terça-feira, dezembro 01, 2015

A ilha do milharal, de George Ovashvili ***

Apesar do exotismo de sua procedência, a produção da Geórgia “A ilha do milharal” (2014) não chega a ser um bicho de sete cabeças em termos formais e temáticos. É claro que para aqueles acostumados com os padrões frenéticos e escapistas de boa parte do que se produz na Hollywood atual a narrativa lenta e detalhista elaborada pelo diretor George Ovashvili pode para esquisita e enfadonha. A trama do filme é simples e sem grandes variações em seu desenvolvimentos e mesmo nas suas viradas, mas guarda em suas entrelinhas alguns simbolismos que são trabalhados de forma eficiente e até mesmo por vezes encantadora. Dentro da concepção artística desse trabalho Ovashvili, a exposição do passar do tempo é essencial na construção dramática. O passo-a-passo do levantamento de uma plantação de milho em uma pequena ilha temporária de um rio interiorano, assim como a amostragem do cotidiano de sua manutenção, é essencial para se dimensionar a carga dos conflitos e dilemas delineados pelo roteiro. A valorização dos silêncios e ênfase nas expressões e gestuais dos personagens também são essenciais para a atmosfera de melancolia e mesmo para a sensação de tragédia iminente e inevitável que pairam de forma constante sobre “A ilha do milharal”. O rigor dessa abordagem estética e emocional encontra um complemento acertado na encenação, principalmente por uma direção de fotografia que consegue captar com uma grandiosidade contida as nuances visuais dos belos cenários naturais do filme. Se em grande parte da narrativa predomina essa discrição nas escolhas artísticas de Ovashvili, as sequenciais finais da tempestade que inunda a ilha e destrói grande parte da plantação de milho representam uma catarse sensorial impactante capaz de fixar no imaginário do espectador por um bom tempo.

segunda-feira, novembro 30, 2015

Mistress America, de Noah Baumbach ***

Se em “Frances Ha” (2012) o diretor Noah Baumbach fazia uma espécie de releitura contemporânea de alguns dos maneirismos habituais da Nouvelle Vague, em “Mistress America” (2015), sua nova colaboração com atriz e roteirista Greta Gerwig, ele faz a revitalização moderninha daquelas comédias norte-americanas amalucadas dos anos 30 e 40. Usando como personagens estudantes esnobes de literatura, pseudointelectuais e figuras boêmias da noite nova-iorquina, Baumbach faz uma espécie de inventário emocional de uma geração de jovens de classe média dentro de uma estrutura narrativa que parece uma reciclagem do clássico “Levada da breca” (1938) de Howard Hawks. Pode parecer esquisito por vezes, até porque o cineasta deixa impresso boa parte do seu habitual estilo típico de cinema independente contemporâneo: narrativa seca que por vezes emula um estilo documental, roteiro de caráter naturalista, trilha sonora pop rock de acento indie (no caso, com excelentes temas compostos pela dupla Dean & Britta, além de antológicas canções de OMD e Suicide). Num primeiro momento, essa mistura de referências diversas pode parecer indigesta, mas com o desenrolar da trama o filme fica mais fluente e orgânico no seu misto de pretensão cool e comicidade. Da metade para o fim, por sinal, fica bem engraçado, com a protagonista Brooke (Gerwig), em suas tiradas bem humoradas e no seu porte desengonçado, fazendo lembrar até mesmo algumas personagens memoráveis interpretadas por Katherine Hepburn. 

sexta-feira, novembro 27, 2015

As mil e uma noites: Volume 1 - O inquieto, de Miguel Gomes ****

Tempos conturbados como o que vivemos na atualidade podem nos angustiar, perturbar, deprimir ou provocar algumas outras reações negativas. Por outro lado, um cenário de crise econômica, social e cultural também é capaz de despertar algo de muito positivo – a criatividade artística necessária para contestar, criticar e ironizar um status quo opressor e hipócrita. E esse é justamente o caso do extraordinário “As mil e uma noites: Volume 1 – O inquieto” (2015), produção cinematográfica portuguesa em que o diretor Miguel Gomes destila de forma contundente o seu descontentamento com o governo e a sociedade de seu país. Desde o início, de forma mesma expressa, o cineasta deixa clara a sua motivação na realização da obra em questão, colocando que a conjuntura econômica de austeridade fiscal e cortes de benefícios sociais torna para ele impossível fazer um filme sem que tal assunto entre dentro de sua temática. O trabalho de Gomes, entretanto, não reduz a estética a mero veículo para um discurso panfletário. O próprio formalismo do filme tem um viés político ao se recusar a fazer concessões de fácil digestão para o público. Gomes combina com notável fluidez documentário, ficção e metalinguagem, fazendo com que a encenação naturalista se entrelace de forma estranhamente harmônica com elementos de cinema fantástico e mesmo aspectos de desconstrução narrativa. Dessa maneira, o Portugal atual de políticas econômicas ditadas por tecnocratas e de desemprego estrutural convive com um país de cotidiano arcadista repleto de realismo mágico. A inventiva concepção artística de Gomes remete a outra antológica versão desse mesmo clássico literário, aquela perpetrada por Pasolini em 1974, filme que adaptava o clássico texto oriental para uma linguagem de herança neorrealista. Ainda que de estilos diversos, as obras de Gomes e Pasolini se irmanam na capacidade de refletir seus respectivos tempos históricos em narrativas repletas de imaginação e ironia.

quinta-feira, novembro 26, 2015

Os Maias - Cenas da vida romântica, de João Botelho ***1/2

Para o diretor português João Botelho, não bastava simplesmente adaptar o original literário de “Os Maias – Cenas da vida romântica” (2014) para dentro de uma linguagem cinematográfica. Para o cineasta, primordial era preservar a essência temática da obra e valorizar a prosa lapidada ao extremo do escritor Eça de Queiroz. Para isso, Botelho recusou a simples encenação naturalista e apostou numa estilização formal acentuada. A produção se baseia em truques estéticos simples e na empostação dos diálogos. É como se a preocupação não fosse que aquilo que se vê em tela fosse crível ou acessível para o espectador moderno, interessando mais criar uma determinada atmosfera que se preocupasse em colocar o espectador dentro de um vórtice sensorial. Nesse sentido, a Lisboa que se revela na obra é quase difusa, beirando o onírico – parece uma capital portuguesa do século XIX que habita o imaginário de um possível leitor apaixonado de Eça. O texto que brota da tela através da narração e dos diálogos vem num tom solene, por vezes declamado. Ao invés do anacronismo tedioso, tal recurso provoca um estranho encantamento pela força e encadeamento dessas palavras e diálogos que denotam uma ampla gama de sentimentos e sensações. A trama de “Os Maias” pode sugerir em sua superfície uma tragédia novelesca, mas nas suas entrelinhas traz um fino senso de humor a satirizar as hipocrisias e mesquinharias da sociedade portuguesa da época. É grande mérito de João Botelho saber preservar essas geniais nuances da escrita de Eça, traduzindo esse clima de decadência sedutora em várias sequencias antológicas, o que fica evidente principalmente nas cenas em que a ácida metralhadora verbal de João da Ega (Pedro Inês) se manifesta e na lassidão perturbadora da última sequência de sexo entro Carlos da Maia (Graciano Dias) e Maria Eduarda (Maria Flor).

quarta-feira, novembro 25, 2015

Aliança do crime, de Scott Cooper **

Tinha tudo para ser um puta filme: o mesmo diretor dos excelentes “Coração louco” (2009) e “Tudo por justiça” (2013), a impressionante história real que inspirou a obra-prima “Os infiltrados” (2006) e um elenco repleto de ótimos atores. O resultado final de “Aliança do crime” (2015), entretanto, fica bem aquém dessas altas expectativas. Por vezes, até dá para sentir algumas fagulhas criativas que dão uma ideia do que o filme poderia ser, principalmente em algumas sequencias de ação e violência que mostram que Scott Cooper tem um talento natural para esse tipo de cenas. O que falta para a produção é uma narrativa equilibrada e dinâmica que consiga conciliar esses bons momentos de forma mais satisfatória. No geral, prevalece uma abordagem burocrática e despersonalizada que faz com que o filme raramente consiga despertar alguma tensão efetiva ou empatia pelas situações e personagens. O roteiro é tremendamente superficial e derivativo, além das caracterizações dramáticas do elenco serem afetadas e caricaturais. Falta uma densidade estética e temática melhor trabalhada – do jeito que ficou, parece que se está vendo um episódio qualquer daqueles programas televisivos banais sobre crimes em que a encenação parece um mero pretexto para o conteúdo jornalístico apelativo, o que acaba sendo muito pouco para um cineasta como Cooper.

