer filmes dentro de um padrão mainstream, mas que contenham alguns elementos de ironia e esquisitice. Esse discreto tom autoral pode ser percebido na comédia “Um duende em Nova York” (2003). A trama do filme até remete àquela tradicional linha de narrativa derivada de “Um conto de Natal” de Charlie Dickens, em que o espírito natalino se contrapõe a valores capitalistas desumanos, resultado numa lição de vida edificante. A partir desse modelo convencional, Favreau insere algumas características destoantes, como a estranha atmosfera mista de fábula e sátira, o tom nonsense na encenação de algumas sequências, a caracterização abilolada de Will Ferrell e um certo sarcasmo mais ácido na forma com que retrata relações humanas e mesmo os costumes da sociedade pequeno-burguesa contemporânea. É certo que essa pequena diatribe de Favreau se amolda de acordo com os ditames de Hollywood, principalmente em sua conclusão, mas ainda assim é uma obra diferenciada dentro dessa linhagem de “produções natalinas para a família”.

quinta-feira, março 09, 2017

Logan, de James Mangold ***1/2

Ok, há realmente algumas incongruências no roteiro de “Logan” (2017), principalmente em questões muito mal explicadas como a desculpa de envenenamento do adamantium como motivos da decadência física do protagonista ou o fato de uma simples enfermeira ter gravado no celular uma série de imagens comprometedoras de experiências secretas de clonagem de mutantes por parte de um laboratório dotado de um forte aparato de segurança. No final das contas, entretanto, tais deslizes da trama acabam se tornando menores diante dos fortes acertos no terceiro e derradeiro capítulo da franquia cinematográfica do mais popular mutante da Marvel. Se no primeiro filme predominava uma concepção de narrativa convencional e sem brilho e em “Wolverine imortal” (2013), dirigida por James Mangold, ocorria uma sensível melhora artística, nessa obra mais recente, também tendo Mangold no comando da produção, é impressionante como densidade dramática e ação alucinada atingem um ponto de equilíbrio narrativo memorável. Talvez o grande acerto do filme é estabelecer um forte conceito de história e concepção estética e levar tal direcionamento de maneira coerente até a sua conclusão – Wolverine saiu de cena, e o que ficou é um Logan (Hugh Jackman) envelhecido, doente e muito longe do seu apogeu em termos de força, agilidade e selvageria, e a encenação e ambientação da obra são marcadas por uma síntese de realismo, amarga visão sócio-política de um futuro próximo, sordidez e brutalidade. Mangold não se furta a fazer uma espécie de colcha de retalhos criativa em termos de roteiro e estética, pois em “Logan” há influências e referências diversas como as aventuras pós-apocalípticas de “Mad Max” (com direito inclusive do protagonista se unindo a um bando de crianças e adolescentes renegados) e clássicos faroestes crepusculares (o que fica bastante explícito nas citações a “Os brutos também amam”). Ocorre que Mangold tem a manha de fazer com que essa junção de elementos não caia na mera reciclagem picareta e soe bastante orgânica e convincente. Assim, a atmosfera de tensão e violência é bastante perturbadora, a caracterização dos personagens é muito bem delineada em termos psicológicos e icônicos (X-23, por exemplo, é muito mais interessante nessa versão para o cinema do que a figura dos quadrinhos na qual se baseou), as cenas de ação têm uma ótima desenvoltura em termos de coreografia e de um grafismo sujo e sangrento, a abordagem emocional é empática e comovente. Até o timing para o momento do lançamento de “Logan” foi bastante acertado – o futuro nada remoto retratado no roteiro dominado por preconceitos raciais, pobreza e domínio político-econômico de grandes corporações parece bastante em sintonia com o nosso presente de ascensão de uma direita neo-liberal e xenofóbica. Também é interessante constatar como Mangold consegue até fazer com que “Logan” se conecte ainda com a sua própria filmografia, em que o decadente Wolverine tem semelhanças existenciais com o desacreditado policial protagonista de “Cop Land” (1997) e com o cantor outsider Johnny Cash de “Johnny & June” (2005) – não à toa, uma canção de Cash embala os créditos finais de “Logan”.

