Vi “De gravata e unha vermelha” (2014) em uma sessão de meio
de tarde de um sábado numa sala de cinema alternativa de Porto Alegre. Contando
comigo, havia quatro pessoas na plateia, sendo que duas delas eram um casal
homossexual. Não costumo começar um texto meu para esse blog com uma descrição
inicial dessas, mas acho que contextualizar dessa forma ajudar a dar uma idéia do
alcance e importância de uma obra como a produção em questão. Seria fácil
apenas criticar a estrutura narrativa previsível concebida pela diretora Miriam
Chnaiderman, dizer que a fórmula de ficar apenas colhendo depoimentos é
manjada. Mas o objetivo do filme não é cativar o espectador pelos seus méritos
formais. O que vale aqui realmente é a força de sua temática, e nisso não dá
para tirar o mérito de Chnaiderman – sua obra é efetivamente intrigante e de
forte caráter humanista na forma com que expõe as experiências pessoais e as
visões existenciais de seus protagonistas relativas à questão da
homossexualidade em suas mais diversas facetas. A franqueza dos entrevistados e
a ênfase na complexidade das histórias mostradas, que se afastam dos lugares
comuns e estereótipos frequentes, dão ao documentário um teor perturbador e
contestatório, principalmente para aqueles que acham uma demasiada ousadia as
caracterizações caricaturais e preconceituosas que boa parte dos meios de
expressão cultural (com destaque para as novelas televisivas) adotam como
direcionamento artístico ao abordarem o assunto. Nesse sentido, dá para
entender perfeitamente porque “De gravata e unha vermelha” esteja longe dos
cinemas de shopping...
Boa parte de amigos e conhecidos costuma dizer que as minhas recomendações para filmes funcionam ao contrário: quando eu digo que o filme é bom é porque na realidade ele é uma bomba, e vice-versa. Aí a explicação para o nome do blog... A minha intenção nesse espaço é falar sobre qualquer tipo de filme: bons e ruins, novos ou antigos, blockbusters ou obscuridades. Cotações: 0 a 4 estrelas.
segunda-feira, junho 15, 2015
sexta-feira, junho 12, 2015
Jurassic World - O mundo dos dinossauros, de Colin Trevorrow **1/2
Se “Tomorrowland – Um lugar onde nada é impossível” é uma
espécie de reciclagem/homenagem às produções na linha ficção científica de
Steven Spielberg, “Jurassic World – O mundo dos dinossauros” (2014) já no seu título
confirma que o veterano diretor norte-americano ainda é figura influente no
cinema-pipoca contemporâneo. E é também um reflexo da falta de ideias na indústria
cinematográfica, pois a obra pouco acrescenta à mitologia original criada nos
outros filmes da franquia dirigidos por Spielberg e Joe Johnston. Dá para ir
ainda mais longe na constatação – em termos temáticos, essa obra mais recente
praticamente emula os conflitos e dilemas do roteiro da primeira parte da série.
A progressão da trama é quase a mesma: apresenta-se com ares de deslumbre o
parque e seus dinossauros, mostra crianças embasbacadas ao ver os animais em
questão, crítica a falta de ética e escrúpulos de empresários e cientistas, alguma
coisa dá errado na ilha e os bichos pré-históricos partem com tudo para cima
dos pobres humanos, e os mocinhos conseguem no final se livrar da enrascada. E
com direito àqueles clichês sobre a defesa da unidade familiar que Spielberg
tanto aprecia. A diferença é que o diretor Colin Trevorrow está bem longe de
ter a mesma classe formal de Spielberg. Não que “Jurassic World” seja ruim. É
até divertido por vezes, com efeitos digitais caprichados (alguns dinossauros são
cativantes na sua caracterização visual) e cenas de ação que geram alguma tensão.
A impressão geral do resultado final do filme, entretanto, é que toda a parte
dramática “humana” e questionamentos sobre a falta de escrúpulos na relação
entre ciência e capital é apenas mera encheção de linguiça enquanto os
dinossauros não estão em cena. No mais, é de se destacar que Chris Pratt cada
vez mais se revela como um potencial e carismático candidato a ser um novo
Indiana Jones.
quinta-feira, junho 11, 2015
Tomorrowland - Um lugar onde nada é impossível, de Brad Bird ***
Por terem sido lançados com diferença de poucas
semanas no corrente ano e estarem enquadrados no mesmo gênero cinematográfico
(ficção científica), “Tomorrowland – Um lugar onde nada é impossível” e “Mad
Max – A estrada da fúria” acabaram sendo comparados entre si, no sentido que o
primeiro teria uma visão mais otimista sobre o futuro enquanto o segundo
enveredava para a distopia típica de um cenário pós-apocalíptico. Dá para dizer
que além dessa relação há uma outra perspectiva pela qual tais obras se ligam –
a de que ambas praticam estilos de filmar que remetem a produções de aventura
dos anos 80. No caso específico de “Tomorrowland”, o que mais vem à cabeça são
alguns filmes de Steven Spielberg, principalmente “Contatos imediatos de
terceio grau” (1977) e “ET” (1982). Dá para dizer que pelo menos em uma virtude
o diretor Brad Bird faz justiça à comparação: o cara tem uma ótima mão para as
cenas de ação, bastante caprichadas em termos de clareza visual e coreografias
mirabolantes. Além disso, há uma equação eficiente na combinação de efeitos
especiais e direção de arte repletos de inventividade e requinte visual (nesse
sentido, acaba-se lembrando de outro clássico de Spielberg no gênero, o
extraordinário “Minority Report”). O que emperra “Tomorrowland” para que atinja
o mesmo patamar artístico de suas fontes inspiradoras é o seu roteiro problemático,
onde se pode perceber suas boas ideias temáticas, mas que recebem um tratamento
textual repleto de excessos sentimentais, além da falta de sutileza na exposição
de seu subtexto. Tais equívocos acabam por truncar a narrativa ao fazer o filme
enveredar em seqüências cheias de discursos entre o solene e o edificante.
Ainda que esses pontos negativos causem decepção, ainda mais por se tratar de
um filme do cara que criou a alucinante obra-prima “Os incríveis” (2004), “Tomorrowland”
é uma obra de aventura bem mais convincente do que boa parte dos “produções
pipocas” que apareceram nos últimos meses.
terça-feira, junho 09, 2015
Um sonho intenso, de José Mariani ***
Recentemente li uma resenha escrita por Eron Fagundes, crítico
de cinema e meu amigo, onde ele comentava sobre o uso do termo “didático” em
textos sobre filmes. Para ele, havia uma utilização distorcida da palavra em
boa parte dos comentários que ele lia, no sentido de que se uma obra fosse didática
isso seria um demérito para ela, pois significaria que se tratava de algo
enfadonho, aborrecido. Para o Eron, pelo que entendi do seu comentário, essa
percepção negativa da palavra “didático” é reflexo dos tempos atuais, em que a
falta de humildade intelectual faz com que a noção de que possamos aprender
algo com uma obra cultural seja encarada como um equívoco. Apreciei essa linha
de raciocínio do Eron, principalmente pelo forte caráter humanista de seu conteúdo.
