domingo, setembro 27, 2009

Rififi no Harlem, de Ossie Davis ***


“Rififi no Harlem” (1970) é um dos mais conhecidos filmes do auge da blackexploitation. Apesar do título em português fazer pensar em uma produção no gênero policial, o que predomina mais é a linha humorística de uma comédia de erros. Na trama, enfoca-se uma série de elementos da cultura black norte-americana, numa visão crítica sobre algumas das mazelas típicas da comunidade (repressão pela policia, exploração de picaretas líderes religiosos), mas sem nunca esquecer o lado cômico com uma série de qüiproquós bem divertidos. Mesmo não tendo a excelência artística de obras como “Shaft” (1971) e “Sweet Sweetback's Baadasssss Song” (1971), “Rififi no Harlem” é um belo exemplar do gênero blackexploitation.

Baadasssss Cinema, de Isaac Julien ****


Esse documentário norte-americano de 2003 é uma aula apaixonada e esclarecedora sobre o movimento cinematográfico blackexploitation. O cineasta Isaac Julien combina de forma objetiva e com tremenda sensibilidade trechos das principais obras, imagens de arquivos e depoimentos, compondo um belo panorama sobre o gênero que, apesar de marginalizado como menor, tem uma considerável legião de fãs e ainda consegue exercer uma influência estética sobre o cinema atual. Julien explora muito bem o lado didático do seu filme, buscando explicações econômicas e sociológicas para refletir sobre a ascensão, apogeu e queda dessas produções setentistas voltada para o público negro (mas que acabava evidenciando um apelo universal), sem nunca esquecer um lado bem humorado ao revelar algumas anedotas e fofocas de bastidores. O diretor não adota uma postura de pura exaltação do gênero, procurando também mostrar as contradições que contribuíram com o fim da blackexploitation. No mais, não dá para deixar de destacar momentos antológicos como a entrevista com Tarantino, em que ele esmiúça a sua visão muito pessoal sobre o gênero além de relacionar o mesmo com a realização do extraordinário Jackie Brown, sua homenagem a esse universo. E é claro que num filme com uma temática como essa não poderia faltar uma arrasadora trilha de black music, com algumas das pepitas sonoras que iluminaram boa parte dessas películas.

quinta-feira, setembro 24, 2009

The Darker Side of Black, de Isaac Julien ***1/2


Mesmo se utilizando de um convencional formato de documentário televisivo, o diretor Isaac Julien consegue um resultado impressionante e contundente em “The Darker Side of Black” (1995) ao focalizar o universo de cantores de rap e reggae que fazem do homofobia um dos tópicos principais das letras. Concentrando-se basicamente em entrevistas e vídeos musicais, Julien constrói um assustador retrato sobre o preconceito. Os artistas não têm quaisquer receios em justificar os seus motivos, indo de preceitos religiosos até a simples repulsa. O filme é perturbador no sentido de que mesmo que se fique espantado com as opiniões de alguns dos entrevistados, há também um grau de atração pelo encanto rústico e agressivo de algumas dessas canções que são verdadeiras odes ao ódio. Não há como não fazer o paralelo com outros gêneros como o samba, o rock e o blues que por um bom tempo tiveram, por exemplo, a misoginia como um dos seus motes criativos.

Foxy Brown, de Jack Hill ***1/2


Dentro do gênero blackexploitation, “Foxy Brown” é uma das obras mais bem acabadas e representativas. A trama de vingança da personagem título é o pano de fundo ideal para um filme recheado de muita ação, violência e sensualidade em seqüências orquestradas com habilidade pelo cineasta Jack Hill, e claro que temperado por aquele espírito fuleiro típico das produções B dos anos 70 (aliás, isso não é de se estranhar, pois Hill havia aprendido muito com o mestre Roger Corman, com quem havia trabalhado nos anos 60). Pam Griem podia não ser uma grande atriz na época, mas mesmo assim ela tem uma presença de cena exuberante na pele da protagonista pela sua beleza e carisma. E como todo bom filme da era blackexploitation, “Foxy Brown” conta com uma trilha sonora climática e cheia de balanço, dessa vez a cargo do excelente soulman Willie Hutch.

O Retorno de Sweetback, de Mario Van Peebles ***


“O Retorno de Sweetback” é a recriação dramática dos bastidores da realização de “Sweet Sweetback's Baadasssss Song” (1971), de Melvin Van Peebles, o clássico filme que deu o pontapé inicial no gênero blackexploitation. Mario Van Peebles, filho de Melvin e que participou como ator mirim em “Sweet Sweetback’s....”, narra de forma empolgante e bem humorada todas as peripécias financeiras e artísticas que Melvin fez para conseguir transformar uma produção independente e recheada de temas tabus (sexo, violência, racismo) em um grande sucesso comercial e artístico. Ao contrário da obra que homenageia, “O Retorno de Sweetback” não prima por uma linguagem experimental ou inovadora, mas sua narrativa clássica e bem ajustada oferece uma visão fascinante sobre o lado B do universo cinematográfico e honra com sensibilidade a figura fascinante de Melvin Van Peebles

segunda-feira, setembro 21, 2009

Nome Próprio, de Murilo Salles ***1/2


Confesso que nunca gostei dos escritos de Clarah Averbuck. A impressão que tenho assistindo a “Nome Próprio” (2008), produção brasileira baseada nos livros “Máquina de Pimball” e “Vida de Gato”, é que Murilo Salles também tem a mesma opinião... O interesse do cineasta não é exatamente pelo texto em si da obra literária de Averbuck, mas na conexão que se dá entre esse texto e a própria vida da autora. Vemos a vida desregrada de Camila, alter ego da escritora, e a forma com que esse caos se transforma em literatura.

Salles explora ambigüidades ao extremo. Vai do hedonismo sensual da intensa vida íntima da protagonista até momentos de profunda solidão e abandono. Camila também consegue ser selvaticamente sexy e encantadora em determinadas seqüências e em outras se converte em uma deprimente e neurótica desmiolada que enche o saco de todo mundo. A dicotomia atração e repulsa parece ser a força motriz do que Camila escreve e também é a base conceitual de “Nome Próprio”. Salles administra essa verdadeira montanha russa de sensações e sentimentos com maestria, indo do registro simples e de tons naturalistas do quotidiano atribulado de Camila até a uma busca por uma linguagem experimental, principalmente quando procura fundir cinema e literatura ao dar visibilidade às palavras sendo tecladas diretamente no que está enquadrado pela câmera. Sua narrativa é envolvente e também perturbadora: parece questionar constantemente o modus operandi de Camila, além de progressivamente, através de pequenos detalhes cênicos, confundir o próprio espectador sobre a “verdade” daquilo que estamos assistindo – será que Camila realmente viveu tudo aquilo ou é apenas ela se transformando cada vez mais em ficção??

Salles também foi particularmente feliz ao escolher Leandra Leal para o papel de Camila. A atuação da atriz é de uma dimensão quase de possessão: intensa e feroz, mas também transpirando fragilidade emocional, Leal busca a naturalidade a qualquer preço – sua expressividade não é apenas facial, mas totalmente corporal (poucas vezes se viu uma atriz ficar tanto tempo nua como se fosse algo tão natural). A impressão é que ela conseguiu ser mais Clarah Averbuck que a própria Clarah!

Por falar nela, dizem que Averbuck ficou descontente com o resultado final de “Nome Próprio”. Ora, ela devia agradecer ao Salles por ter sua obra revigorada de forma tão extraordinária!

Jacquot de Nantes, de Agnès Varda ***


Essa produção francesa de 1991 é uma criativa cinebiografia do realizador Jacques Demy dirigida pela esposa do mesmo, Agnès Varda. Concentrando-se na juventude de Demy, o filme enfoca de forma esparsa e fragmentada alguns episódios desse período da trajetória do cineasta, ao mesmo tempo que insere trechos de algumas da principais obras dele como “Os Guardas-Chuva do Amor” (1964) e “Pele de Asno” (1970), com Varda fazendo uma conexão poética entre a vida e a cinematografia de Demy. Essa relação acaba se revelando essencial no sentido em que capta a tensão artística que sempre marcou a filmografia do diretor: uma dicotomia entre o real e a fantasia, em que a música poderia irromper de forma inusitada no meio do mais corriqueiro e banal quotidiano.

