sexta-feira, agosto 26, 2016

Dias de trovão, de Tony Scott ***1/2

Durante boa parte de sua carreira, o diretor britânico Tony Scott foi acusado de vídeo-clipeiro, cineasta comercial ou de mero profissional tarefeiro de Hollywood. O passar dos anos, entretanto, permitiu uma revisão mais sensata por parte de público e crítica e se pode constatar que ele foi um dos grandes profissionais do gênero cinema de ação das últimas décadas. Claro que não era sempre que ele acertava a mão, mas quando tudo dava certo saíam algumas obras antológicas: “Fome de viver” (1983), “O último boy scout” (1991), “Amor à queima-roupa” (1993), “Chamas da vingança” (2004), “Deja vu” (2006). Na linha de filmes memoráveis também dá para colocar “Dias de trovão” (1990). A partir de um roteiro simples envolvendo pilotos de stock car e de alguns clichês narrativos, Scott se esbalda em algumas ótimas cenas de corridas, além de construir uma convincente atmosfera casca-grossa a exaltar a virilidade e coragem dos corredores. É interessante observar que alguns elementos formais contextualizam bem a época em que a produção foi realizada – nas sequências de provas de stock car não se recorrem a truques digitais, a fotografia estilizada remete ao realismo “neon” típico dos anos 80. Tais truques estéticos podem parecer datados, mas também é inegável que ainda guardam uma parte considerável de seu charme e impacto sensorial.

quinta-feira, agosto 25, 2016

Julien Donkey-Boy, de Harmony Korine ***1/2

Como já foi dito num post anterior, pode-se dizer que o diretor norte-americano Harmony Korine é uma espécie de cronista de uma juventude perdida. Mas não se trata apenas de uma garotada chafurdando em questionamentos existenciais ou à procura de um lugar na sociedade. As jovens criaturas que vagam nas histórias de Korine são reflexos distorcidos (ou reais?) dos modelos comportamentais mais caros da sociedade ocidental, localizados entre uma síntese de hedonismo desesperado e embrutecimento cultural. Em “Julien Donkey-Boy” (1999), o protagonista do título (Ewen Bremner) é um pobre diabo esquizofrênico envolto em um cotidiano perturbador e algo delirante, em que incesto e loucura estão presentes quase como se fossem algo banal. Ainda que não atinja o mesmo pico criativo de “Gummo” (1997), obra de temática parecida, Korine constrói uma narrativa fragmentada e inquietante, em que mais importante do que mostrar um roteiro linear é o fato de se criar uma atmosfera que se alterna de maneira contundente entre o realismo áspero e o surrealismo sinistro.

quarta-feira, agosto 24, 2016

Francofonia, de Alexander Sokurov ****

A linha narrativa de “Francofonia – Louvre sob ocupação” (2015) parece obedecer a uma lógica estética e existencial bastante particular – é como se o espectador fosse jogado dentro de um fluxo de consciência do diretor russo Alexander Sokurov. Tal descrição pode sugerir que o filme em questão esteja ligado a uma mera egotrip artística, mas na verdade a obra de Sokurov vai muito mais além disso. Trata-se de uma reflexão fílmica sobre a guerra, a arte e os valores ocidentais em que o cineasta se vale de recursos e referências diversos para engedrar um estilo único, algo que ele já tinha delineado em “A arca russa” (2002) e que nesse trabalho mais recente se consolida de forma ainda mais radical. Nessa peculiar e desconcertante concepção formal, recriação dramática, linguagem documental, ensaio filosófico e digressões pessoais se combinam com uma naturalidade impressionante, causando um efeito por vezes hipnotizante na sua síntese narrativa que casa registro histórico e encenação entre o realismo e o sutil delírio onírico. Sokurov se vale de tais recursos não apenas como um exercício de virtuosismo e experimentação da linguagem, mas também para aprofundar a dimensão humanista que oferece ao retratar o período em que o museu do Louvre ficou sob o domínio nazista durante a ocupação alemã na França durante a 2ª Guerra Mundial. O diretor rompe com os preceitos típicos do gênero do cinema de época: mais importante que a pretensa fidelidade histórica relativa à recriação física do ambiente e dos indivíduos, é primordial o resgate de uma atmosfera cultural e social da época e que se estende para a ligação intrínseca entre caracterização psicológica de determinadas pessoas e o contexto político que as cerca. Se num primeiro momento “Francofonia” se apresenta como um insólito exercício de revisionismo histórico, com o seu desenrolar as soluções criativas de Sokurov configuram uma obra que também procura e sugere respostas que para o nosso conturbado presente.