terça-feira, novembro 24, 2015

Cativas - Presas pelo coração, de Joana Nin **1/2

É interessante observar como “Cativas – Presas pelo coração” (2013) é uma obra que consegue ser tão emblemática tanto das qualidades quanto dos vícios que marcam a contemporânea filmografia do documentário brasileiro. A temática do filme em questão é bem determinada: o cotidiano das mulheres que são namoradas e esposas de homens que se encontram cumprindo penas em estabelecimentos prisionais. A abordagem concebida pela diretora Joana Nin valoriza bastante o viés do dramático ao retratar as dificuldades e amarguras que uma situação dessas pode trazer para a vida de suas protagonistas, mas por vezes se permite um leve acento bem humorado. De certa forma, é um trabalho que se mostra em conexões com outros exemplares recentes do gênero que buscam uma espécie de síntese da natureza entre o sentimental, o melodramático e o brega, a tentar buscar a essência da alma brasileira do cidadão típico dessa nova classe C. Dentro de tal perspectiva, a cineasta abusa dos longos depoimentos em que suas entrevistadas narram suas respectivas trajetórias de envolvimento com amores “bandidos”. Em algumas dessas entrevistas, há nuances expressivas a explicitar a natureza insondável de algumas escolhas pessoais. Em boa parte dos outros depoimentos, entretanto, há uma certa atmosfera de enfado na repetição excessiva de histórias e lamentações muito semelhantes entre si. Ainda assim, em seu contexto geral, “Cativas” até consegue ter um saldo positivo principalmente pelas sequências em que Nin consegue transcender a formatação convencional. Nesse sentido, destaque absoluto para a sequência da visita íntima, que culmina numa suarenta e ousada cena de sexo real filmada de forma consentida. Antológica também são as tomadas finais, em que uma jovem mulher percorre os labirínticos corredores de uma penitenciária até chegar ao pátio de visitas e encontrar o seu amado, tudo isso ao som de uma pérola romântica de Márcio Greyck.

segunda-feira, novembro 23, 2015

Olmo e a gaivota, de Petra Costa e Lea Glob ***

Se em “Elena” (2012) a diretora Petra Costa realizou um documentário marcado por um subjetivismo que fazia com que a obra beirasse a ficção, em “Olmo e a gaivota” (2014), codirigido com a dinamarquesa Lea Glob, ela novamente se embrenha em uma fronteira nebulosa entre o real e o imaginário. Essa produção mais recente apresenta uma estrutura narrativa intrincada, em que as situações e os personagens podem ser considerados “verdadeiros”, só que se desenvolvem de forma encenada, com direito, inclusive, a intervenções diretas das realizadoras interagindo com seus atores. Esse hibrido de cinema verdade, ficção, metalinguagem e teatro (os “personagens” são em sua maioria profissionais do meio) apresenta um sensorialismo desconcertante, pois os recursos estéticos não estão ali apenas para experimentos de linguagem, mostrando também um sintonia notável com a própria temática do filme. A obra se propõe a uma espécie de desnudamento sentimental da protagonista Olivia Corsini, uma atriz que se descobre grávida justamente quando estava em vias de estrear em uma ambiciosa montagem de “A gaivota”, de Anton Tchecov, acaba tendo de abandonar a peça e entra em uma crise existencial ao ter de ficar recolhida em casa durante o período de gestação. Através dessa história intimista, as diretora propõem um olhar ao mesmo tempo cru e sensível da condição feminina perante ao machismo e ao materialismo típicos da sociedade ocidental contemporânea. E não se trata de mera chorumela sentimentalista – ainda que não tenha a contundência formal e o clima de loucura e onirismo constantes de “Elena”, “Olmo e a gaivota” é contundente e sem concessões no seu discurso estilístico e de conteúdo.

sexta-feira, novembro 20, 2015

Head - Os Monkees estão soltos, de Bob Rafelson ****

Poucos filmes conseguiram captar de forma tão plena as contradições e dilemas do anos 60 quanto “Head – Os Monkees estão soltos” (1968). Em seu longa-metragem de estreia, o diretor norte-americano Bob Rafelson realizou uma obra conturbada e fervilhante de criatividade alucinada, fazendo tanto um inventário de suas obsessões artísticas quanto um comentário ácido sobre uma época de transição e mudanças em todos os sentidos (cultura, comportamento, política e afins). A narrativa parece obedecer a um fluxo aleatório de referências, pensamentos e imagens. Num primeiro momento, tudo pode parecer gratuito ou puramente experimental, como se fosse apenas uma grande brincadeira chapada de Rafelson e dos Monkees. Aos poucos, entretanto, essa profusão de elementos e ideias vão adquirindo um sentido singular, configurando uma perspectiva estética e temática de caráter crítico e irônico. Os Monkees entrando num vórtice de cenas diversas que remetem aos gêneros cinematográficos mais clássicos, a presença constante de figuras icônicas da cultura pop (Victor Mature, a Coca Cola), a colagem de sequencias documentais, as trucagens que remetem a um estilo psicodélico – tudo isso se combina numa narrativa que se estrutura como um pesadelo sem fim e que ainda soa tremendamente ousada nos dias de hoje no seu questionamento sobre a relação entre arte e comércio. A trilha sonora, composta por melodiosas e lisérgicas canções da banda protagonista, é o complemento exato a sublinhar essa obra marcada pela esquisitice formal e por uma lucidez desconcertante.

quinta-feira, novembro 19, 2015

007 contra spectre, de Sam Mendes **1/2

A franquia “007” acabou tomando um outro direcionamento a partir do momento em que Daniel Craig assumiu o papel de James Bond. A violência ficou mais explícita, as histórias assumiram uma atmosfera soturna e Bond se tornou um personagem brutal e um tanto sorumbático. Para muitos, esse novo direcionamento representava uma traição àquele perfil de produções escapistas e divertidas, além da caracterização do protagonista que primava por um misto de charme e canalhice, tipo esse consagrado por Sean Connery, Roger Moore e Pierce Brosnan. Deixando esses purismos de lado, é fato que essa fase recente teve ótimos momentos dignos de entrar em qualquer antologia do melhor que já foi feito com o personagem criado por Ian Fleming. A ação alucinada de “Cassino Royale” (2006) e a elegância formal de “Skyfall” (2012) mostraram que a série ainda podia render produções cativantes. Em “007 contra Spectre” (2015), a fórmula atual, entretanto, já demonstra evidentes sinais de cansaço. É claro que estão presentes algumas boas sacadas estéticas (o plano-sequência inicial é memorável), além das trucagens apresentarem um nível gráfico expressivo. O problema dessa nova aventura de 007 é uma narrativa esquemática em excesso e pouco criativa. O roteiro faz suceder fatos de forma mecânica e pouco convincente, não gerando interesse ou empatia, o que se estende para uma caracterização pouco inspirada dos personagens (Blofeld, por exemplo, é mostrado como um vilão qualquer, e não como o antagonista mais relevante da extensa galeria de adversário de Bond). E mesma a pretensa seriedade temática da era Craig acaba soando ridícula diante da forma simplória com que a trama pretende se conectar com as histórias dos produções anteriores. Tiroteios, pancadarias e explosões se acumulam e se mostram banais e incapazes de gerar alguma efetiva tensão para o filme. Há boatos que dizem que Craig está pensando em sair da pele do agente secreto mais famoso do cinema. Diante de sua eterna cara de tédio em “Spectre” e da frouxidão da obra em questão, talvez tais suposições não sejam tão fantasiosas.

terça-feira, novembro 17, 2015

O futuro, de Mirada July **1/2

Mais do que cineasta, a norte-americana Miranda July é essencialmente uma artista multimídia. Nesse sentido, suas produções cinematográficas mais parecem um laboratório de suas ideias e obsessões artísticas do que propriamente filmes perfeitamente acabados. Coerente com tal proposta, “O futuro” (2011) pode frustrar aqueles que esperam um formalismo rebuscado ou equilibrado. Quem estiver com a mente mais aberta para a proposta estética de July, entretanto, pode até se sentir envolvido em algumas cenas com a narrativa trôpega e que por vezes extrapola para o fabular. Não se trata de uma obra de fácil digestão – as situações e dilemas do roteiro são expostos num tom oscilante e fragmentado, com os eventos da tramas e mesmo a caracterização psicológica dos personagens se desenvolvendo pelas vias do aleatório e do onírico. Por vezes, predomina uma certa ambiência de distanciamento emocional. Em outras passagens, a combinação entre intimismo cortante e elementos de ficção científica acaba criando uma atmosfera estranha e perturbadora. Mesmo que o resultado final de “O futuro” seja irregular, as ousadias e excentricidades de July acabam criando algumas cenas capazes de se fixar sutilmente em nosso imaginário.

