Há filme que ganham destaque na
mídia, indicações e prêmios em festivais importantes e reconhecimento da
crítica muito mais pelo contexto histórico político-social em que são lançados
do que pelos seus méritos artísticos em si. “Timbuktu” (2014) é um exemplar
claro dessa tendência. No mundo atual, em que conflitos religiosos dominam boa
parte do globo, esse longa da Mauritânia acaba ressoando de forma mais ampla,
ao ter como trama principal o cotidiano de uma família de nômades pastores que
é abalado pela opressão e desmando do grupo fundamentalista religioso que
domina a região onde moram. A direção de Abderrahmane Sissako é apenas correta –
direção de fotografia e edição apresentam competência, gerando uma narrativa
fácil de acompanhar, mas que não necessariamente é envolvente. O espectador
pode até se comover com as injustiças e
tragédias que permeiam a trama, mas não há alguma tensão mais efetiva e nem
algum rasgo estético que salte aos olhos. Dentro da atual conjuntura, o filme é
uma experiência válida pelo caráter informativo de sua temática, chamando
atenção para o momento histórico conturbado pelo qual atravessa um número
considerável de países asiáticos e africanos tomados pelo fanatismo místico. Em
termos puramente cinematográficos, entretanto, “Timbuktu” é uma produção
descartável e de criatividade anêmica.
Boa parte de amigos e conhecidos costuma dizer que as minhas recomendações para filmes funcionam ao contrário: quando eu digo que o filme é bom é porque na realidade ele é uma bomba, e vice-versa. Aí a explicação para o nome do blog... A minha intenção nesse espaço é falar sobre qualquer tipo de filme: bons e ruins, novos ou antigos, blockbusters ou obscuridades. Cotações: 0 a 4 estrelas.
quinta-feira, outubro 01, 2015
quarta-feira, setembro 30, 2015
A pele de Vênus, de Roman Polanski ****
A trajetória pessoal e artística do diretor Roman Polanski
foi marcada por alguns fatos polêmicos – a morte da família em um campo de
concentração, obras que lidavam com o macabro e a perversidade, esposa
assassinada por uma seita, a acusação e a condenação por estupro de menor. Tudo
isso, em menor ou maior grau, sempre se refletiu nos seus filmes. Essa relação
tão intrínseca entre a vida e a arte atinge um ponto criativo extraordinário em
“A pele de Vênus” (2013). Ainda que baseada numa peça teatral escrita pelo
dramaturgo David Ives, todos os dilemas existenciais da trama e os truques
estéticos parecem refletir as obsessões artísticas e pessoais de Polanski. Mas
a produção vai muito além de uma mera egotrip – entre devaneios formais e
temáticos, há também espaço para uma visão arguta e irônica sobre a história da
arte, principalmente no que diz respeito à visão que se tem da mulher nas
variadas expressões culturais.
A escritora Camille Paglia já havia dito em “Personas
sexuais” que a história da literatura ocidental se resumia basicamente ao medo
atávico do homem em relação a mulher. Tal relação parece ser a mola mestra da
narrativa em “A pele de Vênus”. A relação que se estabelece entre o diretor teatral
Thomas (Mathieu Amalric) e a atriz Vanda (Emmanuelle Seigner) é um misto
perturbador de poder, sedução e dissolução. O que era para ser uma audição
passa a ser um exercício de questionamento sobre o caráter misógino que
impregna o texto literário de Leopold von Sacher-Masoch. Gradualmente, a simbologia
entre o conflito verbal e até mesmo físico entre os protagonistas vai se
tornando cada vez mais rica e complexa nas suas referências e significados.
Será que tudo é permitido realmente em nome da arte? O artista está acima das
questões morais? Tais indagações recebem um tratamento textual bastante
refinado, com direito a citações a Velvet Underground, psicanálise, tragédia
grega e teatro oriental. Essa forte conotação humanista do roteiro recebe um
tratamento formal ousado e vibrante. Ainda que baseada num original teatral e o
próprio espaço de atuação se seja dentro de um teatro, “A pele de Vênus” tem
ritmo narrativo estabelecido por Polanski de talhe cinematográfico, baseado
numa encenação precisa e na edição repleta de nuances expressivas, além da
fotografia cujos enquadramentos e iluminação criam uma atmosfera entre o real e
o pesadelo. Mas ainda que o seu formalismo seja eminentemente cinematográfico,
é fascinante a forma com que Polanski insere o teatro e a literatura dentro do
seu arcabouço narrativo. São duas ações que correm de forma simultânea – a do
plano “real” do ensaio e jogo mental entre Thomas e Vanda e aquela do universo
da peça encenada. As duas se cruzam de forma intensa e constante, cuja mudança
de plano se sucede apenas nas sutis mudanças no tom de voz ou na expressão do
olhar dos intérpretes. Por trás de inflexão de cada palavra ou gesto de Vanda há
uma armadilha para Thomas, assim como as variações no tom de voz e no olhar
desse último escodem desejos e medos obscuros. A genialidade de Polanski se
manifesta principalmente no forma com que todos esses detalhes formais,
narrativos e textuais se combinam e se fundem numa obra atemporal e ambígua.
