quarta-feira, agosto 25, 2010

Paganini Horror, de Luigi Cozzi *1/2


Assim como havia ocorrido em “O Gato Negro”, “Paganini Horror” (1989) é mais uma obra na linha horror dirigida por Luigi Cozzi que acaba caindo muito mais para o riso involuntário do que para os sustos. E no gênero de tranqueira oitentista, acaba sendo um exemplar até bem divertido, com direito até a participação do velho e bom Donald Pleasence, ator que aparecia frequentemente em produções do gênero naquele período. A manjada combinação de rock e trama sobrenatural parece promissora no início, dentro daquela possibilidade se ter algumas sequências de tensão e terror. As situações ridículas e previsíveis que se acumulam no roteiro, entretanto, aliadas a uma direção frouxa, fazem com que “Paganini Horror” caia naquele nicho de produções falhas que se perderam na categoria de curiosidades obscuras e históricas.

terça-feira, agosto 24, 2010

O Gato Negro, de Luigi Cozzi *1/2


Essa produção italiana até tem um início bem promissor ao propor uma trama em que o horror sobrenatural invade a realidade quando um diretor e um roteirista resolvem levar para as telas a história de uma bruxa. Cozzi obtém algumas seqüências de tensão interessantes ao mostrar a atriz principal que interpretaria a tal bruxa ser acossada por delírios e aparições fantasmagóricas. Com o desenrolar do filme, entretanto, as deficiências de “O Gato Negro” (1989) vão ficando cada vez mais evidentes: inconsistência dramática, atuações canastronas, efeitos especiais datados e pouco marcantes. É claro que esse conjunto tem um certo mérito no sentido de gerar momentos divertidos devido a um humor involuntário, além do evidente sabor nostálgico daquelas produções oitentistas te terror que chegavam aos borbotões por aqui em VHS. No mais, o título do filme acaba sendo um enigma, afinal o tal felino só aparece muito de vez em quando e sem qualquer função na narrativa.

segunda-feira, agosto 23, 2010

A Crise Carnívora, de Pedro Rivero *1/2


É claro que uma animação de recursos mais modestos como a espanhola “A Crise Carnívora” (2007) apresentaria algumas limitações em comparação a outras grandes produções norte-americanas do gênero. O problema, entretanto, é que o filme, mesmo nas condições mencionadas anteriormente, poderia apresentar qualidade e criatividade no traço, sendo que nesse aspecto acaba deixando muito desejar. Sua concepção visual é genérica e pouco fluente. O que poderia melhoras as coisas seria o seu roteiro e a sua narrativa (afinal, os episódios de desenhos animados clássicos como “Simpsons”, “South Park” e “Beavis and Butthead” não se sobressaíam exatamente pelos seus requintes gráficos). Mesmo primando pelo humor negro e a escatologia, todavia, “A Crise Carnívora” traz uma trama pobre em termos criativos e que se desenvolve aos trancos e barrancos, além de apresentar personagens poucos carismáticos. Eventualmente há algumas sequências engraçadas, mas acaba sendo pouco para atenuar a pasmaceira dessa animação.

sexta-feira, agosto 20, 2010

Pesadelos em Vermelho, Branco e Azul, de Andrew Monument ***1/2


A pretensão do diretor Andrew Monument para o seu documentário “Pesadelos em Vermelho, Branco e Azul” (2009) pode parecer excessiva: contar a história do cinema de horror norte-americano relacionando o mesmo com importantes momentos históricos dos Estados Unidos. O resultado, entretanto, é bastante satisfatório. O grande mérito do filme está na eficiente montagem que combina de forma dinâmica e didática cenas de dezenas de filmes com vários depoimentos de realizadores e especialistas. Dos clássicos da Universal até produções recentes como “O Albergue”, o panorama oferecido por Monument é amplo e esclarecedor. O texto de narração capta perfeitamente o espírito da obra, focalizando vários conflitos e contradições da sociedade dos EUA e os refletindo dentro da rica filmografia presente no documentário. Monument conseguiu elaborar uma obra que pode despertar tanto o interesse dos neófitos em conhecer várias das preciosidades cinematográficas presentes no filme quanto dos iniciados que se divertirão com esclarecedoras declarações de mestres como George Romero e John Carpenter.

quinta-feira, agosto 19, 2010

Monster Camp, de Cullen Hoback **1/2


O documentário “Monster Camp” (2007) não apresenta maiores arroubos criativos em sua concepção formal. Mesmo assim, acaba sendo um programa curioso ao retratar o mundo de nerds fãs de RPG de fantasia que decidem transpor para um jogo “em carne e osso” todo o universo de fadas, elfos, trolls, magos e afins que tanto veneram. O diretor Cullen Hoback consegue retratar com certa sensibilidade não apenas a forma com que tais jogos se organizam, mas também o panorama humano do pessoal que se dispõe a participar dessas atividades excêntricas. Indiretamente, acaba mostrando na tela um lado deprimente e monótono de uma juventude desajustada e imatura que se afunda em um processo de auto-alienação. Se há momentos cômicos em “Monster Camp”, também há outras seqüências que chamam a atenção justamente ao mostrar uma realidade sem muitas perspectivas culturais para esses jovens. De certa forma, essa combinação entre o irônico e a seriedade é perturbadora e ajuda a captar com bastante fidelidade o espírito de uma época.

quarta-feira, agosto 18, 2010

Starcrash, de Luigi Cozzi *


Dando continuidade ao ciclo de palestras do diretor italiano Luigi Cozzi para o FANTASPOA, a exibição de “Starcrash” (1978), aliada aos comentários de Cozzi, foi mais uma preciosa oportunidade de se conhecer com detalhes a gênese de uma legítima tranqueira cinematográfica. Feita na esteira do sucesso de “Star Wars”, “Starcrash” passa bem longe do cuidado formal da obra original de Lucas (até porque a diferença em termos de recursos das duas produções é abissal). Há no filme de Cozzi uma certa tendência para a comédia, mas a verdade é que boa parte dos grandes momentos humorísticos aparece de forma involuntária devido à precariedade de sua realização. As informações prestadas pelo cineasta na sua exposição realçam ainda mais uma certa aura mítica em torno de “Starcrash” e de nostalgia de uma época em que bobagens divertidas como essa apareceriam nos nossos cinemas e locadoras com uma frequência bem mais constante.

terça-feira, agosto 17, 2010

Uma Noite na Cidade, de Jan Balej ***


Dentro do gênero de animações stop-motion, “Uma Noite na Cidade” (2007) pode não trazer grandes inovações formais ou se destacar pela sua beleza das suas imagens. A força dessa produção tcheca está nas altas doses de esquisitices visual e temática que saltam das telas. O filme apresenta em alguns momentos uma certa propensão para um leve escatologismo, assim como em outras seqüências apresenta um caráter surreal de encanto perturbador, principalmente quando entram em cena personagens insólitos como um peixe humanóide e um homem tronco. O aspecto onírico do filme fica ainda mais acentuado pelos diálogos em forma de grunhidos e pelo humor de algumas cenas que oscila entre o ingênuo e o perverso. Ao contrário das animações familiares da Pixar ou da Disney, “Uma Noite na Cidade” está muito mais para uma estranha viagem por alguns recônditos obscuros da mente humana do que uma celebração de valores sociais edificantes.

segunda-feira, agosto 16, 2010

As Aventuras do Incrível Hércules, de Luigi Cozzi 1/2 (meia estrela)


Tenho uma certa antipatia com a mítica que envolve os filmes trash. Não porque não gosto dos filmes, mas sim porque o termo costuma ser usado de maneira desinformada e reducionista. É frequente que se leia ou ouça associações indiscriminadas, em que um filme, por pertencer a um gênero específico como horror ou exploitation, é rotulado equivocadamente como trash. Assim, diretores que revelam uma linguagem estética diferenciada como José Mojica Marins ou Russ Meyer acabam caindo em uma vala comum como realizadores de produções ruins em termos formais devido a uma concepção distorcida e preconceituosa de ver o cinema.