quarta-feira, março 08, 2017

Eu, Olga Hepnarová, de Petr Kazda e Tomás Weinreb ***

As opções estéticas dos diretores Petr Kazda e Tomas Weinreb para enquadrarem a narrativa de “Eu, Olga Hepnarová” (2016) são coerentes com as intenções temáticas da obra. A rigorosa fotografia em preto e branco, a sufocante atmosfera de aridez emocional e o roteiro que beira o fragmentado são elementos que que conseguem traduzir de maneira expressiva todo o contexto social e intimista que levou a protagonista-título (Michalina Olszanska) a cometer o brutal crime de homicídios múltiplos – aliás, tal história é baseada em fatos reais. Não que a trama leve necessariamente a justificar os atos extremos da personagem principal e nem pretenda se mostrar simpática a ela. O registro formal-existencial da produção é simplesmente objetivo, por vezes beirando uma perturbadora frieza, o que faz com que o filme se afaste de moralismos e maniqueísmos fáceis, e enverede mais pelo lado de retratar a forma com que uma sociedade de caráter opressivo e as hipocrisias da família tradicional se revelam incapazes de lidar com o diferente e o destoante, fomentando ainda mais a distorção dos valores que tanto alegam defender. Para ilustrar tal visão de mundo, a concepção artística dos cineastas se configura como uma linguagem síntese entre o naturalismo e o didático – ainda que de uma desoladora dureza audiovisual, o resultado final é de inegável eficiência narrativa.

terça-feira, março 07, 2017

A tartaruga vermelha, de Michael Dudok de Wit ***1/2

Dentro do atual panorama mundial das animações, “A tartaruga vermelha” (2016) tem uma concepção artística que a coloca naquele nicho “fora do tempo e do espaço”. Seu roteiro possui um forte tom fabular, enquanto que a técnica de seu grafismo remete mais à escola tradicional europeia de décadas passadas – é de se reparar, por exemplo, que as expressões faciais dos personagens lembram alguns filmes de Tintin. O resultado final de tais opções criativas do diretor holandês Michael Dudok de Wit, entretanto, estão bem distantes do mero anacronismo ou nostalgia. A narrativa é repleta de sutilezas estéticas e temáticas e avança de forma serena. A trama não se prende a maiores explicações sobre origens de personagens ou explicações para certos eventos fantasiosos – o que importa é quase que exclusivamente o universo daquela ilha em que o protagonista náufrago passará boa parte de sua vida, em que uma estranha relação entre a natureza e a magia se dá de forma natural e com bizarra coerência. O roteiro repleto de simbologias simples e marcantes é embalado por um traço preciso, que sintetiza de maneira extraordinária estilização e realismo. Nesse sentido, não como não destacar as antológicas sequências da tempestade no meio do oceano no início do filme e do tsunami que devasta boa parte da ilha, momentos de grande e assustador impacto sensorial (em função disso, é bem recomendável que se assista ao filme em uma sala de cinema). Por outro lado, há também momentos memoráveis devido a delicadas nuances visuais que sugerem ao espectador um olhar mais atento e contemplativo. A bela e melancólica conclusão de “A tartaruga vermelha” reforçam ainda mais o caráter atemporal da produção.

segunda-feira, março 06, 2017

Eu não sou seu negro, de Raoul Peck ***1/2

Os elementos que o diretor Raoul Peck teve em mãos para conceber a narrativa do documentário “Eu não sou seu negro” (2016) são básicos e concisos – um roteiro incompleto de 30 páginas desenvolvido pelo escritor James Baldwin, farto material de arquivo audiovisual, a narração do ator Samuel L. Jackson e um conceito temático amplo e bem definido. A partir desse direcionamento formal-existencial, o cineasta elaborou um contundente panorama sócio-político-cultural embalado por uma estética turbulenta e inclemente. O foco principal aparente da trama está numa reflexão sobre vida e morte de três importantes militantes da causa dos negros nos Estados Unidos – Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King – mas aos poucos o subtexto vai se tornando cada vez mais abrangente, deixando vir à tona também o pensamento contestador e lúcido de Baldwin. Dentro dessa perspectiva de narrativa, o que a trama se propõe de forma engenhosa é relacionar a trajetória do racismo nos EUA com a própria configuração do país como nação. Para isso, Peck tem ótimas sacadas em termos de temática e montagem, fazendo com que os depoimentos de seus protagonistas interajam não só com os eventos do contexto histórico em que eles estavam inseridos, mas também com fatos que se efetivaram muitos anos depois de suas respectivas mortes. Assim, as denúncias sobre a hipocrisia de autoridades e sociedade perante a discriminação racial e os alertas sobre a necessidade de uma maior integração entre as comunidades dentro do país se mostram em sinistra sintonia com as revoltas dos negros por motivos de preconceitos que ocorreram em décadas posteriores (e ainda continuam nos dias de hoje). Peck também coloca em cheque a própria história do cinema norte-americano ao mostrar diversos trechos de produções importantes na filmografia nativa que refletiam um preconceito racial escancarado e que acabava promovido como algo natural por tais obras. Essa união entre uma visão de mundo bastante crítica e uma concepção artística criativa e muito bem delineada tem como resultado final uma produção que tanto impressiona pela clareza e fundamentação inequívoca de seu ideário humanista quanto emociona pela sua sensibilidade a dissecar uma das facetas mais odiosas e injustas da sociedade contemporânea.