Blacula, de Willian Crain ***1/2


Opiniões mais preconceituosas e rasteiras costumam rebaixar “Blacula” (1972) apenas como uma mera curiosidade trash do movimento blackexploitation, o que é na verdade um equívoco. É claro que o filme, mesmo se inspirando na figura de Drácula, está muito distante de ser um filme de horror, estando mais enquadrado no gênero comédia. E nesse estilo cômico, funciona que é uma beleza. O diretor Willian Crain domina com habilidade tanto a ação altamente movimentada de algumas seqüências quanto os momentos irônicos de tiração de sarro com clichês das obras clássicas de terror ou de estereótipos do comportamento dos blacks. E para completar, a trilha sonora movida a soul e funks faiscantes é extraordinária e já valeria por si só o preço do ingresso.

Marco Ferreri - O Diretor Que Veio do Futuro, de Mario Canele ***


Tentar enquadrar a figura de Marco Ferreri, cineasta afeito ao bizarro e ao surreal, em um simples documentário não é das tarefas mais fáceis. A produção italiana “Marco Ferreri – O Diretor Que Veio do Futuro” (2007) cumpre essa missão com considerável sucesso. O diretor Mario Canale consegue narrar a vida e a obra excêntricas de Ferreri através de depoimentos preciosos de colegas, amigos e do próprio biografado e de imagens antológicas de alguns de seus melhores filmes. Canale estabelece a conexão precisa da estranha visão de mundo e de cinema que vem das palavras de Ferreri com o resultado final de tais concepções em seus filmes. Tanto para velhos admiradores como para neófitos, o documentário é esclarecedor sobre a obra de Ferreri, assim como diverte pelo tom bem humorado de algumas seqüências.

Tandoori Love, de Oliver Paulus **1/2


Essa produção suíça de 2008 apresenta uma insólita e divertida combinação de comédia romântica tipicamente ocidental com musical desvairado de Bollywood. Por mais indigesta que possa parecer essa mistura, o filme cativa justamente pelo enquadramento da sisudez e falta de molejo tipicamente europeus em meio a uma ambientação exageradamente colorida e irreal das produções indianas, o que acaba rendendo alguns momentos hilariantes de dramas ingênuos e comicidades desajeitadas. “Tandoori Love” está longe de ser uma obra-prima, mas também transcende a simples curiosidade cultural.

A Era da Inocência, de Denys Arcand ***1/2


O cineasta canadense Denys Arcand deve ter ficado de saco cheio de ser levado tão a sério com o superestimado melodrama humanista “As Invasões Bárbaras” (2003). Em “A Era Inocência” (2007), permanece a sua visão crítica sobre a sociedade contemporânea, mas dessa vez moldada em uma forma mais irregular e sardônica. Prevalece no filme um tom que varia entre o surreal e o jocoso sobre a vida fútil e frustrante do homem moderno, geralmente pontuado também pelo gosto pelo politicamente incorreto. As melhores seqüências do filme são justamente aquelas que investem pesadamente nesse lado irônico mais ofensivo, principalmente nos delírios misóginos que o protagonista Jean-Marc LeBlanc (Marc Labrèche) tem com as mulheres que o oprimem (esposa, sua chefe executiva, suas colegas de trabalho, uma possível amante pirada que acha que é uma lady da Idade Média). O ponto fraco de “A Era da Inocência” é justamente quando Arcand ameniza a sátira para tentar passar alguma “lição de vida” para LeBlanc. Mesmo assim, é uma obra que serve como um bem vindo refresco humorado e sacana para Arcand depois daquele excessivo incensamento da crítica e do público pós-“As Invasões Bárbaras”.

A Princesa de Nebraska, de Wayne Wang ***


Aqueles que se recordam do cineasta chinês Wayne Wang pelo melodrama “O Clube da Felicidade e da Sorte” (1993) levarão um susto com “A Princesa de Nebraska” (2007). Wang abandonou o tom lacrimoso e o formato acadêmico de sua obra mais conhecida e adotou um estilo seco e uma visão mais amarga para retratar a trajetória de uma garota chinesa grávida e misteriosa percorrendo recantos sórdidos de uma cidade norte-americana. O tom granulado da fotografia e os enquadramentos simples e eficientes nas cenas reforçam a abordagem do diretor que oscila entre o real e o poético.

Santos e Demônios, de Dito Montiel ***


O escritor Dito Montiel não se fez de rogado e tratou dele mesmo adaptar para o cinema algumas passagens autobiográficas de sua adolescência e da sua vida adulta, indo das confusões que se envolvia com o seu grupo de amigos delinqüentes num violento bairro novaiorquino até o seu difícil relacionamento com o pai. Montiel não cai em auto-indulgências fáceis: sua visão sobre a sua vida é crua e dramática, sem que o autor se poupe das suas responsabilidades. A forma dinâmica com que filma tanto as seqüências mais agitadas de brigas e encrencas quanto os momentos mais intimistas faz com que “Santos e Demônios” não caia num monótono e lamentoso relato sobre as agruras de um adolescente rebelde sem causa. Outro destaque da produção é o seu elenco, tanto pelas atuações vibrantes dos atores mais jovens quanto pelas interpretações sanguíneas e cheias de nuance de Robert Downey Jr., Chaz Palminteri e Diane Wiest.

Pablo e Virginia vão à Lujan, de Lilian Saura Ivachow **


Essa produção argentina de 2008 apresenta um tratamento quase documental para uma história singela e banal. Pablo e Virginia se conhecem durante uma peregrinação para a cidade Lujan, falam sobre coisas corriqueiras e sobre as suas vidas, trocam impressões pessoais, separam-se no outro dia e voltam a se encontrar no retorno a suas casas. A diretora Lilian Laura Ivachow filma com competência, a trama encanta de vez em quando pela sua simplicidade, mas o filme não tem maiores arroubos formais e aborrece em várias seqüências. No final das contas, “Pablo e Virginia vão à Lujan” vale mais como curiosidade pelas suas limitações de produção barata do que necessariamente pelas suas qualidades artísticas.

domingo, setembro 06, 2009

Terra Mãe, de Ermanno Olmi ***1/2


A primeira metade desse documentário italiano de 2009 chega a parecer quase um vídeo institucional. O veterano cineasta Ermanno Olmi concentra sua lente em fóruns, debates e entrevistas tendo por tema a questão ambiental. Isso não quer dizer, entretanto, que “Terra Mãe” é uma coletânea de aborrecidos depoimentos politicamente corretos. A dinâmica cinematográfica que Olmi consegue obter é notável, enfatizando muito a contundência da complexidade das discussões ecológicas. É na metade final do filme, contudo, que estão reservadas os melhores momentos. O diretor dispensa os diálogos e apenas enfatiza as imagens bucólicas de uma fazenda no interior da Itália. Focalizando uma natureza naquilo que ela tem de mais misteriosa e bela, num registro seco e direto, mas também apaixonado, as cenas concebidas por Olmi são a prova incontestável da verdade de todos os discursos bradados no início de “Terra Mãe”. Por mais que alguns possam acusar o documentário de panfletário ou ingênuo, a realidade é que a sua engenhosa arquitetura narrativa é cativante e eficiente na defesa do seu ponto de vista.

