terça-feira, julho 19, 2011

Potiche - Esposa Troféu, de François Ozon ***



Se tem uma coisa que não dá para acusar o cineasta francês François Ozon é dele não manter uma coerência autoral em sua obra. Em “Potiche – Esposa Troféu” (2010), o diretor continua a fazer os seus experimentos de desconstrução de gêneros cinematográficos. O filme em questão apresenta uma estrutura de comédia de costumes meio bobinha, quase também nos moldes de seriados televisivos na linha “I Love Lucy”, mas situada dentro de um contexto histórico mais complexo – os turbulentos anos 70. Assim, questões espinhosas como a emancipação feminina, a liberação sexual, os conflitos de ideologia e a luta de classes passam por um viés cômico, que beira o frívolo, repletos de seqüências açucaradas, cenas de humor pastelão, revelações novelescas e exagerados figurinos de épocas. Esse choque de contradição entre os aspectos formais e temáticos de “Potiche” reflete o próprio gosto de Ozon em dessacralizar algo que, a princípio, deveria ser levado a sério. Nesse sentido, a participação de monstros sagrados do cinema francês como Catherine Deneuve e Gerard Depardieu não é gratuita – de certa forma, há uma sensação de estranhamento em ver tais artistas em meio a diálogos que chegam perto do pueril e de cenas de comédia amalucada.

A escolha de Deneuve para o papel de protagonista também deixa claro uma influência importante de Ozon em “Potiche” – o esquisito musical “Os Guarda-Chuvas do Amor” (1964), no qual Deneuve também interpretava a personagem principal. Em tal obra, o diretor Jacques Demy usava uma estrutura de filme de diálogos totalmente cantados, recurso típicos de fantasiosas produções de Hollywood, para embalar uma realista e dura história de amor não realizado, em um contraste de abordagem que se revela em sutil sintonia com a recente produção de Ozon. E para escancarar ainda mais tal referência, boa parte da ação de “Potiche” se desenrola em uma fábrica de, olha só, guarda-chuvas!!

segunda-feira, julho 18, 2011

Não Se Pode Viver Sem Amor, de Jorge Durán **1/2

A proposta narrativa de Jorge Durán em “Não Se Pode Viver Sem Amor” (2010) é interessante como conceito. Três histórias paralelas que vão estabelecendo pontos em comuns até atingirem um denominador como trama única lá pelo seu terço final. Para fazer tal interligação, há toques de elementos fantásticos no roteiro. Se essa união entre uma abordagem naturalista e elementos de fantasia traz momentos insólitos que garantem o interesse para o filme, também é responsável pelo ponto fraco da produção, no sentido de revelar uma certa indecisão criativa na narrativa. A conclusão do filme é reflexo claro de tal postura, ao evidenciar uma solução estapafúrdia, típica de alguma novela global. Se tais equívocos comprometem o trabalho de Durán, por outro lado o cineasta compensa os mesmos ao apresentar um sólido trabalho de direção de atores – Simone Spoladore, Ângelo Antonio, Cauã Reymond e Fabíula Nascimento oferecem uma consistência dramática notável para os seus respectivos personagens.

sexta-feira, julho 15, 2011

Cuidado, Madame, de Julio Bressane **1/2



Assim como “A Família do Barulho”, “Cuidado, Madame” (1970) é mais uma extensão dos experimentos cinematográficos radicais de Julio Bressane nos tempos da produtora Belair. A trama é claramente alegórica, ao focar a rotina de uma doméstica que assassina suas patroas megeras e dondocas. É óbvio que se tratando de uma produção da linha do cinema marginal, nada é muito linear e claro. O filme explora bastante a violência, mas de uma forma quase cartunesca, valorizando mais os detalhes visuais dos atos brutais da protagonista. Nesse sentido, Bressane revela uma espécie de sintonia estética com Godard e Tarantino. No geral, entretanto, é uma obra bastante irregular na forma enigmática com que Bressane joga as suas obsessões formais e temáticas na tela.

quinta-feira, julho 14, 2011

A Família do Barulho, de Julio Bressane ***



Há um fio de história em “A Família do Barulho” (1970) que pode servir como premissa para tentar entender um pouco essa viagem sensorial de Julio Bressane: prostituta escrachada sustenta dois malandros que acabam se ligando em outra profissional do sexo (ou pelo menos foi isso que eu entendi...). Mas a verdade é que tentar compreender a obra apenas pela trama pode acabar sendo insuficiente. O filme é uma grande colcha de retalho composta de bordões, frases de efeitos, cenas aleatórias, tiradas cômicas, tomadas repetidas, como se Bressane composse um mosaico casual, em que a sua persistente obsessão em juntar conceitos populares e de vanguarda procura se cristalizar, às vezes de forma bem sucedida, às vezes aos trancos e barrancos. Legítimo representante radical do cinema underground, “A Família do Barulho” é um estimulante desafio para aqueles de saco cheio das obviedades cinematográficas (ainda que a cópia em que o filme circule atualmente esteja com uma qualidade bem ruim de som e imagem).

quarta-feira, julho 13, 2011

Kung Fu Panda 2, de Jennifer Yuh ***1/2



Uma das coisas que mais me surpreendeu no primeiro “Kung Fu Panda” (2008) foi o fato de elementos como filosofias orientais e várias cenas de pancadaria conseguiam se combinar dentro de um formato de desenho animado infantil. Em “Kung Panda 2” (2011), as coisas vão ainda mais longe – há massacre de aldeias, reminiscências infantis perturbadoras, morte brutal de um herói, combates ainda mais violentos. Mas o senso de espetáculo e a ironia também estão sempre presentes, fazendo desta nova aventura da série uma continuação mais que digna. O requinte visual da reconstituição de época de uma China antiga é magnífico, com enquadramentos e grafismo que remetem a verdadeiras pinturas. O uso do antropomorfismo mostra uma precisa sacada conceitual na medida que a escolha de determinados animais para os personagens reflete uma criativa associação de personalidades. Nesse sentido ainda, a incorporação de nuances da mitologia oriental dentro do roteiro é bem amarrada e natural, valorizando alguns dos mais interessantes conceitos dessa cultura. E é claro que não dá para esquecer da qualidade das sequências de ação, verdadeiros balés em termos de sincronia e valorização de detalhes nos movimentos dos personagens, remetendo ao que melhor se fez no gênero dos filmes de artes marciais, mas sempre temperando com toques próprios e cômicos ao se ter como protagonista das lutas um protagonista de estilo tão desajeitado.

terça-feira, julho 12, 2011

Meia-Noite em Paris, de Woody Allen ****



Muito se fala que “Meia-Noite em Paris” (2011) traz uma série de referências culturais mais direcionadas para iniciados, como se só eles fossem capazes de entender e gostar. Ora, acredito que um dos grandes méritos do filme é justamente o contrário – Allen mostra que ver um filme de Buñuel, olhar um quadro de Dali ou Picasso, ler um livro de Fitzgerald ou Hemingway, apreciar uma foto de Man Ray, ouvir uma música de Cole Porter, é algo simplesmente prazeroso e que está ao alcance de todos, pois no fundo todo esse pessoal tem uma linguagem universal, ou seja, são artistas pop! O que Allen faz é tirar esses artistas do pedestal da exclusividade do elitismo cultural e mostrar que arte é acessível para a apreciação de todos.

Os méritos do diretor norte-americano, entretanto, não são só temáticos. Em termos formais, “Meia-Noite em Paris” é um dos filmes recentes de Allen mais redondos. O timing das tiradas cômicas é perfeito, fazendo com que a combinação entre a ironia e a homenagem atinja um equilíbrio natural. Nesse sentido, o diálogo entre o protagonista Gil (Owen Wilson) e os surrealistas Buñuel, Dali e Man Ray é exemplar. Outro toque de gênio de Allen está na forma com que propõe a reconstituição de época da Paris dos anos 20 e na forma com que ela se relaciona com a capital francesa atual. Em vez de investir em uma exagerada direção de arte, ele preferiu a discrição, fazendo com que a diferenciação entre as épocas se dê por uma sutil mudança de iluminação. Assim, a Paris dourada do imaginário de Gil apresenta uma atmosfera etérea e algo estilizada, quase como se fosse um sonho.