Dito isso, posso afirmar de forma convicta que “Um sonho intenso” (2013) é uma
obra de forte caráter didático. Sua pretensão é fazer um retrato da trajetória
econômica do Brasil da Era Vargas até os dias de hoje. Para isso, o diretor José
Mariani se vale de comentários profundos e detalhistas de alguns economistas e
historiadores com bastante conhecimento de causa, sem que, contudo, se perca a
clareza para os leigos no assunto economia. É claro que dá para dizer que a
narrativa é um grande resumão da temática abordada, mas Mariani consegue dentro
dessa síntese extrair os pontos essenciais para que o espectador saia com uma
visão razoavelmente abrangente sobre o assunto. Além disso, o acabamento formal
de “Um sonho intenso” oferece tensão e dinâmica narrativa necessárias para que
a produção transcenda o interesse restrito de acadêmicos e afins. E, por fim,
seu didatismo é um ponto fortíssimo por oferecer uma perspectiva mais ampla e
honesta do que as análises rasteiras que a grande mídia e o senso comum obtuso
dos facebooks da vida costumam proferir sobre a conjuntura econômica
brasileira. Pois, como diria aquela máxima, “para todo problema complexo há uma
solução simples, rápida e errada”.
Bem perto de Buenos Aires, de Benjamin Naishtat ***
Tanto na sua questão estética quanto na temática, a produção
argentina “Bem perto de Buenos Aires” (2014) obedece a uma concepção artística
rigorosa. O diretor Benjamin Naishtat constrói uma narrativa seca e lenta,
valorizando longos planos fixos, silêncios, diálogos econômicos, encenação
precisa e quase ausência de trilha sonora musical. Por meio dessa austeridade
formal, a obra evidencia uma atmosfera claustofóbica de tensão, além de uma
simbologia sutil na sua visão de ironia ácida sobre a desigualdade social na
sociedade argentina (e, por tabela, na própria sociedade ocidental). Naishtat
revela um senso de humor perverso no jogo de temores e expectativas que ronda
boa parte dos meandros da trama. O roteiro sempre lida com uma ameaça de explosão
de violência e revolta que na realidade nunca se concretiza de forma plena.
Dentro dessa ambientação em que tudo é sugerido ou presumido, o filme ressalta
tanto a frustração desfocada das camadas populares quanto a paranóia da classe
média alta. Nesse último caso, tal sentimento parece refletir uma sensação de
culpa mal digerida diante de uma sociedade repleta de injustiças e
preconceitos. Por mais que se acuse que tal discurso possa ser manjado ou “esquerdista”,
é inegável, entretanto, que o subtexto político de “Bem perto de Buenos Aires”
se desenvolve e consolide da maneira contundente e sofisticada.
sexta-feira, junho 05, 2015
O homem que elas amavam demais, de André Téchiné ***
Dá para dizer que pelo menos nos últimos 20 anos o diretor
francês André Téchiné adotou um modus operandi recorrente em seus filmes – a
partir de gêneros cinematográficos bem definidos, basicamente melodrama e
suspense, ele delineia um estilo particular de filmar, adotando um formalismo
elegante e uma atmosfera de distanciamento emocional, além de preservar uma
precisa direção de seus elencos. Esse estilo autoral tem se mantido em suas
produções, com grau variado de inspiração. Em “O homem que elas amavam demais” (2014),
a abordagem estética/temática é a mesma de suas obras mais recentes. A
narrativa é conduzida de forma bastante sintética, por vezes até beirando o elíptico,
com Téchiné parecendo querer cortar excessos de qualquer natureza. Os dois
terços iniciais do filme são eficientes de acordo com a proposta artística do
cineasta: a caracterização de situações e personagens não cai em facilidades
maniqueístas e simplificações exageradas, sendo que tanto a crueza da encenação
quanto a sobriedade do roteiro constroem uma envolvente tensão dramática e também
uma dimensão humana de forte contundência. De se valorizar ainda a força das
interpretações do trio Catherine Deneuve, Guillaume Cannet e Adèle Haenel que torna
tudo ainda mais magnético para espectador. No terço final, entretanto, a produção
cai em alguns convencionalismos banais, principalmente pelo fato da narrativa
se converter num típico “filme de tribunal”, tirando bastante da sua força
criativa. Ainda que com essa conclusão frustrante, “O homem que elas amavam
demais” mostra que Téchiné é ainda aquele tipo de diretor que motiva a visitar
a sala de cinema.
quarta-feira, junho 03, 2015
Nick Cave - 20.000 dias na Terra, de Iain Forshty e Janne Pollard ****
Há um momento bastante revelador em “Nick Cave – 20.000 dias
na Terra” (2014) tanto sobre o seu protagonista quanto sobre a própria natureza
do filme em questão: quando a cantora Kyle Minogue coloca que leu uma biografia
sobre Cave para conhecer mais sobre ele, o cantor afirma que aquele livro está
muito longe da sua verdade. Para essa produção, o essencial não está em
decifrar todas as “verdades” relativas ao seu protagonista. Não há a preocupação
em fazer uma tradicional, literal e cronológica exposição de fatos sobre a vida
de Cave. O que interessa efetivamente é criar uma atmosfera existencial e artística
semelhante às canções e escritos do artista. Nesse sentido, a obra dos diretores
Iain Forsyth e Jane Pollard é muito bem sucedida, afastando-se na maioria das
vezes dos clichês característicos dos documentários biográficos. Na verdade,
nem daria para classificar o filme como um documentário propriamente dito. Isso
porque a linha narrativa apenas se apropria de alguns elementos factuais para
encená-los de acordo com a criatividade dos cineastas e do próprio Cave. Não é
a espontaneidade ou o realismo que estão em pauta, mas sim os meios mais líricos
que possam expressar as obsessões estéticas e a particular visão de mundo do músico
e compositor. Essa forma de expressão vai se manifestando de várias formas:
flashes do cotidiano, entrevistas encenadas como se fossem conversas casuais ou
mesmo delirantes, intensos números musicais (as versões das canções que constam
no filme superam de longe aquelas originais nos álbuns correspondentes),
digressões em cima de fotos e lembranças. Dentro desse poético mosaico de
informações e impressões, prevalece e se preserva intacta a mágica da arte de
Nick Cave em toda a sua sutileza e mistério. A extraordinária seqüência final,
com a câmera se afastando no mar e a imagem do artista solitário na praia cada
vez ficando menor é a síntese perfeita e contundente de tudo o que vimos:
sabemos um pouco mais sobre Cave, mas ele permanece como um fascinante enigma
artístico. E para sempre assim ele deve permanecer....
terça-feira, junho 02, 2015
O sal da terra, de Wim Wenders e Juliano Salgado **1/2
A relação do diretor alemão Wim Wenders com o “cinema
verdade” já vem de longos anos. Na realidade, nem daria para fazer uma
distinção tão nítida entre os documentários que dirigiu e os seus filmes de
ficção, pois ambas as linhas de narrativas sempre trouxeram sua forte marca
autoral bem como suas obsessões temáticas. Ou seja, para Wenders o gênero
documental não se limitaria somente à objetividade dos fatos, ao simples
registro verídico das coisas do mundo. Importaria também um olhar subjetivo
sobre os indivíduos e situações focados em sua lente, um certo caráter
impressionista nessa visão. Assim, é natural que como conteúdo de suas
produções houvesse pessoas e assuntos relacionados ao seu interesse pessoal,
fazendo com que seus documentários versassem sobre cinema (Nick’s Movie, O quarto 666, Tokyo Ga), música (Buena Vista Social Club, The soul of a man), dança (Pina) e até mesmo moda (A identidade de nós mesmos). Essa
tendência personalista, de buscar uma vinculação existencial e artística com o
seu “objeto” fílmico, já fica logo evidente no início de O sal da terra (2014), quando o próprio Wenders, uma das vozes narradoras
da obra, fala que na sua mesa de trabalho tem uma fotografia tirada por
Sebastião Salgado de uma africana miserável e cega. Nesse momento, o cineasta
ressalta o quanto aquele instantâneo o comove e também o quanto admira Salgado.
