quinta-feira, março 29, 2018

O Insulto, de Ziad Doueiri *


Premiações ou indicações relativas ao Oscar e a prestigiados festivais de cinema, para muitos, são indicadores confiáveis da qualidade artística de um filme ou pelo menos de alguma relevância cultural. A verdade, entretanto, é que tais eventos na escolha de seus agraciados obedecem muito mais a um jogo de interesses de profissionais da indústria do cinema do que se preocupam com uma real avaliação estética das obras. A produção libanesa “O insulto” (2017) é um exemplar claro dessa tendência – ganhador de prêmio no Festival de Veneza e indicada ao Oscar de melhor filme estrangeiro, o filme é constrangedor em seus vários equívocos narrativos. Dizer que o seu conjunto formal-temático remete a um novelão insosso chega a ser generoso – a breguice e a apelação sentimental da trama e a narrativa modorrenta fazem do longa do diretor Ziad Doueiri um equivalente libanês de uma novela mexicana de quinta categoria. Até se poderia dizer que a abordagem de uma questão complexa como os conflitos étnicos e religiosos na sociedade libanesa garantiriam algum interesse por um prisma histórico-antropológico, mas a forma banal e convencional com que tal temática é abordada, aliada a seu formalismo misto de mediocridade e tosqueira, detonam qualquer possibilidade de que o filme tenha um outro destino que não seja o limbo das produções ordinárias descartáveis.

quarta-feira, março 28, 2018

A luta do século, de Sérgio Machado ***1/2


A abordagem mais óbvia que se poderia dar à rivalidade entre os boxeadores Luciano Todo Duro e Reginaldo Holyfield seria aquela em tom folclórico, caindo no francamente jocoso. Afinal, ao longo de três décadas de vários enfrentamentos nos ringues e fora deles os próprios lutadores trataram de fornecer uma matéria-prima cômica, involuntariamente ou não, além dos meios de comunicação terem acentuado bastante o lado patético do conflito entre tais indivíduos. No documentário “A luta do século” (2016), o diretor Sérgio Machado também se vale dessa visão irônica que ressalta o lado pitoresco de tais figuras e de algumas situações que protagonizaram. Tal concepção, entretanto, é predominante no terço inicial da narrativa. Em um processo criativo de fortes tons dialéticos, no restante do filme o cineasta se dedica a fazer uma perturbadora e cruel dissecação dos reais significados que envolvem as disputas pugilísticas e mesmo existenciais entre esses dois homens. Aos poucos, aquilo que parecia anedótico e divertido vai ganhando uma conotação mais complexa e melancólica ao evidenciar o despreparo emocional e cultural de Todo Duro e Holyfield em lidarem com os diversos aspectos da notoriedade que obtiveram quando estavam no auge de suas respectivas carreiras esportivas. No ocaso de suas trajetórias, as duras consequências econômicas e sociais lhe atingem com uma brutalidade devastadora. Relegados novamente à pobreza de origem, conformam-se a pequenos bicos, favores de amigos e familiares, confortos místicos de seitas religiosas e exploração de políticos. Ou seja, o perfeito retrato simbólico de milhões de brasileiros. Incapazes de uma reflexão mais profunda sobre as causas de suas insuficiências financeiras e de seus padecimentos físicos, acabam condenados a repetirem uma eterna luta que nunca terá fim, presos em personagens que eles mesmos não conseguem distinguir onde termina a fantasia e começa a realidade. Machado consegue um equilíbrio artístico notável entre a comicidade natural da primeira parte do filme com o direcionamento dramático posterior, fazendo com que esses diferentes planos narrativos convivam com uma naturalidade impressionante. Além disso, o discurso humanista do subtexto de “A luta do século” brota com sutileza e contundência dentro de uma dinâmica narrativa que combina farto material audiovisual de arquivo com muito bem sacadas tomadas próprias sem precisar apelar para previsíveis truques jornalísticos.