sexta-feira, março 03, 2017

Operação corvo, de Takashi Miike **

O diretor japonês Takashi Miike é um cara de extremos – assim como é capaz de fazer maravilhas (“The audition”, “Imprint”, “13 assassinos”), também pode perpetrar abacaxis como esse “Operação Corvo” (2007). A premissa da trama é até uma boa ideia – uma narrativa clássica de gangsteres no ambiente de uma escola, com direito a todas as cenas de violência e intrigas inerentes a essa linhagem de filmes policiais. O resultado final, entretanto, está muito longe de tais possibilidades promissoras. O roteiro é bastante confuso, sendo que a encenação afetada e preguiçosa nada contribui para melhorar as coisas. Por vezes, em algumas passagens, dá para sentir a mão diferenciada de Miike, mas acaba sendo muito pouco para garantir o interesse do espectador.

quinta-feira, março 02, 2017

A lei da noite, de Ben Affleck **1/2

A ambição de Ben Affleck para “A lei da noite” (2016) aparenta ser grande. Retomando o gênero dos filmes de gangsteres “à antiga”, a obra sugere uma cruza entre a estética barroca de “Ajuste final” (1990) com o romantismo grandioso de “O poderoso chefão” (1972) e “Era uma vez na América” (1984). Ainda que Affleck não tenha o estofo artístico dos diretores dos filmes mencionados, o talento narrativo que havia demonstrado no policial “Atração perigosa” (2010) o credenciava a uma experiência cinematográfica no mínimo memorável. O resultado final de “A lei da noite”, entretanto, mostra-se aquém das expectativas e de suas boas referências. Ainda que o trabalho de direção de arte seja caprichado e algumas sequências de ação sejam bem movimentadas e divertidas, faltou para a produção uma encenação mais encorpada e de maior densidade dramática. O filme até conta com um bom elenco, mas que se perde numa direção de atores um tanto frouxa e que faz as interpretações oscilarem entre o inexpressivo e o caricato. O que, de certa forma, acaba sendo uma síntese daquilo que dá errado no filme. Pode-se perceber no subtexto do roteiro uma intenção de profundidade psicológica e mesmo de uma sofisticada simbologia a mostrar os dilemas sócio-culturais dos Estados Unidos nos anos 20 no que diz respeito a questões complexas como criminalidade, racismo e o conturbado cenário econômico da época. Ocorre que a mão de Aflleck como diretor se mostra pesada e pouco sutil, fazendo com que “A lei da noite” se configure como uma incômoda combinação de academicismo e pastiche. Repare-se, por exemplo, na sequência em que o protagonista Joe Coughlin (Aflleck) discursa perante um banqueiro contra as hipocrisias do sistema financeiro norte-americano – as ideias do texto são coerentes e contundentes, mas a forma com que a cena é executada é primária e sem efetivo impacto dramático.

quarta-feira, março 01, 2017

Moonlight, de Barry Jenkins ***

Na superfície, “Moonlight” (2016) remete a elementos de várias produções norte-americanas na linha black: muito funk, soul e rap na trilha sonora (excelente, por sinal), temática social relacionada a abandono familiar e marginalidade, uma certa atmosfera sórdida e sombria que permeia a narrativa. O filme dirigido por Barry Jenkins, entretanto, utiliza uma abordagem estética e de conteúdo ainda mais ampla e que se revela de maneira sutil, em que um viés intimista e sensorial vai se tornando predominante aos poucos. Na trama, aos habituais preconceitos sociais e raciais se adiciona ainda a questão da sexualidade. O roteiro descarta o caráter moralista ao expor as contradições e dilemas dos personagens, principalmente no caso do protagonista Chiron, fazendo com que algumas de suas escolhas que poderiam até ser consideradas questionáveis ganham um ar de inevitabilidade do destino, principalmente ao se considerar o ambiente nocivo que o envolve. Paira sobre os dois terços iniciais do filme de maneira constante uma ambientação de opressão, em que cada passo de Chiron parece estar sendo implacavelmente vigiado e perseguido. Algumas escolhas formais por parte de Jenkin conseguem acentuar com precisão e sensibilidade essa impressão – nesse sentido, é de se reparar, por exemplo, no vertiginoso plano-sequência no início de “Moonlight” e na assustadora sequência em que Chiron adolescente é espancado por colegas de escola. Alguns desses truques narrativos podem até soar óbvios ou simples, mas tem uma eficácia admirável para evidenciar o pesado drama do protagonista. No terceiro ato do filme, Jenkins muda o seu enfoque, passando para um registro entre o melancólico e o agridoce para sugerir uma possibilidade de redenção existencial para Chiron, e que propicia uma sequência antológica, aquela em que Kevin (Andre Holland) oferece para Chiron uma canção no jukebox. 