De certa forma, dá até para dizer que há algumas conexões
óbvias entre Salgado e Wenders. Para começar, a preferência do fotógrafo pelo
registro preto e branco encontra ressonância na própria filmografia do
cineasta, cujos alguns de seus melhores filmes apresentaram uma opção pela
fotografia não colorida (No decorrer do
tempo, O Estado das coisas, a primeira metade de Asas do desejo). Além disso, o fotógrafo em seus mais conhecidos
álbuns preferiu retratar aqueles que se encontram à margem da sociedade
(trabalhadores informais, refugiados de guerra, nômades, povos nativos, órfãos,
miseráveis), enquanto Wenders trouxe em boa parte de seus filmes personagens em
processo de ruptura com o mundo que os cercam, verdadeiros outsiders (ainda que
por razões diversas dos indivíduos presentes nas fotos de Salgado). Essa
sintonia entre Wenders e Salgado por vezes se manifesta de forma intensa e encontra
achados imagéticos interessantes em O
sal da terra. Os momentos em que algumas das principais fotografias de
Salgado se fundem com a imagem do seu rosto e mesmo com sua narração têm um
efeito sensorial marcante. E em se tratando de um filme que tem a imagem capturada
como o principal mote de sua temática, é de se destacar o belo trabalho de
enquadramentos e iluminação que captam algumas nuances visuais realmente
impressionantes, remetendo ao próprio estilo de Salgado fotografar.
Se em termos imagéticos O
sal da terra traz os seus momentos de deslumbre, por outro lado como
narrativa cinematográfica acaba sendo frustrante. Isso porque a estrutura do
seu roteiro obedece a uma linha burocrática e previsível: apresenta de forma
cronológica alguns dos principais fatos da vida de Salgado e traz alguns
detalhes relevantes das viagens que fez ao redor do mundo para colher material
para os seus álbuns. Ou seja, obedece ao mesmo formato de outra obra que já
tinha o fotógrafo como personagem principal, o didático e apenas correto Revelando Sebastião Salgado (2012). É
óbvio que as histórias familiares e das andanças de Salgado pelo globo trazem
uma forte carga humanista e chegam a serem comoventes em determinadas sequências.
É fato também, entretanto, que ao optar por essa formatação Wenders acaba
sacrificando bastante da sua marca autoral. Não há a tensão dramática de Nick’s Movie, o cerebralismo de O quarto 666, a criatividade estética
de The soul of a man e Pina, a sensibilidade à flor da pele de
Buena Vista Social Club. Em O sal da terra os elementos da
contradição e do conflito estão ausentes. Nesse sentido, a presença de Juliano
Ribeiro Salgado, filho de Sebastião, na codireção acaba não passando incólume.
A narrativa, de forma progressiva, vai adquirindo um tom cada vez mais solene,
beirando de maneira equivocada uma atmosfera de beatitude, em que Salgado vai
se convertendo numa espécie de figura santificada. Há uma cena em que Wenders
insinua que filmar o fotógrafo é muito complicado, pois ele tem a
autoconsciência de estar sendo enquadrado pela lente do cineasta e se movimenta
em cena sabendo do efeito que pode causar, dando a impressão de que o próprio
Salgado pode estar conduzindo a narrativa. E é isso que parece acontecer em O sal da terra: o biografado transforma
o documentário na sua hagiografia, realçando seus feitos pessoais, sua
privilegiada visão de mundo e suas iniciativas sociais (como o parque ecológico
criado por ele e sua mulher). Mesmo suas críticas políticas e sociais em
relação às mazelas que afligem as pessoas que fotografa, apesar de bem
intencionadas e sinceras, acabam soando protocolares diante dessa concepção
narrativa destituída de criatividade e vigor. Nesse conjunto de opções
estéticas e temáticas, dá para dizer que em O sal da terra se tem um bom vídeo institucional. Só que se limitar
a uma eficiente peça publicitária acaba sendo muito pouco quando se tem
envolvidos numa produção nomes como Wim Wenders e Sebastião Salgado.
segunda-feira, junho 01, 2015
Crimes ocultos, de Daniel Espinosa **1/2
Durante muitas décadas, foi prática recorrente e até aceitável
em várias produções norte-americanas o fato de que em tramas que se desenvolvem
em outros países os personagens falassem inglês perfeitamente, ainda que com um
sotaque picareta. Afinal, as contingências culturais e comerciais determinavam
a necessidade de uma língua “universal” que fosse acessível para todos. Dito
isso, confesso que depois de assistir a “Bastardos inglórios” (2009) esse tipo
de recurso me pareceu datado demais. No extraordinário filme de Tarantino, cada
personagem falava o seu idioma nativo (inglês, alemão, francês, italiano), de
acordo com a situação específica do roteiro. Esse nível de realismo fez com a
caracterização de personagens e situações ficassem ainda mais críveis e
impactantes. Dessa forma, os diálogos em inglês com sotaque simulando russo da
trama que se passa na União Soviética da época do stalinismo de “Crimes ocultos”
(2015) acaba soando bem antiquado. Mas a impressão de algo mofado não se
restringe a essa questão de linguagem. Por mais que o filme conte com um elenco
de nomes expressivos e o diretor Daniel Espinosa consiga por vezes deixar a
narrativa envolvente o suficiente para que não se perceba a duração excessiva
de duas horas e meia da produção, a verdade é que o filme parece novelesco em
demasia nas viradas melodramáticas de seu roteiro, bem como é superficial tanto
na caracterização de personagens e nas resoluções de sua trama. Ainda que a
pretensão seja a de uma contundente crítica ao modelo burocrático estatal
comunista, falta estofo e profundidade para que a obra transcenda o previsível
e competente thriller de suspense.
quarta-feira, maio 20, 2015
Conversas com meu jardineiro, de Jean Becker ***
Na teoria, pelo menos em termos daquilo que um resumo da
trama e mesmo da estrutura narrativa pode fazer supor, “Conversas com meu jardineiro”
(2007) seria uma daquelas produções rotineiras e esquecíveis de abordagem edificante
e previsível que as velhinhas que vão ao Guion tanto gostam de apreciar. Olha só
o que seria a trama: um pintor endinheirado (Daniel Auteil) voltar a residir na
casa de campo em que passou boa parte da infância e adolescência, reencontra um
velho amigo de escola (Jean-Pierre Darroussin) que se torna seu jardineiro, esse
último passa a dar conselhos e ensinamentos de como o seu chefe/amigo deve
aproveitar melhor as coisas simples e belas da vida e na conclusão o tal
jardineiro acaba morrendo de câncer, deixando uma lição de vida para o pintor.