Ele dá a impressão de falar de si mesmo, mas na verdade fala também sobre todos
nós.
segunda-feira, setembro 28, 2015
Bistrô Romantique, de Joël Vanhoebrouck **
Hoje em dia dá para dizer que a diferenciação em termos
narrativos entre produções norte-americanas e europeia é praticamente nula. Na
tentativa de ganhar pontos com as plateias acostumadas com convencionalidades
formais e temáticas, boa parte dos filmes provenientes do velho mundo se
acomodam a fórmulas bem definidas e previsíveis. Se alguns anos atrás a
premissa principal da trama de “Bistrô Romantique” (2012) viesse a nossos
olhos, logo se pensaria em uma abordagem densa e profunda: dentro do espaço de
um pequeno restaurante na noite do dia dos namorados, o roteiro foca os
encontros e desencontros de diversos relacionamentos amorosos, trazendo um viés
questionador na forma com que expõe as agruras de casamentos, namoros e afins.
No moldes do que se faz hoje em dia no gênero drama, entretanto, a obra do
diretor belga Joël Vanhoeubrock se adapta a um forma óbvia e banal. Até dá para
sentir uma certa sobriedade nos composições dramáticas de parte do elenco, além
da condução da narrativa ser agradável no seu ritmo e algumas situações do
roteiro poderem criar alguma empatia ou identificação com parcelas do público.
Mas isso é muito pouco para tornar “Bistrô Romantique” algo efetivamente
memorável.
sexta-feira, setembro 25, 2015
O pequeno Quinquin, de Bruno Dumont ****
O que entra dentro da concepção artística da produção
francesa “O pequeno Quinquin” (2014) são diversos elementos e referências
culturais que parecem remeter à própria história do cinema. Repare-se, por
exemplo, na figura do delegado Van der Weyden (Bernard Pruvost) – seus
trejeitos e composição dramática fazem lembrar comédias mudas e o estilo de
interpretação do neo-realismo italiano. Ou na sequência da missa de
sepultamento com padres e coroinhas fazendo pegadinhas e rindo sem parar que
fazem lembrar aquelas velhas obras cômicas com Totò ou a encenação picaresca
típica de Pasolini. A profusão de tipos esquisitos e de situações nonsense
evocam o surrealismo ácido de Luis Buñuel e a estética delirante de David
Lynch. A presença constante dessas influências e citações visuais não
significam, entretanto, despersonalização de estilo do cineasta Bruno Dumont.
Pelo contrário. O que ocorre na realidade é uma reinterpretação radical e
rigorosa de referências e clichês formais e temáticos passando pelo severo
filtro ascético de Dumont. A sensação final para o espectador é de puro
desconcerto sensorial.
O que Dumont estabelece em “O pequeno Quinquin” é
um épico místico e perverso. Se por um lado inicialmente se tem a percepção de
uma abordagem realista, aos poucos a narrativa vai se transformando numa
espécie de parábola moral permeada por uma constante atmosfera de estranheza e
mistério. O retrato do bizarro cotidiano de uma cidadezinha litorânea da
Normandia se molda em diferentes formas – conto de suspense de leves tons
góticos, sátira cruel e simbólica com a sociedade ocidental contemporânea e
mesmo um relato apocalíptico sobre a decadência do humanismo. Dentro de tal ótica
complexa, cada recurso narrativo empregado por Dumont exerce um papel
fundamental: a abordagem emocional distanciada, as brilhantes interpretações
naif do elenco, o uso econômico da trilha musical como comentário irônico das
cenas, o virtuoso registro visual da direção de fotografia que valoriza tanto a
beleza melancólica das praias normandas quanto detalhes cênicos insólitos (a
vaca carregada por um helicóptero é exemplar contundente de tal formalismo).
Talvez a grandeza artística e humana de “O
pequeno Quinquin” acabe sendo um potencial “afaste grandes plateias”. Afinal, é
uma obra de ritmo narrativo nada frenético e de longa duração (três horas e
vinte minutos). Dumont não oferece concessões – seu filme exige um olhar
contemplativo e que se permita adentrar numa dimensão existencial muito
particular. Quem se propor a encarar esse desafio estético, entretanto, poderá
ter como recompensa assistir a uma das obras cinematográficas fundamentais
dessa década.
quarta-feira, setembro 23, 2015
Ricki and The Flash, de Jonathan Demme **1/2
Geralmente, a relação do diretor Jonathan Demme com a música
pop é bastante produtiva. É só pensar nos antológicos filmes-concertos “Stop
making sense” (1984) e “Heart of Gold” (2006), além dos extraordinários “Totalmente
selvagem” (1986) e “O casamento de Rachel” (2008) que tinham suas respectivas
trilhas sonoras repletas de canções como um dos seus grandes pontos altos.
Assim, a expectativa para “Ricki and The Flash” (2015), cuja trama traz como
protagonista uma cantora e guitarrista (Meryl Streep) que lidera uma banda de
rock and roll que toca num pub, era bastante alta. O resultado final, entretanto,
acaba sendo decepcionante. Talvez a grande pisada na bola de Demme tenha sido
chamar a superestimada Diablo Cody como roteirista. A história até traz alguns
elementos sociais e intimistas interessantes, principalmente porque traz à tona
a atual divisão política acirrada que assola a sociedade dos Estados Unidos
entre liberais e conservadores. O problema é que a caracterização de situações e
personagens do texto de Cody é simplória e sem imaginação, o que acaba afetando
a própria encenação concebida por Demme, que se se efetiva de forma pálida e
por vezes até burocrática (é provável que a constante cara de sono de Kevin
Kline seja reflexo disso). Os dilemas dramáticos da história de “Ricki and The
Flash” lembram bastante aqueles de “O casamento de Rachel”, mas sem a crueza e a
ironia contundentes que marcavam esse último. O que faz valer o ingresso para a
produção são os faiscantes números musicais protagonizados pela banda do título
(aliás, uma reunião de cobras que já tocaram com gente como Neil Young e
Funkadelic) – Demme continua mestre na forma com que registra um show, tanto na
performance dos artistas quanto na reação da plateia. No final das contas,
parece que roteiro e encenação só serviram como pretexto para esses
sensacionais números musicais.
terça-feira, setembro 22, 2015
Férias frustradas, de John Francis Daley e Jonathan M. Goldstein **
É claro que dentro dessa eterna prática de Hollywood em
fazer remakes, continuações, reboots e afins o interesse principal é faturar um
lucro fácil a partir de uma produção que já “deu certo” em termos comerciais.
