segunda-feira, agosto 03, 2009

De Mão Para Filha, de Andrea Zambelli *


Esse documentário italiano de 2008 trata sobre a tradição dos cantos folclóricos das colhedoras de arroz da região de Vercelli, ambiente esse que já havia sido retratado no clássico “Arroz Amargo” (1948). O filme combina antigas imagens de arquivo com depoimentos pessoais das cantoras, indo de veteranas senhoras até as mais moças que batalham para perpetuar essa expressão cultural. É claro que é uma história interessante, sendo que os maiores atrativos do filme estão no carisma de algumas dessas mulheres e no encanto pela beleza bruta da música que vem da tela. O resultado final, entretanto, é enfadonho, pois a direção é tão burocrática e o roteiro tão raso ao abordar os aspectos históricos que se acaba ficando com uma impressão constante de se assistir a um vídeo institucional sobre o coro feminino em questão.

Belle Toujours, de Manoel Oliveira ***


Confesso que a minha expectativa para “Belle Toujours” (2006) não era das maiores. Afinal, nunca fui muito fã do cineasta português Manoel de Oliveira. Além disso, querer fazer uma continuação da obra-prima “A Bela da Tarde” (1967) de Luis Bunuel pode soar pretensioso demais. Mas o resultado final é surpreendente. Oliveira sabe que seria quase impossível fazer uma obra à altura do original, sendo que dessa forma prefere concentrar sua narrativa em uma visão sarcástica sobre a velhice dos principais personagens do clássico de Bunuel. A trama oscila entre o monótono e até mesmo um certo tom mágico, fazendo com que “Belle Toujours” funcione como uma discreta e bem humorada homenagem a um dos grandes momentos da história do cinema.

Canções de Amor, de Christophe Honoré ****


“Canções de Amor” (2007) parece começar justamente de onde parou “Em Paris” (2006), produção também dirigida por Christophe Honoré. O cineasta aprofunda as suas experimentações formais, pendendo ainda mais para a linguagem irreal do musical. Mas as intenções estéticas de Honoré não são simplesmente escapistas. Seu objetivo é justamente fazer o confronto do anti-naturalismo do gênero musical com a pungência e a dureza emocional que emanam de um roteiro que fala sobre perdas e paixões desencontradas. É como se o “cinema total” de Jean-Luc Godard encontrasse o intimismo romântico dolorido e desiludido típico da obra de Truffaut. Essa conexão com a Nouvelle Vague está presente de forma marcante em várias seqüências de “Canções de Amor”, mas Honoré está bem distante do mero revivalismo. Seu filme transpira vivacidade e naturalidade impressionantes, embalado por uma trilha sonora repleta de canções memoráveis. É extraordinária a maneira fluida com que a música irrompe em cenas de alto teor dramático. A sensação inicial em tais momentos é de estranhamento, mas ao poucos essa insólita combinação começa a fazer totalmente sentido. A grande força criativa de “Canções de Amor” está justamente nessa conjugação entre o estranho e o encantador.

Antonioni sobre Antonioni, de Carlo Di Carlo **


Esse documentário sobre a carreira do cineasta italiano Michelangelo Antonioni não traz muitos atrativos no seu aspecto formal. O grande foco de seu interesse está mesmo nos depoimentos colhidos do diretor biografado. Antonioni não fala muito sobre a sua vida, preferindo fazer comentários sobre alguns de seus filmes. O mais fascinante na visão que oferece sobre sua obra é que ele não procura explicar o sentido da mesma, preferindo se concentrar em pequenos detalhes quanto ao seu estilo de filmar. “Antonioni sobre Antonioni” não é um documento definitivo sobre o grande diretor que foi Antonioni, mas rende alguns momentos preciosos para os admiradores não só do cineasta, mas também do cinema em geral

domingo, julho 26, 2009

O Casamento de Rachel, de Jonathan Demme ***1/2


O estilo cru de filmar em “O Casamento de Rachel” (2008) salta aos olhos: iluminação natural, trilha sonora praticamente tocada ao vivo, a maioria das cenas filmadas com câmera na mão. Os mais desavisados podem até ficar achando que o cineasta Jonathan Demme esteja querendo imitar os filmes do Movimento Dogma 95 ou querendo fazer uma pose de “cinema independente”. A verdade é que as raízes de Demme, antes que ele entrasse definitivamente no “mainstream” com o “Silêncio dos Inocentes” (1991), sempre estiveram ligadas ao lado B do universo cinematográfico norte americano. Dessa forma, fazer um filme fora dos padrões de Hollywood não é novidade para ele. E essa escolha por uma abordagem formal menos suntuosa é mais do que adequada para o efeito que ele queria obter em “O Casamento de Rachel”, obra que busca retratar as relações humanas de forma mais direta e sem sentimentalismos excessivos. A caracterização de personagens e situações impressiona e também incomoda no sentido das emoções brutas que retrata.

É claro que não dá para falar sobre “O Casamento de Rachel” sem mencionar a beleza de sua trilha sonora. Cineasta fortemente ligado à música, vide as inesquecíveis canções que abrilhantavam “Totalmente Selvagem” (1986) ou o revolucionário documentário “Stop Making Sense” (1984), Demme pontua o seu filme com uma riqueza estonteante de melodias e ritmos (rock, country, folk, rap, música celta e até mesmo samba!). A cereja do bolo nesse aspecto, entretanto, está na marcante seqüência da cerimônia de casamento em que o noivo canta para a amada a bucólica “Unknown Legend”, pequena jóia do repertório de Neil Young. Aliás, tal momento complementa a parceria marcante do bardo canadense com o diretor, depois da canção título de “Filadélfia” (1993) e do extraordinário documentário “Neil Young: Heart of Gold” (2005), ambos os filmes dirigidos por Demme.

Top Hat, de Mark Sandrich ***1/2


Passados mais de 70 do seu lançamento, talvez compreender e apreciar os encantos de "Top Hat" seja uma tarefa árdua para boa parte do público desse milênio, ávido por realismo e densidade psicológica. Afinal, tais atributos passam longe da obra em questão. Para o espectador moderno deve ser realmente difícil aceitar uma trama tão pueril e ingênua, além daquilo que é o “pecado” maior desse tipo de produção: afinal, por que essa gente feliz está toda hora cantando e dançando de forma repentina e sem maiores explicações?

O pensamento desse público “moderno” poderia nos fazer pensar, então, que o mundo realmente decretou a morte dos musicais de forma irreversível e que assistir à Top Hat seria um mero exercício de aprendizado histórico. Mas daí o apreciador de cinema desavisado assiste a "O Paciente Inglês" (1996) e acaba simpatizando com uma personagem tão arredia como o Conde Laszlo (Ralph Fiennes) simplesmente pelo fato dela ser fã do Fred Astaire, chegando ao ponto até de tentar imitar uns passos do velho mestre do sapateado. E quando termina o filme, a melodia sinuosa de "Cheek to Cheek", canção emblemática de "Top Hat", não sai da nossa mente e sem querer nos momentos mais inesperados estamos assobiando a tal da música.

É claro que "Top Hat" está longe da perfeição formal de outros grandes clássicos do cinema como "Cidadão Kane" ou "O Poderoso Chefão". A banalidade do roteiro é tamanha que passados alguns minutos depois de assistir ao filme é difícil lembrar do que se tratava a história do mesmo. A verdade é que fora as magníficas canções e coreografias de danças, pouca coisa se consegue lembrar de "Top Hat". E isso não é nenhum demérito, pois a proposta é justamente essa: roteiro, fotografia e montagem funcionam a contento e são apenas meros pretextos para os maravilhosos números musicais que inundam a tela e nos enchem os olhos. Ou seja, é puro escapismo, mas executado com sensibilidade e competência ímpares. E escapismo bem realizado era tudo que os nortes-americanos (e o resto do mundo também) precisavam em meados da década de 30, quando a sociedade ainda estava em fase de recuperação da terrível recessão econômica decorrente da famigerada queda da Bolsa de 1929.

