sexta-feira, março 24, 2017

As senhoras de Salem, de Rob Zombie ***

Pode-se perceber um padrão autoral peculiar no cinema de horror praticado pelo diretor norte-americano Rob Zombie. Ainda que trafegue por alguns dos tradicionais preceitos narrativo do gênero, o cineasta consegue se diferenciar por uma visão mais sombria e ambígua nas tramas de seus filmes, em que maniqueísmos na oposição entre o bem e o mal ficam mais difusos, assim como pela abordagem formal apresentar um estranho e perturbador misto de crueza e delírio barroco. Tal concepção artística atingiu seu grande ponto alto na obra-prima “Rejeitados pelo diabo” (2005), mas “As senhoras de Salem” (2013) preserva ainda bastante do estilo de Zombie. O roteiro centra num dilema básico dos filmes sobre bruxas, a de mulheres moradoras de Salem que nos dias atuais ainda sofrem a influência das feiticeiras que séculos atrás foram mortas pelos fanáticos religiosos da região. O trunfo da produção está na atmosfera sórdida que permeia a narrativa e na encenação austera realizada por Zombie – nesse conjunto estético, o filme avança como uma espécie de trágico e algo irônico conto gótico, em que a sensação de inevitabilidade do triunfo do mal é permanente. As caracterizações dos personagens são convincentes e carismáticas e se revelam em sintonia com a ambientação de teor épico e macabro de algumas marcantes sequências, principalmente na conclusão brutal do filme.

quinta-feira, março 23, 2017

Personal shopper, de Olivier Assayas ****

Depois de se aventurar por drama de época (“Destinos sentimentais”), policial (“Clean”) e memorialismo (“Depois de maio”), o diretor francês Olivier Assayas voltar a enquadrar o cinema de gênero dentro de seus peculiares padrões autorais. Em “Personal shopper” (2016), o cineasta envereda pelos preceitos do horror sobrenatural e os recicla dentro de uma narrativa que versa sobre alienação e vazio existencial. Pode até parecer pretensioso em suas intenções artísticas, mas o resultado final é orgânico e contundente. Roteiro e encenação obedecem a um padrão estético e existencial marcado pelo rigor e pela coerência, em que alguns clichês formais e temáticos do gênero fantástico (casas assombradas, espíritos desajustados) vão se moldando dentro de um formato misto de conto moral e crônica de costumes. Essa abordagem artística de Assayas tem uma ambiguidade ora atraente, ora perturbadora, fazendo com que o filme utilize signos visuais que aludem à modernidade, tanto nos aspectos tecnológicos quanto nos padrões de beleza, para reforçar uma ideia de fascinação por alguns prazeres mundanos. Diferente da patética glorificação do materialismo perpetrada por “Cinquenta tons de cinza” (2015), entretanto, tal direcionamento narrativo tem a função de caracterização do ambiente que circunda a protagonista Maurenn (Kristen Stewart), mostrando os aspectos contraditórios de sua personalidade que trafegam no limite entre o intimismo de seus desejos e inquietações pessoais e a sua vivência social/profissional. Nesse sentido, a visão da obra sobre o metafísico se distancia bastante das obviedades moralistas e maniqueístas, em que a vontade de Maurenn em contatar com o irmão falecido esconde de maneira sutil a sua incapacidade de lidar de forma lúcida com a realidade fática em sua volta, evidenciada, principalmente, na forma com que a personagem é envolvida na sórdida trama de sexo, dinheiro e assassinato entre a sua empregadora e o amante. 

quarta-feira, março 22, 2017

Insubstituível, de Thomas Lilti **1/2

É bem provável que se “Insubstituível” (2016) fosse realizado dentro dos padrões “normais” de Hollywood o resultado final seria bem diferente. E para pior. O estilo do diretor Thomas Lilti tem uma certa discrição emocional e há uma sobriedade na condução da narrativa. O subtexto da trama tem carga simbólica considerável em termos de observação política e social – fala de um conjunto de valores típicos de uma concepção de bem-estar social que foi típica da Europa Ocidental por décadas e que agora se encontra em declínio. Ainda que tenha esses pontos relevantes, essa produção francesa se mostra um tanto anacrônica e desprovida de uma maior identidade artística tendo em vista estar muito ligadas a convencionalismos formais típicos do melodrama. A estética discreta da direção de Lilti é até por vezes agradável, mas falta a “Insubstituível” aquela tensão dramática e mesmo a fúria existencial que tornaram tão cativantes e memoráveis filmes como “Aquarius” e “Eu, Daniel Blake”, outros dramas sociais lançados em 2016.