sexta-feira, fevereiro 24, 2017

Depois de horas, de Martin Scorsese ****

Recentemente li o livro de memórias do músico Moby, “Porcelain”, na qual ele conta os primeiros passos de sua carreira como DJ em Nova Iorque. A obra também faz um retrato cultural muito rico da célebre cidade norte-americana, principalmente mostrando que nos anos 80 e primeira metade dos 90 a metrópole em questão era marcada por uma contradição fascinante – ao mesmo tempo que no referido período apresentou altos índices de criminalidade e desajustes sociais também foi um grande foco de expressões artísticas relevantes, havendo uma ligação perversa e intrínseca entre esses dois polos. Dessa forma, não é gratuito que a trama de “Depois de horas” (1985) se concentra basicamente no barra pesada bairro nova-iorquino Soho. A saga do protagonista Paul Hackett (Griffin Dunne) para voltar para casa durante uma conturbada noite no bairro em questão guarda paralelos tanto com a “Odisseia” de Homero quanto com “O coração das trevas” de Joseph Conrad, além da paranoia opressiva tipicamente kafkaniana. O personagem principal dessa obra-prima de Martin Scorsese parece sintetizar o típico indivíduo adepto do american way of life que é jogado em um universo que lhe foge totalmente da compreensão, habitado por junkies, loucos, marginais e artistas, ou seja, os outsiders da sociedade ocidental. As progressivas confusões em que Paul vai se metendo ao longo de uma noite infernal não ocorrem como eventos isolados que lhe fogem ao controle, mas sim por uma sutil lógica em que o medo do desconhecido e a incapacidade de lidar com o diferente por parte do personagem o jogam involuntariamente em enrascadas cada vez mais perigosas. Assim, o inferno pessoal do protagonista não se origina daquela velha premissa católica da punição por ter se aproximado do “pecado”, mas sim da covardia e mesquinhez típica do americano médio frente àquilo que desafia a moral pequeno-burguesa vigente. A narrativa concebida por Scorsese abarca tais dilemas temáticos com precisão e sensibilidade notáveis. A atmosfera varia de maneira fluida entre o realismo e o delirante, impressão essa acentuada pela fotografia que também mistura naturalismo e estilização e pelo ritmo frenético da montagem, num conjunto imagético repleto de detalhes cênicos desconcertantes (a nota de vinte dólares que aparece em diversos contextos diferentes, a queimadura que se converte em tatuagem), gerando assim a constante impressão de um sonho ruim que nunca termina. Nesse sentido, a caracterização de situações e personagens evidenciam uma encenação repleta de estranhas e por vezes encantadoras nuances em que a combinação de uma certa crueza na abordagem emocional e o tom histriônico de algumas figuras da trama sugerem uma cruza da virulência da escola setentista do cinema norte-americano com a ambientação siderada típica de Fellini.

quinta-feira, fevereiro 23, 2017

Minha vida de Abobrinha, de Claude Barras ***

A escolha da técnica de animação de stop-motion não é gratuita dentro da particular concepção artística de “Minha vida de Abobrinha” (2016). Durante toda a narrativa, paira uma sutil ambiguidade na abordagem do diretor Claude Barras, em que uma trama envolvendo aspectos trágicos e de retrato de uma dura realidade social recebe um tratamento de certa leveza e ironia. Assim, a ambientação naif proporcionada pelo estilo gráfico do filme se mostra em sintonia com esse aparente contraste entre a temática da produção e a sua atmosfera. Na aparência, esse conceito narrativo estabelecido por Barras pode sugerir uma tentativa de amenizar traços de melancolia do filme. Na verdade, é justamente o contrário, pois as soluções formais e temáticas do cineasta revelam um caráter desafiador ao fazer com que a animação se afaste do melodramático e enverede por um sutil e comovente reflexão sobre a infância, o abandono e a amizade. Todos os dilemas dramáticos que se apresentam no roteiro são desenvolvidos e mesmo solucionados com naturalidade, enfatizando uma visão existencial de considerável grau de ousadia que mescla aceitação e tolerância. Ao lado desse forte discurso humanista, há também notáveis acertos narrativos e estéticos por parte de Barras como o grafismo simples e encantador, a carismática caracterização dos personagens e a bela trilha sonora baseada em temas folk e pop.

quarta-feira, fevereiro 22, 2017

Amaldiçoado, de Alexandre Aja ***

A premissa da trama de “Amaldiçoado” (2013) desperta considerável curiosidade – suspeito de ter estuprado e assassinado a namorada (Juno Temple), Ignatius Perrish (Daniel Radcliffe) acorda em uma manhã com chifres que fazem com que quem esteja ao seu lado revele as verdades mais escabrosas. O fato da história se passar numa cidadezinha interiorana norte-americana acentua ainda mais a carga metafórica do roteiro, em que o microverso em polvorosa da localidade parece refletir o lado de podridão do american way of life. O diretor francês Alexandre Aja por vezes consegue acertar o tom dessa esquisita narrativa que sintetiza drama policial, horror e fábula, formatando um perverso conto moral. Por outro lado, há momentos em que o filme se perde em excessos melodramáticos e mesmo nos convencionalismos do gênero suspense, além do seu elenco enveredar em algumas atuações inexpressivas (Daniel Radcliffe não consegue perder o seu eterno ar abobalhado de Harry Potter). O mais acertado seria Aja ter mantido uma atmosfera ambígua de maneira mais constante, o que tornaria mais contundente a sua radiografia das hipocrisias obscurantistas da sociedade ocidental. Ainda assim, o cineasta demonstra forte inventividade visual em determinadas sequências e também o seu pendor na construção de ambientações perturbadoras de sordidez, qualidades que ele já havia demonstrado nos extraordinários “Alta tensão” (2003) e “Viagem maldita” (2006).