"Top Hat" representa o ápice de uma fórmula infalível e consagrada do estúdio da RKO e que fez com que o mesmo enchesse os seus cofres de grana (e permitiu depois que um certo jovem chamado Orson Welles torrasse um pouco dessa grana fazendo o tal do "Cidadão Kane"...). Além de habitual eficiência do diretor Mark Sandrich, havia a antológica e bem azeitada parceira de Fred Astaire e Ginger Rogers, o casal dançarino mais marcante da histórica do cinema, junto a um conjunto de canções sublimes da dupla Irving Berlin e Max Steiner. Aliás, a parte musical de "Top Hat" é tão extraordinária que não foi apenas a canção título do filme (a qual Fred Astaire não gostava) que se tornou peça fundamental do cancioneiro norte-americano, mas também a já citada "Cheek to Cheek" e "Isn’t It a Lovely Day". E convenhamos: diante do pleno apogeu desses talentos extraordinários em se tratando de canções, atores e coreografias, quem é que realmente vai ser importar com um roteiro débil?

O que fica mesmo gravado no nosso imaginário e torna "Top Hat" tão especial para os admiradores de musicais (e também da arte cinematográfica em geral) é o puro prazer sensorial de se assistir à mágica química dançante de Fred e Ginger deslizando majestosamente por um coreto londrino ou nos canais da Veneza falsa (mas ainda assim bela) dos cenários da RKO ao som de alguns dos mais marcantes números musicais do século XX. E, sinceramente, precisa algo mais do que isso?

Monstros vs. Alienígenas, de Rob Letterman e Conrad Vernon ****


Há pelo menos dois lados na narrativa de “Monstros vs. Alienígenas” (2009) que são conduzidos de forma brilhante. Um deles é o verdadeiro manancial de citações e referências bem humoradas a clássicos cinematográficos ou célebres filmes B do gênero da ficção científica, em uma visão que traz um viés tanto de homenagem quanto de sátira. Por outro lado, essa animação também é uma primorosa obra no quesito aventura e ação, sendo que há várias seqüências empolgantes envolvendo muita destruição, perseguições e efeitos de encher os olhos. A força de “Monstros vs. Alienígenas” também está justamente no aspecto de combinar esses dois lados da sua narrativa e fazer com que nenhum se sobreponha ao outro. Colabora também para o sucesso artístico do filme a ótima caracterização dos monstruosos protagonistas, todos carismáticos e de personalidades perfeitamente delineadas. Pode-se dizer que nessa linha de animações que primam pela ação e bom humor, “Monstros vs. Alienígenas” está no mesmo alto nível de produções como “Os Incríveis” (2004) e “Kung Fu Panda” (2008).

Animal Crackers, de Victor Heerman ****


Às vezes, a grandeza de um filme pode ser medida pela forma como ele se torna referência no universo cultural. "Animal Crackers", produção de 1930 e o segundo filme que conta com a participação insana dos Irmãos Marx, é um caso exemplar dessa premissa. Logo de cara, vem à mente a brilhante homenagem aos antigos musicais realizada por Woody Allen em "Todos Dizem Eu Te Amo" (1996), em que umas das seqüências mais memoráveis tinha por tema musical uma das canções principais de "Animal Crackers", a hilária e empolgante "Hooray For Captain Spaulding". E por falar nele, não dá para esquecer também que o tal do Capitão Spalding, personagem inesquecível encarnado por Grouxo Marx, acabou sendo retomado como codinome do assustador patriarca da família de psicopatas de "Rejeitados Pelo Diabo" (2005). Aliás, todos os membros desse gentil agrupamento familiar adotavam os nomes de figuras do universo “marxista”...

Mesmo não sendo tão bem acabado quanto outras obras posteriores dos Irmãos Marx como os antológicos "Diabo a Quatro" (1933) e "Uma Noite na Ópera" (1935), "Animal Crackers" atinge em alguns momentos patamares de humor anárquico e genial tão altos quanto tais produções. Em termos cinematográficos, os Marx ainda estavam procurando o melhor formato para adequarem os seus dotes cômicos. Isso sem contar que o diretor Victor Heerman não tinha o mesmo vigor e inspiração de Leo McCarey, o cineasta que melhor dimensionou a loucura fora de controle dos brothers. Apesar desses pequenos reveses, entretanto, Grouxo, Chico e Harpo oferecem ao espectador algumas das melhores seqüências da história da comédia cinematográfica.

Em "Animal Crackers", há bastante daquilo com que se está acostumado, e das quais nunca se cansa, em filmes dos Irmãos Marx: os diálogos e jogos de palavras recheados de tiradas desconcertantes de Grouxo (a melhor delas: “O primeiro número do senhor Ravelli será ‘Em alguma parte minha amada está deitada a dormir’com um coro masculino”), a capacidade quase ingênua de Chico em criar confusões, o humor puramente visual do mudo Harpo, a pateta de trejeitos aristocráticos Margaret Dumont sendo infernizada/seduzida pela ironia ácida de Grouxo, além, é claro, dos números musicais de Chico mostrando um virtuosismo malabaristico ao piano e de Harpo debulhando puro lirismo na sua harpa. Ah, tem também a sem-gracice tradicional do Zeppo, o irmão Marx mala, mas isso a gente até desconsidera...

"Animal Crackers" é baseado em uma comédia musical encenada pelos próprios Irmãos Marx na Broadway, com canções de Bert Kalmar e Harry Ruby, e a sua origem se evidencia em alguns trechos do filme, quando se fica com a impressão de se estar assistindo a puro teatro filmado. No final das contas, entretanto, isso acaba se revelando apenas como mero detalhe. Afinal, o que importa é assistir aos Marx transformando o fio de roteiro em desculpa para destilar o seu humor devastador, que beira quase o surreal, além de se ter o prazer de ouvir e assistir a alguns dos mais belos números musicais que Hollywood já ofereceu em canções como "Hooray For Capitain Spalding" e "Why am I So Romantic". E justamente talvez esse seja o efeito mais peculiar e perturbador da cinematografia dos Irmãos Marx: ao mesmo tempo que somos acariciados pelo humor fluente deles e a beleza envolvente das melodias que permeiam seus filmes, também convivemos com o sentimento de perigo de uma piada ou de uma atitude bufona que pode jogar para escanteio as estruturas lineares de narrativa assim como a própria realidade. Ou seja, sedução e transgressão convivem lado a lado, o que torna o humor siderado desses eternos rapazes ainda muito avançado e desafiador, mesmo para esse cínico novo milênio em que vivemos.

sexta-feira, julho 24, 2009

Pagando Bem Que Mal Tem, de Kevin Smith ***1/2


Kevin Smith nunca foi um cineasta de grandes vôos formais. Seu forte sempre foram os roteiros, recheados de referências pop, piadas, situações constrangedoras e personagens carismáticos, emoldurados por fotografia e montagem simples e sem invencionices. Quando fugiu dessa linha, acabou tendo o seu maior desastre artístico que foi o enfadonho e pretensioso “Dogma” (1999). “Pagando Bem Que Mal Tem” (2008), sua produção mais recente, traz o tradicional estilo de Smith, o que acaba resultando numa boa diversão. É claro que a narrativa obedece aos cânones do gênero comédia romântica, repleta de desencontros que acabam desembocando no final feliz para os seus protagonistas. O diferencial está nos toques bem humorados e sacanas que o cineasta insere na trama, indo dos momentos irônicos sobre o universo dos “losers” até seqüências hilariantemente grosseiras, fazendo com que “Pagando Bem Que Mal Tem” confirme o bom momento criativo de Kevin Smith depois do igualmente divertido “O Balconista 2” (2006).

quarta-feira, julho 22, 2009

Alma Perdida, de David Goyer *


"Alma Perdida” (2009) é o reflexo de um problema crônico das produções norte-americanas de horror: parece que foi dirigido por um cineasta que não tem muita intimidade com o gênero e que usou um manual debaixo do braço. O resultado é uma obra genérica, sem personalidade e inspiração. Utiliza-se alguns clichês básicos e saturados do moderno cinema asiático de horror com uma dose de drama pueril típico do cinema comercial dos EUA. Tudo em “Alma Perdida” é excessivamente padronizado, da evolução óbvia do roteiro, com os sustos colocados nos momentos certinhos, até a fotografia asséptica. Esse David S. Goyer tinha que assistir a alguns filmes de Mario Bava ou Dario Argento para fugir um pouco dessa sua mesmice criativa.

