quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Até o último homem, de Mel Gibson ***

Em termos conceituais, daria para dizer que a metade inicial de “Até o último homem” (2016) é necessária como uma espécie de preparação para o meio final do filme, tendo a função de fazer o desenvolvimento dramático de situações e personagens para garantir o impacto dramático das sequências de guerra. Na prática, entretanto, esta primeira metade acaba se revelando totalmente dispensável ao se revelar como um acúmulo mecânico de clichês narrativos despejados sem a menor inspiração por parte do diretor Mel Gibson, com personagens unidimensionais, encenação afetada e roteiro repleto de atos apelativos e moralistas. Até essa etapa, a produção parece uma junção pouco articulada de melodrama romântico e familiar meloso em excesso com drama de tribunal fajuto. Se Gibson tivesse dispensado tal parte constrangedora e fizesse um letreiro descritivo de fatos como aqueles da saga “Star Wars” teria poupado tempo e paciência do espectador. “Até o último homem” começa mesmo a fazer sentido quando entra as sequências de ação, ou sejas, as cenas de batalhas propriamente ditas. Daí sim dá para sentir a mão daquele cineasta que gerou obras memoráveis de alucinadas coreografias de brutalidade e sangue como “Coração valente” (1995), “A paixão de Cristo” (2004) e “Apocalypto” (2006). Ainda que tomadas por vezes por uma incômoda e excessiva atmosfera mista de religiosidade e patriotismo, as sequências de guerra apresentam uma eficiente síntese de violência gráfica, tensão dramática e realismo “sujo”. No cômputo geral, o filme está longe de brilhantismo formal e temático de outras produções contemporâneas que tiveram os campos de batalha da 2ª Guerra Mundial como cenário, vide “O resgate do soldado Ryan” (1998) ou “A conquista da honra” (2006), mas ainda assim garante Gibson como um nome de respeito dentro do cinema de ação.

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