9 mm., de Taylan Barman ***1/2


A cena de abertura de “9 mm.” (2008) é seca e objetiva: no corredor de um prédio, a câmera focaliza uma porta de apartamento e um tiro é ouvido. A partir desse instante, a trama do filme retroage algumas horas e daí os motivos que levaram ao disparo da arma aos poucos serão esclarecidos. Essa descrição da narrativa dessa produção belga pode levar a crer que a mesma se trata de um filme policial. E é justamente aí que está um dos grandes méritos do filme: o que se assiste é um drama sobre a desintegração de uma família formatado numa estrutura de filme policial. Não há como não lembrar da declaração de Truffaut sobre Hitchcock em que ele dizia que o velho mestre inglês dirigia histórias de amor como filmes de suspense ou realizava produções de suspense como filmes de amor. O diretor estreante Taylan Barman surpreende ao conduzir sua trama com uma dinâmica tensa e meticulosa. Sua câmera é investigativa, parecendo não querer perder nenhum detalhe da trajetória descendente de seus personagens. Na maior parte dos momentos, pai, mãe e filho são apresentados em ações isoladas, mas que refletem sutilmente a relação desestabilizada entre eles. Quando interagem, a naturalidade dos seus atos é brutalmente coerente, fazendo da tragédia anunciada no início do filme a conseqüência inevitável de uma convivência degradada.

Home, de Ursula Meier ****

“Home” (2008) é uma verdadeira jornada dentro da loucura humana. A trama é altamente insólita: uma família de desequilibrados e que tinha tudo para ser disfuncional vive isolada em estranha harmonia em uma casa que fica à beira de uma auto-estrada abandonada. Jogando hockey no asfalto deserto, tomando banhos coletivos ou com a filha mais velha se bronzeando nua no jardim, nada parece perturbar a rotina do esquisito grupo. No momento, entretanto, que a auto-estrada em questão é reativada, a desordem mental de todos parece aflorar. Incapazes de abandonar a residência, começam a entrar em eternas discussões e conflitos. Chega-se ao ponto de emparedar todas as aberturas da casa para evitar o contato externo. A cineasta Ursula Meir adota o tom certo na direção, criando uma atmosfera de demência que vai se tornando progressivamente sufocante. A fotografia se alterna vertiginosamente entre a luminosidade ensolarada das belas paisagens bucólicas onde a casa está encravada até os interiores escuros e opressores da residência. Isabele Huppert mostra uma variação interpretativa impressionante no papel da matriarca, indo da serenidade contemplativa até o comportamento maníaco assustador, enquanto o notável elenco juvenil envereda por atuações similares.

Absurdistão, de Veit Helmer ***


“Absurdistão” (2008) tem as características típicas daquelas produções “artísticas” que alguns cinéfilos tanto gostam: paisagens exóticas, realismo mágico, narrativa alternada entre a fábula e a comédia. Mas apesar dos clichês, o filme é realmente envolvente e tem o seu encanto. Reciclando a velha história mitológica da greve de sexo das mulheres de Atenas, transposta para um vilarejo de um país imaginário, o filme tem uma eficiente direção de fotografia que valoriza as inóspitas paisagens áridas que pontificam como cenários. Além disso, a trama é marcada por um humor ora ingênuo ora malicioso em perfeita sintonia com o caráter irreal da narrativa.

sábado, agosto 29, 2009

Vacuum, de Maria Tereza Curzio **1/2


Esse documentário de 2008 sobre a ditadura militar no Uruguai durante o período de 1974 a 1984 não traz nenhuma novidade para o gênero. A diretora Maria Tereza Curzio se prende a todos os macetes mais genéricos, fazendo a velha combinação de depoimentos com imagens de arquivo. Mesmo assim, é inegável a força narrativa e emocional do filme. Curzio conseguiu obter uma interessante dinâmica cinematográfica, sendo que se acompanha com interesse a dolorosa busca de desaparecidos e seus descendentes por parte de parentes e a evocação das duras lembranças de torturas e perseguições durante àquela época de totalitarismo. Por mais que para alguns o filme possa parecer panfletário demais, dificilmente não se fica impressionado com tais relatos.

Pequeno Crime, de Christos Georgiou **1/2


Uma co-produção entre o Chipre e a Grécia não é o tipo de filme que se assiste seguidamente. Mas “Pequeno Crime” (2008) consegue transpor o mero interesse de curiosidade geográfica. Num misto de comédia, policial e a singela crônica de costumes, a obra se sustenta no roteiro bem humorado, na bela fotografia que focaliza as bucólicas paisagens de uma ilha cravada no meio do Mar Egeu e no exotismo dos costumes e línguas dos personagens. No final das contas, não é nada de parar o trânsito, mas consegue distrair na boa o espectador por uma hora e meia.

Feliz Natal, de Selton Mello ***1/2


Se como ator Selton Mello consegue ser irritante em alguns dos seus maneirismos, no seu lado como cineasta ele consegue ser bem mais fluente e interessante. “Feliz Natal” (2008), seu de estréia na direção, é a prova natural disso. Logo nas primeiras cenas já se fica surpreendido com a paixão de Mello pela imagem cinematográfica: as tomadas do ferro velho, com enquadramentos magníficos sob iluminação naturalista e saturada, têm um impacto fortíssimo. Esse gosto pelas imagens, e não palavras, que traduzem idéias e concepções paira por todo o filme. O estilo de filmar pode ser seco e objetivo, mas também tem um corte elegante: não se cai na armadilha fácil de câmeras que tremem ou que ficam fora do foco da ação principal. A lente do diretor é contemplativa e curiosa. Acompanha de forma detalhada a desintegração psicológica e emocional da família do protagonista Caio (Leonardo Medeiros), com a câmera investigando toda a sordidez e falta de esperança que emanam das situações e dos personagens. Mello, todavia, não esquece de pingar sobre a trama um pouco de um senso de humor agudo e perverso. Nesse sentido, é inesquecível a cena em que o cunhado bonachão e desempregado fica devorando pernil e farofa durante a ceia de Natal enquanto patriarca e matriarca (Lúcio Mauro e Darlene Glória) discutem da forma mais áspera e bagaceira possível.

Outro ponto alto de “Feliz Natal” são as atuações dramáticas que Selton Mello consegue extrair do seu elenco. Leonardo Medeiros atinge o seu auge como ator ao compor sutilmente um Caio imerso em fragilidade e culpa. Lúcio Mauro, de rosto pétreo e gestos econômicos, é o retrato perfeito da amargura, enquanto Darlene Glória oferece uma interpretação completamente over mas adequada a uma idosa mergulhada na loucura e no alcoolismo. Já Paulo Guarnieri surpreende ao caracterizar uma imensa melancolia apenas no seu olhar triste e apagado. Graziella Moretto sai do seu registro cômico habitual e oferece o retrato muito bem delineado da mulher frustrada em todos os sentidos.

Mesmo não sendo uma obra-prima, “Feliz Natal” é aquele tipo de produção que cria uma tremenda expectativa sobre o que seu autor pode oferecer no futuro, além de dar vontade de pedir ao Selton Mello que largue a carreira de ator e se concentre só em fazer filmes (tudo bem, estou exagerando: em “Lavoura Arcaica” e “O Cheiro do Ralo” ele teve atuações extraordinárias).