O Vampiro da Cinemateca, de Jairo Ferreira ***


Confesso que nunca li nada dos tão comentados textos sobre cinema de Jairo Ferreira. Ao assistir, contudo, “O Vampiro da Cinemateca” (1977), um dos poucos títulos da sua errática filmografia, fiquei bastante curioso para conhecer tal material. O filme, utilizando-se de um texto ácido e escrachado e de um criativo trabalho de edição, rompe com os limites entre o artístico e o popular. Misturando referências eruditas com depoimentos irônicos de Carlos Reichenbach, Zé do Caixão e Jards Macalé, Ferreira oferece uma das obras mais transgressivas e inquietantes do cinema brasileiro.

quinta-feira, julho 09, 2009

O Clube dos Cafajestes, de John Landis ****


Existem filmes que fazem parte de um seleto grupo de obras que são definidoras de uma época e de um gênero cinematográfico. “O Clube dos Cafajestes” (1978) é uma dessas raras produções. John Landis definiu os cânones de um tipo bem específico de comédia: escrachada, escatológica e focada em personagens juvenis. Mas “O Clube dos Cafajestes” não se trata apenas de uma mera junção de piadas e grosserias. Landis mostra uma classe impressionante ao dar uma magnífica unidade narrativa para um conjunto de seqüências cômicas engraçadíssimas, oferecendo também uma visão ácida sobre a conservadora sociedade norte-americana. Além disso, a caracterização dos personagens é primorosa, principalmente a atuação xamânica do extraordinário John Belushi como o animalesco Bluto. Sob a influência dessa obra-prima, foram realizados ótimos filmes (“Picardias Estudantis”, “Superbad”) e outros nem tanto (as franquias “Porkys” e “American Pie”). Nenhum deles, entretanto, conseguiu superar a fantástica matriz.

Aleluia, Gretchen, de Silvio Back ****


“Aleluia, Gretchen” (1976) é um dos melhores filmes brasileiros a retratar a questão do nazismo. O grande mérito do cineasta Silvio Back nessa produção é elaborar uma narrativa que trafega entre o real e o alegórico com uma impressionante naturalidade. Além disso, acompanha-se a trajetória da família alemã Kranz por um viés intimista e sufocante ao mesmo tempo que se busca a relação da mesma com episódios históricos. É nessa conexão em que se estabelece a desintegração moral dos Kranz com o sombrio prisma político do contexto temporal focado (1936-1976) que reside um dos pontos mais fascinantes dessa obra, lembrando muito, por esse tipo de abordagem, uma das obras-primas de Luchino Visconti, “Os Deuses Malditos” (1969). O elenco de “Aleluia, Gretchen” também é destaque, estando em perfeita sintonia com o espírito do filme, em interpretações que variam de forma brilhante do dramatismo contido ao patético e caricatural.

Dúvida, de John Patrick Shanley **1/2


Reconheço que “Dúvida” (2008) tem as suas qualidades. É uma produção bem cuidada em termos técnicos, a temática do seu roteiro é potencialmente explosiva e tem um elenco de respeito (apesar de boa parte das interpretações soarem mecânicas e artificiais em algumas cenas). O problema é que o tratamento oferecido pelo diretor John Patrick Shanley chega a ser sufocante no seu convencionalismo e rigidez. Existe uma pretensão em ser sutil e até mesmo metafórico ao se focalizar o embate de um padre progressista (Philip Seymour Hoffman), mas possivelmente pedófilo, e uma religiosa inflexível e conservadora (Meryl Streep). O resultado, entretanto, é bem diverso do que foi desejado pelo cineasta. Os diálogos são excessivamente discursivos, não dando o menor espaço para alguma interpretação de quem assiste. A seqüência final do filme, com a referida religiosa chorando e proclamando com todas as letras os seus sentimentos de dúvida, é exemplar dessa equivocada opção narrativa, que na verdade revela a origem teatral do roteiro. Cinema não é literatura, sendo que em um filme é preferível a valorização do silêncio e da imagem em determinados momentos do que concentrar tudo nos diálogos.

The Spirit - O Filme, de Frank Miller *


A antológica e revolucionária série em quadrinhos “The Spirit”, do genial Will Eisner, tinha como uma das suas principais qualidades a incorporação de influências cinematográficas na sua concepção visual e narrativa. Não é à toa, dessa forma, que a própria série em questão influenciou uma gama considerável de filmes. Frank Miller, outro autor consagrado dos “comics”, resolveu fazer a sua estréia solo na direção fazendo a adaptação de Spirit para a telona. Miller já tinha algumas experiências no cinema, em produções de graus variados de qualidade, indo do brilhante “Sin City”,” (2005), dirigido em parceria com Robert Rodriguez, até os medíocres e esquecíveis “Robocop 2”,” (1990), onde escreveu o roteiro, e “300”,” (2007), em que foi uma espécie de consultor criativo. Pois em “The Spirit – O Filme” (2008) Miller acaba se superando. Só que em ruindade!! O filme é um equívoco em todos os sentidos. O pretenso cineasta destruiu a essência original da série, transformando o protagonista numa espécie de super-herói brutal e quase invencível. A narrativa é truncada, com a caracterização de situações e personagens oscilando entre o caricatural e o ridículo. Apesar de todos esses clamorosos defeitos criativos, entretanto, “The Spirit” tem algo de instigante. A intenção de Miller não foi entregar um produto facilmente digerível para as platéias. Suas idéias de transgredir as concepções de Eisner ao invés de simplesmente repeti-las assim como de romper com os cânones tradicionais dos filmes de super-heróis são interessante, mas mal executadas. Ele errou feio, mas errou também com um certo sentido épico daqueles que buscam rupturas artísticas, e isso é muito mais louvável do que simplesmente apresentar uma produção bem acabada, mas asséptica e sem personalidade.

sábado, junho 20, 2009

Jogo Entre Ladrões, de Mimi Leder *1/2


Filmes marcados por obviedades em seus roteiros não são necessariamente um mal. Se um diretor consegue obter uma narrativa dinâmica através de fotografia e montagem bem trabalhadas, os lugares comuns de uma trama até passam batidos. Não é o que acontece em “Jogo Entre Ladrões” (2009). A cineasta Mimi Leder não demonstra maiores brilhantismos nos aspectos formais da produção, procurando enfocar o interesse justamente num roteiro cheio de “surpresas” que são facilmente adivinháveis lá pela metade do filme. Para piorar a situação, Antonio Banderas e Morgan Freeman estão no auge da canastrice. No final das contas, o que acaba dando um certo interesse para “Jogo Entre Ladrões” é a bela Radha Mitchell, que está bem gostosinha em cena...

Gran Torino, de Clint Eastwood ***1/2


Clint Eastwood, parceiro e admirador confesso do grande cineasta Don Siegel, deve ter resolvido homenagear o mesmo em “Gran Torino” (2008). Afinal, a trama dessa sua produção mais recente tem muitos pontos em comum com o roteiro de “O Último Pistoleiro” (1976), um dos filmes mais admiráveis de Siegel. Ambos tem protagonistas durões e de passados com experiências violentas e nebulosas que se descobrem com uma doença fatal e resolvem estabelecer as suas próprias regras e rituais de como morrerão. Além disso, os mesmos acabam tendo jovens carentes da figura paterna como espécie de seguidores/aprendizes. “Gran Torino”, entretanto, não é uma mera reciclagem do filme mais antigo, tendo seus méritos próprios. Eastwood dirige da sua tradicional maneira segura e clássica. O personagem Walt Kowalski é uma síntese de outros papéis marcantes de Eastwood, sendo que as melhores seqüências são justamente aquelas em que o protagonista range os dentes e enfrenta os seus desafetos. Mesmo com todas as suas rugas e outros entraves da sua avançada idade, são nesses momentos que a tremenda carga mitológica e carismática de Clint irrompe de forma impressionante.

“Grand Torino” só não atinge o mesmo patamar de excelência de “O Último Pistoleiro” porque algumas caracterizações simplórias e caricatas, principalmente quando entra em cena a família de Kowalski, enfraquecem um pouco a densidade da sua narrativa. Mesmo assim, é uma obra de respeito dentro da expressiva cinematografia de Eastwood.

Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet ****


Li recentemente um artigo no jornal Zero Hora que tratava sobre o fenômeno cada vez mais recorrente de pessoas que abandonam as salas de cinema de Porto Alegre no meio das projeções. O mais curioso em tal matéria era o fato de que apontava a produção que era uma espécie de atual “campeã” nesse tipo de situação: “Entre os Muros da Escola”. Um repórter que ficou “de tocaia” na saída de uma sessão do filme em questão abordou um cidadão que estava saindo bem antes do término, questionando o mesmo porque ele já estava partindo tão cedo, sendo que o cidadão respondeu que a obra era decepcionante por só mostrar pessoas discutindo e não trazer nenhuma “lição de vida”. Bem, devo confessar que concordo com o nosso amigo fujão, pelo menos em parte. Não há em “Entre os Muros da Escola” exemplos edificantes de comportamento professoral, na linha “Meu Mestre Com Carinho”. E esse é justamente um dos aspectos mais fascinantes da obra. O professor François é apresentado, antes de mais nada, como um ser humano que diante de situações difíceis pode tomar uma decisão acertada como também hesitar ou meter os pés pelas mãos, o que é que ocorre justamente em alguns momentos. Paira pelo filme a sensação melancólica de que François e seus colegas, que representam um modelo de escola tradicional, são quase anacrônicos ao tentar lidar com uma nova realidade de situações e questionamentos que são representados pelos alunos que, em sua grande maioria, são descendentes de imigrantes. O que se atira na cara do espectador, e talvez isso perturbe a um ponto de até o mesmo abandonar a sala de cinema, é que tudo aquilo que se aprende numa sala de aula está cada vez mais defasado da realidade dos estudantes. A tão comentada seqüência final do filme é a perfeita e amarga síntese disso.

Mas reduzir o brilhantismo de “Entre os Muros da Escola” a somente ao seu lúcido discurso social seria injusto. O diretor francês Laurent Cantet dá a sua narrativa uma dinâmica eletrizante, num brilhante jogo de enquadramentos criativos e edição de cortes rápidos, mas não confusos, que acabam refletindo o próprio sentimento de urgência da trama. Outro detalhe instigante da obra é o fato de que devido ao fato da mesma ser uma adaptação de um livro baseado em situações reais, Cantet teve a idéia de que a maioria das pessoas retratadas no texto interpretasse a elas mesmas na tela. O resultado dramático é fabuloso, com o elenco oferecendo interpretações espontâneas e fluidas que estão em perfeita sintonia dramática com o espírito do filme.

Anabazys, de Paloma Rocha e Joel Pizzini ***1/2


Apesar de gostar muito de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1963), “Terra em Transe” (1967) e “O Santo Guerreira Contra o Dragão da Maldade” (1968), devo confessar que ainda não assisti “A Idade da Terra” (1980), o derradeiro filme de Glauber Rocha. É que boa do que li e ouvi falar sobre o filme é tão pouco animador que o mesmo por muito tempo não entrou como prioridade na minha lista de obras por assistir. Mas depois da sessão de exibição do documentário “Anabazys” (2007) essa minha percepção mudou bastante, sendo que agora “A Idade da Terra” se tornou uma produção a ser conferida brevemente por este que vos escreve.

“Anabazys”, basicamente, tem como tema a realização de “A Idade da Terra”, mas está muito longe de ser um simples “making of”. Sua narrativa é dividida em três momentos. No primeiro, assiste-se às dificuldades de Glauber para conseguir financiamento para a realização do filme. Na época, a situação era difícil para o genial cineasta baiano, que se encontrava brigado com boa parte do meio cultural brasileiro devido a declarações polêmicas sobre a ditadura militar, além de recém chegado do seu exílio. O segundo momento de “Anabzys” é focado nas filmagens. Nessa parte do documentário, é fascinante assistir ao método de filmar de Glauber em ação. Tudo parecer fluir de forma espontânea e delirante, com Glauber em plena ebulição criativa e exigindo de atores e demais membros da equipe uma entrega absoluta, ao mesmo tempo que expõe suas insólitas concepções estéticas e temáticas, misturando crítica social, misticismo e inusitadas referências culturais. O terço final do filme é igualmente desconcertante, ao retratar a forma, que oscilava entre a frieza e estranheza, com que “A Idade da Terra” foi recebida no Festival de Veneza e no Brasil. Pode-se até discordar das razões e teses de Glauber, mas o que impressiona mesmo é a sua defesa febril e quase messiânica da sua obra, com ele encarnando uma espécie de Antônio Conselheiro do cinema nacional.

O grande mérito de “Anabazys” não é o simples fato de comprovar ou não as qualidades artísticas do canto do cisne de Glauber. O que realmente impressiona nesse documentário é de mostrar sem artifícios ou concessões o difícil parto de uma obra que, longe de alcançar a unanimidade e muito mais importante do que isso, revelava a alma de uma das mais importantes figuras da cultura brasileira.

domingo, junho 07, 2009

Sex Drive - Rumo ao Sexo, de Sean Anders ***1/2


Os anos 80 foram um período dourado para o gênero comédias adolescentes. Aquela mistura de grosseria e inocência, tendo como modelo a suprema obra prima "O Clube dos Cafajestes" (1978) de John Landis, rendeu uma série de filmes antológicos. E o impacto de tais produções foi tão grande que ainda hoje aparecem obras influenciadas por aquele período, como os excelentes "Show de Vizinha" (2004) e "Superbad" (2007). "Sex Drive – Rumo ao Sexo" (2008) não está no mesmo nível desses dois últimos, mas chega perto e é um excelente divertimento. O diretor Sean Anders resgata muito daquela aura oitentista, mas atualizando com eficiência sob uma ótica moderna. No meio de hilariantes seqüências envolvendo escatologia e situações constrangedoras, há também uma fina ironia ao sacanear a conservadora sociedade norte-americana e seus estereótipos. Isso fica evidente principalmente nas seqüências envolvendo o hilariante homofóbico Rex (James Marsden) e uma comunidade amish não muito convencional... "Sex Drive" também encanta pela espontaneidade de sua dinâmica narrativa e por uma muito bem sacada conjunção de imagens e trilha sonora. Toda aquela seqüência dos três amigos viajando numa estrada ao som da sensacional canção "Time to Pretend" do MGMT, por exemplo, remete bastante a algumas cenas do clássico "Sem Destino". E podem acreditar: essa comparação, por mais exagerada que possa parecer, não é sacrilégio!!

Simplesmente Feliz, de Mike Leigh ***1/2


Em obras anteriores como "Segredos e Mentira" (1996), "Agora ou Nunca" (2002) ou "Simplesmente Feliz" (2004), o cineasta britânico Mike Leigh mostra uma visão sem enfeites sobre as relações humanas, optando pelo gênero de dramas sérios e de temática forte, utilizando um estilo de filmar objetivo e focado nas intensas interpretações de seus atores. Aparentemente, "Simplesmente Feliz" parece fugir dessa linha narrativa típica de Leigh pelo tom leve e cômico de algumas seqüências. No decorrer da trama, entretanto, o diretor parece contaminar a trajetória da otimista e bem humorada protagonista Poppy (Sally Hawkins) com uma série de pequenos episódios que revelam uma amarga visão de mundo. De certa forma, esse contraste entre a índole de Poppy e a indiferença do mundo que a cerca é que traz o real elemento de comédia de "Simplesmente Feliz", mas num tom cômico que tende muito mais para a ironia perversa. Além disso, a própria caracterização "alto astral" de Poppy se inclina para esse tipo de humor no sentido em que a mesma desafia não só a paciência de outros personagens, mas também dos próprios espectadores. É justamente nessas ambigüidades que Leigh demonstra a sua bruta coerência autoral.

quinta-feira, maio 28, 2009

A Festa da Menina Morta, de Matheus Nachtergaele ***


A presença de atores globais e do nome de Matheus Nachtergaele pode enganar um espectador desavisado e dar um baita susto no mesmo. Afinal, "A Festa da Menina Morta" (2008) está muito longe das amenidades que esse pessoal costuma participar nas telinhas. Com uma trama que combina de forma brutal miséria, misticismo picareta, homossexualismo e incesto, Nachtergaele joga na cara da platéia um retrato naturalista e cruel das suas obsessões, arrancando do seu elenco (principalmente de Daniel Oliveira, Jackson Antunes e Cássia Kiss) interpretações preciosas e intensas. Apesar da rudeza temática do roteiro, o filme é embalado por uma fotografia muito bem elaborada que obtém enquadramentos que em alguns momentos remetem a pinturas tamanha a bela manipulação de claros e escuros.


