sábado, maio 16, 2009

O Papel de Sua Vida, de François Fravat ***


Essa produção francesa de 2004 lembra bastante alguns filmes de Eric Rhomer, principalmente por um certo tom de parábola moral. Mesmo não tendo a mesma precisão formal e rigor emocional de Rohmer, o diretor François Fravat consegue obter um resultado bem interessante ao buscar uma trama que não se utiliza de arroubos emocionais, com uma narrativa fluida e serena ao retratar a relação entre uma exuberante atriz e a sua apagada e devota secretária, como se fosse uma versão menos melodramática e mais contida de “A Malvada” (1950), clássico filme de Joseph Mankiewicz.

Em Paris, de Christophe Honoré ****


A influência da Nouvelle Vague presente no filme “Em Paris” não se limita a uma branda influência estética. O que o cineasta francês Christophe Honoré busca no referido movimento cinematográfico é uma liberdade criativa típica de boa parte das produções daquela época (anos 50 e 60), na procura de uma linguagem artística que fuja das amarras de simplesmente “contar uma boa história”. “Em Paris” traz uma série de elementos que podem ser interpretados como homenagens a filmes clássicos, mas que também representam detalhes ousados na sua particular concepção: a trilha sonora jazzística remete a música cool de Miles Davis em “Ascensor ao Cadafalso”, a seqüência de diálogos musicados entre Paul (Romain Duris) e Anna (Joana Preiss) nos traz a mente “Os Guardas-Chuva do Amor”, os toques de metalinguagem na narrativa e a interpretação antinaturalista de Louis Garrel evocam Godard, a crueza no retratar as relações humanas revelam a presença de Truffaut pairando sobre o filme. A junção desses elementos, entretanto, não é gratuita e nem forçada. Honoré combina com brilhantismo todos esses detalhes e forja um estilo único e pessoal. “Em Paris” apresenta uma dinâmica narrativa e uma pungência emocional impressionantes, fazendo de Christophe Honoré um dos nomes mais destacados da atual cinematografia francesa.

Sweetie, de Jane Campion ***1/2


Assim como “Um Anjo em Minha Mesa” (1990), obra imediatamente posterior da diretora Jane Campion, “Sweetie” apresenta uma narrativa recheada de figuras desajustadas em meio a situações ora patéticas ora irônicas. Campion adota um registro frio e distante, o que acentua ainda mais o clima de esquisitice da trama, chegando até mesmo a lembrar um pouco David Lynch, sendo que conflitos, reconciliações e mortes desfilam pela tela de forma seca e indistinta. Confrontando duas irmãs de temperamentos aparentemente opostos, a metódica e aborrecida Kay e a tresloucada Sweetie, a diretora apresenta uma visão pouco amistosa e nem um pouco condescendente da condição humana. Em obras posteriores como “Um Anjo em Minha Mesa” e “O Piano” (1993), ela daria continuidade a essa linha temática e formal, mas pendendo em alguns momentos para uma abordagem mais poética.

Quem Quer Ser Um Milionário, de Danny Boyle ***1/2


Opiniões mais afoitas estão colocando “Quem Quer Ser Um Milionário?” como uma espécie de versão indiana do brasileiro “Cidade de Deus”. Na realidade, o que há são algumas semelhanças como o ritmo frenético da edição em algumas seqüências e no fato de boa parte da trama ser focalizada em zonas miseráveis da Índia. A estética e a narrativa cinematográfica da obra em questão são características do estilo de Danny Boyle filmar e editar os seus filmes, sendo que em produções anteriores dele (“Trainspotting”, “Cova Rasa”, “Extermínio”) já haviam sido delineadas muitas das qualidades marcantes de “Quem Quer Ser Um Milionário?”. Aliás, o grande atrativo do filme é justamente a particular concepção formal oferecida por Boyle. A trama é uma fábula que beira o simplório, mas que acaba adquirindo interesse pela impactante combinação entre a coloridas e exuberantes imagens com a exótica e dançante trilha sonora. Só aquela seqüência ao som da magnífica canção “Paper Planes” de M.I.A., com direito a um assalto pelo teto de um trem em movimento, já valeria o ingresso.

sábado, maio 09, 2009

Watchmen, de Zack Snyder **


Sem querer parecer exagerado, mas considero a minissérie “Watchmen” a melhor história em quadrinho que já li. O fato de não ter gostado de sua adaptação para os cinemas, entretanto, não tem relação com uma possível birra de um fã. O que me incomoda no filme são os seus defeitos como cinema, e não por um simples fato de não ter sido respeitoso à obra original. Para começar, as seqüências de ação padecem dos mesmos problemas de “300” (2007), o filme anterior de Zack Snyder: há um abuso de planos estáticos e câmeras lentas que dão a impressão de estarmos assistindo a um longo comercial de sabonete. Houve também equívocos no roteiro que simplificou ou resumiu as várias subtramas que compõem o texto original, o que faz com que o filme fique incompreensível para o espectador que não tenha lido anteriormente ao gibi. Não por acaso, muitas pessoas saíam no meio da sessão quando fui assistir ao filme. Além disso, focou-se em demasia detalhes supérfluos como lutas de coreografias mal ajambradas de artes marciais que se estendem em demasia (no gibi, elas se resumem a um ou dois quadros).

Assistir a “Watchmen”, porém, não chega a ser uma experiência tão tormentosa assim, mesmo com todos esses problemas. Mesmo com todas as reduções no texto original, a trama preserva algo do encanto do gibi, com aquela linha de narrativa combinando ironia e amor ao gênero dos quadrinhos de super-heróis, além da relação genial entre ficção e realidade. Vale mencionar ainda que algumas caracterizações dos personagens ficaram bem interessantes, principalmente a do violento vigilante Rorschach.

Na verdade, a minha decepção com “Watchmen” nem foi tão grande assim, pois o currículo de Snyder não me fez criar muitas expectativas positivas. Até acho que o filme saiu melhor do que o esperado...

Força Policial, de Gavin O'Connor ***


Todos os clichês possíveis de filmes policiais estão em “Força Policial” (2008): corrupção, violência, conflitos familiares, dilemas morais, personagens durões. Mas quem disse que originalidade é condição indispensável para se fazer um bom policial? No final das contas, o que importa é se há competência para combinar todos esses lugares comuns e realizar uma produção capaz de manter o interesse do espectador, e nesse quesito o diretor Gavin O´Connor até que se dá bem. Na surrada trama de uma família em que a maioria dos homens trabalha na polícia e descobre que há um corrupto entre eles, o diretor conduz a narrativa de forma vertiginosa e sombria, além de contar com um elenco mais do que eficiente. Mesmo distante da excelência artística de clássicos do gênero como “Colateral” ou “Viver e Morrer em Los Angeles”, “Força Policial” é uma obra de respeito para quem gosta de tiros e tensão.

Milk, de Gus Van Sant ****


Vindo de três filmes de postura pouco comercial (“Elefante”, “The Last Days” e “Paranoid Park”), o cineasta Gus Van Sant pode fazer o espectador mais desavisado pensar que “Milk” é a sua volta para um cinema mais acessível. A verdade é que realmente “Milk” apresenta alguns elementos mais digeríveis para o grande público, principalmente pela trilha sonora sentimental e um roteiro permeado de discursos politicamente corretos, mas o seu resultado final preserva muito do forte tom autoral típico de boa parte da cinematografia de Van Sant. O diretor casa magistralmente a recriação dramática da trajetória de Harvey Milk com imagens de arquivo da época (anos 70, essencialmente), fundindo esses planos narrativos de forma tão coesa que chega a um ponto que é até difícil em algumas seqüências distinguir os mesmos. A recriação da atmosfera da época também é primorosa, tanto pelo trabalho de direção de arte quanto pelo conteúdo da trama, não havendo concessões ou maniqueísmos para refletir o forte espírito hedonista e libertário da San Francisco setentista. Também nesse sentido de evitar simplificações ingênuas, é muito bem trabalhada a caracterização dos fatos e personagens, com Van Sant evitando polarizar a trama em mocinhos (gays) e bandidos (homofóbicos). O que se tem muito presente no roteiro é uma história que envolve questões mais complexas como jogos políticos, ressentimentos e relacionamentos mal resolvidos. Contribuiu consideravelmente para o sucesso dessa narrativa bem estruturada o trabalho do elenco de atores, principalmente por parte de Sean Penn, que tira o protagonista da simples vitimização ao dar para o mesmo uma interpretação cheia de nuances dramáticas, e também de John Brolin que faz do homicida Dan White um pobre coitado patético e ao mesmo tempo assustador.

