terça-feira, fevereiro 21, 2017

Medo da verdade, de Ben Affleck ***

Pode-se dizer que “Medo da verdade” (2007) funcionou como uma espécie de laboratório para Ben Affleck. Isso porque se pode perceber nesse seu longa-metragem de estreia como diretor uma concepção artística que se delineou de maneira mais eficaz e marcante em “Atração perigosa” (2010). Ainda assim, esse seu primeiro filme como cineasta tem os seus atrativos. O roteiro peca por alguns convencionalismos excessivos e a narrativa se prende a algumas fórmulas óbvias do gênero suspense, mas Affleck demonstra talento na encenação precisa de algumas sequências, na criação de uma convincente atmosfera mista de sordidez e melancolia e na direção de atores, principalmente nas ótimas atuações de Casey Affleck e Ed Harris. E por mais que algumas viradas da trama e mesmo a conclusão da história sejam um tanto forçadas na tentativa de amarrar todas as pontas para o espectador, também é inegável que o cineasta consegue manter uma bem-vinda sobriedade para a narrativa. Diante de tais qualidades que afloraram com ainda mais intensidade em obras posteriores, fica ainda a impressão que Affleck é bem mais interessante como diretor do que ator.

segunda-feira, fevereiro 20, 2017

Redemoinho, de José Luiz Villamarin **1/2

A estrutura narrativa da produção brasileira “Redemoinho” (2016) é similar àquela do filme norte-americano “Manchester à beira-mar” (2016), em que a trama que se desenrola no tempo presente, que tem por mote principal a sensação obscura de mal-estar existencial de alguns personagens, é entremeada por trechos do passado que ajudam a explicar o desconforto emocional de tais indivíduos. O que explica então que a obra de Kenneth Lonergan tenha um resultado final mais cativante do que o trabalho de José Luiz Villamarin? A resposta não é tão difícil – falta para a referida produção nacional uma encenação mais sutil e e uma mão menos pesada na direção. Predomina ainda uma incômoda atmosfera solene, faltando um certo traquejo irônico nessa abordagem. Ainda que o roteiro estabeleça alguns conflitos interessantes na história, buscando até um paralelo entre as questões intimistas com as temáticas do conflito de classes na sociedade brasileira e os preconceitos morais típicos de uma ordem patriarcal, as soluções dramáticas que aponta são delineadas de maneira óbvia e por vezes até simplista. O que garante algum interesse para o filme é a fotografia acima da média de Walter Carvalho e algumas boas atuações do elenco, principalmente por parte de Irandhir Santos e Júlio Andrade nos papéis dos protagonistas.

sexta-feira, fevereiro 17, 2017

Lego Batman: O filme, de Chris McKay ***1/2

Muito mais que uma paródia do universo fílmico da franquia Batman, a animação “Lego Batman: O filme” (2017) é uma ácida dissecação dos clichês narrativos das produções cinematográficas que adaptam as HQs de super-heróis. A produção dirigida por Chris McKay empreende uma verdadeira viagem estética dentro do gênero, indo da caracterização mais escapista e ingênua até as abordagens sombrias típicas desses últimos anos, mas sempre com um viés irônico. Os méritos do filme, entretanto, não se resumem apenas ao seu espírito de gozação. Seu grafismo explosivo revela um detalhismo imagético notável, além de recriar a ambientação de Gothan City combinando uma reverência retrô e alguns toques transgressores. Nesse sentido, é um trabalho bem mais criativo e ousado que a maior parte dos filmes “sérios” dentro da franquia Batman. Aliás, dentro desse lado de ser fiel à essência do protagonista e a atmosfera e contexto humano que o cercam, ainda que repleto de tiradas cômicas, o roteiro consegue delinear até uma sutil complexidade psicológica na caracterização egocêntrica de Batman e de sua doentia com o seu principal antagonista, o Coringa. O homem-morcego se mostra como um personagem bem mais cativante e mesmo ambíguo do que as caracterizações unidimensionais e embrutecidas de “Batman – O cavaleiro das trevas ressurge” (2012) e “Batman vs. Superman: A origem da justiça” (2016). Ainda sobre a trama, as cenas na Zona Fantasma e as referências sutis a uma possível homossexualidade de Robin são outras boas sacadas que valorizam o ótimo texto de “Lego Batman”, que ao se juntar a uma precisa dinâmica narrativa e cenas de ação coreografadas com requintes fazem dessa animação um filme de super-herói muito superior a qualquer coisa que tenha saído das linhagens Marvel e DC nas telas em 2016.

quinta-feira, fevereiro 16, 2017

Assim que abro meus olhos, de Leyla Bouzid ***

A diretora Leyla Bouzid usa uma estrutura narrativa básica em “Assim que abro meus olhos” (2016) de drama intimista para desenvolver o típico roteiro de uma adolescente na fase de descobertas sentimentais e que se encontra nos habituais conflitos de gerações com os seus pais. Ocorre, entretanto, que a trama tem como pano de fundo a Tunísia da época da primavera áraba, marcada pela tradicional repressão política-religiosa dos países islâmicos. Esse componente social se insere na história de maneira sutil – os temores da mãe da protagonista Farah (Baya Medhaffer) não se manifestam de forma expressa, mas a apreensão do seu olhar denuncia um ambiente de opressão e intolerância. A abordagem formal e emocional concebida por Bouzid é marcada por uma bem-vinda contenção dramática que impede que a produção caia em maiores excessos melodramáticos. Sua encenação também é um aspecto positivo do filme, principalmente quando mostra a rotina de Farah movida a sexo, cerveja e rock and roll. Nesse último aspecto, um dos grandes atrativos de “Assim que abro meus olhos” são os números musicais com a banda da protagonista, sequências que ressaltam tanto uma dinâmica desenvoltura cênica quanto uma musicalidade inebriante que mistura de maneira singular natural ritmos regionais e influências ocidentais.