Apesar de alguns tropeços na sua narrativa, o resultado final de "A Festa da Menina Morta" é bem melhor que algumas das atuações mais recentes de Nachtergaele...

O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha ****


Por mais que haja resenhas, biografias, ensaios e o diabo a quatro sobre Glauber Rocha, a verdade é que há sempre algo de novo para se falar na revisão de suas obras. "O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro" (1969), por exemplo, é um filme que vi faz uns quinze anos na televisão e na época fiquei bastante impressionado. Assistindo recentemente no cinema a uma cópia restaurada de tal obra pude perceber ainda mais o impacto sensorial da mesma. Glauber usa na superfície uma trama que remete a uma espécie de faroeste caboclo (desculpe, Renato Russo, tu chegaste tarde...), mas que na verdade é apenas uma base para um verdadeiro caleidoscópio de idéias e concepções. Confronta-se questões sociais com visões místicas, misturando macumba e materialismo dialético, enquanto tudo o que poderia de haver de linear e naturalista no roteiro vai se dissolvendo em simbolismos e numa montagem que fragmenta ao máximo a narrativa. Dessa forma, dizer que "O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro" é um filme de teor rebelde apenas pelo conteúdo da sua trama é uma verdadeira miopia. O que é subversivo no filme é muito mais que isso: o que transgride também é o seu aspecto formal, que em nenhum momento oferece sossego para os olhos do espectador, numa gama de citações, referências, sons e imagens que estabelecem um imaginário cinematográfico poderoso e inesquecível. Como não tirar da nossa memória a figura melancólica e assustadora de Antônio das Mortes, a perversão de música regional de Sérgio Ricardo, a fotografia que registra um sertão tão próximo e que ao mesmo parece ser de outra dimensão? Por mais que os detratores de Glauber possam acusar o seu cinema de ser superado, a realidade é que mesmo hoje em dia sua obra ainda revela traços inquietantes, além de apontar caminhos a serem explorados para buscar uma linguagem própria do cinema brasileiro. "O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro" é prova contundente disso.

O Menino da Porteira, de Jeremias Moreira *


Confesso que não vi o filme original de 1976. Assistindo a essa refilmagem de 2009, entretanto, não me animo nem um pouco a ver o mesmo... A versão recente de "O Menino da Porteira" é uma obra tão pouco inspirada e desinteressante que chega a ser desanimador tentar escrever um texto sobre o filme. Há algo de instigante na trama, que procura expor as fraturas sociais em decorrência das questões agrárias. Mas isso é algo que fica muito superficial e soterrado por uma densidade dramática rasa e digna de novela das seis. "O Menino da Porteira" tem uma fotografia bonita e correta, mas isso acaba sendo pouco diante da direção burocrática de Jeremias Moreira e um elenco de interpretações pouquíssimo inspiradas (acreditem, Daniel não é a pior a coisa nesse quesito no filme...).

Appaloosa - Uma Cidade Sem Lei, de Ed Harris ***1/2


É claro que fazer um faroeste em pleno século XXI é uma tarefa complicada. Afinal, usar aqueles moldes clássicos de tramas maniqueístas envolvendo mocinhos e bandidos, ou índios no lugar dos bandidos, pode fazer com que se caia em anacronismos. Boa parte do que se fez no gênero nos últimos anos teve uma visão mais revisionista, onde se questiona até mesmo alguns dos valores mais caros dos "bang-bang" de outrora. Vivemos em tempos que são um misto de cinismo com ideais mais humanistas. Obras como "Dança Com Lobos" (1990), "Os Imperdoáveis" (1992) e "O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford" (2007), por exemplo, são reflexos dessa concepção contemporânea dos faroestes. "Appaloosa – Uma Cidade Sem Lei" (2008) também se encaixa nessa linha de produções. O cerne do roteiro é a luta de um xerife (Ed Harris) e seu assistente (Viggo Mortensen) em buscar a ordem civilizatória e de justiça na cidade de Appaloosa que se encontra acuada pelos desmandos e atos violentos de um brutal fazendeiro e pistoleiro (Jeremy Irons) e seus capangas. Opta-se no filme pela conciliação de uma abordagem que beira o mitológico, principalmente nas seqüências de duelos e tiroteios, e uma visão e estilo de filmar marcados por um teor naturalista, o que fica evidenciado na forma que se retrata a relação amorosa conturbada entre o protagonista e a sua noiva (Renée Zelveger), que parece variar as suas afeições de acordo com as circunstâncias. Dentro de todos esses conflitos, insere-se a busca de uma perspectiva que livre as situações e os personagens dos estereótipos fáceis, sendo que em vários momentos de "Appaloosa – Uma Cidade Sem Lei" o diretor Harris consegue atingir esse objetivo.

quinta-feira, maio 21, 2009

Violência Gratuita, de Michael Haneke ****


Em um primeiro momento, fica até difícil fazer uma comparação entre o primeiro “Funny Games – Violência Gratuita” (1997) e esta refilmagem realizada pelo próprio diretor da primeira versão. Afinal, o roteiro é o mesmo e a recriação é feita quase que quadro a quadro. Mas mesmo que o gosto da novidade tenha se esvanecido um pouco, a verdade é que o primeiro filme já era brilhante e nessa nova versão as principais qualidades do original permanecem. O rigor estético asfixiante de planos geralmente estáticos, a fotografia privilegiando tons claros quase assépticos, a ausência de trilha sonora e a abordagem narrativa fria e distante acentuam ainda mais a tensão que emana naturalmente do roteiro. Haneke promove uma estranha combinação entre o thriller de tensão e uma visão irônica e cruel sobre o próprio gênero cinematográfico em questão, o que fica evidente nas intervenções de metalinguagem do assassino Paul (Michael Pitt, numa caracterização assustadora). E é justamente nesse último aspecto que fica caracterizada a grande diferença dessa refilmagem para o filme original. Ver um filme de visão tão crítica sobre a questão da banalização da violência com um verniz de produção norte-americana e alguns grandes nomes de Hollywood (Pitt, Naomi Watts, Tim Roth) acentua ainda mais a lucidez e o sarcasmo da concepção brilhante de “Violência Gratuita.

Olho de Boi, de Hermano Penna **1/2


Se em “Sargento Getúlio” o diretor Hermano Penna conseguia imprimir um ambiente alucinatório com uma narrativa coesa e bem focada, em “Olho de Boi”, sua obra mais recente, ele parece ter perdido a mão. Apesar da bela fotografia, a sua narrativa é truncada demais, principalmente devido ao texto marcado por diálogos pouco fluentes e uma linha de interpretação excessivamente empostada dos atores, o que faz com que a produção fique marcada por um tom teatral incômodo. Por mais que o roteiro traga interessantes elementos de tragédia grega e até mesmo influências shakesperianas, a realidade é que nem tudo que funciona bem em literatura ou em teatro funciona adequadamente no cinema.

sábado, maio 16, 2009

Sargento Getúlio, de Germano Penna ***1/2


À princípio, a sinopse de “Sargento Getúlio” (1983) pode fazer supor que o filme se trata de um road movie de aventura pelo sertão nordestino. A obra tem os seus momentos de tiroteios eletrizantes, mas os seus caminhos são outros. A viagem e a aventura vividas pelo personagem título não são apenas físicas, mas, principalmente, sensoriais e simbólicas. As áridas paisagens que compõem a fotografia e a montagem quase febril fazem da jornada do protagonista uma descida aos infernos de uma agreste e soturna alma brasileira. Getúlio (Lima Duarte) vive em permanente conflito contra forças que ele nem mesmo entende direito, apegando-se apenas em suas próprias convicções, num misto de obscurantismo e filosofia quase mística. Levar o prisioneiro até o seu destino final não é apenas cumprir a missão inicial, mas também uma forma desesperada de se apegar a um passado que já está transformado.

O Papel de Sua Vida, de François Fravat ***


Essa produção francesa de 2004 lembra bastante alguns filmes de Eric Rhomer, principalmente por um certo tom de parábola moral. Mesmo não tendo a mesma precisão formal e rigor emocional de Rohmer, o diretor François Fravat consegue obter um resultado bem interessante ao buscar uma trama que não se utiliza de arroubos emocionais, com uma narrativa fluida e serena ao retratar a relação entre uma exuberante atriz e a sua apagada e devota secretária, como se fosse uma versão menos melodramática e mais contida de “A Malvada” (1950), clássico filme de Joseph Mankiewicz.