Apesar desse aparente acúmulo de clichês e golpes emocionais, o resultado final
desse filme francês é bem mais interessante do que aquilo que é um cético
espectador poderia esperar. Para começar, o diretor Jean Becker tem um forte
trunfo ao contar com Auteil e Darroussin nos papéis principais, pois ambos
mostram sutis composições dramáticas despidas de excessos, fazendo com que os
protagonistas não pareçam caricaturas ou estereótipos. Becker também acerta na
sua concepção formal de narrativa, com uma direção de fotografia que valoriza
os belos cenários campestres, além do cineasta preservar uma abordagem
emocional marcada pela elegância e discrição (é só reparar, por exemplo, que
nos momentos mais climáticos não há uma música melosa a sublinhar tais cenas). Ou
seja, no final das contas, “Conversas com meu jardineiro” não traz grandes
arroubos criativos, mas pelo menos mostrar que um melodrama tradicional ainda
pode ser feito de maneira digna em termos sensoriais e intelectuais.
terça-feira, maio 19, 2015
Mad Max: A estrada da fúria, de George Miller ****
Assistir à “Mad Max: A estrada da fúria” (2015) leva a uma
inevitável questão: “O que aconteceu com os filmes de ação?”. Isso porque os vários
momentos epifânicos dessa aventura mais recente do clássico personagem criado
por George Miller mostram como um filme de aventura pode ser tão catártico. E não
se trata de mera reciclagem ou nostalgia oitentista. O que Miller faz é
enquadrar o seu característico de filmar e editar tão bem azeitado nas outras
produções da série dentro da atual estrutura tecnológica de trucagens, sem que
com isso despersonalize suas concepções particulares. E o resultado é
estrondoso em termos sensoriais, de cair o queixo mesmo. Ao contrário do “visionário”
Zack Snyder e derivados, Miller não se esconde atrás de truques baratos para
camuflar incompetência de concepções formais equivocadas. Sua encenação é dinâmica,
por vezes até delirante, mas sempre preservando clareza e detalhismo visuais
impressionantes. Além disso, a atmosfera sórdida e suja de um cenário distópico
de pós-apocalipse é mais do que convincente – é efetivamente perturbadora e
quase palpável pelo fenomenal trabalho de direção de arte. O roteiro é exemplar
na caracterização de situações e personagens, dando-lhes tanto real densidade
dramática quanto uma bem vinda carga de ironia perversa. A trama carrega um
teor simbólico extraordinário, através de uma visão ácida sobre a relação entre
religião e opressão política e ainda por saber valorizar e preservar carga mítica
que a forte figura de Max (Tom Hardy) representa. Diante de todos esses acertos
de “Mad Max: A estrada da fúria”, dá até para dizer que o filme de Miller se
torne paradigmático para o gênero ação, evidenciando como obras recentes como “Velozes
e furiosos 7” ,
“Noite sem fim” e “Vingadores: A era de Ultron” podem ser tão frustrantes em
suas concepções equivocadas.
segunda-feira, maio 18, 2015
A vida privada dos hipopótamos, de Maira Bühler e Matias Mariani ***
Mais do que simplesmente contar um fato real, o documentário
“A vida privada dos hipopótamos” (2014) busca a discussão do próprio método do
gênero cinematográfico ao qual pertence. Não que a temática abordada não seja
interessante – a história do técnico em informática norte-americano Christopher
Kirk que vai para a Colômbia conhecer os hipopótamos africanos comprados por
Pablo Escobar, apaixona-se por uma exótica e bela nativa, depois se transforma
em traficante internacional e acaba preso e condenado em São Paulo traz uma dimensão
humana e simbólica fascinante em suas nuances dramáticas. A jornada pessoal do
Kirk traz o subtexto marcante do indivíduo originário de um país organizado e
racional do primeiro mundo que cai na gandaia sensual e caótica de uma capital terceiro-mundista
e termina tragado num vórtice de prazer e culpa. A boa sacada estética dos diretores
Maíra Bühler e Matias Mariani é enquadrar a saga intimista de seu protagonista dentro
de uma concepção formal caseira, dando a impressão de que o filme emula um diário
audiovisual de Kirk. Assim, ferramentas como textos de mails, filmagens de celulares
e depoimentos via skype se integram de forma natural com técnicas tradicionais documentais,
configurando uma narrativa densa e envolvente no seu misto de dramaticidade e
ironia. Por vezes essa desconstrução dos mecanismos típicos do gênero soa
excessiva, principalmente quando os próprios cineastas se inserem na narrativa
como personagens (esse tipo de recurso, para soar orgânico e não forçado, exige
um grau de mestria e sagacidade que só um diretor brilhante e experiente como
Eduardo Coutinho, por exemplo, tem a manha de colocar em prática). Ainda sim, “A
vida privada dos hipopótamos” é uma obra acima da média em relação à boa parte
do que tem aparecido nos documentários nacionais recentes.
quinta-feira, maio 14, 2015
Noite sem fim, de Jaume Collet-Serra **
Até dá para sentir que o diretor Jaume Collet-Serra procura
dar um toque autoral em “Noite sem fim” (2015), recheando a narrativa com
truques de edição, falsos planos-sequência e trucagens digitais. No contexto
geral, entretanto, tais floreios estéticos acabam soando supérfluos e mesmo
contraproducentes para o filme. Faltou à obra uma construção de atmosfera de
tensão mais consistente e uma encenação de concepção menos óbvia para que a
produção tivesse uma efetiva densidade dramática que cativasse a plateia. Por
mais que o roteiro delineie uma história que deveria se mostrar sufocante para
os seus principais personagens, a verdade é que as resoluções para os dilemas
da trama são banais e fáceis demais. Quando o protagonista Jimmy Conlon (Liam Neeson)
decide se livrar de vez do antagonista Shaw Maguire (Ed Harris) e seu bando, por
exemplo, faz isso com uma facilidade constrangedora, como se ele fosse um
super-homem antes adormecido. Collet-Serra parte de um conceito equivocado para
realizar uma obra do gênero policial: que para realizar esse tipo de filme,
basta atrolhar a trama de perseguições automobilísticas épicas e de tiroteios
sem fim. O resultado dessas escolhas do cineasta resulta em pura irrelevância.
Trabalhos recentes e extraordinários dentro do mesmo gênero como “Tudo por
justiça” (2013) e “O ano mais violento” (2015) dispensam esse tom frenético e
apostam em formalismo contido, ambientação sóbria e roteiro mais complexo, e
acabam se mostrando muito mais eficientes e memoráveis.
quarta-feira, maio 13, 2015
Honeydripper - Do blues ao rock, de John Sayles ***
O título complementar em português que colocaram em “Honeydripper
– Do blues ao rock” (2007) é pouco sutil, mas também é bem esclarecedor das
intenções do diretor John Sayles. Em meio a uma trama situada no interior do
sul do Estados Unidos na década de 50 envolvendo episódios de exploração e
racismo, o filme mostra de forma simbólica e emblemática o momento em que o
blues começou a se formatar em um novo estilo que desembocaria no rock and
roll. Ainda que o roteiro tenha mais um fio de história que serve de pretexto
para a parte musical da obra, Sayles conduz a sua narrativa de forma eficiente,
sabendo construir uma atmosfera envolvente dentro de microverso de situações e
personagens que refletem o conturbado momento histórico norte-americano da época.
