segunda-feira, julho 22, 2019

Só você, de Norman Jewison **


Quando se vê nos créditos de um filme o nome de um cineasta como Norman Jewison na direção, o mesmo cara que dirigiu filmes memoráveis como “A mesa do diabo” (1965), “No calor da noite” (1967) e “Feitiço da lua” (1987), além do fotógrafo favorito de Ingmar Bergman (Sven Nykvist), é claro que expectativa só pode ser alta. O resultado final de “Só você” (1994), entretanto, é tão banal e derivativo que fica difícil acreditar que os artistas mencionados realmente trabalharam nesse abacaxi. Provavelmente deve ter faltado algum dinheiro para pagar as contas para ambos e eles precisavam quebrar o galho de alguma forma qualquer, pois em nenhum momento da narrativa dá para perceber alguma espécie de transcendência estética ou temática. A não ser que alguém ache divertido ver a Marisa Tomei tentando ser a nova Audrey Hepburn de qualquer maneira.

sexta-feira, julho 19, 2019

Mulher infernal, de Dennis Dugan ***


O diretor norte-americano Dennis Dugan é uma espécie de especialista de comédias na linhagem besteirol. Não quer dizer, entretanto, que seja exatamente um exímio artesão no gênero. Pelo contrário – na maioria das vezes, seus filmes oscilam entre o médio e o escancaradamente ruim. Por vezes, consegue acertar e fazer algo de memorável. “Mulher infernal” (2001) é uma dessas exceções. É uma obra que consegue ironizar com verve e boas sacadas cômicas aqueles clichês machistas juvenis de uma parcela de “jovens adultos” do seu país. Steve Zahn e Jack Black conseguem extrair de seus papéis cativantes caracterizações e garantem boa parte do interesse pelo filme. É de se ressaltar também um certo talento de Dugan na encenação de algumas sequências de humor físico bem acentuado, beirando o pastelão grosseiro. No cômputo final, é claro que está bem distante de ser uma obra-prima da comédia, mas é bem acima da média em relação ao que Dugan costuma fazer.

quarta-feira, julho 17, 2019

Johnny English, de Peter Howitt *


Não adianta: a missão de vida de Rowan Atkinson é interpretar o Mr. Bean. Fora do personagem, é como se o ator perdesse a sua magia e ficasse ruminando maneirismos típicos de sua clássica criação. “Johnny English” (2003) é exemplar claro disso – trata-se de mais uma recriação cômica da figura de James Bond (desde os anos 60 periodicamente aparece alguma produção fazendo isso...). Por vezes, o filme chega a ser quase engraçado, principalmente em suas sequências iniciais. Lá pela metade da narrativa, entretanto, o interesse pela obra já se dissipou e tudo fica chato de vez. No fim das contas, é bem mais negócio rever algum episódio do Mr. Bean...

terça-feira, julho 16, 2019

Sicário: Dia do soldado, de Stefano Sollima **


Ainda que tivesse um roteiro um tanto derivativo, “Sicário: Terra de ninguém” (2015) impressionava por uma notável conjunção entre uma encenação precisa e uma concepção formal apurada, destacando uma direção de fotografia fenomenal e uma música incidental bastante singular. Nesse expressivo conjunto artístico, era impossível não lembrar de algumas das melhores produções dirigidas por Michael Mann. Sua continuação, “Sicário: Dia de soldado” (2018), na comparação, deixa muito a desejar. Sua articulação narrativa-estética é apenas correta, transcendendo quase nada dentro daquilo que se faz no gênero policial/ação atualmente. A trama continua pecando pela pouca originalidade, além de pender para incômodos clichês machistas. Ou seja, a típica continuação irrelevante que talvez nem precisasse existir.

segunda-feira, julho 15, 2019

Anos 90, de Jonah Hill ***1/2


Aqueles que acham que a caracterização pueril e estereotipada de adolescentes em “Homem-Aranha: Longe de casa” (2019) pode ser considerada algo convincente acabarão por levar um susto se assistirem a “Anos 90” (2018). Esse filme dirigido por Johan Hill, mais conhecido como ator por algumas interpretações antológicas (“Superbad”, “O lobo de Wall Street”), é um retrato da juventude marcado por uma concepção estética-temática que sintetiza crueza e poesia. Mesmo uma junção que hoje em dia pode parecer tão batida quanto skate e música pop/rock (a trilha é um belo apanhado de raps e hardcores memoráveis dos anos 80 e 90) acaba ganhando uma dimensão imagética-sensorial surpreendente na forma com que Hill conduz a narrativa. É como se “Kids” (1995) fosse recriado sob uma perspectiva menos afetada e fetichista e se concentrasse em um olhar mais humanista. A caracterização de personagens e situações tem complexidade e profundidade psicológica, ao mesmo tempo que a narrativa é fluente, envolvendo o espectador a partir de uma encenação que privilegia a forte expressão dramática e corporal do elenco (nesse aspecto, toda a ala de crianças e adolescente é um capítulo à parte em termos de atuações intensas – é provável que os anos como intérprete de Hill tenham contado como efetiva experiência para a sua excelente direção de atores).

sexta-feira, julho 12, 2019

Megarromântico, de Todd Strauss-Schulson *


Uma comédia romântica tirando sarro das comédias românticas, mas que ao mesmo tempo se rende a todos os clichês do gênero? Sim, isso já foi feito várias vezes e na maioria das vezes o resultado final foi desastroso. E com “Megarromântico” (2019) essa tradição não muda.

quinta-feira, julho 11, 2019

Homem-Aranha: Longe de casa, de Jon Watts **1/2


Por mais que se exalte uma coerência mercadológica e artística dos Estúdios Marvel na elaboração e execução de seu universo cinematográfico, coisa que outras franquias de super-heróis nas telas não conseguem ter, fica cada vez mais evidente em seus filmes recentes que seus criadores estão ficando perto de um beco estético-temático sem saída. “Homem-Aranha: Longe de casa” (2019) é exemplo claro dessa encruzilhada – é um filme divertido por vezes, há algum carisma em seus personagens, mas a impressão final é de algo tão pueril que pouco consegue extrair alguma efetiva tensão dramática de seus momentos cruciais. Ainda que ocorra vez e outra algumas boas soluções narrativas, com destaque para as cenas em que o herói aracnídeo e seu antagonista Mysterio duelam em meio a cenários delirantes de uma realidade que se transforma constantemente, o que prevalece para o espectador é a sensação de uma colcha-de-retalhos preguiçosa, misturando de maneira mecânica elementos diversos de comédia-romântica adolescente, aventura estilo James Bond (com diretos a vários cenários exóticos/turísticos) e a fórmula típica (e asséptica) de filmes contemporâneos de super-herói. Quem quiser ficar com uma obra memorável recente do alter ego de Peter Parker pelo jeito vai ter de ficar mesmo com a ótima animação “Homem-Aranha no aranhaverso” (2018).

quarta-feira, julho 10, 2019

O homem duplicado, de Denis Vileneuve **


Por vezes, pode-se perceber na narrativa de “O homem duplicado” (2014) alguma tentativa de transcender a obviedade dentro da temática do duplo, principalmente quando aborda a questão do vazio existencial que perpassa as vidas dos dois personagens interpretados por Jake Gyllenhaal. Em tais momentos, pode-se perceber fragmentos de uma visão mais sutil e irônica, característica típica da escrita de José Saramago, autor da obra literária na qual o filme de Denis Vileneuve. Mas são apenas em algumas sequências que se pode perceber essa fuga da previsibilidade artística. Vileneuve é até um diretor competente, principalmente no que diz respeito a uma dinâmica cênica que se evidenciou em bons filmes como “Sicário” (2015) e “A chegada” (2016). Em outras obras, entretanto, sua concepção estética-temática se revela superficial, resvalando em clichês formais e textuais poucos inspirados, o que representa bem o caso desse “O homem duplicado”.

segunda-feira, julho 08, 2019

Uma relação delicada, de Catherine Breillat ***


Há uma densa relação de prolixidade dos diálogos e intensa carnalidade em “Uma relação delicada” (2013), combinação essa característica de boa parte do cinema francês. Para a diretora Catherine Breillat, o estranho relacionamento entre a renomada cineasta Maud (Isabelle Huppert) e o picareta Vilko (Kool Shen) é um agudo pretexto temático para esmiuçar de maneira sutil e sardônica os conflitos de classe e o vazio existencial do mundo pequeno-burguês ocidental. Na narrativa árida do filme, o sentimentalismo passa longe, e o que predomina é uma incômoda sensação de interesses e desejos que estão sempre escusos ou mal explicados. O que era para ser uma espécie de pesquisa de campo ou mesmo uma jornada de autodescoberta para Maud acaba se transformando em uma espécie de pesadelo, quase como um mergulho no coração das trevas de um ordenamento social que ela achava conhecer. Boa parte da força dramática do filme se concentra na delicada composição cênica de Huppert, que varia sua interpretação com notável versatilidade entre um ar blase e a pura perplexidade patética.