No mais, Allen repisa algumas das suas velhas obsessões, mas sempre com elegância e sagacidade, e mostrando que, afinal, tem um estilo particular na sua encenação cinematográfica, fazendo de “Meia-Noite em Paris” não só a melhor comédia de 2011, mas também uma das obras mais divertidas e encantadoras a aparecerem nos cinemas nos últimos anos.

sexta-feira, julho 08, 2011

Sem Essa, Aranha, de Rogério Sganzerla ***1/2

Há um momento no documentário “Belair” (2009) em que Rogério Sganzerla declara a necessidade da aproximação do cinema nacional com a música popular brasileira, no sentido que a mesma apresenta uma grande sintonia espiritual com o próprio Brasil. Em “Sem Essa, Aranha” (1970), uma das mais cultuadas produções da Belair, o diretor coloca em prática essa junção cinema/música. Sequências cruciais do filme trazem performances ao vivo de Luiz Gonzaga e Moreira da Silva, dois dos maiores baluartes do nosso cancioneiro. Além disso, o cineasta insere a figura inesperada de Zé Bonitinho como o protagonista Aranha. No meio de suas tiradas típicas, o comediante profere falas desconexas e interage estranhamente com as criaturas características do universo particular de Sganzerla. É claro que a combinação de tantos elementos diversos pode soar dissonantes em alguns momentos, mas em outros o filme pega na veia na união entre o experimental e o popular e o resultado é de um raro impacto sensorial. Nesse último caso, o ápice é o longo plano sequência de um número de baião alucinado de Gonzaga acompanhado por populares enquanto Zé Bonitinho delira e Helena Ignez vocifera contra o mundo. Um verdadeiro must da bizarrice cinematográfica!

quinta-feira, julho 07, 2011

Macbeth - Reinado de Sangue, de Orson Welles ****



Poucas vezes cinema e teatro se combinaram de forma tão coesa quanto em “Macbeth – Reinado de Sangue” (1948). Talvez a causa disso esteja no fato de que nas concepções barrocas de Orson Welles a linguagem shakesperiana faça totalmente sentido. Welles sempre foi uma espécie de antinaturalista do cinema, mesmo quando as tramas de seus filmes trouxessem algo de linear ou com apego a realidade. Para ele, sempre foi mais decisivo o jogo de luzes e sombras, os enquadramentos cheios de nuances, a montagem que esmiúça a ação de forma pouco convencional. Nesta sua versão para o clássico de Shakespeare, todas essas características cinematográficas estão intactas, e realçam ainda mais o sombrio drama do personagem-título. O gosto de Welles pela manipulação de cenários artificiais encontra uma das suas expressões máximas nas reconstituições de florestas e castelos – estes últimos, parecem muito mais cavernas distorcidas vindas de algum pesadelo (nesse sentido, fica evidente a clara influência do expressionismo alemão na obra de Welles). E mesmo os diálogos carregados de empostação teatral acabam adquirindo uma naturalidade espantosa na encenação do cineasta, estando em perfeita sintonia com a atmosfera de conto de horror proposta pelo filme

quarta-feira, julho 06, 2011

Como Arrasar Um Coração, de Pascaul Chameil **



Uma produção européia emular cacoetes do cinema norte-americano não é algo necessariamente condenável. O alemão “Soul Kitchen” (2009), por exemplo, recicla elementos de comédia pastelão e blackexploitation sob uma ótica bastante particular, entregando um resultado mestiço e brilhante. “Como Arrasar Um Coração” (2010) não segue tal linha, pegando aquilo que há de pior no gênero comédia romântica. É claro que há alguns detalhes que tornam o filme levemente atrativo, principalmente pela fotografia estilo cartão postal que registra belas imagens em Mônaco e pelo fato que Romain Duris ser um ator acima da média. Mas é muito pouco para segurar uma trama derivativa e uma concepção formal engessada que mais parece um episódio mal disfarçado de série televisiva.

terça-feira, julho 05, 2011

Belair, de Noa Bressane e Bruno Safadi ***1/2



Sei que é esquisito começar a escrever sobre um filme falando sobre seus créditos finais, mas é que esse elemento de “Belair” (2009) acaba sendo bem sintomático do significado dessa produção. Nos mesmos, constam em determinado momento os nomes de pessoas que deram depoimentos neste documentário que trata da breve trajetória da produtora Belair que Julio Bressane e Rogério Sganzerla fundaram nos anos 70 e que em poucos meses gerou sete longas-metragens. Ocorre que na realidade em nenhum momento do documentário realmente fica claro que todos aqueles depoentes falaram ou se só deram um testemunho em off. Esse detalhe é revelador da proposta estética dos realizadores Noa Bressane e Bruno Safadi: para contar a história de experimentos radicais e sem concessões da Belair, não bastaria obedecer a uma comportada concepção linear. Pelo contrário: no documentário, transpira o espírito anárquico da dupla Bressane/Sganzerla, em que o erudito se mistura sem cerimônia com o popular, refletindo dessa forma a própria alma caótica de um país como o nosso. Assim, em “Belair” combinam-se sem muita ordem trechos de filmes da produtora, depoimentos atuais que parecem capturados espontaneamente, imagens de arquivo de Sganzerla em ação ou desfiando suas teorias ora lúcida ora um tanto delirantes sobre cinema e cultura brasileira. Ou seja, no geral, uma verdadeira profissão de fé sobre uma maneira criativa (e também perigosa) de se entender o fazer cinematográfico.

segunda-feira, julho 04, 2011

X-Men - Primeira Classe, de Matthew Vaughn ****



Há algumas coisas em “X-Men – Primeira Classe” (2011) que realmente incomodam. A principal delas é a tendência em algumas tomadas para uma encenação que parece um teatrinho infantil. Mas isso é típico da dificuldade de transpor os quadrinhos para as telas. Às vezes o que cai bem no gibi pode ficar meio ridículo no cinema. Tirando esses pequenos detalhes e se concentrando no essencial, entretanto, essa nova incursão cinematográfica do grupo de heróis mutantes é a experiência mais bem sucedida da linha Marvel nessa mídia. Para começar, a densidade dramática obtida pelo diretor Matthew Vaughn é digna de dos melhores momentos do X-Men nos comics, o que revela conhecimento de causa do cineasta no saber extrair o melhor dos personagens (qualidade, aliás, que ele já havia demonstrado no sensacional “Kick Ass”). A trama explora sabiamente elementos importantes da mítica dos mutantes, tanto na caracterização dos personagens como em elementos importantes da história dos mesmos (até mesmo o erotismo subentendido típico de algumas fêmeas fatais mutantes está lá). Também colaboram nesse sentido interpretações consistentes do trio principal da trama – James Mc Avoy (Charles Xavier), Michael Fassbender (Magneto) e Kevin Bacon (Sebastian Shaw) – que dão um estofo dramático atípico em produções do gênero. E num filme de super-heróis, é claro que não dá para esquecer da aventura, e no quesito ação, “X-Men: Primeira Classe” também se mostra acima da média. As sequências de lutas e efeitos especiais têm uma clareza e um detalhamento notáveis que passam longe daquela mediocridade de câmera tremendo e confusão visual que transformam tudo em um grande borrão ou um grande jogo de vídeo game (o que parece que virou regra atualmente).

sexta-feira, julho 01, 2011

Se Beber, Não Case! Parte II, de Todd Philips ***



Não é o caso de “Se Beber, Não Case! Parte II” (2011) ser um mau filme. Ele é até bom, com alguns momentos bem divertidos. Mas esta continuação também é decepcionante no sentido que na comparação com o primeiro filme acaba deixando a desejar. A narrativa demora a engrenar – dá para dizer que o filme começa a ganhar um ritmo mais fluente só quando o trio de protagonistas desperta num quarto de hotel bagaceiro em Bangcoc. Há as doses de escatologia grossa e piadas sacanas, mas sem aquele pique alucinado do primeiro filme. Além disso, Zach Galifianakis e Ed Helms apresentam uma certa afetação preguiçosa em suas atuações. Tanto que o habitual canastrão Bradley Cooper é o que apresenta uma maior naturalidade em cena. Mas o que perturba mesmo em “Se Beber, Não Case! Parte II” é quando se pensa como um filme que tem sodomia e automutilação pode soar tão “família”. A horrível e moralista sequência final é sintomática dessa contradição, manchando o saudável espírito de celebração do hedonismo da franquia (sim, franquia, afinal já estão até falando numa terceira parte....).

quinta-feira, junho 30, 2011

Bróder, de Jeferson De **1/2



Há em “Bróder” (2010) um certo tom de alegoria na sua encenação. Os personagens parecem mais refletir traços de comportamentos e de tipos sociais do que representar propriamente um ser humano, as situações do roteiro sintetizam situações limites de quem vive nas favelas. Por mais que busque o naturalismo, o diretor Jéferson De acaba oferecendo muito mais um retrato estilizado das suas criaturas e do ambiente que as envolve. Se isso faz com que o filme ganhe uma certa dimensão caricatural em alguns momentos (o que fica evidente na afetada composição dramática da atuação de Caio Blat), por outro lado permite que o cineasta atinja alguns voos formais mais ousados. O registro visual que obtém dos becos, corredores, barracos e casas humildes que servem de cenário para “Bróder”, por exemplo, por vezes assume um tom vertiginoso e tenso, dando uma configuração geral de um labirinto intrincado, o que não deixa de ter uma relação metafórica com o próprio desenvolvimento da trama, em que o trio de protagonistas se mete num vórtice de cerveja, garotas e zoeira.