Jardins de Outono, de Otar Iosseliani ***


Essa produção francesa de 2006 é uma bela reciclagem do cinema surrealista de Luis Bunuel. Apesar de não ter a mesma excelência artística do velho mestre espanhol, o cineasta Otar Iosseliani elabora com habilidade uma estranha e agradável atmosfera onírica que reveste uma trama cômica sobre políticos corruptos e mazelas familiares. O espectador se sente envolvido por um tom nostálgico e bucólico, como se sentisse saudade de algo indefinível, obscuro, mas ao mesmo tempo vagamente reconhecível, numa sensação típica de devaneio.

quarta-feira, agosto 19, 2009

Breton é um Bebê, de Arturo Sotto ***


Nesse documentário de 2008, o diretor Arturo Sotto e sua equipe percorrem o interior de Cuba na intenção de fazer um registro do imaginário mágico do país. O resultado é uma obra perturbadora, em que a visão pretensamente objetiva que se poderia ter sobre o assunto se dissolve no olha fascinado sobre os rituais de religiões afro-americanas que prevalecem na nação. A violência dos ritos e a fé dos devotos são retratados num formato cru e sem concessões, mas ao mesmo tempo há um tom entre o onírico e o surreal que tornam estranhamente atraentes tais práticas.

terça-feira, agosto 18, 2009

California Dreamin', de Cristian Nemescu **1/2


Essa produção romena de 2007 é uma sátira política que oscila entre a ironia e a ingenuidade. A trama, que mostra um pelotão norte-americano em missão internacional preso numa cidadezinha romena pela burocracia estatal, tem um caráter evidentemente simbólico, trazendo uma crítica ao velho imperialismo ianque e ao caráter corrupto e subverniente dos países de terceiro mundo. O problema do filme é que o seu lado farsesco é tão acentuado que acaba tirando o impacto dramático de algumas seqüências que pretendiam um tom mais sério. No mais, “California Dreamin’” é envolvente e simpático, sendo que os seus melhores momentos se concentram nas engraçadas cenas do baile oferecido pela cidade aos soldados, que na verdade estão loucos para transar com as mais belas garotas da localidade. Como se pode observar, as metáforas no filme são mais que óbvias...

quinta-feira, agosto 13, 2009

Segredos, de Alice Nellis **1/2


Essa produção tcheca de 2007 é um drama intimista mostrando uma dona de casa em um dia de crise, onde vários problemas de sua vida (casamento abalado, adultério, desilusões existenciais) convergem para que uma série de questionamentos pessoais venha à tona. A diretora Alice Nellis revela uma certa sensibilidade para retratar as angústias das mulheres burguesas nesse começo de milênio, apesar de cair em alguns momentos num ranço de esquematismo psicológico de almanaque. O que realmente garante o interesse por “Segredos” é que as situações limites vividas pela protagonista recebem um bem vindo filtro de bom humor, o que acaba tornando mais agradável a uma hora e meia de duração do filme.

Os Escritórios de Deus, de Claire Simon ****


A estrutura narrativa e formal de “Os Escritórios de Deus” (2008) lembra bastante o extraordinário “Entre os Muros da Escola” (2008). A trama focaliza a rotina em um órgão público responsável por aconselhamentos para planejamento familiar, mas o que se enfatiza principalmente é a questão do aborto. O filme se divide em episódios que retratam várias situações que levam uma mulher a optar pelo aborto, sendo que cada um dos casos é baseado em histórias reais colhidas num desses órgãos. A junção de todos esses casos oferece um amplo panorama não só sobre a questão do aborto na França, mas da própria sociedade, ao refletir as diferentes formas com que a situação é encarada tanto por diferentes classes sociais quanto geracionais. Para a diretora Claire Simon, não há explicações e nem soluções fáceis para essa questão: o aborto tanto pode ter uma causa que vem da condição social e econômica da mulher quando de um aspecto insondável da sua natureza humana. Nesse sentido, impressiona a perspicácia de Simon ao selecionar cada um desses casos mostrados no filme, da adolescente inconseqüente de periferia até a veterana prostituta que engravida mais de uma vez de um homem por quem é apaixonada.

É claro que em vários momentos do filme a cineasta privilegia um registro que se utiliza de uma estética quase documental, mas isso não quer dizer que “Os Escritórios de Deus” se resuma a atores depondo para as câmeras. Fotografia e edição são inquietantes, valorizando e detalhando ambiente e a própria expressão corporal dos atores, obtendo uma atmosfera que varia do angustiante e desolador para até mesmo uma certa leveza, alternando tensão e bom humor.

Assim como “Entre os Muros da Escola”, “Os Escritórios de Deus” reafirma uma tendência no atual cinema francês em combinar engajamento social temático com admiráveis criatividade e ousadia artísticas.

As Noivas de Alá, de Natalie Assouline *



Esse documentário retrata a rotina de mulheres palestinas presas por atividades de guerrilha contra Israel. Os depoimentos impressionam por conciliarem os dramas pessoais delas com as suas visões sobre a guerra que travam. Como registro histórico, é uma obra de interesse por focar com crueza um dos grandes conflitos mundiais dos últimos anos, evidenciando uma das suas mais nefastas conseqüências. Pelos seus méritos cinematográficos, entretanto, “As Noivas de Alá” deixa muito a desejar: a narrativa é truncada, focalizando-se basicamente em entrevistas, parecendo mais um vídeo institucional de propaganda. Faltou ao filme ousadia e inspiração.

domingo, agosto 09, 2009

A Caixa de Pandora, de Yesim Ustaoglu ***1/2


Não sei se a produção turca “A Caixa de Pandora” (2008) é uma obra tão representativa do seu país de origem. Afinal, não vejo tantos filmes turcos assim... Mesmo assim, é um belo cartão de visitas do cinema daquelas bandas. O diretor Yesim Ustaoglu faz uma interessante contraposição entre as paisagens rurais e urbanas, sendo que em ambas predomina um registro seco e opressivo. O ambiente da cidade parece ser tão ameaçador quando a natureza pouco hospitaleira. Os cenários estão perfeitamente adequados ao contexto da trama, repleto de conflitos familiares mal resolvidos e melancolia. Ustaoglu pode não trazer nada de revolucionário em “A Caixa de Pandora”, mas impressiona pela concisão formal e pela forte impacto emocional de seu filme, fazendo do mesmo uma pequena perola a ser descoberta.

segunda-feira, agosto 03, 2009

Ill Divo, de Paolo Sorrentino ****


“Gomorra” (2008) é um correto drama policial, mas está muito longe de ser “o” grande filme de máfia recente. Esse título é, inquestionavelmente, de “Ill Divo” (2008). A realidade, entretanto, é que tal produção italiana não é somente um drama sobre mafiosos. Esse é apenas um dos seus fascinantes aspectos, em um filme que também envolve intrigas políticas, comédia farsesca e uma ácida visão social da Itália contemporânea. Tendo como mote principal a biografia do Primeiro Ministro italiano Giulio Andreotti, focalizando principalmente o apogeu do seu poder político e a sua derrocada devido a escabrosos escândalos, o cineasta Paolo Sorrentino oferece um sombrio e sarcástico retrato dos bastidores da classe política italiana. Seu estilo de filmar barroco impressiona por variar dos tons realistas documentais até momentos quase surreais que beiram o grotesco. Sorrentino instaura no filme um ambiente de paranóia e pesadelo, temperado por um venenoso humor negro, ao mostrar os jogos de gato e rato entre Andreotti e seus asseclas com seus adversários, o que acaba deixando o espectador em constante tensão. As seqüências de ação que envolvem atentados e ataques da Máfia trazem aquela velha e bem vinda grandiloqüência operística tão características de obras como “O Poderoso Chefão” ou “Era Uma Vez na América”. Além disso, a interpretação de Toni Servillo no papel principal está em perfeita sintonia com o espírito do filme, numa composição dramática que dispensa o naturalismo e enfatiza o caricatural.

Evocando o excelente cinema político de cineastas como Elio Petri, “Ill Divo” é o melhor filme italiano que assisto em anos. Pode parecer exagero, mas é provável que qualquer um que assista a essa obra-prima possa ter essa impressão....

De Mão Para Filha, de Andrea Zambelli *


Esse documentário italiano de 2008 trata sobre a tradição dos cantos folclóricos das colhedoras de arroz da região de Vercelli, ambiente esse que já havia sido retratado no clássico “Arroz Amargo” (1948). O filme combina antigas imagens de arquivo com depoimentos pessoais das cantoras, indo de veteranas senhoras até as mais moças que batalham para perpetuar essa expressão cultural. É claro que é uma história interessante, sendo que os maiores atrativos do filme estão no carisma de algumas dessas mulheres e no encanto pela beleza bruta da música que vem da tela. O resultado final, entretanto, é enfadonho, pois a direção é tão burocrática e o roteiro tão raso ao abordar os aspectos históricos que se acaba ficando com uma impressão constante de se assistir a um vídeo institucional sobre o coro feminino em questão.

