sexta-feira, fevereiro 15, 2019

Amigos filmam amigos, de Gabriel Carneiro, Alê Rodrigues, Diomédio Piskator e Ricardo Alexandre Corsetti **


Não dá para dizer que “Amigos filmam amigos” (2018) seja propriamente um documentário de longa-metragem. Está mais para uma ação de amigos e admiradores do cinema da Boca do Lixo paulista que fizeram uma espécie de homenagem fílmica a alguns dos principais profissionais daquele cenário e época. São cinco episódios conduzidos cada um por diretores diferentes e com resultados artísticos igualmente diversos. Se a parte que focaliza o ator José Lopes (o Índio) peca pelo excesso de sentimentalismo, aquelas protagonizadas pelo diretor de fotografia Virgílio Roveda, o ator Satã e o cineasta Tony Ciambra são apenas corretas, ou seja, informativos e bastante convencionais (o que não deixa de ter seus atrativos para aqueles interessados na história do cinema nacional). O melhor episódio disparado é o dedicado ao diretor José Miziara, responsável por alguns grandes sucessos comerciais nos anos 80. Gabriel Carneiro, diretor responsável por esse segmento, vai muito além do didático, conseguindo fazer um retrato contundente e melancólico sobre um talentoso artista amargurando um ostracismo devido aos impiedosos ditames da indústria cultural contemporânea.

quinta-feira, fevereiro 14, 2019

A misteriosa morte de Pérola, de Guto Parente ***1/2


Em um primeiro momento, a primeira referência que pode vir à mente quando se assiste a “A misteriosa morte de Pérola” (2014) é a filmografia de David Lynch. Estão lá na narrativa do filme de Guto Parente uma série de recursos narrativos que o genial cineasta norte-americano usou com recorrência em seus trabalhos – a trama que se divide em dois momentos distintos que possuem uma obscura inter-relação entre eles, uma atmosfera que trafega sem maiores cerimônias entre a realidade e o delírio, a encenação que também varia entre o naturalismo e a estilização. Apesar de tais elementos familiares, Parente ainda assim consegue ter um traço de originalidade em suas concepções artísticas e demonstra saber manter a atenção do espectador mediante uma forte tensão dramática na manipulação do ritmo narrativo e do rigor imagético da direção de fotografia. Não se tem uma produção no gênero suspense “puro”, pois há uma carga intimista/psicológica densa tanto na exposição minuciosa do desolado cotidiano e do processo de fragmentação psíquica de Pérola (Ticiana Augusto Lima) em seu autoexílio em um apartamento no interior da França quanto na visita que o seu namorado faz ao apartamento depois da morte da garota. Parente acentua e harmoniza essa perturbadora combinação entre suspense e drama a partir de algumas elegantes nuances formais, vide a contraposição entre a sua judiciosa encenação e a inserção de falsos e “amadores” trechos documentais e o uso de uma trilha sonora repleta de temas musicais dissonantes.

quarta-feira, fevereiro 13, 2019

Inferninho, de Guto Parente e Pedro Diógenes ****


Logo no início da narrativa em “Infernino” (2018), ambientação e encenação remetem ao clássico do cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder, “Querelle” (1982) – em um misto de estilização e sordidez, um boteco de beira de cais caindo aos pedaços abriga um atendente vestido de coelho, uma cantora de cabaret-brega, um tecladista clone de Beethoven e uma clientela composta basicamente de desajustados vestidos de refugos de cultura pop. O grande mérito dos diretores Guto Parente e Pedro Diógenes é fazer com que o filme fuja da paródia besta e se configure como uma alegoria ácida e pungente sobre os conturbados dias atuais. Para isso, a obra se vale de uma original reciclagem de melodrama sórdido aos moldes do já citado Fassbinder e de um realismo neon herdeiro da obra-prima “O fundo do coração” (1981). A síntese de referências e citações sempre se mostra empolgante e filtrada por uma particular visão estética e temática. Parente e Diógenes se valem de truques visuais simples e de grande eficácia imagética. Nesse sentido, as sequências mais oníricas e delirantes encantam pela sutileza entre o naif e o sofisticado de suas trucagens baratas. E mesmo os momentos mais naturalistas são perpassados por um requintado barroquismo artesanal e repleto de nuances. Ou seja, a partir de parcos recursos de produção os diretores extraem o máximo em um formalismo que demonstra rigor e criatividade, sabendo ainda aproveitar com sensibilidade os demais elementos narrativos, com destaque para os ótimos temas originais da trilha sonora e algumas intensas atuações de seu elenco (com grande destaque para Yuri Yamamoto e Démick Lopes).

terça-feira, fevereiro 12, 2019

Singapore Sling, de Nikos Nikolaidis ****


Em sua época áurea, nas décadas de 1940 e 1950, o cinema noir era marcado por uma fascinante ambiguidade artística – influenciado esteticamente pela literatura policial “pulp” e pelo expressionismo alemão, toda a perversidade e sordidez presente em seu subtexto tinha que se adaptar aos moldes narrativos tradicionais do cinema comercial norte-americano da época e, principalmente, aos padrões morais dos códigos de condutas dos grandes estúdios. A produção grega “Singapore Sling” (1990) parte de um pressuposto artístico inquietante – se não houvesse essas limitações da época em que se desenvolveu, como seria o cinema noir? A resposta oferecida pelo resultado final do filme dirigido por Nikos Nikolaidis pode parecer puramente especulativa, mas também oferece alguns momentos memoráveis na sua síntese entre clichês narrativos de filme policial clássico, toques de exploitation e forte teor experimental. Roteiro e encenação deixam aflorar de maneira impiedosa escatologia, incesto, ostensivo brutalismo gráfico, despudorada sexualidade e um doentio senso de humor, tudo filtrado dentro de uma concepção formal de forte rigor plástico e perpassado por uma atmosfera entre o melancólico e o poético. No todo, é uma obra inclassificável e desconcertante, o que ajuda explicar porque foi proibida em alguns países ou simplesmente nem foi exibida comercialmente em outros mercados (inclusive o Brasil). É necessário, entretanto, que apreciadores de um cinema que vá além das grandes bilheterias ou de premiações do Oscar corram atrás dessa pérola de insólita beleza.