A sessão promovida na sexta edição do FANTASPOA, em 06/07/2010, com o filme “As Aventuras do Incrível Hércules” (1985), conseguiu ser tremendamente didática em relação à questão dos filmes trash. Primeiro porque a obra em questão é uma legítima representante dessa linhagem de produções toscas. Efeitos especiais risíveis, narrativa pouco fluente e um roteiro sem pé nem cabeça formam um todo desastrado em termos formais, mas repleto de momentos divertidos (ainda que de forma involuntária). O complemento perfeito para esse exemplar trash esteve nas declarações dadas pelo próprio autor da obra, o simpático senhor italiano Luigi Cozzi, após a exibição do filme. O cineasta contou, com riqueza de detalhes, como nasce um legítimo trash. São situações que mereciam ser roteirizadas e transformadas em um filme: Cozzi, após o sucesso do primeiro Hércules (1983, e também com Lou Ferrigno no papel-título), estava fazendo um outro filme de natureza mitológica e fantástica com Ferrigno, sendo que após os produtores assistirem às primeiras cenas, os mesmos exigiram que Cozzi mudasse totalmente o roteiro e fizesse uma nova produção de Hércules, aproveitando as cenas que já havia filmado e sem que Ferrigno soubesse das “pequenas” alterações na trama. Desse jeito, não é surpresa que o resultado fosse tão precário...

sexta-feira, agosto 13, 2010

From Inside, de John Bergin **1/2


Baseado na graphic novel de mesmo nome (e que também havia sido escrita e ilustrada pelo próprio diretor John Bergin), “From Inside” (2008) justamente dá a impressão de se estar vendo um grande álbum de quadrinhos em movimento. O traço de Bergin absorve técnicas de pintura, com o filme apresentando um belo visual sombrio que dá o tom adequado para o tom pós-apocalíptico e pessimista da trama. As imagens impactantes de algumas seqüências aliadas à trilha sonora opressiva impressionam pelo efeito sensorial que causam. O que funciona como um fator diferencial positivo para a animação, entretanto, acaba apresentando também os pontos fracos de “From Inside”. A fluência da animação é truncada, quase estática, como se uma câmera simplesmente registrasse as páginas de um gibi, o que, por vezes, deixa o filme enfadonho, ainda mais com a presença constante de uma narradora onipresente com a sua voz monótona e texto repetitivo no seu pendor para a desesperança.

quinta-feira, agosto 12, 2010

Luzes na Escuridão, de Aki Kaurisäki ***1/2


Enquanto seu irmão Mika tem se dedicado a registrar em imagens a beleza exuberante de parte do cancioneiro brasileiro em documentários como “Moro no Brasil” (2002) e “Brasileirinho” (2005), Aki Kaurismäki mantém a sua estética gélida e rigorosa em “Luzes na Escuridão” (2006). A edição sóbria que encadeia tranqüilamente uma série de planos quase estáticos (mas sempre muito expressivos) é coerente com a própria abordagem emocional contida que o diretor impõe para os seus personagens. Esse tipo de caracterização, ainda que a trama descambe para uma sucessão de fatos melancólicos e/ou trágicos, traz uma certa carga de ironia, ainda que insólita. Mesmo com esse quase riso que se esboça em algumas seqüências, porém, Kaurismäki não oferece concessões no controlado formalismo de seu filme e nem oferece saídas fáceis para o seu protagonista, um pobre diabo meio matuto com frágeis sonhos de ascensão social que acaba envolvido em uma sórdida trama de roubo. Por mais que seja perturbadora a deprimente conclusão da trajetória do personagem, a mesma está em perfeita sintonia com o sentido da obra no todo.

quarta-feira, agosto 11, 2010

Toy Story 3, de Lee Unkrich ***1/2



Tem uma coisa que tenho lido/ouvido com uma certa freqüência e que considero um tremendo exagero: com a terceira parte recém-lançada, “Toy Story” se firma como a melhor trilogia cinematográfica já realizada. Não que essa nova seqüência seja um mau filme. Muito pelo contrário, até! Mas francamente: existem outras tríades de filmes bem melhores. Só numa primeira pensada, já se saca da mente obras fundamentais como a série do “Poderoso Chefão”, as produções de “spaghetti western” da parceria Sergio Leone e Clint Eastwood e a trilogia clássica de “Star Wars”. Por outro lado, mesmo a Pixar já fez coisa até superiores à linha “Toy Story” como “Os Incríveis” (2004), “Ratatouille” (2007) e “Wall-E” (2008).

“Toy Story 3” (2010) mantém o nível de qualidade das produções da Pixar. Nessa altura do campeonato, falar da beleza do traço de uma animação “pixariana” é chover no molhado (e até porque os filmes de outras produtoras do gênero que apareceram nos últimos anos também têm apresentado esse alto padrão gráfico). O que diferencia “Toy Story 3” (e, por consequência, outras obras da Pixar) é a eficiente dinâmica de sua narrativa, bem como um roteiro bem amarrado, o que garante o interesse não apenas do público infantil, como do adulto também. Nesse novo capítulo da saga dos brinquedos, inclusive, há até avanços nesses aspectos. Trama e ambiência adquirem um certo tom melancólico e sombrio que não eram tão evidentes nas partes anteriores. Toda a seqüência no lixão, por exemplo, é antológica pelas altas doses de ação e tensão nas cenas (assustam, efetivamente, não apenas as crianças mais inocentes).

Mesmo pecando por um certo excesso no sentimentalismo (o que é até acaba sendo natural pelo tema abordado do fim da infância), “Toy Story 3” se mostra como uma animação acima da média da grande maioria dos filmes pipocas da temporada 2010, mas mesmo assim longe de ser essa obra-prima que estão pintando por aí.

terça-feira, agosto 10, 2010

O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus, de Terry Gillian ***1/2


Este produção de 2009 não representa alguma ruptura ou novidade na cinematografia de Terry Gillian. Ela até ganhou uma projeção maior devido ao fato de ser o último trabalho (incompleto) do ator Heath Ledger (em interpretação, por sinal, notável pela ambiguidade de sua composição dramática). A solução encontrada por Gillian para preencher as cenas com o personagem de Ledger que não puderam ser concluídas pelo mesmo soa um pouco forçada: usar outros três atores para atuar no mesmo papel, com o pretexto de que em tais momentos a trama estaria se desenrolando em universos paralelos e mágicos. No final das contas, o truque pode ser barato, mas tem um certo encanto pelo aspecto típico de solução improvisada de filmes B.

Reduzir a importância de “O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus” a eventos como os acima descritos, entretanto, é um equívoco. Mesmo não estando no topo das produções mais significativas dirigidas por Gillian, a obra mostra o domínio excepcional do cineasta em lidar com o cinema de fantasia. A forma com que a realidade e os mundos mágicos frequentados por Parnassus e seus discípulos é fascinante pela forma estranhamente coesa com que interagem. Além disso, direção de arte e trucagens oferecem em algumas seqüências um visual deslumbrante, misturando com criatividade cenários digitais e efeitos tradicionais. Gillian também não se esqueceu daquele seu velho toque de perversidade e ironia na caracterização de situações e personagens, tão caro ao diretor desde os seus tempos de integrante de Monty Python.

segunda-feira, agosto 09, 2010

Quincas Berro D'Água, de Sérgio Machado ***


Adaptação cinematográfica de uma das obras literárias mais estimadas de Jorge Amado, “Quincas Berro D’Água” (2010) cai em algumas facilidades narrativas, principalmente pelo fato de buscar uma linguagem acessível para o grande público. Apesar disso, o filme preserva um certo frescor e inquietação criativa ao mostrar uma visão bem humorada e ácida sobre as convenções pequeno-burguesas. A direção de arte se mostra em sintonia com as intenções do diretor Sérgio Machado, principalmente na caracterização visual de personagens e ambientes. O bando de amigos bêbados e marginalizados do personagem título também é um pequeno achado: sujos, maliciosos e irreverentes, dão uma forte dimensão humana para a produção, principalmente pela crueza de seus modos e sentimentos. Machado obtém também uma interessante síntese entre realismo e misticismo na trama, com esses dois pólos se mostrando coesos quase que de forma intrínseca.