Belle Toujours, de Manoel Oliveira ***


Confesso que a minha expectativa para “Belle Toujours” (2006) não era das maiores. Afinal, nunca fui muito fã do cineasta português Manoel de Oliveira. Além disso, querer fazer uma continuação da obra-prima “A Bela da Tarde” (1967) de Luis Bunuel pode soar pretensioso demais. Mas o resultado final é surpreendente. Oliveira sabe que seria quase impossível fazer uma obra à altura do original, sendo que dessa forma prefere concentrar sua narrativa em uma visão sarcástica sobre a velhice dos principais personagens do clássico de Bunuel. A trama oscila entre o monótono e até mesmo um certo tom mágico, fazendo com que “Belle Toujours” funcione como uma discreta e bem humorada homenagem a um dos grandes momentos da história do cinema.

Canções de Amor, de Christophe Honoré ****


“Canções de Amor” (2007) parece começar justamente de onde parou “Em Paris” (2006), produção também dirigida por Christophe Honoré. O cineasta aprofunda as suas experimentações formais, pendendo ainda mais para a linguagem irreal do musical. Mas as intenções estéticas de Honoré não são simplesmente escapistas. Seu objetivo é justamente fazer o confronto do anti-naturalismo do gênero musical com a pungência e a dureza emocional que emanam de um roteiro que fala sobre perdas e paixões desencontradas. É como se o “cinema total” de Jean-Luc Godard encontrasse o intimismo romântico dolorido e desiludido típico da obra de Truffaut. Essa conexão com a Nouvelle Vague está presente de forma marcante em várias seqüências de “Canções de Amor”, mas Honoré está bem distante do mero revivalismo. Seu filme transpira vivacidade e naturalidade impressionantes, embalado por uma trilha sonora repleta de canções memoráveis. É extraordinária a maneira fluida com que a música irrompe em cenas de alto teor dramático. A sensação inicial em tais momentos é de estranhamento, mas ao poucos essa insólita combinação começa a fazer totalmente sentido. A grande força criativa de “Canções de Amor” está justamente nessa conjugação entre o estranho e o encantador.

Antonioni sobre Antonioni, de Carlo Di Carlo **


Esse documentário sobre a carreira do cineasta italiano Michelangelo Antonioni não traz muitos atrativos no seu aspecto formal. O grande foco de seu interesse está mesmo nos depoimentos colhidos do diretor biografado. Antonioni não fala muito sobre a sua vida, preferindo fazer comentários sobre alguns de seus filmes. O mais fascinante na visão que oferece sobre sua obra é que ele não procura explicar o sentido da mesma, preferindo se concentrar em pequenos detalhes quanto ao seu estilo de filmar. “Antonioni sobre Antonioni” não é um documento definitivo sobre o grande diretor que foi Antonioni, mas rende alguns momentos preciosos para os admiradores não só do cineasta, mas também do cinema em geral

domingo, julho 26, 2009

O Casamento de Rachel, de Jonathan Demme ***1/2


O estilo cru de filmar em “O Casamento de Rachel” (2008) salta aos olhos: iluminação natural, trilha sonora praticamente tocada ao vivo, a maioria das cenas filmadas com câmera na mão. Os mais desavisados podem até ficar achando que o cineasta Jonathan Demme esteja querendo imitar os filmes do Movimento Dogma 95 ou querendo fazer uma pose de “cinema independente”. A verdade é que as raízes de Demme, antes que ele entrasse definitivamente no “mainstream” com o “Silêncio dos Inocentes” (1991), sempre estiveram ligadas ao lado B do universo cinematográfico norte americano. Dessa forma, fazer um filme fora dos padrões de Hollywood não é novidade para ele. E essa escolha por uma abordagem formal menos suntuosa é mais do que adequada para o efeito que ele queria obter em “O Casamento de Rachel”, obra que busca retratar as relações humanas de forma mais direta e sem sentimentalismos excessivos. A caracterização de personagens e situações impressiona e também incomoda no sentido das emoções brutas que retrata.

É claro que não dá para falar sobre “O Casamento de Rachel” sem mencionar a beleza de sua trilha sonora. Cineasta fortemente ligado à música, vide as inesquecíveis canções que abrilhantavam “Totalmente Selvagem” (1986) ou o revolucionário documentário “Stop Making Sense” (1984), Demme pontua o seu filme com uma riqueza estonteante de melodias e ritmos (rock, country, folk, rap, música celta e até mesmo samba!). A cereja do bolo nesse aspecto, entretanto, está na marcante seqüência da cerimônia de casamento em que o noivo canta para a amada a bucólica “Unknown Legend”, pequena jóia do repertório de Neil Young. Aliás, tal momento complementa a parceria marcante do bardo canadense com o diretor, depois da canção título de “Filadélfia” (1993) e do extraordinário documentário “Neil Young: Heart of Gold” (2005), ambos os filmes dirigidos por Demme.

Top Hat, de Mark Sandrich ***1/2


Passados mais de 70 do seu lançamento, talvez compreender e apreciar os encantos de "Top Hat" seja uma tarefa árdua para boa parte do público desse milênio, ávido por realismo e densidade psicológica. Afinal, tais atributos passam longe da obra em questão. Para o espectador moderno deve ser realmente difícil aceitar uma trama tão pueril e ingênua, além daquilo que é o “pecado” maior desse tipo de produção: afinal, por que essa gente feliz está toda hora cantando e dançando de forma repentina e sem maiores explicações?

O pensamento desse público “moderno” poderia nos fazer pensar, então, que o mundo realmente decretou a morte dos musicais de forma irreversível e que assistir à Top Hat seria um mero exercício de aprendizado histórico. Mas daí o apreciador de cinema desavisado assiste a "O Paciente Inglês" (1996) e acaba simpatizando com uma personagem tão arredia como o Conde Laszlo (Ralph Fiennes) simplesmente pelo fato dela ser fã do Fred Astaire, chegando ao ponto até de tentar imitar uns passos do velho mestre do sapateado. E quando termina o filme, a melodia sinuosa de "Cheek to Cheek", canção emblemática de "Top Hat", não sai da nossa mente e sem querer nos momentos mais inesperados estamos assobiando a tal da música.

É claro que "Top Hat" está longe da perfeição formal de outros grandes clássicos do cinema como "Cidadão Kane" ou "O Poderoso Chefão". A banalidade do roteiro é tamanha que passados alguns minutos depois de assistir ao filme é difícil lembrar do que se tratava a história do mesmo. A verdade é que fora as magníficas canções e coreografias de danças, pouca coisa se consegue lembrar de "Top Hat". E isso não é nenhum demérito, pois a proposta é justamente essa: roteiro, fotografia e montagem funcionam a contento e são apenas meros pretextos para os maravilhosos números musicais que inundam a tela e nos enchem os olhos. Ou seja, é puro escapismo, mas executado com sensibilidade e competência ímpares. E escapismo bem realizado era tudo que os nortes-americanos (e o resto do mundo também) precisavam em meados da década de 30, quando a sociedade ainda estava em fase de recuperação da terrível recessão econômica decorrente da famigerada queda da Bolsa de 1929.

"Top Hat" representa o ápice de uma fórmula infalível e consagrada do estúdio da RKO e que fez com que o mesmo enchesse os seus cofres de grana (e permitiu depois que um certo jovem chamado Orson Welles torrasse um pouco dessa grana fazendo o tal do "Cidadão Kane"...). Além de habitual eficiência do diretor Mark Sandrich, havia a antológica e bem azeitada parceira de Fred Astaire e Ginger Rogers, o casal dançarino mais marcante da histórica do cinema, junto a um conjunto de canções sublimes da dupla Irving Berlin e Max Steiner. Aliás, a parte musical de "Top Hat" é tão extraordinária que não foi apenas a canção título do filme (a qual Fred Astaire não gostava) que se tornou peça fundamental do cancioneiro norte-americano, mas também a já citada "Cheek to Cheek" e "Isn’t It a Lovely Day". E convenhamos: diante do pleno apogeu desses talentos extraordinários em se tratando de canções, atores e coreografias, quem é que realmente vai ser importar com um roteiro débil?