terça-feira, março 27, 2018

Minha amiga do parque, de Ana Katz ***1/2


De vez em quando aparece alguma produção que mostra que o cinema argentino contemporâneo é bem mais que melodramas bem-comportados estrelados por Ricar do Darin. “Minha amiga do parque” (2015) é uma dessas obras de exceção. O filme da atriz, roteirista e atriz Ana Katz começa de maneira beirando o previsível, ao mostrar o cotidiano da protagonista Liz (Julieta Zylberberg) e seu filho ainda bebê enquanto o marido está viajando a trabalho. Aos poucos, a narrativa vai ganhando contornos de maior tensão e mistério, principalmente no momento que entra em cena Rosa (Katz). É como se Liz ingressasse em um universo à parte, em que as regras de convivência “civilizada” tipicamente pequeno-burguesas se dissolvessem de forma sutil e perversa. Por mais que os modos e atitudes atribulados de Rosa perturbem Liz, há uma perturbadora atração dessa última por essa vida instável e mais desafiadora dos padrões vigentes. A encenação proposta por Katz para essa intimista saga existencial evita o óbvio e o maniqueísta, valorizando pequenos gestos e silêncios expressivos entre as personagens. A forte densidade dramática e a discreta ironia da trama também são valorizadas pela crueza imagética da direção de fotografia, pelo intenso ritmo narrativo e pelas viscerais interpretações de Katz e Zylberberg.

sexta-feira, março 23, 2018

Western, de Valeska Grisebach ***1/2


Em um primeiro momento, “Western” (2017) parece evocar algo da filmografia do diretor alemão Werner Herzog, principalmente daquelas obras em que o cineasta faz um registro da natureza marcado pela crueza. Não dá para dizer, entretanto, que o filme de sua conterrânea Valeska Grisebach se limita a uma mera reciclagem de influências. A abordagem da cineasta se vale de uma abordagem realista e sem excessos sentimentais manipuladores para formatar uma sóbria narrativa carregada de simbologia francamente humanista. A direção de fotografia não se limita em reduzir seus belos enquadramentos de florestas e vilas interioranas a um óbvio caráter de cartão postal – há um conceito imagético-existencial em que tais cenários trazem uma carga metafórica de um universo paralelo/perdido, o que está em perfeita sintonia com o cerne temático de seu roteiro, que é o conflito entre os operários alemães “civilizados” e os rústicos nativos búlgaros em meio a obras no interior do país desses últimos. Nesse sentido, a figura do protagonista Meinhard (Meinhard Neumann) é fundamental na exposição dos principais conflitos e dilemas da trama. Silencioso e algo curioso, o personagem procura trafegar com alguma naturalidade entre esses dois mundos aparentemente opostos, fazendo com que venha à tona uma série de sentimentos e sensações entre os lados, principalmente no que diz respeito a preconceitos, intolerâncias, mesquinharias e desconfianças. Ou seja, uma sutil parábola moral-filosófica que expõe em seu subtexto alguns dos principais conflitos sócio-culturais-políticos pelos quais passa a sociedade contemporânea. “Western” não se limita a fazer sociologia. Há sagacidade e desenvoltura na encenação proposta por Grisebach, com uma narrativa de ritmo sereno em sua condução, mas que, no entanto, esconde em seu desenvolvimento uma profusão de ações e situações que envolvem o espectador de maneira sedutora.

quinta-feira, março 22, 2018

15h17 - Trem para Paris, de Clint Eastwood *1/2


Dá para dizer que desde a dobradinha “A conquista da honra” e “Cartas de Iwo Jima”, ambos lançados de 2006, o diretor Clint Eastwood tem demonstrado uma certa obsessão em seus filmes com histórias baseadas em fatos reais a ressaltarem questões como o patriotismo, o heroísmo e a guerra. Em quase todos eles, ele conseguiu fazer com que as narrativas não tropeçassem no meramente laudatório ou no ufanismo simplório a partir de um bem engendrado equilíbrio entre classicismo formal e sóbria atmosfera emocional. Pois a exceção a essa habitual abordagem do cineasta acaba se configurando justamente na sua obra mais recente, “15h17 – Trem para Paris” (2018). Ao término da projeção, a impressão é a de se ter assistido a uma convencional e apelativa peça de propaganda cristã-armamentista-patriota. Ao invés daquela perturbadora ambiguidade existencial e da notável síntese entre sutileza estética e expressiva caracterização imagética que pairavam em obras como “A troca” (2008) e “Sniper americano” (2015), o que se tem é uma produção genérica repleta de discursos de autoajuda e encenada com uma mão pesada que parece que nem é a do mesmo diretor que tem obras-primas como “Os imperdoáveis” (1992) e “Sobre meninos e lobos” (2003) em sua filmografia.

