quarta-feira, junho 12, 2019

Compra-me um revólver, de Julio Hernández Cordón ***1/2


A referência mais óbvia que vem à mente ao se assistir à produção mexicana “Compra-me um revólver” (2018) é “Mad Max – Além da cúpula do trovão” (1985). Afinal, o filme dirigido por Julio Hernández Cordón é uma ficção-científica futurista distópica tendo entre seus principais personagens crianças órfãs abandonadas sobrevivendo em um ambiente hostil. Ao invés de adotar o tom espetaculoso/apoteótico do clássico oitentista de George Miller, esse longa-metragem mais recente se utiliza de uma concepção narrativa-estética mais contida e de uma encenação sóbria, em que efeitos especiais praticamente inexistem e a economia de recursos é determinante em termos de direção de arte e fotografia. E tudo isso que poderia ser visto como um limitador criativo na verdade se converte em uma grande força artística no filme de Cordón, pois aproxima um possível futuro tenebroso de um presente não muito diferente, causando para o espectador um efeito sensorial/existencial perturbador (caos social, exploração humana, violência desmedida, machismo e abandono infantil não estão distantes da realidade do México e de vários outros países da América Latina). O limite entre a sufocante tensão dramática de um thriller de suspense e a reflexão melancólica do subtexto de forte teor sócio-político é sempre difuso, fazendo com que a ligação entre esses dois lados da obra seja intrínseca de maneira contundente. Ainda que a dureza temática e formal predomine na narrativa, “Compra-me um revólver” sabe se permitir nos momentos certos uma certa dose de poesia, conforme se pode perceber em sua evocativa sequência de conclusão.

Um comentário:

Marcelo Castro Moraes disse...

"Compra-me Um Revólver" pode ser uma ficção, mas assusta pela sua realidade nua e crua e da qual pode estar muito mais próxima de nós do que a gente imagina. Leia a minha analise completa no meu blog https://cinemacemanosluz.blogspot.com/2019/06/cine-dica-em-cartaz-compra-me-um.html