O Segredo do Grão, de Abdel Kechiche ****


Poucos meses atrás, tive uma grata surpresa ao assistir “A Esquiva” (2004), do diretor tunisiano Abdel Kechiche. Tendo como cenário um subúrbio francês e tendo como personagens jovens descendentes de emigrantes árabes, a obra tinha uma dinâmica extraordinária, conciliando de maneira admirável uma temática de forte cunho social com um senso de humor fantástico. Em “O Segredo do Grão” (2007), obra mais recente de Kechiche, o diretor retoma basicamente o mesmo cenário e o mesmo tratamento narrativo, obtendo um resultado de impacto ainda maior. Tanto a fotografia quanto a montagem oferecem uma fluidez impressionante para a trama chegando ao ponto de se ter a impressão de assistir a um documentário de cenas do quotidiano tamanho o naturalidade com que os fatos vão se sucedendo. Nada parece ensaiado, os atores parecem não interpretar, apenas agem, os diálogos parecem brotar do momento, o que faz com que as palavras sejam proferidas com intensidade e veracidade raras de ver nas telas. Nesse contexto, é até injusto tentar destacar seqüências específicas do filme, tendo em vista a unidade e a coerência formais que permeiam “O Segredo do Grão”. Mas é provável que uma boa parte dos apreciadores de cinema leve para sempre na memória de momentos antológicos cinematográficos a majestosa seqüência final em que dois planos narrativos se alternam e se complementam: a corrida desesperada e melancólica até o esgotamento físico (ou vital?) do protagonista Slimane Beiji em busca da sua motocicleta roubada e a luxuriosa dança do ventre executada pela enteada de Slimane, Rym (em caracterização possessa da jovem Hafsia Herzi), numa estranha e bela dicotomia entre sexo e morte.

Rebobine, Por Favor, de Michel Gondry ***1/2


O cineasta francês Michel Gondry já havia demonstrado um talento extraordinário no sensacional “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” (2004) na combinação de elementos insólitos e esquisitos num filme sem cair para os excessos experimentais. Em “Rebobine, Por Favor” (2008), ele volta a mostrar as mesmas qualidades em uma obra que beira o surreal. A fotografia granulada, os enquadramentos falsamente amadores, a trama que envereda seguidamente pelo absurdo, a narrativa que vai fluindo quase que por improviso e um elenco que se utiliza de caracterizações impressionistas e exageradas formam um conjunto instigante e encantador. A idéia de fazer dois amigos avoados (Mos Def e Jack Black) recriarem em condições precárias, mas com muita paixão, uma série de filmes famosos não necessariamente clássicos pode inicialmente parecer uma mera paródia, mas com o tempo vai se revelando uma pungente declaração de amor ao cinema. No terço final, “Rebobine, Por Favor” até apresenta uma certa queda para o convencional e chega a ter uma conclusão que raspa no edificante. Isso não o invalida, entretanto, como uma das produções mais marcantes que passaram pelos cinemas em 2009.

segunda-feira, abril 27, 2009

Coraline e o Mundo Secreto, de Henry Selick ****


Sou um grande apreciador da obra de Neil Gaiman, mas confesso que não li o romance ilustrado “Coraline”. Mas assistindo a versão cinematográfica dessa obra se pode sentir a aura de conto de fada doentio e perverso tão característico do universo de Gaiman. E isso é perfeitamente explicável quando vemos que nos créditos que o cineasta responsável por tal adaptação é Henry Selick, o mesmo da obra-prima da animação de stop-motion “O Estranho Mundo de Jack” (1993), filme esse que já trazia esse tom onírico e assustador de “Coraline”. Nesse último, Selick preserva a sua técnica impecável de stop-motion, além de desenvolver uma narrativa tensa e eletrizante recheada de tipos que oscilam entre o encantador e o assustador. Aliás, essa ambigüidade permeia toda a trama. O visual arrebatador e colorido que predomina no mundo de fantasia que a menina Coraline adentra também traz dentro de si um ambiente repleto de obscuridades e atos cruéis. Gaiman e Selick ousaram colocar num filme infanto-juvenil aquele que é o maior medo de uma criança ou adolescente: a perda dos pais. E no caso de Coraline, a situação ainda é pior, pois essa possibilidade pode ocorrer por um ato dela mesma. Não é a toa que na sessão em que assisti à “Coraline” não se ouvia um pio por parte da gurizada, sendo que inclusive ouvi comentários que em outras sessões do filme havia até criança chorando. Eu mesmo achei essa a produção mais assustadora que assisti nos cinemas nesses últimos dois anos, pelo menos. E essa constatação só comprova uma posição mais que saudável e corajosa de Selick em preservar a atmosfera original e sombria da literatura de Gaiman, fazendo a gente sonhar com a hipótese de uma adaptação mais que decente para a magnífica série “Sandman”, a obra máxima do referido autor inglês.

sexta-feira, abril 24, 2009

O Lutador, de Darren Aronofsky ****


Confesso que os dois primeiros filmes do cineasta Darren Aronofsky, “Pi” (1998) e “Réquiem Para Um Sonho” (2000) nunca me chamaram muito a atenção, fazendo com que eu achasse tal diretor um nome tremendamente superestimado. “A Fonte” (2006), bela produção de ficção científica influenciada visualmente por quadrinhos europeus, fez tal situação mudar bastante de figura. Mas é agora com “O Lutador” (2008) que Aronofsky mostra definitivamente que é um grande diretor. Ele adora um estilo seco e direto, de tons quase documentais, nessa narrativa sobre o lutador decadente Randy “Lamb” (Mickey Rourke) que se vê diante de uma encruzilhada existencial, não abrindo mão, entretanto, de utilizar brilhantemente recursos estéticos como planos seqüências e alternância de narrativa em dois tempos. Nesse sentido, são inesquecíveis seqüências como aquela em que o protagonista percorre o supermercado onde trabalha como se estivesse preste a entrar em um ringue ou quando ele luta com o grotesco Necron, em que são mostrados de forma praticamente simultânea o pós-combate, com “Lamb” examinando os seus ferimentos, e a própria luta em si, um dos momentos de brutalidade mais intensos já mostrados no cinema. Além disso, Aronofsky se afasta da solução óbvia de encarar o drama de “Lamb” como uma parábola edificante ou de redenção, oferecendo ao personagem uma densidade dramática fascinante ao retratá-lo como um indivíduo que percebe que é tarde demais para mudar de atitude perante o mundo, restando-lhe apenas agir de forma coerente com o que ele foi durante toda a sua vida

Jango, de Silvio Tendler ***1/2


Esse documentário de 2004 dirigido por Silvio Tendler focalizando a vida de João Goulart tem um tom escancaradamente panfletário e é quase didático em algumas seqüências. Essa visão mais ideológica de Tendler, entretanto, funciona a favor do filme, pois oferece vigor e paixão raros de se encontrar nesse tipo de produção. A dinâmica da narrativa, misturando preciosas imagens de arquivos com depoimentos contundentes em um trabalho fenomenal de edição, faz com que “Jango” tenha um ritmo impressionante de “thriller”. Tanto para os interessados na História do Brasil como para os simples apreciadores de cinema, “Jango” é um filme imperdível!

quinta-feira, março 19, 2009

5 Frações de Uma Quase História, de Cristiano Abud, Cris Azzi, Thales Bahia, Guilherme Fiúza, Lucas Gontijo e Armando Mendez **


É óbvio que filmes episódicos têm uma forte tendência em serem irregulares na sua consistência artística. “5 Frações de Uma Quase História”, produção brasileira de 2008, é exemplo claro disso. São cinco tramas destoantes entre si, tanto tematicamente quando nas suas respectivas concepções formais. Vai de alguns delírios de inspiração experimental até narrativas mais tradicionais, num caldeirão de referências que abarca de David Lynch a Nelson Rodrigues. Todos os diretores dessa criação coletiva buscam também uma certa autenticidade mais característica do cinema nacional de algumas décadas atrás, mas o resultado final é até asséptico demais. Em vez daquele tom popular anárquico e indiretamente subversivo do cinema “udigrudi” ou da Boca do Lixo, tem-se um filme bem comportado, metido a moderninho e que parece seguir algum manual de faculdades de cinema. Faltou a coragem, por exemplo, de “Conceição – Autor Bom é Autor Morto”, produção nacional recente que tem uma proposta conceitual bem semelhante, mas que não tem medo de meter o pé na jaca ao se aprofundar em referências ora intelectuais ora grotescas. De qualquer forma, vale uma conferida por algumas boas interpretações e por algumas seqüências mais irônicas.