terça-feira, março 20, 2018

Torquato Neto - Todas as horas do fim, de Eduardo Ades e Marcus Fernando ***1/2


Assim como o documentário “Cinema novo” (2016) teve a sua estrutura narrativa formatada de acordo com os preceitos artísticos do movimento cinematográfico que focalizou, “Torquato Neto – Todas as horas do fim” (2017) é uma obra documental que parece se configurar como uma canção típica da Tropicália, momento cultural do qual seu biografado foi um dos principais nomes. A ordenação de fatos e depoimentos que surgem na tela se dão dentro de um ordenamento linear e cronológico tradicional. Essa sugestão de convencionalismo, entretanto, é logo embaralhada pelo direcionamento conceitual proposto pelos diretores Eduardo Ades e Marcus Fernando. O que é passado (imagens de arquivo) e presente (depoimentos atuais sobre Torquato) vão se fundindo a partir de recursos e truques narrativos, fazendo com que o protagonista se mostre como uma figura pertencente a uma outra dimensão temporal e existencial. Não à toa, as filmagens contemporâneas recebem um tratamento visual estilizado, dando uma ideia de sujeira imagética, reforçada ainda pelo desencontro entre áudio e imagem. O truque pode ser simples, quase barato, mas o efeito sensorial é desconcertante, bastante em sintonia com a própria natureza artística de Torquato. Tal abordagem do documentário respeita e valoriza a própria complexidade da arte e personalidade de seu principal personagem – ao invés de procurar respostas fáceis para os triunfos e descaminhos na trajetória de Torquato, ressalta ainda mais os aspectos inquietantes e misteriosos para a sua arte e vida pessoal. Mais do que se limitar a um mero caráter informativo, “Todas as horas do fim” joga o espectador dentro de um caleidoscópio sonoro-poético-visual belíssimo e atordoante.

segunda-feira, março 19, 2018

Projeto Flórida, de Sean Baker ***1/2


Junto à “Tangerine” (2015), “Projeto Flórida” (2017) faz com que o diretor Sean Baker possa ser caracterizado como um cronista dos deserdados dos Estados Unidos. Se no filme anterior o foco da trama se concentrava em um dia agitado na vida de dois travestis, nessa obra mais recente é mostrada a história de Halley (Bria Vinaite), uma mãe solteira desempregada, tentando criar a filha Moonee (Brooklynn Prince) em um subúrbio da Flórida. A diferença agora é que a abordagem formal e narrativa de Baker apresenta um maior grau de refinamento. Vale ressaltar, entretanto, que isso não faz com que ele perca aquela crueza contundente que era parte dos encantos artísticos de “Tangerine”. A história se alterna entre as brincadeiras endiabradas de Moonee com amigos por conjuntos residenciais fuleiros, sua relação carinhosa com a mãe e os percalços sócios econômicos de Halley para garantir a subsistência da família envolvendo pequenos trambiques e prostituição. Em termos temáticos, pode-se perceber que não há grandes surpresas em “Projeto Flórida”. O segredo do filme está na encenação vigorosa concebida por Baker e por uma beleza imagética insólita que por vezes faz com que certos aspectos banais do cotidiano ganhem um inesperado tom épico. Além disso, há uma sobriedade emocional na forma que os temas intimistas e sociais da história são tratados – por mais que as atitudes inconsequentes de Moonee levem a previsíveis consequências desagradáveis, não há um viés moralista em tais soluções do roteiro. A constatação passa mais por algo considerado inexorável de acordo com uma sociedade moralista e hipócrita em que as personagens estão inseridas.