Também é fato, entretanto, que ocasionalmente essa “revisitação” traz alguma
intenção artística mais relevante propondo um aprofundamento conceitual ou uma
expansão estética (nesse sentido, é só conferir o recente e extraordinário “Mad
Max – A estrada da fúria”). “Férias frustradas” (2015) acaba sendo um exemplar
emblemático desses conflitos comerciais e artísticos. Assim como no filme
original de 1983 que deu origem à franquia, a proposta dessa comédia é até
simples: tendo como base um roteiro repleto de pastelão, escatologias,
grosserias e piadinhas infames, há espaço para um subtexto de caráter crítico
que mistura exaltação de valores familiares e ironia com os valores e
boçalidades do norte-americano médio. No caso dessa produção mais recente, dá
para dizer que há uma queda maior para a violência e escrotidão gráficas. No
cômputo geral, a equação entre comédia física e narrativa equilibrada é muito
mais afiada no memorável trabalho original de Harold Ramis e Amy Heckerling. A
obra dirigida por John Francis Daley e Jonathan M. Goldstein tem alguns bons
momentos engraçados pelos seus exageros, mas poucas vezes consegue arranjar o
tom narrativo adequado. Mesmo o seu roteiro é bem descompassado – a pretensa
ironia ácida de algumas situações acaba atenuada por um discurso temático
bastante conservador e simplórios nas resoluções dos principais dilemas da
história.
segunda-feira, setembro 21, 2015
O pequeno príncipe, de Mark Osborne ***
O diretor Mark Osborne até que comete algumas ousadias
interessantes na mais recente versão cinematográfica de “O pequeno príncipe”
(2015). Ao invés de simplesmente adaptar ipsis literis a clássica obra
literária de Saint-Exupéry, ele construiu uma narrativa que se desenvolve em
três planos de trama – no primeiro, é mostrada a vida de uma menina presa numa
rotina de estudos para entrar em uma conceituada escola que tem a sua vida
mudada pela leitura do livro em questão; no segundo plano, há trechos do romance
que são transpostos para o audiovisual; e por fim há o momento em que os dois
primeiros planos se fundem, gerando um universo ambíguo que tanto pode ser a “realidade”
quanto um delírio onírico da protagonista. O grande mérito do filme é conseguir
enquadrar esses planos dentro de uma narrativa coerente e de fácil assimilação,
fazendo com que ela possa ser apreciada tanto por crianças quanto por adultos.
O roteiro capta com sensibilidade as principais nuances existenciais do livro,
conseguindo também as enquadrar dentro de uma temática contemporânea (o
subtexto traz um conteúdo bem crítico em relação à rotina de desumanização da
infância em nome de um futuro profissional “bem sucedido”). “O pequeno príncipe”
traz ainda um cuidado estético acima da média, combinando diferentes técnicas
de animação (principalmente digital e stop motion) que variam de acordo com as
aludidos planos de realidade da trama. As soluções finais da história sugerem
uma forte queda para o convencional, mas ainda assim o resultado final é acima
da média do que tem sido feito dentro do cinema infanto-juvenil, além de
ressaltar a atemporalidade do livro de Saint-Exupéry.
sexta-feira, setembro 18, 2015
Love, de Gaspar Noé ****
Pretensão, narcisismo, mau gosto, polemismo marqueteiro –
tais palavras e expressões costumam ser associadas à Gaspar Noé e à sua
filmografia. E tais acusações não são sem fundamento. Seus filmes são bastante
vinculados à sua personalidade e sempre, de maneira proposital, trazem algo que
induz discussões estéticas e comportamentais. Por outro lado, tais aspectos que
seriam deméritos fazem parte da própria natureza artística controversa da sua
obra. Seu conjunto de trabalhos pode ser relativamente escasso na quantidade
(quatro longas-metragens), mas carregam uma carga tão grande de referências e
elementos temáticos e formais que acabam formando um universo amplo a ponto de
tais produções se comunicarem entre si de forma bastante particular. Pode até
existir (e existe aos montes) quem deteste seus filmes, mas também é inegável
que não se consiga ficar impassível diante da exibição de algum deles.