Sexta-Feira 13, de Marcus Nispel **1/2


Quem for assistir a esse filme de “recomeço” da franquia “Sexta-Feira 13” esperando maiores novidades vai ter uma decepção. Até porque o roteiro do filme é um requentado da trama dos três primeiras partes da série original. Mas desde quando as tramas é o que importavam nos antigos filmes da saga de Jason Vorhees? O que interessava mesmo era a brutalidade das mortes e se de vez em quando apareceria alguma beldade pelada. E nesses quesitos, esse “Sexta-Feira 13” até que dá conta do recado. Jason pode não ser muito criativo na forma como detona uma porção de jovens desmiolados, mas faz com violentas convicção e coerência. E as meninas gostosas que tiram a roupa com facilidade admirável são de tirar o chapéu. E por fim tem um mérito inquestionável: fazia tempo que eu não ia numa sessão de cinema repleta de gritos, urros e assovios como essa. Valeu Jason!!

A Erva do Rato, de Júlio Bressane ***1/2


Tentar decifrar “A Erva do Rato” (2008), a obra mais recente de Júlio Bressane, em uma breve resenha é uma tarefa quase inviável. Roteiro e imagens trazem múltiplas referências culturais, filosóficas e até mesmo antropológicas e que podem implicar em várias interpretações. Além disso, uma narrativa de forte caráter simbólico e a mescla da linguagem cinematográfica com influências literárias vindas de dois contos de Machado de Assis tornam tal filme ainda mais complexo e intrincado em sua concepção. Um dos grandes méritos de Bressane é justamente conseguir dar uma certa unidade formal para esse verdadeiro caleidoscópio de idéias, principalmente através do impressionante trabalho de direção de fotografia de Walter Carvalho e pelos minuciosos desempenhos dramáticos de Selton Mello e Alessandra Negrini. A conjugação de todos esses elementos faz de “A Erva do Rato” uma das experiências mais desafiadoras e estimulantes da cinematografia recente brasileira.

O Leitor, de Stephen Daldry *1/2


Em cada fotograma de “O Leitor” (2008) parece estar estampado um desejo: “Por favor, eu quero ser indicado para o Oscar”. Tudo que a Academia gosta está lá: fotografia limpa, edição sem sobressaltos, roteiro de temática “séria” (tem até II Guerra no meio...), atores respeitáveis em atuações sóbrias, mensagens edificantes. A estratégia deu resultados, sendo que o filme ganhou várias indicações para o Oscar, levando a estatueta para melhor atriz. Isso, entretanto, quer dizer que o filme é bom? Infelizmente, na minha opinião, não é o caso. De tão preso a fórmulas pré-determinadas, “O Leitor” é um filme sem alma e chato. Todos os ingredientes que citei acima (roteiro, fotografia, edição, interpretações, etc) parecem estar ali simplesmente jogados na tela, sem a menor inspiração. A pretensa visão “madura” e “séria” na verdade sucumbe a uma trama com momentos de dramalhão dignos das novelas mais xumbregas. No mais, incomoda ver uma atriz tão talentosa como Kate Winslet, que já teve interpretações memoráveis em filmes como “Almas Gêmeas” (1994) e “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” (2004), ganhar o tal do Oscar por uma atuação tão insípida quanto essa de “O Leitor”.

Hermeto Campeão, de Thomas Farkas **1/2 e Tom Zé ou Quem Irá Colocar Uma Dinamite na Cabeça do Século, de Carla Gallo ***


É claro que esses dois médias metragens estão longe de serem obras-primas cinematográficas. São, entretanto, imprescindíveis para quem gosta de música brasileira ou se interessa por cultura em geral por trazerem imagens raras, depoimentos e números musicais dos artistas focalizados. O fato dos mesmos estarem distantes da grande mídia torna ainda mais fascinante todos esses aspectos que são focalizados nos documentários em questão, onde a história pessoal e a concepção artística de cada um deles se mostram ligadas de forma intrínseca à música de ambos.

Filmes Vistos em DVD nas últimas semanas (Cotações de 0 a 4 estrelas)


Paisá, de Roberto Rossellini ****
Eraserhead, de David Lynch ****
007 – Licença Para Matar, de John Glen ***1/2
MR 73 – A Última Missão, de Olivier Marchal ****
Renegado Impiedoso, de Michael Winner ****
À Procura da Vingança, de David Von Ancken ***1/2
O Castelo Maldito, de Stuart Gordon ***

Sim Senhor, de Peyton Reed ***


Como algumas críticas já disseram, “Sim Senhor” (2009) realmente tem uma trama que lembra “O Mentiroso” (1997), filme que também tinha Jim Carrey como protagonista. A verdade, entretanto, é que trama é o que menos importa em “Sim Senhor”. Afinal, o frágil roteiro é apenas um pretexto para alguns detalhes preciosos como algumas belas gozações de Carrey, o sarro com o rock indie através da banda fictícia Munchausen by Proxy, o jeitinho insólito e adorável de Zooey Deschanel, as festas temáticas do personagem de Rhys Darby, a trilha sonora de banda Eels. Mesmo não tendo a consistência de “Abaixo o Amor” (2003) e “Separados pelo Casamento” (2006), produções anterior de Peyton Reed, “Sim Senhor” está bem acima da média em relação aos lançamentos cômicos mais recentes.

sábado, março 07, 2009

Noivas em Guerra, de Gary Winick *


O problema de “Noivas em Guerra” não é o simples fato dessa produção ser uma comédia romântica. Afinal, já saiu muita coisa boa nesse gênero (“Levada da Breca”, “Harry e Sally – Feitos Um Para o Outro”, a primeira versão de “Sabrina”). O problema de “Noivas em Guerra” é que o filme é medíocre mesmo, sem inspiração, mecânico no seu sentimentalismo barato formulaico. E faz pensar o que aconteceu com a Kate Hudson, que fazia aquela guriazinha adorável e gostosinha de “Quase Famosos” (2001), a inesquecível Penny Lane, e nesse “Noivas em Guerra” está mais parecendo uma patricinha qualquer. O tempo é realmente implacável...

Surpresas do Amor, de Seth Gordon ***


O cara que bolou esse título em português para essa produção norte-americana de 2008 deveria ser processado. Afinal, “Surpresas do Amor” faz pressupor uma comédia romântica água com açúcar daquelas com Meg Ryan, quando na verdade o filme em questão, cuja tradução literal do seu título em inglês seria “4 Natais”, traz uma visão bem sarcástica sobre as relações amorosas e familiares, além de seqüências cômicas regadas a escatologia e grosseria. É claro que se tratando de uma comédia de Hollywood, essa concepção mais irônica não leva a sua crítica até às últimas conseqüências, sendo que a sua conclusão fica mais na linha do edificante. Mesmo assim, “Surpresas do Amor”, apesar do título cretino, é uma comédia acima da média em relação ao que chega normalmente nos nossos cinemas no gênero.

Ninho Vazio, de Daniel Burman ***1/2


Ler a pequena sinopse de “Ninho Vazio”, produção argentina de 2008, que tem saído nos jornais não dá a menor idéia do que o mesmo representa. A descrição é algo como “casal na meia-idade é obrigado a reestruturar a sua rotina após os filhos saírem de casa”, o que faz pensar em algo numa linha melodramática, o que está muito longe do que assistimos na tela. O diretor Daniel Burman utiliza um recurso narrativo muito interessante. Ao longo do filme, situações vão se sucedendo de forma quase aleatória, às vezes quase vaga, em outras oportunidades até francamente inconsistente, beirando um insólito surrealismo. Os personagens parecem ter uma propensão para o caricato. Aos poucos, entretanto, essa trama aparentemente desfocada vai adquirindo um estranho sentido até um ponto que o que se enxerga é o processo criativo do protagonista, um veterano escritor (Oscar Martinez) que vai compondo a sua obra de acordo com o quotidiano e as suas próprias impressões. É como se ele testasse possibilidades dramáticas até chegar a um ponto que considere o ideal. Por mais que tal solução narrativa possa parecer forçada, em “Ninho Vazio” ela se mostra uma opção muito bem delineada, mostrando como cinema e literatura são, em sua essência, jogos de ilusões e impressões pessoais.