quarta-feira, junho 29, 2011

Estrada Para Ythaca, de Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti *



É claro que para analisar uma produção como “Estrada Para Ythaca” (2010) deve-se levar em conta fatores como a infra-estrutura modesta e a proposta estética de cunho experimental. Isso, entretanto, não justifica um resultado final tão falho. A direção fotografia, por alguns momentos, até consegue um resultado visual de certo impacto, além da trilha sonora original propiciar uma ambientação dramática. Mas o que prejudica o filme realmente é uma narrativa trôpega, em que o que interessa para os realizadores é uma certa demonstração de “esperteza” cultural – é como se eles quisessem ser os equivalentes cinematográficos do lirismo musical afetado dos Los Hermanos (as cenas em que os barbudinhos ficam tomando cerveja e cantando bêbados alguns clássicos da MPB são sintomáticas). É quase como se fosse uma declaração: “Somos do povo, bebemos cerveja, mas também somos indies!!”. Os rapazes levantam bandeiras, proclamam aos brados sua opção pelo cinema artístico, mas suas “ousadias” formais e temáticas são pueris e tediosas.

terça-feira, junho 28, 2011

Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas, de Rob Marshall ***1/2



Gosto bastante do filme inicial da franquia “Piratas do Caribe”, mas o segundo foi uma experiência tão aborrecida que não me animei em ver a terceira parte. O excesso de subtramas e personagens deixava a narrativa desfocada e enfadonha, quase que induzindo ao sono. O diretor Rob Marshall soube evitar esse equívoco ao reiniciar a série, fazendo de “Piratas do Caribe: Navegando em Água Misteriosas” (2011) uma obra concisa na sua bem elaborada combinação de aventura e fantasia. Concentrando sua trama basicamente em torno do protagonista Jack Sparrow (Johnny Depp), o filme é até ousado na sua caracterização visual e temática. A direção de arte e a fotografia apresentam concepções formais eficientes ao fazerem uma junção de suntuosidade e ambientação suja e sombria, o que está em sintonia com o espírito ora juvenil ora violento da trama. Tal direcionamento algo ambíguo se estende também nas cenas em que os personagens se encontram no mar e quando chegam na ilha da Fonte da Juventude, onde a ação desenfreada convive com harmonia com diversas referências mitológicas, com especial destaque para a brutal batalha entre piratas e sereias. Por sinal, não deixa de ser uma surpresa com toques profanos o romance entre uma dessas últimas com um jovem padre.

segunda-feira, junho 27, 2011

Homens e Deuses, de Xavier Beauvois ****



Um filme abordar questões que envolvam questões religiosas sempre é complicado. Afinal, corre-se o risco das acusações de herético ou, ao contrário, de estar fazendo propaganda de alguma vertente em específico. “Homens e Deuses” (2010), de certa forma, passa ao largo de tais direcionamentos. Apesar da sua trama, baseada em fatos reais, ter como protagonistas monges católicos, não se pode dizer que o filme se refira a uma religião institucional específica. Para o diretor Xavier Beauvois, o que realmente interessa é a religião como sentimento e princípio. Ao narrar a história dos monges franceses que viviam em um templo na Argélia e acabaram assassinados por terroristas em 1996, a produção procurar estabelecer uma ótica de coerência para uma trajetória que para muitos poderia parecer simplesmente suicida. Beauvois foca sua narrativa em pequenos atos cotidianos, em discussões sutis e angustiantes, em diálogos reveladores. A violência, que é um elemento latente em toda trama, manifesta-se de forma explícita em poucas cenas, mas sempre com impacto, evitando banalizações. É fascinante que a serenidade e estoicismo dos religiosos frente à tragédia que se aproxima se relaciona com uma atmosfera de beatitude que impregna boa parte das tomadas de “Homens e Deuses”, do detalhismo preciosista das missas até o registro simples dos atos corriqueiros da rotina dos personagens. E a última refeição conjunta dos monges antes de serem seqüestrados é uma seqüência antológica no sentido de se extrair emoção diante de poucos, mas expressivos, elementos cênicos.

sexta-feira, junho 24, 2011

Fora-da-Lei, de Rachid Bouchareb ***



Um dos méritos da produção franco-argelina “Fora-da-Lei (2007) está na eficiente síntese que faz entre os gêneros do drama político histórico e do policial. Assim, o diretor Rachid Bouchareb busca um viés realista na sua abordagem, mas sem abandonar o senso formal mais estilizado. O filme evoca algo do cinema noir, principalmente nas tomadas noturnas, valorizando sombras, fumaças e outros elementos sombrios. A narrativa em si é mais convencional e por vezes explora de forma superficial nuances que pediriam uma visão mais aprofundada. Mesmo assim, é de se admirar o ritmo tenso e dinâmico do filme, com sequências de ação que impressionam pela brutalidade e tensão. É na parte temática, entretanto, que Bouchareb reserva as maiores ousadias de “Fora-da-Lei”. Tendo a luta da independência da Argélia como maior mote da trama, a obra relaciona tal evento histórico com o drama pessoal de três irmãos, que oscilam entre dúvidas e ações radicais em relação ao conflito. Os sacrifícios íntimos de cada um deles em nome de uma causa coletiva são evidenciados com crueza e melancolia, mas ao mesmo tempo o discurso do subtexto da produção deixa claro que sem ações violentas e a sublimação dos desejos individuais a Argélia nunca teria conquistado sua autonomia. De certa forma, justifica-se as ações terroristas, mas a franqueza de tal visão não deixa de ser admirável em tempos de hipocrisia do politicamente correto.

quinta-feira, junho 23, 2011

Turnê, de Mathieu Amalric ****



Há em “Turnê” (2010) uma série de referências que permeiam toda a trama e a estética do filme: o jogo de atração e repulsa pela cultura norte-americana que sempre marcou a filmografia de Wim Wenders, o gosto pelo grotesco e alegórico de Fellini, um certo pendor por uma visão existencialista da vida típico de parte da cinematografia francesa. A junção de todos esses elementos, entretanto, não se limita a uma mera colcha de retalhos desconexa. O diretor/ator Mathieu Amalric consegue dar uma coesão admirável para tal diversidade de influências, conseguindo, ao mesmo tempo, oferecer uma linguagem própria e instigante.

A trama de “Turnê” pode parecer meio estapafúrdia, mas carrega uma simbologia fascinante: um decadente empresário francês do ramo artístico (Amalric) resolve dar uma cartada final ao promover uma turnê pelo interior de seu país com um grupo burlesco de artistas performáticas dos Estados Unidos. A narrativa do filme é fascinante na forma como revela os detalhes e segredos do roteiro e dos personagens através de pequenos gestos, diálogos, fragmentos de situações mal resolvidas. As criaturas de Amalric são outsiders, que oscilam entre picaretas e frustrados, mas carregam uma estranha carga de fascínio e sensualidade. O registro visual acentua ainda mais esse sentimento de ambigüidade ao misturar uma abordagem que varia sem cerimônia entre o documental e o mágico – nesse último caso, principalmente nas apresentações das cantoras/dançarinas, em números musicais que combinam uma estética algo nostálgica de cabaret com temas musicais pop mais contemporâneos (imaginem na mesma embalagem Marilyn Monroe, a garageira sessentista dos Sonics e as baladas metal dramáticas do Aerosmith). E em tempos que tanto se fala em cultura pop, uma obra como “Turnê” acaba sendo bastante emblemática nesse sentido.

terça-feira, junho 21, 2011

Padre, de Scott Charles Stewart **1/2



Pode parecer heresia uma releitura do clássico faroeste “Rastros de Ódio” (1956) ambientado em um mundo futurista apocalíptico cujos heróis e vilões, respectivamente, são padres lutadores de artes marciais e vampiros. O resultado final de “Padre” (2010) acaba comprovando as suspeitas: trata-se de uma tremenda picaretagem. Mas ao mesmo é uma picaretagem divertida. Cenários e sequências de ação remetem a uma caracterização típica de um vídeo game, mas também pagam tributo aos quadrinhos (aliás, o roteiro é baseado em um HQ), o que acaba dando ao filme uma dinâmica narrativa até razoável. Além disso, Paul Bettany (no papel título) e Karl Urban (vivendo um poderoso vampiro mutante) conseguem estabelecer uma certa tensão como antagonistas. No final das contas, é uma produção esquecível, mas como filme de ação é bem mais decente, por exemplo, que aquela breguice do “Thor”.