terça-feira, fevereiro 21, 2017

Medo da verdade, de Ben Affleck ***

Pode-se dizer que “Medo da verdade” (2007) funcionou como uma espécie de laboratório para Ben Affleck. Isso porque se pode perceber nesse seu longa-metragem de estreia como diretor uma concepção artística que se delineou de maneira mais eficaz e marcante em “Atração perigosa” (2010). Ainda assim, esse seu primeiro filme como cineasta tem os seus atrativos. O roteiro peca por alguns convencionalismos excessivos e a narrativa se prende a algumas fórmulas óbvias do gênero suspense, mas Affleck demonstra talento na encenação precisa de algumas sequências, na criação de uma convincente atmosfera mista de sordidez e melancolia e na direção de atores, principalmente nas ótimas atuações de Casey Affleck e Ed Harris. E por mais que algumas viradas da trama e mesmo a conclusão da história sejam um tanto forçadas na tentativa de amarrar todas as pontas para o espectador, também é inegável que o cineasta consegue manter uma bem-vinda sobriedade para a narrativa. Diante de tais qualidades que afloraram com ainda mais intensidade em obras posteriores, fica ainda a impressão que Affleck é bem mais interessante como diretor do que ator.

segunda-feira, fevereiro 20, 2017

Redemoinho, de José Luiz Villamarin **1/2

A estrutura narrativa da produção brasileira “Redemoinho” (2016) é similar àquela do filme norte-americano “Manchester à beira-mar” (2016), em que a trama que se desenrola no tempo presente, que tem por mote principal a sensação obscura de mal-estar existencial de alguns personagens, é entremeada por trechos do passado que ajudam a explicar o desconforto emocional de tais indivíduos. O que explica então que a obra de Kenneth Lonergan tenha um resultado final mais cativante do que o trabalho de José Luiz Villamarin? A resposta não é tão difícil – falta para a referida produção nacional uma encenação mais sutil e e uma mão menos pesada na direção. Predomina ainda uma incômoda atmosfera solene, faltando um certo traquejo irônico nessa abordagem. Ainda que o roteiro estabeleça alguns conflitos interessantes na história, buscando até um paralelo entre as questões intimistas com as temáticas do conflito de classes na sociedade brasileira e os preconceitos morais típicos de uma ordem patriarcal, as soluções dramáticas que aponta são delineadas de maneira óbvia e por vezes até simplista. O que garante algum interesse para o filme é a fotografia acima da média de Walter Carvalho e algumas boas atuações do elenco, principalmente por parte de Irandhir Santos e Júlio Andrade nos papéis dos protagonistas.

sexta-feira, fevereiro 17, 2017

Lego Batman: O filme, de Chris McKay ***1/2

Muito mais que uma paródia do universo fílmico da franquia Batman, a animação “Lego Batman: O filme” (2017) é uma ácida dissecação dos clichês narrativos das produções cinematográficas que adaptam as HQs de super-heróis. A produção dirigida por Chris McKay empreende uma verdadeira viagem estética dentro do gênero, indo da caracterização mais escapista e ingênua até as abordagens sombrias típicas desses últimos anos, mas sempre com um viés irônico. Os méritos do filme, entretanto, não se resumem apenas ao seu espírito de gozação. Seu grafismo explosivo revela um detalhismo imagético notável, além de recriar a ambientação de Gothan City combinando uma reverência retrô e alguns toques transgressores. Nesse sentido, é um trabalho bem mais criativo e ousado que a maior parte dos filmes “sérios” dentro da franquia Batman. Aliás, dentro desse lado de ser fiel à essência do protagonista e a atmosfera e contexto humano que o cercam, ainda que repleto de tiradas cômicas, o roteiro consegue delinear até uma sutil complexidade psicológica na caracterização egocêntrica de Batman e de sua doentia com o seu principal antagonista, o Coringa. O homem-morcego se mostra como um personagem bem mais cativante e mesmo ambíguo do que as caracterizações unidimensionais e embrutecidas de “Batman – O cavaleiro das trevas ressurge” (2012) e “Batman vs. Superman: A origem da justiça” (2016). Ainda sobre a trama, as cenas na Zona Fantasma e as referências sutis a uma possível homossexualidade de Robin são outras boas sacadas que valorizam o ótimo texto de “Lego Batman”, que ao se juntar a uma precisa dinâmica narrativa e cenas de ação coreografadas com requintes fazem dessa animação um filme de super-herói muito superior a qualquer coisa que tenha saído das linhagens Marvel e DC nas telas em 2016.