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Quando Você Descer do Céu, de Éric Guirado ***


Essa produção francesa de 2003 é surpreendente. O diretor Eric Guirado combina com habilidade drama social com toques intimistas e cômicos, sem cair para o enfadonho. Inicialmente, fatos banais do quotidiano de um jovem interiorano recém chegado na cidade grande vão se sucedendo quase que aleatoriamente, mas aos poucos a narrativa ganha densidade dramática, envolvendo cada vez mais o espectador na jornada de perda da inocência do protagonista perante uma sociedade corrompida. O filme evita as soluções maniqueístas ou simplórias, mas também não tende para niilismos. Mesmo diante da aparente impotência do personagem principal em mudar o que está errado, o final chega a ser quase redentor e esperançoso. Guirado acerta também no registro da fotografia para essa pequena saga acre-doce, com um estilo de filmar que oscila entre o quase documental e o tom de fábula.

Leonera, de Pablo Trapero ***



“Leonera” (2008) aborda em sua trama algumas questões que por várias vezes já foram vistas nas telas: quotidiano na prisão, julgamentos injustos, maternidade colocada à prova em situação extrema. Mesmo não trazendo novidades, é uma produção que impressiona pela contundência e objetividade com que o diretor argentino Pablo Trapero se utiliza para filmar. Não há uma preocupação de criar empatia da protagonista com o público, sendo que as situações mostradas ao longo da trama são tão realistas que por vezes se tem a impressão de se estar assistindo a um documentário. O naturalismo das seqüências de nudez, a sexualidade crua dos personagens e a maneira sem concessões de retratar as relações humanas formam um conjunto perturbador que tem um impacto ainda maior associado à fotografia nada estilizada do filme.

Mesmo não tendo um resultado final tão satisfatório quanto “A Família Rodante” (2004) e “Nascido e Criado” (2006), obras anteriores de Trapero, “Leonera” é um filme que confirma o nome desse cineasta como um dos mais interessantes no atual cinema argentino.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Juízo, de Maria Augusta Ramos ***

Antes de mais nada, cabe ressaltar uma coisa: por mais que “Juízo” (2007) tenha por base fatos exclusivamente baseados em fatos reais, tal obra não se trata de um documentário, ao contrário de “Justiça” (2004), obra anterior da diretora Maria Augusta Ramos. Nessa produção mais recente, a cineasta optou por um recurso criativo que lembra bastante “Jogo de Cena” (2008) de Eduardo Coutinho. Em “Juízo”, há recriações dramáticas de alguns casos que tramitaram em uma Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro, além do retratar o quotidiano dos menores infratores em um centro de reeducação. Como por lei é proibido filmar menores infratores, os mesmos são “interpretados” por outros jovens igualmente carentes, mas que não tem problemas de justiça. Por outro lado, juízes, promotores e defensores públicos “interpretam” a si mesmos. É claro que o conteúdo do filme é impactante, pois apesar do mesmo não ser um documentário, o estilo de filmar da diretora é bastante seco e direto. A rotina e a trajetória desses jovens constituem um todo massacrante e com uma carga angustiante considerável. Mas confesso que o que mais me impressionou em “Juízo” foi a opção estética de Maria Augusta Ramos, em que por mais que se saiba que estamos vendo situações baseadas em fatos reais, ao mesmo tempo ficamos com a dúvida do quanto aquilo é distorcido pela própria interpretação da realidade. É nessa situação dúbia que se encontra a força motriz da narrativa do filme.

Linha de Montagem, de Renato Tapajós


Esse documentário sobre as greves ocorridas no ABC Paulista no final da década de 70 e início da de 80, lançado originalmente em 1982, pode ser fortemente didático e até mesmo panfletário em algumas seqüências. Por outro lado, entretanto, é uma obra que impressiona pela sua dinâmica narrativa. Acompanha-se a luta e os infortúnios dos grevistas como se assistisse a um tenso filme policial cheio de reviravoltas. Contribuem muito para isso a fotografia direta e sem enfeites e a montagem precisa do filme. Mesmo quem não é muito fã do Lula ou não simpatiza com o ideário esquerdista pode acabar seduzido por esse bem conduzido “Linha de Montagem”.

Foi Apenas Um Sonho, de Sam Mendes ***


Esse é um daqueles velhos casos que já comentei aos montes nesse blog: é um filme baseado em livro que não li, mas que se percebe que a obra literária em questão deve realmente ser muito boa, mas o resultado fílmico não é tanto... Digo isso porque ao se analisar a trama de “Foi Apenas Um Sonho” se pode perceber que as idéias que estão ali dentro estão certas e bem delineadas. O problema do filme é o tratamento cinematográfico convencional e demasiadamente preso a fórmulas (a mania de se aproximar a câmera dos personagens a cada momento que eles dizem algo de relevante chega a ser irritante...). O cineasta Sam Mendes estruturou a produção num formato de tragédia grega. E isso fica evidente, por exemplo, no personagem Jon (Michael Shannon), que faz a função daqueles coros que nas tragédias comentavam e até mesmo faziam o juízo do que estava sendo mostrado em cena. O problema é que o que era para ser uma possibilidade para maiores vôos criativos acaba se tornando uma verdadeira camisa-de-força, tornando a narrativa um modelo didaticamente aborrecido das mazelas de uma mulher sufocada pelo moralismo e mediocridade da sociedade norte-americana nos anos 50. Mendes enfoca todos os dramas dos personagens nos diálogos, não dando espaço para o subtexto que as imagens poderiam oferecer, carregando também de forma exagerada no dramatismo.

É claro, entretanto, que “Foi Apenas Um Sonho” está muito distante de não ser considerado um bom filme. Fotografia e direção de arte contribuem para fazer uma bela reconstituição visual dos anos 50, lembrando muito, nesse sentido, o sensacional “Longe do Paraíso” (2002), de Todd Haynes. Além disso, as atuações de Leonardo Di Caprio, Kate Winslet e Michael Shannon impressionam em determinadas seqüências pelas suas detalhistas nuances dramáticas. O maior problema do filme, na verdade, é que se fica com a constante impressão de que o mesmo poderia ser bem melhor. Até porque Sam Mendes vinha de uma obra absolutamente brilhante, o contundente “Soldado Anônimo” (2005).

A Alegria de Emma, de Sven Taddicken **


Os primeiros minutos de “A Alegria de Emma”, com iluminação natural e imagem quase granulada, pode fazer pensar em algo no estilo contundente do Dogma 95. O diretor Sven Taddicken , entretanto, está muito longe do talento e do rigor estético de um Lars Von Trier, por exemplo. Apesar da aparente pretensão de contar uma história por um viés mais cru e humano, o filme resvala várias vezes para o sentimentalismo fácil, além de não apresentar maiores vôos formais. Além disso, a combinação de momentos cômicos com situações mais sérias, ou até mesmo trágicas, é completamente destoante, tirando muito do impacto que algumas seqüências poderiam ter.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Quando Você Viu Seu Pai Pela Última Vez?, de Anand Tucker **1/2


Essa produção inglesa de 2007 é baseada em livro de memórias do escritor Blake Morrison, focado principalmente no seu complicado relacionamento com o pai. Não li tal obra, mas se pode perceber pelo roteiro do filme que a tônica seria uma visão mais sóbria sobre questões familiares mal-resolvidas. Isso faz com que em alguns momentos “Quando Você Viu Seu Pai Pela Última Vez?” tenha um impacto considerável sobre o espectador, principalmente por essa visão mais crua ao retratar temas como morte, doença, incomunicabilidade entre pais e filhos. O problema, entretanto, é que o diretor Anand Tucker parece mais preocupado em formatar o filme em uma obra mais digerível, o que faz com que em várias seqüências o filme caia para um tom melodramático excessivo, principalmente pelo uso exacerbado e inconveniente de uma trilha sonora por vezes piegas, o que dá para “Quando Você Viu Seu Pai Pela Última Vez?” ares daqueles surrados telefilmes que de vez em quando passam no Supercine.