Apesar do tom de crítica social da obra, não há um aprofundamento existencial
sobre os fatos. Para Sayles, interessa mais saber como esse contexto ajudou a
fomentar um gênero musical marcado pelo inconformismo e selvageria. E nesse
sentido, “Honeydripper” tem seus momentos mais memoráveis quando a música se
torna a principal personagem, variando de uma ambientação que beira o solene e
o misterioso quando o blues é o protagonista até uma atmosfera de fúria e
devassidão quando o rock primitivo se configura em cena. Apesar da encenação de
Sayles pender para o naturalismo, o verdadeiro encanto da produção está na
caracterização mítica e mesmo amorosa de uma época em que a música refletiu os
dilemas e o imaginário de boa parte de uma nação.
terça-feira, maio 12, 2015
Vingadores: A era de Ultron, de Joss Whedon **1/2
Para um velho admirador de quadrinhos de super-heróis, caso
deste que vos escreve, ver um filme como “Vingadores: A era de Ultron” (2015)
traz uma carga de simpatia imediata. Aquela seqüência inicial do ataque dos heróis
à base da Hidra e também as cenas do brutal e exagerado quebra-pau entre o
Homem de Ferro e o Hulk representam a materialização de um antigo sonho de
assistir na tela grande com recursos decentes e competência formal uma típica
trama de HQs da Marvel. E também não deixa de ser comovente ver o cuidado com
que os estúdios da Marvel têm se preocupado em manter a coerência e a interação
entre os filmes dentro de um mesmo universo. Dito isso, vamos para o outro lado
da moeda: esse novo capítulo para os cinemas das aventuras dos Vingadores deixa
a desejar como espetáculo cinematográfico, estando bem abaixo em relação à
primeira parte da série. A longuíssima duração da produção deixa evidente
alguns dos seus principais defeitos, a começar pelo excesso de momentos intimistas
que são pueris em seus dilemas dramáticos e superficiais e apressados nas suas
resoluções. A noção de sutileza do diretor Joss Whedon em tais momentos beira o
inexistente – e dá-lhe música melosa e atores fazendo expressões estilo
cachorrinho pidão na legítima escola Malu Mader de atuar. Aliás, dar um papel tão
importante quanto o da Feiticeira Escarlate para a careteira e canastrona Elisabeth
Olsen acaba sendo até comprometedor. Quaisquer cenas envolvendo o romance entre
o Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo) e Viúva Negra (Scarlett Johansson) ou a
reclusão dos heróis para lamber as feridas emocionais naquela localidade bucólica
têm potencial dramático nulo e somente servem para emperrar o ritmo narrativo. E
mesmo em algumas tomadas de pancadarias e batalhas épicas a encenação é
prejudicada por uma composição de cena um tanto primária. O roteiro também
apresenta problemas na caracterização de personagens e situações: Ultron é um
vilão que não traz aquela carga de ameaça e violência inerente à figura
original dos quadrinhos, enquanto a morte de Mercúrio (Aaron Taylor-Johnson) se
mostra um recurso oportunista e ridículo (afinal, como o homem mais rápido do
mundo pode morrer de forma tão óbvia e banal?). Mesmo com os equívocos
apontados, é claro que “Vingadores: A era de Ultron” está bem longe de ser um
filme ruim, pois, por vezes, consegue ser bem divertido quando investe em
trucagens e porradarias apoteóticas. É fato também, entretanto, que alto nível
de outras produções da Marvel (“Guardiões da Galáxia”, as duas partes de “Capitão
América”, o primeiro “Vingadores”) e o respeitável currículo artístico de
Whedon faziam esperar um resultado final bem mais satisfatório.
segunda-feira, maio 11, 2015
Dólares de areia, de Israel Cárdenas e Laura Amelia Guzmán **1/2
Ao mostrar em sua trama o conturbado romance entre uma européia
idosa (Geraldine Chaplin) em longas férias na República Dominicana com uma
jovem prostituta nativa, a produção “Dólares de areia” (2014) revolve velhos
dilemas existenciais e artísticos já visitados em outras obras cinematográficas
ou mesmo literárias – a da relação conflituosa entre a decadência física da
velhice e o vigor imaturo da juventude, e, por tabela, do misto de cerebralismo
e romantismo melancólico típicos do Velho Mundo e a misteriosa e difusa
sensualidade e a moralidade dúbia inerentea às “colônias”. A atemporalidade
dessa temática não encontra um tratamento formal à altura no filme dos
diretores Israel e Laura Amelia Guzmán. Ainda que por vezes surja algum rasgo
estético interessante, o que predomina é uma narrativa previsível e sem maiores
arroubos criativos. Claro que é de se admirar uma certa atmosfera de sobriedade
e distanciamento emocional que permeia a obra em questão. Nada, entretanto, que
cative o público de forma mais efetiva. No final das contas, o grande trunfo de
“Dólares de areia” é contar no elenco com Geraldine Chaplin: atriz de recursos
dramáticos expressivos, ela faz com que até mesmo cada ruga de velhice de suas
feições ganhe uma conotação simbólica bastante forte ao denotar angústia e
frustração. Sua elegante atuação oferece uma centelha de transcendência artística
para o filme.
sexta-feira, maio 08, 2015
Dragões da violência, de Samuel Fuller ****
Uma característica forte no trabalho do diretor
norte-americano Samuel Fuller era o fato dele conseguir deixar evidente a sua
marca autoral em produções bancadas por grandes estúdios. Ou seja, dentro de
uma estrutura narrativa tipicamente convencional ele inseria elementos formais
e temáticos ousados e criativos. “Dragões da violência” (1957) é um filme bem
emblemático dessa tendência do cineasta. Na superfície, é um faroeste
tradicional em boa parte dos seus detalhes: divisão entre homens da lei e
bandidos, duelos e tiroteios, cidadezinha poeirenta, temas musicais de tons épicos.
São nas nuances, entretanto, que Fuller se diferencia. Na trama que se constrói,
aos poucos se começa a perceber que os limites entre o bem e o mal ficam cada
vez mais tênues, fazendo com que aquele maniqueísmo tradicional do gênero fique
nebuloso. Na realidade, a obra amplia o alcance de sua visão moral, no sentido
de abordar a corrupção inerente a uma sociedade que ainda está se formatando. Dentro
de tal concepção, Fuller vai ainda mais além, fazendo com que “Dragões da violência”
tenha um tom crepuscular, antecipando até alguns conceitos nos quais Sam Peckinpah
e Sergio Leone se aprofundaram nos anos seguintes. No filme de Fuller, capta-se
de forma sutil justamente o começo da transição do momento de um oeste marcado
pela lei do mais forte para um novo tempo em que o Estado de Direito se torna
efetivamente o elemento de consolidação de uma civilização. Para marcar esse
subtexto mais sofisticado, Fuller concebe uma estética vigorosa, baseada tanto
numa encenação repleta de achados visuais extraordinários quanto na montagem
que combina com precisão classicismo e cortes frenéticos.
quinta-feira, maio 07, 2015
O olhar invisível, de Diego Lerman **
A premissa básica da trama da produção argentina “O olhar
invisível” (2010) é simples, mas interessante em seus elementos: dentro de um
microcosmo ambientado em uma escola de classe média alta, no início da década
de 80, o roteiro procura fazer uma análise social e existencial sobre o clima
de repressão moral e política característica da ditadura no país naquela época.
Tal concepção de narrativa não chega a ser propriamente uma novidade – é só
lembrar o arrasador “Cria cuervos” (1976), obra-prima em que o diretor Carlos
Saura fazia um agudo retrato do ocaso da ditadura franquista pela visão metafórica
de uma família se desintegrando. Mas fazer essa referência a essa produção
espanhola chega a ser covardia, pois o cineasta Diego Lerman está muito
distante de ter a classe e sensibilidade de Saura. O trabalho do diretor
argentino até simula alguma elegância formal nos seus grandes planos e na edição
de poucos cortes, com a encenação de Lerman valorizando silêncios e pequenos
gestos de seus personagens. Essa sutileza estética, entretanto, é ilusória.