quinta-feira, fevereiro 16, 2017

Assim que abro meus olhos, de Leyla Bouzid ***

A diretora Leyla Bouzid usa uma estrutura narrativa básica em “Assim que abro meus olhos” (2016) de drama intimista para desenvolver o típico roteiro de uma adolescente na fase de descobertas sentimentais e que se encontra nos habituais conflitos de gerações com os seus pais. Ocorre, entretanto, que a trama tem como pano de fundo a Tunísia da época da primavera áraba, marcada pela tradicional repressão política-religiosa dos países islâmicos. Esse componente social se insere na história de maneira sutil – os temores da mãe da protagonista Farah (Baya Medhaffer) não se manifestam de forma expressa, mas a apreensão do seu olhar denuncia um ambiente de opressão e intolerância. A abordagem formal e emocional concebida por Bouzid é marcada por uma bem-vinda contenção dramática que impede que a produção caia em maiores excessos melodramáticos. Sua encenação também é um aspecto positivo do filme, principalmente quando mostra a rotina de Farah movida a sexo, cerveja e rock and roll. Nesse último aspecto, um dos grandes atrativos de “Assim que abro meus olhos” são os números musicais com a banda da protagonista, sequências que ressaltam tanto uma dinâmica desenvoltura cênica quanto uma musicalidade inebriante que mistura de maneira singular natural ritmos regionais e influências ocidentais.

quarta-feira, fevereiro 15, 2017

Toni Erdmann, de Maren Ade ***

As premissas da trama e mesmo o aparente subtexto de “Toni Erdmann” (2016) podem sugerir um aparente convencionalismo formal-temático, em que a história do relacionamento difícil entre Winfried (Peter Simonischek), um extrovertido e meio amalucado aposentado, e sua filha Ines (Sandra Hüller), executiva de uma consultoria internacional, se relaciona de forma simbólica, e por vezes até mesmo direta, com o cenário sócio-político de avanço do poder econômico de grandes corporações e a precarização das relações de trabalho no continente europeu (e por tabela, do resto do mundo). Ocorre, entretanto, que de forma sutil no desenrolar da narrativa a diretora Maren Ade vai descontruindo essa concepção artística tradicional através de insólitos truques estéticos e episódios desconcertantes no roteiro. Há avanços abruptos no aspecto temporal da trama, como se o filme buscasse uma narrativa descarnada e direta, além de uma atmosfera de constante estranhamento, em que os clichês do gênero melodrama são pervertidos com cruel ironia em um clima de comédia de absurdo. No primeiro terço da obra, tais soluções artísticas da cineasta demoram a apresentar uma fluência narrativa, mas lá pela metade do filme a esquisitice e o inesperado tomam conta de vez, fazendo com que “Toni Erdmann” se desenvolva numa ambientação algo alucinada, por vezes até beirando o nonsense, ainda que encenação e montagem tenham uma execução metódica e sem sobressaltos. Dentro dessas particulares concepções, o grande ápice criativo da produção é a antológica sequência da festa de aniversário de Ines, em que a personagem surta de vez, evidenciando uma sensação de perplexidade diante do absurdo da condição humana no mundo contemporâneo.

terça-feira, fevereiro 14, 2017

Epidemia de cores, de Mário Saretta ***

Em um primeiro momento, o documentário “Epidemia de cores” (2016) emula quase uma função de programa institucional ao mostrar a rotina dos internos do Hospital Psiquiátrico São Pedro, em Porto Alegre, em suas oficinas de artes onde se dedicam a pintar e escrever poemas. Com o desenvolvimento da narrativa, tal impressão aos poucos vai se desconstruindo devido ao peculiar tratamento formal-temático realizado pelo diretor Mário Saretta. Na verdade, o subtexto principal da obra estaria no questionamento de valores e concepções da sociedade moderna em relação àquilo que seria considero “normal”. O filme mantém sempre uma atmosfera ambígua, em que a fronteira entre loucura e a sanidade se mostra como algo muito tênue. Nesse sentido, há uma jogada narrativa engenhosa por parte de Saretta – nos depoimentos de pacientes, profissionais da saúde, estagiários e voluntários apena é contextualizado o nome de cada um dos entrevistados, e não a sua condição. É claro que na maioria das vezes se pode perceber claramente quem é aquele que é portador de distúrbios psiquiátricos, mas há momentos em que a dúvida paira de forma sutil e incômoda para o espectador. Tal concepção artística do documentário se relaciona também com um questionamento do papel do “louco” dentro de uma sociedade capitalista marcada pelo relação trabalho-consumo, em que o insano seria aquele que não se consegue mostrar como “útil” dentro desse binômio. Nessa definição, também se acaba refletindo sobre o próprio papel da arte dentro da referida sociedade – o que adianta sensibilidade cultural diante de um modo de vida que exige essencialmente do indivíduo os meios que permitam a aquisição do capital para a sua subsistência e legitimidade social perante os seus pares? O registro audiovisual que abarca essa amarga visão de mundo de “Epidemia das cores” é apropriado no seu misto de crueza e lirismo, em que Saretta consegue captar algumas sequências repletas de nuances dramáticas e mesmo simbólicas na rotina daqueles enquadrados pela sua lente, formando um expressivo panorama humanista.

