terça-feira, setembro 03, 2013

Amor louco, de Jacques Rivette ****


Um filme com mais de quatros horas de duração já faz o espectador desavisado pensar em algum épico histórico ou algo semelhante. De certa forma, até dá para dizer que Jacques Rivette fez uma espécie de épico em “Amor louco” (1969), mas direcionado a um relacionamento amoroso. No filme em questão, a trama se foca em dois planos – nos ensaios de uma peça e na decadência do relacionamento amoroso do diretor da referida montagem com sua esposa, atriz afastada da montagem mencionada. A ligação entre teatro e cinema é recorrente na filmografia de Rivette e aqui atinge um ponto extraordinário em sua fluência narrativa. As tomadas das passagens de texto, das discussões, dos laboratórios, trazem ângulos e enquadramentos que oferecem uma dimensão inusitada para as duas mídias. No cerne da produção fica evidente que o interesse maior de Rivette está no registro do processo criativo de uma montagem teatral e não tanto no resultado final (o que faz lembrar o recente e extraordinário “César deve morrer”). A evolução artística da montagem, entretanto, parece corresponder à degradação da vida pessoal de seu principal artífice. Nesse sentido, a longa duração de “Amor louco” se justifica para além da mera excentricidade. Rivette esmiúça os passos da dissolução mental da protagonista Claire (Bulle Ogier) em cenas de uma crueza emocional exasperante. Nada parece acontecer de forma gratuita, sendo que a decadência do relacionamento dos amantes se estende e consolida de forma indelével. Seu melancólico ocaso, não à toa, coincide com o ápice criativo da encenação que é a outra tônica da produção, numa conclusão de perversa ironia de Rivette.

Um comentário:

Marcelo C,M disse...

Queria ter assistido, mesmo exigido de mim muita paciência.