terça-feira, julho 26, 2016

Dois caras legais, de Shane Black ****

Tudo é meio esquisito em “Dois caras legais” (2016). Tentando encaixar as coisas num conceito aproximado mais fácil de entender, seria algo como se um típico filme de ação dos anos 80 dirigido por Tony Scott, Richard Donner ou John McTiernan tivesse uma trama ambientada numa estilizada segunda metade da década de 70, pontuada por uma atmosfera cômica que transitasse entre sutis tiradas bem humoradas nos diálogos e sequências de pura violência cartunesca, além de um desconcertante subtexto niilista no roteiro. As lembranças de cineastas casca-grossa oitentistas não vem ao acaso, pois o diretor Shane Black foi roteirista de obras emblemáticas do gênero como “Máquina mortífera” (1987), “O último boy-scout” (1991) e “O último grande herói” (1993). Dentro dessa estranha fórmula, o próprio Black já havia elaborado tal síntese no ótimo “Beijos e tiros” (2005). Mas em “Dois caras legais” ele avança para um outro patamar em suas particulares concepções formais e temáticas. Saltam aos olhos o grafismo alucinado e muito bem executado de coreografias de pancadarias, tiroteios e perseguições – logo na sequência de abertura, há um acidente automobilístico que chega a ser poético na sua mistura de ironia e brutalidade. Ou seja, um bálsamo para os olhos já cansados das picaretagens digitais dos “Velozes e furiosos” da vida ou mesmo das produções do “visionário” Zack Snyder. Mas mais fascinante ainda na obra de Black é como essa ação frenética se encaixa dentro de um extraordinário trabalho de direção de arte na recriação da estética setentista e num roteiro repleto de inesperadas nuances existenciais e que até mesmo questiona os moralismos do gênero cinematográfico em questão. Diante de uma sociedade marcada pela corrupção inerente do poder político e econômico dominante, em que a única possibilidade de desmascarar uma grande corporação poluidora seja denunciá-la através de um filme pornô, para o detetive Holland March (Ryan Gosling) parece coerente enveredar por um método caótico de investigação em que é natural ficar constantemente bêbado, enganar senhoras, atirar-se de ribanceiras, dormir ao volante com o carro em movimento, interrogar pseudo-sereias em aquários gigantes e mesmo levar a filha menor de idade em suas andanças em busca de pistas. Ainda mais inesperado, entretanto, que essa lógica se configure como a possibilidade de redenção moral para brutal caçador de recompensas Jackson Healy (Russell Crowe). É notável como Shane Black consegue em “Dois caras legais” formatar todos esses elementos diversos e excentricidades dentro de uma narrativa coesa e fluida, capaz tanto de divertir o espectador quanto de deixá-lo ao final do filme perturbado pela sua atmosfera entre o melancólico e o sardônico.

Um comentário:

Diana Cortés disse...

Dois Caras Legais superou as minhas expectativas ❤️ O ritmo da historia nos captura a todo o momento. Quero vê-la novamente! Se vocês são amantes dos filmes de detetives, este é um que não devem deixar de ver. :)