sexta-feira, março 16, 2018

Visages, villages, de Agnès Varda ***


Ainda que a direção de “Visages, villages” (2017) seja compartilhada com o fotógrafo e artista plástico JR, o filme em questão é uma obra que diz muito mais respeito ao universo autoral da cineasta Agnès Varda. JR tem a sua importância em termos estéticos e existenciais para a produção, mas o que dita realmente os caminhos criativos da narrativa são as inquietações e concepções particulares de Varda. Os sutis choques entre os preceitos documentais com truques de encenação, as reminiscências pessoais da cineasta, suas admirações particulares e convicções sócio-políticas – tais elementos são estabelecidos com delicadeza por Varda, com JR usando sua própria arte para dar vazão a eles. No cômputo geral, não chega a ser um trabalho especialmente arrebatador, com uma narrativa que flui tranquila e por vezes quase como devaneio por um conceito etéreo de uma França profunda que fica em uma zona entre o nostálgico e o irreal. As obsessões formais e artísticas da dupla de diretores se fundem por vezes como uma coisa só e dão ensejo a algumas boas sacadas imagéticas. Há um tom crepuscular que paira sobre a narrativa, afinal é provável que se trate do último filme dirigido por uma Varda já algo combalida pela idade e a saúde mais frágil, o que faz com que um aspecto de sentimentalismo domine algumas cenas. Isso, entretanto, nasce e se manifesta com coerência e espontaneidade, estando bem longe do apelativo. Se Godard hoje em dia ainda mantém a preocupação em romper com os ditames de “normalidade” da linguagem cinematográfica, Varda quer apenas dedicar seus últimos esforços criativos para evocar um passado que ama e manifestar suas admirações. “Visages, villages” é um exemplar pungente de seus desejos.

terça-feira, março 06, 2018

Jonas e o circo sem lona, de Paula Gomes ***1/2


Há um momento em “Jonas e o circo sem lona” (2015) que sintetiza com notável sensibilidade e precisão os principais dilemas estéticos e existenciais desse documentário brasileiro – a professora do jovem Jonas, protagonista do filme, questiona a diretora Paula Gomes sobre a validade artística do que ela está filmando bem como a influência negativa que a realização do longa pode estar causando ao menino, ressaltando ainda que muito do que foi registrado pode não corresponder à “realidade”, pois, segundo a educadora, Jonas estaria representando algo que ele efetivamente não é. O primeiro terço da narrativa mostra o cotidiano do garoto, em uma cidade interiorana da Bahia, focando com maior ênfase a sua luta para manter um pequeno circo amador com seus amigos. A referida fala da professora, entretanto, é que caracteriza com contundência a verdadeira natureza do filme. Ao invés de um conto de superação das dificuldades sócio-econômicas de um determinado indivíduo, o que se consolida é uma sutil discussão sobre qual seria a efetiva natureza de um documentário, a do registro objetivo dos fatos como eles são ou a de uma concepção que se proponha como a captação de um fragmento ou reflexo da realidade. Paula Gomes não entrega uma resposta pronta para essa discussão. Ela acredita na possibilidade da união dessas visões distintas, em que mesmo aquilo que é encenado traz dentro de si uma desconcertante verdade. Esse subtexto do roteiro, entretanto, não afeta o aspecto emocional da narrativa. Pelo contrário: integra-se com naturalidade e coerência com a temática do filme, que dessa forma se configura como uma delicada e melancólica crônica sobre a perda da inocência.

segunda-feira, março 05, 2018

A entidade 2, de Ciarán Foy **


Apesar de alguns clichês narrativos preguiçosos e convencionais, o primeiro “A entidade” (2012) trazia um certo frescor em termos de horror sobrenatural, sabendo conciliar um roteiro de tons efetivamente sombrios e misteriosos, atmosfera algo sórdida e uma concepção imagética que trazia rusticidade e sujeira na medida certa. Na continuação “A entidade 2” (2015), tais aspectos positivos se diluem em nome de uma trama excessivamente “mastigadinha” e um formalismo que beira o asséptico. Ou seja, no cômputo geral, deixa forte a impressão que franquias de horror contemporâneas estão bem longe de serem confiáveis...