Tudo que acontece em cena se desenvolve de forma mecânica e sem inspiração,
pois Lerman parece confundir sobriedade narrativa com um estilo monótono de
filmar e editar seu material dramático. Falta uma efetiva atmosfera de tensão e
mesmo um senso imagético mais apurado para que o filme consiga alguma transcendência
artística. Nesse contexto, aquela que era para ser a seqüência clímax de “O
olhar invisível”, o momento em que a professora protagonista é estuprada por
seu diretor, acaba ganhando apenas uma dimensão grosseira que beira o cômico. O
dilema cinematográfico que determina que a obra de Lerman seja tão irrelevante
se concentra num princípio básico: no gênero do cinema político, não basta que
o assunto seja sobre política – a própria forma tem de ser política no sentido
de ser contundente e incômoda para o espectador. Do jeito que ficou, “O olhar
invisível” está mais para um melodrama convencional que por acaso se passa num
período político conturbado.
quarta-feira, maio 06, 2015
A história da eternidade, de Camilo Cavalcante **
O que caracteriza o cinema pernambucano como aquele mais
criativo do atual panorama nacional é uma abordagem visceral tanto em termos
formais quanto temáticos, em que os diretores buscam muito mais o impacto
sensorial do que uma adequação a padrões de bom gosto estético, vide obras
memoráveis como “A febre do rato” (2011), “O som ao redor” (2012), “Tatuagem” (2013)
e “Amor, plástico e barulho” (2013). O que se pode perceber em “A história da
eternidade” (2014) é quase que o oposto de tal direcionamento artístico. O
diretor Camilo Cavalcante usa como base de sua obra uma plasticidade requintada
e uma atmosfera de tons solenes. Fica-se com a impressão constante de que se
está assistindo a uma transposição de uma típica tragédia grega para os confins
do sertão nordestino. Mesmo as interpretações do elenco evocam uma certa
empostação em diálogos, expressões e gestos, além dos densos temas da trilha
sonora reforçarem aquela aura de seriedade e mesmo de opulência barroca. Ao
contrário de seus colegas conterrâneos, Cavalcante parece procurar legitimidade
autoral ao aderir a esses classicismos acadêmicos. Tais soluções narrativas por
vezes até trazem um certo encanto imagético para o filme, mas também tiram
muito do seu vigor narrativo. A produção se escora demais em simbolismos e
dilemas muito manjados, sem realmente tirar algo de efetivamente envolvente e espontâneo
de tais recursos. A forma com que o roteiro lida com temas tabus e controversos
como incesto, violência, culpa e repressão religiosa é marcada pela assepsia e
mesmo um moralismo enviesado. Se tal direcionamento artístico de Cavalcante
leva “A história da eternidade” para caminhos de maior aceitação para o público
médio, também é verdade, entretanto, que o torna uma experiência cinematográfica
pouco memorável.
terça-feira, maio 05, 2015
O Gebo e a Sombra, de Manoel de Oliveira ***
Os detratores do cineasta português Manoel de Oliveira, recentemente
falecido, podem dizer o que quiserem dos seus filmes, mas pelo menos uma coisa
eles terão de reconhecer: pode-se perceber em grande parte de sua obra um traço
autoral muito particular, como se todas essas produções habitassem um universo à
parte daquilo que tem aparecido nos cinemas nos últimos tempos. “O Gebo e a
Sombra” (2012), seu derradeiro trabalho, pode não ser a sua obra-prima, mas tem
o inegável mérito de ser uma eficiente síntese de suas obsessões formais e temáticas.
A narrativa se configura dentro de uma encruzilhada em que se batem elementos
de literatura e cinema. Esse choque faz com que a linguagem estética adquira um
estranho caráter mestiço. Oliveira abdica do naturalismo, mas isso não quer
dizer que a trama habite um plano delirante ou onírico. Sua encenação seca e
precisa enfatiza a beleza rigorosa do texto literário que serviu de base ao
filme, sem deixar também de valorizar a encanto de uma composição visual
detalhista e estilizada. As interpretações do elenco se mostram em sintonia com
as concepções artísticas do cineasta, num misto de declamações que beiram o poético
e de um desconcertante distanciamento emocional. Os métodos de Oliveira de
filmar e editar são radicais na idealização e execução, exigindo do espectador
uma forte abstração para poder penetrar nessa dimensão sensorial diferenciada. O
resultado, por vezes, é recompensador para quem se dispor a embarcar nessa
viagem audiovisual típica do diretor luso.
segunda-feira, maio 04, 2015
Vício inerente, de Paul Thomas Anderson ****
O fluxo narrativo de “Vício inerente” (2014) obedece a uma lógica
particular – é como se o espectador visse tudo o que está ocorrendo em cena
pela perspectiva chapada de maconha do protagonista Larry “Doc” (Joachim
Phoenix em mais um desempenho sensacional). Não significa necessariamente,
entretanto, que se trata de um olhar delirante. É mais como se o formalismo do
filme se guiasse pela percepção alterada do personagem. Diante de tal concepção
estética, mesmo o fato da produção se originar de uma obra literária ganha uma
dimensão diferenciada. A narração over de uma das personagens, por exemplo,
poderia soar como um artifício redundante e previsível, mas dentro do universo
audiovisual criado pelo diretor Paul Thomas Anderson acaba adquirindo uma
perspectiva insólita e brilhante, fazendo com que a narrativa ganhe um sarcástico
tom fabular. Outros truques formais e temáticos do cineasta têm grau de eficiência
e criatividade semelhantes: a caracterização de situações e personagens por
vezes corresponde a um ideário típico de um imaginário “hipponga”, os temas
incidentais e as canções que compõem a trilha sonora se inserem como se
estivessem numa rádio que oscila de volume e frequência, as resoluções da trama
e a própria encenação se sucedem numa ambientação de casualidade e de forma
anticlimática, as atuações do elenco variam entre a sutileza dramática e tom
grotesco. Apesar de inicialmente o roteiro se filiar ao gênero
policial/suspense, não prevalece uma atmosfera de tensão, mas de irônico
distanciamento emocional. Essa queda por um discreto humor sardônico assim como
a particular estética empregada por Anderson revelam com sutileza a verdadeira
natureza existencial e artística de “Vício inerente”: a de um comentário amargo
sobre o fim de uma utopia e a sua assimilação como mais um produto por uma
sociedade em que o lucro nunca pode cessar.
quinta-feira, abril 30, 2015
Dois dias, uma noite, de Jean-Pierre e Luc Dardenne ***1/2
Não há como ver e analisar a produção franco-belga Dois
dias, uma noite (2014) sem
a contextualizar com a realidade atual da Europa: a crise econômica, o
desemprego, o culto ao individualismo, o crescente aumento de depressivos na
população. Mas o filme dos irmãos Dardenne não se limita a fazer um simples e
didático comentário sociológico sobre tal panorama. Os diretores constroem um
filme atemporal que se configura como um preciso e emocionante conto moral
pontuado por surpreendente toque otimista (em sintonia imediata com o trabalho
anterior deles, O garoto da bicicleta). A concepção formal é a mesma de boa
parte de sua filmografia: um registro áspero e naturalista, que atualiza de
forma bastante particular alguns dos principais preceitos neo-realistas. Tal
estética é o complemento exato para uma trama cujo subtexto é repleto de
contundente humanismo. A odisséia da protagonista Sandra (Marion Cottilard) na
sua busca por manter o emprego aos poucos e de forma sutil vai ganhando
conotação simbólica cada vez mais forte: ao mesmo tempo em que ela se expõe a
indiferença, egoísmo e até mesmo violência física, acaba também despertando em
algumas pessoas sentimentos esquecidos ou reprimidos (solidariedade, esperança,
generosidade). Ou seja, mais do que expor a hipocrisia e mesquinhez da
sociedade, a personagem mostra que ainda há espaço para a sensibilidade nos
indivíduos em meio a tempos tão conturbados. Se para alguns tal discurso pode
parecer ingênuo, é de se convir, entretanto, que tal visão dos Dardenne em Dois dias, uma noite tem
um caráter desafiador perante uma conjuntura tão complexa quanto a da Europa
nos dias presentes.
quarta-feira, abril 29, 2015
Chappie, de Neill Blomkamp **1/2
O cineasta sul-africano Neill Blomkamp é um caso raro no atual
panorama cinematográfico mundial: é um diretor eminentemente de filmes de gênero,
no caso a ficção científica, cujas produções estão vinculadas a grandes estúdios.