O que fica mesmo gravado no nosso imaginário e torna "Top Hat" tão especial para os admiradores de musicais (e também da arte cinematográfica em geral) é o puro prazer sensorial de se assistir à mágica química dançante de Fred e Ginger deslizando majestosamente por um coreto londrino ou nos canais da Veneza falsa (mas ainda assim bela) dos cenários da RKO ao som de alguns dos mais marcantes números musicais do século XX. E, sinceramente, precisa algo mais do que isso?

Monstros vs. Alienígenas, de Rob Letterman e Conrad Vernon ****


Há pelo menos dois lados na narrativa de “Monstros vs. Alienígenas” (2009) que são conduzidos de forma brilhante. Um deles é o verdadeiro manancial de citações e referências bem humoradas a clássicos cinematográficos ou célebres filmes B do gênero da ficção científica, em uma visão que traz um viés tanto de homenagem quanto de sátira. Por outro lado, essa animação também é uma primorosa obra no quesito aventura e ação, sendo que há várias seqüências empolgantes envolvendo muita destruição, perseguições e efeitos de encher os olhos. A força de “Monstros vs. Alienígenas” também está justamente no aspecto de combinar esses dois lados da sua narrativa e fazer com que nenhum se sobreponha ao outro. Colabora também para o sucesso artístico do filme a ótima caracterização dos monstruosos protagonistas, todos carismáticos e de personalidades perfeitamente delineadas. Pode-se dizer que nessa linha de animações que primam pela ação e bom humor, “Monstros vs. Alienígenas” está no mesmo alto nível de produções como “Os Incríveis” (2004) e “Kung Fu Panda” (2008).

Animal Crackers, de Victor Heerman ****


Às vezes, a grandeza de um filme pode ser medida pela forma como ele se torna referência no universo cultural. "Animal Crackers", produção de 1930 e o segundo filme que conta com a participação insana dos Irmãos Marx, é um caso exemplar dessa premissa. Logo de cara, vem à mente a brilhante homenagem aos antigos musicais realizada por Woody Allen em "Todos Dizem Eu Te Amo" (1996), em que umas das seqüências mais memoráveis tinha por tema musical uma das canções principais de "Animal Crackers", a hilária e empolgante "Hooray For Captain Spaulding". E por falar nele, não dá para esquecer também que o tal do Capitão Spalding, personagem inesquecível encarnado por Grouxo Marx, acabou sendo retomado como codinome do assustador patriarca da família de psicopatas de "Rejeitados Pelo Diabo" (2005). Aliás, todos os membros desse gentil agrupamento familiar adotavam os nomes de figuras do universo “marxista”...

Mesmo não sendo tão bem acabado quanto outras obras posteriores dos Irmãos Marx como os antológicos "Diabo a Quatro" (1933) e "Uma Noite na Ópera" (1935), "Animal Crackers" atinge em alguns momentos patamares de humor anárquico e genial tão altos quanto tais produções. Em termos cinematográficos, os Marx ainda estavam procurando o melhor formato para adequarem os seus dotes cômicos. Isso sem contar que o diretor Victor Heerman não tinha o mesmo vigor e inspiração de Leo McCarey, o cineasta que melhor dimensionou a loucura fora de controle dos brothers. Apesar desses pequenos reveses, entretanto, Grouxo, Chico e Harpo oferecem ao espectador algumas das melhores seqüências da história da comédia cinematográfica.

Em "Animal Crackers", há bastante daquilo com que se está acostumado, e das quais nunca se cansa, em filmes dos Irmãos Marx: os diálogos e jogos de palavras recheados de tiradas desconcertantes de Grouxo (a melhor delas: “O primeiro número do senhor Ravelli será ‘Em alguma parte minha amada está deitada a dormir’com um coro masculino”), a capacidade quase ingênua de Chico em criar confusões, o humor puramente visual do mudo Harpo, a pateta de trejeitos aristocráticos Margaret Dumont sendo infernizada/seduzida pela ironia ácida de Grouxo, além, é claro, dos números musicais de Chico mostrando um virtuosismo malabaristico ao piano e de Harpo debulhando puro lirismo na sua harpa. Ah, tem também a sem-gracice tradicional do Zeppo, o irmão Marx mala, mas isso a gente até desconsidera...

"Animal Crackers" é baseado em uma comédia musical encenada pelos próprios Irmãos Marx na Broadway, com canções de Bert Kalmar e Harry Ruby, e a sua origem se evidencia em alguns trechos do filme, quando se fica com a impressão de se estar assistindo a puro teatro filmado. No final das contas, entretanto, isso acaba se revelando apenas como mero detalhe. Afinal, o que importa é assistir aos Marx transformando o fio de roteiro em desculpa para destilar o seu humor devastador, que beira quase o surreal, além de se ter o prazer de ouvir e assistir a alguns dos mais belos números musicais que Hollywood já ofereceu em canções como "Hooray For Capitain Spalding" e "Why am I So Romantic". E justamente talvez esse seja o efeito mais peculiar e perturbador da cinematografia dos Irmãos Marx: ao mesmo tempo que somos acariciados pelo humor fluente deles e a beleza envolvente das melodias que permeiam seus filmes, também convivemos com o sentimento de perigo de uma piada ou de uma atitude bufona que pode jogar para escanteio as estruturas lineares de narrativa assim como a própria realidade. Ou seja, sedução e transgressão convivem lado a lado, o que torna o humor siderado desses eternos rapazes ainda muito avançado e desafiador, mesmo para esse cínico novo milênio em que vivemos.

sexta-feira, julho 24, 2009

Pagando Bem Que Mal Tem, de Kevin Smith ***1/2


Kevin Smith nunca foi um cineasta de grandes vôos formais. Seu forte sempre foram os roteiros, recheados de referências pop, piadas, situações constrangedoras e personagens carismáticos, emoldurados por fotografia e montagem simples e sem invencionices. Quando fugiu dessa linha, acabou tendo o seu maior desastre artístico que foi o enfadonho e pretensioso “Dogma” (1999). “Pagando Bem Que Mal Tem” (2008), sua produção mais recente, traz o tradicional estilo de Smith, o que acaba resultando numa boa diversão. É claro que a narrativa obedece aos cânones do gênero comédia romântica, repleta de desencontros que acabam desembocando no final feliz para os seus protagonistas. O diferencial está nos toques bem humorados e sacanas que o cineasta insere na trama, indo dos momentos irônicos sobre o universo dos “losers” até seqüências hilariantemente grosseiras, fazendo com que “Pagando Bem Que Mal Tem” confirme o bom momento criativo de Kevin Smith depois do igualmente divertido “O Balconista 2” (2006).

quarta-feira, julho 22, 2009

Alma Perdida, de David Goyer *


"Alma Perdida” (2009) é o reflexo de um problema crônico das produções norte-americanas de horror: parece que foi dirigido por um cineasta que não tem muita intimidade com o gênero e que usou um manual debaixo do braço. O resultado é uma obra genérica, sem personalidade e inspiração. Utiliza-se alguns clichês básicos e saturados do moderno cinema asiático de horror com uma dose de drama pueril típico do cinema comercial dos EUA. Tudo em “Alma Perdida” é excessivamente padronizado, da evolução óbvia do roteiro, com os sustos colocados nos momentos certinhos, até a fotografia asséptica. Esse David S. Goyer tinha que assistir a alguns filmes de Mario Bava ou Dario Argento para fugir um pouco dessa sua mesmice criativa.

