A condição de filho de
imigrantes sempre foi um fator existencial-artístico preponderante na
filmografia do diretor alemão Fatih Akin. E não apenas em termos temáticos – em
seus filmes mais expressivos, o conjunto de formalismo e roteiro apresentava um
vigor renovado, como se abarcassem o melhor de mundos diferentes, tanto em um
rigor estético típico do cinema europeu quanto no exotismo e vivacidade das
influências étnicas inerentes à cultura oriental, permitindo-se ainda a claras
referências e citações da cinematografia norte-americana. Ou seja, um cinema
deliciosamente mestiço. Em pedaços (2017)
é fruto dessa concepção autoral de Akin, mas dessa vez a narrativa se mostra
mais presa dentro de uma formatação convencional e previsível. Se Soul Kitchen (2009) era uma recriação
particular, frenética e divertida de clichês de diversas vertentes da comédia
(pastelão, romântica, de erros), temperada por um sutil prisma sócio-político,
essa produção mais recente envereda por uma insólita junção de preceitos
narrativos de melodrama, thriller “de vingança” e filme de tribunal. A ligação
entre os gêneros cinematográficos não é fluente, e por vezes a rigidez da
encenação e os lugares comuns da trama induzem ao enfadonho. Entretanto, ainda
que esteja distante de representar um ponto alto na carreira de Akin, Em pedaços tem os seus pontos positivos
que mostram que o cineasta ainda é um nome acima da média. Isso fica evidente
na sequência em que a protagonista Katja (Diane Kruger) tenta o suicídio aos
cortar os pulsos na banheira, de uma mórbida e perturbadora beleza imagética.
Além disso, a narrativa tem uma atmosfera de notável sobriedade emocional,
impedindo que tudo caia no sentimentalismo barato. O expressivo conteúdo
humanista do roteiro também cria uma forte empatia com a plateia, fazendo com
que seja difícil ficar indiferente ao filme. De certa forma, a impressão geral
é que Akin quis fazer a sua versão pessoal de Desejo de matar, ainda que a sua queda para um tradicionalismo
narrativo mais acessível tenha impedido seu longa de atingir maiores voos
criativos.
Boa parte de amigos e conhecidos costuma dizer que as minhas recomendações para filmes funcionam ao contrário: quando eu digo que o filme é bom é porque na realidade ele é uma bomba, e vice-versa. Aí a explicação para o nome do blog... A minha intenção nesse espaço é falar sobre qualquer tipo de filme: bons e ruins, novos ou antigos, blockbusters ou obscuridades. Cotações: 0 a 4 estrelas.
quinta-feira, abril 19, 2018
quarta-feira, abril 18, 2018
Severina, de Felipe Hirsch ***
Você já foi ao bairro Cidade Velha em Montevidéu? Na capital
uruguaia, talvez seja o local mais importante em termos históricos, turísticos
e culturais. Há um número considerável de pequenos museus e livrarias, praças,
igrejas, restaurantes, além do Mercado do Porto. Por mais que haja uma presença
de um comércio “moderno” (McDonalds, agências bancárias, lojas de souvenires),
também é um lugar que dá uma certa impressão de ter parado no tempo, tanto pelo
aspecto óbvio da grande maioria dos prédios ser de construções bem antigas como
pelo fato que não há aquela preocupação em deixar um visual asséptico para
turista ver. Pelo contrário – há bastante pichações, a pintura de algumas casas
está envelhecida, por vezes o visual é de pura ruína. Não é à toa que o diretor
brasileiro Felipe Hirsch escolheu a Cidade Velha como cenário primordial para a
trama de “Severina” (2017). A impressão do bairro como uma localidade fora do
tempo e do espaço casa muito bem com a atmosfera entre o realismo melancólico e
o delirante que impregna toda a narrativa da obra. Em certos momentos, o
roteiro até insere alguns elementos contemporâneos (inclusive, com a menção do
golpe jurídico-parlamentar no Brasil), mas o que efetivamente prevalece é a sensação
de uma história inserida em um universo paralelo, típica da escola do realismo
fantástico tão cara às manifestações artísticas da América Latina. Se tal
recurso artístico pode parecer manjado, é verdade também que Hirsch usa
tradicionais recursos estéticos e temáticos com sobriedade e precisão. A
história do livreiro que se apaixona por uma bela mulher viciada em literatura
e em roubar livros vai bem além do mero sentimentalismo romântico, enveredando
mais para um lado de perversa ironia e mesmo de morbidez perturbadora. As
filmagens preferenciais nos sombrios ambientes fechados de livrarias ou em
cenários externos em horas noturnas ou crepusculares acentuam mais a sensação
do espectador estar dentro de um tardio e fascinante conto gótico.
terça-feira, abril 17, 2018
Antes que tudo desapareça, de Kiyoshi Kurosawa ***1/2
Os alienígenas em missão de reconhecimento de “Antes que
tudo desapareça” (2017) têm um poder extraterreno bastante peculiar: para que o
aprendizado sobre os costumes de uma raça a ser dominada seja completo eles
podem extrair conceitos das mentes dos indivíduos. Esse detalhe da trama é
simbólico da própria concepção artística do filme do diretor japonês Kiyoshi
Kurosawa. Há no filme alguns dos principais elementos narrativos e temáticos
inerentes às produções de ficção-científica contemporâneas. Tais aspectos,
entretanto, manifestam-se com sutileza e de maneira econômica (ainda que sempre
impactante). Estão lá os discretos efeitos especiais, a encenação que remete ao
thriller e à aventura (com direito a uma memorável sequência que homenageia o
clássico “Intriga internacional” de Alfred Hitchcock), o roteiro que evoca o
embate entre o militarismo da humanidade e os conhecimentos misteriosos de uma
raça alienígena. Por outro lado, todo esse lado tradicional do gênero
cinematográfico em questão é submetido a um conceito existencial mais obscuro e
poético. A interação entre os personagens, as cenas que se desenrolam em um
ritmo que beira o contemplativo e o diálogos repletos de nuances filosóficas e
humanistas caracterizam uma obra também reflexiva e de forte densidade
dramática-psicológica, ainda que permeada quase sempre por uma atmosfera de
estranha leveza. A ligação que se se dá entre uma estrutura narrativa de filme
de ação e ambientação intimista é fluida e natural, reforçando a impressão de
que Kurosawa é um dos nomes mais originais dentro do panorama do cinema
fantástico contemporâneo.
segunda-feira, abril 16, 2018
A quadrilha, de John Flynn ****
O personagem literário Parker, criado pelo escritor Richard
Stark e protagonista de vários livros do autor, apareceu em algumas marcantes
produções cinematográficas. A mais conhecida e prestigiada foi no clássico “À
queima-roupa” (1967), de John Boorman. A caracterização mais complexa e
humanizada do personagem, entretanto, encontra-se em “A quadrilha” (1973). Pode
parecer um contrassenso isso, afinal a interpretação de Robert Duvall no papel
principal é quase minimalista em termos de diálogos, expressões e gestual.
Ocorre que essa atuação se afasta dos estereótipos do tradicional anti-heróis
de produções policiais, e mais enfatiza uma brutalidade inerente a uma condição
existencial dessa figura. O pragmatismo inabalável, o rígido senso de honra de
bandido e as atitudes violentas representam um modo de agir que é único
conhecido pelo protagonista, e não uma condição para se mostrar cool diante das
situações extremas de perigo. Nesse sentido, a própria compleição física em
cena de Duvall foge do habitual para esse tipo de personagem. Esse dado sobre a
figura de Parker em si (na verdade, no filme seu nome é Macklin) revela muito
da própria concepção conceitual que o diretor John Flynn coloca em prática no
filme – a narrativa é descarnada, reduzida a uma essência de encenação e
formalismos marcada pela crueza e precisão, e que aliada a uma atmosfera amoral
e desolada configurou um traço artístico fundamental no melhor que o cinema
policial setentista produziu.
sexta-feira, abril 13, 2018
The silenced, de Lee Hae-Young *
Ok, o cinema sul-coreano realmente tem apresentado algumas
das obras mais interessantes nos últimos anos, sendo que no gênero fantástico
vieram do país asiático em questão algumas produções antológicas. “The silenced”
(2015), entretanto, é prova concreta que mesmo de lá vem também filmes ruins e
derivativos. Imagine uma boa parte dos clichês narrativos e temáticos associados
ao horror asiático e é provável que estará nesse longa dirigido por Lee
Hae-Young. A encenação inexpressiva e a concepção visual irritantemente clean
acentuam ainda mais a frustração do espectador.