Quando apareceu com o excelente “Distrito 9” (2009), tornou-se um nome
promissor para o cinema fantástico. Suas obras posteriores, “Elysium” (2013) e
esse “Chappie” (2015), entretanto, mostraram-se decepcionantes diante da
expectativa que se criou. Ainda que por vezes derivativas e manjadas, pululam
boas ideias temáticas e sacadas formais em “Chappie”. O roteiro é um compêndio
de premissas e elementos que já vimos em alguns trabalhos clássicos: o futuro
distópico de “Robocop” (1987), os bizarros marginais de “Mad Max 2” (1981), a
rebelião robótica de “O exterminador do futuro” (1984), o andróide simpático e
bonzinho de “Short Circuit” (1986). As referências são espertas e não é demérito
por parte de Blomkamp em reciclar essas referências. O problema é que predomina
no filme uma indecisão criativa que prejudica o ritmo narrativo. Blomkamp é um
cineasta que demonstra um gosto particular por uma certa sordidez estética na
caracterização de personagens, atmosfera e situações, buscando uma certa
ambientação típica de filmes B. Ocorre que tal ousadia artística, nos momentos
mais decisivos de “Chappie”, é minimizada em nome de critérios de
acessibilidade comercial e de questões de “bom gosto”. Ou seja, ele promete
algo de diferente e de perversamente irônico e crítico, mas no final das contas
adere a soluções carentes de pegada mais autoral e vigorosa.
terça-feira, abril 28, 2015
Noites brancas no píer, de Paul Vecchiali ***1/2
O diretor Paul Vecchiali leva as possibilidades criativas da
narrativa audiovisual ao limite em “Noites brancas no píer” (2014). Na sua
concepção artística, a narrativa naturalista seria insuficiente para abarcar as
suas intenções estéticas. Dessa forma, sua obra é uma exuberante síntese de elementos
de literatura, teatro, dança e música, dando origem a um inquietante híbrido
cinematográfico. Essa abordagem formal da produção valoriza imensamente a
beleza do texto original literário de Dostoievski, mas a sua fidelidade à obra
que a inspirou não implica em simples literatura filmada. Pelo contrário – a dinâmica
narrativa se vale muito da direção de fotografia de enquadramentos e iluminação
expressivos e da montagem de ritmo sóbrio. O tom de distanciamento emocional e
a atmosfera de forte tensão dramática soam contrastantes, mas tal conjunção também
tem um efeito sensorial desconcertante. Vecchiali oferece uma encenação
vigorosa na sua combinação de composição cênica espartana e valorização da
expressividade das atuações da sua dupla de protagonista, fazendo com que
embates verbais intensos e balés alucinados joguem o filme para uma estranha e
fascinante dimensão.
segunda-feira, abril 27, 2015
Um jovem poeta, de Damien Manivel ***
A trama de “Um jovem poeta” (2014) é básica em sua construção
e clara em expor as intenções do filme, mostrando a rotina de um escritor numa
cidadezinha litorânea francesa para buscar a inspiração para os seus primeiros
poemas. Assim, bastante daquilo que se poderia esperar em uma obra como essa
consta no roteiro: a procura por uma musa inspiradora, a rejeição amorosa por
essa mesma musa, caminhadas pelo vilarejo e conversa com os nativos, jornadas
de dissipação à base de álcool, contemplação de belos cenários paradisíacos.
Mas a previsibilidade da produção é enganadora. O que interessa para o diretor
Damien Manivel é mostrar que poesia não é algo que brota da inspiração e
imaginação de um artista com tanta facilidade. O que se vê na tela é o lado cru
e sem concessões da jornada de um poeta inexperiente: sua falta de tato para
lidar com o gênio feminino imprevisível, sua fragilidade física perante um
calor praieiro torrencial, as sofridas ressacas, ou seja, a sensibilidade não
lapidada em confronto com a dura realidade da vida. Manivel escolhe uma concepção
formal ambivalente que retrata com fidelidade os dilemas artísticos e
existenciais do protagonista, em que o registro estético capta por vezes de
forma deslumbrante a beleza dos cenários por onde passa o personagem principal,
mas também adota uma atmosfera seca e naturalista ao evidenciar a sua rotina de
tédio e frustração em um ambiente que na verdade lhe é inóspito.
sexta-feira, abril 24, 2015
Era uma vez na Anatólia, de Nuri Bilge Ceylan ****
A trama de “Era uma vez na Anatólia” (2011) tem como eixo
principal o processo de investigação de um assassinato numa cidadezinha no
interior da Turquia. Essa descrição da premissa do roteiro, entretanto, seria
apenas a ponta do iceberg. O crime em questão e mesmo a sua motivação não são
expostos de forma explícita ou mesmo nem são mostrados. Em boa parte da duração
do filme, na realidade, o foco está na procura do corpo da vítima. O diretor
Nuri Bilge Ceylan usa os rudimentos da narrativa de gênero policial para fazer
uma espécie de sóbrio épico existencial. Policiais e suspeitos envolvidos na
investigação são caracterizados com consistente crueza e humanidade – são pessoas
simples nos seus pensamentos, confusos em suas atitudes e por vezes mesmo
brutais na incapacidade de lidar com o mundo. O promotor e o médico que
acompanham o procedimento, de forma simbólica representantes de outra classe
social, são indivíduos amargos e distantes. Ao percorrerem vastos campos para
localizar o corpo da vítima, o que fica evidente são as inquietações pessoais
de todos esses personagens, como se o crime que investigassem fosse um
catalisador de suas frustrações e demônios internos. O estilo de filmar cerebral
e repletos de nuances de Ceylan oferece uma moldura formal em perfeita sintonia
artística com os questionamentos temáticos de “Era uma vez na Anatólia” – as longas
tomadas fixas são expressivas tanto pela notável composição visual da direção
de fotografia quanto pela serena dramaticidade da severa encenação concebida
pela cineasta. As conclusões dos conflitos da trama e mesmo as atitudes e
intenções dos personagens ganham um caráter enigmático e obscuro, pois para a
obra de Ceylan interessa muito mais a constatação dos desígnios insondáveis do
destino e da natureza humana do que as soluções fáceis para deixar amarradas
todas as pontas soltas de uma história. Essa tendência pela imprecisão e a
falta de grandes certezas é justamente um dos aspectos mais fascinantes de “Era
uma vez na Anatólia”.
quinta-feira, abril 23, 2015
Casa grande, de Fellipe Barbosa **1/2
As marcantes transformações sociais e econômicas pelas quais
o Brasil passou nos últimos anos e mesmo a conturbada situação política atual
do país fazem com que o cinema nacional, entre outros meios de expressão
cultural, queiram traduzir essa conjuntura em formato de obras cinematográficas.