quinta-feira, março 16, 2017

A origem da vida, de Dennis Lee *

Há produções que conseguem sintetizar o estereótipo negativo de determinadas vertentes cinematográficas. “A origem da vida” (2012) é um exemplar claro desse tipo de situação. No filme do diretor Dennis Lee se concentra aquilo que há de pior e mais caricato no cinema “indie” norte-americano – assepsia formal, melodrama rasteiro travestido de pseudoprofundidade, personagens caricatos, atmosfera entre o meloso e o “fofinho”. Resultado final: dispensável e esquecível.

quarta-feira, março 15, 2017

Kong: A Ilha da Caveira, de Jordan Vogt-Roberts ***

Ao contrário das produções de 1976 e 2005, “Kong: A ilha da caveira” (2017) não é uma refilmagem da obra clássica de 1933. O filme dirigido por Jordan Vogt-Robert pega alguns conceitos e elementos já trabalhados nas obras anteriores e as recria sob uma perspectiva diferente e mesmo uma nova trama. Assim, o espírito de cinema B, ou mesmo de cultura “pulp”, está mais presente, não havendo a dimensão trágica dada anteriormente ao protagonista. E a escolha de situar a trama na primeira metade da década de 70 não é gratuita, pois o subtexto do roteiro faz uma analogia clara entre o caráter belicoso de um pelotão do exército norte-americano perdido na Ilha da Caveira e com a missão de exterminar Kong e a postura intervencionista dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã e em outros conflitos pelo mundo que grassaram nas últimas décadas. Tal paralelo político é feito até de maneira eficiente, e surpreende que uma produção de um grande estúdio norte-americano faça com que o público torça descaradamente pelo macacão contra as forças armadas do Tio Sam. Como aventura, o filme não tem aquele fascinante clima de pesadelo da versão original dos anos 30 e nem aquele senso alucinado de encenação da obra dirigida por Peter Jackson. Ainda assim, é uma divertida aventura, com boas cenas de ação e ótima caracterização imagética dos monstros, além da direção de arte trazer uma síntese expressiva de estilização exagerada e recriação de época de razoável fidelidade histórica. Nesse sentido, é interessante a forma com que as canções roqueiras da época se inserem da narrativa – aliás, a sequência em que os helicópteros entram pela primeira vez na Ilha da Caveira ao som de uns rocks da pesada faz lembrar algumas cenas memoráveis de “Apocalypse Now” (1979).

terça-feira, março 14, 2017

Jovens, loucos e mais rebeldes, de Richard Linklater ***1/2

As comédias “estudantis”, formato que trazia obras cômicas que retratavam o cotidiano de jovens classe média em meio a confusões pueris e descobertas sexuais, se consolidaram como expressivo gênero cinematográfico no final da década de 70 e boa parte dos anos 80, vide obras como “Clube dos cafajestes” (1978) e “Porky’s” (1982). O diretor Richard Linklater realiza em “Jovens, loucos e mais rebeldes” (2015) uma recriação bastante particular desse universo. Estão lá no filme boa parte dos elementos narrativos inerentes ao gênero, mas o que diferencia a abordagem de Linklater é a sua encenação sutil e levemente reflexiva e o estabelecimento de um contexto existencial mais amargo e irônico. Situada em 1980, a trama se concentra nos últimos dias que antecedem o começo das aulas em um campus universitário. Há algo de solene na forma com que Linkater marca o decurso do tempo, como se o passar das horas indicasse os últimos momentos de inocência e de uma saudável alienação por parte do protagonista Jake (Blake Jenner) antes que a rotina de obrigações estudantis e sociais se concretize. Nesse viés, ainda que o verniz aparente seja de homenagem a um determinado estilo de filme, há também uma intenção de fazer uma dessacralização do gênero focado. Em meio a esse subtexto mais profundo e às discretas ousadias do diretor, o filme também sabe preservar as qualidades desse tipo de comédia: ótimas sequências cômicas, personagens carismáticos e a preservação carinhosa do velho ideário “sexo, drogas e rock and roll”.