sexta-feira, agosto 06, 2010

Olhos Azuis, de José Joffily *1/2


Essa produção conjunta entre Brasil e Estados Unidos usa e abusa de uma estética crua com a intenção, provavelmente, de tornar mais verossímil e contundente a temática do seu roteiro que envolve questões atuais e complexas como a imigração ilegal e o preconceito racial. O diretor José Joffily utiliza recursos de cinema documental em busca de uma encenação mais realista, mas os enquadramentos trepidantes e a luz estourada em várias cenas acabam mais enchendo a paciência do espectador do que impactando o mesmo. Essa opção por uma estética crua se mostra uma fórmula criativa estéril e que não rende sequer alguma seqüência memorável. O que poderia talvez salvar “Olhos Azuis” (2009) seria um roteiro consistente, mas até isso acaba falhando no filme. A estruturação da trama é engessada dentro de um desgastado padrão de jogo entre passado e presente que se desenrolam simultaneamente que pouco acrescenta, pois se a opção fosse narrar o mesmo sem essas idas e vindas de tempo o nível de previsibilidade da trama seria o mesmo (ou quem sabe até menor...). Por fim, os diálogos insistem em tons discursivos que matam qualquer noção de sutileza de subtexto.

quinta-feira, agosto 05, 2010

Kick-Ass - Quebrando Tudo, de Matthew ****


Há algumas diferenças entre a versão original para os quadrinhos de “Kick-Ass” e a sua adaptação cinematográfica lançada em 2010. No gibi, a abordagem é mais realista e crua, além da violência ter uma dose bem maior de brutalidade e sangue. Já a transposição para as telas é um pouco mais fantasiosa, com direito, inclusive, a pequenos toques de comédia romântica (ainda que de forma irônica) e final feliz, além da violência ser mais atenuada (mesmo assim, num padrão de explicitude acima da média do que se encontra no cinema atual). Apesar desses detalhes, entretanto, a produção dirigida por Matthew Vaughn mantém a essência da obra de Mark Millar e John Romita Jr. ao explorar habilmente a já manjada indagação “o que aconteceria se existissem super-heróis na atualidade”, com direito a uma série de referência hilárias ao universo nerd dos fãs de quadrinhos e da cultura pop em geral. “Kick-Ass – Quebrando Tudo” também adapta de forma brilhante a ação dos quadrinhos para o formato cinema (coisa, por exemplo, que a versão fílmica de “Watchmen” fracassou com retumbância). Vaughn dirige brilhantemente as seqüências de pancadaria e tiroteios sem apelar para câmeras lentas quase estáticas dos Zach Snyders da vida, a um ponto que qualquer cena que mostra a Hit Girl em ação é antológica na sua carga de adrenalina e humor. E a edição é outro ponto alto de “Kick-Ass”: mesmo com um ritmo frenético na ação e com uma trilha sonora alucinada movida a rock e eletrônica, Vaughan não picota a montagem em estilo video clip, optando por um estilo clássico no encadeamento das cenas e tendo um resultado final mais que contundente.

quarta-feira, agosto 04, 2010

Caro Francis, de Nelson Hoineff **1/2


As minhas expectativas para o documentário “Caro Francis” (2009) eram altas. Para começar, há anos eu era leitor assíduo da coluna “Diário da Corte”, escrita pelo protagonista do filme, jornalista Paulo Francis, além de assistir às suas hilárias intervenções no programa “Manhattan Connection”. A força de Francis não estava exatamente nos pontos de vista que defendia (bastante discutíveis em várias oportunidades), mas sim na sagacidade de seus argumentos e na tremenda bagagem cultural que demonstrava nas suas fundamentações. Ler ou ouvir Paulo Francis abria os horizontes para descobrir livros, filmes, peças, ideias e afins. Ou seja, o cara era um grande catalisador cultural. Por outro lado, “Caro Francis” parecia promissor pelo fato do seu realizador, Nelson Hoineff, ser o responsável pelo impactante “Alô Alô Terezinha” (2009), um retrato cru e irônico do apresentador Chacrinha. O resultado final de “Caro Francis”, entretanto, é decepcionante. É claro que há vários registros de arquivos interessantes com Francis dando sua particular visão de mundo, assim como se mostrando um tremendo showman, o que por si só já valeria assistia à produção. O problema do filme é que não há uma exposição de contradições e uma abordagem mais isenta como havia em “Alô Alô Terezinha”. O que vemos é uma obra quase de louvação à figura de Francis e que se atém várias vezes em depoimentos insossos, monótonos ou tendenciosos que tiram muito da fluência narrativa de “Caro Francis”. Chega-se ao cúmulo, por exemplo, de se gastar vários minutos na figura de uma falecida gatinha que Francis gostava muito, com a viúva dele lendo uma longa carta descrevendo a agonia do bichano. E em episódios como o conflito final entre o biografado e a Petrobrás, sente-se muito mais uma vontade em defender Francis do que mostrar realmente o que ocorreu naquela situação.

Mesmo com todas essas restrições, todavia, “Caro Francis” é uma obra imperdível como documento histórico no sentido de mostrar uma série de fatos e personagens que foram decisivos na formação cultural do Brasil nessas últimas décadas. De certa forma, os defeitos do filme não deixam de ser esclarecedores no sentido de refletirem conflitos tanto artísticos quanto ideológicos que são inerentes no nosso panorama político e intelectual.

terça-feira, agosto 03, 2010

O Golpista do Ano, de Glen Ficarra e John Requa **1/2


Em um primeiro momento, “O Golpista do Ano” (2009) chega a ser uma produção surpreendente pelo fato de propor uma abordagem sem concessões da questão do homossexualismo, ainda mais por se tratar de uma produção que traz como protagonistas nomes de grande prestígio comercial como Jim Carrey e Ewan McGregor. Ambos, inclusive, desempenham sem aparentes constrangimentos cenas explícitas de amor gay. Tirando esse aspecto comportamental, entretanto, “O Golpista do Ano” acaba se mostrando frustrante por não conseguir delimitar com precisão as fronteiras do drama e do humor. Situações que precisariam de uma visão mais profunda pelos aspectos complexos e insólitos que levantam acabam recebendo um tratamento excessivamente superficial. A narrativa convencional dos realizadores Glen Ficarra e John Requa também acentua esse sensação de uma obra rasa. E se Jim Carrey já havia demonstrado um considerável talento em papéis mais dramáticos em filmes como “O Mundo de Andy” (1999) e “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança” (2004), em “O Golpista do Ano” ele acaba comprometendo algumas cenas por apostar em um tom caricatural. No meio desses equívocos, acaba se destacando positivamente Ewan McGregor por apresentar um interessante equilíbrio dramático ao interpretar um gay frágil de forma discreta e sem cair em afetações.

segunda-feira, agosto 02, 2010

Esquadrão Classe A, de Joe Carnahan ***


Além de homenagear/revisitar o seriado televisivo epônimo dos anos 80, “Esquadrão Classe A” também evoca o gênero ação característico da mesma década, mas com um visual puxando mais para o sombrio e o sujo (não chegando a atingir, entretanto, o mesmo apuro visual da sensacional revisão cinematográfica de Michael Mann para “Miami Vice”). Assim, menos cômico e mais violento que o seriado original, o filme apresenta uma propensão para aquela ação vertiginosa e truculenta de franquias como “Duro de Matar” ou “Predador”, chegando às raias do absurdo como na seqüência em que os protagonistas saltam de um avião dentro de um tanque de guerra ou nas cenas em que um enorme cais de porto é devastado. Joe Carnahan pode não ter a mesma classe de um John McTierman (um dos papas das produções oitentistas de ação), mas oferece uma produção bem movimentada e divertida.