quinta-feira, abril 12, 2018
O bar, de Álex de la Iglesia **
O grande barato no cinema do espanhol Álex de la Iglesia
sempre foi a sua síntese muito particular entre tensão dramática, brutalidade
gráfica e um senso de humor perverso, por vezes quase beirando o escroto. Essa
particular concepção artística rendeu algumas obras memoráveis, mas parece que
começa a apresentar um certo desgaste criativo. Essa é a impressão que se tem
ao assistir a “O bar” (2017). O início do filme é promissor, com os habituais
elementos narrativos característicos na filmografia do cineasta se pondo em
cena de maneira bastante contundente. Aos poucos, entretanto, a narrativa vai
ficando cada vez mais convencional e frouxa, aliada a um roteiro que se limita
a revolver de maneira mecânica clichês temáticos típicos do gênero
ficção-científica apocalíptica. Mesmo aquela ironia sardônica que o espectador
está acostumado de outras produções dirigidas por de la Iglesia vai se tornando
rarefeita, quase inexistente. Em um contexto geral, é como se a indelével marca
autoral do cineasta houvesse sumido!
quarta-feira, abril 11, 2018
Um lugar silencioso, de John Krasinski ***
Na trama de “Um lugar silencioso” (2018), há alguns motes
que são recorrentes no cinema fantástico contemporâneo: uma ambientação
pós-apocalíptica, monstros sanguinários estilo “Alien”, a reverência ao
conceito da unidade familiar como bem maior a ser defendido. O diretor e ator
John Krasinski se permite a alguns truques narrativos típicos da filmografia de
M. Night Shyamalan. Ainda que em tal formatação se tenha essa impressão de uma
colcha-de-retalhos de influências e referências, é verdade também que algumas
escolhas formais e temáticas de Krasinski apresentam uma interessante síntese
de inquietações artísticas e capacidade de envolver as plateias em termos de
tensão dramática e empatia com os personagens. O fato de que na trama exista a
necessidade de um silêncio constante por parte da família protagonista para não
atrair a atenção de tenebrosas criaturas cegas, famintas e praticamente
invencíveis em sua força e voracidade faz com que a narrativa seja quase que
puramente visual, prescindindo na maior parte do roteiro de diálogos. A
encenação concebida por Krasinski tem uma precisão e clareza admiráveis, e
aliada a fotografia de talhe clássico, a edição de ritmo fluido e aos efeitos
especiais de caracterização imagética que fogem do derivativo, acabam
configurando uma narrativa bem equilibrada entre a sobriedade psicológica, o
suspense perturbador e violência gráfica assustadora.
terça-feira, abril 10, 2018
Meu rei, de Maïwenn ***
O olhar feminino da diretora Maïwenn domina a narrativa de “Meu
rei” (2015) e é quem dá o seu efetivo e contundente sentido
artístico-existencial. Dentro da relação disfuncional que se estabelece entre o
casal Tony (Emmanuelle Bercot) e Georgio (Vincent Cassel), marcada pelo
comportamento opressor e abusivo por parte do segundo, a perspectiva que sempre
fica evidente para o espectador é a da protagonista. A violência física, moral e
psicológica a que fica submetida não se vincula a uma explicação para o
comportamento do companheiro. Sendo um desvio de teor psiquiátrico ou
simplesmente uma questão de caráter, o que interessa para o filme é explicitar
o processo de desagregação de Tony sob o jugo da dominação patriarcal/machista
de Georgio e também o doloroso percurso para que saia dessa relação doentia.
Esse viés subjetivista da narrativa é acertado no sentido de que acentua a
tensão sufocante que representa o cotidiano da personagem e sua busca por
libertação pessoal, ao mesmo tempo que caracteriza com precisa sutileza um lado
perversamente perturbador no relacionamento entre os dois: se há algo que beira
a psicose brutalizante no comportamento de Georgio, também há um lado sedutor
no grande carisma que ele exala em alguns momentos da trama. Essa confusão de
sentimentos é atordoante para que assiste ao filme e, de certa forma, é como
jogasse o espectador para dentro da própria mente de Tony. Esse forte grau de
empatia de “Meu rei” também tem como responsáveis as atuações vigorosas de
Bercot e Cassel.
segunda-feira, abril 09, 2018
A maldição da floresta, de Corin Hardy ***
A premissa principal da trama de “A maldição da floresta”
(2015) não chega a ser propriamente uma novidade: família composta por um casal
e seu bebê vive isolada em uma cabana no meio de uma sombria floresta e é
assolada por criaturas maléficas do local. Mesmo com elementos temáticos tão
surrados, o diretor Corin Hardy consegue surpreender pelo vigor de sua
encenação e por uma construção imagética e de atmosfera que causam algum
impacto sensorial para o espectador. A caracterização visual dos monstrinhos
tem um forte apelo assustador e paira sobre a narrativa um teor fatalista bem
convincente. Ou seja, no conjunto geral bem distante de ser algo clássico, mas divertido
e envolvente como espetáculo de horror.
sexta-feira, abril 06, 2018
Aliados, de Robert Zemeckis ***
Um drama romântico de 2º Guerra Mundial envolvendo
espionagem e traições, com parte das ações ocorrendo em cenários exóticos, a
essa altura do campeonato, pode sugerir algo de mofado e rotineiro, fazendo pensar
em mais uma variação do clássico “Casablanca” (1942). O terço inicial de “Aliados”
(2016) se desenvolve justamente na célebre cidade marroquina título do filme
que celebrizou o par romântico de Humphey Bogart e Ingrid Bergman. É claro que
a produção dirigida por Robert Zemeckis está bem longe de ter a elevada classe
artística daquela de Michael Curtiz, mas ainda assim consegue apresentar algo
de envolvente para o espectador, mesmo que se enquadre em todos os clichês do
gênero. Atmosfera e direção de arte remetem a uma estilização de considerável
encanto imagético, enquanto a encenação prima pela sobriedade, o que faz com
que a narrativa não caia em excessos convencionais. E se Brad Pitt e Marion
Cotillard não apresentam o mesmo carisma cênico de Bogart e Bergman, por outro
lado suas caracterizações icônicas de precisas nuances psicológicas são
convincentes e, por vezes, até comoventes diante o deslizar melancólico e
trágico da trama.
quinta-feira, abril 05, 2018
I am Chris Farley, de Brent Hodge e Derik Murray **
O comediante norte-americano Chris Farley teve uma carreira
fulminante – sua morte precoce por overdose deixou a forte impressão de um
talento que poderia ter ido bem mais longe. Aliás, vale lembrar que a
sensacional performance de Jack Black em “Trovão tropical” (2008) é fortemente
inspirada na vida e arte de Farley. Vendo o documentário biográfico “I am Chris
Farley” (2015), dá para pensar que o ator e comediante foi uma espécie de John
Belushi que não encontrou o seu John Landis. Sua trajetória no Saturday Night
Live foi marcada por números inesquecíveis, que evidenciavam características
muito peculiares em seu humor bufão de estranhas nuances. Essa sua capacidade
para a comédia alucinada, entretanto, não foi aproveitada em todas as suas
possibilidades criativas nos filmes que Farley participou. O mérito da produção
dirigida por Brent Hodge e Derik Murray está no resgaste desse período de ouro
de Farley na televisão norte-americana, época essa em que o artista deu algumas
das mostras mais contundentes do seu talento e que provavelmente é desconhecida
da maioria do público fora dos Estados Unidos. Por outro lado, o tom
excessivamente jornalístico do filme torna a narrativa por vezes preguiçosa e
enfadonha, estando bem distante do espírito anárquico da arte de seu
protagonista. No final das contas, o documentário vale muito mais pelo
interesse histórico e cultural do que propriamente por seus méritos formais.