quarta-feira, fevereiro 15, 2017

Toni Erdmann, de Maren Ade ***

As premissas da trama e mesmo o aparente subtexto de “Toni Erdmann” (2016) podem sugerir um aparente convencionalismo formal-temático, em que a história do relacionamento difícil entre Winfried (Peter Simonischek), um extrovertido e meio amalucado aposentado, e sua filha Ines (Sandra Hüller), executiva de uma consultoria internacional, se relaciona de forma simbólica, e por vezes até mesmo direta, com o cenário sócio-político de avanço do poder econômico de grandes corporações e a precarização das relações de trabalho no continente europeu (e por tabela, do resto do mundo). Ocorre, entretanto, que de forma sutil no desenrolar da narrativa a diretora Maren Ade vai descontruindo essa concepção artística tradicional através de insólitos truques estéticos e episódios desconcertantes no roteiro. Há avanços abruptos no aspecto temporal da trama, como se o filme buscasse uma narrativa descarnada e direta, além de uma atmosfera de constante estranhamento, em que os clichês do gênero melodrama são pervertidos com cruel ironia em um clima de comédia de absurdo. No primeiro terço da obra, tais soluções artísticas da cineasta demoram a apresentar uma fluência narrativa, mas lá pela metade do filme a esquisitice e o inesperado tomam conta de vez, fazendo com que “Toni Erdmann” se desenvolva numa ambientação algo alucinada, por vezes até beirando o nonsense, ainda que encenação e montagem tenham uma execução metódica e sem sobressaltos. Dentro dessas particulares concepções, o grande ápice criativo da produção é a antológica sequência da festa de aniversário de Ines, em que a personagem surta de vez, evidenciando uma sensação de perplexidade diante do absurdo da condição humana no mundo contemporâneo.

terça-feira, fevereiro 14, 2017

Epidemia de cores, de Mário Saretta ***

Em um primeiro momento, o documentário “Epidemia de cores” (2016) emula quase uma função de programa institucional ao mostrar a rotina dos internos do Hospital Psiquiátrico São Pedro, em Porto Alegre, em suas oficinas de artes onde se dedicam a pintar e escrever poemas. Com o desenvolvimento da narrativa, tal impressão aos poucos vai se desconstruindo devido ao peculiar tratamento formal-temático realizado pelo diretor Mário Saretta. Na verdade, o subtexto principal da obra estaria no questionamento de valores e concepções da sociedade moderna em relação àquilo que seria considero “normal”. O filme mantém sempre uma atmosfera ambígua, em que a fronteira entre loucura e a sanidade se mostra como algo muito tênue. Nesse sentido, há uma jogada narrativa engenhosa por parte de Saretta – nos depoimentos de pacientes, profissionais da saúde, estagiários e voluntários apena é contextualizado o nome de cada um dos entrevistados, e não a sua condição. É claro que na maioria das vezes se pode perceber claramente quem é aquele que é portador de distúrbios psiquiátricos, mas há momentos em que a dúvida paira de forma sutil e incômoda para o espectador. Tal concepção artística do documentário se relaciona também com um questionamento do papel do “louco” dentro de uma sociedade capitalista marcada pelo relação trabalho-consumo, em que o insano seria aquele que não se consegue mostrar como “útil” dentro desse binômio. Nessa definição, também se acaba refletindo sobre o próprio papel da arte dentro da referida sociedade – o que adianta sensibilidade cultural diante de um modo de vida que exige essencialmente do indivíduo os meios que permitam a aquisição do capital para a sua subsistência e legitimidade social perante os seus pares? O registro audiovisual que abarca essa amarga visão de mundo de “Epidemia das cores” é apropriado no seu misto de crueza e lirismo, em que Saretta consegue captar algumas sequências repletas de nuances dramáticas e mesmo simbólicas na rotina daqueles enquadrados pela sua lente, formando um expressivo panorama humanista.

segunda-feira, fevereiro 13, 2017

Sobre amanhã, de Diego de Godoy e Rodrigo Pesavento ***

Há um momento no documentário “Sobre amanhã” (2014) em que Edu K fala que nunca gostou de ensaiar muito com a sua banda DeFalla com medo de que tudo soasse muito perfeito, pois na lógica artística da banda sempre teria de haver algo “ruim” ou tosco na música concebida e executada por eles. Dentro de tal concepção, o filme dirigido por Diego de Godoy e Rodrigo Pesavento mostra sintonia existencial com a proposta do DeFalla. A narrativa demora até um pouco para se encontrar, com o terço inicial da obra ficando muito preso a um ranço jornalístico – há um excesso de informações que são atiradas como se o espectador assistisse a uma reportagem metida à espertinha da antiga MTV. Com o tempo, entretanto, o filme ganha mais consistência formal e temática, quando começa a deixar mais claro os dilemas e contradições que marcaram a trajetória do DeFalla, assim como consegue traçar um panorama histórico-cultural expressivo ao contextualizar o ambiente que cercava a banda. Os diretores incorporam a precariedades de alguns registros audiovisuais de arquivo como se fizessem parte da uma estética suja e esculachada que remete à própria sonoridade do grupo de Edu K e companhia. Tal abordagem narrativa dá à “Sobre amanhã” um certo encanto e sensorial e também valoriza a peculiar e transgressora arte de seus protagonistas, mostrando as várias facetas e fases de banda (o início new wave, a equação antológica de rock-funk-barulho dos dois primeiros discos, o peso descomunal na época dos shows do Teatro Presidente, a retomada nessa década da formação clássica) em sequências de performances memoráveis.