“Love” (2015) sintetiza de forma contundente tanto o estilo
característico de Noé quanto os dilemas e contradições que o cercam. A relação
que se estabelece entre essa produção mais recente e o extraordinário penúltimo
filme dirigido por ele, “Enter The Void” (2009), é profunda. Além de evocar
truques narrativos e efeitos visuais marcantes do referido trabalho anterior, “Love”
oferece um contraponto existencial. Enquanto “Enter The Void” tinha por
premissa principal uma espécie de viagem sensorial de uma alma recém desencarnada,
“Love” é uma verdadeira jornada em relação à carnalidade. Mas não se trata de
uma mera celebração do hedonismo. Noé coloca o sexo no mesmo patamar de
importância (por vezes, até mais) que a espiritualidade em relação ao amor
romântico. Nesse sentido, o fato de Noé de usar fartamente o sexo explícito
como recurso cênico foge do gratuito e do óbvio – a visceralidade dos
sentimentos e sensações dos personagens se manifestam com toda a sua
intensidade diante desse grafismo erótico despudorado. Essas sequencias de sexo
são perturbadoras no sentido em que a sua coreografia tanto transborda
excitação quanto um pungente humanismo. A sensualidade de extremos também é a
extensão das personalidades explosivas do casal protagonista, em que os atraques
do corpos são irmanados a líricas cenas de declarações românticas e a momentos
de fúria verbal derivada de ciúmes e rejeição.
Assim como em “Enter the Void”, a narrativa em “Love” se
estrutura como se fosse um fluxo de consciência desordenado e aleatório. Os
fatos se sucedem na trama de acordo com o encadeamento emocional de lembranças
de Murphy (Karl Glusman) quando ele descobre que a ex-namorada (e eterna
paixão) Electra (Aomi Muyock) se encontra desaparecida e provavelmente tenha
cometido suicídio. O rigor artístico de Noé e tamanho dentro dessa concepção
que boa parte dos cortes da montagem simula uma espécie de entrelaçamento
abrupto de memórias e pensamentos, enquanto a narração de Murphy é um monólogo
interno, perturbado e repleto de indagações e angústia. O registro formal tem
um viés realista, mas que traz um grau de variação sensorial impressionante,
indo de uma limpidez celestial até uma atmosfera de sordidez infernal, sempre
passando pelo filtro de uma fotografia cujos enquadramentos e iluminação trazem
uma riqueza pictórica repleta de nuances imagéticas brilhantes, tendo ainda por
complementação um uso fortemente criativo e de sensibilidade à flor-da-pele de
temas musicais na trilha sonora. Essa colisão entre barroquismo audiovisual e
conteúdo misto de melodrama e choque é a marca registrada autoral indelével de
Noé, fazendo de “Love” a mais improvável (e das mais fascinantes) obra
romântica dos últimos anos.
quinta-feira, setembro 17, 2015
18 comidas, de Jorge Coira Neto **
Filmes baseados em narrativas mosaicos sempre farão lembrar
algumas da principais obras de Robert Altman (“Nashville”, “Cenas de um
casamento”, “Short Cuts”, “A última noite”). Não foi o brilhante cineasta
americano quem criou esse tipo de filme, mas talvez seja aquele que melhor
delineou tal formatação, tornando-se influência para vários diretores. Na
produção espanhola “18 comidas” (2010) dá para sentir essa ascendência
artística de Altman. Na trama, constam algumas histórias paralelas que se
entrecruzam em pequenos detalhes, procurando a unidade a partir do conceito de
que boa parte dos personagens se encontram numa situação de desconforto
existencial. Mas se Altman dentro de seus princípios estéticos e temáticos se
mostrava um artista inquieto e contestador, no caso do espanhol Jorge Coira
Nieto ele pouco consegue transcender do apenas correto. Por mais que em termos
de conteúdo sejam evocados alguns temas prementes da contemporaneidade
(solidão, vazio existencial, relacionamentos familiares conturbados), a
encenação resvala vários vezes no banal e a narrativa é destituída de vigor. É
claro que em alguns momentos dá para sentir uma vontade de Nieto em fugir do
lugar comum. Esse desejo, contudo, acaba ficando apenas na intenção, faltando
para Nieto maior estofo artístico para tornar “18 comidas” uma obra efetivamente
memorável.
quarta-feira, setembro 16, 2015
O tenente sedutor, de Ernst Lubitsch ****
É comum ao se ler análises sobre filmes, músicas, livros HQ
e afins que contam já com algumas décadas de existência expressões do tipo “não
envelheceu bem”, “é datado” e outras frases parecidas. É claro que uma obra se
adequa ao tempo em que foi concebida, com detalhes como técnica, estilo,
tecnologia e costumes sendo emblemáticos desse período. Mas em sua essência
artística, naquilo que diz respeito a criatividade e sagacidade, essa mesma
obra é atemporal, para o bem e para o mal. Essa breve reflexão serve para
referenda que um filme extraordinário como “O tenente sedutor” (1931) sempre
será capaz de cativar plateias, independente do ano em que for visto. O que
prevalece sempre é a genialidade do diretor Ernest Lubitsch em termos de
encenação e ironia ácida. Os diálogos repletos de tiradas sacanas, a narrativa
de ritmo envolvente, as atuações carismáticas e bem humoradas do trio principal
de atores, a elegância da composição cênica e as canções espirituosas que pontuam
a trama compõem uma produção antológica, cujo grau de transgressão e precisa
concisão estética permanece sempre atual e relevante.
terça-feira, setembro 15, 2015
Dois casamentos, de Luiz Rosemberg Filho ***
Em um primeiro momento, a linguagem antinaturalista e
ambientação num palco escurecido fazem supor que “Dois casamentos” (2014) seria
uma espécie de registro audiovisual de uma peça teatral. O desenvolvimento da
narrativa, entretanto, mostra que o filme mais recente do diretor brasileiro
Luiz Rosemberg Filho trafega por caminhos menos óbvios. A produção parece
condensar ideias e truques estéticos que resultam num híbrido inquietante e
vigoroso – estão lá o texto de conteúdo contestador da moral burguesa que evoca
o estilo de Nelson Rodrigues, a utilização de uma trilha sonora de temas que
variam de melodias dramáticas a estranhos drones, as atuações expressivas das
atrizes baseadas na variação intensa entre o contido e o exagero, os efeitos
visuais que evocam um clima de pesadelo (nesse sentido, a obra apresenta
conexões com o cinema delirante de Luis Buñuel e David Lynch). Por vezes esse
formalismo intrincado de Rosemberg leva a narrativa para um tom enfadonho, mas
em outros momentos gera um efeito sensorial de encanto perturbador para o
espectador.
