quinta-feira, março 02, 2017

A lei da noite, de Ben Affleck **1/2

A ambição de Ben Affleck para “A lei da noite” (2016) aparenta ser grande. Retomando o gênero dos filmes de gangsteres “à antiga”, a obra sugere uma cruza entre a estética barroca de “Ajuste final” (1990) com o romantismo grandioso de “O poderoso chefão” (1972) e “Era uma vez na América” (1984). Ainda que Affleck não tenha o estofo artístico dos diretores dos filmes mencionados, o talento narrativo que havia demonstrado no policial “Atração perigosa” (2010) o credenciava a uma experiência cinematográfica no mínimo memorável. O resultado final de “A lei da noite”, entretanto, mostra-se aquém das expectativas e de suas boas referências. Ainda que o trabalho de direção de arte seja caprichado e algumas sequências de ação sejam bem movimentadas e divertidas, faltou para a produção uma encenação mais encorpada e de maior densidade dramática. O filme até conta com um bom elenco, mas que se perde numa direção de atores um tanto frouxa e que faz as interpretações oscilarem entre o inexpressivo e o caricato. O que, de certa forma, acaba sendo uma síntese daquilo que dá errado no filme. Pode-se perceber no subtexto do roteiro uma intenção de profundidade psicológica e mesmo de uma sofisticada simbologia a mostrar os dilemas sócio-culturais dos Estados Unidos nos anos 20 no que diz respeito a questões complexas como criminalidade, racismo e o conturbado cenário econômico da época. Ocorre que a mão de Aflleck como diretor se mostra pesada e pouco sutil, fazendo com que “A lei da noite” se configure como uma incômoda combinação de academicismo e pastiche. Repare-se, por exemplo, na sequência em que o protagonista Joe Coughlin (Aflleck) discursa perante um banqueiro contra as hipocrisias do sistema financeiro norte-americano – as ideias do texto são coerentes e contundentes, mas a forma com que a cena é executada é primária e sem efetivo impacto dramático.

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