segunda-feira, novembro 16, 2015

A floresta que se move, de Vinícius Coimbra *

O diretor Vinicius Coimbra trabalhou em algumas novelas e outras produções televisivas da Globo nesses últimos anos. Esse seu histórico na TV fica evidente na própria concepção artística de “A floresta que se move” (2015), seu filme mais recente. A intenção da obra era adaptar “Macbeth”, a clássica peça teatral de Willian Shakespeare, para o contexto contemporâneo brasileiro, fazendo com que a bastante conhecida trama envolvendo poder, traição, culpa e morte se enquadrasse dentro de um cenário envolvendo valores pequeno burgueses e a rotina de picaretagens econômicas de grandes bancos. Se as ambições de Coimbra até parecem interessantes, o resultado final, entretanto, deixa muito a desejar. O filme naufraga de forma constrangedora em todos os seus aspectos: o roteiro é destituído do menor traço de sutileza, a encenação é truncada e beira o amador na caracterização de cenas e personagens, o elenco abusa da canastrice dramática, o formalismo é asséptico e despersonalizado evocando um reclame alongado ou mesmo um insípido capítulo de uma novela qualquer. Se a intenção do espectador era ver uma versão cinematográfica para um texto original de Shakespeare, é melhor procurar algum trabalho dirigido por Kenneth Branagh. Mas se por outro o desejo da plateia é assistir a alguma tranqueira, dá para encarar esse “A floresta que se move”. Afinal, sua ruindade é tão escancarada que chega até a ser divertida.

quinta-feira, novembro 12, 2015

Hacker, de Michael Mann ***1/2

Desde a sua estréia nos cinemas, a trajetória de Hacker (2015) não tem sido das mais festejadas. Grande fracasso comercial nos Estados Unidos, amplamente malhado pela crítica “especializada”, lançado direto em DVD no Brasil. Diante de tais fatos, num primeiro momento, poderia-se afirmar que o filme mais recente do diretor norte-americano Michael Mann é um dos grandes fiascos do ano. Por mais que Mann seja cultuado por um número expressivo de admiradores, não dá para dizer que essa recepção negativa seja uma novidade para ele. Ele não é aquele típico cineasta “respeitável” que com frequência recebe prêmios em festivais, indicações ao Oscar, várias resenhas elogiosas de jornais e revistas. Pelo contrário – alguns de seus melhores filmes tiveram uma recepção inicial fria por parte de críticos e foram sucessos moderados de bilheteria. Essa recepção tem algumas explicações. Mann começou a trabalhar na televisão (mídia considerada menos “nobre”), nunca esteve ligado a uma turma ou movimento cinematográficos específicos (como, por exemplo, Scorsese com o pessoal da “Nova Hollywood” ou Jim Jarmusch na ponta de lança do cinema independente norte-americano) e se vinculou aos gêneros policial e aventura. Para muitos, ele sempre foi visto no máximo como um competente “tarefeiro” dos grandes estúdios. Dentro dessa lógica, sua biografia tem semelhanças com as de outros hoje incensados diretores como John Ford, Howard Hawks e Alfred Hitchcock: a de autores que dentro de uma estrutura convencional de grandes produções comerciais conseguiam expressar uma visão particular e bastante criativa da arte cinematográfica. Filme a filme, Mann construiu uma sólida filmografia que com o passar do tempo passou por reavaliações e se tornou peça chave na compreensão da evolução da linguagem estética do cinema contemporâneo. Em obras-primas como Fogo contra fogo (1995), Colateral (2004) e Miami Vice (2005) se expandiram de forma extraordinária os elementos artísticos mais caros do cinema de Michael Mann: a dinâmica precisa de narrativa, a montagem elegante e moderna que tanto se vale do classicismo quanto de influências inesperadas da estética “video-clipeira” dos anos 80 (fonte de onde William Friedkin também bebeu no seminal Viver e morrer em Los Angeles), a fotografia de notável textura imagética (poucos diretores conseguiram aproveitar de forma tão criativa a plasticidade da filmagem em câmera digital quanto Mann), o uso criativo de canções e temas incidentais na trilha sonora para a construção da tensão dramática, a caracterização sóbria de personagens, o virtuosismo insuperável no registro de cenas de pancadaria e tiroteio. Nesse último quesito, aliás, Mann representa uma verdadeira escola dentro do cinema de ação: enquanto Sam Peckinpah é o mestre da violência em câmera lenta e John Woo se sobressai pelo barroquismo exagerado na concepção da ação cinematográfica, Mann se notabilizou por um realismo conciso e impactante.


Ainda que não esteja no nível artístico do melhor da filmografia de Michael Mann, Hacker é uma obra que está em sintonia com aquilo que faz dele um dos mais importantes cineastas em atividade. Na realidade, é muito mais coerente com o estilo autoral de Mann do que Inimigos públicos (2009), obra essa que se mostrava como uma certa descaracterização do marca estilística de Mann em nome de um academicismo típico do gênero “filme de época” (afinal, tratava-se da recriação dos últimos meses de vida do célebre gangster John Dillinger). Nessa produção mais recente, Mann volta a se concentrar numa temática contemporânea, com uma trama envolvendo jogos de espionagem e terrorismo tecnológico. Aliás, o roteiro de Hacker é o seu ponto fraco, perdendo-se por vezes em alguns clichês baratos que trancam a narrativa. Em um primeiro momento, Mann parece até preocupado em provar ser “moderno” para as plateias jovens, perdendo tempo com algumas trucagens genéricas (as tomadas “internas” em redes de computadores são chatas e desnecessárias). Aos poucos e de forma sutil, entretanto, a narrativa vai se assentando e a sensibilidade e técnica refinadas de Mann afloram com mais intensidade. Ainda que o filme trabalhe dentro dos preceitos esperados de um tradicional “thriller” de ação, pode-se perceber uma série de nuances que o diferencia do que se faz na maioria dos casos dentro do gênero. A caracterização taciturna e de poucas palavras do protagonista Nicholas Hathaway (Chris Hemsworth) é exemplar dessa abordagem, fazendo lembrar o antológico personagem principal interpretado por Alain Delon no clássico francês O samurai (1967). Aliás, o filme de Jean-Pierre Melville é uma boa referência para entender a encenação proposta por Mann – ao invés da narrativa de ritmo frenético, prevalecem cenas marcadas por uma tensão discreta que desembocam em econômicas e vigorosas sequencias de ação. A metade final de Hacker é onde a narrativa entra em definitivo ponto de bala, com Mann extraindo uma fina síntese de suspense cool e violência gráfica, com absoluto destaque para toda a climática sequência de Nicholas enfrentando seus antagonistas a base de porrada, tiros, facadas e sagacidade numa procissão religiosa em Jacarta. Tais momentos, junto à sequência da ópera em Missão Impossível: Nação secreta e a todo Mad Max: A estrada da fúria, representam um dos grandes destaques do cinema de ação de 2015.

quarta-feira, novembro 11, 2015

Dheepan - O refúgio, de Jacques Audiard ***1/2

O diretor francês Jacques Audiard teve uma interessante sacada narrativa em “Dheepan – O refúgio” (2015) ao formatar o filme dentro de uma estrutura clássica do gênero faroeste. É só observar os pontos chaves da trama. A migração do Sri Lanka para a França do ex-guerrilheiro Dheepan (Antonythasan Jesuthasan), da jovem Yalini (Kalieaswari Srinivasan) e da pequena Illayaal (Claudine Vinasithamby), estranhos entre si e que fingem ser uma família, fugindo de um cotidiano de guerra constante e privações em busca de estabilidade econômica e social traz clara relação com os pioneiros que séculos atrás desbravaram o selvagem oeste norte-americano em busca de uma vida melhor; a rotina conturbada da “família” em um condomínio popular francês dominado por traficantes remete ao dia-a-dia daqueles que conviviam com pistoleiros e assaltantes de bancos e diligências no velho oeste; o dilema existencial de Dheepan entre a recusa a assumir sua antiga condição de homem violento e homicida e a necessidade de preservar sua integridade física e daqueles que o cercam é o mesmo de anti-heróis antológicos como o William Munny da obra-prima “Os imperdoáveis” (1992). Por fim, a memorável e brutal sequência em que o protagonista invade sozinho um prédio repleto de marginais para resgatar Yalini é o correspondente das habituais cenas finais de duelos entre mocinhos e bandidos. Também é mérito de Audiard conseguir enquadrar de maneira orgânica e convincente essa espécie de faroeste contemporâneo dentro de uma perspectiva típica de um drama que varia de forma notável entre o social e o intimista. Nesse sentido, o caráter humanista de “Dheepan” é bastante acentuado na sua profunda e sensível caracterização psicológica de personagens e situações, qualidade essa que Audiard já tinha mostrado domínio em obras contundentes como “De tanto bater meu coração parou” (2005) e “O profeta” (2009) – essa última, por sinal, uma singular recriação do gênero “policial/gangster”.

