terça-feira, novembro 21, 2017

O outro lado da esperança, de Aki Kaurismäki ***

O que diferencia “O outro lado da esperança” (2017) de outras produções dirigidas pelo finlandês Aki Kaurismäki é o fato de ser a obra do cineasta com a trama mais escancaradamente sócio-política. Vários detalhes do roteiro apresentam forte ressonância com alguns dos principais temas que dominam a sociedade europeia – a crescente xenofobia cultural, a cada vez mais intensa migração de árabes para o continente em virtude de conflitos bélicos em seus países natais, a onda de desemprego que joga a economia na informalidade e na precariedade. Há um forte tom panfletário de crítica social na abordagem de Kaurismäki, mas sem que isso afete o estilo habitual do diretor. Pelo contrário – tais aspectos se complementam com bastante naturalidade e coerência. Dessa forma, estão lá na narrativa sempre presente a comicidade baseada numa encenação austera, a idiossincrasia ascética na caracterização de situações e personagens, a empatia que brota de econômicos truques narrativos, os belos números musicais que irrompem de maneira insólita, a atmosfera entre o realismo e o poético que por vezes desconcerta o espectador. A conjunção de tais aspectos artísticos acaba gerando alguns momentos memoráveis, principalmente na ambígua sequência final, em que o trágico e o tom esperançoso convivem em uma estranha harmonia.

segunda-feira, novembro 20, 2017

A conexão francesa, de Cédric Jimenez **1/2

Parecia promissor: “A conexão francesa” (2014) tem como base principal de sua trama a recriação dos fatos reais que inspiraram o clássico “Operação França” (1971). As boas expectativas, entretanto, ficaram só na intenção. A produção dirigida por Cédric Jimenez é uma obra no gênero policial que fica sempre no campo do derivativo – é bem feito e por vezes até envolve o espectador, mas está muito longe da criatividade e ousadia estéticas da obra-prima de William Friedkin. Encenação e montagem são excessivamente convencionais, com uma atmosfera que por diversos momentos recai no melodrama banal. A decepção é ainda maior quando se lembra que o cinema policial francês contemporâneo já apresentou trabalhos bem mais memoráveis como “36” (2004) e “Inimigo público nº 1 – Risco de morte” (2008).

sexta-feira, novembro 17, 2017

Diabo no corpo, de Marco Bellocchio ***1/2

Em boa parte da filmografia do diretor italiano Marco Bellochio, sexo e política se ligam por conexões complexas e indissociáveis. Por vias ora tortuosas, ora de sutil delicadeza, o erotismo adquire tanto contorno libertários quanto de um discurso ideológico difuso. Tudo isso fica evidente em “Diabo no corpo” (1986) – a encenação precisa e descarnada e a crueza dos embates sexuais acentuam uma concepção artística e existencial marcada por uma visão entre o amargo e o irônico dos dilemas e descaminhos da política italiana nas últimas décadas do século XX. Assim, sexo beirando o explícito e a temática espinhosa do terrorismo político parecem caminhar lado a lado com uma naturalidade bizarra e por vezes até encantadora.

quinta-feira, novembro 16, 2017

Condado macabro, de Marcos DeBrito e André de Campos Mello *

Onde está o caminho para o horror nacional? Bem, algumas produções até indicaram caminhos interessantes, vide obras como “Mangue negro” (2008), “Quando eu era vivo” (2014) e “O diabo mora aqui” (2015), que buscaram uma síntese entre fatores estéticos e temáticos tradicionais do gênero com singulares elementos regionais e culturais. Ou seja, houve em tais filmes a procura de uma linguagem própria que extravasasse o simples reciclar sem imaginação de clichês narrativos. Pois “Condado macabro” (2015) vai justamente na direção oposta dos longas mencionados – os diretores Marcos DeBrito e André de Campos Mello parecem dispostos apenas em copiar/homenagear alguns de seus mestres ou influências preferenciais (Rob Zombie, “O massacre da serra elétrica”, slasher movies oitentistas, torture porn contemporâneo, palhaços escrotos, referências pop a la Tarantino) na cara-de-pau e com um formalismo desleixado de dar nos nervos. Pode ser que alguns truques estilísticos e uma certa atmosfera irônica indiquem uma obra que não se pretende levar tão a sério, mas isso acaba soando apenas como desculpa esfarrapada para justificar uma realização tão indulgente. No mais, prevalecem detalhes patéticos como escolhas equivocadas no elenco (o que dizer de atores e atrizes trintões interpretando adolescentes?) e um roteiro desconjuntado e repleto de situações absurdamente cretinas (destaque maior para o momento quando a turminha de “jovens” descobre o primeiro assassinato e na hora da fuga perde longos minutos arrumando as malas!).

