quarta-feira, abril 06, 2016

Casamento grego 2, de Kirk Jone 1/2 (meia estrela)

Noite de 1º de abril de 2016, no teatro do Bourbon Country de Porto Alegre. Elza Soares apresenta com a sua banda o show “A mulher do fim do mundo”. Não é uma apresentação qualquer. Boa parte do público presente difere bastante dos frequentadores habituais do shopping em questão – são jovens vestidos de forma mais desleixada, com cabelos desgrenhados, sem dar muita bola para a grife do momento. Os ânimos estão exaltados, houve uma mudança na questão da meia-entrada para estudantes, e em função disso algumas pessoas têm a entrada barrada ou atrasada por questões burocráticas. Considerando que na noite anterior houve as manifestações contra o impeachment, e que provavelmente um número considerável dos espectadores estiveram lá também (inclusive este que vos escreve), dá para se ter uma ideia do ambiente tenso Antes de começar o show, proliferam gritos de “libera” por parte de vários jovens. Pode-se perceber que algumas senhoras aparentam preocupação, afinal estão lá na esperança de ver com tranquilidade a Elza cantando alguns tradicionais clássicos de Lupicinio Rodrigues. Quando começa efetivamente a performance de Elza, parece que temos a trilha sonora perfeita para essa atmosfera conturbada – uma brilhante síntese de samba, rock torto e ruído, com Elza sentada no trono como uma rainha soturna, a proferir um canto marcado pela sabedoria, ginga e contestação. Melodias sombrias, ritmos quebrados e letras perturbadoras encontram ressonância numa plateia que fica numa zona limite entre hipnotizada e ensandecida.

Dois dias depois, há uma sessão do filme “Casamento grego 2” (2016) em algumas das salas de cinema do mesmo Bourbon Country. As coisas parecem ter voltado ao “normal” no respeitável centro de consumo. Na plateia, senhoras e senhoritas vestidas dentro do seu esmero característico, com seus indefectíveis celulares de ponta sendo acionados a todo momento durante a projeção do filme. Na tela, simplesmente uma das piores produções dos últimos tempos. O diretor Kirk Jones dá a impressão de ter chutado o balde – como se trata de uma sequência de um grande sucesso, dirige de qualquer jeito e sem muitos critérios estéticos. Seu formalismo é uma junção de clichês narrativos de almanaque, o elenco no geral não faz muita força para entregar alguma atuação provida de vigor ou elaboração, o roteiro é um compêndio de imbecilidades e lugares comuns babacas e edificantes, em que idosos são retratados como criaturas fofinhas, o conflito de gerações é reduzido a lições de morais simplórias e os dilemas das mulheres se resumem a encontrar uma boa forma de agradar ao mesmo tempo seus pais e os seus maridos. A cada cinco minutos, o espectador é submetido à alguma cena em que algum personagem discursa lições de vida sublinhadas por uma trilha sonora melosa horrível. Esse conjunto pífio e asqueroso de obviedades e golpes sentimentais apelativos é recebido com ovação pela grande maioria do público. É claro que assim que começam os créditos, todos saem correndo, satisfeitos com essa boa dose de diversão escapista respeitável. É provável que assim que cheguem nos seus carros já tenham até esquecido tudo que viram nas últimas duas horas.


Pode-se achar que fazer um contraponto entre a apresentação abrasiva de Elza Soares e a sessão bem comportada de “Casamento grego 2” seja forçar a barra. Nos tempos tenebrosos em que vivemos, entretanto, em que setores da sociedade defendem um golpe de Estado em nome de valores confusos e questionáveis, as situações aqui descritas acabam sendo bem emblemáticas...

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