sexta-feira, março 01, 2019

Dogman, de Matteo Garrone ***


O diretor italiano Matteo Garrone volta a focar suas lentes no submundo do crime em “Dogman” (2018), assim como tinha feito em “Gomorra” (2008), sua obra mais célebre e que o tornou conhecido mundialmente. Se a obra mais antiga tinha uma abordagem formal que emulava o documental e tinha um escopo mais amplo na sua visão temática, em “Dogman” a narrativa tem caráter intimista e se formata como um drama convencional, ainda que em termos estéticos haja uma crueza audiovisual. O cenário de uma periferia marcada por um aspecto arruinado e dominada pela contravenção é rústico e algo desolado e mesmo os personagens tem uma caracterização entre o desglamourizado e a estilização sórdida, tudo embalado, entretanto, por uma direção de fotografia que consegue dar uma plasticidade insólita para o filme. O roteiro se desenvolve por caminhos bem previsíveis, mas é mérito de Garrone saber extrair alguns momentos de efetiva tensão dramática, além de um senso de humor flertando com o macabro. Ponto positivo também para a forte química entre os dois principais atores Marcello Fonte e Edoardo Pesce, interessante tanto por suas expressivas performances quanto pelo contraste físico e psicológico entre os dois. Em um contexto geral, o filme de Garrone é bem realizado, mas incomoda a falta de maiores arroubos criativos ou de uma efetiva transcendência artística. A decepção se justifica ainda mais quando se pensa em tantos clássicos do cinema italiano que enveredaram para essa vertente do realismo social com resultando bem mais memoráveis que “Dogman”.

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