segunda-feira, fevereiro 13, 2017

Sobre amanhã, de Diego de Godoy e Rodrigo Pesavento ***

Há um momento no documentário “Sobre amanhã” (2014) em que Edu K fala que nunca gostou de ensaiar muito com a sua banda DeFalla com medo de que tudo soasse muito perfeito, pois na lógica artística da banda sempre teria de haver algo “ruim” ou tosco na música concebida e executada por eles. Dentro de tal concepção, o filme dirigido por Diego de Godoy e Rodrigo Pesavento mostra sintonia existencial com a proposta do DeFalla. A narrativa demora até um pouco para se encontrar, com o terço inicial da obra ficando muito preso a um ranço jornalístico – há um excesso de informações que são atiradas como se o espectador assistisse a uma reportagem metida à espertinha da antiga MTV. Com o tempo, entretanto, o filme ganha mais consistência formal e temática, quando começa a deixar mais claro os dilemas e contradições que marcaram a trajetória do DeFalla, assim como consegue traçar um panorama histórico-cultural expressivo ao contextualizar o ambiente que cercava a banda. Os diretores incorporam a precariedades de alguns registros audiovisuais de arquivo como se fizessem parte da uma estética suja e esculachada que remete à própria sonoridade do grupo de Edu K e companhia. Tal abordagem narrativa dá à “Sobre amanhã” um certo encanto e sensorial e também valoriza a peculiar e transgressora arte de seus protagonistas, mostrando as várias facetas e fases de banda (o início new wave, a equação antológica de rock-funk-barulho dos dois primeiros discos, o peso descomunal na época dos shows do Teatro Presidente, a retomada nessa década da formação clássica) em sequências de performances memoráveis.

sexta-feira, fevereiro 10, 2017

Profissão: Ladrão, de Michael Mann ****

Dá para dizer que tudo aquilo que o diretor norte-americano Michael Mann depurou em termos de linguagem cinematográfica autoral ao longo dos últimos 35 anos já estava delineado de maneira magistral em “Profissão: Ladrão” (1981). E não somente dentro dessa perspectiva própria, pois o filme em questão dá a impressão de ser um dos moldes clássicos na formatação do cinema policial dos anos 80. Mann usa algumas referências básicas, como a construção psicológica seca e precisa típica de Jean-Pierre Melville e as cenas de ação em câmera lenta de Sam Peckinpah, e acrescenta detalhes cênicos e narrativos característicos do seu estilo. O resultado final dessa equação é antológico. É como se o gênero policial fosse descarnado até a sua essência, retirando o supérfluo e ficando apenas uma narrativa direta e concisa, mas que ainda assim preserva a profundidade na caracterização dos personagens, a coreografia precisa na ação cinematográfica e uma atmosfera sóbria e melancólica. A edição se alterna com perfeição entre o teor frenético dos cortes rápidos nas sequências de pancadaria e tiroteio e a dinâmica serena nas cenas intimistas e naquelas envolvendo os detalhistas roubos articulados e executados pelo protagonista Frank (James Caan), com a tensão dramática de tais tomadas serem bem pontuadas com a climática trilha sonora do Tangerine Dream. O conjunto geral de todas essas soluções artísticas mostra que há tempos Mann pode ser considerado um dos talentos mais singulares do cinema norte-americano contemporâneo