sexta-feira, março 02, 2018

O Justiceiro, de Mark Goldblatt **


Ainda que não seja considerado um personagem de primeiro escalão dentro da imensa galeria de heróis, vilões e afins no universo dos quadrinhos da Marvel, o Justiceiro teve algumas fases muito boas de histórias em sua trajetória. Para quem não conhece, ou mesmo para quem quiser relembrar, vale muito à pena ler alguns arcos antológicos escritos por autores como Doug Moench, Chuck Dixon, Garth Ennis e Jason Aaron. Tais histórias não só se destacaram como excelentes narrativas de ação como foram importantes no delineamento de um complexo e convincente perfil psicológico do personagem. Muito se fala que a atual versão do seriado do Netflix para o Justiceiro é a melhor adaptação já feita para um projeto audiovisual relativo ao notório anti-herói. Até pode ser, mas ainda assim tal recriação do universo violento de Frank Castle ainda está bem distante da qualidade artísticas dos mais expressivos momentos desse protagonista nos quadrinhos. Por isso, nem dá para ficar tão decepcionado assim com esse “O Justiceiro” (1989), a primeira versão para as telas das sombrias aventuras de Castle. Na época, não havia essa preocupação na manutenção de um severo padrão artístico e mercadológico típica dos Estúdios Marvel. Com algumas exceções, a intenção principal mesmo era levantar alguns trocados dos incautos em troca de uma adaptação picareta e qualquer nota. Em síntese, é um policial derivativo e violento igual a outros tantos subprodutos do gênero na época, só que usando o nome de um personagem conhecido dos quadrinhos. O tom datado da narrativa acaba tornando tudo uma experiência descartável e divertida, ainda mais levando em conta a inacreditável canastrice de Dolph Lundgren no papel-título.

quinta-feira, março 01, 2018

Eu, Tonya, de Craig Gillespie **1/2


“Eu, Tonya” (2017) parte de um pressuposto básico – a de que todo o espectador conhece a história real da patinadora artística norte-americana Tonya Harding (Margot Robbie) que supostamente teria mandado quebrar a perna da sua concorrente Nancy Kerrigan. O filme se propõe como uma cinebiografia de sua protagonista, mas desde o início da narrativa o fato da agressão é mencionado à exaustão. Ou seja, em relação ao fato-chave da trama não existe a construção de tensão dramática, mas simplesmente a configuração de uma quase comédia de absurdo. O espírito do filme dirigido por Craig Gillespie é exatamente esse– uma sátira beirando o desvario sobre o mundo dos white trash nos Estados Unidos, o lado ostensivamente escroto e insensível do american way of life. Em teoria, a proposta artística da obra até seria interessante, mas do jeito que Gillespie coloca as coisas em prática o resultado final é um tanto desajeitado e irregular. A produção abarca diversas abordagens estéticas dentro da mesma narrativa – reconstituição pseudo-documental, encenação naturalista, metalinguagem, atmosfera por vezes delirante, formalismo beirando o barroco (principalmente nas sequências envolvendo as apresentações da protagonista nos rinques de patinação – por sinal, os melhores momentos do filme). O problema é que nessa gama de recursos técnicos e textuais falta uma unidade ou coerência que dê fluidez e profundidade para a narrativa. Há sequências efetivamente bem engraçadas, com destaque para aquelas que privilegiam uma síntese entre humor negro e violência física, e uma certa visão de ácida crítica sobre a hipocrisia moral da sociedade norte-americana. Tais aspectos positivos, entretanto, se perdem pelo tom superficial de densidade dramática e psicológica tanto do roteiro quanto da direção de Gillespie. A impressão geral é de que “Eu, Tonya” teve como principais referências aquelas vertiginosas cinebiografias de figuras hedonistas e desajustadas como “Os bons companheiros” (1990) e “O lobo de Wall Street” (2013), só que Gillespie está bem distante da pegada artística mista de contundência e apuro formal de Martin Scorsese.

quarta-feira, fevereiro 28, 2018

Linha de ação, de Allen Hughes **


Dá para dizer que “Linha de ação” (2013) é uma tentativa de modernização de cinema noir. Tirando o fato da produção ser colorida, está lá boa parte dos preceitos narrativos e temáticos que marcaram alguns dos principais clássicos policiais sombrios dos anos 40 e 50. Mas como foi dito no início desse texto, o filme do diretor Allen Hughes é apenas uma tentativa, e bem insatisfatória por sinal. Ao invés de realizar uma recriação autoral como, por exemplo, Roman Polanski e os irmãos Coen fizeram, respectivamente, nos brilhantes “Chinatown” (1974) e “O homen que não estava lá” (2001), Hughes se contentou apenas em ficar acumulando de forma mecânica e pouco inspirada clichês formais e textuais, tendo como resultado final uma obra despersonalizada e asséptica.