Em Paris, de Christophe Honoré ****


A influência da Nouvelle Vague presente no filme “Em Paris” não se limita a uma branda influência estética. O que o cineasta francês Christophe Honoré busca no referido movimento cinematográfico é uma liberdade criativa típica de boa parte das produções daquela época (anos 50 e 60), na procura de uma linguagem artística que fuja das amarras de simplesmente “contar uma boa história”. “Em Paris” traz uma série de elementos que podem ser interpretados como homenagens a filmes clássicos, mas que também representam detalhes ousados na sua particular concepção: a trilha sonora jazzística remete a música cool de Miles Davis em “Ascensor ao Cadafalso”, a seqüência de diálogos musicados entre Paul (Romain Duris) e Anna (Joana Preiss) nos traz a mente “Os Guardas-Chuva do Amor”, os toques de metalinguagem na narrativa e a interpretação antinaturalista de Louis Garrel evocam Godard, a crueza no retratar as relações humanas revelam a presença de Truffaut pairando sobre o filme. A junção desses elementos, entretanto, não é gratuita e nem forçada. Honoré combina com brilhantismo todos esses detalhes e forja um estilo único e pessoal. “Em Paris” apresenta uma dinâmica narrativa e uma pungência emocional impressionantes, fazendo de Christophe Honoré um dos nomes mais destacados da atual cinematografia francesa.

Sweetie, de Jane Campion ***1/2


Assim como “Um Anjo em Minha Mesa” (1990), obra imediatamente posterior da diretora Jane Campion, “Sweetie” apresenta uma narrativa recheada de figuras desajustadas em meio a situações ora patéticas ora irônicas. Campion adota um registro frio e distante, o que acentua ainda mais o clima de esquisitice da trama, chegando até mesmo a lembrar um pouco David Lynch, sendo que conflitos, reconciliações e mortes desfilam pela tela de forma seca e indistinta. Confrontando duas irmãs de temperamentos aparentemente opostos, a metódica e aborrecida Kay e a tresloucada Sweetie, a diretora apresenta uma visão pouco amistosa e nem um pouco condescendente da condição humana. Em obras posteriores como “Um Anjo em Minha Mesa” e “O Piano” (1993), ela daria continuidade a essa linha temática e formal, mas pendendo em alguns momentos para uma abordagem mais poética.

Quem Quer Ser Um Milionário, de Danny Boyle ***1/2


Opiniões mais afoitas estão colocando “Quem Quer Ser Um Milionário?” como uma espécie de versão indiana do brasileiro “Cidade de Deus”. Na realidade, o que há são algumas semelhanças como o ritmo frenético da edição em algumas seqüências e no fato de boa parte da trama ser focalizada em zonas miseráveis da Índia. A estética e a narrativa cinematográfica da obra em questão são características do estilo de Danny Boyle filmar e editar os seus filmes, sendo que em produções anteriores dele (“Trainspotting”, “Cova Rasa”, “Extermínio”) já haviam sido delineadas muitas das qualidades marcantes de “Quem Quer Ser Um Milionário?”. Aliás, o grande atrativo do filme é justamente a particular concepção formal oferecida por Boyle. A trama é uma fábula que beira o simplório, mas que acaba adquirindo interesse pela impactante combinação entre a coloridas e exuberantes imagens com a exótica e dançante trilha sonora. Só aquela seqüência ao som da magnífica canção “Paper Planes” de M.I.A., com direito a um assalto pelo teto de um trem em movimento, já valeria o ingresso.

sábado, maio 09, 2009

Watchmen, de Zack Snyder **


Sem querer parecer exagerado, mas considero a minissérie “Watchmen” a melhor história em quadrinho que já li. O fato de não ter gostado de sua adaptação para os cinemas, entretanto, não tem relação com uma possível birra de um fã. O que me incomoda no filme são os seus defeitos como cinema, e não por um simples fato de não ter sido respeitoso à obra original. Para começar, as seqüências de ação padecem dos mesmos problemas de “300” (2007), o filme anterior de Zack Snyder: há um abuso de planos estáticos e câmeras lentas que dão a impressão de estarmos assistindo a um longo comercial de sabonete. Houve também equívocos no roteiro que simplificou ou resumiu as várias subtramas que compõem o texto original, o que faz com que o filme fique incompreensível para o espectador que não tenha lido anteriormente ao gibi. Não por acaso, muitas pessoas saíam no meio da sessão quando fui assistir ao filme. Além disso, focou-se em demasia detalhes supérfluos como lutas de coreografias mal ajambradas de artes marciais que se estendem em demasia (no gibi, elas se resumem a um ou dois quadros).

Assistir a “Watchmen”, porém, não chega a ser uma experiência tão tormentosa assim, mesmo com todos esses problemas. Mesmo com todas as reduções no texto original, a trama preserva algo do encanto do gibi, com aquela linha de narrativa combinando ironia e amor ao gênero dos quadrinhos de super-heróis, além da relação genial entre ficção e realidade. Vale mencionar ainda que algumas caracterizações dos personagens ficaram bem interessantes, principalmente a do violento vigilante Rorschach.

Na verdade, a minha decepção com “Watchmen” nem foi tão grande assim, pois o currículo de Snyder não me fez criar muitas expectativas positivas. Até acho que o filme saiu melhor do que o esperado...

Força Policial, de Gavin O'Connor ***


Todos os clichês possíveis de filmes policiais estão em “Força Policial” (2008): corrupção, violência, conflitos familiares, dilemas morais, personagens durões. Mas quem disse que originalidade é condição indispensável para se fazer um bom policial? No final das contas, o que importa é se há competência para combinar todos esses lugares comuns e realizar uma produção capaz de manter o interesse do espectador, e nesse quesito o diretor Gavin O´Connor até que se dá bem. Na surrada trama de uma família em que a maioria dos homens trabalha na polícia e descobre que há um corrupto entre eles, o diretor conduz a narrativa de forma vertiginosa e sombria, além de contar com um elenco mais do que eficiente. Mesmo distante da excelência artística de clássicos do gênero como “Colateral” ou “Viver e Morrer em Los Angeles”, “Força Policial” é uma obra de respeito para quem gosta de tiros e tensão.

Milk, de Gus Van Sant ****


Vindo de três filmes de postura pouco comercial (“Elefante”, “The Last Days” e “Paranoid Park”), o cineasta Gus Van Sant pode fazer o espectador mais desavisado pensar que “Milk” é a sua volta para um cinema mais acessível. A verdade é que realmente “Milk” apresenta alguns elementos mais digeríveis para o grande público, principalmente pela trilha sonora sentimental e um roteiro permeado de discursos politicamente corretos, mas o seu resultado final preserva muito do forte tom autoral típico de boa parte da cinematografia de Van Sant. O diretor casa magistralmente a recriação dramática da trajetória de Harvey Milk com imagens de arquivo da época (anos 70, essencialmente), fundindo esses planos narrativos de forma tão coesa que chega a um ponto que é até difícil em algumas seqüências distinguir os mesmos. A recriação da atmosfera da época também é primorosa, tanto pelo trabalho de direção de arte quanto pelo conteúdo da trama, não havendo concessões ou maniqueísmos para refletir o forte espírito hedonista e libertário da San Francisco setentista. Também nesse sentido de evitar simplificações ingênuas, é muito bem trabalhada a caracterização dos fatos e personagens, com Van Sant evitando polarizar a trama em mocinhos (gays) e bandidos (homofóbicos). O que se tem muito presente no roteiro é uma história que envolve questões mais complexas como jogos políticos, ressentimentos e relacionamentos mal resolvidos. Contribuiu consideravelmente para o sucesso dessa narrativa bem estruturada o trabalho do elenco de atores, principalmente por parte de Sean Penn, que tira o protagonista da simples vitimização ao dar para o mesmo uma interpretação cheia de nuances dramáticas, e também de John Brolin que faz do homicida Dan White um pobre coitado patético e ao mesmo tempo assustador.