sexta-feira, julho 05, 2019

Divino amor, de Gabriel Mascaro ***1/2


Pela filmografia prévia do diretor Gabriel Mascaro e por sua temática polêmica (uma sociedade brasileira futurista distópica onde religiões evangélicas capturaram o estado nacional), era de se imaginar que em “Divino amor” (2019) o tom da narrativa e a abordagem existencial da matéria tivessem um teor mais explosivo. Pois é justamente o contrário que ocorre no filme. Mascaro investe em um tom contemplativo e ambíguo, em que os elementos cênicos e textuais se inserem com sutileza e naturalidade. Mesmo a concepção visual inerente ao gênero ficção científica onde a obra se insere recebe um tratamento quase que apenas de nuances, em que detalhes imagéticos da fotografia e direção de arte fazem essa sugestão de um futurismo beirando o naïf. Tal direcionamento artístico não é gratuito: nesse contexto de um país amplamente dominando por uma doutrina religiosa de forte teor obscurantista, a insipidez clean de cenários e figurinos denota uma ambientação entre o inexpressivo e o opressor. Se por vezes há uma insinuação de um hedonismo quase inconsciente em festas rave-gospel e em surubas controladas por pastores, em outros momentos a indigência intelectual de pregações e canções e o moralismo exacerbado de aconselhamentos configuram uma atmosfera de pesadelo sufocante. Tais contrastes na narrativa provocam uma sensação de desconforto desconcertante para o espectador. E de maneira progressiva, aquilo que era para ser um retrato entre o intimista e o sócio-político de um futuro marcado pela alienação e desolamento vai se convertendo aos poucos em uma espécie de perversa parábola bíblica. Na conclusão de “Divino amor”, todos aqueles elementos narrativos que pareciam dispersos e contrastantes convergem para uma perturbadora síntese de ironia, amargura e desafio, em um resultado final memorável que provavelmente ficará grudado no imaginário de quem assiste por um bom tempo.

terça-feira, julho 02, 2019

Uma juventude alemã, de Jean-Gabriel Périot ****


Estranhas coincidências... Há poucas semanas passadas foi exibida no Cinema Capitólio a versão do diretor Luca Guadagnino para “Suspiria” (2018), sendo que nessa recente adaptação a trama fica situada na Berlin de meados dos anos 70, havendo várias referências históricas à atuação do grupo de esquerda radical Baader Meinhof. Poucos dias depois, o mesmo cinema exibiu “Uma juventude alemã” (2015), documentário que expõe a trajetória do referido grupo. É curioso que ambos os filmes evitam tanto o olhar moralizante quanto a anódina abordagem acrítica. Se o horror ficcional de Guadagnino faz um perturbador paralelo existencial entre o grupo e uma confraria de bruxas (que também é uma escola de balé!), no sentido de serem agrupamentos de ações violentas de caráter libertário/contestatório, a obra documental dirigida por Jean-Gabriel Périot é um fascinante de misto de viagem sensorial e relato histórico sobre o controvertido histórico do Baader Meinhof. O fato do grupo ter entre seus membros estudantes de cinema e jornalistas parece influenciar na própria formatação narrativa do documentário, fazendo com que fique estabelecida quase que de maneira constante uma contraposição dialética na colagem/edição do material de arquivo. Assim, as filmagens de reportagem da época, a reproduzirem debates e ações de conflito nas ruas, trazem em seu âmago um discurso oficialista e conservador, sempre em tom desaprovador das ações do grupo (tanto nos debates e protestos pacíficos quanto nas ações terroristas), enquanto o material cinematográfico confeccionado por membros do próprio Baader Meinhof e os trechos de filmes ficcionais relativos a essa temática de insurreições ironizam e desconstroem esse mesmo discurso oficial. E na tensão entre tais estéticas e discursos é que se evidencia o particular caráter artístico/político de “Uma juventude alemã” – mais do que uma pretensa (e mentirosa) abordagem “isenta”, é uma obra que evita o maniqueísmo fácil e ressalta a complexidade sócio-ideológica dos conflitos da época. Nesse vórtice atordoante imagético-textual, fica por vezes em primeiro plano a brutalidade das ações terroristas do Baader Meinhof, mas também se valoriza que por trás de um discurso de radicalismo também havia um arguto e legítimo raio x sobre as ações discriminatórias e opressivas de um governo submetido aos ditames políticos e econômicos de interesses exclusivos da ala burguesa da sociedade alemã. A melancólica e poética conclusão de “Uma juventude alemã” realça com brilhantismo esse olhar lúcido e nada banal sobre um conflito que em sua essência perdura até os dias de hoje em âmbito mundial.

segunda-feira, julho 01, 2019

Vidas duplas, de Olivier Assayas ***


Por vezes, a produção francesa “Vidas duplas” (2018) passa a impressão que o seu diretor Olivier Assayas estava mais interessado no filme como um veículo para impressões culturais-políticas-existenciais sobre o mundo contemporâneo do que propriamente entregar uma obra perfeitamente acabada em termos narrativos. Não que o filme padeça de alguma indigência formal – na realidade, é até um trabalho bem envolvente para espectador em alguns momentos. Pesa no filme, entretanto, uma prolixidade nos diálogos, que aparentam uma necessidade urgente em abarcar vários dilemas da pós-modernidade que nos afligem. Nessa ânsia, dá para dizer que há um exagero em discussões tecnológicas e econômicas que fazem com que o longa tenha um certo ar datado, distante, dessa forma, da beleza atemporal de obras como “Depois de maio” (2012) e “Personal shopper” (2016), primorosos trabalhos anteriores de Assayas. Ainda assim, a sobriedade da encenação e o desempenho dramático preciso do elenco fazem com que o filme adquira em algumas sequências uma frequência sensorial algo hipnotizante, em que a profundidade dos diálogos e situações do roteiro e uma interessante atmosfera mista de ironia e melancolia levam o espectador para uma serena zona entre o encanto e a reflexão.

quarta-feira, junho 26, 2019

Dor e glória, de Pedro Almodóvar ***


Na maioria das oportunidades, quando um cineasta de forte traço autoral resolve realizar um filme de teor autobiográfico, o resultado final costuma ser memorável. Afinal, há um artista de visão criativa e existencial diferenciada a refletir sobre o próprio passado sob uma perspectiva subjetiva particular e mais livre das amarras mercadológicas. Dentro de tal concepção, por exemplo, diretores consagrados como Federico Fellini, Ingmar Bergman, John Boorman e Woody Allen conceberam trabalhos antológicos como, respectivamente, “Amarcord” (1973), “Fanny e Alexander” (1982), “Esperança e Glória” (1987) e “A era do rádio” (1987). Assim, um filme como “Dor e glória” (2019) acaba sendo um tanto decepcionante. Afinal, trata-se de obra baseada nas lembranças pessoais de seu diretor, o espanhol Pedro Almodóvar, um dos grandes diretores em atividade. É claro que não chega a ser ruim – pelo contrário, por vezes é até uma obra bem envolvente. A impressão constante, entretanto, é que alguns elementos temáticos e estéticos presentes no longa em questão já foram muito melhor trabalhados em trabalhos anteriores de Almodóvar. As sequências em aparente flashback são exemplos claros de uma certa falta de vigor de “Dor e glória” – são corretas, mas genéricas, quase nem parecendo que são de autoria de alguém de abordagem artística tão original e característica quanto Almodóvar. É claro que alguns detalhes fazem o filme valer uma conferida, principalmente pela ótima atuação de Antonio Banderas e o conjunto fotografia-direção de arte repleto de belos achados imagéticos. Ainda assim, pode ficar para o espectador aquela sensação de que no conjunto geral poderia ter sido bem melhor.