Silêncio, de Martin Scorsese ****

No livro de ensaios “A civilização do espetáculo”, o escritor peruano Mario Vargas Llosa emite um controverso comentário sobre a religião – ainda que declaradamente ateu, considera que a religião ainda seja a melhor forma de civilizar o homem moderno, no sentido que esse sentimento místico lhe atribuiria um conjunto de valores e ideais que lhe dariam alguns princípios éticos e morais que o impediriam de cair na barbárie, ainda mais pelo fato de que a arte, o conhecimento científico e a cultura, outros motores desse processo de humanização, tem uma ascendência cada vez menor perante esse homem no mundo contemporâneo. Ainda que tal raciocínio seja questionável, evidencia que a religião como instituição e sentimento não pode ser dissociado do contexto histórico-político em que está inserida. “Silêncio” (2016), a mais recente produção dirigida por Martin Scorsese, é uma obra que retrata de forma contundente essa conturbada relação da humanidade com a sua religiosidade. Para isso, Scorsese utiliza uma abordagem narrativa-existencial fascinante pela sua ambiguidade – ao mesmo tempo que reforça uma admiração pela fé cristã de seu protagonista, o padre Sebastião Rodriguez (Andrew Garfield), em seu poder de lhe dar tenacidade em fazer valer o seu credo diante das mais terríveis circunstâncias, também insinua uma crítica à incapacidade do personagem em entender e aceitar o complexo cenário social e cultural do Japão do século XVII, o que reflete uma visão de mundo eurocêntrica e colonialista.


As sutilezas da temática de “Silêncio” se relacionam de maneira perturbadora com as escolhas formais de Scorsese, em que prevalecem um rigor estético em termos de encenação, fotografia e edição. O registro audiovisual evoca sintonia com um olhar estrangeiro – os cenários e o povo do Japão são envoltos numa atmosfera que sintetizam crueza naturalista, mistério e exotismo. Nesse sentido, o filme faz lembrar “Apocalypse Now” (1979) e algumas das obras de Werner Herzog, como “Aguirre e a cólera dos deuses” (1972) e “Fitzcarraldo” (1982), principalmente no sentido em que estranhamento e desconforto sensoriais se relacionam com o sentimento atávico de temor do indivíduo ocidental diante de cenários, nativos e costumes que lhes são desconhecidos. Essa singular linguagem cinematográfica que Scorsese delineia em “Silêncio” também é marcada pela dubiedade, em que o deslumbre imagético de várias cenas se confunde com uma certa crueldade na forma com que a violência gráfica se manifesta em cena e mesmo com a aridez emocional de outros momentos. Nesse último quesito, o filme é bastante radical em sua coerência artística – é de se reparar, por exemplo, que praticamente não há temas incidentais na trilha sonora para enfatizar a dramaticidade das cenas. Aliás, dentre outras escolhas desconcertantes de Scorsese para “Silêncio” está a forma com que a própria cultura japonesa é retratada no filme. Mais do que simples antagonistas na trama, a caracterização de fatores comportamentais e personagens japoneses tem uma notável profundidade e sensibilidade. Se em termos cênicos a produção revela influências claras e bem trabalhadas de clássicos do cinema nipônico, principalmente aqueles que aludiam ao universo dos samurais, há também o cuidado no roteiro de expor as particularidades do pensamento e filosofia particulares que norteiam as concepções existenciais daquela sociedade. Nesse sentido, os diálogos entre membros do governo com o padre Rodriguez sobre a impossibilidade do cristianismo se firmar no Japão são fascinantes no seu misto de fundamentação cultural e ironia.

sexta-feira, março 10, 2017

Um duende em Nova York, de Jon Favreau ***

O diretor norte-americano Jon Favreau parece manter em sua filmografia um certo ideário artístico: fazer filmes dentro de um padrão mainstream, mas que contenham alguns elementos de ironia e esquisitice. Esse discreto tom autoral pode ser percebido na comédia “Um duende em Nova York” (2003). A trama do filme até remete àquela tradicional linha de narrativa derivada de “Um conto de Natal” de Charlie Dickens, em que o espírito natalino se contrapõe a valores capitalistas desumanos, resultado numa lição de vida edificante. A partir desse modelo convencional, Favreau insere algumas características destoantes, como a estranha atmosfera mista de fábula e sátira, o tom nonsense na encenação de algumas sequências, a caracterização abilolada de Will Ferrell e um certo sarcasmo mais ácido na forma com que retrata relações humanas e mesmo os costumes da sociedade pequeno-burguesa contemporânea. É certo que essa pequena diatribe de Favreau se amolda de acordo com os ditames de Hollywood, principalmente em sua conclusão, mas ainda assim é uma obra diferenciada dentro dessa linhagem de “produções natalinas para a família”.