O Mistério do Samba, de Lula Buarque de Hollanda e Carol Jabor ***1/2


Esse documentário sobre a Velha Guarda da Portela tem um mérito inquestionável: mesmo tendo como enfoque principal a música dos velhos sambistas, o roteiro e os depoimentos do filme não funcionam apenas como meros pretextos para os números musicais. Muito pelo contrário! Os testemunhos de músicos brilhantes como Casquinha, Jair do Cavaquinho, Argemiro do Patrocínio, Monarco, Casemiro dão o complemento perfeito para as canções que são apresentadas em “O Mistério do Samba”, mostrando de forma brilhante como a própria vida dessas pessoas está ligada intrinsecamente à sua arte. Os diretores Lula Buarque de Hollanda e Carol Jabor também conseguem fugir da traiçoeira armadilha de fazer apenas uma obra de exaltação aos músicos aqui focados, sendo que em várias seqüências do documentário impressionam pela crueza e ironia amarga da visão de vida de alguns desses artistas, o que fica ainda mais acentuado no visual simples e sem afetações da fotografia. Essa “cama” preparada pelos cineastas faz com que a música sempre irrompa em “O Mistério do Samba” com uma força bruta extraordinária.

Um Faz de Contra Que Acontece, de Adam Shankman *1/2


Adam Sandler é um comediante de recursos, sendo que aproveitado por um diretor de talento pode render momentos interessantes. Nesse caso, é só lembrarmos do sensacional “Embriagados de Amor” (2002), comédia dramática de Paul Thomas Anderson. O problema, entretanto, é que Sandler parece mais conformado em participar de insossas comédias família, daquelas em que a cada 5 minutos se tem uma lição de vida ou algum outro momento edificante. Esse é exatamente o caso de “Um Faz de Conta Que Acontece” (2008). Pode-se sentir até em algumas seqüências que há algo ali potencialmente engraçado, mas que acaba sendo sufocado por toneladas de açúcar.

Austrália, de Baz Luhrman **1/2


O problema de Baz Luhrman em “Austrália” (2008) não é o fato de ele ter realizado uma obra épica e acadêmica. Afinal, depois de filmes tão “camp” como “Romeu + Julieta” (1996) e “Moulin Rouge” (2001), provavelmente Luhrman quis dirigir uma produção mais “séria” e tradicional, ao invés das usuais narrativas alegóricas e coloridas beirando o cafona e a paródia que fizeram a sua fama, para mostrar que ele pode ser um cineasta “respeitável”. O que realmente emperra esse seu filme mais recente é que o mesmo é um épico acadêmico excessivamente desajeitado, com uma narrativa artificial e presa às convenções do gênero que raramente consegue oferecer para a sua trama um desenvolvimento mais natural e homogêneo, o que faz com que qualquer impacto dramático que o roteiro pudesse trazer tenha resultados nulos. Para piorar, raramente Nicole Kidman e Hugh Jackman tiveram momentos de canastrice dramática tão constrangedores quanto em “Austrália”. Mas seria injusto dizer que o filme é um desastre total. É inegável que a fotografia de grandes paisagens e a reconstituição de época fortemente estilizada em algumas seqüências trazem alguns momentos atraentes para obra, e mesmo os referidos excessos desajeitados, ainda que involuntariamente, são risíveis pelo ridículo, o que torna “Austrália” até um filme aprazível ocasionalmente.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Café dos Maestros, de Miguel Kogan **1/2


Esse é um documentário bem filmado, as tomadas das apresentações dos músicos tocando e cantando tangos são bonitas, mas a verdade é que o filme não tem uma dinâmica envolvente. Os depoimentos dos músicos são tão artificiais que fazem o filme parecer um documento institucional do tango, tendo em vista a assepsia excessiva que paira durante boa parte da metragem do documentário. Chega a um ponto que já não se consegue distinguir quem está falando tal a uniformidade e a burocracia com que o material é jogado na tela. No final das contas, parece um monte de velhinhos simpáticos fazendo declarações de amor ao tango. Faltou individualizar melhor cada um dos músicos, para se perceber com maior nitidez as nuances de cada um. O concerto final, num tradicional teatro argentino, recebe uma edição apressada demais, não dando tempo ao espectador de sentir devidamente o objetivo do espetáculo, ou seja, a música em si. A impressão final que se tem de “Café dos Maestros” é a de que se assistiu a uma espécie de “Buena Vista Social Club” do tango, só que bem menos inspirado.

sábado, janeiro 31, 2009

O Curioso Caso de Benjamin Button, de David Fincher ***


Não que a obra em questão seja um filme ruim. A direção de arte é muito bem cuidada, a fotografia é de bom gosto, os efeitos especiais são realmente deslumbrantes. Ou seja, é um bom filme... O problema é que a gente sai do cinema com a sensação de que poderia ter sido muito melhor. David Fincher é um diretor que tem em seu currículo obras-primas como “Seven” (1995), “O Clube da Luta” (1999) e “Zodíaco” (2007), e a premissa inicial do filme, baseada em um conto de F. Stott Fitzgeral, é altamente promissora. O resultado é decepcionante, tendo em vista uma excessiva assepsia que paira por todo o filme. Em alguns momentos, o filme parece uma mistura indigesta de elementos de outros filmes que “deram certo”: o gosto por situações e personagens exóticos de “O Fabuloso Destino de Amelie Poulan”, a mistura de fábula com eventos reais de “Forrest Gump”, uma história de amor impossível de “As Pontes de Madison”. Falta personalidade e vida para “O Curioso Caso de Benjamin Button”, o que acaba sendo surpreendente para um cineasta tão criativo como Fincher, sendo que essa junção burocrática de influências acaba soando mais como uma tentativa de obter o máximo possível de indicações para o Oscar (o que acabou realmente acontecendo).

O Dia Em Que a Terra Parou, de Scott Derrickson ***


Antes de mais nada, vamos esclarecer um ponto que parece obvio, mas que é sempre bom lembrar: essa refilmagem não chega aos calcanhares do filme original de 1951. E tendo isso em mente e se livrando daquela coisa de cinéfilo radical de ficar comparando versões detalhe por detalhe, o que resta é uma ficção científica agradável e divertida. Os efeitos especiais são excelentes, a trama consegue ter alguns bons momentos de tensão, apesar de algumas escorregadas para o sentimentalóide, e o diretor Scott Derrickson consegue uma proeza considerável: até a inexpressividade do Keanu Reeves é bem aproveitada! Afinal, interpretar um alienígena humanóide não exige maiores vôos de interpretação...

terça-feira, janeiro 27, 2009

Onde Andará Dulce Veiga?, de Guilherme de Almeida Prado ***1/2


“Onde Andará Dulce Veiga?” (2007) é um tipo raro de filme dentro do atual panorama do cinema nacional. Em vez de fazer “crítica social” ou dar lições obtusas de história, o cineasta Guilherme de Almeida Prado busca o desenvolvimento de uma linguagem cinematográfica rebuscada e original, onde uma gama de referências vindas não só do cinema como também da música, literatura e quadrinho forma um estranho e atraente amálgama visual e sonoro. Prado não quer apenas que o espectador acompanhe a sua trama rocambolesca, mas que também embarque numa verdadeira viagem sensorial não só pelo imaginário do próprio diretor, mas também por um imaginário cultural coletivo. Muitos elementos que saltam das telas em “Onde Andará Dulce Veiga?” são familiares aos nossos olhos, mas também trazem uma sensação de algo insólito.

Mesmo sendo um pouco mais irregular e convencional do que a obra-prima “A Hora Mágica” (1998), “Onde Andará Dulce Veiga?” acaba sendo uma obra cinematográfica esteticamente vigorosa e ousada como poucas a aparecer ultimamente em nossas salas. Afinal, não é todo o dia que se vê misturado de forma tão coesa elementos aparentemente tão díspares como o surrealismo de David Lynch, influências de cinema noir, erotismo deslavado típico do cinema da Boca do Lixo e o espírito brasileiro escancaradamente romântico derramado de uma samba canção...

A Troca, de Clint Eastwood ***1/2


Quem for ao cinema para ver “A Troca” (2008) esperando algo do nível de “Os Imperdoáveis” (1992), “Sobre Meninos e Lobos” (2003) e “A Conquista da Honra” (2006) pode se decepcionar um pouco. O primeiro terço do filme, apesar de uma direção sóbria e classuda de Eastwood, parece excessivamente com aqueles dramas “baseado em fatos reais” que passavam direto no Supercine. Do tipo, “mulher determinada enfrenta os preconceitos de uma sociedade machista e sofre pra caramba”. Só que o velho Clint guardou um belo ás na sua manga, e lá pela metade de “A Troca” ele começa a desenvolver uma trama paralela que envolve um psicopata matador de crianças. Nessa segunda trama, o seu estilo filmar, seco e contundente, aliado a uma fotografia luminosa que contrasta de forma magnífica com o teor soturno da narrativa, dá uma nova dimensão para um roteiro convencional, fazendo com que se a trama se distancie do maniqueísmo simplório e desemboque numa arguta exploração sobre a crueldade humana.