O afã desse desejo tanto pode levar a trabalhos vigorosos quanto a produções
que naufragam em suas boas intenções. “Casa grande” (2014) fica no meio do
caminho. É de se admirar que o filme de Fellipe Barbosa tem como principal
virtude uma certa sutileza formal. A elegante direção de fotografia e a sóbria
edição conferem à narrativa a necessária atmosfera de “nobre decadência” que é
a tônica do roteiro. Por outro lado, a estrutura da trama é um tanto
mecanicista em excesso no seu jogo de simbolismos visuais e mesmo no discurso
panfletário de alguns diálogos, o que acaba sacrificando parte da fluência
narrativa. A sequência da discussão entre personagens sobre a questão de cotas
raciais, por exemplo, tem um teor virulento e didático, mas também cai na
armadilha do caricatural. É provável que “Casa grande” esteja conquistando
setores da crítica e público pelo fato de trazer à tona sob um olhar crítico e
irônico algumas questões polêmicas que ainda despertam comoção coletiva. Ou
seja, a obra está inserida no olho de um furacão que permanece gerando consequências
drásticas. A necessidade de se mostrar em sintonia com o presente momento histórico,
entretanto, afasta o olhar da produção de uma abordagem emocional distanciada
que lhe daria um subtexto mais atemporal e de maior profundidade existencial.
quarta-feira, abril 22, 2015
Velozes e furiosos 7, de James Wan *
Confesso que eu até tinha apreciado os dois filmes
anteriores da franquia. As cenas de dramas pessoais dos personagens eram poucas
e insignificantes (afinal, quem quer saber de densidade psicológica em bobagens
divertidas escapistas?) e o foco principal se concentrava em competentes sequências
de ação exageradas que beiravam o delirante. Claro que não eram nada que
chegassem perto de clássicos oitentistas cascas grossas do gênero ação, mas
mesmo assim deram conta do recado. “Velozes e furiosos 7” (2015), entretanto, não
consegue atingir tal façanha. Pelo contrário: é o pior filme da série por
elevar os piores defeitos da franquia à enésima potência. A produção se
ressente de uma direção preguiçosa: em boa parte da longuíssima metragem da
obra, fica-se com a impressão de se estar assistindo a um bagaceiro e interminável
clip musical de hip hop. Essa má impressão não se apaga com os momentos em que
as perseguições automobilísticas e a porradaria comem solta – são cenas dirigidas
apenas de forma correta e derivativa. Se aquilo que os filmes da série tinham
de melhor se mostram de maneira tão pouco memorável, o que resta para aquilo
que sempre foi considerado ponto fraco na franquia? Ora, o que já era ruim fica
pior ainda. As interpretações do elenco não saem da canastrice ridícula (com
exceção da caracterização cool de Jason Statham), enquanto o roteiro é tão mecânico
nas suas viradas e patético nos seus furos que ressaltam ainda mais os
mencionados aspectos clipeiros fuleiros do filme. No mais, o fato de “Velozes e
furiosos 7” ser esse trem desgovernado talvez seja reflexo da morte de Paul
Walker, impressão essa reforçada pela estapafúrdia conclusão da produção – ao invés
daquele misto de montagem nas coxas e sentimentalismo mórbido barato não seria
melhor ter matado o personagem ou simplesmente colocar um “valeu Paul” no
final?
segunda-feira, abril 20, 2015
Cinderela, de Kenneth Branagh ***1/2
Dentro da relação entre cinema e contos de fadas, há uma
tendência na atualidade de boa parte das produções em fazer uma espécie de
revisão contemporânea sobre as narrativas fabulares tradicionais. Dentro desse
conceito, em pretensa sintonia com um olhar mais iconoclasta e pós-moderno,
tais obras dedicariam um viés adulto, sombrio, naturalista ou psicológico/psicanalítico
sobre aquelas velhas histórias que nos são contadas desde a infância. Essa
releitura “madura”, entretanto, na grande maioria dos filmes, só fica nas
intenções, com um resultado final que se mostra muito mais simplório e descartável
do que as histórias originais em que se basearam. Isso fica evidente em
trabalhos como “Alice nos país das maravilhas” (2010), na versão de Tim Burton,
e “Branca de Neve e o caçador” (2012). Em “Cinderela” (2015), a concepção
autoral dispensa esse tom de revisionismo. O diretor Kenneth Branagh investe
numa abordagem tradicional do gênero, com todos os aparentes maniqueísmos e
idealizações românticas que a história da gata borralheira costuma ter. Isso não
quer dizer que a obra não se permita ousadias e mesmo a ter um aguçado
subtexto. A experiência de Branagh em rigorosas adaptações de Shakespeare para
o cinema se manifesta de forma vigorosa (coisa que ele não tinha conseguido
fazer no primeiro “Thor”): a encenação e a montagem oferecem uma notável dinâmica
narrativa, a direção de arte e as trucagens digitais combinam criatividade
visual e bizarrias gráficas memoráveis, a direção de elenco extrai algumas
atuações bastante expressivas, com destaque para a encantadora delicadeza de
Lily James no papel-título e o histrionismo bem dosado de Cate Blanchett
(parece que ela nasceu para fazer a madrasta malvada). Coroando as boas
escolhas estéticas de Branagh, há um roteiro muito bem delineado, que entrelaça
de forma natural aventura e romance com nuances humanistas surpreendentes – ao se
analisar algumas sutilezas da trama, pode-se observar que o foco principal não
está na história de amor de Cinderela e seu príncipe, mas sim na relação de
abnegação e tolerância da personagem principal com o mundo que a cerca. Seguir
o mantra “seja corajosa e gentil” para a protagonista não é apenas uma ordem
moralista. Significa também a possibilidade de sobrevivência e resistência
dentro de um ambiente de opressão. Colocar um dilema existencial complexo como
esse dentro de uma produção infantil de maneira fluente e sutil é um dos
principais méritos de Branagh em “Cinderela”.
sexta-feira, abril 17, 2015
A cidade cor-de-rosa, de Julien Abraham **
Os filmes mais recentes de Fernando Meirelles podem não ser
grande coisa e ele parece que tem se contentado em fazer alguns trabalhos sem
grande expressão para a Globo. Mas de algo ele pode ter orgulho: “Cidade de
Deus” (2002) se tornou uma espécie de escola estética e temática para algumas
produções internacionais. Essa é justamente a impressão que se tem ao assistir
ao francês “A cidade cor-de-rosa” (2012). A escolha do cenário para a trama do
filme é até natural e se mostra em sintonia com um dos aspectos mais prementes
da atual conjuntura social na França: os subúrbios de Paris repletos de
imigrantes relegados por políticas conservadoras e com um pé na criminalidade. O
diretor Julien Abraham se inspira em vários dos maneirismos formais que
Meirelles aproveitou tão bem em sua obra máxima. Só que reproduzir tais truques
não implica necessariamente que se terá uma obra satisfatória... Falta para “A
cidade cor-de-rosa” uma fluência narrativa mais orgânica, um roteiro menos óbvio
e formulaico, uma atmosfera de tensão dramática que cative as plateias. Seu
resultado final é uma produção fácil de ver, mas que também é pouco memorável
pelas suas soluções artísticas pueris.
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