sexta-feira, junho 21, 2019

Suspiria, de Luca Guadagnino ****


No terreno das refilmagens, poucas obras podem ser consideradas como verdadeiras recriações tais como a recente versão de “Suspiria” (2018). Se o filme original dirigido por Dario Argento, lançado em 1977, era uma combinação brilhante de violento terror gráfico e barroquismo beirando o delirante, aliada a um roteiro que respeitava a tradicional divisão maniqueísta entre o bem e o mal (nesse último caso, representado na figura das feiticeiras), na revisão do cineasta Luca Guadagino permanece um formalismo de forte caráter virtuosístico, mas o horror agora recebe uma forte conotação de simbologias sócio-políticas. O papel das bruxas ainda é a de antagonistas, ainda que se contextualizando em aspectos existenciais mais complexos. A trama é inserida em um conturbado contexto local-histórico – a Alemanha de meados dos anos 70 tomadas por manifestações estudantis em prol de grupos terroristas. Se tais organizações eram vistas por alguns como legítimas contestações ao ordenamento burguês-cristão-patriarcal da sociedade ocidental, as bruxas que comandam uma academia de dança moderna em Berlin acabam ganhando de maneira perversamente sutil (e cortante) essa conotação de desafio à ordem vigente. Sem simplificar essas questões histórico-políticas, o filme faz um inventário artístico-temático sensível e contundente de fatos decisivos na formação cultural do século XX – 2ª Guerra Mundial, Guerra Fria, contracultura – evidenciando para a humanidade um período em que os conflitos armados, a exploração sócio-econômica e a opressão religiosa-comportamental criaram um ambiente de paranoia e violência (com reflexos que sentimos até os dias de hoje). Guadagnino ainda aproveita as possibilidades criativas de boa parte da história se desenvolver em uma academia de dança expondo na tela sequências luxuriantes e perturbadoras de balés coreografados com precisão e originalidade atordoantes. Nesse sentido, a síntese entre dança e horror faz lembrar outra obra extraordinária lançada recentemente, “Clímax” (2018). É claro que a particular concepção artística engendrada por Guadagnino provocou repulsa em boa parte dos apreciadores do longa de Argento e mesmo de fãs de terror convencional, mas o que realmente frustraria seria tentar adaptar a obra original mimetizando preguiçosamente maneirismos estéticos e textuais de quarenta anos atrás. Nesse sentido, a visão autoral de Guadagnino na verdade também serve para atestar a atemporalidade do filme de Argento mostrando a impossibilidade de apenas tentar repetir aquilo que já havia sido feito com brilhantismo nos 70.

quarta-feira, junho 12, 2019

Compra-me um revólver, de Julio Hernández Cordón ***1/2


A referência mais óbvia que vem à mente ao se assistir à produção mexicana “Compra-me um revólver” (2018) é “Mad Max – Além da cúpula do trovão” (1985). Afinal, o filme dirigido por Julio Hernández Cordón é uma ficção-científica futurista distópica tendo entre seus principais personagens crianças órfãs abandonadas sobrevivendo em um ambiente hostil. Ao invés de adotar o tom espetaculoso/apoteótico do clássico oitentista de George Miller, esse longa-metragem mais recente se utiliza de uma concepção narrativa-estética mais contida e de uma encenação sóbria, em que efeitos especiais praticamente inexistem e a economia de recursos é determinante em termos de direção de arte e fotografia. E tudo isso que poderia ser visto como um limitador criativo na verdade se converte em uma grande força artística no filme de Cordón, pois aproxima um possível futuro tenebroso de um presente não muito diferente, causando para o espectador um efeito sensorial/existencial perturbador (caos social, exploração humana, violência desmedida, machismo e abandono infantil não estão distantes da realidade do México e de vários outros países da América Latina). O limite entre a sufocante tensão dramática de um thriller de suspense e a reflexão melancólica do subtexto de forte teor sócio-político é sempre difuso, fazendo com que a ligação entre esses dois lados da obra seja intrínseca de maneira contundente. Ainda que a dureza temática e formal predomine na narrativa, “Compra-me um revólver” sabe se permitir nos momentos certos uma certa dose de poesia, conforme se pode perceber em sua evocativa sequência de conclusão.

terça-feira, junho 11, 2019

Thriller - Um filme cruel, de Bo Arne Vibenius ****


Na sessão comentada da produção sueca “Thriller – Um filme cruel” (1973) realizada na última edição do FANTASPOA, a atriz Christina Lindberg disse que o filme em questão teria sido feito pelo diretor Bo Arne Vibenius com a intenção principal de ganhar um bom dinheiro, tendo em vista que o cineasta na época se encontrava na época em séries dificuldades financeiras, abusando, dessa forma, de alguns dos preceitos básicos do cinema exploitation da época, principalmente nos quesitos violência gráfica e sexo explícito. Por mais que a obra seja apelativa no uso constante de tais elementos de choque, entretanto, seu resultado final acabou extrapolando os meros fins lucrativos aludidos por Lindberg. Por mais que a brutalidade e pornografia estejam presentes, elas são incorporadas dentro de uma atmosfera desolada e uma narrativa sóbria, por vezes quase rarefeita, além de um subtexto repleto de ironia perversa, o que faz com que o conjunto estético-temático possua aquela bizarra síntese de repulsa e encantamento dos melhores filmes da linhagem exploitation setentista. Detalhes cênicos como as estranhas sequências de ação em câmera lenta e a atuação icônica de Lindberg fazem entender por que Quentin Tarantino sempre cita “Thriller” como uma das suas grandes inspirações criativas.

segunda-feira, junho 10, 2019

Viagem ao mundo da alucinação, de Roger Corman ***1/2


Ainda que seja um diretor bastante cultuado, Roger Corman foi antes de mais nada um grande homem de negócio dentro do cinema. Mesmo os antológicos filmes que realizou adaptando a obra literária de Edgar Allan Poe são frutos principalmente de um afiado senso de oportunidade mercadológica e de utilização de recursos de produção. Essa mesma lógica artística-comercial o levou a realizar alguns longas dentro da temática sexo-drogas-rock and roll quando essa tríade estava no auge em meados dos anos 1960. “Viagem ao mundo da alucinação” (1967) talvez seja o exemplar mais emblemático de tal tendência, tendo também relevante conotação histórica por trazer em seu elenco e equipe criativa os nomes de profissionais que poucos anos mais tarde estouraram em Hollywood como Jack Nicholson, Denis Hooper, Peter Fonda e Bruce Dern. Por outro lado, o filme de Corman transcende a mera curiosidade histórica ou comercial, tendo um peso artístico considerável. Em meio a maneirismos típicos de um caráter exploitation há momentos efetivamente antológicos, em que as angústias e inquietações existenciais do roteiro encontram uma moldura estética-narrativa mais que adequada. Truques imagéticos baratos, encenação vigorosa e uma trilha sonora que sintetiza rock psicodélico e easy listening de maneira notável formam um todo sensorial entre o atordoante e o encantador. Nessa levada, Corman articula com sensibilidade e ironia a sua particular visão sobre o universo lisérgico sessentista.

quinta-feira, junho 06, 2019

Mutant Blast, de Fernando Alle ***


Uma produção portuguesa de baixo orçamento envolvendo zumbis e uma sociedade pós-apocalipse? É claro que uma obra assim só poderia ser encarada como comédia. E o diretor Fernando Alle tem a plena consciência disso na realização de “Mutant Blast” (2018), fazendo de suas limitações de recursos e de uma sagaz criatividade formal/artesanal seus principais trunfos para realizar um longa divertido tanto em termos de ação quanto de ironia ácida. E o próprio fato dos atores falarem seus diálogos repleto de clichês do gênero com um sotaque lusitano dá um charme cômico para tudo isso ainda maior. É claro que nem sempre o tom debochado/esculachado do filme consegue garantir o equilíbrio narrativo, mas a série considerável de boas sacadas estéticas e textuais segura o interesse do espectador – nesse sentido, é de se destacar a atuação bonachona de Pedro Barão Dias no papel principal e a caracterização física-existencial de um refinado homem-lagosta!

quarta-feira, junho 05, 2019

Mormaço, de Marina Meliande ***


Não há como não traçar paralelos entre “Mormaço” (2018) e “A sombra do pai” (2018). Ambas são obras dirigidas por mulheres que enveredam para o gênero fantástico visando configurar alegorias sócio-políticas do Brasil contemporâneo. Se no filme de Gabriela Amaral Almeida há a predominância de um viés intimista, no longa dirigido por Marina Meliande a trama abarca um espectro maior, focalizando as ações do governo carioca para desalojar várias famílias de seus lares para executar as obras das Olimpíadas de 2016 e a contrarreação de populares para evitar tais despejos. Ainda que bem-intencionadas e louváveis, as sequências de caráter mais realista a focalizar discussões em gabinetes e tribunais e enfrentamentos físicos entre agentes da segurança e moradores por vezes têm uma fluência narrativa e mesmo encenação mais truncadas, pouco fluidas. O filme de Meliande realmente transcendo quando parte para uma concepção estética-temática que sintetiza teor imagético simbolista e horror metafísico, principalmente no terço final da narrativa, quando a doença de pele da protagonista Ana (Marina Provenzzano) se acentua e a personagem entra em um processo de fusão com o prédio deteriorado onde mora. O subtexto é claro e perturbador – a dissolução física de Ana corresponde à deterioração moral-ética da própria capital carioca, em que o antigo e tão decantado Rio de Janeiro marcado por um imaginário gentil e poético dá lugar a uma metrópole desumana e implacável contra aqueles sócio-economicamente fragilizados, em um retrato metafórico que serve também como moldura exata para o Brasil pós-golpe parlamentar.