quarta-feira, abril 04, 2018
Twin Peaks: O retorno, de David Lynch ****
Na maioria dos episódios de “Twin Peaks: O retorno” (2017),
a conclusão se dá em um bar de meio de estrada, onde alguma banda, cantor ou
cantora toca algum número de rock ou folk, sempre sobre um contexto de forte
estilização visual e de atmosfera, com uma plateia cujo comportamento oscila
entre a dança, o olhar atento, a bebedeira, brigas e flertes. Em termos de
imaginário coletivo cultural, nada mais norte-americano. Em boa parte da
filmografia do diretor David Lynch prevaleceu justamente essa recriação
particular e surreal dos desejos, obsessões e perversões das mentes de seus
conterrâneos (e, por tabela, do homem ocidental moderno). Esse novo capítulo da
saga existencial-metafísica do agente Dale Cooper (Kyle MacLachlan) para
desvendar os segredos e mistérios que envolvem a morte de Laura Palmer (Sheryl
Lee) radicaliza esses preceitos artísticos de Lynch, indo ainda mais longe nas
rupturas lógicas e narrativas que o cineasta tinha evidenciado em “A estrada
perdida” (1997), “Cidade dos sonhos” (2001) e “Império dos sonhos” (2006). Em “Twin
Peaks”, a fratura dos planos dimensionais da realidade e do fantástico fica
exposta de vez e joga o espectador em um vórtice sensorial em que o ridículo e
o absurdo ganham uma bizarra coerência, ainda que permaneçam sempre
desconcertantes. Nessa abordagem, diversos gêneros se fundem como se sempre
tivessem sido uma coisa só – melodrama familiar, ficção científica, horror,
comédia pastelão e policial com toques noir – fazendo com que Lynch brinque com
diversos recursos narrativos e visuais de maneira despudorada e genial, indo de
efeitos especiais típicos do cinema mudo até trucagens baratas de terror B. As
sensações para essa montanha russa estética são variadas, com escalas que vão
do cômico ao francamente assustador. Lendas, fábulas, mentiras, idealizações,
sonhos e até alguns fatos reais que fascinaram gerações e mais gerações nas
últimas décadas são reprocessadas dentro de um conceito autoral perturbador. O
mundo adquire um sentido inesperado e para a história que é contada, no final
das contas, torna-se até dispensável uma conclusão. Lynch não sente necessidade
em amarrar todas as pontas, na realidade tudo permanece ainda mais confuso e
fascinante do que era no início. Tendo ou não mais uma temporada, “Twin Peaks”
sempre permanecerá como um maravilhoso e insondável livro em aberto.
terça-feira, abril 03, 2018
Jogador nº 1, de Steven Spielberg ****
O programador e visionário James Halliday (Mark Rylance),
criador do fictício misto de vídeo-game e existência virtual OASIS, principal
cenário de “Jogador nº 1” (2018), é um fissurado por cultura pop, com a trama
do filme dando a entender que por uma queda especial para os anos 80
(praticamente todas as canções da trilha sonora, por exemplo, são de sucessos
dessa época). Dentro dessa dieta cultural, é bem provável que ele seja
admirador de alguns dos principais filmes oitentistas de Steven Spielberg.
Dessa maneira, daria até para dizer que é quase óbvia a escolha de Spielberg
como diretor de “Jogador nº 1”. Ocorre, entretanto, que a produção em questão
não se trata de mera obra nostálgica e recicladora de referências e citações. É
claro que o espectador vai se ligar em vários detalhes nesse sentido, mas o
filme tem um direcionamento existencial-artístico mais ambíguo. Afinal, o futuro
distópico onde a trama se situa sugere que essa visão saudosa do passado também
traz dentro de si um forte grau de alienação em relação ao próprio presente. A
narrativa consegue estabelecer uma relação fluente e algo perturbadora entre os
seus planos de realidade – o físico e o virtual – e acentua com sutileza alguns
aspectos de contestação sócio-política do subtexto do roteiro, principalmente
no que diz respeito a aspectos de distorção de um capitalismo selvagem
praticado por grandes corporações e na forma com que corações e mentes são
manipulados nesse processo. É claro que tudo isso é filtrado por um verniz
típico de divertida aventura juvenil, coisa na qual Spielberg é mestre. Aliás,
a conjunção entre encenação e efeitos visuais é extraordinária e marca um passo
além em relação ao que o próprio Spielberg já havia feito em “As aventuras de
Tintim – O segredo do Licorne” (2011). Para aqueles que andavam desiludidos com
os acomodados e insossos dramas históricos recentes dirigidos pelo cineasta
norte-americano, “Jogador nº 1” ajuda a lembra que quando Spielberg e ficção
científica se juntam é sempre bom prestar atenção.
segunda-feira, abril 02, 2018
Zama, de Lucrecia Martel ****
Pode-se dizer em um primeiro momento, e mesmo em um olhar
mais apressado, que “Zama” (2017) representa mais uma vez o olhar típico do
homem branco colonizador diante de uma terra dita estranha e selvagem. Afinal,
esse é justamente o perfil do protagonista-título (Daniel Giménez Cacho). Ao
mesmo tempo, entretanto, não dá para dizer que a diretora Lucrecia Martel se limita
a uma caracterização simplória desse homem que é o opressor e daqueles que
seriam os colonizados e mesmo também daqueles que estariam nos estratos mais
baixos da sociedade colonial da América Latina do século XVIII. Na verdade, é
como se Martel expusesse em sua obra um inclemente e irônico olhar
artístico-existencial sobre a formação sócio-política-cultural de um povo que
levou a essa disfuncional sociedade contemporânea de terceiro mundo que vivemos,
ainda que perpassada pela perspectiva pessoal de Zama. Nesse conceito, a
própria aparente “realidade” se fratura em planos narrativos distintos – se por
um lado a abordagem estética obedece a um rigoroso caráter realista, vide uma
encenação naturalista e uma direção de arte marcada por uma reconstituição de
época “suja”, em outros momentos a narrativa ganha contornos entre o delirante
e o metafísico. Dentro dessa intrincada concepção formal-temática, Martel
articula uma obra fascinante que sintetiza com maestria beleza imagética
desconcertante, sensualidade sombria, perturbadora violência gráfica e
sensorial, rarefeita narrativa de aventura e cenários naturais que parecem
pertencer a um universo paralelo.
quinta-feira, março 29, 2018
O Insulto, de Ziad Doueiri *
Premiações ou indicações relativas ao Oscar e a prestigiados
festivais de cinema, para muitos, são indicadores confiáveis da qualidade
artística de um filme ou pelo menos de alguma relevância cultural. A verdade,
entretanto, é que tais eventos na escolha de seus agraciados obedecem muito
mais a um jogo de interesses de profissionais da indústria do cinema do que se
preocupam com uma real avaliação estética das obras. A produção libanesa “O
insulto” (2017) é um exemplar claro dessa tendência – ganhador de prêmio no
Festival de Veneza e indicada ao Oscar de melhor filme estrangeiro, o filme é
constrangedor em seus vários equívocos narrativos. Dizer que o seu conjunto
formal-temático remete a um novelão insosso chega a ser generoso – a breguice e
a apelação sentimental da trama e a narrativa modorrenta fazem do longa do
diretor Ziad Doueiri um equivalente libanês de uma novela mexicana de quinta
categoria. Até se poderia dizer que a abordagem de uma questão complexa como os
conflitos étnicos e religiosos na sociedade libanesa garantiriam algum
interesse por um prisma histórico-antropológico, mas a forma banal e
convencional com que tal temática é abordada, aliada a seu formalismo misto de mediocridade
e tosqueira, detonam qualquer possibilidade de que o filme tenha um outro
destino que não seja o limbo das produções ordinárias descartáveis.
quarta-feira, março 28, 2018
A luta do século, de Sérgio Machado ***1/2
A abordagem mais óbvia que se poderia dar à rivalidade entre
os boxeadores Luciano Todo Duro e Reginaldo Holyfield seria aquela em tom
folclórico, caindo no francamente jocoso. Afinal, ao longo de três décadas de
vários enfrentamentos nos ringues e fora deles os próprios lutadores trataram
de fornecer uma matéria-prima cômica, involuntariamente ou não, além dos meios
de comunicação terem acentuado bastante o lado patético do conflito entre tais
indivíduos. No documentário “A luta do século” (2016), o diretor Sérgio Machado
também se vale dessa visão irônica que ressalta o lado pitoresco de tais
figuras e de algumas situações que protagonizaram. Tal concepção, entretanto, é
predominante no terço inicial da narrativa. Em um processo criativo de fortes
tons dialéticos, no restante do filme o cineasta se dedica a fazer uma
perturbadora e cruel dissecação dos reais significados que envolvem as disputas
pugilísticas e mesmo existenciais entre esses dois homens. Aos poucos, aquilo
que parecia anedótico e divertido vai ganhando uma conotação mais complexa e
melancólica ao evidenciar o despreparo emocional e cultural de Todo Duro e
Holyfield em lidarem com os diversos aspectos da notoriedade que obtiveram
quando estavam no auge de suas respectivas carreiras esportivas. No ocaso de
suas trajetórias, as duras consequências econômicas e sociais lhe atingem com
uma brutalidade devastadora. Relegados novamente à pobreza de origem, conformam-se
a pequenos bicos, favores de amigos e familiares, confortos místicos de seitas
religiosas e exploração de políticos. Ou seja, o perfeito retrato simbólico de
milhões de brasileiros. Incapazes de uma reflexão mais profunda sobre as causas
de suas insuficiências financeiras e de seus padecimentos físicos, acabam
condenados a repetirem uma eterna luta que nunca terá fim, presos em
personagens que eles mesmos não conseguem distinguir onde termina a fantasia e
começa a realidade. Machado consegue um equilíbrio artístico notável entre a
comicidade natural da primeira parte do filme com o direcionamento dramático
posterior, fazendo com que esses diferentes planos narrativos convivam com uma
naturalidade impressionante. Além disso, o discurso humanista do subtexto de “A
luta do século” brota com sutileza e contundência dentro de uma dinâmica
narrativa que combina farto material audiovisual de arquivo com muito bem
sacadas tomadas próprias sem precisar apelar para previsíveis truques
jornalísticos.
