sexta-feira, abril 24, 2015

Era uma vez na Anatólia, de Nuri Bilge Ceylan ****


A trama de “Era uma vez na Anatólia” (2011) tem como eixo principal o processo de investigação de um assassinato numa cidadezinha no interior da Turquia. Essa descrição da premissa do roteiro, entretanto, seria apenas a ponta do iceberg. O crime em questão e mesmo a sua motivação não são expostos de forma explícita ou mesmo nem são mostrados. Em boa parte da duração do filme, na realidade, o foco está na procura do corpo da vítima. O diretor Nuri Bilge Ceylan usa os rudimentos da narrativa de gênero policial para fazer uma espécie de sóbrio épico existencial. Policiais e suspeitos envolvidos na investigação são caracterizados com consistente crueza e humanidade – são pessoas simples nos seus pensamentos, confusos em suas atitudes e por vezes mesmo brutais na incapacidade de lidar com o mundo. O promotor e o médico que acompanham o procedimento, de forma simbólica representantes de outra classe social, são indivíduos amargos e distantes. Ao percorrerem vastos campos para localizar o corpo da vítima, o que fica evidente são as inquietações pessoais de todos esses personagens, como se o crime que investigassem fosse um catalisador de suas frustrações e demônios internos. O estilo de filmar cerebral e repletos de nuances de Ceylan oferece uma moldura formal em perfeita sintonia artística com os questionamentos temáticos de “Era uma vez na Anatólia” – as longas tomadas fixas são expressivas tanto pela notável composição visual da direção de fotografia quanto pela serena dramaticidade da severa encenação concebida pela cineasta. As conclusões dos conflitos da trama e mesmo as atitudes e intenções dos personagens ganham um caráter enigmático e obscuro, pois para a obra de Ceylan interessa muito mais a constatação dos desígnios insondáveis do destino e da natureza humana do que as soluções fáceis para deixar amarradas todas as pontas soltas de uma história. Essa tendência pela imprecisão e a falta de grandes certezas é justamente um dos aspectos mais fascinantes de “Era uma vez na Anatólia”.

Um comentário:

Marcelo Castro Moraes disse...

Filme poderoso e que mereceu fazer parte da sessão de reabertura do Cine Capitólio.

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