terça-feira, fevereiro 27, 2018

Lady Bird - A hora de voar, de Greta Gerwig **1/2


Em um primeiro momento, é fácil simpatizar com “Lady Bird – A hora de voar” (2017). A trama do filme se estrutura como um “romance de formação”, mostrando fatos da adolescência da rebelde Christine McPherson (Saoirse Ronan) que acabam criando algum vínculo de empatia com a plateia no sentido de identificação. Alguns desses episódios de equívocos e revoltas juvenis são engraçados, levantando um certo tom de contestação sócio-cultural por parte da protagonista diante do caretismo de sua escola católica e dos costumes provincianos da cidadezinha interiorana onde vive. Além disso, o elenco apresenta algumas atuações carismáticas, principalmente por parte da ala feminina. Assim como é fácil de assistir ao filme da diretora Greta Gerwig, entretanto, também é fácil de esquecê-lo. Parece que a preocupação no registro das banalidades do cotidiano acabou contaminando a abordagem narrativa e formal da obra – é tudo tão quadradinho e esquemático na forma com que as coisas se desenrolam na tela que por vezes a produção cai no enfadonho. A impressão constante é de que já vimos esse filme várias vezes, e que em algumas outras oportunidades ele era bem melhor. E mesmo o roteiro, que talvez devesse ser o principal trunfo de “Lady Bird”, vai se revelando ao longo da narrativa cada vez mais previsível e conservador, vide a conclusão moralista que exalta os valores familiares e católicos que marcaram a juventude da personagem principal, os mesmos que a reprimiram por boa parte nessa etapa de sua vida.

segunda-feira, fevereiro 26, 2018

Trama fantasma, de Paul Thomas Anderson ****


A música composta por Jonny Greenwood para a trilha sonora de “Trama fantasma” (2017) é o perfeito reflexo do que é a própria concepção estética-existencial do filme dirigido por Paul Thomas Anderson – nos primeiros momentos da narrativa, os temas incidentais são solenes, requintados, de doces melodias que evocam algo de tradicional. Aos poucos e de maneira sutil, a música vai ganhando uma conotação mais dissonante, por vezes estridente, quase maníaca. Pois o filme de Anderson é justamente isso. Se em seus momentos iniciais a obra sugere algo de um convencional drama de época, de requintado acabamento formal, aos poucos essa impressão vai se dissipando e a narrativa se converte em um conto gótico repleto de insólito humor negro e uma perturbadora carga de simbologia psicanalítica dotada de perversidade e toques incestuosos. A precisa encenação, a edição que alterna de maneira desconcertante tanto planos temporais quanto de realidade e a direção de fotografia de pictórica textura de imagens e enquadramentos repletos de nuances imagéticas não se configuram apenas em meros detalhes de virtuosismo técnico, mas também dão um vigoroso sentido de atmosfera dramática e ambientação algo delirante para o complexo roteiro que alterna irônicos exageros românticos, metáforas edipianas e uma delicada construção psicológica de personagens. Nesse último aspecto, dá para dizer que Daniel Day-Lewis capta o espírito da obra com perfeição no papel do protagonista Reynolds Woodcock, oscilando com naturalidade perturbadora um lado sedutor e sofisticado e outro marcado por um comportamento patético beirando o francamente ridículo. E a composição dramática de Vicky Krieps é um notável achado, em uma caracterização que vai do inocente e etéreo até o deliciosamente maquiavélico.