terça-feira, março 27, 2018
Minha amiga do parque, de Ana Katz ***1/2
De vez em quando aparece alguma produção que mostra que o
cinema argentino contemporâneo é bem mais que melodramas bem-comportados
estrelados por Ricar do Darin. “Minha amiga do parque” (2015) é uma dessas
obras de exceção. O filme da atriz, roteirista e atriz Ana Katz começa de
maneira beirando o previsível, ao mostrar o cotidiano da protagonista Liz
(Julieta Zylberberg) e seu filho ainda bebê enquanto o marido está viajando a
trabalho. Aos poucos, a narrativa vai ganhando contornos de maior tensão e
mistério, principalmente no momento que entra em cena Rosa (Katz). É como se Liz
ingressasse em um universo à parte, em que as regras de convivência “civilizada”
tipicamente pequeno-burguesas se dissolvessem de forma sutil e perversa. Por
mais que os modos e atitudes atribulados de Rosa perturbem Liz, há uma
perturbadora atração dessa última por essa vida instável e mais desafiadora dos
padrões vigentes. A encenação proposta por Katz para essa intimista saga
existencial evita o óbvio e o maniqueísta, valorizando pequenos gestos e
silêncios expressivos entre as personagens. A forte densidade dramática e a
discreta ironia da trama também são valorizadas pela crueza imagética da
direção de fotografia, pelo intenso ritmo narrativo e pelas viscerais
interpretações de Katz e Zylberberg.
sexta-feira, março 23, 2018
Western, de Valeska Grisebach ***1/2
Em um primeiro momento, “Western” (2017) parece evocar algo
da filmografia do diretor alemão Werner Herzog, principalmente daquelas obras
em que o cineasta faz um registro da natureza marcado pela crueza. Não dá para
dizer, entretanto, que o filme de sua conterrânea Valeska Grisebach se limita a
uma mera reciclagem de influências. A abordagem da cineasta se vale de uma
abordagem realista e sem excessos sentimentais manipuladores para formatar uma
sóbria narrativa carregada de simbologia francamente humanista. A direção de
fotografia não se limita em reduzir seus belos enquadramentos de florestas e
vilas interioranas a um óbvio caráter de cartão postal – há um conceito
imagético-existencial em que tais cenários trazem uma carga metafórica de um
universo paralelo/perdido, o que está em perfeita sintonia com o cerne temático
de seu roteiro, que é o conflito entre os operários alemães “civilizados” e os
rústicos nativos búlgaros em meio a obras no interior do país desses últimos.
Nesse sentido, a figura do protagonista Meinhard (Meinhard Neumann) é fundamental
na exposição dos principais conflitos e dilemas da trama. Silencioso e algo
curioso, o personagem procura trafegar com alguma naturalidade entre esses dois
mundos aparentemente opostos, fazendo com que venha à tona uma série de
sentimentos e sensações entre os lados, principalmente no que diz respeito a
preconceitos, intolerâncias, mesquinharias e desconfianças. Ou seja, uma sutil parábola
moral-filosófica que expõe em seu subtexto alguns dos principais conflitos
sócio-culturais-políticos pelos quais passa a sociedade contemporânea. “Western”
não se limita a fazer sociologia. Há sagacidade e desenvoltura na encenação
proposta por Grisebach, com uma narrativa de ritmo sereno em sua condução, mas
que, no entanto, esconde em seu desenvolvimento uma profusão de ações e
situações que envolvem o espectador de maneira sedutora.
quinta-feira, março 22, 2018
15h17 - Trem para Paris, de Clint Eastwood *1/2
Dá para dizer que desde a dobradinha “A conquista da honra”
e “Cartas de Iwo Jima”, ambos lançados de 2006, o diretor Clint Eastwood tem
demonstrado uma certa obsessão em seus filmes com histórias baseadas em fatos
reais a ressaltarem questões como o patriotismo, o heroísmo e a guerra. Em
quase todos eles, ele conseguiu fazer com que as narrativas não tropeçassem no
meramente laudatório ou no ufanismo simplório a partir de um bem engendrado
equilíbrio entre classicismo formal e sóbria atmosfera emocional. Pois a
exceção a essa habitual abordagem do cineasta acaba se configurando justamente
na sua obra mais recente, “15h17 – Trem para Paris” (2018). Ao término da
projeção, a impressão é a de se ter assistido a uma convencional e apelativa
peça de propaganda cristã-armamentista-patriota. Ao invés daquela perturbadora
ambiguidade existencial e da notável síntese entre sutileza estética e expressiva
caracterização imagética que pairavam em obras como “A troca” (2008) e “Sniper
americano” (2015), o que se tem é uma produção genérica repleta de discursos de
autoajuda e encenada com uma mão pesada que parece que nem é a do mesmo diretor
que tem obras-primas como “Os imperdoáveis” (1992) e “Sobre meninos e lobos” (2003)
em sua filmografia.
terça-feira, março 20, 2018
Torquato Neto - Todas as horas do fim, de Eduardo Ades e Marcus Fernando ***1/2
Assim como o
documentário “Cinema novo” (2016) teve a sua estrutura narrativa formatada de
acordo com os preceitos artísticos do movimento cinematográfico que focalizou, “Torquato
Neto – Todas as horas do fim” (2017) é uma obra documental que parece se
configurar como uma canção típica da Tropicália, momento cultural do qual seu
biografado foi um dos principais nomes. A ordenação de fatos e depoimentos que
surgem na tela se dão dentro de um ordenamento linear e cronológico
tradicional. Essa sugestão de convencionalismo, entretanto, é logo embaralhada
pelo direcionamento conceitual proposto pelos diretores Eduardo Ades e Marcus
Fernando. O que é passado (imagens de arquivo) e presente (depoimentos atuais
sobre Torquato) vão se fundindo a partir de recursos e truques narrativos,
fazendo com que o protagonista se mostre como uma figura pertencente a uma
outra dimensão temporal e existencial. Não à toa, as filmagens contemporâneas
recebem um tratamento visual estilizado, dando uma ideia de sujeira imagética, reforçada
ainda pelo desencontro entre áudio e imagem. O truque pode ser simples, quase
barato, mas o efeito sensorial é desconcertante, bastante em sintonia com a própria
natureza artística de Torquato. Tal abordagem do documentário respeita e
valoriza a própria complexidade da arte e personalidade de seu principal personagem
– ao invés de procurar respostas fáceis para os triunfos e descaminhos na trajetória
de Torquato, ressalta ainda mais os aspectos inquietantes e misteriosos para a
sua arte e vida pessoal. Mais do que se limitar a um mero caráter informativo, “Todas
as horas do fim” joga o espectador dentro de um caleidoscópio
sonoro-poético-visual belíssimo e atordoante.
segunda-feira, março 19, 2018
Projeto Flórida, de Sean Baker ***1/2
Junto à “Tangerine”
(2015), “Projeto Flórida” (2017) faz com que o diretor Sean Baker possa ser
caracterizado como um cronista dos deserdados dos Estados Unidos. Se no filme
anterior o foco da trama se concentrava em um dia agitado na vida de dois travestis,
nessa obra mais recente é mostrada a história de Halley (Bria Vinaite), uma mãe
solteira desempregada, tentando criar a filha Moonee (Brooklynn Prince) em um
subúrbio da Flórida. A diferença agora é que a abordagem formal e narrativa de
Baker apresenta um maior grau de refinamento. Vale ressaltar, entretanto, que
isso não faz com que ele perca aquela crueza contundente que era parte dos
encantos artísticos de “Tangerine”. A história se alterna entre as brincadeiras
endiabradas de Moonee com amigos por conjuntos residenciais fuleiros, sua
relação carinhosa com a mãe e os percalços sócios econômicos de Halley para
garantir a subsistência da família envolvendo pequenos trambiques e
prostituição. Em termos temáticos, pode-se perceber que não há grandes surpresas
em “Projeto Flórida”. O segredo do filme está na encenação vigorosa concebida
por Baker e por uma beleza imagética insólita que por vezes faz com que certos
aspectos banais do cotidiano ganhem um inesperado tom épico. Além disso, há uma
sobriedade emocional na forma que os temas intimistas e sociais da história são
tratados – por mais que as atitudes inconsequentes de Moonee levem a previsíveis
consequências desagradáveis, não há um viés moralista em tais soluções do
roteiro. A constatação passa mais por algo considerado inexorável de acordo com
uma sociedade moralista e hipócrita em que as personagens estão inseridas.
