terça-feira, fevereiro 04, 2020

Era uma vez em... Hollywood, de Quentin Tarantino ****


Se “Bastardos inglórios” (2009) e “Django livre” (2012) marcavam a guinada de Quentin Tarantino para um padrão mais tradicional de narrativa cinematográfica enquanto “Os oito odiados” (2015) parecia representar a retomada mais purista de sua linguagem própria, “Era uma vez em... Hollywood” (2019) representa justamente a cristalização da junção orgânica do classicismo estético-formal da cinematografia clássica norte-americana com o habitual padrão autoral do diretor. E o resultado disso é o filme mais poético e melancólico de Tarantino. Nesse sentido, a opção por uma formatação de fábula, já indicada no título do filme, não é gratuita ou mera piada. Ao reimaginar os fatos reais que levaram ao bárbaro assassinato coletivo de Sharon Tate e seus amigos pelo grupo de fanáticos liderados por Charles Mason, momento chave na decretação do fim do sonho contracultural na década de 60, Tarantino não só realiza uma síntese perfeita entre a homenagem e a ironia sobre o cenário cultural e a indústria cinematográfica da época como também evoca com sutileza o caráter simbólico daquilo que aconteceu no passado na construção de um presente mais desumanizado e desesperançado. A minuciosa recriação estilizada da época, o caráter icônico das interpretações do elenco e a encenação entre o caricatural e o solene formam um todo artístico de desconcertante encanto sensorial não apenas por uma questão técnica-formal, mas também por ressaltarem com tremenda sensibilidade a proposta estética-existencial do filme. Tarantino sempre fez questão em sua trajetória artística em se assumir como um diretor-cinéfilo e quando aborda essa paixão pelo cinema como uma das temáticas mais prementes de “Era uma vez em... Hollywood” faz precisamente isso da forma menos óbvia possível – citações e referências a momentos clássicos da mitologia cinematografia norte-americana se inserem na narrativa com notáveis coerência e originalidade, ajudando a formar um amplo e lúcido painel da relação entre cinema, mitologia sessentista e comentário sócio-político-cultural.

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