quinta-feira, abril 25, 2019

O anjo, de Luis Ortega ***


O cinema mainstream argentino tem como característica básica a emulação fiel dos preceitos narrativos do cinema norte-americano clássico, o que para muitos é a explicação maior pelo fato de ser melhor sucedido em termos comerciais e artísticos do que as produções brasileiras populares. Se esse direcionamento artístico em vários casos acaba rendendo obras assépticas e despersonalizadas, em outras oportunidades até surpreende ao dar origem a alguns filmes inquietantes. Nesse último caso dá para enquadrar “O anjo” (2018). Nada no longa-metragem dirigido por Luis Ortega remete à alguma efetivo sopro de originalidade ou de grande sobressalto criativo em termos narrativos ou temáticos. É mais um filme policial dentro daquela tradicional linhagem a mostrar a ascensão e queda de um meliante – e que geralmente se baseia em fatos reais (o que é exatamente o caso do filme de Ortega). Tem até direito a sequências de ação e violência regadas a muito rock and roll setentista (impossível de não lembrar de cenas semelhantes de obras-primas de Martin Scorsese como “Os bons companheiros” e “Cassino”). Ainda assim, é uma obra que por vezes cativa o espectador pela competência e convicção de Ortega em ficar remexendo clichês narrativos, além de contar com um desempenho magnético e memorável de Lorenzo Ferro no papel do protagonista Carlitos Puch. As sequências dele saltando muros e telhados, fazendo caras e bocas, disparando tiros ou simplesmente dançando estilosamente demonstram uma impressionante expressão corporal e valorizam ainda mais a encenação elegante concebida por Ortega.