terça-feira, novembro 10, 2015

Straight Outta Compton - A história do N.W.A., de F. Gary Gray ***

O fato de Dr. Dre e Ice Cube, membros originais do N.W.A., serem produtores da cinebiografia do lendário grupo de rap, “Straight Outta Comtpon – A história do N.W.A.” (2015), acaba não passando o incólume. Por vários momentos, a produção parece ter um caráter institucional ou de marketing pessoal dos artistas focados. Os quinze minutos finais do filme são bem emblemáticos dessa tendência de propaganda autocelebratória. E é justamente aí que reside as sequências mais fracas da obra dirigida por F. Gary Gray, ficando visível um artificialismo incômodo na narrativa. Por outro lado, existem outros motivos que fazem com que se entenda porque “Straight Outta Compton” tenha gerado tanta empatia com uma expressiva parcela do público. Para começar, as cenas envolvendo ensaios, gravações em estúdio e shows são empolgantes na forma com que conjugam a música impactante do N.W.A. com uma encenação precisa e icônica. É de se destacar ainda que Gray é um diretor competente para cenas de ação, o que fica evidente na tensa sequência de abertura do filme, além dos momentos que retratam o cotidiano dos personagens principais com repressão policial e envolvimento com criminalidade. E falando nessa questão da brutalidade da polícia, aí reside também um dos grandes méritos da produção, que transparece uma raiva sincera e contundente por parte da população negra nos Estados Unidos diante de uma conjuntura de sistemático desrespeito com direitos humanos por parte de órgãos de segurança do Estado e preconceitos raciais diversos a gerar situações humilhantes e vexatórias. O roteiro não abre concessões e nem soluções conciliatórias e paternalistas em sua visão de mundo: todos os personagens brancos são vistos como racistas e exploradores, enquanto que o teor desbocado e revoltado das letras do N.W.A. é a consequência natural e justa contra a hipocrisia e preconceito social da sociedade norte-americana. Discordando ou não de tal ótica, é inegável que ela é ousada e desafiadora perante um status quo tão alienado e conformista.

segunda-feira, novembro 09, 2015

Minha irmã, de Ursula Meyer ***

Diferente do seu filme anterior, “Home” (2008), obra que por vezes enveredava por uma abordagem que beirava o delirante, em “Minha irmã” (2012) a diretora Ursula Meyer optou por uma vertente cinematográfica bem definida, o realismo social. Dentro desse gênero, a cineasta pouco ousa em termos formais e temáticos – estão lá todos os preceitos inerentes a tal estilo (a narrativa seca, a encenação naturalista, a discreta trilha sonora que sublinha sutilmente algumas cenas, a temática a combinar o olhar intimista e uma trama a expor as mazelas econômicas e comportamentais da sociedade ocidental capitalista). Se por um lado a produção em questão não traz nada de novo em sua estética, por outro é inegável que Meyer enlaça os referidos elementos do gênero com convicção e coerência. A caracterização de situações e personagens é marcada pela crueza e pela complexidade psicológica, dispensando sentimentalismos fáceis e soluções escapistas. Por várias vezes a dupla de protagonistas Louise (Léa Seydoux) e Simon (Kacey Klein) é irritante em suas atitudes imaturas e conturbadas, mas é justamente por isso que ambos parecem críveis e perturbadores. A dureza existencial e artística com que Meyer conduz a narrativa não afasta o forte pendor humanista de “Minha irmã”. Pelo contrário: apenas ainda mais enfatiza o impacto emocional do filme. A contundente conclusão do filme sintetiza com perfeição essa visão de mundo, ao juntar de forma precisa o formalismo sem concessões de Meyer com um olhar amoroso sobre a relação entre dois personagens principais.

sexta-feira, novembro 06, 2015

Obra, de Gregório Graziasi **

No histórico pessoal do diretor Gregório Graziasi, consta que por um tempo ele foi estudante de arquitetura. Em seu primeiro longa-metragem, “Obra” (2013), tal referência não passa despercebida. O protagonista da trama, João Carlos (Irandhir Santos), é um arquiteto, enquanto o cerne da concepção formal do filme se baseia na direção de fotografia que valoriza bastante os cenários urbanos de prédios e asfaltos da cidade de São Paulo. Os enquadramentos compõem um ambientação ambígua, que oscila entre o requinte plástico de formas e texturas e o sufocamento do concreto duro e frio típico da capital paulista. A intenção de Graziasi é clara – estabelecer um paralelo entre essa arquitetura caótica, mista de beleza melancólica e feiura opressiva, com o estado de angústia existencial do personagem principal. A trama, formatada dentro de uma estrutura narrativa ligada ao gênero suspense, ao poucos se expande para uma conotação mais simbólica, a retratar principalmente a desigualdade social e o conflito de classes típicos da sociedade brasileira contemporânea. Se as intenções artísticas de Graziasi são ambiciosas e ousadas, por outro lado a execução de suas concepções deixa bastante a desejar. É inegável que a produção apresenta um esmero estético, mas isso não consegue se vincular a uma narrativa envolvente. A encenação é engessada, sem frescor ou naturalidade, e mesmo as pretensas metáforas do roteiro se efetivam de forma primária e artificial. A falta de traquejo narrativo em “Obra” compromete até mesmo as atuações do elenco, onde mesmo a intepretação de um ator diferenciado como Irandhir Santos se mostra afetada e pouco convincente.

quinta-feira, novembro 05, 2015

Sicario, de Denis Villeneuve ***

O canadense Denis Villeneuve é um cineasta que mostra geralmente em seus filmes boa mão para cenas de ação e para construir narrativas fluentes. O que incomoda em filmes como “Incêndios” (2010) e “Os suspeitos” (2013), entretanto, é o tom solene da ambientação e a queda para os clichês mais baratos do suspense e do melodrama, fazendo com que por vezes se tenha a impressão de se estar assistindo a um grande novelão. Em sua produção mais recente, “Sicario” (2015), não dá para dizer que ele tenha se livrado de forma plena de tais vícios, mas ainda assim entrega um trabalho bem mais satisfatório e memorável. Para que isso tenha acontecido, contou com dois grandes trunfos: a exuberante fotografia de Roger Deakins (indispensável assistir “Sicario” numa sala de cinema para fruir das nuances sensacionais de enquadramentos e iluminação) e a sinistra trilha sonora composta pelo islandês Jóhann Jóhansson. Além disso, a encenação concebida por Villeneuve se mostra ainda mais elaborada e dinâmica que o habitual. Por mais que o roteiro seja previsível em seu desenvolvimento, o requinte formal do filme consegue extrair momentos de tensão bem convincentes. O que impede “Sicario” de atingir um nível artístico mais transcendente é o fato de Villeneuve continuar se levando mais a sério do que merece. Com alguma constância, surgem sequencias que assumem um caráter messiânico a anunciar a corrupção e prepotência de agências de segurança do governo como se estivessem expressando uma grande novidade, o que acaba soando um pouco ridículo diante de uma caracterização superficial e óbvia de situações e personagens – ainda que esses últimos sejam rasos na sua construção psicológica, há de se ressaltar as ótimas e carismáticas atuações de Josh Brolin e Benicio Del Toro. No mais, falta para “Sicário” o estofo criativo e as atmosferas de perturbadora sordidez de “Selvagens” (2012), filme que também retratava os violentos grupos mexicanos de tráfico de drogas, e mesmo aquele vigor casca grossa de “Miami Vice” (2006) para que entre no rol dos policiais contemporâneos antológicos. Mas do jeito que ficou, ainda é um prato cheio para os curtidores do gênero.

quarta-feira, novembro 04, 2015

45 anos, de Andrew Haigh ***

Há uma impressão de letargia que pontua boa parte da duração de “45 anos” (2015). A direção de Andrew Haigh é bastante austera na sua concepção narrativa – assim como não há grandes arroubos criativos em termos estéticos, também é perceptível que o cineasta não se deixa levar por truques sentimentais para facilitar a vida do espectador. Mesmo a trama é marcada por uma conotação modorrenta, em que os fatos da história contada se sucedem de forma lenta e com variações sutis. Os motes principais do roteiro se desenvolvem em alguns poucos dias da semana em que ocorrerá a festa de 45 anos de casado casal protagonista Geoff e Kate Mercer (Tom Courtenay e Charlotte Rampling em atuações precisas), obedecendo a uma lógica de repetições de atos do cotidiano e de um certo imobilismo existencial por parte dos personagens principais que por vezes pode levar a uma sensação de tédio sonolento para quem assiste ao filme. O que pode parecer um formalismo irritante aos poucos vai revelando uma coerência sensorial notável. Por trás da atmosfera taciturna e da interação entre os indivíduos baseados em olhares e gestos expressivos e diálogos superficiais há uma espécie de discreta revolução intimista a dissecar a ilusão de felicidade pequeno burguesa. As irônicas e ácidas sequências finais de “45 anos” reafirmam o seu caráter levemente subversivo, tanto no discurso hipócrita e no passos de dança debochados de Geoff quanto na expressão de amargura e frustração de Kate.