O Segredo do Grão, de Abdel Kechiche ****


Poucos meses atrás, tive uma grata surpresa ao assistir “A Esquiva” (2004), do diretor tunisiano Abdel Kechiche. Tendo como cenário um subúrbio francês e tendo como personagens jovens descendentes de emigrantes árabes, a obra tinha uma dinâmica extraordinária, conciliando de maneira admirável uma temática de forte cunho social com um senso de humor fantástico. Em “O Segredo do Grão” (2007), obra mais recente de Kechiche, o diretor retoma basicamente o mesmo cenário e o mesmo tratamento narrativo, obtendo um resultado de impacto ainda maior. Tanto a fotografia quanto a montagem oferecem uma fluidez impressionante para a trama chegando ao ponto de se ter a impressão de assistir a um documentário de cenas do quotidiano tamanho o naturalidade com que os fatos vão se sucedendo. Nada parece ensaiado, os atores parecem não interpretar, apenas agem, os diálogos parecem brotar do momento, o que faz com que as palavras sejam proferidas com intensidade e veracidade raras de ver nas telas. Nesse contexto, é até injusto tentar destacar seqüências específicas do filme, tendo em vista a unidade e a coerência formais que permeiam “O Segredo do Grão”. Mas é provável que uma boa parte dos apreciadores de cinema leve para sempre na memória de momentos antológicos cinematográficos a majestosa seqüência final em que dois planos narrativos se alternam e se complementam: a corrida desesperada e melancólica até o esgotamento físico (ou vital?) do protagonista Slimane Beiji em busca da sua motocicleta roubada e a luxuriosa dança do ventre executada pela enteada de Slimane, Rym (em caracterização possessa da jovem Hafsia Herzi), numa estranha e bela dicotomia entre sexo e morte.

Rebobine, Por Favor, de Michel Gondry ***1/2


O cineasta francês Michel Gondry já havia demonstrado um talento extraordinário no sensacional “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” (2004) na combinação de elementos insólitos e esquisitos num filme sem cair para os excessos experimentais. Em “Rebobine, Por Favor” (2008), ele volta a mostrar as mesmas qualidades em uma obra que beira o surreal. A fotografia granulada, os enquadramentos falsamente amadores, a trama que envereda seguidamente pelo absurdo, a narrativa que vai fluindo quase que por improviso e um elenco que se utiliza de caracterizações impressionistas e exageradas formam um conjunto instigante e encantador. A idéia de fazer dois amigos avoados (Mos Def e Jack Black) recriarem em condições precárias, mas com muita paixão, uma série de filmes famosos não necessariamente clássicos pode inicialmente parecer uma mera paródia, mas com o tempo vai se revelando uma pungente declaração de amor ao cinema. No terço final, “Rebobine, Por Favor” até apresenta uma certa queda para o convencional e chega a ter uma conclusão que raspa no edificante. Isso não o invalida, entretanto, como uma das produções mais marcantes que passaram pelos cinemas em 2009.

segunda-feira, abril 27, 2009

Coraline e o Mundo Secreto, de Henry Selick ****


Sou um grande apreciador da obra de Neil Gaiman, mas confesso que não li o romance ilustrado “Coraline”. Mas assistindo a versão cinematográfica dessa obra se pode sentir a aura de conto de fada doentio e perverso tão característico do universo de Gaiman. E isso é perfeitamente explicável quando vemos que nos créditos que o cineasta responsável por tal adaptação é Henry Selick, o mesmo da obra-prima da animação de stop-motion “O Estranho Mundo de Jack” (1993), filme esse que já trazia esse tom onírico e assustador de “Coraline”. Nesse último, Selick preserva a sua técnica impecável de stop-motion, além de desenvolver uma narrativa tensa e eletrizante recheada de tipos que oscilam entre o encantador e o assustador. Aliás, essa ambigüidade permeia toda a trama. O visual arrebatador e colorido que predomina no mundo de fantasia que a menina Coraline adentra também traz dentro de si um ambiente repleto de obscuridades e atos cruéis. Gaiman e Selick ousaram colocar num filme infanto-juvenil aquele que é o maior medo de uma criança ou adolescente: a perda dos pais. E no caso de Coraline, a situação ainda é pior, pois essa possibilidade pode ocorrer por um ato dela mesma. Não é a toa que na sessão em que assisti à “Coraline” não se ouvia um pio por parte da gurizada, sendo que inclusive ouvi comentários que em outras sessões do filme havia até criança chorando. Eu mesmo achei essa a produção mais assustadora que assisti nos cinemas nesses últimos dois anos, pelo menos. E essa constatação só comprova uma posição mais que saudável e corajosa de Selick em preservar a atmosfera original e sombria da literatura de Gaiman, fazendo a gente sonhar com a hipótese de uma adaptação mais que decente para a magnífica série “Sandman”, a obra máxima do referido autor inglês.

sexta-feira, abril 24, 2009

O Lutador, de Darren Aronofsky ****


Confesso que os dois primeiros filmes do cineasta Darren Aronofsky, “Pi” (1998) e “Réquiem Para Um Sonho” (2000) nunca me chamaram muito a atenção, fazendo com que eu achasse tal diretor um nome tremendamente superestimado. “A Fonte” (2006), bela produção de ficção científica influenciada visualmente por quadrinhos europeus, fez tal situação mudar bastante de figura. Mas é agora com “O Lutador” (2008) que Aronofsky mostra definitivamente que é um grande diretor. Ele adora um estilo seco e direto, de tons quase documentais, nessa narrativa sobre o lutador decadente Randy “Lamb” (Mickey Rourke) que se vê diante de uma encruzilhada existencial, não abrindo mão, entretanto, de utilizar brilhantemente recursos estéticos como planos seqüências e alternância de narrativa em dois tempos. Nesse sentido, são inesquecíveis seqüências como aquela em que o protagonista percorre o supermercado onde trabalha como se estivesse preste a entrar em um ringue ou quando ele luta com o grotesco Necron, em que são mostrados de forma praticamente simultânea o pós-combate, com “Lamb” examinando os seus ferimentos, e a própria luta em si, um dos momentos de brutalidade mais intensos já mostrados no cinema. Além disso, Aronofsky se afasta da solução óbvia de encarar o drama de “Lamb” como uma parábola edificante ou de redenção, oferecendo ao personagem uma densidade dramática fascinante ao retratá-lo como um indivíduo que percebe que é tarde demais para mudar de atitude perante o mundo, restando-lhe apenas agir de forma coerente com o que ele foi durante toda a sua vida

Jango, de Silvio Tendler ***1/2


Esse documentário de 2004 dirigido por Silvio Tendler focalizando a vida de João Goulart tem um tom escancaradamente panfletário e é quase didático em algumas seqüências. Essa visão mais ideológica de Tendler, entretanto, funciona a favor do filme, pois oferece vigor e paixão raros de se encontrar nesse tipo de produção. A dinâmica da narrativa, misturando preciosas imagens de arquivos com depoimentos contundentes em um trabalho fenomenal de edição, faz com que “Jango” tenha um ritmo impressionante de “thriller”. Tanto para os interessados na História do Brasil como para os simples apreciadores de cinema, “Jango” é um filme imperdível!

quinta-feira, março 19, 2009

5 Frações de Uma Quase História, de Cristiano Abud, Cris Azzi, Thales Bahia, Guilherme Fiúza, Lucas Gontijo e Armando Mendez **


É óbvio que filmes episódicos têm uma forte tendência em serem irregulares na sua consistência artística. “5 Frações de Uma Quase História”, produção brasileira de 2008, é exemplo claro disso. São cinco tramas destoantes entre si, tanto tematicamente quando nas suas respectivas concepções formais. Vai de alguns delírios de inspiração experimental até narrativas mais tradicionais, num caldeirão de referências que abarca de David Lynch a Nelson Rodrigues. Todos os diretores dessa criação coletiva buscam também uma certa autenticidade mais característica do cinema nacional de algumas décadas atrás, mas o resultado final é até asséptico demais. Em vez daquele tom popular anárquico e indiretamente subversivo do cinema “udigrudi” ou da Boca do Lixo, tem-se um filme bem comportado, metido a moderninho e que parece seguir algum manual de faculdades de cinema. Faltou a coragem, por exemplo, de “Conceição – Autor Bom é Autor Morto”, produção nacional recente que tem uma proposta conceitual bem semelhante, mas que não tem medo de meter o pé na jaca ao se aprofundar em referências ora intelectuais ora grotescas. De qualquer forma, vale uma conferida por algumas boas interpretações e por algumas seqüências mais irônicas.