segunda-feira, setembro 14, 2015
Shaun, o carneiro, de Richard Starzak e Mark Burton ***
Nenhuma das tendências mais modernas do cinema de animação
parecem dar as caras em “Shaun, o carneiro” (2015). A técnica de stop motion
não apresenta qualquer inovação técnica e o conteúdo de seu roteiro beira a
ingenuidade em seus dilemas e soluções dramáticas. De certa forma, até parece
uma reciclagem de coisas já vistas, em outros desenhos animados (nesse sentido,
“A fuga das galinhas” é o que mais vem à mente de imediato). Esse anacronismo
da produção dirigida por Richard Starzak e Mark Burton talvez seja o seu grande
barato estético. Predomina no filme uma atmosfera atemporal e nostálgica: o
comportamento do personagem título e os demais animais da fazenda representam
uma síntese entre a singeleza e a ironia, os diálogos são grunhidos bastante
expressivos, a trama é um acúmulo de quiproquós amalucados. As aventuras do
carneiro protagonista já eram mostradas numa série televisiva, o que explica
esse tom de leveza da animação. Está bem longe de ser uma obra-prima, mas
também foge bastante das narrativas previsíveis e burocratas do que se faz
atualmente na grande maiorias das produções do gênero. “Shaun” tem um grafismo
sedutor dentro da sua simplicidade visual, além de algumas memoráveis e
convincentes sequencias que fundem com naturalidade humor e ação.
sexta-feira, setembro 11, 2015
Ted 2, de Seth MacFarlane **
O primeiro “Ted” (2012) trazia uma síntese narrativa bem
interessante – era uma comédia que se formatava dentro de um padrão
convencional de narrativa com uma trama repleta de momentos hilários baseados
num coquetel de grosserias, piadas politicamente incorretas, escatologias e
citações pop, tendo um sutil subtexto de caráter libertário e crítico das
hipocrisias moralistas da sociedade norte-americana. Em “Ted 2” (2015), o
diretor Seth MacFarlane não atinge o mesmo equilíbrio temático e estético da
produção anterior. O referido subtexto contestatório fica em primeiro plano no
roteiro, com uma história que se baseia na luta do ursinho protagonista em
defesa de seus direitos civis. É claro que o filme não se leva totalmente a
sério nesse viés político, com o próprio Ted tirando uma onda com o teor
edificante da produção. Ainda assim, o filme perde muito da sua fluência
narrativa a partir desse direcionamento criativo de MacFarlane. Não que as
questões levantadas pelo filme não sejam pertinentes e relevantes. Pelo
contrário. O fato é que a abordagem de “Ted 2” retira aquele pique alucinante
de gags ácidas que era a tônica do filme anterior em nome de uma orientação
mais comportada, resultando numa composição dramática pouco convincente e por
vezes até enfadonha. E se o ursinho continua carismático e mesmo Mark Wahlberg
se mostra bem à vontade na sua caracterização largadona de maconheiro abobado,
por outro lado é uma baita bola fora colocar a inexpressiva Amanda Seyfried no
papel principal feminino e ter um Morgan Freeman completamente no piloto
automático.
quinta-feira, setembro 10, 2015
Sobre amigos, amor e vinho, de Eric Lavaine *1/2
Quando Jean-Luc Godard, François Truffaut, Eric Rohmer, Jacques
Rivette e companhia começaram a despontar tanto como críticos da Cahiers du
Cinema como diretores na Nouvelle Vague, em meados da década de 50, tal
movimento de talentos e ideias também representava uma reação contra o “cinema
francês de qualidade”. Em linhas gerais, tal designação se referia a um tipo de
filme que era formalmente competente na sua realização e agradável de ver, mas
que era nulo em termos criativos e de conteúdo, servindo apenas para satisfazer
um público médio pouco exigente. Passadas algumas décadas, parece que o cinema
da França se encontra em um beco sem saída estético semelhante àquele. Uma obra
como “Sobre amigos, amor e vinho” (2014) acaba sendo bem emblemática dessa
situação. Em sua premissa principal, o roteiro até busca um certo
questionamento existencial e social pertinente: a do pequeno burguês cinquentão
(Lambert Wilson) que após um ataque cardíaco passa a questionar suas relações
com a família, amigos e o mundo em geral. Tal viés crítico, entretanto, acaba
bastante atenuado ao receber um tratamento formal asséptico e despersonalizado.
Fotografia e edição parecem emular um vídeo institucional turístico de Lyon e
das idílicas paisagens interioranas francesas. Os próprios conflitos e dilemas da
trama passam por um filtro moralizante e conformista, o que aliado à caracterização
caricatural e simplória de personagens e situações retira qualquer
possibilidade de uma densidade dramática mais consistente para o filme.