segunda-feira, fevereiro 11, 2019

A casa do cemitério, de Lucio Fulci ****


O horror cinematográfico concebido pelo diretor italiano Lucio Fulci parece habitar um universo paralelo dentro do próprio gênero. Por mais que suas obras flertem com temas e truques narrativos bastante característicos de outros filmes dessa linhagem, a encenação e atmosfera rarefeitas e o teor imagético doentio constantes em sua filmografia marcam uma diferenciação perturbadora e contundente para o seu público. “A casa do cemitério” (1981) é um comprovante enfático do ideário artístico muito particular de Fulci. O roteiro gira em torno da velha premissa de uma casa mal-assombrada, mas isso é apenas um detalhe/pretexto para uma tenebrosa viagem sensorial, vide a combinação desconcertante entre fotografia e direção de arte que sintetizam climas góticos e puro gore escatológico, com direito a muitos vermes saindo de ferimentos e mortes atrozes à base de perfurações, lacerações e afins. Ainda que brutalidade gráfica seja muito presente, Fulci consegue preservar um teor muito original de suspense, principalmente pelo fato de que a origem do horror vem de fontes incertas ou mal-explicadas (na verdade, para Fulci explicações plausíveis para o mal constante que paira nas tramas de seus filmes são completamente dispensáveis – o que vale é simplesmente a consequência desse mal). Se para os apreciadores do horror asséptico das franquias cinematográficas norte-americanas do gênero na atualidade assistir a “A casa do cemitério “ pode ser uma experiência indigesta, para os demais apreciadores do terror cinematográfico essa obra-prima de Fulci é um verdadeiro prato-cheio estético/existencial.

sexta-feira, fevereiro 08, 2019

Assunto de família, de Hirokazu Kore-eda ***1/2


Em termos temáticos, o cinema do diretor Hirokazu Kore-eda gira em torno das relações familiares. Sua abordagem artística-existencial, contudo, não se vincula a fazer loas sobre tal matéria. Pelo contrário – os conturbados relacionamentos entre pais, filhos e demais parentes servem como uma espécie de reflexo das relações humanas em si no mundo contemporâneo. Nesse sentido, “Assunto de família” (2018) é uma das obras mais agudas de Kore-eda. A “família” que acolhe Yuri, uma pequena garota fugitiva de um lar de classe média alta onde sofre maus-tratos, está mais para um grupo de deserdados que se uniu quase que por caso fortuito. Ainda que a relação entre tais pessoas seja marcada por uma certa fragilidade sócio-econômica, e que mesmo algumas delas pratiquem pequenos crimes e contravenções para custear a sobrevivência, o vínculo sentimental entre elas vai se mostrando cada vez mais pungente. A mensagem do subtexto da trama é sutil e clara – em uma sociedade de consumo marcada pela assepsia emocional e por valores mercantilistas, a instituição da família biológica tradicional deixou de ser garantia de estabilidade emocional para os seus membros. Mesmo que de maneira inconsciente, o novo agrupamento em que Yuri se insere é marcado por uma espontaneidade e solidariedade que os coloca em atitude de desafio perante o ordenamento social vigente. Por isso mesmo, a harmonia “familiar” estabelecida entre eles é de existência precária e previsivelmente se desfaz quando confrontada com a forças de segurança institucionais. Na nova vida que cada um deles ganha dentro dos padrões oficializados, o afeto e generosidade que recebem são falhos e insuficientes. Kore-eda concebe uma narrativa serena e melancólica carregada de poesia visual para essa saga intimista e fatalista, em um formalismo sóbrio que se revela sempre preciso para a sutil e cortante carga dramática do roteiro.

quinta-feira, fevereiro 07, 2019

Praça pública, de Agnès Jaoui ***


A verborragia intensa e irônica sempre foi uma marca característica de grande parte do cinema francês. Exemplo claro disso é a filmografia da diretora Agnès Jaoui. Nas duas últimas décadas, ela construiu uma sólida obra baseada na prolixidade de diálogos e em um senso cômico sutil e afiado. “Praça pública” (2018) continua nessa levada e tem alguns momentos bem interessantes, ainda que Jaoui nada inove no seu estilo e não tenha grandes arroubos criativos estéticos. Seu roteiro parte de uma premissa temática bem manjada, a de uma grande festa numa casa de campo que reúne personagens de todos os tipos em que apresentam uma série de quiproquós e conflitos sociais e sentimentais. Apesar de tal previsibilidade, Jaoui dirige com verve e segurança, extraindo algumas ótimas performances de seu elenco e momentos efetivamente bem engraçados. A narrativa tem uma dinâmica envolvente e faz com que o subtexto da trama aflore com eficácia, principalmente no sentido de ridicularizar uma classe média alta arrogante que se atribui uma importância intelectual elevada quando na verdade se compraze em frivolidades até bem mundanas. Mesmo o eterno conflito entre valores de direita e esquerda recebe um tratamento engenhoso e lúcido. Ou seja, no conjunto geral, um belo panorama da sociedade francesa contemporânea realizado com classe formal e temática acima da média.