terça-feira, agosto 23, 2016

Um belo verão, de Catherine Corsini **1/2

Obras recentes como “Azul é a cor mais quente” (2013), “Boi Neon” (2015) e “Mãe só há uma” (2016) sugerem uma abordagem estética-existencial renovada dentro do panorama cinematográfico para a questão da sexualidade, em um sentido em que rótulos e preconceitos a determinadas posturas comportamentais que fogem da ortodoxia se tornam cada vez mais obtusos perante uma dinâmica intensa e libertária de parte considerável da sociedade. Dentro de um contexto de produções questionadoras e inquietantes como essa, o estilo convencional e passadista de “Um belo verão” (2015) acaba soando um tanto defasado. O filme da diretora francesa Catherine Corsini até apresenta alguns pontos sedutores: a fotografia é bonita nos registros campestres e mesmo de uma Paris de ambiência nostálgica, as cenas de sexo entre as protagonistas Carole (Cécile de France) e Delphine (Izïa Higelin) têm uma intensidade memorável, algumas sequências apresentam uma composição cênica eficaz em termos de desenvoltura. Ocorre que tais aspectos positivos esbarram numa narrativa mofada e que se prende a um roteiro recheado de dilemas previsíveis e melodramáticos em excesso, beirando o novelesco. A maioria das soluções formais e temáticas encontradas por Corsini consiste em truques baratos e caretas, vide o uso abusivo de uma trilha sonora sentimental e solene e de uma direção de arte artificiosa na sua recriação da atmosfera setentista. Ao invés de se contentar com tal visão asséptica, seria mais interessante que a obra de Corsini se deixasse contaminar pelo espírito desafiador do período focalizado e entregasse um resultado final mais espontâneo e contundente.

segunda-feira, agosto 22, 2016

São Paulo em Hi-Fi, de Lufe Steffen **

O grande problema do documentário “São Paulo em Hi-Fi” (2013) não é muito difícil de resumir: a sua estrutura narrativa convencional e excessivamente mecânica não se encontra em sintonia com a sua temática complexa e irreverente. O diretor Lufe Stefren tinha uma matéria prima bastante rica para construir uma obra memorável ao mostrar a trajetória das casas noturnas gays da noite da capital paulista nas décadas de 60, 70 e 80 – depoimentos reveladores e emocionados de entrevistados que vivenciaram o período em questão, imagens de arquivo em profusão, temática bastante interessante. Ocorre que o espírito libertário do assunto que aborda não contaminou sua concepção formal excessivamente burocrática. A narrativa não consegue ter uma desenvoltura efetivamente capaz de prender a atenção do espectador. O padrão de encadeamento das cenas é cumprido com uma previsibilidade entediante: é sempre depoimento seguido de filmagens de apresentações na época, por vezes entremeado com algumas fotografias. Não há aquela narrativa dinâmica e ambientação apaixonada de “Geraldinos” (2015) ou aquele lirismo libertário à flor-da-pele de “Yorimatã” (2014). Faltou uma montagem mais criativa que combinasse todos esses elementos de uma maneira ágil e ousada, em que a estética complementasse a atmosfera mista de alegria, sordidez e nostalgia que emana da história contada. É claro que para efeitos históricos “São Paulo em Hi-Fi” é até uma experiência válida por retratar fatos um tanto obscuros para a grande maioria das pessoas. Como experiência cinematográfica, entretanto, é frustrante por suas escolhas artísticas bem comportadas.