terça-feira, novembro 03, 2015

Ponte dos espiões, de Steven Spielberg **1/2

Toda a sequência inicial de “Ponte dos espiões” (2015), obra mais recente de Steven Spielberg, que envolve a perseguição e captura do espião soviético Rudolf Abel (Mark Rylance), parece uma antítese do que se verá no restante do filme: é tensa, seca, praticamente não recorre a trilha sonora, valorizando o bem executado jogo de montagem precisa, virtuosos movimentos de câmera e enquadramentos expressivos, fazendo lembrar, inclusive, “Munique” (2005), uma das melhores produções dirigidas pelo próprio Spielberg. Não que na maior parte da duração de “Ponte dos espiões” não dê para perceber o preciosismo técnico habitual do cineasta. Muito pelo contrário. O formalismo do filme é responsável pelo que há de melhor nele, em sua capacidade de seduzir a plateia pela sua plasticidade e mesmo por uma narrativa acessível. O problema, entretanto, é que tirando os aludidos primeiros momentos, raramente essa estética consegue fazer a produção transcender. Spielberg se deixar levar por alguns clichês narrativos preguiçosos, fazendo com que poucas vezes se consiga sentir uma atmosfera de tensão mais palpável. A caracterização dos personagens trafega entre o caricato e o superficial (até o tal espião soviético mais parece um velhinho simpático e injustiçado do que um espião perigoso), a ambientação e direção de arte são marcadas por uma assepsia visual e o complexo jogo de interesses políticos que marca a trama acaba se reduzindo a maniqueísmos e edificantes lições de vida. É claro que boa parte desses maneirismos temáticos e formais é inerente no estilo de Spielberg, mas a diferença é que em outros trabalhos mais consistentes eles conseguiam se adequar de forma mais convincente e orgânica. Do jeitos que ficaram em “Ponte dos espiões”, tais maneirismos apenas dão a impressão de um artista acima da média que se acomodou em concepções artísticas mofadas.

quinta-feira, outubro 29, 2015

Numa escola de Havana, de Ernesto Daranas **1/2

No atual contexto sócio-político tanto nacional quanto internacional, a produção cubana “Numa escola de Havana” (2014) ganha uma perspectiva humanista diferenciada a partir da visão de mundo que o diretor Ernesto Daranas deixa clara na trama do filme. Dentro de uma conjuntura em que setores conservadores da sociedade civil, políticos oportunistas e religiosos fundamentalistas clamam pela redução da maioridade penal e o aumento no rigor de aplicação de penas para jovens infratores, a obra de Daranas expõe um olhar tolerante e complexo sobre a infância e a adolescência inserida num cotidiano de pobreza e privações diversas. O roteiro não expõe soluções fáceis para o destino do jovem protagonista Chala (Armando Valdes Freire) e nem caracteriza o personagem através de estereótipos e idealizações – Chala por diversos momentos é francamente desagradável e teimoso em seu comportamento. Essa dureza na concepção do personagem e de algumas situações é necessária justamente para realçar a importância de uma abordagem mais humana e racional na condução da questões envolvendo menores em condição de vulnerabilidade social e econômica. Nesse sentido, a figura da veterana professora Carmela (Alina Rodrigues) ganha uma conotação simbólica nas suas atitudes de enfrentamento contra a insensibilidade e o caráter obtuso da burocracia educacional. Mas se nesse âmbito temático “Numa escola de Havana” se revela contundente, em termos formais não vai muito além dentro da estrutura clássica de melodrama. A encenação concebida por Daranas é apenas correta, chegando por vezes à beira do enfadonho. A narrativa evoca algo do clássico “Os incompreendidos” (1959), obra emblemática a retratar uma juventude conturbada e rebelde. É óbvio, entretanto, que Daranas está longe de ter a classe e inventividade estéticas de um Truffaut.

quarta-feira, outubro 28, 2015

A colina escarlate, de Guillermo Del Toro ****

Num primeiro momento, o que mais salta aos olhos em “A colina escarlate” (2015) é a grande gama de referências estéticas e textuais a obras e estilos emblemáticos do gênero horror. O castelo que neva em seu interior faz lembrar uma construção semelhante do “Drácula” (1931) de Tod Browning, a trama que parece um pastiche de diversas produções clássicas da Hammer, o erotismo latente que evoca filmes marcante do terror europeu dos anos 60 e 70. O que faz o trabalho de Guillermo Del Toro transcender a mera reciclagem nostálgica é a forte pegada autoral do cineasta mexicano. Del Toro filtra todas essas citações e influências e as reprocessa de forma muito particular. Dessa forma, o que se tem na tela é uma revisão radical e por vezes até delirante dos clichês e convenções mais básicos desse gênero. Se em boa parte dessas obras de décadas atrás havia uma certa sutileza nos quesitos violência e tabus morais, onde o recurso da sugestão era usado como princípio básico da narrativa, no filme de Del Toro tal preceito é jogado para o espaço. A estrutura de roteiro é clássica e até mesmo manjada nos seus conflitos e viradas. Assim, o efeito do suspense não é exatamente o forte da obra em questão. O que faz a diferença em ‘A colina escarlate” é o extremo requinte concentrado na elaboração da atmosfera gótica, na plasticidade visual detalhista e na narrativa de ritmo elegante e tenso. A conjunção da direção de fotografia de tons barrocos e uso inspirado de efeitos visuais (o melhor design visual de fantasmas dos últimos tempos!) se aliam de maneira orgânica com a brutalidade explícita da sequencias de violência que beiram o gore e com uma ambientação perturbadora no seu misto constante de ultrarromantismo e sordidez. Em perfeita sintonia artística com as escolhas formais de Del Toro, as composições dramáticas do elenco são antológicas em interpretações icônicas e expressivas, com destaque absoluto para Jessica Chastain, antológica como vilã sedutora e enlouquecida. Diante de todos esses acertos, “A colina escarlate” é o trabalho mais equilibrado e impactante de Del Toro na sua combinação de virtuosismo estilizado e obsessões temáticas.

terça-feira, outubro 27, 2015

Atividade paranormal: Dimensão fantasma, de Gregory Plotkin **

Desde o seu primeiro filme, a franquia “Atividade paranormal” se apoia em um arsenal limitado de truques narrativos – filmagem estilo “amador” (simulando a situação de que algum dos personagens estará sempre registrando o que está acontecendo), sustos “inesperados” que surgem a partir de uma encenação que evoca os aspectos corriqueiros do cotidiano, trama baseada na gasta fórmula “personagens incrédulos que aos poucos vão se convencendo que estão sendo assolados por forças do mal”. Ou seja, uma variação sem maiores atrativos da fórmula consagrada em “A bruxa de Blair” (1999). Diante de tal mesmice, é até louvável que o diretor Gregory Plotkin tenha procurado acrescentar algo de novo nesse recente “Atividade paranormal: Dimensão fantasma” (2015). Ainda que não representem exatamente uma novidade no gênero horror, os recursos formais na obra em questão se mostram mais elaborados, principalmente em termos de efeitos especiais e dinâmica narrativa. A história ganha uma perspectiva mais ampla em seus desdobramentos. Apesar de tais tentativas, entretanto, o filme não consegue avançar muito além daquilo que já havia sido explorado nos trabalhos anteriores da franquia. A fórmula da trama, na realidade, é aprisionadora, muito baseada em sustos baratos, fazendo com que alguns aspectos promissores do roteiro (relação entre bruxas e demônios, distorções temporais) sejam subaproveitados. Falta também para Plotkin uma pegada criativa mais consistente para explorar de forma mais eficaz os clichês narrativos típicos de um filme de terror. Do jeito que ficou, “Dimensão fantasma” pode até render alguns momentos de diversão escapista razoável e justificar comercialmente mais uma continuação oportunista, mas também está muito longe de apresentar algo capaz de se fixar no imaginário do espectador.

segunda-feira, outubro 26, 2015

Peter Pan, de Joe Wright *

Uma dos aspectos mais admiráveis das adaptações cinematográficas que o diretor britânico Joe Wright concebeu em “Orgulho e preconceito” (2005) e “Anna Karenina” (2012) era a forma com que ele remodelou os originais literários e os enquadrou dentro de narrativas audiovisuais personalíssimas. Diante de tais experiências pregressas, não há como o resultado final de “Peter Pan” (2015) não ser bastante frustrante. Isso porque o filme em questão parece uma colcha de retalhos genérica e mal ajambrada de uma série de preceitos formais e temáticos que tomaram os gêneros fantasia e aventura nos últimos anos – a releitura de personagens clássicos mostrando suas origens (a despeito daquilo que os autores originais tinham realmente em mente quando criaram as figuras em questão), a inserção de elementos de cultura pop contemporânea em histórias de época (à moda “Moulin Rouge”). O jeito com que Wright combina tais tendências estéticas e textuais é bastante disparatado, fazendo com que suas soluções criativas pareçam estar mais vinculadas a um direcionamento mercadológico do que a inspirações artísticas. E mesmo a encenação vigorosa e a utilização meticulosa dos recursos formais de fotografia e edição, habituais na filmografia do cineasta e que tinham atingido ponto de bala no magnífico “Hanna” (2011), acabam enterrados em nome de uma direção burocrática e sem o menor traço autoral, sendo que o elenco tomado por atuações sem carisma e densidade só faz tudo piorar ainda mais. Por vezes, até dá para dizer que a beleza plástica de algumas sequências chama a atenção pela qualidade das trucagens digitais, mais tais impressões são efêmeras e é até vazias diante de uma narrativa tão truncada e sem vida. Assim, “Peter Pan” nunca empolga, ficando reduzido a um amontoado medíocre e sem graça de clichês oportunistas

