quinta-feira, agosto 10, 2017

Em ritmo de fuga, de Edgar Wright ****

Assim como em “De canção em canção” (2016), o rock and roll não é exatamente o tema principal de “Em ritmo de fuga” (2016), mas os dois, estilo musical e filme, acabam apresentando um coerente paralelo existencial tal havia ocorrido também no trabalho mencionado de Terrence Malick. Tal relação se estabelece não apenas pelo fato da produção dirigida por Edgar Wright usar como elemento essencial da narrativa várias canções do tripé rock-pop-soul, mas também por um peculiar conceito artístico. Nesse sentido, é preciso ter em mente que o rock and roll entendido como fenômeno sociológico comportamental é algo que hoje em dia é de influência nula. Em termos musicais, ele pode até ter uma ascendência e mesmo assim se restringindo a um âmbito mais subterrâneo ou a pequenos nichos. Mas no sentido de se relacionar com as principais questões culturais e sociais do mundo contemporâneo, o rock não tem a mesma relevância de anos atrás, como aconteceu, por exemplo, com a sua ligação com a contracultura dos anos 60 ou com o niilismo e alienação da década de 90. Resumindo: o rock and roll hoje em dia é um artigo nostálgico de museu, congelado no tempo. Ou seja, perfeitamente de acordo com a estética retrô trabalhada por Wright em “Em ritmo de fuga”. No roteiro e na atmosfera de tal obra, há uma queda pela reconstituição de um imaginário particular, uma espécie de síntese sensorial dos preceitos básicos dos filmes de gangsteres e de jovens rebeldes, tudo embalado por temas musicais rockers. Longe da mera reciclagem, o que Wright faz é combinar tais referências em uma linguagem cinematográfica bastante ousada e dinâmica, em que o ritmo da narrativa se liga a intensidade rítmica e melódica de cada canção que surge em cena. Isso fica evidente logo de cara na sensacional sequência de abertura, em que cada passo de um assalto e da consequente perseguição automobilista parece determinado pela evolução da agitada e sinuosa “Bellbottoms” de Jon Spencer Blues Explosion. Como já havia mostrado de maneira contundente em filmes anteriores antológicos como “Todo mundo quase morto” (2004), “Chumbo grosso” (2007) e “Scott Pilgrim contra o mundo” (2010), Wright demonstra em “Em ritmo de fuga” um domínio expressivo da ação cinematográfica, vide sequências de perseguições e tiroteiros marcadas por coreografias ricas em detalhes e precisão cênicas, além de incorporar com sensibilidade e inteligência em diálogos e nuances imagéticas uma gama incrível de referências culturais.

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