quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Cisne Negro, de Darren Aronofsky ***1/2


Tentar fazer uma leitura do subtexto de “Cisne Negro” (2010) chega a ser quase redundante, pois o filme vive se auto-explicando: para atingir seus objetivos artísticos e pessoais como bailarina, a protagonista Nina (Natalie Portman) deve deixar aflorar o seu lado negro. O forte do diretor Darren Aronofsky nessa sua obra mais recente certamente não é a sutileza. E por falar nesse último requisito, talvez esteja aí o real grande conflito criativo do filme – sente-se uma grande propensão para o grotesco e o exagerado típicos de uma produção de horror, mas sem querer deixar de abrir mão de uma certa sofisticação de uma abordagem psicológica mais acurada. Quando o filme começa a partir para o explícito, quase que beirando o apelativo em termos de suspense e erótico, Aronofsky dá uma freada em busca da “densidade” artística. A indecisão do cineasta acaba truncando a narrativa de “Cisne Negro”. Mesmo assim, a produção se revela acima da média, principalmente pela sua perturbadora atmosfera sombria e pelo estilo insólito de Aronofsky em focalizar os ensaios e apresentações de balé (com destaque para a sequência de abertura, um legítimo e literal balé travestido de pesadelo). Alguns dos momentos de delírio de Nina trazem uma caracterização visual que impressiona pela beleza de sua violência e sordidez gráficas, além de revelar originalidade na manipulação das trucagens. Tais virtudes fazem o saldo final de “Cisne Negro” mais que positivo, ainda que se sinta um certo grau de decepção pelo fato de não estar no mesmo nível de “O Lutador” (2008), o brilhante penúltimo filme de Aronofsky.

2 comentários:

Rafhael Vaz disse...

Tenho lido só críticas 8 ou 80 a respeito do filme. Sendo que, as de 8 geralmente são feitas por pretensiosos que entram em detalhes como o filme ser ou não arte de fato.

Gostei muito da sua resenha, objetiva sem ser deixar levar pelos extremos. Parabéns!

Abraços!!

André Kleinert disse...

Tenho reparado também nisso, de as visões sobre o filme serem muito extremas. Talvez isso ocorra pelas altas expectativas que ele gerou. Muita gente esperava uma obra-prima e no final só veio um ótimo filme...