terça-feira, junho 04, 2019

Vingadores: Ultimato, de Joe e Anthony Russo ***


Em tempos conturbados e complexos como o que vivemos, um filme-evento como “Vingadores: Ultimato” (2019) acaba não se tratando de apenas mais um blockbuster milionário. Por mais que a obra dos diretores Joe e Anthony Russo tenha mobilizado e emocionado milhões de espectadores, não há como dissociar suas conquistas das táticas de marketing agressivo/predatório de produtores e distribuidores. É só pensar, por exemplo, que o fato de ter abocanhado quase 90% das salas em território brasileiro contribuiu bastante para sua performance arrecadatória. É claro que quando a Marvel ascendeu como editora relevante de quadrinhos nos anos 1960 tinha como fim o sucesso comercial. É fato também, entretanto, que as HQs de Stan Lee e companhia tinham um caráter de reflexão cultural do mundo naquela época, o que ficou ainda mais evidente nas sutis tendências no subtexto de caráter libertário e crítica social de algumas de suas principais revistas na década de 70 (presente, inclusive, nas tramas cósmicas envolvendo Thanos). Assim, é algo decepcionante que o tom conformista e previsível de “Vingadores: Ultimato” seja predominante. A gente pode perceber a coerência temática que se construiu ao longo de anos em que filmes interagiram dentro desse universo com naturalidade, além de um competente padrão estético-narrativo na concepção visual e na coreografia da ação – “Ultimato”, aliás, coroa com eficácia tais atributos. A produção, contudo, pouco transcende dessa formatação, culpa de um roteiro fortemente esquemático. Há a pretensão de se apresentar épico, grandioso, mas a duração excessiva e as quedas seguidas para golpes melodramáticos tornam o filme por vezes bem anticlimático. Todas essas considerações não querem dizer que temos uma produção ruim. Pelo contrário – “Vingadores: Ultimato” diverte, até emociona em algumas passagens, além de não dar aquela impressão “nas coxas” dos filmes da DC. O que frustra mesmo é a sua incapacidade (ou mesmo falta de vontade) de sair dos ditames corporativos dos seus donos.

quarta-feira, maio 15, 2019

A sombra do pai, de Gabriela Amaral Almeida ***1/2


Apesar de ter apenas dois longas-metragens em seu currículo como diretora, pode-se observar nessa ainda breve filmografia de Gabriela Amaral Almeida uma notável coerência artística-existencial. Ambas as obras, “O animal cordial” (2018) e “A sombra do pai” (2019), vinculam-se ao gênero horror, mas com sutis e decisivas diferenças. Se o primeiro filme se estrutura como um tenso suspense psicológico a retratar em seu subtexto a desagregação ética e intelectual da classe média brasileira, no trabalho mais recente da cineasta a abordagem narrativa se desenvolve dentro do universo fantástico para fazer uma radiografia pungente e melancólica da opressão sócio-econômica sobre as camadas mais desfavorecidas da sociedade nativa. É fascinante como “A sombra do pai” concilia de maneira fluente os preceitos narrativos típicos do tradicional horror sobrenatural, com direito a citações explícitas a “A noite dos mortos-vivos” (1968) e “Cemitério maldito” (1989), com elementos temáticos e estéticos do sincretismo religioso e cotidiano brasileiros (nesse sentido, não há como não lembrar do extraordinário “Quando eu era vivo”, obra em que Gabriela era também roteirista). Nessa combinação de influências diversas, ainda que o filme traga alguns memoráveis momentos assustadores na caracterização de almas penadas e situações de magia negra, fica evidente que na visão da obra a efetiva ação de uma força “das trevas” está no processo de desumanização e embrutecimento das classes trabalhadoras diante de uma rotina laboral de exploração econômica e alienação que as converte em uma massa de zumbis desolados e suicidas. Ainda assim, “A sombra do pai” consegue oferecer de maneira comovente alguma esperança em sua bela conclusão de tom fabular e teor desafiador contra o ordenamento burguês-cristão.

terça-feira, maio 14, 2019

Em trânsito, de Christian Petzold ***1/2


Em seus últimos trabalhos, o diretor alemão Christian Petzold elaborou uma instigante síntese narrativa, em que preceitos convencionais do gênero melodrama e de filmes de época se entrelaçam com discretas nuances de estilização. “Em trânsito” (2018), sua obra mais recente, radicaliza essa particular concepção artística. O roteiro tem fortes vínculos com a escola de realismo, mas encenação e direção de arte formulam um universo existencial paralelo – a trama até deixa claro que se situa na tomada da França pelos alemães na 2ª Guerra Mundial, só que figurinos e a caracterização ambiental são contemporâneas. A simbologia é simples, quase óbvia, e também altamente eficaz, ao fazer a relação com os procedimentos de perseguição étnica e social adotadas pelos nazistas com as práticas desumanas na atualidade de ataques xenofóbicos a imigrantes e em outras ações de opressão econômica-social por parte de vários governos no mundo ocidental contemporâneo. Ao longo da narrativa, a abordagem temática-estética de Petzold vai se revelando cada vez mais intrincada, fazendo com que elementos literários e teatrais sejam inseridos e demonstrem fluências na fusão com a própria linguagem cinematográfica da obra. São notáveis, por exemplo, as sequências em que a narração over mostra uma sintonia frágil com aquilo que está em cena, como se soubesse apenas fragmentos da história que está sendo contada. Tal concepção realça ainda mais a complexidade dos personagens e situações do roteiro, reforçando uma visão poética e fatalista em relação àquilo que está em cena.

sexta-feira, maio 10, 2019

Romeu tem que morrer, de Andrzej Bartkowiak ***


A premissa inicial do roteiro de “Romeu tem que morrer” (2000) faz presumir uma picaretice – a trama “atualiza” o clássico de Shakespeare “Romeu e Julieta” na cidade de San Francisco do final do século XX em meio a uma guerra de gangues entre afro-americanos e chineses (de certa forma, algo parecido até foi feito na obra-prima “Amor, sublime, amor”). E na realidade, o filme dirigido por Andrzej Bartkowiak realmente tem algo de oportunismo mercadológico. Agora, se encararmos essa parte textual da produção como mero pretexto para algumas boas sequências de pancadaria no estilo arte marcial, dá até para dizer que as coisas funcionam e o resultado final da obra é bem divertido. As coreografias de lutas protagonizadas por Jet Li tem desenvoltura e criatividade, fazendo uma memorável junção dos preceitos estéticos do cinema oriental do gênero com a formatação tradicional do policial norte-americano. Claro que não há nada aqui de necessariamente revolucionário, mas tem os seus momentos acima da média.

quinta-feira, maio 09, 2019

A lenda dos oito samurais, de Kinji Fukarasu **1/2


Mesmo para um padrão de aventura japonesa oitentista “A lenda dos oito samurais” (1983) pode ser considerado uma tremenda tosquice. É uma junção desajeitada entre fantasia e a mitologia samurai e que, apesar de datada em vários aspectos, tem os seus momentos divertidos e por vezes até inquietantes, principalmente pelo fato de investir em um grafismo mais violento e sórdido. Funciona como curiosidade. E quase só...

quarta-feira, maio 08, 2019

Jurassic World: Reino ameaçado, de Juan Antonio Bayona *


Se “Jurassic World: O mundo dos dinossauros” (2015) era uma retomada anódina do universo de dinossauros da franquia “Jurassic Park”, esse “Jurassic World: Reino ameaçado” (2018) descamba de vez para a picaretice descarada. É como se os produtores pegassem as ideias mais estapafúrdias de produções oportunistas que imitaram a série cinematográfica criada por Spielberg, dessem recursos milionários típicos de grandes estúdios e entregassem a direção para um cara qualquer nota. O resultado é uma obra que emula preguiçosamente ideias visuais e clichês textuais dos filmes anteriores, incapaz de gerar alguma tensão dramática ou mesmo alguma cena que fuja do trivial. Salva um pouco a barra do longa dirigido por Jan Antonio Bayona o terço final da narrativa, no sentido de ser tão cretina a ideia de um leilão de dinossauros que acaba rendendo alguns momentos de humor involuntário. Resta no final a curiosidade em se imaginar o quão baixo os produtores da franquia descerão no próximo filme (afinal, as enormes bilheterias na arrecadação e os ganchos escancarados na conclusão dão a certeza de mais uma produção com dinossauros digitalizados).

terça-feira, maio 07, 2019

Pequena grande vida, de Alexander Payne **


No melhor de sua filmografia, o diretor norte-americano Alexander Payne foi responsável por uma fina síntese narrativa de ironia ácida e densidade dramática. É só conferir isso em “Eleição” (1999), “As confissões de Schmidt” (2002) e “Nebraska” (2013). Sua particular concepção artística, entretanto, desmorona em “Pequena grande vida” (2017). O que era para ser uma sardônica ficção científica repleta de subtexto sócio-político acaba se convertendo em uma pálida fábula. O início do filme é até promissor: o roteiro insinua alguns rumos interessantes, as trucagens digitais com as pessoas miniaturizadas têm um divertido charme imagético e a encenação apresenta originalidade na forma com que realismo e absurdo se alternam. Aos poucos, as boas promessas criativas vão se esvanecendo com a falta de um rumo mais definido da trama e o tom apático das interpretações. Não chega a ser especialmente ruim, é só anódino de maneira anestesiante.