Sexta-Feira 13, de Marcus Nispel **1/2


Quem for assistir a esse filme de “recomeço” da franquia “Sexta-Feira 13” esperando maiores novidades vai ter uma decepção. Até porque o roteiro do filme é um requentado da trama dos três primeiras partes da série original. Mas desde quando as tramas é o que importavam nos antigos filmes da saga de Jason Vorhees? O que interessava mesmo era a brutalidade das mortes e se de vez em quando apareceria alguma beldade pelada. E nesses quesitos, esse “Sexta-Feira 13” até que dá conta do recado. Jason pode não ser muito criativo na forma como detona uma porção de jovens desmiolados, mas faz com violentas convicção e coerência. E as meninas gostosas que tiram a roupa com facilidade admirável são de tirar o chapéu. E por fim tem um mérito inquestionável: fazia tempo que eu não ia numa sessão de cinema repleta de gritos, urros e assovios como essa. Valeu Jason!!

A Erva do Rato, de Júlio Bressane ***1/2


Tentar decifrar “A Erva do Rato” (2008), a obra mais recente de Júlio Bressane, em uma breve resenha é uma tarefa quase inviável. Roteiro e imagens trazem múltiplas referências culturais, filosóficas e até mesmo antropológicas e que podem implicar em várias interpretações. Além disso, uma narrativa de forte caráter simbólico e a mescla da linguagem cinematográfica com influências literárias vindas de dois contos de Machado de Assis tornam tal filme ainda mais complexo e intrincado em sua concepção. Um dos grandes méritos de Bressane é justamente conseguir dar uma certa unidade formal para esse verdadeiro caleidoscópio de idéias, principalmente através do impressionante trabalho de direção de fotografia de Walter Carvalho e pelos minuciosos desempenhos dramáticos de Selton Mello e Alessandra Negrini. A conjugação de todos esses elementos faz de “A Erva do Rato” uma das experiências mais desafiadoras e estimulantes da cinematografia recente brasileira.

O Leitor, de Stephen Daldry *1/2


Em cada fotograma de “O Leitor” (2008) parece estar estampado um desejo: “Por favor, eu quero ser indicado para o Oscar”. Tudo que a Academia gosta está lá: fotografia limpa, edição sem sobressaltos, roteiro de temática “séria” (tem até II Guerra no meio...), atores respeitáveis em atuações sóbrias, mensagens edificantes. A estratégia deu resultados, sendo que o filme ganhou várias indicações para o Oscar, levando a estatueta para melhor atriz. Isso, entretanto, quer dizer que o filme é bom? Infelizmente, na minha opinião, não é o caso. De tão preso a fórmulas pré-determinadas, “O Leitor” é um filme sem alma e chato. Todos os ingredientes que citei acima (roteiro, fotografia, edição, interpretações, etc) parecem estar ali simplesmente jogados na tela, sem a menor inspiração. A pretensa visão “madura” e “séria” na verdade sucumbe a uma trama com momentos de dramalhão dignos das novelas mais xumbregas. No mais, incomoda ver uma atriz tão talentosa como Kate Winslet, que já teve interpretações memoráveis em filmes como “Almas Gêmeas” (1994) e “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” (2004), ganhar o tal do Oscar por uma atuação tão insípida quanto essa de “O Leitor”.

Hermeto Campeão, de Thomas Farkas **1/2 e Tom Zé ou Quem Irá Colocar Uma Dinamite na Cabeça do Século, de Carla Gallo ***


É claro que esses dois médias metragens estão longe de serem obras-primas cinematográficas. São, entretanto, imprescindíveis para quem gosta de música brasileira ou se interessa por cultura em geral por trazerem imagens raras, depoimentos e números musicais dos artistas focalizados. O fato dos mesmos estarem distantes da grande mídia torna ainda mais fascinante todos esses aspectos que são focalizados nos documentários em questão, onde a história pessoal e a concepção artística de cada um deles se mostram ligadas de forma intrínseca à música de ambos.

Filmes Vistos em DVD nas últimas semanas (Cotações de 0 a 4 estrelas)


Paisá, de Roberto Rossellini ****
Eraserhead, de David Lynch ****
007 – Licença Para Matar, de John Glen ***1/2
MR 73 – A Última Missão, de Olivier Marchal ****
Renegado Impiedoso, de Michael Winner ****
À Procura da Vingança, de David Von Ancken ***1/2
O Castelo Maldito, de Stuart Gordon ***

Sim Senhor, de Peyton Reed ***


Como algumas críticas já disseram, “Sim Senhor” (2009) realmente tem uma trama que lembra “O Mentiroso” (1997), filme que também tinha Jim Carrey como protagonista. A verdade, entretanto, é que trama é o que menos importa em “Sim Senhor”. Afinal, o frágil roteiro é apenas um pretexto para alguns detalhes preciosos como algumas belas gozações de Carrey, o sarro com o rock indie através da banda fictícia Munchausen by Proxy, o jeitinho insólito e adorável de Zooey Deschanel, as festas temáticas do personagem de Rhys Darby, a trilha sonora de banda Eels. Mesmo não tendo a consistência de “Abaixo o Amor” (2003) e “Separados pelo Casamento” (2006), produções anterior de Peyton Reed, “Sim Senhor” está bem acima da média em relação aos lançamentos cômicos mais recentes.

sábado, março 07, 2009

Noivas em Guerra, de Gary Winick *


O problema de “Noivas em Guerra” não é o simples fato dessa produção ser uma comédia romântica. Afinal, já saiu muita coisa boa nesse gênero (“Levada da Breca”, “Harry e Sally – Feitos Um Para o Outro”, a primeira versão de “Sabrina”). O problema de “Noivas em Guerra” é que o filme é medíocre mesmo, sem inspiração, mecânico no seu sentimentalismo barato formulaico. E faz pensar o que aconteceu com a Kate Hudson, que fazia aquela guriazinha adorável e gostosinha de “Quase Famosos” (2001), a inesquecível Penny Lane, e nesse “Noivas em Guerra” está mais parecendo uma patricinha qualquer. O tempo é realmente implacável...

Surpresas do Amor, de Seth Gordon ***


O cara que bolou esse título em português para essa produção norte-americana de 2008 deveria ser processado. Afinal, “Surpresas do Amor” faz pressupor uma comédia romântica água com açúcar daquelas com Meg Ryan, quando na verdade o filme em questão, cuja tradução literal do seu título em inglês seria “4 Natais”, traz uma visão bem sarcástica sobre as relações amorosas e familiares, além de seqüências cômicas regadas a escatologia e grosseria. É claro que se tratando de uma comédia de Hollywood, essa concepção mais irônica não leva a sua crítica até às últimas conseqüências, sendo que a sua conclusão fica mais na linha do edificante. Mesmo assim, “Surpresas do Amor”, apesar do título cretino, é uma comédia acima da média em relação ao que chega normalmente nos nossos cinemas no gênero.

Ninho Vazio, de Daniel Burman ***1/2


Ler a pequena sinopse de “Ninho Vazio”, produção argentina de 2008, que tem saído nos jornais não dá a menor idéia do que o mesmo representa. A descrição é algo como “casal na meia-idade é obrigado a reestruturar a sua rotina após os filhos saírem de casa”, o que faz pensar em algo numa linha melodramática, o que está muito longe do que assistimos na tela. O diretor Daniel Burman utiliza um recurso narrativo muito interessante. Ao longo do filme, situações vão se sucedendo de forma quase aleatória, às vezes quase vaga, em outras oportunidades até francamente inconsistente, beirando um insólito surrealismo. Os personagens parecem ter uma propensão para o caricato. Aos poucos, entretanto, essa trama aparentemente desfocada vai adquirindo um estranho sentido até um ponto que o que se enxerga é o processo criativo do protagonista, um veterano escritor (Oscar Martinez) que vai compondo a sua obra de acordo com o quotidiano e as suas próprias impressões. É como se ele testasse possibilidades dramáticas até chegar a um ponto que considere o ideal. Por mais que tal solução narrativa possa parecer forçada, em “Ninho Vazio” ela se mostra uma opção muito bem delineada, mostrando como cinema e literatura são, em sua essência, jogos de ilusões e impressões pessoais.