sexta-feira, novembro 12, 2010

Coco Chanel & Igor Stravinsky, de Jan Kounen ***1/2


Confesso que o meu primeiro contato com a música de Stravinsky foi de maneira enviesada. Em “Israel”, faixa de abertura do álbum ao vivo “Nocturne” (1983) da banda gótico-punk Siouxsie and The Banshees, havia um trecho da “Sagração da Primavera” que servia quase como uma breve vinheta. Mesmo que de duração rápida, aqueles arranjo e melodia épicos e sinistros nunca saíram da minha mente.

Algumas das primeiras tomadas de “Coco Chanel & Igor Stravinsky” (2009) já revelam logo de cara que não estamos diante de uma mera cinebiografia: uma câmera inquieta voa no meio da primeira apresentação da “Sagração da Primavera” em Paris, flagrando vários detalhes – a evolução do tema musical de acordo com a entrada e participação de cada instrumento, o registro do balé coreografado por Nijinsky e as reações exaltadas e contrastantes na platéia. No meio dessa confusão, pode-se perceber Coco Chanel (Anna Mouglalis) de seu camarote, envolta em sombras (o tom sombrio da fotografia lembra bastante o extraordinário trabalho de Gordon Willis em “O Poderoso Chefão 3”). Tal abertura revela desde o início que “Coco Chanel & Igor Stravinsky” envereda muito mais por uma realidade idealizada, em que os truques estéticos realçam o aspecto de pessoas e fatos relevantes que compõem um imaginário coletivo em detrimento daquilo que é factual. De certa, a mesma abordagem pela qual Martin Scorsese enveredou na obra-prima “O Aviador” (2004).

Mesmo que se formate dentro de um esquema de melodrama e com alguns dados efetivamente históricos, “Coco Chanel & Igor Stravinsky” nunca abandona o tom da verdade que é pervertida pela fantasia. Até porque não houve uma definitiva conclusão de que os protagonistas tenham tido um relacionamento amoroso na vida real. Mesmo que se trate de ficção e se aprofunde em estilizações, entretanto, o filme acaba sendo fiel no sentido de dar uma ideia muito aproximada da dimensão da importância e influência de Chanel e Stravinsky para a cultura e o comportamento ocidentais do início do século XX até os dias de hoje.

A ousadia do tipo de narrativa adotado pelo cineasta Jan Kounen em “Coco Chanel & Igor Stravinsky” se cristaliza na seqüência final da produção, quando a já consagrada “Sagração da Primavera” recebe uma nova apresentação em Paris. Nestas cenas derradeiras, Kounen encadeia uma série de tomadas que evocam uma estranha mistura entre o onírico e o delírio, em que passado, presente e futuro vão se intercalando de forma desconcertante, numa conclusão de raro impacto sensorial que parece absorver um pouco da atmosfera difusa da filmografia de David Lynch.

2 comentários:

pseudo-autor disse...

Passou no Festival Varilux aqui no RJ e eu perdi a chance de ver. Desde então estou procurando pra baixar, mas sem sucesso. Vi aquele outro com a Audrey Tatou fazendo a Coco Chanel (e, confesso, não achei grande coisa).

Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

André Kleinert disse...

"Coco Chanel e Igor Stravinsky" é muito superior ao burocrático "Coco Antes de Chanel".