É interessante também a forma com que Eastwood obtém interpretações dos atores que beiram o naturalismo, principalmente dos coadjuvantes. A aparente inexpressividade de alguns rostos que aparecem ao longo de “A Troca” é muito mais eloqüente, repleta de nuances e de um impacto dramático maior do que as interpretações “over” de Angelina Jolie e de John Malkowich.

O saldo final de “A Troca” é evidentemente positivo: mesmo distante de ter feito uma obra-prima, Clint Eastwood mostra um raro domínio da linguagem cinematográfica, provando que continua tranqüilo dentro do clube dos grandes do cinema norte-americano.

Bolt – Supercão, de Chris Williams e Byron Howard ***


O melhor momento da animação “Bolt – Supercão” é a sua seqüência de abertura, justamente o breve período em que temos o “filme dentro do filme”, em que a aventura eletrizante que estamos assistindo na verdade é uma encenação de seriado que o personagem título protagoniza. São cerca de 15 minutos de uma ação desenfreada e brilhantemente executada, algo do nível dos sensacionais “Os Incríveis” (2004) e “Kung Fu Panda” (2008). Depois desse fantástico começo, quando se esclarece a farsa de que o cãozinho era um ator que desconhece estar vivendo apenas uma ficção, o filme desacelera bastante e se transforma em uma comédia de erros simpática e eficiente. Por mais que essa mudança na narrativa decepcione, é inegável que “Bolt – Supercão” é uma das produções infantis de 2008 mais cativantes, sendo que mesmo os seus momentos mais dramáticos têm a consistência exata para não cair no piegas. E só a já mencionada seqüência de abertura já faz valer o ingresso.

domingo, janeiro 18, 2009

Sete Vidas, de Gabriele Muccino ***


Apesar de “Sete Vidas” (2008) ser um bom filme, confesso que saí um pouco decepcionado do cinema. Digo isso porque tinha forte ainda na minha mente o impacto que tinha sido para mim o ótimo “A Procura da Felicidade” (2006), parceria anterior entre o diretor italiano Gabriele Muccino e o ator Will Smith. E é claro que não daria para esquecer outro excelente trabalho de Muccino, “O Último Beijo” (2001), uma das melhores produções italianas de década.

A narrativa de “Sete Vidas” traz um recurso que vem sendo muito utilizado nos últimos anos: ao longo da trama, tem-se uma situação nebulosa que vai sendo aos poucos esclarecidas com a utilização de pequenos flashbacks até que no final da trama o espectador recebe a resposta final para toda aquela confusão que vinha acompanhando. O que incomoda no filme é justamente que o tal esclarecimento do mistério é algo até previsível lá pela metade do mesmo, sendo que a forma como as pontas do roteiro se fecham no final é bem-comportada demais, tirando muito da força da tensão inquietante que permeia boa parte da obra.

Apesar desse problema na narrativa, “Sete Vidas” tem os seus méritos. Mesmo que a sua conclusão incomode pelo convencionalismo, não há como negar que há uma coerência brutal e sem concessões nas atitudes do protagonista vivido por Will Smith. A seqüência do seu suicídio chega a ser perturbadora, não só pela contundência, mas também pelo tom poético e quase onírico de tal momento do filme.

Um Homem Bom, de Vincente Amorim ***


Viggo Mortensen é aquele tipo de ator que faz com que eu sempre olhe com interesse qualquer filme que ele participe. Além de grande intérprete, o cara teve papéis marcantes em filmes memoráveis como “Reflexos do Mal” (1991), “Unidos Pelo Sangue” (2001), “O Pagamento Final” (1993) e “Marcas da Violência” (2005). Ou seja, tem o tino para escolher as produções das quais participa.

Em “Um Homem Bom” (2008), o desempenho notável de Mortensen como um professor e escritor pacífico que adere meio sem querer ao Nazismo é a força motriz do filme, com o autor desenvolvendo com mestria um papel complexo e cheio de nuances dramáticas. Mas seria injusto dizer que essa obra mais recente do brasileiro Vincente Amorim tem como único trunfo a atuação do seu protagonista. Mesmo caindo em alguns momentos em alguns excessos formalistas convencionais, o cineasta revela virtudes surpreendentes, principalmente nas seqüências em que a narrativa cai para um tom onírico e delirante que lembra bastante o cinema de David Lynch.

Uma Comédia Nada Romântica, de Jason Friedberg e Aaron Seltzer *1/2


Talvez a grande virtude de uma comédia esteja na capacidade de arrancar o riso do espectador a partir de um detalhe inesperado, além do fato de que essa surpresa deve brotar de forma quase que espontânea. É justamente essa combinação dos fatores do inesperado e da naturalidade que torna a comédia um dos gêneros mais transgressivos no cinema. Olhando por esse lado, dá para entender um pouco porque um filme como “Uma Comédia Nada Romântica” (2006) é uma obra que já nasce desgastada. Por mais que tenha a pretensão de satirizar outros filmes (no caso, as tais comédias românticas que saem aos borbotões de Hollywood), o seu humor é demasiadamente mecânico e sem vida, pois a obrigação de estar vinculada a fazer uma série de citações a outras obras cinematográficas faz com que a produção esteja atada a uma camisa-de-força que impede maiores vôos de inspiração e criatividade. Ocasionalmente, o filme até consegue ser engraçado, mas o que predomina na sua hora e meia de duração é um marasmo burocrático, o que é uma sentença de morte para qualquer comédia.

Nessa linha de satirizar gêneros cinematográficos, vale muito mais a pena assistir obras como “Todo Mundo Quase Morto” (2004), “Chumbo Grosso” (2007) e “A Vida é Dura” (2007), comédias que demolem com inteligência e ironia os clichês, respectivamente, dos filmes de horror, policiais e cinebiografias musicais, mas que ao mesmo tempo revelam até um conhecimento de causa e reverência a tais gêneros.

O Gato de Nove Caudas, de Dario Argento ****


Depurando ainda mais a peculiar linguagem cinematográfica de “O Pássaro de Plumas de Cristal” (1969), o cineasta italiano Dario Argento faz de “O Gato de Nove Caudas” (1971) um dos exemplares mais clássicos do gênero Giallo. Com uma rocambolesca e confusa trama envolvendo um psicopata assassino, o que o Argento faz é uma requintada e exagerada demonstração do seu virtuosismo plástico. Esqueça a lógica e a verossimilhança: o que temos aqui é um belíssimo exercício de fotografia e cenografia fortemente estilizadas, aliado a uma montagem influenciada pelo melhor da obra de Alfred Hitchcock. E falando no velho mestre inglês do suspense, o que me vem mente assistindo a “O Gato de Nove Caudas” é o pensamento de Argento como muito mais que um mero reciclador dos preceitos hitchcockianos. O cara é uma espécie de Hitchcock ainda mais barroco e hardcore, livre das amarras moralistas dos estúdios de Hollywood.

domingo, janeiro 11, 2009

Os 30 melhores filmes de 2008


1) Onde os Fracos Não Têm Vez, de Ethan e Joel Coen
2) Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson
3) O Gângster, de Ridley Scott
4) Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto, de Sidney Lunet
5) Sweeney Tood – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, de Tim Burton
6) O Sonho de Cassandra, de Woody Allen
7) O Segredo do Grão, de Abedel Kechini
8) Queime Depois de Ler, de Ethan e Joel Coen
9) A Espiã, de Paul Verhoeven
10) O Nevoeiro, de Frank Darabont
11) Kung Fu Panda, de John Stevenson e Mark Osborne
12) Não Estou Lá, de Toddy Haynes
13) Control, de Anton Corbijn
14) Efeito Dominó, de Roger Donaldson
15) Os Senhores do Crime, de David Cronenberg
16) Reflexos da Inocência, de Bailie Walsh
17) Em Paris, de Christophe Honoré
18) Batman – O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan
19) Quase Irmãos, de Adam McKay
20) Trovão Tropical, de Ben Stiller
21) Paranoid Park – de Gus Van Sant
22) Cinturão Vermelho, de David Mamet
23) A Questão Humana, de Nicolas Klotz
24) (Rec), de Jaume Balagueró e Paco Plaza
25) Shortbus, de John Cameron Mitchell
26) Wall-E, de Andrew Stanton
27) Luz Silenciosa, de Carlos Reygadas
28) Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, de Steven Spielberg
29) Rock’N’Rolla – A Grande Roubada, de Guy Ritchie
30) Rambo 4, de Sylvester Stalonne