Assumindo com orgulho o manto do “cinema francês de qualidade”, “Sobre amigos,
amor e vinho” está mais para um besteirol envergonhado do que para um pretenso
retrato de geração.
quarta-feira, setembro 09, 2015
Que horas ela volta?, de Anna Muylaert ***
Não há como escrever sobre “Que horas ela volta?” (2015) sem
falar sobre a atual conjuntura política e social que certa a obra. A pretensão
desse texto não é fazer uma análise sociológica e nem tentar simplifica
questões complexas, mas a verdade é que a grande maioria da sociedade
brasileira tem uma imensa dificuldade em discutir sobre temas espinhosos como
conflito de classes e preconceito social. Quando debates e mesmo obras
culturais versam sobre tais assuntos, geralmente, o direcionamento é de negar
ou minimizar a gravidade de tais situações. Diante desse quadro, acaba sendo
compreensível o impacto artístico e cultural que o filme de Anna Muylaert tem
causado. Ainda que a produção se formate segundo as regras de um melodrama
convencional e por vezes caia em soluções fáceis e conciliatórias para os
dilemas que o seu roteiro aborda (ou mesmo excessivamente caricaturais, como a
caracterização caricata da mãe pequeno burguesa), é inegável que Muylaert cria
uma narrativa envolvente e por vezes perpassada por um senso de humor bastante
afiado e perturbador (a sequência em que o pai de família pede a filha da doméstica
em casamento é antológica pelo alto grau de ácido sarcasmo). Além disso, “Que
horas ela volta?” traz alguns fortes trunfos como a bela trilha sonora composta
e executada por Fábio Trummer (líder da ótima banda pernambucana Eddie) e o
elenco que apresenta atuações luminosas de Camila Márdila e Lourenço Mutarelli –
esse último com uma excêntrica composição dramática que lembra o trabalho de
Jean-Claude Bernardet em “Periscópio” (2012)
terça-feira, setembro 08, 2015
O último cine drive-in, de Iberê Carvalho **
É inegável que há em “O último cine drive-in” (2014) algumas
boas sacadas formais. A direção de fotografia abusa de grandes planos, evocando
referências a faroestes clássicos, impressão essa ainda mais reforçada com a
trilha sonora que se vale de pastiches na linha Enio Morricone e afins. A opção
por esse estilo de composição visual valoriza também o próprio cenário da
trama, a cidade de Brasília – o estilo de geografia local, arquitetura e
disposição de ruas acabam tendo uma certa proximidade plástica com as longas
planícies e cidadezinhas que serviam de pano de fundo para boa parte do
westerns. Essas ideias estéticas interessantes, entretanto, acabam se revelando
insuficientes para sustentar uma narrativa formulaica e muito presa a clichês. Mesmo
que homenageie faroestes e que o roteiro e a direção de arte sejam repletos de
citações a outros filmes, a produção dirigida por Iberê Carvalho tem como guia
existencial o sentimental e superestimado “Cinema Paradiso” (1988), enquanto
que a demais citações cinematográficas são jogadas na narrativa mais como
enfeites a demonstrar uma suposta erudição cultural do que um recurso efetivo
em termos estéticos e temáticos. As interpretações rasas e sem carisma de boa
parte do elenco também não colaboram para que a obra atinja um nível artístico
um pouco mais transcendente. É de se questionar como um melodrama tão
convencional e cheirando a mofo como “O último cine drive-in” tenha sido
fartamente elogiado e premiado no Festival Gramado. Talvez seja revelador da
atual falta de identidade artística e cultural do evento.
sexta-feira, setembro 04, 2015
Últimas conversas, de Eduardo Coutinho ****
Pode parecer estranho, mas a grande referência que me veio à
cabeça quando assisti a Últimas
conversas (2014) foi Oito e meio (1963),
um dos grandes clássicos de Federico Fellini. A comparação pode parecer
estapafúrdia, até porque as obras mencionadas pertencem a gêneros diferentes.
Mas essa associação também surgiu também devido a um comentário que um
companheiro de Zinematógrafo, Leonardo Bomfim, fez sobre o filme de Fellini que
eu nunca esqueci: a de que Oito e meio não
trata na realidade sobre a crise de criatividade de seu protagonista, o
cineasta Guido Anselmi (Marcelo Mastroianni) – o verdadeiro dilema estaria em
um excesso de criatividade por parte do personagem mencionado. E é justamente
nessa encruzilhada que o diretor Eduardo Coutinho parece se colocar em Últimas conversas.
Na superfície típica de que uma sinopse pode oferecer,
pode-se colocar que o tema da última produção dirigida por Coutinho seria a de
retratar a juventude de classe média baixa brasileira dessas primeiras décadas
do século XXI, principalmente considerando as políticas de inclusão social e
educacional que se proliferaram nos últimos anos. Para isso, são colhidos
depoimentos individuais de jovens dentro do que parece ser uma sala de aula
“descarnada”. Essa formatação pode soar um tanto espartana. E é realmente
bastante simples. Outros documentários que versaram sobre temáticas parecidas
adotaram formatações semelhantes. Só que logos nas seqüências iniciais Coutinho
rompe com essa previsibilidade. Para começar, joga até mesmo a ordem
cronológica para o espaço. As primeiras cenas de Últimas conversas são com o próprio Coutinho demonstrando evidente
incômodo com o material colhido. Ele admite não ter empatia com os seus
entrevistados, questiona se tudo o que filmou pode gerar uma obra efetivamente
interessante, considera a possibilidade de ter escolhido mal o seu projeto,
discute a sua relação com os mecanismos de produção de um filme, e, até mesmo,
coloca o ato de fazer um documentário como vital para si mesmo. São nessas
observações do diretor que se concentram a verdadeira natureza do que
representa Últimas conversas: a necessidade
de Coutinho realizar o seu documentário, mesmo com a obra sendo um potencial
projeto fracassado. Coutinho esmiúça dilemas e elementos contraditórios daquilo
que está filmando ou até mesmo encenando, como se fosse essencial deixar
evidentes os seus mecanismos estéticos e existenciais num processo perturbador
de desconstrução do próprio gênero documentário. Nesse sentido, Últimas conversas se mostra em sintonia
artística e autoral com outras produções do cineasta, principalmente com a
combinação de escolhas aleatórias e rigor formal de O fim e o princípio (2006) e o emaranhado entre realidade e ficção
de Jogo de cena (2007).