sexta-feira, maio 03, 2019

Wilson, de Craig Johnson **


Se você quer conhecer um filme que serve como exemplo de como não se deve adaptar uma ótima história em quadrinhos para o cinema, recomendo que assista a “Wilson” (2017). Toda aquela sardônica narrativa da graphic novel original escrita e desenhada pelo brilhante quadrinhista Daniel Clowes, que combina melancolia e ironia destinadas a fazer um ácido retrato dos valores pequeno-burgueses da sociedade norte-americana, acaba sendo reduzida a um conto fofinho de autoajuda. O início do filme até dá uma enganada, é onde se concentra os momentos de humor mais sacana do roteiro, mas ao longo da trama isso vai se diluindo em doses enjoadas de assepsia visual e diálogos engraçadinhos. A esforçada interpretação de Woody Harrelson no papel título procura dar alguma dignidade para o longa. Acaba senso insuficiente, entretanto, diante da direção preguiçosa e sem graça de Craig Johnson. Se você não conhece a HQ de Clowes, corra para ler e esqueça esse filme medíocre.

quinta-feira, maio 02, 2019

A maldição da chorona, de Michael Chaves *1/2


A franquia “Invocação do mal” e seus derivados estão mais vinculados a um conceito de “terror carola cristão”, ou sejam, parece que sua preocupação maior está em difundir os valores católicos (e religiões assemelhadas) do que propriamente em construir uma obra de horror convincente em termos artísticos. “A maldição da chorona” (2019) é exemplar enfático dessa tendência da franquia. Assim como em “Anabelle” e “A freira”, a estrutura narrativa apenas repete uma fórmula gasta, algo como uma derivação qualquer nota de “O exorcista” (1973). Os truques de sustos são previsíveis a um ponto de serem incapazes de provocar algum susto satisfatório, enquanto a caracterização visual é preguiçosa e pouco imaginativa (a personagem-título repete todos os maneirismos imagéticos da assombração de “A freira”). Todo esse conjunto formal-narrativo embala uma trama óbvia e conservadora de doer – com direito a um ex-padre renegado como herói durão e uma série de situações estereotipadas reveladoras de uma visão de mundo reacionária e preconceituosa. De certa forma, o filme do diretor Michael Chaves está em perfeita sintonia existencial com os tempos de obscurantismo e opressão sócio-religiosa que vivemos.

terça-feira, abril 30, 2019

O valor de um homem, de Stéphane Brizé ***


Em sua filmografia, o diretor francês Stéphane Brizé costuma se vincular à cartilha estética-temática do realismo. Se em “Mademoiselle Chambon” (2010) e “Uma primavera com minha mãe” (2013) essa abordagem artística se enquadrava dentro de um roteiro de caráter intimista, em “O valor de um homem” (2016) o enfoque da trama se concentra em um forte teor social (sem que com isso se esqueça, entretanto, do lado subjetivo dos personagens). Se Brizé não apresenta a mesma classe formal-narrativa de Ken Loach e dos irmãos Dardenne, grandes mestres dessa linhagem cinematográfica, ainda sim o seu filme apresenta forte impacto para o espectador pela misto de austeridade e humanismo com que expõe os dilemas éticos de um homem desempregado (Vincent Lindon, excelente) diante de um cotidiano marcado por injustiças, desmandos e humilhações derivados de uma cruel ordenamento sócio-econômico “moderno” e neoliberal. Brizé não se furta de escolher um lado na história que conta– seu panfletarismo é contundente e sincero, o que carrega ainda mais a sua narrativa em termos de pungência e tensão dramática.

segunda-feira, abril 29, 2019

3 faces, de Jafar Panahi ***1/2


O diretor iraniano Jafar Panahi retomar as suas habituais obsessões estéticas e temáticas em “3 faces” (2018). O que não dizer que isso signifique comodismo artístico. Muito pelo contrário. O cineasta demonstra precisão e sensibilidade na construção do realismo de seu filme: o uso preferencial do plano-sequência, a montagem invisível, a encenação de forte teor naturalista. Tudo isso se junta à sua também costumeira dissecação da própria linguagem cinematográfica, em um jogo cênico em que o metalinguístico, a ficção e o real se combinam de maneira fluente e inquietante. Na trama de uma garota de interior aspirante a atriz/diretora que pede a ajuda de maneira dramática para o diretor e uma atriz famosa no país (Behnaz Jafari) diante da fúria conservadora de sua família e da comunidade que a cerca, Panahi faz com que o humanismo inerente ao roteiro encontre uma moldura formal/narrativa sóbria e insinuante. A forma com que o diretor expõe o cotidiano do vilarejo onde a história se desenvolve, captando detalhes da rotina das pessoas e os depoimentos/pensamentos rústicos dos moradores, faz pensar no clássico documentário “O fim e o princípio” (2006) recriado como ficção. No longa de Panahi, entretanto, a captação dessa ambientação rural e dessa “sabedoria” algo primitiva ganha contornos de uma sutil e desolada crítica à opressão religiosa e patriarcal de uma sociedade de valores ancestrais.

quinta-feira, abril 25, 2019

O anjo, de Luis Ortega ***


O cinema mainstream argentino tem como característica básica a emulação fiel dos preceitos narrativos do cinema norte-americano clássico, o que para muitos é a explicação maior pelo fato de ser melhor sucedido em termos comerciais e artísticos do que as produções brasileiras populares. Se esse direcionamento artístico em vários casos acaba rendendo obras assépticas e despersonalizadas, em outras oportunidades até surpreende ao dar origem a alguns filmes inquietantes. Nesse último caso dá para enquadrar “O anjo” (2018). Nada no longa-metragem dirigido por Luis Ortega remete à alguma efetivo sopro de originalidade ou de grande sobressalto criativo em termos narrativos ou temáticos. É mais um filme policial dentro daquela tradicional linhagem a mostrar a ascensão e queda de um meliante – e que geralmente se baseia em fatos reais (o que é exatamente o caso do filme de Ortega). Tem até direito a sequências de ação e violência regadas a muito rock and roll setentista (impossível de não lembrar de cenas semelhantes de obras-primas de Martin Scorsese como “Os bons companheiros” e “Cassino”). Ainda assim, é uma obra que por vezes cativa o espectador pela competência e convicção de Ortega em ficar remexendo clichês narrativos, além de contar com um desempenho magnético e memorável de Lorenzo Ferro no papel do protagonista Carlitos Puch. As sequências dele saltando muros e telhados, fazendo caras e bocas, disparando tiros ou simplesmente dançando estilosamente demonstram uma impressionante expressão corporal e valorizam ainda mais a encenação elegante concebida por Ortega.

quarta-feira, abril 24, 2019

O lamento, de Na Hong-jin ***


Há momentos em “O lamento” (2016) que fazem lembrar a expressiva síntese de originalidade e tensão de outras produções sul-coreanas antológicas que enveredaram pelo gênero suspense como “Old Boy” (2003), “Medo” (2003), “Mother” (2009) e “Em chamas” (2018). O diretor Na Hong-jin se utiliza de uma encenação que foge dos padrões tradicionais ocidentais para esse tipo de filme, principalmente quando a narrativa se formata dentro de um padrão de comicidade. As reações dos personagens diante de algumas situações limite do roteiro se aproximam mais de um espanto cômico do que de arroubos melodramáticos ou de heroísmo. O grafismo sanguinolento do filme também é mais brutal e cru do que aqueles que estamos acostumados a ver nessa linhagem de produções vindas dos estúdios norte-americanos. Esse conjunto artístico por vezes se mostra perturbador e angustiante, mas a verdade é que “O lamento” não consegue manter esse nível de maneira mais constante, principalmente quando se rende a alguns preceitos narrativos mais convencionais. Ou seja, não está no mesmo nível artístico dos filmes mencionados no início desse texto. Ainda assim, é uma obra de respeito e acima da média do que vem se fazendo nos últimos anos no gênero.

terça-feira, abril 23, 2019

Chuva é cantoria na aldeia dos mortos, de João Salaviza e Renée Nader Messora ***1/2