sexta-feira, julho 30, 2010

Solino, de Fatih Akin **1/2


Assim como em outras obras de Fatih Akin, “Solino” (2002) tem como protagonistas imigrantes que vivem na Alemanha. No filme em questão, Akin retrata a trajetória de uma família de italianos que procura a estabilidade financeira em terras germânicas. O diretor encena uma série de pequenos dramas familiares e amorosos com um certo vigor, além de mostrar uma direção de arte bem cuidada que valoriza aspectos históricos que servem como pano de fundo para a trama principal. Há também algumas boas seqüências com a dupla de irmãos Gigi e Giancarlo envolvendo drogas e festas. Mesmo com essas qualidades, entretanto, “Solino” parece ser a obra menos pessoal de Akin, com o cineasta soando preso a convenções do gênero melodrama familiar. O filme até consegue prender a atenção do expectador nas suas duas horas de duração, mas é uma experiência pouco memorável, bem distante da explosão criativa que viria dois anos depois com a obra-prima “Contra a Parede”.

quinta-feira, julho 29, 2010

Rápido e Indolor, de Fatih Akin ***


É provável que aqueles que se impressionaram com alguns dos melhores filmes do diretor alemão Fatih Akin, como “Contra a Parede” (2004) ou “Soul Kitchen” (2009), podem ficar um pouco decepcionados com “Rápido e Indolor” (1998), a obra de estréia do cineasta. Não há a mesma linguagem formal dinâmica e apurada das obras mais recentes e notórias de Akin. Optou-se por um drama policial dramático de gangsteres, com boa parte dos clichês narrativos e estéticos comuns no gênero – aparece, inclusive, um manjado conflito entre dois amigos, um que enveredou de vez para o crime e outro que quer escapar da marginalidade, que se apaixonam pela mesma mulher. Mesmo diante dessas possíveis armadilhas, entretanto, Akin oferece uma obra vigorosa e tensa e que prenuncia algumas boas soluções temáticas e estilísticas que depois seriam melhores exploradas em suas produções posteriores, tanto na caracterização dos personagens carismáticos quanto em detalhes como a utilização de canções na montagem e a concepção visual das cenas de violência.

quarta-feira, julho 28, 2010

Tudo Pode Dar Certo, de Woody Allen ***


Dizer que Woody Allen é repetitivo em seus filmes é impreciso. Como cineasta de forte tom autoral, é natural que certos recursos temáticos e estéticos sejam recorrentes em sua obra. Suas produções são reflexos de suas obsessões, e, por conseqüência, ideias narrativas e visões pessoais são retrabalhadas de forma constante em sua filmografia. “Tudo Pode Dar Certo” (2009), filme recente de Allen, tem ótimos momentos cômicos e flui com consistência, mas é decepcionante não pela questão da repetição, mas por soar preguiçoso. Allen parece reciclar várias soluções já utilizadas anteriormente, mas sem a mesma eficácia e impacto, dando uma certa impressão de falta do que dizer. Seu texto, mesmo que afiado em alguns trechos, chegar a soar quase ingênuo ao querer expressar explicitamente a sua filosofia pessoal. Nesse sentido, isso é frustrante quando se pensa em obras anteriores extraordinárias como “Match Point” (2005) e “O Sonho de Cassandra” (2007), que traziam uma série de observações críticas e ácidas de Allen sobre os vícios e hipocrisias da sociedade, mas em um formato sutil de subtexto inserido em tramas clássicas de suspense.

terça-feira, julho 27, 2010

O Preço da Traição, de Atom Egoyan ***


Essa refilmagem do original francês “Nathalie X” (2003) consegue ser superior à própria obra da qual derivou (que, na realidade, não era grande coisa mesmo). O cineasta egípcio-canadense Atom Egoyan conseguiu inserir algumas das suas obsessões temáticas e estéticas na produção, ainda que a mesma não tenha a mesma forte carga autoral de outros filmes do diretor como “Exótica” (1994), “O Doce Amanhã” (1997), “Ararat” (2002) ou “A Verdade Nua e Crua” (2005). Nos seus dois terços iniciais, “O Preço da Traição” (2009) apresenta um constante clima de ambigüidade e incertezas. Egoyan trabalha com habilidade entre os limites da realidade e da fantasia, deixando o expectador sempre na inquietante de dúvida sobre a veracidade do que está na tela. Boa parte do que se assiste vem muito mais das imagens sugeridas na mente da protagonista Catherine (Julianne Moore) do que de fatos concretos. As seqüências de conclusão de “O Preço da Traição”, entretanto, são frustrantes no sentido de que a trama se converte em um convencional e pouco inspirado suspense envolvendo uma psicopata e afins.

segunda-feira, julho 26, 2010

O Escritor Fantasma, de Roman Polanski ****



Há uma espécie de sub-gênero no cinema contemporâneos representada por aqueles thrillers de suspense que têm como base temática para as suas tramas um teor político envolvendo conspirações e demais jogos sujos de determinados órgãos do governo ou de grandes conspirações. Nesse contexto, há sempre o protagonista que resolve enfrentar os poderosos e desmascarar os podres dos mesmos. Os roteiros dessas produções, geralmente, vinculam-se a fatos reais da conjuntura mundial, o que lhes dá uma aura de seriedade. No final das contas, entretanto, esse modus operandi de usar matérias de relevância para a sociedade não implica em ousadias no plano formal, o que faz com que boa parte de tais filmes sejam apenas obras de suspense que transitam entre o medíocre e competente.

Dentro do panorama acima descrito, a obra mais recente de Roman Polanski, “O Escritor Fantasma” (2010), traz uma trama que não foge muito do que foi exposto. O grande trunfo da produção está muito mais na engenhosidade dos truques narrativos e estéticos que Polanski se utiliza para adornar um roteiro repleto de clichês. A atmosfera do filme é fria, distante e irônica, transformando o seu argumento em farsa. A fotografia sóbria e a montagem elegante ajudam a compor um todo sedutor e mesmo surpreendente. Polanski coroa a grandeza do filme emulando uma ambiência quase gótica em algumas seqüências, lembrando o melhor do cinema de Hitchcock.

sexta-feira, julho 23, 2010

A Alma do Osso, de Cao Guimarães ***


No documentário brasileiro “A Alma do Osso” (2004), o diretor Cão Guimarães, ao focar o quotidiano do ermitão Dominguinhos no interior de Minas Gerais, mostra-se mais interessado em fazer uma viagem sensorial em relação ao ambiente do seu protagonista do que em contar a história do mesmo. Em boa parte de sua metragem, o filme retrata algumas atividades corriqueiras do dia-a-dia de Dominguinhos e oferece registros granulados da paisagem rústica que cerca o ermitão. Quando a palavra é dada a Dominguinhos, a sua fala delirante e de uma filosofia bruta torna ainda mais nebulosa a aura misteriosa que o cerca. Cao Guimarães não procura o choque gratuito, mas o retrato que oferece é desconcertante no momento em que a caracterização daquele ambiente parece formar um universo paralelo ao nosso, em que os sinais da civilização só se fazem presentes quando se vislumbra na caverna onde vive Dominguinhos restos da sociedade de consumo que o ermitão adapta e reutiliza dentro da sua particular rotina. Ao mesmo tempo, Guimarães deixa o espectador na dúvida: será o ermitão em questão alguém rejeitado pela sociedade ou alguém que se excluiu por vontade própria? Esse questionamento torna ainda mais perturbador “A Alma do Osso”.

quinta-feira, julho 22, 2010

A Porta, de Anno Saul ***


Li uma definição sobre “A Porta” (2009), vinda de um comentário do site "Viver e Morrer no Cinema", que achei muito apropriada para essa produção alemã: parece um episódio da série televisiva “Além da Imaginação” em formato de longa-metragem. A trama de ficção científica tem um teor quase nostálgico, com o diretor Anno Saul usando efeitos especiais de forma econômica. A ambiência de fantasia não vem, dessa forma, pelo aspecto visual, mas sim pelo roteiro e da tensão daí oriunda. Os temas de viagens no tempo e conflitos familiares acabam se combinando de forma natural. Talvez se “A Porta” tivesse a duração de um episódio o seu impacto seria ainda maior. O fato de ter mais de uma hora e meia de metragem, entretanto, faz com que as suas boas idéias temáticas e soluções narrativas acabem se diluindo, principalmente no terço final, que soa muito apressado e abrupto.

