
Todas essas características perturbadoras parecem ter assustado o próprio Webb, o que fez com que ele oferecesse um tom cômico em boa parte do filme para evitar cair em excessos depressivos. Na realidade, dá até para dizer que Webb faz uma certa gozação metalinguística com a tristeza que emana durante várias oportunidades em “500 Dias Com Ela”. Há um narrador que frequentemente explica o que os protagonistas sentem e as lições que eles podem estar tirando dos fatos, uma menina de cerca de 12 anos que é a conselheira sentimental de Tom, pequenos números musicais e truques visuais que trazem um toque de fantasia para a produção. Tais detalhes revelam as próprias origens de Webb, um prestigiado diretor de vídeo-clips musicais, mas também concentram os pontos fracos do filme. Por que um narrador explicitando coisas que já estariam suficientemente claras apenas com imagens? E por mais que algumas das constatações da mini-conselheira de Tom sejam de uma lucidez cortante, o fato delas serem proferidas por uma figura tão insólita acaba tirando muito do impacto que poderiam ter. É justamente nesses equívocos que reside o motivo de “500 Dias Com Ela” ser um filme sintomático do seu tempo: o desejo de ser pop, cult e referencial, quesitos básicos do atual cinema com pretensões pós-modernas. Isso fica claro nesta tendência de em alguns momentos Webb mastigar o sentido das cenas para quem assiste, não deixando espaço para interpretações. Em tais seqüências, não se permite a leitura de um sub-texto a partir do roteiro, pois tal sub-texto já está ostensivamente delimitado. E se em algumas oportunidades a identificação do público com as desventuras de Tom vem ao natural, em outras Webb força essa aproximação por meio de referências como músicas e filmes, recurso que acaba soando muito formulaico, derivado do estilo Nick Hornby (o escritor de “Alta Fidelidade”, a bíblia dos adoradores de referências pop). Detalhes como música, vestuário, livros, etc, são acessórios, mas não efetivamente definidores de espírito de personagens. Podem soar divertido em alguns momentos, mas no final jogam esses mesmos personagens para um nível caricatural ou de estereótipo (o que acaba acontecendo com Tom). Buscar sempre a aproximação com a realidade imediata do espectador não significa necessariamente uma legitimidade artística.
Mas talvez essa discussão seja filosófica ou antropológica demais para uma simples resenha cinematográfica. Mesmo estando longe da perfeição, “500 Dias Com Ela” é um debut promissor e faz despertar curiosidades sobre o que o Mark Webb possa realizar nas suas próximas produções. Afinal, seus equívocos revelam muito mais a vontade de experimentar com a linguagem do cinema do que um sinal de acomodação.
Nenhum comentário:
Postar um comentário