quinta-feira, março 09, 2017

Logan, de James Mangold ***1/2

Ok, há realmente algumas incongruências no roteiro de “Logan” (2017), principalmente em questões muito mal explicadas como a desculpa de envenenamento do adamantium como motivos da decadência física do protagonista ou o fato de uma simples enfermeira ter gravado no celular uma série de imagens comprometedoras de experiências secretas de clonagem de mutantes por parte de um laboratório dotado de um forte aparato de segurança. No final das contas, entretanto, tais deslizes da trama acabam se tornando menores diante dos fortes acertos no terceiro e derradeiro capítulo da franquia cinematográfica do mais popular mutante da Marvel. Se no primeiro filme predominava uma concepção de narrativa convencional e sem brilho e em “Wolverine imortal” (2013), dirigida por James Mangold, ocorria uma sensível melhora artística, nessa obra mais recente, também tendo Mangold no comando da produção, é impressionante como densidade dramática e ação alucinada atingem um ponto de equilíbrio narrativo memorável. Talvez o grande acerto do filme é estabelecer um forte conceito de história e concepção estética e levar tal direcionamento de maneira coerente até a sua conclusão – Wolverine saiu de cena, e o que ficou é um Logan (Hugh Jackman) envelhecido, doente e muito longe do seu apogeu em termos de força, agilidade e selvageria, e a encenação e ambientação da obra são marcadas por uma síntese de realismo, amarga visão sócio-política de um futuro próximo, sordidez e brutalidade. Mangold não se furta a fazer uma espécie de colcha de retalhos criativa em termos de roteiro e estética, pois em “Logan” há influências e referências diversas como as aventuras pós-apocalípticas de “Mad Max” (com direito inclusive do protagonista se unindo a um bando de crianças e adolescentes renegados) e clássicos faroestes crepusculares (o que fica bastante explícito nas citações a “Os brutos também amam”). Ocorre que Mangold tem a manha de fazer com que essa junção de elementos não caia na mera reciclagem picareta e soe bastante orgânica e convincente. Assim, a atmosfera de tensão e violência é bastante perturbadora, a caracterização dos personagens é muito bem delineada em termos psicológicos e icônicos (X-23, por exemplo, é muito mais interessante nessa versão para o cinema do que a figura dos quadrinhos na qual se baseou), as cenas de ação têm uma ótima desenvoltura em termos de coreografia e de um grafismo sujo e sangrento, a abordagem emocional é empática e comovente. Até o timing para o momento do lançamento de “Logan” foi bastante acertado – o futuro nada remoto retratado no roteiro dominado por preconceitos raciais, pobreza e domínio político-econômico de grandes corporações parece bastante em sintonia com o nosso presente de ascensão de uma direita neo-liberal e xenofóbica. Também é interessante constatar como Mangold consegue até fazer com que “Logan” se conecte ainda com a sua própria filmografia, em que o decadente Wolverine tem semelhanças existenciais com o desacreditado policial protagonista de “Cop Land” (1997) e com o cantor outsider Johnny Cash de “Johnny & June” (2005) – não à toa, uma canção de Cash embala os créditos finais de “Logan”.

quarta-feira, março 08, 2017

Eu, Olga Hepnarová, de Petr Kazda e Tomás Weinreb ***

As opções estéticas dos diretores Petr Kazda e Tomas Weinreb para enquadrarem a narrativa de “Eu, Olga Hepnarová” (2016) são coerentes com as intenções temáticas da obra. A rigorosa fotografia em preto e branco, a sufocante atmosfera de aridez emocional e o roteiro que beira o fragmentado são elementos que que conseguem traduzir de maneira expressiva todo o contexto social e intimista que levou a protagonista-título (Michalina Olszanska) a cometer o brutal crime de homicídios múltiplos – aliás, tal história é baseada em fatos reais. Não que a trama leve necessariamente a justificar os atos extremos da personagem principal e nem pretenda se mostrar simpática a ela. O registro formal-existencial da produção é simplesmente objetivo, por vezes beirando uma perturbadora frieza, o que faz com que o filme se afaste de moralismos e maniqueísmos fáceis, e enverede mais pelo lado de retratar a forma com que uma sociedade de caráter opressivo e as hipocrisias da família tradicional se revelam incapazes de lidar com o diferente e o destoante, fomentando ainda mais a distorção dos valores que tanto alegam defender. Para ilustrar tal visão de mundo, a concepção artística dos cineastas se configura como uma linguagem síntese entre o naturalismo e o didático – ainda que de uma desoladora dureza audiovisual, o resultado final é de inegável eficiência narrativa.