quarta-feira, julho 21, 2010

Robin Hood, de Ridley Scott ***


Esta versão de 2010 para “Robin Hood” apresenta algumas tendências bastante utilizadas nos últimos anos. Em primeiro lugar, busca uma abordagem pretensamente naturalista, enfatizando personagens e cenários repletos de barro e sangue, além de ter uma fotografia bastante sombria, mesmo quando em campos abertos. O roteiro busca retratar as origens “reais” da lenda de Robin Hood e seus companheiros, mostrando fatos que ocorreram antes daqueles episódios celebrizados em outras adaptações cinematográficas. Todo esse conjunto de elementos estéticos parece buscar uma espécie de legitimidade e seriedade em termos históricos para o filme, além de uma visão mais aprofundada sobre o mito. No final das contas, entretanto, o que se tem é mais uma história maniqueísta de luta do bem contra o mal. Não que isso seja um defeito, desde que possamos ser recompensados com boas seqüências de tensão e aventura. “Robin Hood” até traz alguns momentos empolgantes em termos de ação, mas o saldo final no geral é o de uma produção apenas competente, o que acaba sendo frustrante, pois sempre se espera mais de um diretor como Ridley Scott, cineasta que já criou obras extraordinárias como “Os Duelistas” (1977), “Alien, O Oitavo Passageiro” (1979), “Blade Runner” (1983), “Falcão Negro em Perigo” (2001) e “O Gangster” (2007).

terça-feira, julho 20, 2010

Fúria de Titãs, de Louis Leterrier ***


Muitos dizem que essa refilmagem de 2010 do original “Fúria de Titãs” de 1981 é uma heresia. Na minha opinião, há um pouco de exagero em tal afirmação. Em primeiro lugar porque a primeira versão não chega a ser uma obra-prima irretocável e inatacável. Trata-se de um filme muito divertido e com expressivas trucagens a base de stop motion, mas longe do status de clássico cinematográfico. Essa revisão da obra original tem lá os seus defeitos, mas em seus melhores momentos traz algumas das mais impactantes seqüências de aventura da temporada pipoca de 2010. Talvez as atuações canastronas e preguiçosas de Liam Neeson e Ralph Fiennes possam angariar antipatias. E ter um protagonista vivido por alguém tão inexpressivo quanto Sam Whortington é um convite forte para o desastre. Com um elenco comprometedor desses, os 15 minutos iniciais de “Fúria de Titãs”, focado excessivamente em diálogos e “relações humanas”, são aborrecidos e intermináveis. Quando o filme parte para a ação propriamente dita, entretanto, a coisa muda totalmente de figura. Os efeitos digitais são bem eficientes e distantes de fazer a produção parecer um grande vídeo game. As cenas de lutas e perseguições são empolgantes e a concepção visual dos inúmeros monstros que desfilam pela tela é bela e ao mesmo tempo aterradora, com destaque absoluto para as cenas em que o Kraken irrompe na tela.

segunda-feira, julho 19, 2010

Só Dez Por Cento é Mentira, de Pedro Cezar ***1/2


Confesso que antes de assistir à “Só Dez Por Cento É Mentira” (2008) eu não tinha conhecimento prévio sobre a obra de Manoel De Barros, poeta biografado no filme em questão. Não sei se depois de ver o filme vou realmente ler algum livro dele, mas essa produção que focaliza sua vida e arte é um espetáculo cinematográfico muito bem resolvido. O diretor Pedro Cezar não se preocupou em fazer apenas um levantamento burocrático de fatos sobre a vida do escritor. Ao invés disso, preferiu expor as fontes de inspiração de Manoel De Barros, extraindo dele confissões e explicações bem humoradas, além de conversar com algumas pessoas que seriam suas influências. Há seqüências também em que Cezar procurou traduzir em imagens os insólitos jogos de palavras e simbolismos da lírica de Barros, com manchas em muros e paredes, derivadas do decorrer do tempo, que se transformam, através de simples trucagens, em figuras surpreendentes. Talvez alguns depoimentos de atrizes/cantoras fãs do poeta possam incomodar pela afetação, mas isso sempre é compensado por comentários espirituosos de outros admiradores de De Barros (principalmente nos momentos que mostram um Fausto Wolff bêbado divagando sobre o homem em questão).

segunda-feira, julho 12, 2010

Antes Que O Mundo Acabe, de Ana Luiza Azevedo **


Há uma sequência em “Antes Que O Mundo Acabe” (2009) que é sintomática do espírito da obra: o garoto Daniel (Pedro Tergolina), após levar um fora da namorada e descobrir que foi trocado pelo melhor amigo, toma um porre com alguns conhecidos e quando chega casa vomita na privada. Só que ele somente faz o barulho de estar vomitando, não saindo de sua boca qualquer traço do vômito, enquanto que na privada não há mancha ou sinal do mesmo. Esse tom de assepsia é predominante nessa produção gaúcha dirigida por Ana Luiza Azevedo. A pretensão era faz uma espécie de retrato da adolescência moderna, mas o desejo de buscar uma abordagem light acabou tirando muito da visceralidade que um filme como esse exigiria. Há uma densidade dramática rala, acentuada pela narração infantil da irmã do protagonista, em falas recheadas de “espertezas”. No mais, o que resta de relevante é uma fotografia agradável no registro luminoso de paisagens interioranas e rurais.

terça-feira, julho 06, 2010

Um Segredo em Família, de Claude Miller ***


Pode-se reclamar que dentro daquele padrão de dramas familiares judeus que se passam na 2ª Guerra Mundial “Um Segredo em Família” (2007) seja uma produção convencional que não apresente maiores novidades. É inegável, entretanto, que o cineasta Claude Miller manipula com eficiência os clichês narrativos, além de conduzir uma trama recheada de tragédias e intempéries sem cair no sentimentalismo excessivo. A forma com que passado e presente se intercalam revela um bem cuidado trabalho de edição. De se destacar também as atuações do elenco em geral, todos em interpretações milimetricamente contidas que captam com sensibilidade a atmosfera de segredos e sentimentos reprimidos que permeiam todo o filme.

segunda-feira, julho 05, 2010

Homem de Ferro 2, Jon Favreau ***


Mesmo estando bem longe de ser uma obra-prima, “Homem de Ferro 2” (2010) atinge uma meta rara de se obter em se tratando de adaptações cinematográficas de HQs: preservar a essência de personagens e situações originais dos quadrinhos e manter um nível de objetividade que permita que mesmo aqueles que não conheçam o gibi tenham interesse pelo filme. Nessa continuação, o diretor Jon Favreau não atinge o mesmo impacto da primeira parte (de 2008), mas mesmo assim tem uma padrão de qualidade acima da média em relação à boa parte dos filmes pipocas desse ano. O roteiro traz vários elementos interessantes dos argumentos dos “comics” (mesmo que simplifique alguns conflitos), enquanto as cenas de ação são eficientes na forma em que incorporam os efeitos digitais. Além disso, Robert Downey Jr. é mais um trunfo da produção ao repetir os mesmos trejeitos carismáticos na pele do protagonista. Se os filmes de Thor, Capitão América e Vingadores conseguirem, no mínimo, trazer as qualidades da franquia do Homem de Ferro, pode-se dizer que o futuro cinematográfico para os heróis da Marvel se mostra promissor.

quinta-feira, julho 01, 2010

Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton **


Devo confessar que as minhas expectativas para “Alice no País das Maravilhas” (2010) eram bem altas. Depois de obras pouco inspiradas (“Peixe Grande”, “A Noiva Cadáver”, “A Fantástica Fábrica de Chocolate”) que faziam supor que estava em declínio criativo, Tim Burton surpreendeu a todos com “Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” (2007), um extraordinário misto de musical e horror sem concessões que trazia direção de arte e atmosfera góticas impressionantes. Diante de uma obra como essa, o que esperar da visão de Burton sobre uma história tão delirante como a de “Alice...” (ainda mais se relembrarmos a antológica adaptação animada da Disney de 1951)? Ocorre que “Alice no País das Maravilhas” não está apenas abaixo do que se esperava, como também se trata do pior filme disparado da carreira de Burton. E isso ocorre simplesmente pelo fato de que é a sua obra menos pessoal e mais burocrática. O que poderia haver de difuso e misterioso na trama clássica é diluído em um filmezinho de aventura qualquer nota que mais lembra produções família como “Crônicas de Nârnia” do que Lewis Carroll. Mesmo aquilo que poderia ser um fator Burton de diferencial como direção de arte e efeitos acaba não impactando – tudo é tão genérico que se não soubéssemos previamente que “Alice...” se trata de um filme de Burton, passaria batido como fosse outra produção comum do gênero.