sexta-feira, outubro 23, 2015

Hotel Transilvânia 2, de Genddy Tartakovsky *1/2

O que justifica que uma animação tão derivativa quanto o primeiro “Hotel Transilvânia” (2012) ganhe um continuação? A resposta é óbvia e simples – grana! Dessa forma, tentar listar as razões que levam “Hotel Transilvânia 2” (2015) a ser uma obra anódina chega até a ser algo um pouco inútil, pois diante da máquina de merchandising que envolve a franquia, a qualidade artística do filme chega a ser um mero detalhe. É claro que dá para realçar a qualidade do traço em determinadas passagens ou algumas boas piadas, mas tais aspectos são incapazes de gerar uma narrativa envolvente. Tudo nessa produção dirigida por Genddy Tartakovsky parece estar no piloto automático. No final das contas, o que interessa para todos (inclusive para o próprio público) é o evento de ir para sala escurar comer pipoca e muito eventualmente dar alguma risada. É a mesma linha de raciocínio que se aplica as outras franquias de animação (“Madagascar”, “A era do gelo”, “Meu malvado favorito” e afins). Sorte que pelo menos tem a Pixar e a Disney que de vez em quando resolvem arriscar um pouco mais dentro desse esquema viciado.

quinta-feira, outubro 22, 2015

Um amor a cada esquina, de Peter Bogdanovich ***1/2

O diretor Peter Bogdanovich sempre nutriu uma grande paixão pelo cinema clássico norte-americano da primeira metade do século XX. Antes de se tornar cineasta, dedicou matérias e ensaios sobre filmes e diretores que admirava. Mesmo seus próprios filmes refletem esse seu amor por tais filmografias e artistas, deixando isso claro em termos de estéticas, influências, citações e referências. Após um longo período sem aparecer com alguma nova produção nas telas, Bogdanovich retoma com a mesma pegada reverencial e algo nostálgica em “Um amor a cada esquina” (2013). Nesse trabalho, talvez o nome que mais venha à mente seja o de Howard Hawks, principalmente com aquelas comédias amalucadas cheia de quiproquós como “Levada da Breca” (1938) e “Jejum de amor” (1940), além de alguns diálogos espirituosos evocarem o encanto das produções cômicas de Ernest Lubitsch (aliás, um de seus filmes, “Cluny Brown”, é citado diretamente no roteiro). O fascinante no formato narrativo concebido por Bogdanovich é que tudo pode parecer um tanto aleatório e pueril, mas na verdade tem por trás uma encenação bastante meticulosa tanto no desenvolvimento das situações do roteiro quanto nos relacionamentos que se estabelecem entre os personagens, contando ainda com uma azeitada direção de atores (Jennifer Aniston tem aqui a sua mais convincente atuação no cinema e Imogem Poots com seu misto de doçura e ironia faz lembrar mitos como Audrey Hepburn e Claudette Colbert). Tais truques formais e temáticos podem até soar a princípio anacrônicos, mas aos poucos vão conferindo ao filme uma atmosfera atemporal e de irrealidade sedutora (vide as hilárias coincidências que permeiam toda a trama).

quarta-feira, outubro 21, 2015

O ciclo da vida, de Zhang Yang *

O diretor chinês Zhang Yang tinha demonstrando habilidade narrativa razoável no envolvente “Banhos” (1999). Assim, seu nome aparecendo como diretor de “O ciclo da vida” (2012) acabava por chamar atenção especial para a produção. As sequenciais iniciais desse filme mais recente por sua vez pareciam confirmar as boas expectativas, ao fazer um registro entre a crueza e a sensibilidade registrando o dia-a-dia melancólico e sereno num asilo de idosos. Essas positivas impressões, entretanto, caem por terra com o desenrolar da narrativa. As opções estéticas e de roteiro se revelam equivocadas, desprovendo o filme de qualquer resquício de sutileza e efetiva densidade dramática. Os idosos personagens principais recebem uma caracterização caricatural – são criaturas unidimensionais, quase como seres bonzinhos e fofinhos que sofrem uma discriminação incompreensível da sociedade. Os conflitos e dilemas da trama são expostos de forma ostensiva e maniqueísta em diálogos e situações que desconhecem a sobriedade e a contenção, o que acaba resultando numa encenação artificiosa, beirando o infantil (no mau sentido da palavra). Em vários momentos as falas dos personagens mais parecem textos institucionais a proferirem intermináveis lições de vida. É claro que o aspecto sentimental tem uma preponderância inevitável em boa parte das obras que aborde a questão da velhice e do abandono, vide algumas produções marcantes da história do cinema. O problema de “O ciclo da vida” é que se confunde esse lado sentimental com pura pieguice oportunista, fazendo com que o filme de Yang mais pareça um novelão mexicano de lágrimas fáceis e manipuladoras.

terça-feira, outubro 20, 2015

Lulu, nua e crua, de Solveig Aspach **

O roteiro de “Lulu, nua e crua” (2013) tem um certo caráter de contestação ao mostrar a história de uma mulher que entra em uma espécie de crise existencial e resolve se afastar da família por alguns dias e ficar perambulando pelas ruas de cidadezinhas do interior da França. Nesse período, acaba se envolvendo com desajustados e passa a reavaliar os valores morais que sempre permearam sua vida. Tal premissa de trama até poderia render uma obra inquietante, mas a abordagem da diretora Solveig Aspach é tão burocrática que acaba esvaziando qualquer possibilidade de ousadia que o filme poderia ter. Por vezes até transparece um certo traço de elegância na maneira de filmar da diretora. Insinua-se um estilo reflexivo e naturalista em sua encenação. Com o desenrolar da narrativa, entretanto, essas promessas acabam se mostrando ilusórias. Tais elementos estéticos são jogados na tela e não conseguem se cristalizar a ponto de gerar interesse ou inquietação por parte do espectador. Aspach não consegue dar um estofo dramático suficiente capaz de gerar tensão ou empatia pela história ou pelos personagens. O trio de desocupados que se tornam amigos de Lulu (Karin Viard), um deles sendo até amante dela, por exemplo, recebe uma caracterização caricata e sem profundidade psicológica, mais parecendo um grupo de “amiguinhos fofinhos e sujinhos” da personagem principal do que seres humanos críveis. Mesmo o elemento sensual que ocasionalmente aparece vem sempre em uma perspectiva casta e envergonhada. Por mais que a obra transmita um desconforto com alguns padrões comportamentais da sociedade, tudo é passado sob um filtro de superficialidade e insipidez, fazendo a narrativa mais parecer algum vídeo motivacional de autoajuda do que uma obra cinematográfica propriamente dita.

segunda-feira, outubro 19, 2015

Bata antes de entrar, de Eli Roth **

O fato de “O albergue” (2005) ser uma espécie de clássico do cinema de horror desse século sempre fará com que se preste atenção nos filmes que o diretor Eli Roth venha a lançar. Sua ótima sequencia lançada em 2007 aumentaram ainda mais o crédito de Roth. Tais expectativas positivas, entretanto, acabam sendo frustradas com sua obra mais recente, “Bata antes de entrar” (2015). O que incomoda no filme não é simplesmente o fato de se apoiar em diversos clichês narrativos. Afinal, a trama no estilo “psicopatas dementes atormentando um bom lar pequeno burguês” pode ainda render alguma coisa de interessante (é só lembrar, por exemplo, o que Michael Haneke aprontou nas duas versões do brilhante “Funny Games”). Nesse sentido, a produção dirigida por Roth traz um roteiro que até traz alguns elementos instigantes no confronto que se faz entre as forças do caos representada pela enlouquecida dupla de gostosas sádicas e os bons valores morais e sociais simbolizadas pela fotogênico, asséptico e hipócrita patriarca que é acossado pelas garotas (aliás, ele é um arquiteto hipster descolado casado com uma bela artista plástica espanhola). O problema de “Bata antes de entrar” é que os elementos de ousadia demente e questionadora não passam para a própria concepção artística do filme – ao invés do barroquismo visual enlouquecido e sangrento de “O albergue”, há uma espécie de formalismo contido e despersonalizado. A encenação proposta por Roth é genérica e carente de tensão, não causando empatia para nenhum dos personagens (aliás, tendo um Keanu Reeves no auge da inexpressividade dramática fica bem difícil ter tal empatia). Por vezes, até se insinua em alguns detalhes traços de uma estética diferenciada, em que Roth poderia dar vazão à criatividade que havia demonstrado em trabalhos anteriores, como nas sequencias de sexo, no bom uso de canções de rock e pop para criar uma atmosfera, em alguns diálogos desbocados, em algumas ambientações de sordidez perturbadora. Mas tais intenções acabam ficando só na promessa diante de boa parte das soluções artísticas conservadoras da obra.