terça-feira, março 07, 2017

A tartaruga vermelha, de Michael Dudok de Wit ***1/2

Dentro do atual panorama mundial das animações, “A tartaruga vermelha” (2016) tem uma concepção artística que a coloca naquele nicho “fora do tempo e do espaço”. Seu roteiro possui um forte tom fabular, enquanto que a técnica de seu grafismo remete mais à escola tradicional europeia de décadas passadas – é de se reparar, por exemplo, que as expressões faciais dos personagens lembram alguns filmes de Tintin. O resultado final de tais opções criativas do diretor holandês Michael Dudok de Wit, entretanto, estão bem distantes do mero anacronismo ou nostalgia. A narrativa é repleta de sutilezas estéticas e temáticas e avança de forma serena. A trama não se prende a maiores explicações sobre origens de personagens ou explicações para certos eventos fantasiosos – o que importa é quase que exclusivamente o universo daquela ilha em que o protagonista náufrago passará boa parte de sua vida, em que uma estranha relação entre a natureza e a magia se dá de forma natural e com bizarra coerência. O roteiro repleto de simbologias simples e marcantes é embalado por um traço preciso, que sintetiza de maneira extraordinária estilização e realismo. Nesse sentido, não como não destacar as antológicas sequências da tempestade no meio do oceano no início do filme e do tsunami que devasta boa parte da ilha, momentos de grande e assustador impacto sensorial (em função disso, é bem recomendável que se assista ao filme em uma sala de cinema). Por outro lado, há também momentos memoráveis devido a delicadas nuances visuais que sugerem ao espectador um olhar mais atento e contemplativo. A bela e melancólica conclusão de “A tartaruga vermelha” reforçam ainda mais o caráter atemporal da produção.

segunda-feira, março 06, 2017

Eu não sou seu negro, de Raoul Peck ***1/2

Os elementos que o diretor Raoul Peck teve em mãos para conceber a narrativa do documentário “Eu não sou seu negro” (2016) são básicos e concisos – um roteiro incompleto de 30 páginas desenvolvido pelo escritor James Baldwin, farto material de arquivo audiovisual, a narração do ator Samuel L. Jackson e um conceito temático amplo e bem definido. A partir desse direcionamento formal-existencial, o cineasta elaborou um contundente panorama sócio-político-cultural embalado por uma estética turbulenta e inclemente. O foco principal aparente da trama está numa reflexão sobre vida e morte de três importantes militantes da causa dos negros nos Estados Unidos – Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King – mas aos poucos o subtexto vai se tornando cada vez mais abrangente, deixando vir à tona também o pensamento contestador e lúcido de Baldwin. Dentro dessa perspectiva de narrativa, o que a trama se propõe de forma engenhosa é relacionar a trajetória do racismo nos EUA com a própria configuração do país como nação. Para isso, Peck tem ótimas sacadas em termos de temática e montagem, fazendo com que os depoimentos de seus protagonistas interajam não só com os eventos do contexto histórico em que eles estavam inseridos, mas também com fatos que se efetivaram muitos anos depois de suas respectivas mortes. Assim, as denúncias sobre a hipocrisia de autoridades e sociedade perante a discriminação racial e os alertas sobre a necessidade de uma maior integração entre as comunidades dentro do país se mostram em sinistra sintonia com as revoltas dos negros por motivos de preconceitos que ocorreram em décadas posteriores (e ainda continuam nos dias de hoje). Peck também coloca em cheque a própria história do cinema norte-americano ao mostrar diversos trechos de produções importantes na filmografia nativa que refletiam um preconceito racial escancarado e que acabava promovido como algo natural por tais obras. Essa união entre uma visão de mundo bastante crítica e uma concepção artística criativa e muito bem delineada tem como resultado final uma produção que tanto impressiona pela clareza e fundamentação inequívoca de seu ideário humanista quanto emociona pela sua sensibilidade a dissecar uma das facetas mais odiosas e injustas da sociedade contemporânea.