quarta-feira, junho 30, 2010

Vidas Que Se Cruzam, de Guillermo Arriaga **

O que de início parecia um estilo vigoroso e original acabou se tornando um exercício narrativo formulaico e frouxo. É o que vem a mente quando se pensa na trajetória artística de Guillermo Arriaga, ainda mais depois de assistir a esse “Vidas Que Se Cruzam” (2008). O truque de narrar histórias paralelas, de difícil conexão aparente, que se entrecruzam e adquirem um sentido único surgiu de forma explosiva em “Amores Brutos” (2000), dirigido por Alejandro González Iñárritu. As produções seguintes da parceria Inárritu/Arriaga, entretanto, não causaram o mesmo impacto: “21 Gramas” (2003) e “Babel” (2006) aparentaram uma excessiva diluição no padrão formal e temático. Arriaga voltou a acertar a mão no ótimo “Três Enterros” (2005), mas a verdade é que os méritos do filme se concentram muito mais na direção segura de Tommy Lee Jones do que propriamente no roteiro. Assim, “Vidas Que Se Cruzam”, a estreia de Arriaga na direção, poderia marcar alguma renovação, mas não é o que acontece. A condução da narrativa é arrastada e pouco fluente e a trama arquitetada por Arriaga traz manjados dilemas já explorados anteriormente. De certa forma, é até irritante ver algumas tiradas moralistas disfarçadas de crises existenciais. Ou o que se pode achar da caracterização sórdida de uma personagem que faz sexo casual com frequência porque teve alguns graves traumas infantis?

terça-feira, junho 29, 2010

Não Minha Filha, Você Não Irá Dançar, de Christophe Honoré ***1/2


Mesmo não apresentando aquela linguagem cinematográfica mais ousada de obras como “Em Paris” (2006) e “Canções de Amor” (2007), Christophe Honoré volta a demonstrar inquietações criativas em “Não Minha Filha, Você Não Irá Dançar” (2009). A narrativa nessa produção mais recente pende para o linear, mas essa opção não implica necessariamente em acomodação. Há indícios de fragmentação no roteiro, indo de uma narração em off que beira o literário até flashbacks que irrompem sem o menor aviso. Diálogos e situações se sucedem de forma casual, dentro de um estilo que pressupõe um certo ar de improviso. Por fim, entretanto, tais opções estéticas se revelam não tão aleatórias, mostrando-se em sintonia com a trama do filme. A desagregação psíquica da protagonista Lena (Chiara Mastroiani) fica ainda pungente ao ser retratada pelas rigorosas e pouco óbvias escolhas formais de Honoré.

sexta-feira, junho 25, 2010

Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow ****


Na abertura de “Guerra ao Terror” (2008), a diretora Kathryn Bigelow trabalha com a ação cinematográfica da maneira mais esmiuçada: com o ritmo lento e valorizando a tensão psicológica, explora uma situação limite até chegar ao ápice da sequência da explosão de uma bomba. Nesse instante, Bigelow utiliza com precisão o recurso da câmera lenta, fazendo uma espécie de releitura/homenagem de um dos truques favoritos do mestre Sam Peckimpah. Essas cenas iniciais do filme nortearão o restante da obra, como se explicassem o suspense que está por vir.

Se nesses instantes da abertura Bigelow faz uma dissecação da ação, posteriormente ela fará com que as explosões sejam rápidas e brutais, experimentando com os limites do gênero dos filmes de guerra. O registro visual que faz da violência é ambíguo: em alguns momentos é naturalista e desglamorizado, em outros valoriza aspectos que beiram o épico e grandioso (principalmente pela extraordinária manipulação da trilha sonora). Além disso, a pretensão da cineasta na sua abordagem sobre a guerra no Iraque não é exatamente a de fazer um comentário político ou social sobre o conflito. Na realidade, sua abordagem tem uma linha mais intimista, no sentido que focaliza primordialmente a figura do Sargento James (Jeremy Renner) e a sua relação com uma realidade caótica. James vê a guerra quase como uma oportunidade de completude existencial, como se sua paz espiritual necessitasse do conflito bélico. Esse tipo de visão não chega a ser uma novidade (quem não lembra do Capitão Willard em “Apocalipse Now”?), mas Bigelow explora com louvor as possibilidades desse argumento.

quarta-feira, junho 23, 2010

Utopia e Barbárie, de Silvio Tendler ***


Os mais ranhetas podem achar que “Utopia e Barbárie” (2009) seja panfletário e esquerdista em excesso ao pretender mostrar em duas horas a história mundial dos últimos 50 anos sob uma ótica evidentemente socialista. Mas quem disse que Silvio Tendler tinha obrigação de ser imparcial? Apesar do seu documentário não esconder sua simpatia pela causa das esquerdas, o olhar do cineasta sempre pende para o humanismo. Mais que procurar um viés meramente didático e impessoal, Tendler faz um balanço de fatos e idéias marcado pela pessoalidade e emoção, dando a impressão de ter feito um correspondente cinematográfico da obra literária “A Era dos Extremos” de Eric Hobsbawn. Concentrar-se somente no aspecto temático do filme, entretanto, acabaria sendo muito reducionista. Tendler tem o inegável mérito de condensar com precisão uma gama imensa de imagens, indo de importantes registros históricos até depoimentos reveladores de figuras relevantes no campo do pensamento e da ação. Por vezes, o excesso de informações e pensamentos pode cansar o expectador, mas o que predomina é uma narrativa vigorosa e densa.

terça-feira, junho 22, 2010

Soul Kitchen, de Fatih Akin ****


Depois de obras densas em termos dramáticos como “Contra Parede” (20040) e “Do Outro Lado” (2007), o diretor alemão Fatih Akin inverte as expectativas e parte para o gênero da comédia. O que poderia soar como uma espécie de concessão comercial, entretanto, revela-se um trabalho ainda mais audacioso do cineasta.

O roteiro de “Soul Kitchen” (2009) é quase pueril nas situações, conflitos e soluções apresentados, com direito, inclusive, a um final feliz romântico. Por trás dessa aparente leveza, todavia, Akin envenena o seu filme com doses generosas de sexo, drogas e rock and roll (e funk, soul, música étnica, reggae e o que mais der na veneta). E por falar em música, a trilha sonora de “Soul Kitchen” é, praticamente, um personagem à parte. O pique alucinado e sensual das canções que predominam durante todo o filme ditam o próprio ritmo narrativo da produção, em uma mágica combinação de sons e imagens, com destaque para as seqüências de festas e danças, registradas com o devido espírito apaixonado e hedonista. E reforçando o destaque sobre a trilha sonora, vale mencionar que se tem aqui a melhor seleção cancioneira cinematográfica apresentada desde “Jackie Brown” (1997).

Os experimentos estéticos de Akin em “Soul Kitchen” são inusitados e de resultados deslumbrantes. Nunca a câmera em seus filmes foi tão dinâmica, com enquadramentos que emulam as sensações físicas e emocionais dos personagens. O fato do protagonista Zino (Adam Bousdoukos) passar boa parte do tempo com um problema na coluna, por exemplo, faz com que se veja as cenas, em alguns momentos, sob uma perspectiva “torta”. O efeito é desconcertante. Akin também incorpora influências diversas, de comédia pastelão até blackexploitation (evidentes em exagerados closes nos rostos dos personagens), condensando essas diversas referências em uma obra de coerência formal impressionante.