terça-feira, novembro 14, 2017

No intenso agora, de João Moreira Salles ***1/2

Em “Santiago” (2017), o documentarista João Moreira Salles construía uma narrativa intimista vinculada a uma temática de caráter bastante pessoal a partir de registros concebidos e realizados originários de filmagens próprias. Já em “Últimas conversas” (2014), o derradeiro longa-metragem de Eduardo Coutinho, Salles foi responsável por fazer os arremates finais no material coletado por Coutinho, principalmente no que diz respeito à montagem, tendo em vista a morte desse último. De certa forma, “No intenso agora” (2017) parece evocar um cruzamento entre os dois filmes mencionados anteriormente: a partir de registros audiovisuais e imagens exclusivamente de terceiros, o cineasta constrói a sua narrativa marcada pelo subjetivismo e pessoalidade. O trabalho de edição é engenhoso e delicado – filmagens amadoras, trechos de documentários, passagens de produções de caráter institucional, partes de reportagens, tudo vai se juntando e relacionando tendo como princípio uma visão artística e existencial delimitada com sensibilidade. Essa visão se personifica na narração de própria voz de Salles. O tom monocórdio da locução e o texto que sintetiza relato histórico e reminiscências pessoais formam um conjunto perturbador e ambíguo que dá um sentido particular desconcertante para as imagens e sons que brotam da tela. A impressão sensorial é de um longo devaneio de Salles que mistura melancolia, desilusão, nostalgia, ironia amarga e uma sutil e vaga noção de deslumbramento. Pode-se argumentar que há um tom vacilante e difuso na narrativa que sugira um direcionamento ideológico, mas a verdade é que “No intenso agora” não tem um propósito primordial de convencer alguém de alguma coisa. Está mais para a tentativa de materialização fílmica de determinados sentimentos e desejos que talvez nem o próprio Salles saiba direito do que se trata. E é nessa imprecisão nebulosa de intenções que reside o encanto de seu documentário.

segunda-feira, novembro 13, 2017

Vazante, de Daniela Thomas ***

Ao se assistir à “Vazante” (2017), dá para entender um pouco a polêmica que o filme de Daniela Thomas vem causando. O retrato que faz da escravidão do Brasil no século XIX causa certo teor de perturbação por uma abordagem emocional e histórica marcada pela sobriedade e ausência de uma delimitação mais clara entre o “bem” e o “mal” – ou seja, não dá para dizer que se trata de uma trama com mocinhos e bandidos. O retrato que o roteiro propõe mostra o regime escravista entranhado na sociedade como algo normal, corriqueiro. Na trama, as famílias de fazendeiros que possuem escravos não apresentam uma caracterização de sádicos ou dementes racistas, mas sim de pessoas normais, eventualmente atormentadas, que aceitam e se valem daquela situação de exploração desumana como algo normal e aceitável no seu cotidiano. Mesmo na ala dos escravizados predomina um teor de resignação, com eventuais situações de revolta. Na verdade, essa visão da escravidão como algo normal e corriqueiro é que dá a verdadeira dimensão assustadora da situação e ajuda melhor a explicar como o racismo no Brasil apresenta todo esse contexto de hipocrisia e crueldade na sociedade contemporânea. Voltando ao filme, também é um acerto o trabalho minucioso de direção de arte e fotografia em preto e branco que compõem um registro audiovisual marcado tanto pelo áspero realismo quanto por uma beleza melancólica no seu sutil registro que vai das grandes tomadas de paisagens naturais até enquadramentos e encenação de caráter intimista. O que atrapalha o longa-metragem de Thomas é que no terço final da narrativa a obra se converte num gasto melodrama envolvendo adultérios e gravidezes suspeitas que por vezes beiram o novelesco banal, ainda que guardem um simbolismo por vezes inquietante.

sexta-feira, novembro 10, 2017

Dois é bom, três é demais, de Anthony e Joe Russo **

Os créditos na direção de “Dois é bom, três é demais” (2006) até sugerem algo de promissor. Afinal, trata-se dos irmãos Anthony e Joe Russo, responsáveis por um dos melhores filmes da Marvel Studios, “Capitã América: O soldado invernal” (2014). O resultado final dessa comédia, entretanto, deixa bastante a desejar. Não chega a ser exatamente ruim – há alguns momentos daquele humor grosseiro que efetivamente rendem algumas risadas, além de uma visão mais crítica sobre questões comportamentais e mesmo intimistas dentro da sociedade norte-americana. Tais aspectos positivos, entretanto, são sufocados pelo convencionalismo excessivo e derivativo da forma com que a narrativa é conduzida, além de um roteiro bastante conservador em suas resoluções. Afinal, o que dizer de uma conclusão em que um eterno desajustado acaba se enquadrando nos padrões ao se descobrir como um excelente palestrante de autoajuda?