sexta-feira, março 03, 2017

Operação corvo, de Takashi Miike **

O diretor japonês Takashi Miike é um cara de extremos – assim como é capaz de fazer maravilhas (“The audition”, “Imprint”, “13 assassinos”), também pode perpetrar abacaxis como esse “Operação Corvo” (2007). A premissa da trama é até uma boa ideia – uma narrativa clássica de gangsteres no ambiente de uma escola, com direito a todas as cenas de violência e intrigas inerentes a essa linhagem de filmes policiais. O resultado final, entretanto, está muito longe de tais possibilidades promissoras. O roteiro é bastante confuso, sendo que a encenação afetada e preguiçosa nada contribui para melhorar as coisas. Por vezes, em algumas passagens, dá para sentir a mão diferenciada de Miike, mas acaba sendo muito pouco para garantir o interesse do espectador.

quinta-feira, março 02, 2017

A lei da noite, de Ben Affleck **1/2

A ambição de Ben Affleck para “A lei da noite” (2016) aparenta ser grande. Retomando o gênero dos filmes de gangsteres “à antiga”, a obra sugere uma cruza entre a estética barroca de “Ajuste final” (1990) com o romantismo grandioso de “O poderoso chefão” (1972) e “Era uma vez na América” (1984). Ainda que Affleck não tenha o estofo artístico dos diretores dos filmes mencionados, o talento narrativo que havia demonstrado no policial “Atração perigosa” (2010) o credenciava a uma experiência cinematográfica no mínimo memorável. O resultado final de “A lei da noite”, entretanto, mostra-se aquém das expectativas e de suas boas referências. Ainda que o trabalho de direção de arte seja caprichado e algumas sequências de ação sejam bem movimentadas e divertidas, faltou para a produção uma encenação mais encorpada e de maior densidade dramática. O filme até conta com um bom elenco, mas que se perde numa direção de atores um tanto frouxa e que faz as interpretações oscilarem entre o inexpressivo e o caricato. O que, de certa forma, acaba sendo uma síntese daquilo que dá errado no filme. Pode-se perceber no subtexto do roteiro uma intenção de profundidade psicológica e mesmo de uma sofisticada simbologia a mostrar os dilemas sócio-culturais dos Estados Unidos nos anos 20 no que diz respeito a questões complexas como criminalidade, racismo e o conturbado cenário econômico da época. Ocorre que a mão de Aflleck como diretor se mostra pesada e pouco sutil, fazendo com que “A lei da noite” se configure como uma incômoda combinação de academicismo e pastiche. Repare-se, por exemplo, na sequência em que o protagonista Joe Coughlin (Aflleck) discursa perante um banqueiro contra as hipocrisias do sistema financeiro norte-americano – as ideias do texto são coerentes e contundentes, mas a forma com que a cena é executada é primária e sem efetivo impacto dramático.

quarta-feira, março 01, 2017

Moonlight, de Barry Jenkins ***

Na superfície, “Moonlight” (2016) remete a elementos de várias produções norte-americanas na linha black: muito funk, soul e rap na trilha sonora (excelente, por sinal), temática social relacionada a abandono familiar e marginalidade, uma certa atmosfera sórdida e sombria que permeia a narrativa. O filme dirigido por Barry Jenkins, entretanto, utiliza uma abordagem estética e de conteúdo ainda mais ampla e que se revela de maneira sutil, em que um viés intimista e sensorial vai se tornando predominante aos poucos. Na trama, aos habituais preconceitos sociais e raciais se adiciona ainda a questão da sexualidade. O roteiro descarta o caráter moralista ao expor as contradições e dilemas dos personagens, principalmente no caso do protagonista Chiron, fazendo com que algumas de suas escolhas que poderiam até ser consideradas questionáveis ganham um ar de inevitabilidade do destino, principalmente ao se considerar o ambiente nocivo que o envolve. Paira sobre os dois terços iniciais do filme de maneira constante uma ambientação de opressão, em que cada passo de Chiron parece estar sendo implacavelmente vigiado e perseguido. Algumas escolhas formais por parte de Jenkin conseguem acentuar com precisão e sensibilidade essa impressão – nesse sentido, é de se reparar, por exemplo, no vertiginoso plano-sequência no início de “Moonlight” e na assustadora sequência em que Chiron adolescente é espancado por colegas de escola. Alguns desses truques narrativos podem até soar óbvios ou simples, mas tem uma eficácia admirável para evidenciar o pesado drama do protagonista. No terceiro ato do filme, Jenkins muda o seu enfoque, passando para um registro entre o melancólico e o agridoce para sugerir uma possibilidade de redenção existencial para Chiron, e que propicia uma sequência antológica, aquela em que Kevin (Andre Holland) oferece para Chiron uma canção no jukebox.