segunda-feira, junho 20, 2011

Os Agentes do Destino, de George Nolfi **1/2



A relação entre o escritor de ficção científica Philip K. Dick e o cinema é tempestuosa. Se obras como “Blade Runner – O Caçador de Andróides” (1982) e “O Homem Duplo” (2006) conseguiram adaptar com brilhantismo a ambientação sombria e pessimista do autor, outras produções acabaram apenas se apropriando de algumas premissas e desviaram bastante o espírito paranóico dos livros originais. A recente versão cinematográfica de “Os Agentes do Destino” (2011) se encaixa neste último grupo. A inquietante ideia de que a humanidade tem o seu destino controlado por uma espécie de burocracia de um de plano de realidade paralelo acaba se diluindo numa banal trama romântica, pois as possibilidades criativas que a trama inicial oferece se limitam a adequar o final feliz do casal protagonista. É claro que algumas soluções visuais do filme possuem concepção estética interessante na manipulação dos efeitos especiais que reproduzem a relação entre os diferentes planos de realidade. No final das contas, entretanto, isso acaba sendo pouco para o que uma adaptação de uma obra de Dick costuma prometer.

sexta-feira, junho 17, 2011

A Despedida, de Silvana Tomeo 1/2 (meia estrela)



Aqueles que costumam ler resenhas sobre filmes provavelmente devem conhecer o surrado bordão “de tão ruim chega a ser bom”. No caso de “A Despedida” (2010), entretanto, o melhor a ser aplicado seria “de tão ruim chega a ser muito ruim mesmo”. O caráter pueril da trama não chega a ser o seu maior empecilho (afinal, lembra bastante a premissa básica da brilhante primeira parte de “Se Beber Não Case”). O que irrita mesmo é uma direção de fotografia que beira o amador, a narrativa que lembra um teatrinho escolar, atuações inexpressivas, ou seja, no geral uma produção constrangedora, principalmente se pensarmos que do Uruguai, país de origem de “A Despedida”, vieram recentemente os respeitáveis “Whisky” (2004) e “Gigante” (2009).

quinta-feira, junho 16, 2011

Caminho da Liberdade, de Peter Weir ***1/2



Por mais que resvale em alguns momentos para uma composição dramática um tanto sentimental demais, a verdade é que prevalece em “Caminho da Liberdade” (2010) uma abordagem bastante naturalista no registro visual oferecido pelo diretor Peter Weir. A trama pode ser basicamente a fuga e o esforço quase sobre-humano para sobreviver de um grupo de presos evadidos de um gulag soviético na Sibéria, mas a natureza selvagem não serve apenas como um pano de fundo para os dramas dos personagens. Na forma com que Weir filma tal saga, essa natureza ganha o peso de um personagem – ao mesmo tempo que ela é deslumbrante, também é uma antagonista de peso para aqueles homens (e uma garota) que buscam algum lugar seguro. De densas florestas e rios límpidos a áridos desertos, o ambiente sempre ganha uma conotação de mistério e perigo, formatado dentro de uma narrativa mais propensa ao contemplativo do que a ação vertiginosa. Nesse sentido, a estética de Weir remete bastante a trabalhos de temática parecida de Werner Herzog, ainda que o cineasta australiano não atinja um padrão formal tão radical quando o do diretor alemão.

quarta-feira, junho 15, 2011

Velozes e Furiosos 5 - Operação Rio, de Justin Lin ***



Confesso que nunca fui muito fã da franquia “Velozes e Furiosos”. Tanto que não vi algumas partes da mesma. O capítulo mais recente da “saga” de bandidos e carros envenenados, entretanto, até que é bem satisfatório dentro do gênero “perseguições automobilísticas”. A sacada de levar a trama para o Brasil acabou rendendo algumas possibilidades criativas interessantes. É claro que a visão do país é um tanto distorcida (desde quando temos um trem-bala no meio do deserto?), mas isso não chega a ser novidade nesse tipo de produção, revelando muito mais uma concepção daquilo que está no imaginário mundial do que um compromisso com a realidade. No final das contas, nesse tipo de filme a fidelidade com o verossímil não é exatamente o que importa, e o que interessa mesmo para o diretor Justin Lin é a ação. Nesse sentido, “Velozes Furiosos 5 – Operação Rio” (2011) tem os seus momentos empolgantes. Toda a seqüência em que Dominic Toreto (Vin Diesel) e amigos fogem da perseguição feroz do policial Luke Robs (The Rock) e seu grupo no ambiente de uma favela é marcada por um ritmo alucinante que beira o insano. Mas o ápice mesmo são as tomadas finais, com Toreto e Brian (Paul Walker) rebocando um cofre gigantesco que vai detonando tudo que vem pelo caminho pelas ruas do Rio de Janeiro (ou de algo que parece a cidade). E assim a série vai ficando cada vez mais turbulenta, barulhenta e irreal – o que só vem a contribuir para a sua continuidade....

terça-feira, junho 14, 2011

Água Para Elefantes, de Frank Lawrence ***



No panorama cinematográfico atual, em que parecer referencial é considerado o máximo de modernidade, uma produção como “Água Para Elefantes” (2011) acaba sendo emblemática, ainda que de forma involuntária. O filme parece uma grande colcha de retalhos, regurgitando pedaços de várias produções do gênero romântico, tudo isso numa embalagem barulhenta e apoteótica. O barato dessa obra mais recente do diretor Frank Lawrence, entretanto, está na narrativa envolvente que amarra esse amontoado de clichês. O cineasta estabelece tanto na estilizada direção de fotografia como na artificiosa direção de arte uma atmosfera atemporal que mais se vincula a um ideal imaginário do que seria a época da Grande Depressão do que a um compromisso com a realidade (a própria caracterização de Reese Witherspoon no estilo “loura fatal” pode ser encarada como uma extensão de tal proposta estética). E também em meio a juras e desencontros amorosos, Lawrence insere doses de violência e tensão não tão características em produções desse tipo. Talvez a experiência dele como realizador do doentio “Constantine” (2005) tenha trazido uma espécie de herança maldita (e bem vinda) e que envenenou o que era para ser apenas mais um produto da linha “água-com-açúcar”.

segunda-feira, junho 13, 2011

Reencontrando a Felicidade, de John Cameron Mitchell ***



É provável que aqueles que ficaram impressionados com a fúria criativa de “Hedwig” (2000) e “Shortbus” (2006), obras anteriores de John Cameron Mitchell, acabem um tanto decepcionados com a narrativa mais convencional de “Reencontrando a Felicidade” (2010), filme mais recente do cineasta. Em termos formais, a produção realmente é bem mais “comportada”, adotando o modelo clássico de melodrama. Isso não quer dizer, entretanto, que Mitchell deixe de inserir um pouco do seu habitual veneno irônico. A protagonista Becca (Nicole Kidman), por exemplo, destila com frequência desconcertantes comentários sardônicos sobre religião e comportamentos hipócritas. Isso reflete a própria visão do Mitchell sobre a incômoda temática de “Reencontrando a Felicidade”: a morte prematura de um filho. O diretor busca uma abordagem que se afaste do fácil sentimentalismo e da condescendência, explorando mais as dificuldades de lidar com o sentimento da perda. Assim, alguns momentos cômicos podem soar estranhos, mas também humanos. Tal contenção emocional acaba justificando um certo rigor estético na encenação (ao contrário da concepção mais anárquica das mencionadas produções prévias de Mitchell), mas que coloca o filme alguns degraus acima da média habitual do gênero.

sexta-feira, junho 10, 2011

Não Me Abandone Jamais, de Mark Romanek ***



Apesar de baseado em livro de autor cultuado, a verdade é que “Não Me Abandone Jamais” (2010) fará muita gente lembrar de “A Ilha” (2005) de Michael Bay. A premissa é quase idêntica: jovens clones que são criados em “agradáveis” cativeiros e que tem o destino de servirem como matéria-prima para transplantes de órgãos em suas “matrizes” humanas. As semelhanças, entretanto, param por aí. As abordagens de tais filmes são bastante diversas. Se na produção de Bay a opção se dá pela ação desenfreada, em “Não Me Abandone Jamais” o que prevalece é uma narrativa reflexiva, que beira o contemplativo. Paira um clima de inevitabilidade trágica, com o seu trio de protagonistas procurando soluções improváveis para sua condição. O diretor Mark Romanek apresenta uma moldura formal que acentua com sutileza essa atmosfera de desesperança que permeia o seu filme: fotografia esmaecida, edição sem sobressaltos, composições dramáticas do elenco baseadas em emoções contidas, trilha sonora de temas melancólicos. A direção de arte consegue captar com certa sensibilidade uma ambiência de ficção científica de tons retrôs, o que dá à “Não Me Abandone Jamais” uma estranha sensação de atemporalidade. E em tempos em que o gênero tem se limitados mais a delírios apocalípticos em aventuras a lá “Mad Max”, a obra de Romanek acaba soando como um esquisito estranho no ninho.

terça-feira, junho 07, 2011

Jards Macalé - Um Morcego na Porta Principal, de Marco Abumjara e João Pimentel ***