Dentro da lógica de que Últimas
conversas é um reflexo dos autoquestionamentos criativos e pessoais de
Coutinho, é bastante intrigante a forma com que a temática inicial referente ao
retrato geracional se insere nesse insólito contexto autoral. Por mais que o
documentarista se coloque em dúvida quanto ao seu objetivo, o fato é que
Coutinho cria alguns momentos memoráveis no registro audiovisual de seus
entrevistados. O cineasta tanto consegue ter uma interação notável com seus
protagonistas, conduzindo as entrevistas de uma maneira de os deixar tão à
vontade até chegar ao ponto de obter depoimentos fortemente reveladores, quanto
é exímio na forma com que valoriza a ambientação na sua composição cênica. Nessa
conjugação da perspectiva humana dos indivíduos retratados e do “artesanato”
formal concebido por Coutinho, constitui-se um microuniverso particular de
atmosfera sombria e por vezes até assustadora. Cada um dos depoimentos traz a
sua carga emocional esperada para esse tipo de entrevista – percalços
sentimentais, conflitos familiares, declarações amorosas, atos de
auto-afirmação perante seus pares. Nesse sentido, são retomados os mesmos
macetes narrativos de Edifício Máster (2002)
e As canções (2011). Só que Coutinho
não se contenta em apenas repetir fórmulas consagradas. Por trás do que seria
apenas o mero discurso emotivo a buscar as lágrimas ou simpatia do espectador, perpassa
um sutil viés desencantado perante um conjunto de depoimentos marcados pelo
narcisismo e pela arrogância típicos da juventude, além da falta de uma certa
coerência ideológica e intelectual desses garotos. O ceticismo de Coutinho em
relação ao futuro do filme que dirige é fruto direto da sua decepção com o
conteúdo das entrevistas. Diante dessa situação, Ultimas conversas acaba se convertendo de forma brilhante no
retrato da transformação das inquietações e insatisfações artísticas de
Coutinho como mote primordial e a própria razão de ser do documentário.
É claro que o fato do diretor João Moreira Salles ter
assumido os retoques finais em Últimas
conversas em virtude da trágica morte de Coutinho pode trazer dúvidas sobre
quais seriam as parcelas de responsabilidade autoral sobre o resultado final da
obra. Ainda mais pelo fato do trabalho de montagem no documentário ser
fundamental na designação do seu sentido artístico. Ainda assim, em cada
fotograma de Últimas conversas se
percebe o forte DNA autoral de Coutinho. É como se ele soubesse o que o espectador
esperava dele em suas produções e estivesse decidido a ir além de cumprir essas
expectativas. Depois do emotivo e bem comportado As canções, Coutinho deixou aflorar o seu lado de velhinho perverso
e amargo e ofereceu para o seu público esse incômodo e extraordinário misto de
“crise criativa” e dissecação cruel de uma geração. A sacana conclusão de Últimas conversas sintetiza com ironia
ácida esse involuntário testamento final do cineasta: uma graciosa menina de
seis anos, branca e de classe média alta, fala algumas infantis bobagens
cativantes, com Coutinho simulando um manjado truque de manipulação emocional
típica de uma propaganda de banco.
quinta-feira, setembro 03, 2015
Periscópio, de Kiko Goifman ***1/2
Se em “FilmeFobia” (2008) o diretor Kiko Goifman enveredava
para uma espécie de “mockumentary” (falso documentário) distorcido, em “Periscópio”
(2012) ele continua optando por caminhos insólitos para o seu cinema. No seu
cerne formal, esse filme mais recente parecer usar o teatro como a referência
primeira: o espaço de encenação é reduzido a um pequeno apartamento, só há dois
personagens em cena, a linguagem narrativa se afasta da estética naturalista. Com
o desenrolar da trama, entretanto, tais conceitos vão ficando cada vez mais
nebulosos. Se fosse para citar um gênero de identificação, é provável que o
termo “fantástico” fosse o mais apropriado, pois o delírio e a fantasia
aparecem com frequência. Por outro lado, também representa uma vertente
artística que de forma recorrente aparece no cinema brasileiro: a alegoria política.
Há um certo caráter intimista na abordagem de Goifman ao focar sua narrativa na
relação entre um idoso doente (Jean-Claude Bernardet) e seu cuidador/enfermeiro
(João Miguel). Esse relacionamento também se expande para outras conotações
simbólicas. A relação entre os dois reflete diversos aspectos da surda luta de
classes da sociedade ocidental (com um viés especial para a realidade
brasileira) – ficam sempre presentes algumas dicotomias entre esses dois lados
(religiosidade sincrética e racionalismo, explorador e explorado, juventude e
velhice, ressentimento e hedonismo). Tais dilemas estéticos e formais ajudam a
configurar uma obra hermética e complexa, mas que também traz em si uma forte liberdade
criativa. A partir de um texto sofisticado e de recursos espartanos, Goifman
constrói um espetáculo audiovisual desconcertante, baseado numa encenação que
se equilibra entre o rigor estético e a um certo tom intuitivo, além de um
requinte plástico que explora com inteligência elementos cênicos e trucagens “fuleiros”.