Junto com os franceses “Inimigo Público nº 1 – Risco de Morte” e “Entre Os Muros da Escola” (ambos de 2008), “Soul Kitchen” representa uma tendência renovadora no atual cinema europeu em apresentar obras mais estimulantes em termos estéticos e temáticos, ao invés da simples reciclagem dos padrões do cinema de bom gosto.

segunda-feira, junho 21, 2010

As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky **1/2


O que incomoda em “As Melhores Coisas do Mundo” (2010) é o tom de didatismo e deslumbramento que permeia o filme. O roteiro parece querer explicar como são os costumes e conflitos dos adolescentes classe média contemporâneos, em um olha misto de pai coruja com pesquisador do National Geographic. O resultado acaba sendo uma visão que beira a idealização, com personagens e conflitos estereotipados. Por mais que se abordem questões polêmicas (homossexualismo, preconceito, iniciação sexual com prostitutas, suicídio), a trama acaba se afunilando para uma estrutura típica de comédia romântica, principalmente por aquela velha e batida equação “garoto e garota amigos se amam, mas não percebem e depois de alguns percalços ficam juntos”. Parece até aquelas velhas produções anos 80 de John Hughes, mas sem o mesmo charme e bom humor. Não há como não destacar, entretanto, a boa dinâmica narrativa que Laíz Bodansky obtém em algumas seqüências – nesses momentos, a diretora parece estar em uma certa sintonia espiritual com a alma juvenil que pretendia retratar no seu filme.

sexta-feira, junho 18, 2010

Mary & Max, de Adam Elliot ***


A técnica de animação em stop motion em “Mary & Max” (2009) dificilmente se encaixa no padrão das mais inovadoras ou rebuscadas. Mesmo assim, ela se revela adequada e expressiva para a trama focada no filme ao trazer em si uma carga que tanto pode remeter a uma fábula quanto a um drama pesado sobre loucura e depressão. Essa mistura de gêneros pode parecer meio esquisita, mas adquire um estranho e coerente sentido com o desenrolar dos eventos. Também é desconcertante ver seres humanos de feições caricaturais e cômicas vivenciarem situações tão cruas e complexas (homossexualismo, alcoolismo, carência afetiva, solidão). É nessa contradição na utilização de recursos dramáticos e formais que reside boa parte do encanto de “Mary & Max”. Baseado em fatos reais, o roteiro não tem como buscar soluções fáceis e lições de vida para os seus personagens e isso nem se mostra necessário. Mesmo derrapando no sentimentalismo em algumas seqüências, “Mary & Max” é uma produção mais do que contundente.

quinta-feira, junho 17, 2010

A Estrada, de John Hilcoat ****


Se em “A Proposta” (2005) o diretor John Hilcoat havia recriado com brilhantismo os preceitos do gênero faroeste em pleno deserto australiano, em “A Estrada” (2010) ele oferece uma nova perspectiva para as produções futuristas apocalípticas. O filme traz boa parte daqueles elementos típicos para obras do estilo: visual dominado por ruínas e pela aridez, a luta pela sobrevivência diante a escassez de alimentos e infra-estrutura, grupos de indivíduos que se rendem à barbárie e, por fim, a busca pela esperança da reconstrução da civilização. O que diferencia “A Estrada” é a forma com que Hillcoat combina uma abordagem reflexiva, que beira o existencialismo, com um extraordinário domínio da ação cinematográfica. Os protagonistas, pai e filho (Viggo Mortensen e Kodi Smit-McPhee) que percorrem uma estrada aparentemente interminável à procura de segurança, envolvem-se em diversas situações que colocam em cheque a sua moral (e, por consequência, uma série de princípios humanistas), sem que, entretanto, Hillcoat abdique de encenar seqüências de aventura com uma crueza notável. Os dilemas éticos dos personagens atingem situações limites que geram cenas que impressionam pela tensão psicológica. Nesse sentido, o momento em que o pai castiga com crueldade perturbadora um ladrão negro que havia tentado roubar-lhe o seu material de sobrevivência é antológica pela sensação de desconforto que provoca no expectador.

No mais, a sombria fotografia em tons cinzas, a sóbria utilização de efeitos especiais e a melancólica trilha sonora composta por Nick Cave e Warren Ellis complementam com perfeição a atmosfera opressiva de “A Estrada”, obra que reflete um cinema vigoroso e sem concessões, mesmo que realizado dentro dos padrões de Hollywood.

quarta-feira, junho 16, 2010

Zona Verde, de Paul Greengrass **1/2


Na filmografia de Paul Greengrass, pode-se obrar uma certa unidade no padrão estético de suas produções. O cineasta procura manter um estilo bastante influenciado pelo cinema documental, abusando de recursos como a imagem granulada, câmera tremida, dando aquela impressão de uma atribulada filmagem de um noticiário. Dentro desse padrão formal, Greengrass até atingiu bons momentos como em “Domingo Sangrento” (2002) e “Supremacia Bourne” (2004). Essa fórmula se mostrou desgastada no enfadonho “Vôo 93” (2006), uma reconstituição árida e sem inspiração do único dos atentados terroristas que deu errado no 11 de setembro de 2001. Em “Zona Verde” (2010), o diretor continua focando episódios inspirados na realidade – no presente caso, a ocupação norte-americana no Iraque. Mesmo não sendo tão aborrecido quanto “Vôo 93”, o filme mais recente de Greengrass revela o esgotamento criativo do diretor. A trama se concentra em uma previsível teoria conspiratória, e mesmo como filme de aventura “Zona Verde” é insatisfatório: é tudo tão rápido e tremido que se tem a impressão de nunca se estar assistindo ao que interessa nas tomadas em que a ação prevalece.

terça-feira, junho 15, 2010

Os Homens Que Encaravam Cabras, de Grant Heslov ***


Depois dos apenas medianos “Syriana” (2005) e “Conduta de Risco” (2007), George Clooney continua investindo em produções com um viés pretensamente político, como atesta esse “Os Homens Que Encaravam Cabras” (2009). Assim como nas produções mencionadas, a pretensão de realizar uma contundente crítica aos mecanismos de poder dos Estados Unidos acaba esbarrando em uma abordagem superficial e em uma narrativa convencional. Mesmo assim, “Os Homens Que Encaravam Cabras” se mostra uma experiência cinematográfica bem mais satisfatória que os filmes citados, principalmente pelo seu tom irônico. O diretor Gran Heslov demonstra certa habilidade ao expor uma trama que oscila entre a realidade e a farsa, além de fazer uma bela gozação tanto do militarismo quanto de alguns preceitos hippies (apesar do filme, no final das contas, ser simpático à causa flower power). No mais, vale mencionar a atuação de Jeff Bridges, que parece homenagear alguns trejeitos de um dos mais carismáticos personagens que já interpretou, o doidão boa-praça The Dude de “O Grande Lebowski” (1998).

segunda-feira, junho 14, 2010

Rita Cadillac - A Lady do Povo, de Toni Venturi **


Confesso que as expectativas que eu tinha para “Rita Cadillac – A Lady do Povo” (2007) eram muito altas. Primeiro devido ao recente “Alô Alô Terezinha” (2009), ótima produção que biografava o apresentador Chacrinha e trazia Rita em uma marcante participação. E segundo pelo fato de que o diretor responsável seria o Toni Venturi, o mesmo do eficiente “Dia de Festa” (2006). O resultado, entretanto, é frustrante. O grande barato de “Alô Alô Terezinha” era sua abordagem sarcástica que não se intimidava em revelar as “bagacerias” que rondavam a figura do Velho Guerreiro e os bastidores dos seus programas, mantendo um espírito de irreverência e bandalheira tão caro ao seu protagonista. Já a produção de Venturi adota uma postura que beira o reverencial, tamanho o foco bem comportado no qual enquadra Cadillac. Privilegia-se em demasia os depoimentos recheados de lugares comuns da biografada. O filme ganha em dinâmica e vivacidade por algumas imagens de arquivos fascinantes, como os registros de apresentações de Cadillac na Serra Pelada ou no Carandiru e de cenas de algumas produções cinematográficas das quais ela participou, além de algumas colocações realmente relevantes por parte de gente como Hector Babenco. De resto, entretanto, prevalece um tom burocrático e de vídeo institucional.