Dentro do gênero cada vez mais em voga dos documentários sobre música, “Jards Macalé – Um Morcego na Porta Principal” (2008) não apresenta muitas novidades: imagens de arquivo, entrevista com o biografado, depoimentos de familiares e amigos, opiniões de críticos e músicos. Mesmo assim, não dá para acusar o filme de mesmice, até porque Macalé, apesar da importância da sua obra, não é um artista com grande reconhecimento por parte do público. Além disso, ele por si só já é uma figura que foge bastante dos padrões, tanto pelas suas canções quanto pela sua visão das coisas. A produção talvez decepcione alguns fãs de velha data por se concentrar mais em alguns dados biográficos e causos divertidos do que em detalhes de gravações de discos ou em digressões sobre a arte de Macalé. É de se louvar, entretanto, que os diretores Marco Abumjara e João Pimentel conseguem captar muito da natureza irrequieta e sardônica do músico, assim como ressaltam a sua participação fundamental na consolidação da música brasileira moderna. “Um Morcego na Porta Principal” também pode servir como uma divertida porta de entrada para aqueles que não conhecer o universo singular e genial de Macalé.

segunda-feira, junho 06, 2011

O Sequestro de Um Herói, de Lucas Belvaux ****



É claro que existem aqueles que vão dizer que “O Sequestro de Um Herói” (2009) não seria apenas um “simples filme policial” (como se o fato de pertencer a um gênero cinematográfico específico fosse alguma ofensa...). Afinal, a partir da premissa de uma trama sobre a captura e cativeiro de um grande (e um tanto picareta) empresário, o diretor Lucas Belvaux estabelece um panorama sobre a teia de hipocrisias que ronda a vítima (família, colegas, amigos) – no final das contas, parece que o único que se importa com ele é o seu cachorro! E nisso o cineasta realmente é muito bem sucedido, desmascarando com sutileza e acidez alguns conceito tão caros à sociedade ocidental contemporânea. O que torna, entretanto, o filme de Belvaux também uma obra memorável é a forma precisa com que ele manipula os preceitos básicos da ação cinematográfica. A sequência de abertura de “O Sequestro de Um Herói” é exemplar nesse sentido: com enquadramentos de movimentos discretos e uma montagem de cortes suaves, traça-se em poucos minutos a rotina do protagonista Stanislas Graff (Yvan Attal) de reuniões de trabalho, momentos com a família, encontros com a amante e jogatinas dispendiosas, marcando-se assim um breve e real retrato de sua personalidade. Belvaux se revela um tremendo detalhista – no processo do sequestro, na caracterização do cativeiro, nas várias discussões para decidir pelo pagamento ou não do resgate, nas estratégias e ações da polícia para resolver o caso – nenhuma nuance parece escapar daquilo que se assiste na tela, o que torna a narrativa cada vez mais tensa no seu desdobrar. Assim, mesmo quem não se importar com as complexas implicações humanas da trama poderá se impressionar com o bem delineado aspecto formal de “O Sequestro de Um Herói”, o que ajuda a confirmar a França como um dos melhores celeiros contemporâneos de produções no gênero policial.

sexta-feira, junho 03, 2011

Em Um Mundo Melhor, de Susane Bier **1/2



O prêmio de Oscar de melhor filme estrangeiro, assim como a Palma de Ouro em Cannes, sempre foi uma espécie de termômetro do que melhor estaria se fazendo fora do padrão de cinema comercial de Hollywood, ou se preferirem, daquilo que se pode chamar “cinema de arte”. É só pensar que filmes de diretores como Fellini, Bergman, Almodóvar, Truffaut e outros do mesmo calibre já foram contemplados com tal premiação. O fato da produção dinamarquesa “Em Um Mundo Melhor” (2010) ter recebido a honraria em questão na última edição do Oscar é um atestado de que alguma coisa anda estranha nesse lado mais, digamos, “artístico” do cinema. Em termos formais, tanto pela sua fotografia quanto edição, o máximo que se pode dizer que ele é bem feito. Uma narrativa competente, de temática politicamente correta, mas que não apresenta quaisquer ousadias estéticas ou temáticas. Parece que falar sobre um assunto “sério” de forma edificante caracteriza a grande subversão que uma obra cinematográfica pode atingir atualmente. “Em Um Mundo Melhor” também representa a descaracterização do cinema da própria diretora Susane Bier, que nas suas obras iniciais (“Corações Livres”, “Brothers”) apresentava elementos criativos que eram descendentes diretos dos preceitos naturalistas do Dogma 95, mas que com o tempo acabaram se convertendo em melodramas quadradões e pouco inspirados (“Depois do Casamento”, “Coisas Que Perdemos Pelo Caminho”).

quinta-feira, junho 02, 2011

Como Você Sabe, de James L. Brooks ***



O grande mérito do diretor norte-americano James L. Brooks no melhor de sua obra (“Laços de Ternura”, “Nos Bastidores da Notícia”, “Melhor, Impossível”) foi saber dimensionar a complicada equação da comédia dramática, sabendo estabelecer com sutileza uma fronteira tênue entre o “sério” e o cômico. Assim como em “Espanglês” (2004), “Como Você Sabe” (2010) mostra que Brooks perdeu um pouco da mão nesse equilíbrio – essa sua produção mais recente revela um certo descompasso, principalmente nos momentos mais dramáticos, que se mostram um tanto superficiais. Isso fica evidente, inclusive, nas próprias caracterizações de alguns atores, como no caso de Owen Wilson, cuja interpretação parece muito mais adequada àqueles papéis em comédias que pendem mais para o humor físico, aos quais está mais habituado, do que para o reflexivo tom agridoce que “Como Você Sabe” se propõe. Apesar desses deslizes, entretanto, o filme ainda revela um Brooks que está acima da média do que normalmente se produz dentro do gênero, até porque ele consegue transparecer em algumas sequências uma postura levemente ácida aos retratar as relações humanas, além de apresentar algumas soluções narrativas que fogem um pouco das fórmulas desse tipo de produção.

quarta-feira, junho 01, 2011

Thor, de Kenneth Branagh **



A questão de ser fiel ao espírito da obra original numa adaptação cinematográfica de um personagem dos quadrinhos não tem relação com um respeito reverencial diante da figura em questão (o que por si só seria algo ridículo, pois comics, no final das contas, são produtos da cultura de massa e não obras de artes inatacáveis – na verdade, nem essas últimas são tão indiscutíveis assim...). Estar em sintonia com o tal espírito da obra original tem a ver com o simples fato de aproveitar aqueles elementos criativos que tornaram o personagem em questão tão atrativo para as pessoas e que justificaram a versão para as telas. E é justamente nesse ponto que reside os principais equívocos dessa transposição das aventuras do deus nórdico Thor para o cinema. O que era para ser um épico envolvendo batalhas entre seres mitológicos e sua relação com os mortais acabou virando um drama romântico água com açúcar e pouco convincente (o que dizer das bregas juras e promessas de amor nas seqüências finais do filme entre Thor e a sua amada Jane Foster?). Todo o processo de aprendizado de honra e humildade que seria uma das temáticas principais do roteiro é banalizado com um tratamento excessivamente superficial (Thor se transforma em um bom moço em menos de 24 horas...). Isso fica ainda mais decepcionante quando pensamos que o cineasta responsável por isso é o mesmo Kenneth Branagh de vigorosas adaptações para o cinema do universo de Shakespeare. Alia-se também a essa séries de escolhas desastradas efeitos especiais genéricos e rasteiros (Asgard parece muito mais uma cidade futurista mequetrefe do que uma imponente morada dos deuses) e direção de arte bagaceira (os trajes e as armaduras remetem muito mais a visual de escola de samba do que de guerreiros). É claro que nem tudo está perdido em “Thor” (2011), principalmente por alguns bons momentos de ação e pela caracterização convincente de alguns dos personagens, mas acaba sendo muito pouco para as expectativas geradas em torno do filme e da própria importância do personagem dentro do gênero dos quadrinhos de super-heróis.

terça-feira, maio 31, 2011

Um Homem Que Grita, de Mahamat-Saleh Haroun ***



Mesmo com alguns excessos melodramáticos do roteiro e uma estrutura formal um tanto quanto convencional, “Um Homem Que Grita” (2010) consegue chamar atenção positivamente, e não só pelo exotismo de seu país de origem, a nação africana Chade. O diretor Mahamat-Saleh Haroun consegue estabelecer uma incômoda atmosfera de tensão de maneira sutil e silenciosa, fazendo que os conflitos íntimos dos personagens mantenham uma relação coerente com as questões sociais que estão de pano de fundo da trama. A notável ambientação opressiva do filme fica ainda mais acentuada pelo tom seco de algumas das escolhas formais de Haroun, principalmente pela ausência de temas musicais como trilha sonora e pela direção de fotografia que oferece uma áspera utilização de luz natural. E no meio desse constante clima pesado de “Um Homem Que Grita”, o diretor consegue oferecer breves e poéticos momentos de alívios em alguns belos enquadramentos, principalmente na comovente seqüência final, com o funeral em um rio de um dos personagens do filme.