sexta-feira, março 16, 2018
Visages, villages, de Agnès Varda ***
Ainda que a direção de
“Visages, villages” (2017) seja compartilhada com o fotógrafo e artista
plástico JR, o filme em questão é uma obra que diz muito mais respeito ao
universo autoral da cineasta Agnès Varda. JR tem a sua importância em termos
estéticos e existenciais para a produção, mas o que dita realmente os caminhos criativos
da narrativa são as inquietações e concepções particulares de Varda. Os sutis
choques entre os preceitos documentais com truques de encenação, as
reminiscências pessoais da cineasta, suas admirações particulares e convicções
sócio-políticas – tais elementos são estabelecidos com delicadeza por Varda,
com JR usando sua própria arte para dar vazão a eles. No cômputo geral, não chega
a ser um trabalho especialmente arrebatador, com uma narrativa que flui
tranquila e por vezes quase como devaneio por um conceito etéreo de uma França
profunda que fica em uma zona entre o nostálgico e o irreal. As obsessões
formais e artísticas da dupla de diretores se fundem por vezes como uma coisa
só e dão ensejo a algumas boas sacadas imagéticas. Há um tom crepuscular que
paira sobre a narrativa, afinal é provável que se trate do último filme dirigido
por uma Varda já algo combalida pela idade e a saúde mais frágil, o que faz com
que um aspecto de sentimentalismo domine algumas cenas. Isso, entretanto, nasce
e se manifesta com coerência e espontaneidade, estando bem longe do apelativo.
Se Godard hoje em dia ainda mantém a preocupação em romper com os ditames de “normalidade”
da linguagem cinematográfica, Varda quer apenas dedicar seus últimos esforços
criativos para evocar um passado que ama e manifestar suas admirações. “Visages,
villages” é um exemplar pungente de seus desejos.
terça-feira, março 06, 2018
Jonas e o circo sem lona, de Paula Gomes ***1/2
Há um momento em “Jonas e o circo sem lona” (2015) que
sintetiza com notável sensibilidade e precisão os principais dilemas estéticos
e existenciais desse documentário brasileiro – a professora do jovem Jonas,
protagonista do filme, questiona a diretora Paula Gomes sobre a validade
artística do que ela está filmando bem como a influência negativa que a
realização do longa pode estar causando ao menino, ressaltando ainda que muito
do que foi registrado pode não corresponder à “realidade”, pois, segundo a
educadora, Jonas estaria representando algo que ele efetivamente não é. O
primeiro terço da narrativa mostra o cotidiano do garoto, em uma cidade
interiorana da Bahia, focando com maior ênfase a sua luta para manter um
pequeno circo amador com seus amigos. A referida fala da professora,
entretanto, é que caracteriza com contundência a verdadeira natureza do filme.
Ao invés de um conto de superação das dificuldades sócio-econômicas de um
determinado indivíduo, o que se consolida é uma sutil discussão sobre qual
seria a efetiva natureza de um documentário, a do registro objetivo dos fatos
como eles são ou a de uma concepção que se proponha como a captação de um
fragmento ou reflexo da realidade. Paula Gomes não entrega uma resposta pronta
para essa discussão. Ela acredita na possibilidade da união dessas visões distintas,
em que mesmo aquilo que é encenado traz dentro de si uma desconcertante
verdade. Esse subtexto do roteiro, entretanto, não afeta o aspecto emocional da
narrativa. Pelo contrário: integra-se com naturalidade e coerência com a
temática do filme, que dessa forma se configura como uma delicada e melancólica
crônica sobre a perda da inocência.
segunda-feira, março 05, 2018
A entidade 2, de Ciarán Foy **
Apesar de alguns clichês narrativos preguiçosos e
convencionais, o primeiro “A entidade” (2012) trazia um certo frescor em termos
de horror sobrenatural, sabendo conciliar um roteiro de tons efetivamente
sombrios e misteriosos, atmosfera algo sórdida e uma concepção imagética que
trazia rusticidade e sujeira na medida certa. Na continuação “A entidade 2”
(2015), tais aspectos positivos se diluem em nome de uma trama excessivamente “mastigadinha”
e um formalismo que beira o asséptico. Ou seja, no cômputo geral, deixa forte a
impressão que franquias de horror contemporâneas estão bem longe de serem
confiáveis...
sexta-feira, março 02, 2018
O Justiceiro, de Mark Goldblatt **
Ainda que não seja considerado um personagem de primeiro
escalão dentro da imensa galeria de heróis, vilões e afins no universo dos
quadrinhos da Marvel, o Justiceiro teve algumas fases muito boas de histórias
em sua trajetória. Para quem não conhece, ou mesmo para quem quiser relembrar,
vale muito à pena ler alguns arcos antológicos escritos por autores como Doug
Moench, Chuck Dixon, Garth Ennis e Jason Aaron. Tais histórias não só se
destacaram como excelentes narrativas de ação como foram importantes no
delineamento de um complexo e convincente perfil psicológico do personagem.
Muito se fala que a atual versão do seriado do Netflix para o Justiceiro é a
melhor adaptação já feita para um projeto audiovisual relativo ao notório
anti-herói. Até pode ser, mas ainda assim tal recriação do universo violento de
Frank Castle ainda está bem distante da qualidade artísticas dos mais
expressivos momentos desse protagonista nos quadrinhos. Por isso, nem dá para
ficar tão decepcionado assim com esse “O Justiceiro” (1989), a primeira versão
para as telas das sombrias aventuras de Castle. Na época, não havia essa
preocupação na manutenção de um severo padrão artístico e mercadológico típica
dos Estúdios Marvel. Com algumas exceções, a intenção principal mesmo era
levantar alguns trocados dos incautos em troca de uma adaptação picareta e
qualquer nota. Em síntese, é um policial derivativo e violento igual a outros
tantos subprodutos do gênero na época, só que usando o nome de um personagem
conhecido dos quadrinhos. O tom datado da narrativa acaba tornando tudo uma
experiência descartável e divertida, ainda mais levando em conta a
inacreditável canastrice de Dolph Lundgren no papel-título.
quinta-feira, março 01, 2018
Eu, Tonya, de Craig Gillespie **1/2
“Eu, Tonya” (2017) parte de um pressuposto básico – a de que
todo o espectador conhece a história real da patinadora artística norte-americana
Tonya Harding (Margot Robbie) que supostamente teria mandado quebrar a perna da
sua concorrente Nancy Kerrigan. O filme se propõe como uma cinebiografia de sua
protagonista, mas desde o início da narrativa o fato da agressão é mencionado à
exaustão. Ou seja, em relação ao fato-chave da trama não existe a construção de
tensão dramática, mas simplesmente a configuração de uma quase comédia de
absurdo. O espírito do filme dirigido por Craig Gillespie é exatamente esse–
uma sátira beirando o desvario sobre o mundo dos white trash nos Estados
Unidos, o lado ostensivamente escroto e insensível do american way of life. Em
teoria, a proposta artística da obra até seria interessante, mas do jeito que
Gillespie coloca as coisas em prática o resultado final é um tanto desajeitado
e irregular. A produção abarca diversas abordagens estéticas dentro da mesma
narrativa – reconstituição pseudo-documental, encenação naturalista,
metalinguagem, atmosfera por vezes delirante, formalismo beirando o barroco
(principalmente nas sequências envolvendo as apresentações da protagonista nos
rinques de patinação – por sinal, os melhores momentos do filme). O problema é
que nessa gama de recursos técnicos e textuais falta uma unidade ou coerência
que dê fluidez e profundidade para a narrativa. Há sequências efetivamente bem
engraçadas, com destaque para aquelas que privilegiam uma síntese entre humor
negro e violência física, e uma certa visão de ácida crítica sobre a hipocrisia
moral da sociedade norte-americana. Tais aspectos positivos, entretanto, se
perdem pelo tom superficial de densidade dramática e psicológica tanto do
roteiro quanto da direção de Gillespie. A impressão geral é de que “Eu, Tonya”
teve como principais referências aquelas vertiginosas cinebiografias de figuras
hedonistas e desajustadas como “Os bons companheiros” (1990) e “O lobo de Wall
Street” (2013), só que Gillespie está bem distante da pegada artística mista de
contundência e apuro formal de Martin Scorsese.
quarta-feira, fevereiro 28, 2018
Linha de ação, de Allen Hughes **
Dá para dizer que “Linha de ação” (2013) é uma tentativa de
modernização de cinema noir. Tirando o fato da produção ser colorida, está lá
boa parte dos preceitos narrativos e temáticos que marcaram alguns dos
principais clássicos policiais sombrios dos anos 40 e 50. Mas como foi dito no
início desse texto, o filme do diretor Allen Hughes é apenas uma tentativa, e
bem insatisfatória por sinal. Ao invés de realizar uma recriação autoral como, por
exemplo, Roman Polanski e os irmãos Coen fizeram, respectivamente, nos
brilhantes “Chinatown” (1974) e “O homen que não estava lá” (2001), Hughes se
contentou apenas em ficar acumulando de forma mecânica e pouco inspirada
clichês formais e textuais, tendo como resultado final uma obra
despersonalizada e asséptica.