sexta-feira, junho 11, 2010

Uma Noite Fora de Série, de Shawn Levy **1/2


Talvez nas mãos de cineastas mais inspirados como Adam McKay ou Greg Mottola, a premissa promissora de “Uma Noite Fora de Série” (2010) bem como os seus protagonistas poderiam render alguns memoráveis momentos de comédia alucinada. Sob a batuta, entretanto, do burocrático Shawn Levy essa produção acaba ficando genérica e comportada demais. A trama clássica da comédia de erros aos poucos vai se diluindo em lições de vida de como preservar o casamento. O filme só respira quando Steve Carrel e Tina Fey disparam piadas e imitações, fazendo com essas cenas pareçam um filme à parte.

quinta-feira, junho 10, 2010

Atraídos Pelo Crime, de Antoine Fuqua ***


O cineasta Antoine Fuqua navega perigosamente entre vários clichês narrativos em “Atraídos Pelo Crime” (2009): o manjado truque das várias tramas paralelas que se entrecruzam, roteiro policial repleto de questões já vistas inúmeras vezes (corrupção na polícia, crime e violência entre marginais em algum bairro barra pesada). O resultando, entretanto, é bem convincente. Mesmo não tendo a mesma dinâmica virulenta de “Dia de Treinamento” (2001), sua melhor produção, Fuqua conduz seu filme com segurança. A atmosfera de tensão é agonizante: os personagens se aprofundam cada vez mais em seus abismos pessoais em uma marcha irreversível para a tragédia. As seqüências de ação são econômicas na quantidade, mas sempre se mostram impactantes – Fuqua mantém um estilo clássico no filmar, não caindo em modernices desnecessárias. O diretor também soube extrair expressivas atuações do seu elenco, com Richard Gere, Ethan Hawke e Don Cheadle oferecendo interessantes nuances para seus sombrios personagens.

quarta-feira, junho 09, 2010

Chico Xavier, de Daniel Filho *1/2


A pretensão de tentar contar a história real de vida de alguém de alguma importância é uma tarefa espinhosa. Afinal, nunca se terá como fazer uma reconstituição de fatos com a mesma veracidade da sua origem. O máximo que se pode conseguir nas cinebiografias é um reflexo da impressão que a figura histórica focada tem sobre as nossas mentes. No extraordinário “O Aviador” (2004), por exemplo, Martin Scorsese trabalha muito mais com a idéia de Howard Hughes e a Hollywood de seu tempo influenciado o nosso imaginário do que propriamente com a simples narração de uma série de eventos dispostos em ordem cronológica. Dentro dessa lógica, “Chico Xavier” (2010) acaba sendo uma experiência cinematográfica muito frustrante, pois o diretor Daniel Filho faz do seu filme um mero desfilar burocrático e linear de algumas das passagens mais importantes da vida do seu protagonista. Independente de se acreditar ou não na doutrina espírita, a impressão que a obra passa é a de ter simplificado uma série de questões complexas. Predomina uma assepsia inócua tanto na encenação como no retratar situações e personagens. A narrativa usa e abusa de uma fórmula: toda subtrama aparece como um desafio para a fé de Xavier e no final se resolve como prova da eficiência da doutrina. Os personagens se dividem de forma maniqueísta em dois tipos – aqueles que acreditam no espiritismo (sempre bons, tolerantes e gentis) e os que não acreditam (geralmente mesquinhos, intolerantes e agressivos).

A impressão final sobre “Chico Xavier” é da mesma ser uma produção destinada a agradar convertidos – Daniel Filho oferece ao seu público justamente aquilo que ele espera saber. Qualquer espaço para uma maior densidade dramática parece suprimido em um produto que beira a propaganda institucional.

segunda-feira, junho 07, 2010

A Dança dos Vampiros, de Roman Polanski ****


O que Roman Polanski estabelece em “A Dança dos Vampiros” (1967) não é simplesmente uma paródia aos filmes de vampiro. Ele traz todos aqueles elementos característicos das obras clássicas do gênero e compõe uma narrativa que na sua essência é um puro conto de horror, mas recheado de toques picarescos. A trama sempre oscila entre o assustador e o ridículo, como se fosse uma velha lenda contada em tom de troça. A encenação proposta por Polanski é bastante ousada, indo de pequenos truques típicos do cinema mudo (como a velocidade acelerada das imagens) até um despudorado uso de erotismo (a valorização voluptuosa da beleza de Sharon, a homossexualidade escancarada de um dos principais vampiros) em clara alusão ao espírito do amor livre tão propagado na década de 1960. Tanto em termos formais quanto temáticos, “A Dança dos Vampiros” se aproxima bastante do espírito naturalista e malicioso das adaptações cinematográficas de Pasolini para clássicos da literatura como “Decameron” (1970) ou “As Mil e Uma Noites” (1974).

sexta-feira, junho 04, 2010

Como Treinar o Seu Dragão, de Dean DeBlois e Chris Sanders ***1/2


Em meio às várias produções de animações em 3D que chegam aos cinemas, “Como Treinar o Seu Dragão” se destaca pela sua beleza de seu traço estilizado e pela dose cavalar de ação em sua trama. É um filme recheado de sequências de batalhas entre vikings e dragões muito bem detalhadas e executadas. O roteiro, entretanto, não é mero pretexto para as cenas de aventura, trazendo um bem vindo e clássico toque cômico, além de mostrar sensibilidade ao desenvolver o relacionamento entre o protagonista Soluço e o dragão Fúria da Noite. É justamente esse relacionamento que desencadeia os pontos de virada da trama, apresentando soluções narrativas muito interessantes. O ápice do conflito final impressiona pelo tom assustador do gigantesco monstro que esmaga tudo que vem pela frente, em um frenesi de violência e destruição que parece tremer a própria sala de cinema. O que, convenhamos, não é algo que se vê com tanta frequência em animações infanto-juvenis...

quinta-feira, junho 03, 2010

Os Estados Unidos Contra John Lennon, de David Leaf e John Scheinfeld ***


A premissa de que o gênero documentário representa a forma mais próxima de que o cinema pode chegar como encenação da realidade (ou da verdade) das coisas pode ser uma falácia. Afinal, em algumas oportunidades, a manipulação de imagens através da edição, junto a um determinado discurso narrativo, pode forjar uma versão dos fatos que beira o ficcional. Isso tudo veio a minha mente quando assisti “Os Estados Unidos Contra John Lennon”. Não que a situação de instituições norte-americana terem entrado em atrito e perseguido o mais polêmico dos Beatles seja uma mentira. O que incomoda é a própria forma como Lennon é retratado no filme, ganhando uma dimensão quase mítica pelas iniciativas que tomou ao promover questionamentos sociais contra a excessiva militarização do mundo ocidental. Nessa perspectiva, o Lennon que vemos na tela é privado de contradições e de uma densidade mais humana. Mesmo assim, não há como negar o mérito do documentário como propaganda de uma lenda: ao dar uma dimensão épica para Lennon, a obra faz com que o espectador saia simpatizando ainda mais com o cara. Além disso, boa parte das imagens de arquivo resgatadas é fascinante, principalmente por enfocar uma época desconcertante (a década de 70 do século passado) na história da humanidade.

quarta-feira, junho 02, 2010

Tulpan, de Sergei Dvorsevoy ***


Essa produção do Cazaquistão não traz muitas novidades dentro daquele padrão de filmes vindo de países fora do eixo tradicional cinematográfico: temática regional, predominância de atores amadores, encenação naturalista que beira o documental. Isso não quer dizer, entretanto, que “Tulpan” (2008) não tenha os seus méritos. A partir de uma trama árida, o diretor Sergei Dvorsevoy consegue obter algumas seqüências memoráveis, principalmente quando se vale de um inesperado senso de humor. As tomadas com o protagonista Askhat e seu parceiro passeando pelo deserto a toda velocidade em um estranho veículo e ao som de um hit da discoteca são genuinamente engraçadas pela ingenuidade da situação e dos personagens. Já as cenas com os ciclones nas areias e os partos de ovelhas impressionam pela crueza poética do registro. No final das contas, “Tulpan” está longe de ser um clássico, mas também está milhas de distância de ser uma obra aborrecida.