quinta-feira, fevereiro 09, 2017

Armas na mesa, de John Madden ***

Talvez o grande acerto artístico do diretor John Madden para “Armas na mesa” (2016) foi a escolha de Jessica Chastain para o papel da protagonista Elizabeth Sloane. A atriz tem uma forte presença cênica, dominando o filme de ponta a ponta com uma interpretação repleta de nuances dramáticas. Esse fator faz com que alguns convencionalismos excessivos do formalismo concebido por Madden e os exageros simplistas de passagens do roteiro acabem sendo atenuados. A obra se pretende como uma visão crítica sobre os bastidores da política norte-americana e do conservadorismo e hipocrisia de grande parte da sociedade dos Estados Unidos, principalmente no que diz respeito à irresponsável legislação sobre armas que permite eventos bárbaros como massacres em escolas e atentados terroristas. Por vezes, a trama consegue traçar um retrato contundente sobre a forma como moralismo cego e interesses políticos e econômicos escusos se fundem e geram um distorcido status quo. Ou seja, uma abordagem em perfeita sintonia com o nosso tempo, considerando que Donald Trump se encontra no comando da Casa Branca. Falta à produção, entretanto, um senso narrativo e um delineamento de história mais ousados. Os arroubos melodramáticos do roteiro e a assepsia estética de algumas sequências só conseguem se sustentar com um mínimo de credibilidade pela atuação cheia de convicção de Chastain e pelo caráter simbólico de determinadas situações da trama (principalmente pelo fato das escolhas de Sloane a levarem à cadeia e execração pública funcionarem como uma espécie de expiação pessoal deliberada da personagem).

quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Até o último homem, de Mel Gibson ***

Em termos conceituais, daria para dizer que a metade inicial de “Até o último homem” (2016) é necessária como uma espécie de preparação para o meio final do filme, tendo a função de fazer o desenvolvimento dramático de situações e personagens para garantir o impacto dramático das sequências de guerra. Na prática, entretanto, esta primeira metade acaba se revelando totalmente dispensável ao se revelar como um acúmulo mecânico de clichês narrativos despejados sem a menor inspiração por parte do diretor Mel Gibson, com personagens unidimensionais, encenação afetada e roteiro repleto de atos apelativos e moralistas. Até essa etapa, a produção parece uma junção pouco articulada de melodrama romântico e familiar meloso em excesso com drama de tribunal fajuto. Se Gibson tivesse dispensado tal parte constrangedora e fizesse um letreiro descritivo de fatos como aqueles da saga “Star Wars” teria poupado tempo e paciência do espectador. “Até o último homem” começa mesmo a fazer sentido quando entra as sequências de ação, ou sejas, as cenas de batalhas propriamente ditas. Daí sim dá para sentir a mão daquele cineasta que gerou obras memoráveis de alucinadas coreografias de brutalidade e sangue como “Coração valente” (1995), “A paixão de Cristo” (2004) e “Apocalypto” (2006). Ainda que tomadas por vezes por uma incômoda e excessiva atmosfera mista de religiosidade e patriotismo, as sequências de guerra apresentam uma eficiente síntese de violência gráfica, tensão dramática e realismo “sujo”. No cômputo geral, o filme está longe de brilhantismo formal e temático de outras produções contemporâneas que tiveram os campos de batalha da 2ª Guerra Mundial como cenário, vide “O resgate do soldado Ryan” (1998) ou “A conquista da honra” (2006), mas ainda assim garante Gibson como um nome de respeito dentro do cinema de ação.

terça-feira, fevereiro 07, 2017

A qualquer custo, de David Mackenzie ****

Com uma certe frequência tem aparecido nos últimos anos produções que se apresentam como faroestes contemporâneos, em que a estrutura narrativa se formata como uma releitura das principais características formais e temáticas do gênero, mas com tramas situadas em um plano temporal mais contemporâneo. Se algumas dessas obras utilizam essa abordagem por questões mais estéticas, vide o sensacional “Rejeitados pelo diabo” (2005), em “A qualquer custo” (2016) a aproximação com o western vem também por inquietantes razões sócio-políticas e existenciais. Nesse sentido, é de se reparar na forma em que os cenários interioranos do Texas são mostrados na tela – os grandes planos da direção de fotografia remetem a clássicos trabalhos de John Ford e Howard Hawks pela grandiosidade e beleza melancólica, mas também situam a conturbada situação econômica de grande parte da população norte-americana, mostrando fazendas em situação precárias e pequenas cidades de comércio arruinado e bancos prosperando. De certa forma, alguns faroestes crepusculares já apresentavam esse quadro em que por trás dos conflitos entre “mocinhos e bandidos” havia os interesses de instituições financeiras, corporações empresariais e grandes latifundiários em jogo. Um dos aspectos mais perturbadores do filme dirigido por David Mackenzie é justamente retratar com amarga ironia como certas coisas permanecem as mesmas na sociedade ocidental. A sutileza de tal subtexto de “A qualquer custo” vem acompanhada por uma reconstrução primorosa dos preceitos narrativos do faroeste. O delineamento de situações e personagens é feito de maneira serena e com profundidade psicológica, sem maniqueísmos e demais moralismos fáceis, fazendo com que a tensão fique cada vez mais palpável. No terço final, quando a ação fica mais intensa e gráfica, as explosões de violência têm considerável impacto dramático e se mostram coerentes com os dilemas cruciais da trama. As antológicas atuações de Jeff Bridges e Bem Foster e o os climáticos temas compostos por Nick Cave e Warren Ellis para a trilha sonora, aliados a ótimas canções country, pontuam com sensibilidade a narrativa de talhe clássico concebida por Mackenzie.