O Vampiro da Cinemateca, de Jairo Ferreira ***


Confesso que nunca li nada dos tão comentados textos sobre cinema de Jairo Ferreira. Ao assistir, contudo, “O Vampiro da Cinemateca” (1977), um dos poucos títulos da sua errática filmografia, fiquei bastante curioso para conhecer tal material. O filme, utilizando-se de um texto ácido e escrachado e de um criativo trabalho de edição, rompe com os limites entre o artístico e o popular. Misturando referências eruditas com depoimentos irônicos de Carlos Reichenbach, Zé do Caixão e Jards Macalé, Ferreira oferece uma das obras mais transgressivas e inquietantes do cinema brasileiro.

quinta-feira, julho 09, 2009

O Clube dos Cafajestes, de John Landis ****


Existem filmes que fazem parte de um seleto grupo de obras que são definidoras de uma época e de um gênero cinematográfico. “O Clube dos Cafajestes” (1978) é uma dessas raras produções. John Landis definiu os cânones de um tipo bem específico de comédia: escrachada, escatológica e focada em personagens juvenis. Mas “O Clube dos Cafajestes” não se trata apenas de uma mera junção de piadas e grosserias. Landis mostra uma classe impressionante ao dar uma magnífica unidade narrativa para um conjunto de seqüências cômicas engraçadíssimas, oferecendo também uma visão ácida sobre a conservadora sociedade norte-americana. Além disso, a caracterização dos personagens é primorosa, principalmente a atuação xamânica do extraordinário John Belushi como o animalesco Bluto. Sob a influência dessa obra-prima, foram realizados ótimos filmes (“Picardias Estudantis”, “Superbad”) e outros nem tanto (as franquias “Porkys” e “American Pie”). Nenhum deles, entretanto, conseguiu superar a fantástica matriz.

Aleluia, Gretchen, de Silvio Back ****


“Aleluia, Gretchen” (1976) é um dos melhores filmes brasileiros a retratar a questão do nazismo. O grande mérito do cineasta Silvio Back nessa produção é elaborar uma narrativa que trafega entre o real e o alegórico com uma impressionante naturalidade. Além disso, acompanha-se a trajetória da família alemã Kranz por um viés intimista e sufocante ao mesmo tempo que se busca a relação da mesma com episódios históricos. É nessa conexão em que se estabelece a desintegração moral dos Kranz com o sombrio prisma político do contexto temporal focado (1936-1976) que reside um dos pontos mais fascinantes dessa obra, lembrando muito, por esse tipo de abordagem, uma das obras-primas de Luchino Visconti, “Os Deuses Malditos” (1969). O elenco de “Aleluia, Gretchen” também é destaque, estando em perfeita sintonia com o espírito do filme, em interpretações que variam de forma brilhante do dramatismo contido ao patético e caricatural.

Dúvida, de John Patrick Shanley **1/2


Reconheço que “Dúvida” (2008) tem as suas qualidades. É uma produção bem cuidada em termos técnicos, a temática do seu roteiro é potencialmente explosiva e tem um elenco de respeito (apesar de boa parte das interpretações soarem mecânicas e artificiais em algumas cenas). O problema é que o tratamento oferecido pelo diretor John Patrick Shanley chega a ser sufocante no seu convencionalismo e rigidez. Existe uma pretensão em ser sutil e até mesmo metafórico ao se focalizar o embate de um padre progressista (Philip Seymour Hoffman), mas possivelmente pedófilo, e uma religiosa inflexível e conservadora (Meryl Streep). O resultado, entretanto, é bem diverso do que foi desejado pelo cineasta. Os diálogos são excessivamente discursivos, não dando o menor espaço para alguma interpretação de quem assiste. A seqüência final do filme, com a referida religiosa chorando e proclamando com todas as letras os seus sentimentos de dúvida, é exemplar dessa equivocada opção narrativa, que na verdade revela a origem teatral do roteiro. Cinema não é literatura, sendo que em um filme é preferível a valorização do silêncio e da imagem em determinados momentos do que concentrar tudo nos diálogos.

The Spirit - O Filme, de Frank Miller *


A antológica e revolucionária série em quadrinhos “The Spirit”, do genial Will Eisner, tinha como uma das suas principais qualidades a incorporação de influências cinematográficas na sua concepção visual e narrativa. Não é à toa, dessa forma, que a própria série em questão influenciou uma gama considerável de filmes. Frank Miller, outro autor consagrado dos “comics”, resolveu fazer a sua estréia solo na direção fazendo a adaptação de Spirit para a telona. Miller já tinha algumas experiências no cinema, em produções de graus variados de qualidade, indo do brilhante “Sin City”,” (2005), dirigido em parceria com Robert Rodriguez, até os medíocres e esquecíveis “Robocop 2”,” (1990), onde escreveu o roteiro, e “300”,” (2007), em que foi uma espécie de consultor criativo. Pois em “The Spirit – O Filme” (2008) Miller acaba se superando. Só que em ruindade!! O filme é um equívoco em todos os sentidos. O pretenso cineasta destruiu a essência original da série, transformando o protagonista numa espécie de super-herói brutal e quase invencível. A narrativa é truncada, com a caracterização de situações e personagens oscilando entre o caricatural e o ridículo. Apesar de todos esses clamorosos defeitos criativos, entretanto, “The Spirit” tem algo de instigante. A intenção de Miller não foi entregar um produto facilmente digerível para as platéias. Suas idéias de transgredir as concepções de Eisner ao invés de simplesmente repeti-las assim como de romper com os cânones tradicionais dos filmes de super-heróis são interessante, mas mal executadas. Ele errou feio, mas errou também com um certo sentido épico daqueles que buscam rupturas artísticas, e isso é muito mais louvável do que simplesmente apresentar uma produção bem acabada, mas asséptica e sem personalidade.

sábado, junho 20, 2009

Jogo Entre Ladrões, de Mimi Leder *1/2


Filmes marcados por obviedades em seus roteiros não são necessariamente um mal. Se um diretor consegue obter uma narrativa dinâmica através de fotografia e montagem bem trabalhadas, os lugares comuns de uma trama até passam batidos. Não é o que acontece em “Jogo Entre Ladrões” (2009). A cineasta Mimi Leder não demonstra maiores brilhantismos nos aspectos formais da produção, procurando enfocar o interesse justamente num roteiro cheio de “surpresas” que são facilmente adivinháveis lá pela metade do filme. Para piorar a situação, Antonio Banderas e Morgan Freeman estão no auge da canastrice. No final das contas, o que acaba dando um certo interesse para “Jogo Entre Ladrões” é a bela Radha Mitchell, que está bem gostosinha em cena...

Gran Torino, de Clint Eastwood ***1/2


Clint Eastwood, parceiro e admirador confesso do grande cineasta Don Siegel, deve ter resolvido homenagear o mesmo em “Gran Torino” (2008). Afinal, a trama dessa sua produção mais recente tem muitos pontos em comum com o roteiro de “O Último Pistoleiro” (1976), um dos filmes mais admiráveis de Siegel. Ambos tem protagonistas durões e de passados com experiências violentas e nebulosas que se descobrem com uma doença fatal e resolvem estabelecer as suas próprias regras e rituais de como morrerão. Além disso, os mesmos acabam tendo jovens carentes da figura paterna como espécie de seguidores/aprendizes. “Gran Torino”, entretanto, não é uma mera reciclagem do filme mais antigo, tendo seus méritos próprios. Eastwood dirige da sua tradicional maneira segura e clássica. O personagem Walt Kowalski é uma síntese de outros papéis marcantes de Eastwood, sendo que as melhores seqüências são justamente aquelas em que o protagonista range os dentes e enfrenta os seus desafetos. Mesmo com todas as suas rugas e outros entraves da sua avançada idade, são nesses momentos que a tremenda carga mitológica e carismática de Clint irrompe de forma impressionante.

