sexta-feira, agosto 17, 2018

A festa, de Sally Potter **1/2


O tipo de proposta temática/narrativa de “A festa” (2017) não chega a ser exatamente uma novidade, mas de vez em quando costuma render alguma coisa de interessante: no ambiente fechado de uma pequena reunião social, revelações e outras situações-limites levam os personagens a exporem seus segredos sórdidos, preconceitos e hipocrisias, fazendo com que a linha entre a civilidade e a selvageria se mostre muito tênue. No caso do filme de Sally Potter, há também a preocupação em expor alguns dos principais dilemas e conflitos da sociedade contemporânea (feminismo, machismo, arrivismo sócio-econômico, alienação, famílias disfuncionais). Vale mencionar ainda que a diretora contou em sua produção com um elenco de nomes expressivos no panorama cinematográfico atual. O resultado final de sua obra, entretanto, é frustrante. Culpa de uma certa mão pesada de Potter na condução de sua narrativa. A encenação se mostra emperrada por uma verborragia excessiva, as atuações se perdem em caracterizações caricaturais e o roteiro fica indeciso entre evocar alguma densidade psicológica ou privilegiar um tom anedótico. Por vezes, “A festa” até insinua um tom mais perturbador na forma com as frustrações e desejos dos personagens são expostos em cena, mas no final das contas isso apenas serve para mostrar que o filme poderia ter sido bem melhor. Aliás, faz até imaginar o que um artista como Roman Polanski, por exemplo, mestre nesse tipo de trama, poderia ter extraído de tais elementos narrativos.

quinta-feira, agosto 16, 2018

Você nunca esteve realmente aqui, de Lynne Ramsay ****


Na premissa de seu roteiro, “Você nunca esteve realmente aqui” (2017) faz evocar algo como um cruzamento entre “Taxi driver” (1976) e “O profissional” (1994). Entre o pesado drama psicológico e o franco thriller de aventura, a diretora Lynne Ramsay faz o seu filme se localizar em um estranho universo híbrido disso tudo e também muito particular. Sua dissecação da ação cinematográfica nas sequências envolvendo brutalidade gráfica e atmosferas de tensão tem um caráter bastante elíptico – tiros, marteladas e outros atos violentos afins na maioria das vezes não são filmados de forma exatamente direta, havendo uma preferência mais pela sugestão e pela exposição das consequências de tais ações. Não se trata exatamente de poupar a suscetibilidade do espectador, pois há sangue e carne dilacerada em profusão na narrativa. Na verdade, essa maneira de registrar a violência é até mais perturbadora do que se a preferência fosse pela mais tradicional de filmar. Nessa abordagem imagética da cineasta há o sentido de complementar a psique atormentada do protagonista Joe (Joaquin Phoenix), em constante conflito entre traumas difusos do passado e um presente marcado por uma perseguição inclemente de uma organização política-criminosa-sexual. Na saga do personagem principal, há um tom quase fabular, em que no meio desse cenário de destruição, degradação e melancolia brota de maneira insólita momentos de teor poético desconcertante (o assassino que morre cantando uma melosa balada pop, o funeral aquático da mãe de Joe, o seu imaginário e luminoso suicídio). Nesse conto de vingança de brilhante e bizarra encenação se destacam ainda a atuação de pura possessão de Phoenix e a etérea trilha sonora de Jonny Greenwod.

quarta-feira, agosto 15, 2018

O Babadook, de Jennifer Kent ***


São recorrentes comentários na internet de que “O Babadook” (2014) e um dos filmes mais aterrorizantes dos últimos tempos. Se isso é fruto de alguma engenhosa campanha marqueteira ou apenas da opinião de alguns espectadores facilmente impressionáveis, o fato é que essa produção australiana dirigida por Jennifer Kent está bem longe de ser considerado um marco no gênero horror. É apenas uma obra que recicla vários clichês narrativos e temáticos dessa linhagem de filmes. É fato também, entretanto, que faz isso com razoável competência. O elenco apresenta algumas atuações convincentes (o garoto Noah Wiseman é especialmente interessante na sua caracterização alucinada de um pentelho irrequieto), as caracterizações imagéticas das trucagens têm um certo frescor (a figura da monstruosa criatura do título, por exemplo, é memorável) e Kent consegue extrair genuínas atmosferas de tensão dramática em algumas sequências. Ou seja, nada que vá mudar o rumo do mundo, mas que pelo menos garante uma sessão divertida no Netflix (aliás, coisa que não é tão frequente assim no canal).