O próprio confronto de atuações entre Bernardet e João Miguel é reflexo dessa
contradição: enquanto o primeiro baseia sua interpretação em algo entre o
aleatório e a “não-técnica” de atuação, João Miguel se entrega a uma possessão
dramática.
quarta-feira, setembro 02, 2015
Expresso do amanhã, de Joon-ho Bong ****
Depois de filmes impactantes realizados em sua terra natal
como “Memórias de um assassino” (2003), “O hospedeiro” (2006) e “Mother” (2009),
havia até um certo receio que o sul-coreano Joon-ho Bong desse uma amansada na
sua estreia no comando de uma produção norte-americana (ainda que o seu
conterrâneo Chan-wook Park tenha mantido seu padrão de qualidade no brilhante “Segredo
de sangue”, sua primeira produção em língua inglesa). O resultado final de “Expresso
do amanhã” (2013), contudo, é uma resposta contundente para tais desconfianças.
Ainda que tenha nomes estrelados no elenco e um orçamento classe A, o filme tem
o traço autoral do cineasta em cada fotograma. O roteiro obedece a uma
estrutura tradicional de ficção científica apocalíptica, além da metáfora de
relação que se estabelece entre o descomunal trem em constante movimento ao
redor do planeta e o nosso mundo contemporâneo, principalmente no que diz
respeito ao conflito de classes sociais, ser bem óbvio. Não é na sutileza de
seu discurso que o filme impressiona. Sua força reside numa encenação alucinada
e no trabalho fenomenal da conjugação direção de arte, trucagens, fotografia e
edição. Joon-ho constrói um pesadelo audiovisual memorável tanto pela sua plasticidade
notável quanto pela sua atmosfera perturbadora. A herança artística tipicamente
oriental de Jooh-ho Bong está presente em nuances fundamentais: as cenas de
ação coreografadas de forma brilhante, a violência gráfica sem concessões, a direção
de arte que enfatiza sujeira e degradação da maneira chocante, a caracterização
de situações e personagens que oscila entre o icônico e o cartunesco (por
vezes, o filme parece uma transposição fiel do ritmo narrativo de uma história
em quadrinhos), os detalhes da trama que evidenciam uma visão pessimista sobre
a sociedade humana (as barras de proteínas feitas de insetos nojentos, a
assepsia hipócrita e preconceituosa da ala “rica” do trem). Os momentos finais
de “Expresso do amanhã” até revelam uma certa queda para o convencionalismo
temático e formal, mas pouco afetam a sensação de se ter assistido a uma
experiência cinematográfica extrema em termos de criatividade e vigor.
terça-feira, setembro 01, 2015
Corrente do mal, de David Robert Mitchell ****
O que diferencia “Corrente do mal” (2014) da maioria
esmagadora do que se faz atualmente em termos de cinema de horror não é uma
questão de que o filme do diretor David Robert Mitchell tenha uma abordagem
revolucionária ou opte por estruturas formais e temáticas convencionais.
Nenhuma das duas opções seria garantia absoluta de que a produção fosse bem
sucedida. Afinal, “A bruxa de Blair” (1999), grande referência estética para o
gênero terror nos últimos anos, é muito mais um fenômeno de marketing do que
propriamente um grande marco artístico. O que torna “Corrente do mal” uma das
melhores obras de horror contemporâneas é a elegância e criatividade com que
Mitchell conduz sua narrativa. Ele se vale de algumas referências visuais e
conceituais de traço atemporal, que parecem configurar uma dimensão paralela
onde a trama se desenvolve – a trilha sonora baseada em estruturas melódicas e
harmônicas nervosas e repetitivas (nos moldes do que John Carpenter fez em
alguns de seus melhores trabalhos), os personagens que gostam de ficar assistindo
na televisão filmes baratos de ficção científica dos anos 50, a garota que lê
clássicos literários num celular estilizado. Esses elementos, num primeiro
momento, podem soar aleatórios, mas aos poucos começam a fazer sentido
inseridos dentro do formalismo classudo concebido por Mitchell. A magnífica
direção de fotografia extrai planos expressivos e de beleza plástica sombria, caracterizando
uma atmosfera de um verdadeiro conto gótico. Mitchell brinca com alguns clichês
inerentes ao gênero, mas todos eles vêm remodelados sob uma ironia perversa.
Assim, a maldição que ronda o sexo entre adolescentes traz uma carga de
moralismo sarcástico, acentuando ainda mais o caráter assustador do filme.
Algumas soluções do roteiro evocam forçações de barra típicas de filmes de
terror recente, principalmente quando os jovens personagens principais resolvem
enfrentar a força maligna que persegue a protagonista Jay (Marka Monroe). Mas isso
acaba sendo apenas mais um truque sacana de Mitchell, que serve para enfatizar
o lado atávico do mal e da inevitabilidade do destino. O genial e perturbador
final em aberto de “Corrente do mal” é o coroamento perfeito das escolhas artísticas
ousadas de Mitchell, cineasta que se mostra mais decidido a elaborar uma obra
memorável do que criar uma franquia oportunista qualquer.
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