terça-feira, fevereiro 27, 2018
Lady Bird - A hora de voar, de Greta Gerwig **1/2
Em um primeiro momento, é fácil simpatizar com “Lady Bird –
A hora de voar” (2017). A trama do filme se estrutura como um “romance de
formação”, mostrando fatos da adolescência da rebelde Christine McPherson
(Saoirse Ronan) que acabam criando algum vínculo de empatia com a plateia no
sentido de identificação. Alguns desses episódios de equívocos e revoltas
juvenis são engraçados, levantando um certo tom de contestação sócio-cultural
por parte da protagonista diante do caretismo de sua escola católica e dos
costumes provincianos da cidadezinha interiorana onde vive. Além disso, o
elenco apresenta algumas atuações carismáticas, principalmente por parte da ala
feminina. Assim como é fácil de assistir ao filme da diretora Greta Gerwig, entretanto,
também é fácil de esquecê-lo. Parece que a preocupação no registro das
banalidades do cotidiano acabou contaminando a abordagem narrativa e formal da
obra – é tudo tão quadradinho e esquemático na forma com que as coisas se
desenrolam na tela que por vezes a produção cai no enfadonho. A impressão
constante é de que já vimos esse filme várias vezes, e que em algumas outras
oportunidades ele era bem melhor. E mesmo o roteiro, que talvez devesse ser o
principal trunfo de “Lady Bird”, vai se revelando ao longo da narrativa cada
vez mais previsível e conservador, vide a conclusão moralista que exalta os
valores familiares e católicos que marcaram a juventude da personagem
principal, os mesmos que a reprimiram por boa parte nessa etapa de sua vida.
segunda-feira, fevereiro 26, 2018
Trama fantasma, de Paul Thomas Anderson ****
A música composta por Jonny Greenwood para a trilha sonora
de “Trama fantasma” (2017) é o perfeito reflexo do que é a própria concepção
estética-existencial do filme dirigido por Paul Thomas Anderson – nos primeiros
momentos da narrativa, os temas incidentais são solenes, requintados, de doces
melodias que evocam algo de tradicional. Aos poucos e de maneira sutil, a
música vai ganhando uma conotação mais dissonante, por vezes estridente, quase
maníaca. Pois o filme de Anderson é justamente isso. Se em seus momentos
iniciais a obra sugere algo de um convencional drama de época, de requintado acabamento
formal, aos poucos essa impressão vai se dissipando e a narrativa se converte
em um conto gótico repleto de insólito humor negro e uma perturbadora carga de simbologia
psicanalítica dotada de perversidade e toques incestuosos. A precisa encenação,
a edição que alterna de maneira desconcertante tanto planos temporais quanto de
realidade e a direção de fotografia de pictórica textura de imagens e enquadramentos
repletos de nuances imagéticas não se configuram apenas em meros detalhes de
virtuosismo técnico, mas também dão um vigoroso sentido de atmosfera dramática
e ambientação algo delirante para o complexo roteiro que alterna irônicos exageros
românticos, metáforas edipianas e uma delicada construção psicológica de
personagens. Nesse último aspecto, dá para dizer que Daniel Day-Lewis capta o
espírito da obra com perfeição no papel do protagonista Reynolds Woodcock,
oscilando com naturalidade perturbadora um lado sedutor e sofisticado e outro
marcado por um comportamento patético beirando o francamente ridículo. E a
composição dramática de Vicky Krieps é um notável achado, em uma caracterização
que vai do inocente e etéreo até o deliciosamente maquiavélico.
sexta-feira, fevereiro 23, 2018
Gatinhas e gatões, de John Hughes ****
“Curtindo a vida adoidado” (1986) pode ser o mais famoso e “O
clube dos cinco” (1985) tem uma maior densidade dramática, mas “Gatinhas e
gatões” (1984) é o filme que representa a quintessência do particular estilo de
filmar do cineasta norte-americano John Hughes. Nessa obra de estreia como
diretor, pode-se perceber uma certa crueza formal típica de um filme de início
de carreira e é justamente aí que reside um dos grandes charmes artísticos da
produção. Hughes sempre preserva no filme um forte e compacto senso de
narrativa, em que nenhuma cena ou diálogo se revelam supérfluos. Há um forte
aspecto na obra do gênero comédia física, vide as sequências antológicas de
festinhas juvenis de arromba ou as engraçadas e histriônicas cenas com o nerd
metido a conquistador interpretado por Anthony Michael Hall. Nesse tipo de
abordagem, o filme faz lembrar uma de suas prováveis grandes fontes de
inspiração, a obra-prima “O clube dos cafajestes” (1978). Esse lado de comédia
de pastelão convive em notável harmonia com um dos traços mais característicos
da filmografia de Hughes que é aquela síntese narrativa-existencial de afiados
diálogos bem-humorados, atmosfera de sóbrio romantismo e subtexto de sutil teor
de análise comportamental de uma juventude entre a ingenuidade e a malícia. O
diretor recorre a pequenos truques estéticos e temáticos que podem até soar
baratos em um primeiro momento, mas que dentro de uma encenação tão enxuta e
fluente se revelam genialmente eficazes. Nesse contexto, Hughes consegue
extrair de maneira natural interpretações memoráveis mesmo do exagerado Hall e
do canastrão Michael Schoeffling, além de fazer de Molly Ringwald uma
protagonista de magnética presença cênica. Mais que mero exercício de nostalgia
oitentista, assistir à “Gatinhas e gatões” é uma verdadeira aula de narrativa e
linguagem cinematográficas.
quinta-feira, fevereiro 22, 2018
Simon assassino, de Antonio Campos ***
No gênero suspense, a força narrativa capaz de intrigar e
envolver o espectador está justamente naquilo que não se mostra em cena e que
nunca está suficiente claro na trama. Esse princípio é seguido de maneira bastante
eficaz pelo diretor Antonio Campos em “Simon assassino” (2018). Durante todo o
filme as motivações e intenções do protagonista Simon (Brady Corbet) são
marcadas por um caráter difuso. Pelo roteiro, são jogados alguns poucos
elementos de certeza sobre o personagem – sabe-se que é um jovem
norte-americano recém-saído da faculdade que foi passar um tempo em Paris, com
a ajuda financeira da mãe e que teve um final de relacionamento bastante
conturbado com uma ex-namorada. E se tem conhecimento também que o sujeito é um
tremendo mentiroso. A partir disso, os fatos se sucedem dentro de uma atmosfera
de forte tensão e de uma encenação repleta de expressivas nuances dramáticas,
em que a mitomania do personagem principal vai criando situações sem saída
tanto para ele quando para outros indivíduos que aparecem pelo seu caminho. A
narrativa varia com naturalidade entre ambientações que vão do sensual ao
sórdido. Nesse sentido, a Paris noturna é o cenário ideal para essa história
marcada por golpes, sexo e violência, indo de sequências de luminosidade
ofuscante até outras marcadas por um tom sombrio decadente.
quarta-feira, fevereiro 21, 2018
Pantera Negra, de Ryan Coogler ***
Os méritos de “Pantera Negra” (2018) vão muito além do
meramente politicamente correto. As nuances culturais e existenciais de fazer grande
parte da ação se situar em um fictício país africano não se limitam ao simples
exotismo, com o roteiro sabendo explorar com sensibilidade alguns dilemas e
contradições inerentes a esse contexto local e histórico e os inserir com
razoável coerência dentro da ambientação típica de uma produção de aventura.
Mais que isso: o discurso conciliatório que fica claro no subtexto da trama se
mostra em sintonia com a visão política-existencial sugerida em grande parte
das obras que saíram dos estúdios Marvel, ou seja, a de que por mais injusto ou
mesmo corrupto que seja o status quo ocidental, o primordial é sempre manter a
ordem ao invés de recorrer a radicalismos ou a ações criminosas. Em termos
estéticos e narrativo, a produção dirigida por Ryan Coogler também não foge do
padrão estabelecido nos demais filmes dos estúdios Marvel, sendo que por vezes
algumas sequências de ação parecem reciclar tomadas parecidas de outras obras “marvetes”.
Ainda que tal recriação seja feita com competência, causa uma certa frustração
que “Pantera Negra” não apresente os mesmos graus de ousadia e criatividade
artísticas que foram a tônica em “Thor: Ragnarok” (2017). Ainda assim, é um
trabalho bem divertido e envolvente em termos de dinâmica narrativa, tem seus
momentos memoráveis e o elenco evidencia algumas composições dramáticas
carismáticas (o vilão interpretado por Michael B. Jordan, especialmente, é um
dos melhores dentro desse universo cinematográfico da Marvel). Para aqueles que
ainda podem achar pouco tudo isso, é bom lembrar que “Pantera Negra” é léguas
de distância melhor que porcarias como “Esquadrão Suicida” (2016), “Batman vs.