sexta-feira, outubro 16, 2015

O clube, de Pablo Larrain ***

Há filmes em que os conceitos de suas respectivas concepções artísticas são bem mais interessantes do que os resultados finais. Esse é o caso da produção chilena “O clube” (2015). Dá para perceber durante a projeção da obra que as ideias do diretor Pablo Larrian são ousadas e repletas de boas sacadas. Através do microverso de uma casa localizada numa melancólica cidadezinha no interior do Chile, onde residem padres afastados pelas igreja católica por diversas razões (pedofilia, corrupção, ligações obscuras com o poder político), a trama faz uma espécie de inventário dos podres morais tanto da religião oficial quanto da própria sociedade chilena. Para isso, Larrain se utiliza de uma abordagem formal e emocional dúbia e por vezes até distanciada, com o filme alternando sua atmosfera de forma irônica entre o melodramático e o francamente sórdido (nesse sentido, alguns diálogos do filme são engraçados e perturbadores no seu misto de escrotidão e hipocrisia), além da fotografia buscar uma ambientação gótica que se revela um sintonia existencial com o conteúdo de seu roteiro. Tais recursos estéticos e textuais de “O clube” garantem uma narrativa envolvente e que sabe criar um desconforto para o espectador. No geral, entretanto, falta para Larrain uma certa centelha criativa que faça com que o seu filme consiga transcender em uma experiência efetivamente memorável. No clímax da narrativa, a noite em que os padres e a religiosa que os auxilia conspiram para que os habitantes da cidade linchem um pobre coitado que os atormenta, por exemplo, Larrain realiza uma composição cênica óbvia e um tanto desajeitada – o que era para ser o grande momento de tensão dramática da produção acaba tendo uma resolução banal. O tom conciliatório da conclusão da história também mostra um lado conformado e conservador que atenta contra a diatribe social e política que até então era a tônica da obra. Apesar de tais aspectos frustrantes, “O clube” ainda mantém um grau de interesse acima da média e que deixa algo inquietante martelando no inconsciente da plateia.

quinta-feira, outubro 15, 2015

Minha querida dama, de Israël Horovitz **

Trabalhando com um roteiro baseado em peça teatral de sua própria autoria, o diretor Israël Horovitz até insinua algo de uma abordagem diferenciada em “Minha querida dama” (2014). Há uma certa sobriedade na condução da narrativa, o roteiro apresenta algumas sutilezas na caracterização de personagens e situações, o elenco demonstra refinamento em suas composições dramáticas (nesse sentido, é reconfortante ver Kevin Kline demonstrado mais vigor em sua interpretação depois de sua atuação sonambula em “Ricki and The Flash”). Com o desenrolar da trama, entretanto, essa boa impressão acaba se esvanecendo. A sensação é de que o cenário principal da história, um grande, antigo e bolorento prédio residencial, parece contaminar a narrativa da produção, que se converte num mofado e previsível acúmulo de clichês formais e temáticos. O roteiro até evoca dilemas e conflitos que poderiam render algo de mais ousado em suas soluções, mas Horovitz encaminha tudo para resoluções sem brilho e acomodadas. Sua encenação é amorfa e engessada, com a mão pesada do cineasta fazendo com que a dinâmica mais pareça de um novelão de época das seis da tarde (é só notar que as insinuações de incesto são prontamente esclarecidas para não chocar as plateias).

quarta-feira, outubro 14, 2015

Todas as cores da escuridão, de Sergio Martino ***1/2

Dentro do gênero giallo, “Todas as cores da escuridão” (1972) se mostra como um exemplar bem característico dessa linhagem de filmes. Apesar de não estar no mesmo nível artístico de Dario Argento e Mario Bava, o diretor Sergio Martino explora de forma bastante inspirada e radical vários preceitos formais do gênero – a composição cênica exagerada e beirando o barroco, a forte violência gráfica, as caracterizações um tanto canastronas de boa parte do elenco. Mas se por um lado o filme de Martino é um giallo emblemático, por outro a obra se permite alguns marcantes diferenciais estéticos e temáticos. Para começar, a trama evoca uma tendência maior para o sobrenatural ao envolver satanistas e delírios oníricos. Se normalmente a maioria das produções de giallo se apresenta como um reflexo distorcido dos ditames cinematográficos de Alfred Hitchcock, “Todas as cores da escuridão” parece um inventário algo doentio do clima “the dream is over” do início dos anos 70 (a ressaca moral e existencial dos esperançosos anos 60). É só reparar que os coloridos e impressionistas sonhos da protagonista Jane (Edwige Fenech) são permeados por um insólito clima psicodélico, além da excelente trilha sonora ser composta basicamente por pastiches de rock sessentista psicodélico. Além disso, a trama é bastante inspirada na obra-prima “O bebê de Rosemary” (1968) e nos sinistros fatos reais de assassinato de Sharon Tate e amigos pelos seguidores de Charles Mason. Para quem acha que filme de terror se resume a essas atuais produções assépticas e descerebradas destinadas ao público adolescente (com honrosas exceções como “Corrente do mal”), essa pequena joia concebida por Martino é uma demonstração enfática das possibilidades criativas do horror.

sexta-feira, outubro 09, 2015

O mundo em duas voltas, de David Schürmann *1/2

A premissa de trama do documentário “O mundo em duas voltas” (2006) é até interessante – estabelecer uma relação entre uma viagem de volta ao mundo realizada por uma família brasileira e a mesma trajetória realizada de forma pioneira por Fernão de Magalhães e suas naus em 1519. Para isso, a narrativa entrecruza registros da viagem contemporânea com uma recriação gráfica, quase uma HQ, da primeira jornada. O fato de um membro da família viajante ser o diretor do filme, entretanto, acaba sendo determinante para que a obra em questão seja bem frustrante. É claro que alguns sequencias são bem interessantes ao captar a beleza natural dos diversos pontos ao redor do mundo em que o barco dos Schürmann aportam e também em alguns momentos ao registrar as dificuldades inerentes a uma aventura como essa, além do grafismo da recriação da viagem de Magalhães ter um belo traço. Mas o que predomina mais ao longo da narrativa é um tom asséptico e edificante, beirando o vídeo institucional – não há conflito e dilemas nas histórias que envolvem os Schürmann, tirando dessa forma qualquer possibilidade de uma tensão dramática mais efetiva. Do jeito que ficou esse tratamento formal e temático despersonalizado, a produção mais parece um anódino diário de férias de uma típica e fotogênica família branca classe média alta, com direito a paisagens e costumes exóticos, do que o retrato de uma aventura perigosa. De repente daria para ser tema de um Fantástico ou Globo Repórter da vida, mas como experiência cinematográfica é perfeitamente esquecível.

quinta-feira, outubro 08, 2015

Leviatã, de Andrey Zvyagintsev ***

Os prêmios e os inflamados elogios de boa parte da crítica que a produção russa “Leviatã” (2014) ganhou ao redor do mundo são até compreensíveis. Apesar da estrutura narrativa convencional e rigorosa de melodrama, o filme dirigido por Andrey Zvyagintsev é uma crítica severa e inclemente contra a desumanização e degradação existencial promovida pelo avanço global de um capitalismo selvagem e agressivo através da história simbólica do veterano pescador Kolia (Alekesey Serebryakov) que tem a sua vida familiar e profissional destroçada pelas maquinações do poder público corrupto de sua cidade e interesses comerciais de grandes corporações. O mote do roteiro pode parecer manjado, mas são em alguns detalhes estéticos e temáticos que a obra de Zvyasintsev se diferencia do lugar comum. Para começar, a caracterização emocional concebida pelo cineasta é áspera e sem concessões – a trajetória de Kolia é uma descida vertiginosa num pesadelo burocrático e pessoal. Ainda que a ambientação e encenação tenham forte caráter naturalista, a impressão sensorial da obra é de uma descida ao inferno. Pela trama, há determinados momentos que corresponderiam àquelas “viradas” de história em que os “mocinhos” começariam a dar a volta por cima, mas acaba sendo um truque perverso do roteiro justamente para enfatizar o lado da inevitabilidade do destino quando forças poderosas econômicas e políticas, com apoio inclusive das instituições religiosas, se voltam contra um indivíduo comum. Por vezes, a conturbada derrocada de Kolia evoca uma atmosfera kafkaniana, mas os motivos que levam ao debacle do personagem estão longe de serem absurdos e inexplicáveis.

quarta-feira, outubro 07, 2015

Perdido em Marte, de Ridley Scott **

A equação ficção científica mais Ridley Scott sempre vai ser promissora. Só que com “Perdido em Marte” (2015) ela já não se mostra mais infalível. Dá até para dizer que os 15 minutos iniciais do filme, que se desenvolvem exclusivamente em Marte, até animam em sua concepção cênica – a encenação é sóbria, dá para sentir um clima de suspense mais palpável, até a trilha sonora emula uma espécie de drones sombrios. Quando a ação passa a envolver também personagens na Terra, entretanto, tudo isso que se insinuava de forma positiva se desvanece e essa produção mais recente de Scott cai na vala comum.