segunda-feira, maio 30, 2011

Caminho de Casa, de Emiliano Corapi **1/2



Em termos gerais, a trama da produção italiana “Caminho de Casa” (2010) traz alguns elementos positivos dentro do gênero policial ao qual a referida obra pertence. Há reviravoltas surpreendentes, chegando a ponto de haver uma inesperada troca de protagonistas lá pelo meio da história, sendo que isso ocorre até de forma bem convincente. O que impede que o filme alce vôos mais altos, entretanto, é o fato de sua narrativa truncar por uma certa indefinição de se assumir como uma obra policial ou drama familiar. Peca-se pelo excesso de flash backs e também por uma insistência em focar os conflitos intimistas dos personagens. “Caminho de Casa” realmente funciona quando se concentra nas seqüências de ação e suspense que mostram a relação entre os cidadãos “normais” com as figuras dos mafiosos (aos quais prestam pequenos serviços). Além do mais, o elenco peca por atuações apáticas em papéis que exigiam uma melhor combinação entre vigor e sutileza.

sexta-feira, maio 27, 2011

O Símio, de Jesper Ganslandt ***1/2



O diretor sueco Jesper Ganslandt reafirma com precisão em “O Símio” (2009) um princípio basilar para o gênero do suspense cinematográfico: o que importa para manter a tensão não é a resposta para os mistérios da trama, mas sim a atmosfera de dúvida que advém dos mesmos. Na cena de abertura do filme, o protagonista Krister (Olle Sarri) acorda em uma manhã banhado em sangue que não é o seu. O personagem sabe o que aconteceu, o espectador não. A partir dessa premissa, o roteiro se concentra em mostrar o tormento de Krister em lidar com tal situação extrema. A forma de Ganslandt filmar essa odisséia pessoal é seca: os enquadramentos são quase fixos, os cortes de montagem são poucos e a trilha sonora é inexistente. Tal moldura formal acentua ainda mais o clima de paranóia e dissolução emocional de Krister. Aos poucos, vão sendo revelados detalhes que compõem, ainda que de forma incompleta, o mosaico narrativo. Tudo dá a entender que as vítimas são da própria família de Krister e que foi ele mesmo que praticou os atos de violência. O que fica mais difuso, entretanto, é a sua motivação. Ele é um psicopata? Foi apenas algo acidental? Talvez o que haja de concreto apenas é que a vida dele vai se tornando cada vez mais um beco sem saída e que dificilmente as coisas acabarão bem. E apesar se desconhecer as causas da tragédia, acaba-se também vendo as conseqüências da mesma pela ótica perturbada do rapaz, o que torna “O Símio” uma obra progressivamente desconcertante.

quinta-feira, maio 26, 2011

Pepperminta, de Elisabeth Charlotte Rist **1/2



As origens artísticas da diretora suíça Elisabeth Charlotte Rist pode dá uma idéia da gênese de “Pepperminta” (2009), seu longa-metragem de estreia. Artista plástica que se destacou inicialmente como videomaker, com ênfase na utilização de música, Rist leva para o cinema algumas de suas concepções estéticas. O resultado acaba sendo uma obra irregular como narrativa, no sentido de que algumas seqüências da produção acabam parecendo muito mais um longo vídeo clip do que propriamente um produto cinematográfico. Mesmo que a conjunção de “O Mágico de Oz”, “Alice no País das Maravilhas” e a fase lisérgica dos Beatles possa soar desajeitada e ingênua em alguns momentos, entretanto, é inegável o poder de sedução de algumas imagens de “Pepperminta”. A cineasta joga vários conceitos ao mesmo tempo na tela e parte deles acaba até encontrando um certo impacto que oscila entre o bizarro e o perturbador. O que falar, por exemplo, nas cenas em que o sangue menstrual da protagonista é retratado como uma espécie de droga lisérgica e sagrada? E é justamente nesse frágil equilíbrio entre o grotesco e o lírico que se encontra a força criativa do filme e que faz com que talvez Rist seja um nome a se prestar atenção no futuro.

quarta-feira, maio 25, 2011

Route Irish, de Ken Loach ***1/2



Dentro do gênero cinema político, o diretor britânico Ken Loach continua mostrando que é mestre. O tema da Guerra do Iraque, com um viés crítico à postura dos Estados Unidos no conflito, vem sendo abordado com freqüência nas telas. No caso da obra mais recente de Loach, “Route Irish” (2010), a atenção fica voltada para a participação de mercenários contratados por conglomerados de segurança que combatem ativamente no país árabe. “Zona Verde” (2010), de Paul Greengrass, já havia utilizado uma temática semelhante. No caso da produção de Loach, entretanto, o buraco é bem mais embaixo. Para começar, a quantidade de cenas de ação e violência é bem mais econômica, mas quando as mesmas surgem, é de forma impactante – Loach faz questão de detalhar todas as nuances da sua encenação, como se quisesse evidenciar todo o horror e a brutalidade do conflito. Ele também não apela para o recurso batido de filmar a ação como se fosse um documentarista tosco no meio do conflito, com a câmera tremendo e tudo se transformando num grande borrão. No caso de “Route Irish”, a ação é filmada com clareza e sem trepidações, mesmo quando utiliza imagens originadas de celulares.

Loach também dá um passo além na forma com que analisa as consequências tanto da guerra como, principalmente, daqueles que participam da mesma. O mercenário Fergus (Mark Womack), ao investigar a estranha morte do companheiro Tommy numa ação de combate no Iraque, acaba descobrindo ainda que toda a violência e sordidez que envolvem a sua “atividade profissional” comprometeu a sua própria natureza de forma irremediável, tornando até mesmo insustentável a sua convivência normal em sociedade. Essa crueza que Loach atinge ao retratar a dimensão humana do protagonista dá um toque ainda mais perturbador ao seu thriller político.

terça-feira, maio 24, 2011

Aisheen, de Nicolas Wadimoff ***



Mais um documentário a retratar os conflitos entre palestinos e judeus? Pois é, uma premissa como essa pode ser pouco atrativa nestes tempos em que o referido conflito é repisado continuamente na mídia. E nem dá para dizer que “Aisheen” (2010) traga alguma perspectiva nova para o assunto, pois o diretor Nicolas Wadimoff se concentra bastante na rotina de privações e injustiças pelas quais passam diariamente os palestinos que vivem em Gaza. Apesar da sensação de deja vu, entretanto, esta produção acaba chamando atenção por algumas soluções formais até mesmo surpreendentes. Isso fica evidente logo na seqüência de abertura, em que uma criança árabe caminha pelos escombros de um parque de diversão e ao encontrar o administrador pergunta ao mesmo sobre o trem fantasma. O adulto caminha com o garoto e mostra onde funcionava o antigo brinquedo e conta com detalhes o que tinha lá. O contraste entre as ingenuidades dos pretensos sustos do trem de fantasma com a dura realidade da guerra que cerca aquelas pessoas é desconcertante. E é nesse tem tom que oscila entre o alegórico e o metafórico que reside o encanto de “Aisheen”. Wadimoff abdica da narração em off impessoal para simplesmente dar a voz para os seus personagens, assim como procurar retratar com o máximo de naturalidade os fatos que se sucedem, não fazendo, assim, julgamentos explícitos sobre o que é retratado na tela. O cineasta acredita no poder de sugestão das imagens para retratar a sua visão, permitindo-se até momentos lúdicos em meio aos horrores do conflito. O momento em que os garotos palestinos de uma escola encenam episódios diários de sua difícil convivência com os soldados israelenses, por exemplo, traz uma carga de leveza irônica para um assunto tão denso que acaba ganhando um certo tom insólito.

segunda-feira, maio 23, 2011

Ultraje, de Takeshi Kitano ****



Talvez “Ultraje” (2010) seja o filme de gângster mais “puro” de Takeshi Kitano. Dentro desse gênero, obras anteriores do diretor japonês como “Sonatine” (1993), “Hana Bi” (1997) e “Brother” (2000) traziam uma abordagem mais reflexiva em determinados momentos, entre as seqüências de tiroteios e demais brutalidades. Já esta produção mais recente de Kitano se concentra exclusivamente na ação, além da trama estar mais preocupada com os meandros das intrigas entre os bandidos de um clã da Yakuza do que em extrair elementos contemplativos. O próprio Kitano interpreta um tipo diverso daquele do sujeito durão que está em crise existencial; em “Ultraje”, seu personagem é apenas um sádico e arrivista subchefe em busca de mais poder na sua organização criminosa.