terça-feira, agosto 14, 2018

Ela quer tudo, de Spike Lee ****


Em um primeiro momento, pode-se dizer que o longa-metragem de estreia do diretor norte-americano Spike Lee, “Ela quer tudo” (1986), funcionou como uma espécie de laboratório de ideias que foram desenvolvidas de forma mais amadurecida em produções posteriores do cineasta. É evidente também um certo charme amador em algumas passagens, muito mais fruto dos recursos de produção mais modestos do que propriamente por descuidos formais de Lee. Ainda assim, esse filme continua a ser um dos trabalhos mais fulgurantes e singulares do diretor, assim como um dos marcos fundamentais do cinema independente dos Estados Unidos nos anos 80 ao lado de obras como “Estranhos no paraíso” (1984) e “Gosto de sangue” (1984). Narrativa e estética são caracterizadas em uma original síntese de hiper-realismo e estilização, sendo que tal abordagem artística está em notável sintonia com um roteiro de expressivo teor libertário e humanista e que também tem como ponto forte um sutil e cortante senso de ironia. Já a encenação concebida por Lee a sua direção de atores apontam um rumo muito particular e ousado, no sentido de se mostrar distante de mofados clichês dramáticos de atmosfera e interpretação. Essa liberdade criativa recebe um complemente preciso nos belos temas harmônicos e melódicos da trilha sonora de Bill Lee. No cômputo geral, “Ela quer tudo” é um exemplar enfático daquela linhagem de obras em que a economia de recursos acaba por extrair o máximo de suas potencialidades artísticas.

segunda-feira, agosto 13, 2018

Dores de amores, de Raphael Vieira *1/2


Pelo menos em suas intenções artísticas, “Dores de amores” (2012) poderia sugerir algo de promissor. A narrativa procura uma síntese entre o realismo e atmosferas estilizadas/delirantes, o roteiro investe em um viés crítico e irônico sobre as relações amorosas/sexuais, o elenco traz alguns dos nomes mais expressivos do cinema brasileiro dos últimos anos. O problema do filme dirigido por Raphael Vieira é que a junção disso tudo não dá liga. A encenação é over é afetada, descambando com frequência para um incômodo tom de empostação teatral. E mesmo as situações de suposta ousadia da trama se perdem em soluções óbvias e simplórias. Além disso, alguns detalhes pictóricos como a inserção de cenários grafitados soam como meros adereços imagéticos, não tendo uma efetiva ligação com a narrativa. Ou seja, as altas pretensões estéticas/temáticas da produção ficaram bem longe de se concretizar diante de uma execução tão equivocada.

sexta-feira, agosto 10, 2018

Verónica, de Paco Plaza *1/2


Adolescente brinca com uma tábua de ouija, desperta alguns demônios e passa a ser atormentado por eles. Quanto filmes já foram realizados com essa premissa? Pois é, vários e que se até confundem na lembrança. O que essa produção espanhola se diferencia em relação às outras? Só a língua, e olhe lá. Mais uma das tantas produções irrelevantes que o Netflix gosta de ostentar em seu catálogo de recomendações.

quinta-feira, agosto 09, 2018

Nico, 1988, de Susanna Nicchiarelli ****


Filmes sobre apocalipse praticamente representam um subgênero na história do cinema. Na maioria das vezes, são obras no gênero fantástico que mostram as consequências para o mundo de um hipotético evento-cataclisma que destrói a ordem civilizada e expõe a sociedade a situações extremas de barbárie e sobrevivência. Mas o que ocorre quando um filme retrata o apocalipse como sentimento e não como um fato específico? Pois é justamente isso que retrata “Nico, 1988” (2017), produção biográfica que tem como protagonista a cultuada cantora que participou do primeiro disco do Velvet Underground em 1967e depois desenvolveu uma carreira solo marcada tanto pelo caráter artístico peculiar quanto pela obscuridade em termos comerciais e de reconhecimento de um grande público. Ao invés de fazer uma acadêmica e óbvia reconstituição resumida de toda a vida de sua personagem principal, a obra prefere focar nos últimos dois anos de carreira (e vida) da artista. Escolha muito acertada da diretora Susanna Nicchiarelli: ao delimitar esse compacto espaço temporal, a narrativa consegue evidenciar com sensibilidade e contundência a força abrasiva da música muito particular de Nico bem como os dilemas e contradições pessoais que marcavam a sua personalidade, além de revelar o traço do indissociável entre a vida pessoal e a arte da cantora. A estética sombria e o roteiro muito bem depurado formatam um conceito artístico e existencial de notável coerência e perspicácia, o que se pode perceber em nuances extraordinárias como a sequência de abertura, em que em sua infância Nico presencia de longe Berlin sendo devastada pelos aliados. Em sua rotina de viagens e shows pela Europa na parte final de sua carreira, percebe-se os estertores finais da Guerra Fria, e se estabelece com sutileza a ponte entre a arte de Nico e tais eventos históricos de grandes conflitos armados, em que canções e arranjos se mostram como a efetiva trilha sonora de um século marcado por banhos de sangue e os sentimentos de paranoia e mal-estar diante de um possível holocausto nuclear. O sóbrio formalismo adotado por Nicchiarelli para “Nico, 1988” se encaixa de maneira precisa dentro dessa conceituação artística, valorizando tanto um caráter realista da história da cantora em sua abordagem quanto enfatizando um tom de imaginário estilizado sobre a sua figura, principalmente quando retrata as conturbadas apresentações ao vivo de Nico, o que dá ao filme uma atraente atmosfera misteriosa, típica de uma época pré-internet em que informações sobre determinados artistas “malditos” traziam um certo tom nebuloso.