Talvez o que haja de mais relevante em “Perdido em Marte” não esteja propriamente relacionada ao seu roteiro ou a sua estética. O que chama mais atenção são alguns dados sociológicos e políticos que constam na trama – negros e latinos ocupam funções de destaque na NASA, as agências espaciais chinesa e norte-americana colaboram em nome do bem comum, mulheres têm papéis proativos, o papel da ciência e do conhecimento é mais valorizado em detrimento de misticismos e afins. Ainda que partindo de uma necessidade de ser politicamente correto, tais elementos da história até revelam um certo traço de ousadia. Mas qualquer sinal de maior criatividade acaba parando nesse ponto. Incomoda bastante no filme a despersonalização formal e assepsia na condução da narrativa, o que acaba sendo bem decepcionante em relação a um diretor com uma filmografia tão expressiva quanto Scott. Ao invés daquela tenebrosa e assustadora atmosfera gótica de “Alien – O oitavo passageiro” (1979) e “Prometheus” (2012) ou da rica caracterização imagética misturando alta tecnologia e sordidez de “Blade Runner” (1982), fica uma concepção visual sem graça e genérica, beirando uma fotogenia derivativa. A encenação é bem comportada e previsível, fazendo com que poucas vezes haja uma tensão dramática mais efetiva. Por várias vezes o protagonista Mark Watney (Matt Damon) parece mais se comportar como se estivesse numa colônia de férias do que propriamente alguém que está isolado em um planeta inóspito. Pode ser que a intenção fosse justamente essa, reforçar o lado fodão de um típico astronauta norte-americano... Além disso, as soluções encontradas para os principais dilemas e conflitos da trama são pueris e apressadas, fazendo a obra mais parecer um episódio meia-boca de “Profissão perigo” do que uma ficção científica cinematográfica de primeira linha. Aliás, diante de tais escolhas criativas, talvez um título melhor para o filme fosse “Férias frustradas de MacGyver em Marte”.

terça-feira, outubro 06, 2015

La Sapienza, de Eugène Green ****

As primeiras cenas de “La Sapienza” (2014) são bastante reveladoras do estilo do diretor francês Eugène Green: complementadas por uma narração over de impessoal tom discursivo do protagonista Alexandre Schmid (Fabrizio Rongione), há registros panorâmicos de prédios parisienses. O teor didático a expor detalhes arquitetônicos dá um certo tom de frieza e assepsia tanto para o personagem em si, um arquiteto premiado, como para a própria abordagem formal de Green. Mas essas sequencias iniciais também tem um caráter enganador para a obra. Com o desenrolar da narrativa, o filme vai ganhando um caráter de conto moral com traços metafísicos. Dentro dessa lógica, é fundamental a rigorosa caracterização de personagens e situações concebidas por Green. Logo que Alexandre e sua esposa Aliénor (Christelle Prot) chegam à Itália e conhecem um misterioso casal jovem de irmão e irmã, a trama passa a adquirir de forma sutil uma conotação mais ambígua. Dentro das concepções artísticas de Green, mais importante que o realismo na encenação está a expressividade visual e textual da obra. Para isso, ele se vale de uma estética anti-naturalista, cujos maneirismos imagéticos e de interpretação dos atores valorizam detalhes cênicos e dos diálogos, além de excertos estilizados de literatura e pintura que se incorporam dentro da narrativa com fluidez e naturalidade. Os belíssimos cenários naturais e de construções como castelos, igrejas e outros prédios seculares não ganham apenas uma função decorativa, mas também são quase como personagens próprios que interagem com o sentido existencial da obra. A disposição cênica dos principais personagens funciona como uma complementação icônica dentro de enquadramentos que simulam verdadeiros afrescos. A equação artística proposta por Green é engenhosa e severa em suas diversas nuances, fazendo com que uma estética que beira o barroco interaja de forma intrínseca e coerente com um conteúdo repleto de simbologias entre o fabular e o religioso. Diante de tais soluções estéticas e temáticas, é como se estivéssemos diante de uma releitura vigorosa e autoral do cinema ascético de Robert Bresson.

segunda-feira, outubro 05, 2015

Homem comum, de Carlos Nader ***1/2

O documentarista Carlos Nader se mostra em “Homem comum” (2014) como uma espécie de herdeiro espiritual dos preceitos artísticos de Eduardo Coutinho, principalmente na questão em como o imprevisível e o aleatório se incorporam em seus respectivos modus operandi. Além disso, transparece a forma com que questionamentos existenciais e formais se tornam parte da razão de ser das produções, fazendo com que aquilo que se planejava no início das filmagens se revele apenas a ponta do iceberg. Mas Nader não é apenas um mero reciclador de ideias e conceitos alheios – pode-se perceber em sua obra um traço autoral bastante particular. Se em “Pan-cinema permanente” (2008) ele fazia um registro misto entre o realismo e o delirante da vida e obra do poeta e letrista Wally Salomão, em “Homem comum” ele molda a história de vida de um caminhoneiro e sua família dentro de uma espécie de fábula existencialista e mística. Para isso, Nader expande as próprias noções do que deveria ser “cinema verdade”. Ele se vale de encenações nitidamente ensaiadas, além de truques de edição que remetem a uma estrutura ficcional – nesse sentido, é extraordinária o formato de fluxo onírico em que trechos de cenas que foram registradas ao longo de vinte anos e de sequências do clássico cinematográfico “A palavra” (1955) se encadeiam, afastando o filme do mero registro cronológico de fatos e transformando a narrativa num vórtice sensorial desconcertante. Em diversos momentos, são expostos com clareza motivos para determinadas escolhas narrativas, como se houvesse uma espécie de auto-dissecação estética da obra. E há algo de ironia perversa na forma com que Nader manipula os elementos emocionais do filme. Uma das coisas mais fascinantes de “Homem comum”, entretanto, é justamente como o sentimentalismo brejeiro da obra é preservado no seu contundente humanismo e se entrelaça com a forte criatividade formal de Nader, resultando numa espécie de cruzamento entre farsa, metafísica e filosofia.

sexta-feira, outubro 02, 2015

O segredo da cabana, de Drew Goddard ***1/2

De todos os gêneros cinematográficos, talvez aquele que se encontra em uma encruzilhada criativa mais profunda é o horror. Diretores e roteiristas, com algumas exceções, não conseguem parecerem convincentes ao emular os mesmos e surrados clichês narrativos de sempre. A grande “novidade” que proliferou nos últimos anos é a cópia exaustiva da estética “realista” de “A bruxa de Blair” (1999) - e que em boa parte das oportunidades mais parece uma desculpa para esconder a incompetência formal e temática dos cineastas. “O segredo da cabana” (2011) é uma obra que foge dessa crise artística justamente por saber se aproveitar com criatividade e ironia perversa das fórmulas e truques mais manjados do gênero. O roteiro traz uma insólita trama que inicialmente se desenvolve a partir de premissas e resoluções já bastante conhecidas do público, mas que aos poucos começam a serem “envenenadas” com elementos de farsa e ficção científica. Há um detalhe fundamental, entretanto, que impede que o filme caia numa simples paródia – o diretor Drew Goddard consegue criar uma atmosfera efetiva de tensão, assim como mostra uma sensibilidade imagética aguçada numa encenação que privilegia uma violência gráfica impactante e trucagens que combinam de forma magistral técnicas tradicionais e efeitos digitais. Com o transcorrer da narrativa, de forma sutil e orgânica, as convenções do gênero vão sendo pervertidas, resultando num bizarro conto que evidencia fascinantes referências do universo fantástico tanto do cinema quanto da literatura (a apoteótica e devastadora conclusão da produção, por exemplo, é uma excelente transposição de conceitos lovecraftianos para o cinema).

quinta-feira, outubro 01, 2015

Timbuktu, de Abderrahmane Sissako **

Há filme que ganham destaque na mídia, indicações e prêmios em festivais importantes e reconhecimento da crítica muito mais pelo contexto histórico político-social em que são lançados do que pelos seus méritos artísticos em si. “Timbuktu” (2014) é um exemplar claro dessa tendência. No mundo atual, em que conflitos religiosos dominam boa parte do globo, esse longa da Mauritânia acaba ressoando de forma mais ampla, ao ter como trama principal o cotidiano de uma família de nômades pastores que é abalado pela opressão e desmando do grupo fundamentalista religioso que domina a região onde moram. A direção de Abderrahmane Sissako é apenas correta – direção de fotografia e edição apresentam competência, gerando uma narrativa fácil de acompanhar, mas que não necessariamente é envolvente. O espectador pode  até se comover com as injustiças e tragédias que permeiam a trama, mas não há alguma tensão mais efetiva e nem algum rasgo estético que salte aos olhos. Dentro da atual conjuntura, o filme é uma experiência válida pelo caráter informativo de sua temática, chamando atenção para o momento histórico conturbado pelo qual atravessa um número considerável de países asiáticos e africanos tomados pelo fanatismo místico. Em termos puramente cinematográficos, entretanto, “Timbuktu” é uma produção descartável e de criatividade anêmica.