Superman: A origem da justiça” (2016) e “Liga da Justiça” (2017) oriundas da
parceria DC/Warner.
terça-feira, fevereiro 20, 2018
Três anúncios para um crime, de Martin McDonagh ***
Uma coisa fica muito evidente ao se assistir a “Três
anúncios para um crime” (2017) – o diretor Martin McDonagh deve gostar muito da
filmografia dos irmãos Coen. Seu filme junta dois aspectos recorrentes na obra
dos Coen: o gosto pela recriação dos preceitos narrativos de faroestes
clássicos (“Onde os fracos não têm vez”, “Bravura indômita”) e roteiro repleto
de elementos de humor negro (“Fargo”, “Queime depois de ler”). A presença como
protagonista de Frances McDormand, atriz que já colaborou diversas vezes com os
Coen, acentua essa impressão. O problema é que a sombra dessa influência
escancarada por vezes acaba atrapalhando pela questão de comparações
inevitáveis que acabam aparecendo. Nessa perspectiva, a produção dirigida por
McDonagh está bem longe da classe estética e das tramas bem lapidadas do melhor
que os célebres irmãos já fizeram em sua carreira. Ainda assim, “Três anúncios
para um crime” é uma obra que tem os seus méritos. Sua narrativa tem um ritmo
envolvente, além da encenação conciliar por vezes com bastante eficácia
tragédia e comédia, resultando em algumas sequências efetivamente muito
engraçadas. A direção de fotografia tem um talhe clássico, fazendo com que
algumas cenas a mostrar cenários pitorescos de cidadezinhas interioranas, bares
de beira-de-estrada e ambientações rurais de grandes campos abertos evoquem uma
homenagem estilizada a alguns dos principais filmes de John Ford e de outros
mestres do western. McDormand e Woody Harrelson apresentam seguras composições
dramáticas, e mesmo a atuação caricatural de Sam Rockwell revela algumas
nuances inspiradas. O roteiro cai em algumas simplificações e incongruências
excessivas, mas tem o seu lado instigante ao evidenciar um caráter fortemente
simbólicos das contradições e dilemas sócio-políticos que marcam o panorama
contemporâneo da sociedade norte-americana, principalmente no que diz respeito
ao questionamento de opressivos valores patriarcais e preconceito raciais.
segunda-feira, fevereiro 19, 2018
Antes do fim, de Cristiano Burlan ***1/2
Se em “Fome” (2015), o anterior longa-metragem da parceria
entre o diretor Cristiano Burlan e o crítico/roteirista/ator Jean- Claude
Bernardet, evidenciava uma intrigante síntese entre ficção e elementos “reais”,
em “Antes do fim” (2017) a particular concepção artística engendrada pela dupla
se torna ainda mais ampla e complexa. Há algo que se pode definir como um fio
de história, em que um homem idoso (Bernardet) procura convencer sua parceira
(Helena Ignez) a praticar um suicídio duplo. A partir dessa trama, Burlan
articula uma narrativa que joga na tela uma série de obsessões estéticas e
existenciais tanto suas quanto de Bernardet e Ignez. E o que no início aparenta
um certo tom aleatório e instintivo na forma com que as cenas se sucedem e
encaixam, aos poucos vai revelando um insólito rigor conceitual e formal.
Técnicas documentais são incorporadas no ficcional, formando uma narrativa
híbrida de desconcertante coerência. Na narrativa, há trechos fílmicos de uma
Helena no auge da juventude e beleza em plena ação dentro do cinema
underground, passagens de marcação teatral, monólogos de Bernardet filosofando
ou interpretando (ou as duas coisas ao mesmo tempo) com sedutora naturalidade,
conversas entre o casual e o estilizado de forte teor humanista e libertário entre
o casal protagonista, algumas sequências de balé de delicada desenvoltura, carinhosos
exercícios de estilos cinematográficos remetendo ao cinema mudo, além de um
notável senso plástico da direção de fotografia. No conjunto geral, uma
memorável viagem sensorial.
sexta-feira, fevereiro 16, 2018
Branco como a neve, de Cristophe Blanc **1/2
Nomes atrativos em seu elenco como François Cluzet e Olivier
Gourmet podem fazer com que as expectativas em relação ao policial “Branco como
a neve” (2010) sejam altas. E mesmo os primeiros movimentos da trama, sugerindo
um cruzamento entre irônico comentário sócio-comportamental e suspense, sugerem
algo de promissor. Com o desenrolar da narrativa, entretanto, o que prevalece
mesmo no filme do diretor Christophe Blanc é uma pálida reciclagem de produções
clássicas norte-americanas no gênero, principalmente de alguns filmes dos
irmãos Coen. Não chega a ser exatamente ruim, mas também está bem longe de se poder
considerar um trabalho memorável.
quinta-feira, fevereiro 15, 2018
O destino de uma nação, de Joe Wright ***
Gary Oldman se tornou conhecido inicialmente em sua carreira
como ator interpretando duas figuras reais em cinebiografias: o mártir do punk
rock Sid Vicious em “Sid & Nancy” (1986) e o libertário dramaturgo
homossexual Joe Morton em “O amor não tem sexo” (1987). Não deixa de ser
curioso, e também bastante sintomático, que agora esteja muito bem cotado para
ganhar um Oscar interpretando outro personagem histórico, só que bem mais “respeitável”,
o estadista britânico Winston Churchill. Em “O destino de uma nação” (2017), a
parte mais significativa da narrativa se concentra justamente na atuação de
Oldman. Ainda assim, não dá para dizer que o ator carrega o filme nas costas e
nem que essa produção caia na vala comum de obras academicistas a versarem
sobre grandes episódios históricos. O diretor Joe Wright consegue impregnar no
seu trabalho algum traço artístico mais distinto e mesmo com um certo caráter
insólito em sua abordagem estética. A ação se concentra basicamente em austeros
espaços fechados – o palácio real, a mansão do protagonista, o parlamento, o
bunker onde traça estratégias e decisões relativas à entrada, ou não, da
Inglaterra na Segunda Guerra. Assim, predomina no filme uma atmosfera
claustrofóbica, opressiva, com uma encenação que por vezes parece remeter ao
teatral. Tal opção narrativa de Wright não é gratuita, pois o subtexto do
roteiro tem como uma de suas sutis diretrizes a exposição dos mecanismos de
poder na política, principalmente no que diz respeito a uma alienação daqueles
que detém o poder perante os reais desejos e necessidades daqueles que governam.
Desse modo, o filme incorpora os discursos de Churchill na narrativa com
naturalidade e coerência, oferecendo uma efetiva ideia do forte conteúdo
humanista de tais textos. É claro que por vezes “O destino de uma nação”
resvala em um certo ufanismo ingênuo ou na grandiloquência sentimental
inerentes a esse tipo de obra. Mesmo assim, não cai no superficialismo vazio de
“The post” (2017) e consegue apresentar alguns momentos memoráveis capazes de
se fixar no imaginário do espectador.
quarta-feira, fevereiro 14, 2018
Sem amor, de Andrey Zvyagintsev **1/2
Em “Leviatã” (2014), o diretor russo Andrey Zvyagintsev
mostrava a desintegração existencial de seu país através de uma história
envolvendo o massacre econômico e moral de um indivíduo promovido por poderosos
grupos financeiros em uma aldeia. “Sem amor” (2017), obra mais recente do
cineasta, dá prosseguimento nessa dissecação da Mãe Rússia diante da realidade
de capitalismo selvagem após o fim da era do socialismo soviético, só que agora
tendo como história principal o processo de desagregação de uma família que
culmina no desaparecimento do filho adolescente. Na teoria, essa ideia de
subtexto em que intimismo e política se confundem é interessante e até bastante
pertinente, isso sem contar que a rigorosa abordagem estética habitual de
Zvyagintsev impediria que o filme caísse no mero sentimentalismo. Na prática,
contudo, as coisas desandam de maneira fragorosa em “Sem amor”. Em sua crítica
aos hábitos consumistas e desumanizados da sociedade russa contemporânea, a
produção investe em truques narrativos e textuais que cansam pela repetição e
obviedade, além de evidenciar um roteiro que peca por uma lógica moralista
simplória. É de se reparar, por exemplo, que logo após duas sequências de sexo
extraconjugal envolvendo o casal de protagonista, em encenações que beira a
estilização, é que ocorre o fato principal da trama, ou seja, o desaparecimento
do garoto Alyosha (Matvey Novikov). Não que a elaboração de uma narrativa em
formato de conto moral seja um pecado imperdoável – diretores extraordinários
como Eric Rohmer e Robert Bresson criaram obras-primas enveredando por esse
tipo de narrativa. O problema é que as soluções formais e de roteiros
encontradas por Zvyagintsev redundam em um resultado final marcado pelo enfado
e pelo banal.