Faz algumas semanas que ouvi um depoimento extraordinário de uma deputada indígena se contrapondo contra um pronunciamento preconceituoso e reacionário da ministra da agricultura que ofendia a cultura do silvícola brasileiro. No referido pronunciamento da deputada, ela colocava como era reducionista tentar enquadrar o índio dentro de uma ótica capitalista-cristã, quando na verdade a concepção existencial do indígena se baseia em uma visão completamente diversa do ambiente e do trabalho. Essa lógica particular de vida é algo que extravasa com um misto de sensibilidade e contundência na produção brasileira “Chuva é cantoria na aldeia do morto” (2018), e que faz com que a própria narrativa do filme dos diretores João Salaviza e Renée Nader Messora tenha de se adaptar a uma linguagem estética bastante na contramão do que se faz no cinema ocidental contemporâneo. No terço inicial da obra, o espectador entra de cabeça em um universo paralelo de sensações audiovisuais – a encenação respeita o ritmo de vida sereno e rústico de uma comunidade indígena Khahô, em que os sons da natureza e uma imensidão de verde e terra absorvem os nossos sentidos e fazem com que a união entre o realismo e o metafísico pareça natural e coerente. Quando a narrativa se volta para um centro urbano, o contraste é chocante, com uma poluição sonora e visual irrompendo com violência e que se mostra em desolada sintonia com uma sociedade embrutecida típica das cidades brasileiras contemporâneas. No terço final, com a trama sendo retomada para o cotidiano da tribo, a narrativa se torna mais etérea, com danças, cantos e sutis trucagens visuais constituindo um delicado e envolvente vórtice sensorial, impressão essa que se reforça na misteriosa conclusão do filme, uma primorosa cena em que natureza e misticismo se fundem de maneira antológica.

segunda-feira, abril 22, 2019

Los silencios, de Beatriz Seigner ***


A combinação de drama intimista, teor sócio-político e realismo fantástico engendrada pela diretora Beatriz Seigner em “Los silêncios” (2018) não se configura em uma narrativa sempre equilibrada. Isso se compensa, entretanto, por alguns momentos de pungência arrebatadora. A forma com que os planos do real e do metafísico se relacionam revela engenhosidade formal e sensibilidade temática por parte do filme. Mesmo não se recorrendo a trucagens, há uma fluência natural na forma com que situações e personagens transitam entre a encenação naturalista e a caracterização do metafísico. O roteiro foge dos estereótipos fáceis da religiosidade cristã moralista e envereda em uma intersecção criativa entre melancólicas assombrações e forte e crítico comentário sobre um cenário de exploração econômica e opressão armada no interior da Colômbia. Há uma sutileza desconcertante e por vezes comovente na forma com que fantasmas se manifestam no cotidiano de privações e trabalho duro de um vilarejo na fronteira entre o Brasil e Colômbia. Seigner evita os truques narrativos óbvios de melodrama convencional, privilegiando expressivos silêncios e gestuais em sua encenação, além de uma certa crueza visual na concepção imagética da direção de fotografia, o que não quer dizer que a obra não tenha uma surpreendente beleza plástica rústica.

quinta-feira, abril 18, 2019

Rock'n roll: Por trás da fama, de Guilaume Canet ***


Fazer um filme que seja uma crítica à fogueira das vaidades que representa o universo dos famosos no cinema não chega a ser exatamente uma novidade. “Rock’n roll: Por trás da fama” (2017) está longe de ser uma obra definitiva dentro da temática, mas pelo menos escorre o seu fel de maneira divertida e por vezes até surpreendente. O diretor e ator Guilaume Canet formata o seu filme como se fosse uma narrativa ficcional tradicional, salpicando o roteiro com toques metalinguísticos. Na trama, ele e sua mulher Marion Cotilard interpretam a si próprios, assim como vários nomes do elenco, em situações que parodiam vários dos clichês e dilemas que envolvem o meio artístico em seu país (e, de certa forma, em boa parte do mundo cultural ocidental). A obra ironiza a tudo, não poupando ninguém: aspirantes arrivistas dispostos a tudo pela fama, atores consagrados obcecados em satisfazer o ego com premiações e entrevistas diversas, produtores e agentes preocupados exclusivamente com os dividendos das produções. A abordagem humorística de Canet varia como uma montanha russa, indo da ironia sutil à comicidade física que beira o exagero grotesco, o que representa variações radicais na própria atmosfera da obra, entre o realismo e o quase delírio. Isso faz com que o impacto do filme oscile entre momentos de um pastelão meio bobo e deslocado e o sofisticado e desconcertante sarcasmo. No cômputo geral, ainda que irregular na sua coesão narrativa, é uma obra memorável no insólito de seu tom sardônico.

quarta-feira, abril 17, 2019

Instinto selvagem 2, de Michael Caton-Jones *


É claro que fazer uma continuação da obra-prima do suspense “Instinto selvagem 2” (1992) no mesmo nível artístico seria um desafio muito difícil de superar. Mas o que surpreende nessa segunda parte dirigida por Michael Caton-Jones, lançada em 2006, é o nível atingido de ruindade absoluta. Nada funciona no filme a um ponto que seus equívocos narrativos e textuais chegam nas raias do francamente ridículo e risível. Caton-Jones se perde em maneirismos estéticos estéreis na tentativa desesperada de emular o formalismo preciso e inventivo de Paul Verhoeven, além de se perder em um roteiro simplório e caricato. Caton-Jones nunca foi cineasta de grandes voos criativos, mas seu currículo é marcado por algumas memoráveis produções cujos roteiro e formalismo eram marcados por um eficiente misto de convencionalismo e sobriedade (“Memphis Belle”, “O despertar de um homem”, “Rob Roy”). Ou seja, bem distante dos descalabros de “Instinto selvagem 2”. Sharon Stone, de volta ao papel principal de Catherine Tramell, deixa-se contaminar pelo espírito de tranqueira do filme e entrega uma interpretação canastrona constrangedora. Essa combinação de picaretagem, oportunismo e incompetência faz de “Instinto selvagem 2” uma bela lição de como uma produção de respeitáveis recursos humanos e materiais pode resultar em um clamoroso desastre.

terça-feira, abril 16, 2019

A história verdadeira, de Rupert Goold **


No papel, “A história verdadeira” (2015) seria uma obra bastante promissora. Uma trama baseada em fatos reais com uma premissa interessante (a relação ambígua entre um repórter decadente e um melífluo assassino psicopata) e uma dupla de ótimos atores (Jonah Hill e James Franco) nos papéis principais. Ocorre, entretanto, que o tratamento artístico do diretor Ruper Goold é tão convencional e superficial que acaba jogando a obra no ralo da irrelevância. A pretensa densidade psicológica dos personagens, a busca por uma atmosfera de tensão dramática e ambivalência moral e a construção de um roteiro efetivamente convincente se esvanecem em nome de um formalismo destituído de ousadia e de uma insípida assepsia visual.

segunda-feira, abril 15, 2019

O passageiro, de Jaume Collet-Serra **


Um filme de ação cuja trama traz um protagonista interpretado por Liam Neeson que é (aparentemente, pelo menos) um cidadão comum ou um pobre coitado em crise existencial-econômica-familiar que se vê envolvido em algum grande crime ou conspiração e com o desenrolar da narrativa acaba se revelando um sujeito de enorme sagacidade e desenvoltura que dá umas porradas nos vilões, descobre mistérios de maneira que beira o sherlockiano e até tem direito a uma redenção conciliadora com os seus entes queridos, o seu passado conturbado ou tudo isso junto. Quanta vezes você viu esse filme? Pois é, eu também assisti a diversas variações dessa fórmula, quase sempre pouco satisfatórias. “O passageiro” (2018) é mais uma derivação dessa concepção artística-comercial “consagrada”, o próprio diretor Jaume Collet-Serra trabalhou com Neeson em outros filmes bem parecidos. E aqui dá até para fazer valer um outro clichê: é um filmezinho por vezes divertido, que garante o interesse por alguns instantes em frente à televisão em uma noite de sonolência, mas que assim que termina pouca coisa fica retida na nossa mente. É claro que existe argumentos evidentes de que há muito público para diversão escapista medíocre, que o veterano Neeson tem direito a ganhar uma grana fácil nessa altura da sua vida. Ok, mas também há o direito de se constatar de maneira óbvia que “O passageiro” representa uma vertente preguiçosa e pouco memorável no gênero ação dos últimos anos.

sexta-feira, abril 12, 2019

Paraíso perdido, de Monique Ganderberg *1/2


Canções populares brasileiras, ou bregas como preferem outros, moldam a trama e a narrativa de “Paraíso perdido” (2018). É uma premissa criativa interessante e os recursos disponíveis para a diretora Monique Ganderberg sugeriam uma produção promissora – elenco com nomes expressivos, direção de arte e fotografia estilizadas que evocam um misto de sordidez e sofisticação e, claro, um belo cancioneiro para dar combustão aos números musicais e mesmo ao roteiro. Ainda assim, o filme tem um resultado final pouco satisfatório. A direção de Ganderberg é pouco ousada e desprovida de vigor, com um medo elitista de parecer exagerada ou ridícula, fazendo com que aquele aspecto mais derramado e visceral que deveria ser a tônica da narrativa acabe se convertendo em uma formatação previsível e asséptica. Digamos que os reais admiradores desse universo de exacerbado romantismo/sentimentalismo ficariam pouco atraídos pelo estilo soft e anódino de “Paraíso perdido”. Para aqueles que se interessam pela conjugação cinema e música popularesca/brega, vale muito mais a pena ver o pungente documentário “Vou rifar meu coração” (2012).

