terça-feira, dezembro 20, 2016

Sully - O herói do Rio Hudson, de Clint Eastwood ***

Uma expressiva parte da filmografia do diretor norte-americano Clint Eastwood é composta de obras baseadas em fatos reais que estabelecem uma espécie de inventário histórico e cultural dos Estados Unidos. Em tais produções, o foco do diretor não se limita apenas a encenar eventos “verdadeiros”, mas também a procurar traduzir uma série de conceitos e valores caros para o país como o patriotismo, a moral e heroísmo. O processo artístico de Eastwood na elaboração de tais trabalhos passa por uma abordagem formal sóbria e clássica e uma visão temática madura que enfatiza a complexidade psicológica do contexto histórico recriado. Dentro desse método, destacam-se produções brilhantes como “A conquista da honra” (2006) e “Sniper americano” (2015). Ainda que não tenha a mesma qualidade estética e textual dos filmes mencionados, “Sully – O herói do Rio Hudson” (2016) dá continuidade ao projeto artístico-histórico de Eastwood de maneira contundente. Ainda que se renda por vezes a alguns truques narrativos melodramáticos convencionais, o filme consegue oferecer uma interessante dimensão humanista para o insólito caso do comandante Sully (Tom Hanks), que em uma situação de emergência, em janeiro de 2009,  pousou um avião lotado em pleno Rio Hudson, em Nova Iorque, e que devido à sua perícia fez com que não houvesse nenhuma vítima fatal. De maneira sutil, prevalece na ambientação da trama um tom de ambiguidade – mesmo ressaltando momentos de exaltação da coragem do protagonista, a história se permite um certo clima de ressaca moral do cenário pós-crise econômica de 2008. Nesse sentido, a forma com que Eastwood conduz a narrativa e o teor sócio-político da trama evocam uma atualização do cinema de Frank Capra, em que até a atuação de Hanks emula alguns maneirismos típicos de James Stewart.

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