quinta-feira, fevereiro 08, 2018
Sonata de Tóquio, de Kiyoshi Kurosawa ***1/2
O diretor japonês Kiyoshi Kurosawa é mais conhecido por
atuar dentro do gênero fantástico. Dessa forma, pode causar um certo
estranhamente ao vê-lo enveredar pelo melodrama familiar em “Sonata de Tóquio”
(2008). Com o desenrolar da narrativa do filme, entretanto, pode-se perceber
que a sua habitual abordagem artística está ali presente, ainda que em outro
contexto. Em uma trama que tem como premissa principal a desagregação
psicológica-moral de uma família de classe média a partir da demissão e longo período
de desemprego do pai, o cineasta constrói uma obra de sombria atmosfera e de
encenação repleta de sóbrias nuances dramáticas. De certa forma, é como se
Kurosawa reconstruísse o universo estético e temático das principais produções
dirigidas por Yasujiro Ozu, sempre centralizadas em famílias disfuncionais, sob
um prisma mais sinistro e pessimista, em que atitudes e gestos dos personagens
e a caracterização de situações do roteiro evocassem um caráter insólito e
tenebroso. O cineasta deixa claro que a crueldade da realidade sócio-econômica
da sociedade capitalista e seu consequente vazio existencial é mais apavorante
do que qualquer monstro repulsivo ou outro elemento de terror sobrenatural.
quarta-feira, fevereiro 07, 2018
Inspetor Lavardin, de Claude Chabrol ***
Boa parte de diretores e críticos de cinema franceses sempre
dedicou um carinho especial para o mestre do suspense Alfred Hitchcock. Se
François Truffaut se notabilizou por incensar o cineasta inglês em artigos e
até mesmo em um célebre livro de entrevistas, Claude Chabrol preferiu dedicar
uma fatia considerável de sua filmografia a uma recriação muito particular dos
maneirismos narrativos e temáticos de Hitchcock. “Inspetor Lavardin” (1986) é
um exemplar evidente dessa tendência do diretor francês. A trama do filme se
vale de alguns dos truques mais expressivos das principais produções
hitchcockianas, além daquela atmosfera que mistura sóbrio suspense e uma certa
ironia sardônica. Entretanto, Chabrol consegue inserir algumas inquietações
artísticas próprias, principalmente em termos de um sofisticado subtexto
histórico-político. No final das contas, “Inspetor Lavardin” não chega a ser um
dos trabalhos fundamentais na carreira de Chabrol, mas ainda assim revela uma
elegância narrativa e refinado senso de humor que o tornam uma experiência
cinematográfica memorável.
terça-feira, fevereiro 06, 2018
Corpo e alma, de Ildikó Enyedi **1/2
Há elementos nas sequências iniciais da produção húngara “Corpo
e alma” (2017) que sugerem algo de promissor. A narrativa tem como pano de
fundo as rotinas de trabalho e as desagregadas relações humanas em uma
indústria de abate e comércio de gado. Assim, o frio e desumano processo de sacrifício
de vacas, filmado com realismo perturbador, deveria servir como uma espécie de
simbologia dos jogos de domínio social e mesmo sexual no ambiente da empresa.
Há um certo rigor estético na forma sóbria com que o diretor Ildikó Enyedi
desenvolve a trama do filme, além de uma aparente ousadia em inserir toques
oníricos na narrativa. Falta para o filme, entretanto, uma pegada formal mais
contundente e uma encenação de maior desenvoltura para que todos esses aspectos
insólitos destacados ganhassem uma dimensão artística e humana de real impacto
para o espectador. A obra dá a constante impressão de se utilizar de truques
dramáticos e recursos narrativos um tanto mofados, que já seriam manjados
algumas décadas atrás, parecendo mais um cruzamento incômodo de um pretenso
cerebralismo na linha Krzystof Kieslowski com o exotismo visual pueril de
Jean-Pierre Jeunet.
segunda-feira, fevereiro 05, 2018
A forma da água, de Guillermo Del Toro ***1/2
O cinema do diretor mexicano Guillermo Del Toro passa por
uma espécie de filtro de recriação de preceitos estéticos e temáticos do gênero
fantástico em suas diversas vertentes (horror, ficção científica, fantasia),
além de trazer em seu subtexto um sutil comentário sócio-político. “A forma da
água” (2017) é um exemplar enfático dessa concepção artística do cineasta. Em
termos de conceitos visuais e estrutura de narrativa, o filme remete a
clássicos do horror cinematográfico, principalmente as produções de monstros da
Universal nos anos 30 e 40. Há fortes doses de uma doce fantasia romântica,
principalmente no que diz respeito à caracterização da protagonista Eliza
(Sally Hawkins) e seu envolvimento amoroso com uma misteriosa criatura marinha
(Doug Jones). Além disso, a ambientação em um sombrio centro de pesquisas e o
aspecto histórico (início dos anos 60 a marcar o auge da guerra fria) faz
lembrar aqueles filmes paranoicos de ficção científica dos anos 50. Tais
referências e citações, entretanto, perpassam por uma linguagem cinematográfica
e uma visão existencial bastante particulares por parte de Del Toro. Nesse
sentido, é de se reparar que violência e erotismo se manifestam de maneira bem
mais gráfica, fazendo com que “A forma da água” oscile de maneira notável entre
o encantador e o perturbador. Além disso, a carga de simbologia do roteiro
talvez seja a mais direta e contundente da filmografia de Del Toro – o que
dizer de uma trama em que o vilão representa o arquétipo de idealização da
sociedade ocidental patriarcal (homem, branco, herói de guerra e pai de
família) e o grupo de “mocinhos” antagonistas é formado por aqueles que a
sociedade considera como “minorias” (uma muda, uma negra, um gay, um comunista
e até um ser inumano)? Mas o que dá a efetiva liga para a reciclagem de clichês
narrativos do fantástico e para esse discurso político é a eficaz conjunção
engendrada por Del Toro entre formalismo estilizado e uma encenação de dinâmica
admirável, resultando em um criativo conjunto artístico que também sabe
valorizar as ótimas interpretações icônicas de seu elenco.
quinta-feira, fevereiro 01, 2018
120 batimentos por minuto, de Robin Campillo ***1/2
Nas várias sequências da produção francesa “120 batimentos
por minuto” (2017) que envolvem as reuniões de discussões do grupo ativista Act
Up, o tema mais premente é a urgência de soluções, atitudes, combates e
posicionamentos relativos à luta contra a proliferação desenfreada da AIDS no
início dos anos 90. Esse sentimento de urgência passa também para a própria
concepção artística e narrativa do filme dirigido por Robin Campillo. Nesse
sentido, encenação e montagem se entrelaçam de maneira contundente e poética –
é de se reparar na forma com que o teor fortemente realista da obra,
principalmente em termos de roteiro e atmosfera, por vezes cede espaço para
delicados toques oníricos e delirantes. As tensas e naturalistas cenas que se
desenvolvem nas reuniões do grupo e nas suas ações performáticas de protestos,
que sintetizam de maneira equilibrada uma verborragia fascinante com uma
eletrizante dinâmica na equação fotografia-montagem, alternam-se com hedonistas
e estilizadas tomadas de festas e até insólitas sequências de animação (como a
o perturbador “balé” do vírus no organismo afetado). Nessa alternância de
abordagens e atmosferas, é fascinante também como os tempos presente e passado
se reúnem na mesma dimensão narrativa, vide a passagem em que Sean (Nahuel
Pérez Biscayart) se recorda de quando foi contaminado: na mesma cama em que recorda
esse fato junto com o seu atual namorado Nathan (Arnaud Valois) aparece o
antigo amante que lhe transmitiu a doença, em um recurso em que a passagem de
tempo se efetiva sem corte de edição. Por mais que a temática transpareça
revolta e amargura diante da inoperância e hipocrisia moral por parte de
agências do Estado e da indústria farmacêutica, Campillo não perde o rigor e a
serenidade no controle estético e narrativo da sua obra, sabendo ainda realçar
outros fundamentais detalhes artísticos como as viscerais composições
dramáticas de seu elenco e os pulsantes temas eletrônicos da trilha sonora. E
se boa parte das soluções formais de “120 batimentos por minuto” remete a “Entre
os muros da escola” (2008), tal lembrança não se configura como mera
coincidência quando se fica sabendo que Campillo foi montador e roteirista da
obra-prima dirigida por Laurent Cantet.
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