Filmes dos últimos meses (cotações de 0 a 4 estrelas)

A Caçada, de Richard Shepard ***
Missão Babilônia, de Mathieu Kassovitz **1/2
O Banheiro do Papa, de César Charlone e Enrique Fernández ***
Um Franco, 14 Pesetas, de Carlos Iglesias **
Era Uma Vez..., de Breno Silveira **
Armênia, de Robert Guédiguian **1/2
Eu Sou Juani, de Bigas Luna ***
Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese ****
Tua Vida em 65’, de Maria Ripoll *
Controle Absoluto, de D.J. Caruso ***
Montevideo Unde, de Martín Recto *
O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci ****
São Paulo Sociedade Anônima, de Luis Sérgio Person ****
O Mistério do Samba, de Lula Buarque de Hollanda ***1/2
Uma Garota Divida em Dois, de Claude Chabrol ***1/2
Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles ***
O Longo Amanhecer – Uma Cinebiografia de Celso Furtado, de José Mariani **1/2
Busca Implacável, de Pierre Morel ***1/2
U2 – 3D, de Mark Pellington e Catherine Owens **1/2
Hellboy 2 – O Exército Dourado, de Guillermo Del Toro ***
A Questão Humana, de Nicolas Klotz ****
O Diário dos Mortos, de George Romero ***1/2
Trovão Tropical, de Ben Stiller ****
Juventude Transviada, de Nicolas Ray ****
Corrida Mortal, de Paul W.S. Anderson **1/2
XXY, de Lucia Puenzo ***
As Duas Faces da Lei, de Jon Avnet *
Persona, Ingmar Bergman ****
Domésticas, de Fernando Meirelles **1/2
Sympathy For The Devil, de Jean-Luc Godard ***1/2
O Pequeno Tenente, de Xavier Beauvois ***1/2
Reflexos da Inocência, de Baillie Walsh ****
Espelhos do Medo, de Alexandre Aja ***
Jogos Mortais V, de David Hackl **1/2
Obras – A Gente Sabe Quando Começa, de Brigitte Rouan *1/2
Conterrâneos Velhos de Guerra, de Vladimir Carvalho ****
Rock’nRolla – A Grande Roubada, de Guy Ritchie ****
Eles Não Usam Black Tie, de Leon Hirszman ****
Um Segredo Entre Nós, de Dennis Lee **
Os Desafinados, de Walter Lima Jr. ***1/2
O Homem Que Virou Suco, de João Batista de Andrade ****
Em Busca da Vida, de Jia Zhang-ke ***1/2
Quantum of Solace, de Marc Forster ***1/2
Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen ***1/2
A Paixão de Joana D’Arc, de Carl Dreyer ****
O Coca, A Roda, O Pneu e O Farol, de Mariana Fortes ***
Frankstein, de James Whale ****
Pan-Cinema Permanente, de Carlos Nader ***1/2
Os Estranhos, de Bryan Bertino ***1/2
A Duquesa, de Saul Dibb **1/2
Feliz Natal, de Selton Mello ***1/2
Max Payne, de John Moore *
Minha Vida Não Cabe Num Opala, de Reinaldo Pinheiro*1/2
Obsessão, de Luchino Visconti ****
Lemon Tree, de Eran Riklis **1/2
Queime Depois de Ler, de Joel e Ethan Coen ****
O Destino Bate a Sua Porta, de Tay Garnett ****
O Narciso Negro, de Michael Powell e Emeric Pressburger ****
Brinquedo Proibido, de René Clément ****
Rede de Mentiras, de Ridley Scott ***
Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada, de Peter Hedges **1/2
O Segredo do Grão, de Abdelladif Kechiche ****
Quase Irmãos, de Adam McKay ****
Sindicato dos Ladrões, de Elia Kazan ****
Caos Calmo, de Antonello Grimaldi ***
Luz Silenciosa, de Carlos Reygadas ****
Panair do Brasil, de Marco Altberg **
Dois em Um, de Nicolas & Bruno **
O Traidor, de Jeffrey Nachmanoff ***
Paixões Que Alucinam, de Samuel Fuller ****
Beijo Na Boca Não, de Alain Resnais **1/2
Viagem à Itália, de Roberto Rossellini ****
Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha ****
Procedimento Operacional Padrão, de Errol Morris ***1/2
A Bela Junie, de Christophe Honoré ***1/2
15 Anos e Meio, de François Desagnat e Thomas Sorriaux ½ (meia estrela)
Atrizes, de Valeria Bruni-Tedeschi ***1/2
Elogio ao Amor, de Jean-Luc Godard ***1/2
Madagascar 2, de Eric Darnell e Tom McGrath ***
Gomorra, de Matteo Garrone ***
Sem Destino, de Dennis Hopper ****
A Culpa é do Fidel, de Julie Gavras **1/2
O Sol, de Alexander Sokurov ***1/2
Romance, de Guel Arraes *1/2
Carga Explosiva 3, de Olivier Megaton *1/2
Baby Love, de Vincent Garenq **
Conto de Natal, de Arnaud Desplechin ***1/2
O Menino de Pijama Listrado, de Mark Herman ***
Um Bom Homem, de Vicente Amorim ***
36, de Olivier Marchal ****
A Vida é Dura, de Jake Kasdan ***1/2
Morrer ou Viver, de Takashi Miike ***1/2
Entre o Céu e o Inferno, de Craig Brewer ****
Portishead – Roseland NYC, de Dick Carruthers ***1/2
Star Wars – Guerras Clônicas, de Genny Tartakovsky ****
O Círculo Vermelho, de Jean-Pierre Melville ****
Charada, de Blake Edwards ***1/2
Banho de Sangue, de Mario Bava ****
Meus Caros Amigos, de Mario Monicelli ***1/2
Valente, de Neil Jordan ***1/2
Caçador de Assassinos, de Michael Mann ****
Idiocracy, de Mike Judge ***1/2
Eleição – o Submundo do Poder, de Johnny To ****
O Belo Antônio, de Mauro Bolognini ***1/2
Aquarius, de Michele Soavi ***1/2
Gângsters, de Olivier Marchal ****
The Toxic Avenger, de Michael Hertz ***
Desafiando o Assassino, de Richard Fleischer ****
Náusea Total, de Peter Jackson ***1/2
Neil Young: Heart of Gold, de Jonathan Demme ****

O Menino de Pimama Listrado, de Mark Hermann ***


O cinéfilo velho de guerra pode ler a sinopse e assistir ao trailer de “O Menino de Pijama Listrado” e pensar logo: “putz, já vi esse filme algumas vezes...” E o nosso amigo não deixar de estar com a razão. É mais uma obra que tem como pano de fundo histórico a II Guerra Mundial e um dos principais aspectos de tal conflito: a perseguição aos judeus pela Alemanha nazista. Além disso, o diretor Mark Herman acrescenta uma das maiores lugares comuns nesse tipo de produção que é enquadrar a trama sob uma ótica infantil. E nem precisar ser um cinéfilo tão calejado para pensar logo em “A Vida é Bela”. E em boa parte de sua duração “O Menino de Pijama Listrado” parece mesmo uma versão requentada do filme mais conhecido de Roberto Benigni. Tem-se uma direção de arte e fotografia competentes, mas que incomodam em determinados momentos por dar uma concepção asséptica demais, onde até a sujeira e a doença apresentam um revestimento “clean”.

Ocorre, entretanto, que no terço final no filme, Herman adota um tom sombrio e uma tensão fortíssima que conduzem “O Menino de Pijama Listrado” para uma conclusão sinistra e sem concessões para sentimentalismos, com um impacto mais forte até do que o desfecho de “A Vida é Bela”. O diretor não se preocupa em oferecer um alívio cômico ou redentor para a platéia, apresentando apenas o puro horror de uma guerra genocida.

A comparação metafórica pode soar ridícula, mas “O Menino de Pijama Listrado” parece o disco de uma banda de rock em que as primeiras faixas são insossas composições na linha emo, mas que lá pela metade descamba para um hardcore porrada que salva a pátria.