quinta-feira, abril 11, 2019

Bio - Construindo uma vida, de Carlos Gerbase ***


A filmografia do diretor gaúcho Carlos Gerbase, pelo menos em termos de longas-metragens, se divide entre esforçadas tentativas e filmes francamente ruins. Assim, “Bio – Construindo uma vida” (2017) acaba sendo uma surpresa positiva, pois é seu longa melhor sucedido em termos artísticos. A encenação talvez tenha sido o grande ponto fraco de suas produções anteriores, sendo que nessa obra mais recente ele finalmente consegue resolver esse problema ao formatar o seu filme como um falso documentário com elementos de ficção científica, melodrama e comentário sócio-político-histórico. Na maioria das sequências, os personagens estão sentados dando depoimentos de fluência e ritmo que beiram o literário. A concepção estética-temática aqui descrita pode sugerir algo confuso ou simplesmente esdrúxulo, mas o mérito de Gerbase é dar para tudo isso uma fluência narrativa envolvente, além do roteiro revelar um subtexto de nuances humanistas comoventes. Nesse sentido, também é interessante observar como a abordagem política-existencial de “Bio” ganha uma ressonância especial na associação que se faz com o tenebroso momento histórico que vivemos. Com sutileza irônica demolidora, a obra satiriza o obscurantismo religioso e a educação baseada em alienação e valores morais reacionários perpetrados pelo status quo conservador, valorizando, por outro lado, as ciências e as artes como forma de libertação e transcendência. Por vezes o longa padece de fotogenia e assepsia visual excessivas, mas esse é um detalhe negativo que se compensa por algumas ousadias, como a atilada direção de atores, a caracterização estilizada de um futuro high tech e o misto de serenidade melancólica e humor sardônico de algumas passagens da trama. Aliás, a forma engenhosa como a ficção científica é incorporada na narrativa parece em sintonia com o fato de que Gerbase por muito tempo foi baterista e compositor dos Replicantes, cujo nome é referência óbvia ao clássico sci fi “Blade Runner – O caçador de androides” (1982) e as letras de algumas das canções citavam um futurismo nebuloso.

quarta-feira, abril 10, 2019

Shazam!, de David Sandberg **1/2


Para começo de conversa, sempre conheci o protagonista de “Shazam!” (2019) como Capitão Marvel. Assim, já começa como uma estranheza o próprio nome do filme. E um certo descompasso criativo é o que marca a produção dirigida por David Sandberg. Em boa parte de sua narrativa, predomina o tom de uma síntese entre aventura e comédia a exaltar valores juvenis e familiares, mas por vezes são inseridos alguns elementos temáticos e gráficos bastante sombrios, principalmente em sequências fortes de mutilação e morte e na caracterização visual dos monstros/pecados. A obra até procura em alguns momentos uma densidade dramática, flertando com o pesado assunto do abandono infantil, atenuada, entretanto, pelo caráter pueril de várias sequências do filme. As diversas cenas de ação e as inúmeras trucagens digitais são competentes e espalhafatosas, mas nada especialmente diferente ou memorável. Ou seja, no geral, “Shazam!” é uma produção rotineira e esquecível. Contudo, diante da ruindade absoluta de outros filmes originários do universo dos quadrinhos da DC como “Esquadrão Suicida” (2016) e “Aquaman” (2018), acaba ganhando algum destaque artístico justamente por não pisar na bola de forma tão clamorosa.

segunda-feira, abril 08, 2019

Duas rainhas, de Josie Rourke **


O episódio histórico do embate entre Mary Stuart e Elizabeth I pelo trono da Inglaterra foi levado várias vezes para o cinema. “Duas rainhas” (2018), a mais recente versão cinematográfica, tem um certo diferencial – sua grande referência estética-temática é “Maria Antonieta” (2006), produção em que Sofia Coppola fez uma releitura modernizada da vida da célebre rainha e por tabela de fatos importantes da Revolução Francesa. No filme dirigido por Josie Rourke, estão alguns preceitos narrativos e formais que lembram bastante o mencionado trabalho da Coppola filha: direção de arte e figurinos que mais remetem a uma estilização do que a reconstituição fiel, encenação vinculada ao naturalismo, roteiro que incorpora uma visão mais contemporânea e crítica dos fatos históricos. Nesse último aspecto, vale ressaltar que “Duas rainhas” enfoca aspectos como a opressão do poder patriarcal, a manipulação religiosa, o machismo covarde e mesmo outros preconceitos morais (como a homofobia), o que não deixa de ser uma ousadia existencial nesses tempos de avanço da agenda neo-reacionária mundo afora. As boas intenções de seu subtexto e as pretensões artísticas da obra, entretanto, acabam se mostrando insuficientes diante da mãe pesada de Rourke na condução da narrativa. Os excessos de uma atmosfera algo solene jogam por diversas vezes o filme na vala comum do enfadonho e previsível, o que faz de “Duas rainhas” uma produção rotineira dentro do gênero filme de época.

sexta-feira, abril 05, 2019

O lagosta, de Yorgos Lanthimos ***


Na maioria do que se escreve e comenta em relação a “O lagosta” (2015) há uma variedade de opiniões que varia a qualificação do filme entre a excentricidade indie e o genial. Na realidade, a produção dirigida por Yorgos Lanthimos não chega a tais extremos e está mais vinculada a uma linhagem já tradicional da ficção científica, algo como uma variação das narrativas distópicas típicas de Phillip K. Dick e das atmosferas esquizoides de alguns dos melhores trabalhos de Terry Gillian. A obra de Lanthimos está bem longe da excelência artística dessas referências mencionadas, mas ainda assim tem os seus momentos inquietantes, principalmente na forma com que cruza uma tensão dramática perturbadora, nuances cômicas e uma encenação marcada pelo ascetismo/rigor estético. Por vezes o roteiro peca por algumas concepções simplórias na forma em que seu subtexto contrapõe um status quo asséptico e opressor e a uma resistência de rebeldes marcada pela incoerência e radicalismo. Ainda assim, é uma obra capaz de colar algumas de suas sequências em nosso imaginário.

quinta-feira, abril 04, 2019

Contrastes humanos, de Preston Sturges ****


São infindáveis as críticas e artigos dedicados a louvar os méritos artísticos ao longo das últimas décadas da clássica produção cômica norte-americana “Contrastes humanos” (1941). E realmente é quase inquestionável que o filme do diretor Preston Sturges representa uma síntese formal-temática perfeita daquilo que se convencionou denominar comédia maluca. A encenação dinâmica, o carisma do elenco, os diálogos afiados e o subtexto irônico a expor os interesses econômicos e a fogueira das vaidades da Hollywood da época são traços marcantes de uma obra que se mostra atemporal. Confesso, entretanto, que ao rever o filme recentemente fiquei incomodado com o tom moralizante e conservador do roteiro. Talvez os atribulados tempos que vivemos na atualidade colaborem para tal percepção, principalmente nessa conjunção de obscurantismo e cinismo que tomou o Brasil e boa parte do mundo ocidental. A conclusão do filme que ressalta a necessidade primordial do cinema de oferecer diversão escapista para o espectador visando atenuar a dureza da realidade na qual ele está inserido soa demasiadamente conivente com o processo progressivo de alienação e brutalização que sempre assolou a sociedade capitalista-cristã.

quarta-feira, abril 03, 2019

Diga amém, alguém, de George T. Niereberg ****


Se a estrutura narrativa caótica de “Ornette: Made in America” (1985) evoca a música repleta de improvisos e experimentações de seu protagonista, o documentário “Diga amém, alguém” (1982) se vincula a um formalismo mais convencional em sintonia com o caráter tradicional do ritmo musical que coloca em cena, o gospel. Isso não quer dizer que o filme dirigido por George T. Niereberg seja menos inquietante, pois dentro dessa estética baseada em modelos clássicos a obra consegue transmitir muito da força artística e emocional do gospel. O documentário se focaliza em duas figuras importantes do gênero, o compositor e cantor Thomas A. Dorsey e a cantora Willie Mae Ford Smith, com uma narrativa que se baseia em dois elementos bastante utilizados no cinema verdade concentrado na temática musical: depoimentos dos protagonistas e “coadjuvantes” (parentes, amigos, admiradores) e números musicais. Só que Niereberg executa tais princípios com brilho e convicção, sabendo extrair tanto informações preciosas quanto emoções genuínas nas entrevistas, além de valorizar com sensibilidade todos os saborosos detalhes cênicos das apresentações musicais nos cultos. E não se trata aqui de querer converter espectadores para o protestantismo – filme não se interessa em se aprofundar no proselitismo religioso, dando a entender que o fator místico seria um oportuno pretexto na elaboração e interpretação de uma música de caráter tão transcendente e intenso, além de enfatizar em algumas pequenas nuances o teor conservador e machista da visão de mundo do protestantismo, em uma curiosa contradição com as expansivos e pungentes canções que provem de seus cultos.