sexta-feira, fevereiro 23, 2018

Gatinhas e gatões, de John Hughes ****


“Curtindo a vida adoidado” (1986) pode ser o mais famoso e “O clube dos cinco” (1985) tem uma maior densidade dramática, mas “Gatinhas e gatões” (1984) é o filme que representa a quintessência do particular estilo de filmar do cineasta norte-americano John Hughes. Nessa obra de estreia como diretor, pode-se perceber uma certa crueza formal típica de um filme de início de carreira e é justamente aí que reside um dos grandes charmes artísticos da produção. Hughes sempre preserva no filme um forte e compacto senso de narrativa, em que nenhuma cena ou diálogo se revelam supérfluos. Há um forte aspecto na obra do gênero comédia física, vide as sequências antológicas de festinhas juvenis de arromba ou as engraçadas e histriônicas cenas com o nerd metido a conquistador interpretado por Anthony Michael Hall. Nesse tipo de abordagem, o filme faz lembrar uma de suas prováveis grandes fontes de inspiração, a obra-prima “O clube dos cafajestes” (1978). Esse lado de comédia de pastelão convive em notável harmonia com um dos traços mais característicos da filmografia de Hughes que é aquela síntese narrativa-existencial de afiados diálogos bem-humorados, atmosfera de sóbrio romantismo e subtexto de sutil teor de análise comportamental de uma juventude entre a ingenuidade e a malícia. O diretor recorre a pequenos truques estéticos e temáticos que podem até soar baratos em um primeiro momento, mas que dentro de uma encenação tão enxuta e fluente se revelam genialmente eficazes. Nesse contexto, Hughes consegue extrair de maneira natural interpretações memoráveis mesmo do exagerado Hall e do canastrão Michael Schoeffling, além de fazer de Molly Ringwald uma protagonista de magnética presença cênica. Mais que mero exercício de nostalgia oitentista, assistir à “Gatinhas e gatões” é uma verdadeira aula de narrativa e linguagem cinematográficas.

quinta-feira, fevereiro 22, 2018

Simon assassino, de Antonio Campos ***


No gênero suspense, a força narrativa capaz de intrigar e envolver o espectador está justamente naquilo que não se mostra em cena e que nunca está suficiente claro na trama. Esse princípio é seguido de maneira bastante eficaz pelo diretor Antonio Campos em “Simon assassino” (2018). Durante todo o filme as motivações e intenções do protagonista Simon (Brady Corbet) são marcadas por um caráter difuso. Pelo roteiro, são jogados alguns poucos elementos de certeza sobre o personagem – sabe-se que é um jovem norte-americano recém-saído da faculdade que foi passar um tempo em Paris, com a ajuda financeira da mãe e que teve um final de relacionamento bastante conturbado com uma ex-namorada. E se tem conhecimento também que o sujeito é um tremendo mentiroso. A partir disso, os fatos se sucedem dentro de uma atmosfera de forte tensão e de uma encenação repleta de expressivas nuances dramáticas, em que a mitomania do personagem principal vai criando situações sem saída tanto para ele quando para outros indivíduos que aparecem pelo seu caminho. A narrativa varia com naturalidade entre ambientações que vão do sensual ao sórdido. Nesse sentido, a Paris noturna é o cenário ideal para essa história marcada por golpes, sexo e violência, indo de sequências de luminosidade ofuscante até outras marcadas por um tom sombrio decadente.

quarta-feira, fevereiro 21, 2018

Pantera Negra, de Ryan Coogler ***


Os méritos de “Pantera Negra” (2018) vão muito além do meramente politicamente correto. As nuances culturais e existenciais de fazer grande parte da ação se situar em um fictício país africano não se limitam ao simples exotismo, com o roteiro sabendo explorar com sensibilidade alguns dilemas e contradições inerentes a esse contexto local e histórico e os inserir com razoável coerência dentro da ambientação típica de uma produção de aventura. Mais que isso: o discurso conciliatório que fica claro no subtexto da trama se mostra em sintonia com a visão política-existencial sugerida em grande parte das obras que saíram dos estúdios Marvel, ou seja, a de que por mais injusto ou mesmo corrupto que seja o status quo ocidental, o primordial é sempre manter a ordem ao invés de recorrer a radicalismos ou a ações criminosas. Em termos estéticos e narrativo, a produção dirigida por Ryan Coogler também não foge do padrão estabelecido nos demais filmes dos estúdios Marvel, sendo que por vezes algumas sequências de ação parecem reciclar tomadas parecidas de outras obras “marvetes”. Ainda que tal recriação seja feita com competência, causa uma certa frustração que “Pantera Negra” não apresente os mesmos graus de ousadia e criatividade artísticas que foram a tônica em “Thor: Ragnarok” (2017). Ainda assim, é um trabalho bem divertido e envolvente em termos de dinâmica narrativa, tem seus momentos memoráveis e o elenco evidencia algumas composições dramáticas carismáticas (o vilão interpretado por Michael B. Jordan, especialmente, é um dos melhores dentro desse universo cinematográfico da Marvel). Para aqueles que ainda podem achar pouco tudo isso, é bom lembrar que “Pantera Negra” é léguas de distância melhor que porcarias como “Esquadrão Suicida” (2016), “Batman vs. Superman: A origem da justiça” (2016) e “Liga da Justiça” (2017) oriundas da parceria DC/Warner.