Na comparação, pode-se dizer que a diferença entre “Ultraje” e os filmes mais antigos de Kitano mencionados anteriormente é aquela que se pode fazer entre “Os Bons Companheiros” (1990) e “Cassino” (1995), ambos de Martin Scorsese: este último seria a versão mais exagerada do primeiro, colocando uma maior ênfase na violência, no sexo e na sordidez. Assim, “Ultraje” é um Kitano com um pé no acelerador na truculência. É de se enfatizar, entretanto, que o diretor faz isso com um notável senso barroco no filmar. Das cenas de reuniões entre os gângsteres até as várias tomadas de execuções à bala e agressões variadas (com destaque especial para perturbadora tortura com uma broca de dentista enfiada na mandíbula de um infeliz), há uma elegância extrema na encenação e nos enquadramentos de talhe clássico. O resultado final acaba sendo um extraordinário filme policial casca-grossa, daqueles que aparecem cada vez mais raramente nestes tempos de politicamente correto.

sexta-feira, maio 20, 2011

Barcelona Era Uma Festa (Underground 1970-1980), de Morrosko Vila-San-Juan ***



O movimento de contracultura em Barcelona guarda grandes semelhanças com o movimento análogo que se desenvolveu no Brasil. Isso porque os principais princípios do ideário libertário típico de tais movimentos (amor livre, uso de drogas para expansão dos sentidos, contestação dos valores conservadores da sociedade contemporânea, rock como trilha sonora principal) se formataram com quase uma década de antecedência na Inglaterra e nos Estados Unidos. É provável que esse reflexo atrasado tenha relação com o fato de Espanha e Brasil estarem sob regime ditatoriais no período, o que dificultava a assimilação de ideias e tendências vindas do exterior (e naquele tempo Internet era algo que as pessoas mal podiam vislumbrar). O próprio punk, que foi o fecho de caixão definitivo para o flower power tanto britânico quanto norte-americano, só foi ter ressonância nos referidos países latinos lá pelos anos 80. Apesar dessa ressonância retardada, a contracultura possibilitou o surgimento de uma infinidade de manifestações criativas relevantes no circuito artístico de Barcelona (e nisso há uma outra grande aproximação com o mesmo fenômeno em terras brasileiras). Música, artes plásticas e quadrinhos geraram trabalhos que ajudaram a dar um novo patamar para evolução cultural da Espanha, assim como na parte comportamental surgiram outros padrões de conduta que colocaram em cheque os cânones morais de um país de maioria católica. “Barcelona Era uma Festa (Underground 1970-1980)” (2010) é um documentário que oferece uma perspectiva que oscila entre o irreverente (em sintonia com o espírito da época) e o crítico (ao expor sem maiores concessões as contradições do movimento), oferecendo um panorama bastante amplo sobre os fatos. As opções estéticas do diretor Morrosko Vila-San-Juan parra narrar esta saga de ascensão e queda da contracultura basca se revelam bastante adequadas no sentido de abusarem do grafismo exagerado que remete a comics da época, além da edição trepidante que reflete o espírito anárquico dos personagens focalizados. No cômputo geral, a obra se recusa a enquadrar os eventos numa ótica meramente didática e simplificadora, evidenciando que por mais que alguns dos principais artífices tenham ficado pelo meio do caminho devido aos seus excessos o seu legado anti-obscurantista foi fundamental para colocar a Espanha nos trilhos da modernidade.

quinta-feira, maio 19, 2011

O Estranho Caso de Angélica, de Manoel de Oliveira ***

Um olhar apressado sobre a sinopse de “O Estranho Caso de Angélica” (2010) poderia fazer supor se tratar de mais uma tradicional narrativa do gênero fantástico envolvendo fantasmas e afins. Nas mãos do mais que veterano diretor português Manoel de Oliveira, entretanto, as coisas não ficam assim tão simples. A história do fotógrafo que se apaixona por uma bela jovem já falecida (a Angélica do título) extrapola o caráter mórbido e toma os contornos de uma alegoria sobre um Portugal que mais existe no nosso imaginário do que na própria realidade. Isso se evidencia na ambientação da produção, que trafega por uma espécie de atemporalidade, em que o passado e o presente não apresentam uma delimitação tão clara, assim como o urbano e o rural parecem se digladiar ao longo da trama. Esse olhar nostálgico de Oliveira contamina a própria encenação da obra, tanto que nas sequências em que aparece o fantasma de Angélica os efeitos especiais possuem certo caráter “fuleiro” – o cineasta não busca aquele efeito do que “parece real”, mas sim aquele que remete a um cinema que beira o artesanal e que se aproxima da pintura.

quarta-feira, maio 18, 2011

Três Tempos Depois da Morte de Ana, de Catherine Martin ***



Em cada fotograma de “Três Tempos Depois da Morte de Ana” (2009) parece haver uma declaração da cineasta canadense Catherine Martin dizendo “gostaria de ser Ingmar Bergman. A trama e a sua respectiva encenação parecem derivadas de alguma produção do mestre sueco. A história da mãe que se isola em uma cabana no meio da uma gelada floresta no interior do Canadá após a morte violenta da filha e recebe a visita de alguns fantasmas (da avó, da mãe e da mencionada filha) evoca aquela insólita junção entre o real e o metafísico de obras como “Morangos Silvestres” (1957) e “Gritos e Sussurros” (1972), além de receber um tratamento formal rigoroso, repleto de enquadramentos quase fixos, além da ausência de trilha sonora. Há a impressão de uma certa frieza na aridez de tal ambientação, mas o desenrolar da narrativa torna a mesma cada vez mais emocional, beirando até mesmo o edificante quando a protagonista reencontra um caso amoroso da adolescência. É nesse último ponto que o filme se afasta um pouco da sombra de Bergman, pendendo para uma espécie de melodrama contido. Mesmo que com um caráter artístico um tanto derivativo, “Três Tempos Depois da Morte de Ana” acaba seduzindo pela precisão de sua narrativa e por saber evitar os excessos sentimentais.

terça-feira, maio 17, 2011

Erratum, de Marek Lechki **1/2



A base da trama da produção polonesa “Erratum” (2010) é simples, quase manjada mesmo: Michall (Tommy Kot), homem maduro bem estabelecido profissionalmente que vive há anos em Varsóvia, é obrigado por uma contingência de trabalho a voltar para a cidade interiorana em que nasceu e cresceu para executar um pequeno serviço. Acaba atropelando e matando um mendigo e é obrigado a permanecer mais alguns dias na localidade para resolver detalhes formais. Isso o faz reencontrar o pai e amigos, pessoas essas com quem têm pendências emocionais mal-resolvidas. Com isso, faz uma espécie de reavaliação do passado e, por consequência, da própria vida. Apesar dessa previsibilidade temática, o cineasta Marek Lechki consegue extrair algumas sequências cativantes no filme, principalmente nas tomadas que envolvem as peregrinações noturnas de Michall pela sua cidadezinha natal, onde utiliza uma fotografia de tons sombrios e granulados que dá a tais cenas uma conotação que beira o onírico. Interessante também no filme é o significado metafórico que a morte do mendigo vai adquirindo com o desenrolar da trama, como se ilustrasse as descobertas existenciais do protagonista. No final das contas, “Erratum” pode até não apresentar nada de novo ou especialmente brilhante em termos formais, mas acaba criando uma certa empatia pela forma honesta com que expõe os conflitos de seus personagens, o que acaba criando um fator de identificação com o espectador.

segunda-feira, maio 16, 2011

Cúmplices, de Frédéric Mermoud ****



Um dos grandes méritos do diretor Fréderic Mermoud na produção francesa “Cúmplices” (2009) está na forma como os tempos narrativos (passado e presente) se entrelaçam sobriamente no desenrolar da trama. No início do filme, já sabemos que o jovem michê Vincent (Cyril Descours) foi assassinado. Cabe ao espectador assistir à reconstituição dos fatos que levaram ao crime, tanto pela investigação da dupla de policiais Hervé Cagan (Gilbert Menki) e Karine Mangin (Emannuelle Devos) como pela presença de flash backs. Mesmo que se saiba que o resultado vai ser a morte do garoto, além do fato que o possível autor do crime não será alguém tão surpreendente, Mermoud consegue obter uma atmosfera constante de tensão, principalmente pelo seu estilo seco e elegante de filmar, não havendo concessões ao se criar uma ambientação entre o sórdido e o hedonista para retratar a rotina de sexo, drogas e violência de Vincent. O diretor também insere no roteiro uma perspectiva temática que dá uma dimensão dramática de impacto para o filme. À medida que as investigações de Hervé e Karine se aprofundam, elementos da vida da vítima provocam uma certa reflexão por partes dos próprios investigadores sobre questões pessoais mal resolvidas. E a conclusão de “Cúmplices” dá ao filme uma forte e inesperada carga humanista, não muito típica para obras do gênero policial.

sexta-feira, maio 13, 2011

Tannöd, de Bettina Oberli ***

A diretora suíça Bettina Oberli consegue estabelecer em “Tannöd” (2009) uma ambígua narrativa – apesar da trama na sua essência trazer um drama de suspense envolvendo os mistérios por trás do assassinato de uma família, o tratamento oferecido pela cineasta descamba para uma ambientação em que o elemento fantástico se insinua maliciosamente, a um ponto em que não fica preciso com certeza se aquilo que vimos conteria algo de metafísico ou se apenas faz parte da tensão psicológica dos personagens. Oberli consegue também trabalhar com eficiência a contraposição dos tempos narrativos sem causar confusão para o entendimento da trama, com passado e presente dialogando de forma coerente. É de se destacar ainda o trabalho de direção de arte e fotografia, cujo visual sujo e sombrio valoriza com sensibilidade os cenários naturais repletos de densas florestas e neblinas e rústicas construções, conferindo para “Tannöd” uma atmosfera de conto gótico.