Os Guarda-Chuvas do Amor, de Jacques Demy ****


Filmes de referência ou ruptura dentro da história do cinema mundial são algo do qual seguidamente ouvimos falar, tanto por parte da crítica ou de público. O fato, entretanto, é que se fossemos analisar com cuidado quais seriam as obras que se encaixam em tal definição veríamos que na verdade são poucas. Acredito que "Os Guarda-Chuvas do Amor" de Jacques Demy é um dos raros filmes que podem ser colocados nesse seleto grupo, tendo em vista que é uma das mais radicais experiências de utilização da linguagem cinematográfica.

O que Demy fez basicamente foi perverter os cânones dos musicais e levá-los às ultimas conseqüências. Não bastaria simplesmente reservar seqüências em que os atores do nada saem cantando e dançando. Em "Os Guarda-Chuvas do Amor" todos os diálogos são cantados, como se o mundo fosse uma perpétua ópera. O efeito de tal opção estilística de Demy é fascinante. A progressão e a intensidade da belíssima música composta por Michel Legrand estão em perfeita sintonia com a própria evolução da trama. Essa estética de irrealidade do cineasta fica ainda mais acentuada pela opção de utilização de figurinos e direção de arte em tons monocromáticos, com claras influências de pintura e quadrinhos.

O roteiro de "Os Guarda-Chuvas do Amor" é outro de seus aspectos diferenciais. Enquanto em musicais, digamos, "normais" as tramas geralmente são mais simples ou meramente alegóricas, servindo apenas como pretexto para a dança e a cantoria, no filme de Demy há uma história que impressiona pelo tom realista e lúcido ao retratar as relações humanas, mostrando como o caso de amor entre Genevieve (Catherine Deneuve) e Guy (Nino Castenuolvo) acaba tendo um fim melancólico após o rapaz ser obrigado a prestar o serviço militar na Argélia. É fantástica a forma com que a crueza e amargura de tal trama entra em contraste com a concepção formal tremendamente estetizada de Demy.

A estranha junção de melodrama e musical proposta por Demy vai ao encontro com as idéias cinematográficas de outro diretor francês extremamente ativo na época (anos 60), o inquietante Jean-Luc Godard, que em filmes como "Viver a Vida" e "Uma Mulher é Uma Mulher" abusava de efeitos visuais e sonoros para aumentar ainda mais o impacto de suas cenas, buscando um cinema cada vez mais independente como linguagem própria. É justamente essa busca incessante de uma concepção original de cinema que faz de "Os Guarda-Chuvas do Amor" uma obra única no cinema, e que talvez tenha só tenha encontrado similares em alguns filmes de Ken Russel, principalmente na sensacional ópera-rock "Tommy".

domingo, setembro 21, 2008

Filmes das últimas semanas (cotações de 0 a 4 estrelas)


Caótica Ana, de Julio Medem **1/2
Nome Próprio, de Murilo Salles ***1/2
The Man From Earth, de Richard Schenkman ***
O Selvagem da Motocicleta, de Francis Ford Coppola ****
O Nevoeiro, de Frank Darabont ****
Ainda Orangotangos, de Gustavo Spolidoro **
Corpo, de Rossana Foglia e Rubens Rewald **1/2
Meu Irmão é Filho Único, de Daniele Luchetti ***
Linha de Passe, Walter Salles e Daniela Thomas **1/2
O Reino Proibido, de Rob Minkoff ***
Mamma Mia, de Phyllida Lloyd *1/2
Cleópatra, de Julio Bressane ***
Procurando Nemo, de Andrew Stanton e Lee Unkrich ****
As Confissões de Schmidt, de Alexander Payne ***1/2
Nirvana: Live! Tonight! Sold Out!!, de Kevin Kerslake ***1/2
Identificação de Uma Mulher, de Michelangelo Antonioni ***1/2
No Limite, de Lee Tamahori ****
Viver e Morrer em Los Angeles, de William Friedkin ****

quinta-feira, setembro 04, 2008

Alguém Tem de Ceder, de Nancy Meyers *1/2


“Alguém Tem de Ceder” (2003) é aquele tipo de produção que gosta de tirar uma onda de que é uma obra madura, inteligente, sofisticada, sensível ou coisa que o valha, e supostamente seria uma espécie de contraponto aos brutais e descerebrados filmes de aventura com efeitos especiais que domina os nossos cinemas por aí. Pura cascata!! É só dar uma sacada no roteiro para perceber a lorota: coroa ricaço, boa vida e que só sai com jovenzinhas gostosas (Jack Nicholson) conhece escritora sessentona de prestígio (Diane Keaton), mãe de uma de suas conquistas, que faz com que ele reveja seus conceitos. E, é claro, os dois se apaixonam. Ah, e para provar como a tal da senhora é uma mulher realmente fascinante, um médico (Keanu Reeves) com metade da idade dela também se encanta com a mesma e passa a disputar com o tal coroa quem vai ficar com a nossa heroína. Como vocês podem ver, tudo bem mais profundo e adulto que essas bobagens de “Senhor dos Anéis”, “Harry Potter”, “Homem Aranha” e afins... Mas o que me incomoda realmente em “Alguém Tem de Ceder” é a sua absoluta falta de vida: não é a previsibilidade da trama o problema, mas sim a direção mecânica e burocrática de Nancy Meyers que tira qualquer traço de vitalidade e espontaneidade do filme. O que resta é Diane Keaton reprisando os mesmos faniquitos de sempre e Jack Nicholson mantendo a mesma expressão aparvalhada durante todo o filme (justiça seja feita: mesmo assim o cara continua muito acima da média).

Rota Suicida, de Clint Eastwood ***1/2


A linha básica da trama de "Rota Suicida" é bem simples, girando em torno da história do policial durão e alcoólatra Ben Shockley (Clint Eastwood, numa variação eficiente do seu clássico papel de Dirty Harry) que deve proteger a prostituta Gus Mally (Sondra Locke), testemunha de um caso envolvendo corrupção policial. É claro que alguns homens da lei envolvidos não querem deixar barato, sendo que Schockley é incriminado injustamente e é obrigado a fugir com a sua protegida. Esse fio de roteiro pode parecer banal, e realmente não tem nada demais. O grande mérito de Eastwood é justamente extrair disso um eletrizante filme de ação. Mesmo com uma série de clichês, ele consegue fazer um filme tenso, impactante e que prende a atenção de quem assiste de forma implacável.

Como bom pupilo do mestre Don Siegel, com quem já havia trabalhado em uma série de filmes magníficos como "Perseguidor Implacável" e "Meu Nome é Coogan", Eastwood sabe que originalidade de roteiro não é algo que conta muito para se fazer um bom filme policial. O bom diretor desse gênero sabe que o que importa é fazer um trabalho bem cuidado em termos de edição, fotografia e caracterização de personagens, e é isso que é determinante para dar agilidade narrativa para um filme, não importando as obviedades do roteiro. Nesse sentido, Eastwood mostra entender do riscado como poucos em "Rota Suicida". Dispensando maiores efeitos e utilizando-se de uma montagem equilibrada e fotografia limpa, o diretor cria seqüências de ação de tirar o fôlego, como aquela em que Shockley tenta escapar em uma moto da perseguição incessante de um helicóptero. Fantástica também é toda a seqüência final, em que o protagonista, dentro de um ônibus blindado, é obrigado a enfrentar quase toda a força policial de Phoenix. Eastwood também fez a escolha sábia de centrar sua narrativa quase que exclusivamente em situações de Shockley se safando de várias enrascadas, que incluem até um quebra pau com uma turma de pretensos Hell Angels, o que dá uma concisão fabulosa para "Rota Suicida".

É senso comum na crítica cinematográfica dizer que Clint Eastwood tornou-se um diretor "respeitável" apenas a partir de "Bird" (1988). Assistindo, entretanto, obras como "Josey Wales" (1976) e esse "Rota Suicida" (1977) pode-se constatar que o cara já fazia ótimos filmes a bem mais tempo.

A Noiva Perfeita, de Eric Lartigau *1/2


“A Noiva Perfeita” (2006) é o tipo de filme “não fede nem cheira”: direção sem maiores inspirações, roteiro água com açúcar travestido de “ousado”, diálogos metidos a esperto, atores simpáticos (mas que atuam no piloto automático). Ou seja: tão inofensivo e quadrado quanto as comédias românticas mais insossas com Meg Ryan. Mas há um detalhe que faz toda a diferença: é um filme francês!! E como diria o velho e bom Nelson Rodrigues, tudo que é dito em francês parece mais inteligente...