terça-feira, agosto 08, 2017

De canção em canção, de Terrence Malick ****

Não dá para dizer que “De canção em canção” (2016) seja exatamente sobre o rock and roll, ainda que a temática esteja presente dentro de sua trama que tem como uns dos seus principais cenários os bastidores de shows e festivais do gênero, além de trazer personagens relacionados ao meio. Na realidade, esse filme mais recente do diretor norte-americano Terrence Malick parece compor uma particular trilogia existencial-artística com os dois filmes anteriores do cineasta, “A árvore da vida” (2011) e “Amor pleno” (2012). Nas três obras, há uma síntese estética-temática a versar sobre um mal-estar existencial contemporâneo que se formata como um peculiar conto moral-místico. Dentro de tal concepção narrativa e textual, Malick destrincha uma formatação poética e intrincada, em que a fotografia esplendorosa e uma edição que parece se desenvolver como se fosse um fluxo de consciência não obedecem às regras “normais” da técnica – é de se reparar, por exemplo, um predomínio de cenas em que o áudio não se liga com exatidão ao que está na imagem, gerando um efeito sensorial que tanto desconcerta pelo inusitado quando encanta pela genialidade de sua execução. É na recusa de “De canção em canção” em se vincular a uma ortodoxia estilística que o filme efetivamente se aproxima do rock and roll. Tal estilo musical sempre foi marcado por uma contradição – ao mesmo tempo que apresenta uma corrente tomada pelo tradicionalismo e pela busca pelo “sucesso” comercial, há também uma linha que se expande para um universo de ousadia e inquietação artísticas, e que entra em choque com a realidade do mercado. A produção de Malick busca a ligação com essa segunda vertente rocker, tanto na maneira como mostra a relação entre o músico BV (Ryan Gosling) e seu empresário/produtor Cook (Michael Fassbender), marcada por um jogo ambíguo de admiração e exploração, quanto na forma como a própria música se insere na narrativa. Não à toa, a grande presença musical em cena é da cantora e compositora Patti Smith, artista de grande força lírica e messiânica, que se insere na trama em diálogos inspiradíssimos e também com algumas de suas melhores canções em algumas das cenas mais antológicas do filme.

Um comentário:

Elson Silva disse...

O penúltimo filme do Malick também é muito bom, se chama 'O cavaleiro de copas'. Vale a pena conhecer.