terça-feira, fevereiro 20, 2018

Três anúncios para um crime, de Martin McDonagh ***


Uma coisa fica muito evidente ao se assistir a “Três anúncios para um crime” (2017) – o diretor Martin McDonagh deve gostar muito da filmografia dos irmãos Coen. Seu filme junta dois aspectos recorrentes na obra dos Coen: o gosto pela recriação dos preceitos narrativos de faroestes clássicos (“Onde os fracos não têm vez”, “Bravura indômita”) e roteiro repleto de elementos de humor negro (“Fargo”, “Queime depois de ler”). A presença como protagonista de Frances McDormand, atriz que já colaborou diversas vezes com os Coen, acentua essa impressão. O problema é que a sombra dessa influência escancarada por vezes acaba atrapalhando pela questão de comparações inevitáveis que acabam aparecendo. Nessa perspectiva, a produção dirigida por McDonagh está bem longe da classe estética e das tramas bem lapidadas do melhor que os célebres irmãos já fizeram em sua carreira. Ainda assim, “Três anúncios para um crime” é uma obra que tem os seus méritos. Sua narrativa tem um ritmo envolvente, além da encenação conciliar por vezes com bastante eficácia tragédia e comédia, resultando em algumas sequências efetivamente muito engraçadas. A direção de fotografia tem um talhe clássico, fazendo com que algumas cenas a mostrar cenários pitorescos de cidadezinhas interioranas, bares de beira-de-estrada e ambientações rurais de grandes campos abertos evoquem uma homenagem estilizada a alguns dos principais filmes de John Ford e de outros mestres do western. McDormand e Woody Harrelson apresentam seguras composições dramáticas, e mesmo a atuação caricatural de Sam Rockwell revela algumas nuances inspiradas. O roteiro cai em algumas simplificações e incongruências excessivas, mas tem o seu lado instigante ao evidenciar um caráter fortemente simbólicos das contradições e dilemas sócio-políticos que marcam o panorama contemporâneo da sociedade norte-americana, principalmente no que diz respeito ao questionamento de opressivos valores patriarcais e preconceito raciais.

segunda-feira, fevereiro 19, 2018

Antes do fim, de Cristiano Burlan ***1/2


Se em “Fome” (2015), o anterior longa-metragem da parceria entre o diretor Cristiano Burlan e o crítico/roteirista/ator Jean- Claude Bernardet, evidenciava uma intrigante síntese entre ficção e elementos “reais”, em “Antes do fim” (2017) a particular concepção artística engendrada pela dupla se torna ainda mais ampla e complexa. Há algo que se pode definir como um fio de história, em que um homem idoso (Bernardet) procura convencer sua parceira (Helena Ignez) a praticar um suicídio duplo. A partir dessa trama, Burlan articula uma narrativa que joga na tela uma série de obsessões estéticas e existenciais tanto suas quanto de Bernardet e Ignez. E o que no início aparenta um certo tom aleatório e instintivo na forma com que as cenas se sucedem e encaixam, aos poucos vai revelando um insólito rigor conceitual e formal. Técnicas documentais são incorporadas no ficcional, formando uma narrativa híbrida de desconcertante coerência. Na narrativa, há trechos fílmicos de uma Helena no auge da juventude e beleza em plena ação dentro do cinema underground, passagens de marcação teatral, monólogos de Bernardet filosofando ou interpretando (ou as duas coisas ao mesmo tempo) com sedutora naturalidade, conversas entre o casual e o estilizado de forte teor humanista e libertário entre o casal protagonista, algumas sequências de balé de delicada desenvoltura, carinhosos exercícios de estilos cinematográficos remetendo ao cinema mudo, além de um notável senso plástico da direção de fotografia. No conjunto geral, uma memorável viagem sensorial.