sexta-feira, agosto 19, 2016

Mister Lonely, de Harmony Korine ***

O diretor Harmony Korine é uma espécie de cronista da podridão da sociedade norte-americana. Seus filmes representam crônicas distorcida do american way of life. Dentro de uma estética que privilegia o estranho e o mau gosto, mas que esconde uma abordagem formal sofisticada e um subtexto entre o poético e o libertário, destacam-se em sua filmografia pelo menos duas obras extraordinárias: “Gummo” (1997) e “Spring Breakers” (2012). “Mister Lonely” (2007) não atinge o mesmo grau de impacto artístico das produções mencionadas, mas ainda assim é capaz de impressionar em algumas sequências pela esquisitice de sua trama e força das imagens, mostrando que Korine tem uma forte coerência autoral na forma com que expõe suas obsessões existenciais e estéticas. Numa sociedade como a norte-americana/ocidental que tem uma certa obsessão mórbida com celebridades mortas e/ou trágicas, faz todo sentido Korine mostrar uma história composta basicamente por indivíduos que vivem de imitar tais celebridades. A simbologia presente no roteiro é intrincada, e dentro de uma narrativa fragmentada, parecem compor um painel onírico entre o desconcertante e o desengonçado. Ainda que irregular como resultado final, “Mister Lonely” é a prova de que Korine mesmo em seus momentos menos inspirados é um diretor sempre capaz de surpreender, encantar e/ou perturbar sua plateia.

quinta-feira, agosto 18, 2016

Esquadrão Suicida, de David Ayer *

Lá pela primeira metade da década de 90, foi publicada no Brasil a revista da Liga da Justiça que em seu mix apresentava a fase mais marcante do Esquadrão Suicida, grupo de supervilões que trabalhavam para o governo norte-americano em troca de abrandamento de suas penas. Nesse período, as histórias eram escritas por John Ostrander e desenhadas por Luke McDowell, mostrando uma ótima síntese entre ação empolgante e convincente caracterização psicológica de personagens e situações. As principais figuras do grupo tinham uma dimensão humana bem desenvolvida em suas complexidades, as tramas fugiam de obviedades e se podia perceber uma atmosfera constante de sordidez e amargura na narrativa gráfica. No filme “Esquadrão Suicida” (2016) se pode perceber referências a essa fase áurea do grupo nas HQs, trazendo até em determinado momento uma homenagem explícita para Ostrander, que tem o seu nome impresso nas telas intitulando um edifício. Isso, entretanto, não consegue fazer com que a obra dirigida por David Ayer seja uma produção digna de nota. Por vezes, até dá para sentir que dentro de algumas concepções havia alguma ideia interessante, principalmente no que diz respeito à ambiguidade do mote principal do roteiro (vilões que devem agir como heróis) e no desenvolvimento de alguns personagens. Tudo isso acaba enterrado em nome de hipócritas regras de mercado que servem para amenizar o teor adulto e violento do conceito original e deixá-lo mais palatável em termos comerciais para o grande público composto de geeks, nerds e simples mortais. Não há uma efetiva tensão que envolva o espectador, a narrativa é picotada, os personagens são rasos e desinteressantes, o roteiro é superficial e não desenvolve à contento os personagens e situações, as sequências de ação são burocráticas. Num contexto geral, é como se Ayer e seus assessores tivessem incorporado tudo aquilo que deu certo em outros filmes de super-heróis (a trilha sonora rock and roll/pop de “Guardiões da Galáxia”, a violência e escrotidão de “Deadpool”, as piadinhas bestas de “Homem de Ferro”, a ambientação sombria de “Batman – O cavaleiro das trevas”) e misturasse tudo sem muitos critérios estéticos e temáticos como se isso por si só fosse garantia de sucesso. É claro que apesar de todos esses equívocos “Esquadrão Suicida” fará muito dinheiro, afinal, conta com uma invejável aparelhagem marqueteira. E pelo menos saia algo de bom disso – talvez alguma editora brasileira se disponha a lançar um encadernado com a já mencionada fase de ouro do Esquadrão Suicida da dobradinha Ostrander/McDowell. Mas no geral, o que prevalece é a decepcionante sensação de picaretagem gananciosa de outras adaptações cinematográficas recentes do universo da DC Comics (“Superman – O Homem de aço” e “Batman versus Superman).