O Vagabundo, de Avishai Sivan ***



A opção estética do diretor israelense Avishai Sivan por uma narrativa árida em “O Vagabundo” (2010) não se revela como uma escolha gratuita. Enquadramentos quase fixos, parcos diálogos e ausência de música na trilha sonora compõem um sóbrio todo formal que se mostra em sintonia com a temática melancólica da trama. Tal ambientação faz com Sivan consiga manter uma incômoda tensão ao mostrar o estranho cotidiano do protagonista Isaac (Keren Michael), um jovem judeu tomado por não bem explicadas dores psicossomáticas e que dedica os seus dias e noites a ficar vagando a esmo por sua cidade, cabulando aulas e as sessões de oração no templo religioso que seu pai costuma frequentar. À medida que seu desconforto físico aumenta, as experiências de Isaac vão ficando cada vez mais perigosas e esquisitas. A trajetória do personagem tem traços metafóricos, parecendo aludir à própria situação contraditória da sociedade israelense, portadora de um constante mal estar advinda do medo constante de retaliações da parte do povo palestino ao qual o seu próprio governo oprime.

quarta-feira, maio 11, 2011

Ex Isto, de Cao Guimarães ***1/2



Se em documentários como “Andarilho” (2006) e “A Alma do Osso” (2004) o diretor Cao Guimarães apresentava um viés quase delirante para o gênero, em “Ex Isto” (2010) ele expande para a ficção a sua tendência para o antinaturalismo. Tal abordagem também se mostra como um reflexo do próprio conflito temático de seu roteiro (baseado no livro “Catatatu” de Paulo Leminski), que parte da fantasiosa premissa inicial do que teria acontecido se o pensador Renée Descartes, pilar do pensamento racionalista, tivesse desembarcado no Brasil em 1637 junto com o desbravador holandês Maurice de Nassau. Em terras brazucas, o protagonista, interpretado por João Miguel, é envolvido por uma natureza selvagem, misteriosa e impenetrável. Assim, o célebre discurso cartesiano vai se fragmentando e se tornando difuso diante de um emaranhado de misticismo, sensualidade e da ausência da pretensa civilidade ocidental. E se a razão se perde, por que não também a própria realidade? Se nos momentos iniciais Descartes perambula a esmo diante de uma floresta silenciosa e ameaçadora, com Guimarães evocando até mesmo algumas obras clássicas de Werner Herzog como “Aguirre – A Cólera dos Deuses” (1972) e “Fitzcarraldo” (1982), aos poucos o pensador vai adentrando, sem maiores explicações, ao nosso mundo contemporâneo, interagindo com a modernidade caótica das metrópoles. É desconcertante a forma espontânea com que aquilo que é dramatizado se relaciona com aquilo que é “verdadeiro”, com ambos os planos (fantasia e real) se abraçando como se fosse uma coisa só. Guimarães não se prende a um hermetismo puro e simples, fazendo de “Ex Isto” uma verdadeira viagem xamânica sobre a dissolução da máxima “penso, logo existo”.

terça-feira, maio 10, 2011

Juntos, de Matias Armand Jordal ***



Em um primeiro momento, pela sua premissa inicial, a produção norueguesa “Juntos” (2009) pode fazer pressupor uma obra nos moldes daqueles desgastados melodramas familiares que costumam ser exibidos nos Supercines ou Sessões da Tarde da vida: mulher morre em acidente e seu marido e filho precisam aprender a lidar com a situação. No filme em questão, entretanto, o furo é mais embaixo. O diretor Matias Armand Jordal não parece muito interessado em lições de superação ou coisa que o valha. Sua encenação é crua e objetiva, sendo que as reações de seus personagens são humanas a um ponto que acabam beirando o perturbador. O registro visual de “Juntos” privilegia um certo enfoque naturalista, mas também em alguns momentos ganha uma dimensão de um soturno pesadelo, principalmente quando o viúvo envereda por jornadas noturnas em busca de brutais brigas para aplacar a sua culpa. A conclusão do filme pode até ensaiar uma possível redenção para seus protagonistas, mas a jornada para chegar até lá é bastante tortuosa...

segunda-feira, maio 09, 2011

Eu Matei Minha Mãe, de Xavier Dolan ***1/2

Fica claro em “Eu Matei a Minha Mãe” (2009), longa de estreia de Xavier Dolan (realizado por ele quanto tinha menos de vinte anos de idade), que o jovem diretor canadense estava com a cabeça fervilhando de ideias para o seu debut. Sua ambição artística não é pequena numa obra que evidencia uma estética que abusa de uma série de preceitos típicos do “cinema verdade”, com tomadas que beiram o documental e fotografia de tons granulados em boa parte das cenas. Sua encenação, entretanto, é bastante dramatizada, com um certo pendor para o exagero, principalmente nas interpretações de Anne Dorval e do próprio Dolan nos papéis principais de mãe e filho em conflito. O choque entre tais concepções diferenciadas acaba sendo a força motriz do filme, que dá uma impressão permanente de um mundo em dissolução, o que se mostra em sintonia com a trajetória atribulada dos personagens principais. Por vezes, pode-se perceber que a vontade de Dolan de colocar na tela tudo o que está na sua cabeça torna alguns momentos da produção um tanto irregulares e fragmentados, mas isso é apenas um pequeno deslize em meio uma narrativa que impressiona pelo seu vigor ao expor com crueza a fúria formal e temática do cineasta. Nesse último quesito, aliás, ele revela uma inquietante visão sem pudores das contradições existenciais do filho que odeia (e também ama deslavadamente) a sua respectiva progenitora.

sexta-feira, maio 06, 2011

Os Residentes, de Tiago Mata Machado *



Há um momento em “Os Residentes” (2010) que se pode ter um vislumbre do que o filme poderia ter sido. É aquele em que um casal discute o seu relacionamento – a ambientação crua e tensa, os diálogos francos proferidos de forma trôpega pelos autores, tudo isso sugere um tom de cinema que digladia entre a ficção e o documental. Nessa sequência, a produção se revela momentaneamente livre de suas afetações referenciais e consegue estabelecer uma narrativa que cause empatia com o espectador. No geral, entretanto, “Os Residentes” afunda numa série de equívocos estéticos pretensiosos e irritantes, tanto no seu lado formal, marcado por fotografia e edição toscas que caem em vanguardices estéreis, quanto pela sua temática que esbarra numa confusa junção de teatro e cinema. É provável que a maior inspiração do diretor Tiago Mata Machado tenha sido elementos do cinema marginal de Rogério Sganzerla e Julio Bressane, principalmente no que diz respeito da combinação entre referências eruditas e populares, mas o resultado final de seu filme ficou muito distante da coerência artística da filmografia dos cineastas citados.

quinta-feira, maio 05, 2011

A Minha Versão do Amor, de Richard Lewis **1/2



A equação cinema/literatura sempre foi um dilema na sua elaboração. O ato de adaptar uma obra literária para as telas traz o risco de fazer com que um filme abra mão das suas possibilidades criativas para que se limite a narrar de forma sistemática a “história” de um livro. “A Minha Versão do Amor” (2011) é uma prova dessa armadilha estética. Baseado em um cultuado livro de Mordechai Richler, a produção se comporta apenas como uma expressão visual da trajetória do protagonista Barney (Paul Giamatti repetindo os trejeitos de outros personagens desajustados que já interpretou). Algumas soluções narrativas são agradáveis, remetendo àqueles velhos dramas acre-doces setentistas, e mesmo a direção de arte revela um certo cuidado na reconstituição de épocas, quase como se brincasse com o imaginário que o espectador tem de tais períodos. Parte dos personagens apresenta também uma caracterização fortemente carismática. A impressão final, entretanto, é que todas essas boas qualidades vêm muito mais do texto original de Richler do que de possíveis méritos do filme.