terça-feira, abril 02, 2019

Ornette: Made in America, de Shirley Clarke ****


A conexão literatura-música-cinema que se estabelece no encontro entre o músico Ornette Coleman e o escritor Burroughs é mais lembrada pelo público em geral pelo filme “Mistérios e paixões” (1991), obra-prima dirigida por David Cronenberg que adaptava o clássico livro de Burroughs, “O almoço nu”, e que também contava em sua trilha sonora com alguns temas compostos e tocados por Coleman. A ligação entre os dois artistas é mais do que natural – os escritos derivados da escola beat concebidos por Burroughs são praticamente um equivalente existencial-literário para o free jazz alucinado de Coleman. Em “Ornette: Made in America” (1985) esse encontro entre esses dois titãs culturais dos Estados Unidos já havia sido registrado, filme esse de impacto artístico equiparável àquele de Cronenberg. O longa dirigido por Shirley Clarke é um misto de documentário biográfico e ensaio poético-visual a retratar a vida e arte de Coleman. A fórmula narrativa de contar a história de uma vida de maneira linear seria insuficiente para dar uma efetiva ideia do significado dessa figura singular da música contemporânea. Assim, Clarke opta por um fluxo sensorial desconcertante, que varia entre o encanto e a perturbação. A narrativa tem como eixo principal uma apresentação de seu protagonista com sua banda junto a uma orquestra sinfônica da sua cidade natal no Texas. O que parece inicialmente uma rendição de Coleman a um formato tradicional e “respeitável” de execução e composição musicais aos poucos se revela como uma sofisticada desconstrução de parâmetros rítmicos, harmônicos e melódicos. E esse é justamente o procedimento formal adotado por Clarke na condução de seu filme – ao invés de se limitar a um formato convencional de junção de entrevistas e cenas de arquivos, a diretora mistura tais recursos com encenação estilizada, trucagens/colagens bem-humoradas e digressões existenciais/artísticas de Coleman tentando explicar a sua música, sempre tendo por base uma edição que transforma tudo isso em um vórtice audiovisual de sensações e ideias que aproximam o espectador da musicalidade à flor-da-pele do artista, mas sempre preservando a aura de mistério e estranheza dessa particular forma de arte. Poucas vezes na história do cinema um documentário sobre um artista se mostrou em tamanha sintonia com seu personagem principal quanto “Ornette: Made in America”.

segunda-feira, abril 01, 2019

Elegia de um crime, de Cristiano Burlan ****


Acredito que tanto em sua realização artística quanto na análise crítica que possa gerar, o documentário “Elegia de um crime” (2018) passa por uma profunda questão ética. A partir do fato de que sua construção narrativa e sua formulação de subtexto se vinculam a uma perturbadora tragédia pessoal de seu realizador, o diretor Cristiano Burlan, pode-se pensar o quanto é válido usar um fato real tão pessoal para atingir determinados fins estéticos e temáticos, assim como o quanto crítica e o público têm o direito de o direito e capacidade de fazerem um julgamento existencial-artístico sobre aquilo que se viu na tela. O resultado final da obra, entretanto, é tão impressionante que ela acaba transcendendo tais tipos de considerações. Se em “Mataram meu irmão” (2013) ele já havia enveredado pelo documentário-memorialista de maneira memorável, nesse trabalho mais recente o seu amadurecimento como cineasta faz com que a sua investigação autoral e intimista sobre a conturbada vida de sua mãe e a sua brutal morte pelas mãos do companheiro se mostre afiada em termos formais e com uma densidade humanista impressionante. Toda a narrativa é perpassada pelos sentimentos de raiva, frustração e culpa de Burlan pelo melancólico destino de sua mãe, com ele não se furtando em momento algum em se colocar em cena como personagem essencial em seu filme, mas também há no longa uma elaboração de encenação e mesmo de roteiro que fazem de “Elegia de um crime” também um panorama desolado da pobreza, da falta de perspectivas sociais e do machismo opressor de uma sociedade brasileira contemporânea e decadente. Nos depoimentos de parentes e amigos de sua mãe, o diretor consegue extrair uma pungência à flor-da-pele, assim como também tem sucesso em fazer com que a captação da ação cinematográfica tenha tensão dramática eletrizante. Não se pode dizer com precisão se “Elegia de um crime” foi catártico o suficiente para que o seu realizador ficasse mais em paz com deus demônios internos, mas para o público se trata de uma experiência cinematográfica que provavelmente ficará colada em seu imaginário por um bom tempo.

sexta-feira, março 29, 2019

Nós, de Jornan Peele ***1/2


Há um forte ponto comum entre “Nós” (2019) e “Corra!” (2017), o filme anterior do diretor Jordan Peele – são narrativas que em suas metades iniciais se formatam no gênero horror, mas que depois adquirem traços de ficção científica (ainda que sempre carregadas no grafismo sangrento), principalmente no sentido de que procuram uma causa “científica” para aquilo que aparentemente seria sobrenatural. No filme mais recente, Peele até investe mais em uma sutil simbologia do que em amarrar pontas soltas da trama. Assim, a efetiva força da obra está em sua vigorosa encenação e em algumas nuances do roteiro. Nesse sentido, é interessante reparar como aquela primeira sequência da praia, aparentemente “amena”, seja bastante reveladora de um subtexto bem ácido na forma com que disseca as hipocrisias e tensões nas relações humanas dentro de uma sociedade capitalista marcada por diferenças de classes e raciais – em meio a conversas civilizadas entre os membros de duas famílias à beira-mar se pode constatar sutis ressentimentos e invejas entre os dois clãs. Quando a narrativa chega finalmente nos momentos de violência e ação mais predominantes tais conflitos que se encontravam antes em um plano platônico/existencial se materializam com fúria desmedida – a família de Adelaide (Lupita Nyong’o) pode até se valer da brutalidade para fins de sobrevivência, mas também revela uma certa facilidade na forma com que ferem e matam seus antagonistas (principalmente os duplos da família com que haviam se encontrado na praia). Talvez isso seja o mais perturbador em “Nós” – a de como a fronteira entre a civilização e a luta bárbara pela sobrevivência é tênue. Por mais que haja a justificativa da presença de duplos perversos e selvagens, o limite que os separa das pessoas “normais” não apresenta tantas dificuldades em ser transposto. Um cenário que beira o apocalíptico parece ser encarado pelos personagens (e o mundo que os cerca) quase como se fosse um caminho natural para a humanidade.

quinta-feira, março 28, 2019

As filhas do fogo, de Albertina Carri ***1/2


Desde que se convencionou como gênero cinematográfico, a pornografia, na grande maioria de suas produções, tem como pilares estéticos-existenciais pelos menos dois grandes princípios – suas coreografias eróticas visam satisfazer desejos e fantasias eminentemente masculinas e aquilo que se poderia entender como roteiro na verdade seria mero pretexto para várias sequências de sexo explícito. Em “As filhas do fogo” (2018), a diretora argentina Albertina Carri brinca e subverte com tais fundamentos na forma com que articula a sua narrativa. Não se trata de uma obra essencialmente pornográfica, mas sim de um drama político-existencial de questionamento do patriarcalismo e de exposição/valorização do prazer feminino que incorpora elementos da pornografia. Há um senso de presença de trama, com essa, entretanto, se esvanecendo aos poucos, sem a necessidade de existência dos mecanismos convencionais da escrita para cinema, para que o filme se converta em um fluxo sensorial de erotismo, poesia, ensaio filosófico/visual e onirismo. Ou seja, o roteiro que se submete aparentemente ao furor erótico e libertário de transas homoeróticas femininas. O fato de uma das personagens principais ser uma cineasta acentua ainda mais a impressão de uma obra de caráter artístico que beira o metalinguístico na forma com que expõe seus questionamentos temáticos e os seus dilemas estéticos. A grande quantidade e variedade de sequenciais de sexo não implica em uma saturação dos sentidos, mas sim na configuração da possibilidade de amplitude dos papeis sexuais nessas relações sentimentais-carnais (ativo e passivo, dominador e dominado, feminilizado e masculinizado). No choque de preceitos de gêneros cinematográficos distintos a sensação primordial é de que a narrativa se quebra e se torna uma estrada que nunca termina, sem a necessidade de uma conclusão moralizante ou uma solução final para as suas personagens. Bastam que elas existam e transem para sempre...