“Grand Torino” só não atinge o mesmo patamar de excelência de “O Último Pistoleiro” porque algumas caracterizações simplórias e caricatas, principalmente quando entra em cena a família de Kowalski, enfraquecem um pouco a densidade da sua narrativa. Mesmo assim, é uma obra de respeito dentro da expressiva cinematografia de Eastwood.

Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet ****


Li recentemente um artigo no jornal Zero Hora que tratava sobre o fenômeno cada vez mais recorrente de pessoas que abandonam as salas de cinema de Porto Alegre no meio das projeções. O mais curioso em tal matéria era o fato de que apontava a produção que era uma espécie de atual “campeã” nesse tipo de situação: “Entre os Muros da Escola”. Um repórter que ficou “de tocaia” na saída de uma sessão do filme em questão abordou um cidadão que estava saindo bem antes do término, questionando o mesmo porque ele já estava partindo tão cedo, sendo que o cidadão respondeu que a obra era decepcionante por só mostrar pessoas discutindo e não trazer nenhuma “lição de vida”. Bem, devo confessar que concordo com o nosso amigo fujão, pelo menos em parte. Não há em “Entre os Muros da Escola” exemplos edificantes de comportamento professoral, na linha “Meu Mestre Com Carinho”. E esse é justamente um dos aspectos mais fascinantes da obra. O professor François é apresentado, antes de mais nada, como um ser humano que diante de situações difíceis pode tomar uma decisão acertada como também hesitar ou meter os pés pelas mãos, o que é que ocorre justamente em alguns momentos. Paira pelo filme a sensação melancólica de que François e seus colegas, que representam um modelo de escola tradicional, são quase anacrônicos ao tentar lidar com uma nova realidade de situações e questionamentos que são representados pelos alunos que, em sua grande maioria, são descendentes de imigrantes. O que se atira na cara do espectador, e talvez isso perturbe a um ponto de até o mesmo abandonar a sala de cinema, é que tudo aquilo que se aprende numa sala de aula está cada vez mais defasado da realidade dos estudantes. A tão comentada seqüência final do filme é a perfeita e amarga síntese disso.

Mas reduzir o brilhantismo de “Entre os Muros da Escola” a somente ao seu lúcido discurso social seria injusto. O diretor francês Laurent Cantet dá a sua narrativa uma dinâmica eletrizante, num brilhante jogo de enquadramentos criativos e edição de cortes rápidos, mas não confusos, que acabam refletindo o próprio sentimento de urgência da trama. Outro detalhe instigante da obra é o fato de que devido ao fato da mesma ser uma adaptação de um livro baseado em situações reais, Cantet teve a idéia de que a maioria das pessoas retratadas no texto interpretasse a elas mesmas na tela. O resultado dramático é fabuloso, com o elenco oferecendo interpretações espontâneas e fluidas que estão em perfeita sintonia dramática com o espírito do filme.

Anabazys, de Paloma Rocha e Joel Pizzini ***1/2


Apesar de gostar muito de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1963), “Terra em Transe” (1967) e “O Santo Guerreira Contra o Dragão da Maldade” (1968), devo confessar que ainda não assisti “A Idade da Terra” (1980), o derradeiro filme de Glauber Rocha. É que boa do que li e ouvi falar sobre o filme é tão pouco animador que o mesmo por muito tempo não entrou como prioridade na minha lista de obras por assistir. Mas depois da sessão de exibição do documentário “Anabazys” (2007) essa minha percepção mudou bastante, sendo que agora “A Idade da Terra” se tornou uma produção a ser conferida brevemente por este que vos escreve.

“Anabazys”, basicamente, tem como tema a realização de “A Idade da Terra”, mas está muito longe de ser um simples “making of”. Sua narrativa é dividida em três momentos. No primeiro, assiste-se às dificuldades de Glauber para conseguir financiamento para a realização do filme. Na época, a situação era difícil para o genial cineasta baiano, que se encontrava brigado com boa parte do meio cultural brasileiro devido a declarações polêmicas sobre a ditadura militar, além de recém chegado do seu exílio. O segundo momento de “Anabzys” é focado nas filmagens. Nessa parte do documentário, é fascinante assistir ao método de filmar de Glauber em ação. Tudo parecer fluir de forma espontânea e delirante, com Glauber em plena ebulição criativa e exigindo de atores e demais membros da equipe uma entrega absoluta, ao mesmo tempo que expõe suas insólitas concepções estéticas e temáticas, misturando crítica social, misticismo e inusitadas referências culturais. O terço final do filme é igualmente desconcertante, ao retratar a forma, que oscilava entre a frieza e estranheza, com que “A Idade da Terra” foi recebida no Festival de Veneza e no Brasil. Pode-se até discordar das razões e teses de Glauber, mas o que impressiona mesmo é a sua defesa febril e quase messiânica da sua obra, com ele encarnando uma espécie de Antônio Conselheiro do cinema nacional.

O grande mérito de “Anabazys” não é o simples fato de comprovar ou não as qualidades artísticas do canto do cisne de Glauber. O que realmente impressiona nesse documentário é de mostrar sem artifícios ou concessões o difícil parto de uma obra que, longe de alcançar a unanimidade e muito mais importante do que isso, revelava a alma de uma das mais importantes figuras da cultura brasileira.

domingo, junho 07, 2009

Sex Drive - Rumo ao Sexo, de Sean Anders ***1/2


Os anos 80 foram um período dourado para o gênero comédias adolescentes. Aquela mistura de grosseria e inocência, tendo como modelo a suprema obra prima "O Clube dos Cafajestes" (1978) de John Landis, rendeu uma série de filmes antológicos. E o impacto de tais produções foi tão grande que ainda hoje aparecem obras influenciadas por aquele período, como os excelentes "Show de Vizinha" (2004) e "Superbad" (2007). "Sex Drive – Rumo ao Sexo" (2008) não está no mesmo nível desses dois últimos, mas chega perto e é um excelente divertimento. O diretor Sean Anders resgata muito daquela aura oitentista, mas atualizando com eficiência sob uma ótica moderna. No meio de hilariantes seqüências envolvendo escatologia e situações constrangedoras, há também uma fina ironia ao sacanear a conservadora sociedade norte-americana e seus estereótipos. Isso fica evidente principalmente nas seqüências envolvendo o hilariante homofóbico Rex (James Marsden) e uma comunidade amish não muito convencional... "Sex Drive" também encanta pela espontaneidade de sua dinâmica narrativa e por uma muito bem sacada conjunção de imagens e trilha sonora. Toda aquela seqüência dos três amigos viajando numa estrada ao som da sensacional canção "Time to Pretend" do MGMT, por exemplo, remete bastante a algumas cenas do clássico "Sem Destino". E podem acreditar: essa comparação, por mais exagerada que possa parecer, não é sacrilégio!!

Simplesmente Feliz, de Mike Leigh ***1/2


Em obras anteriores como "Segredos e Mentira" (1996), "Agora ou Nunca" (2002) ou "Simplesmente Feliz" (2004), o cineasta britânico Mike Leigh mostra uma visão sem enfeites sobre as relações humanas, optando pelo gênero de dramas sérios e de temática forte, utilizando um estilo de filmar objetivo e focado nas intensas interpretações de seus atores. Aparentemente, "Simplesmente Feliz" parece fugir dessa linha narrativa típica de Leigh pelo tom leve e cômico de algumas seqüências. No decorrer da trama, entretanto, o diretor parece contaminar a trajetória da otimista e bem humorada protagonista Poppy (Sally Hawkins) com uma série de pequenos episódios que revelam uma amarga visão de mundo. De certa forma, esse contraste entre a índole de Poppy e a indiferença do mundo que a cerca é que traz o real elemento de comédia de "Simplesmente Feliz", mas num tom cômico que tende muito mais para a ironia perversa. Além disso, a própria caracterização "alto astral" de Poppy se inclina para esse tipo de humor no sentido em que a mesma desafia não só a paciência de outros personagens, mas também dos próprios espectadores. É justamente nessas ambigüidades que Leigh demonstra a sua bruta coerência autoral.