Apesar do exotismo de sua procedência, a produção da Geórgia
“A ilha do milharal” (2014) não chega a ser um bicho de sete cabeças em termos
formais e temáticos. É claro que para aqueles acostumados com os padrões
frenéticos e escapistas de boa parte do que se produz na Hollywood atual a
narrativa lenta e detalhista elaborada pelo diretor George Ovashvili pode para
esquisita e enfadonha. A trama do filme é simples e sem grandes variações em
seu desenvolvimentos e mesmo nas suas viradas, mas guarda em suas entrelinhas
alguns simbolismos que são trabalhados de forma eficiente e até mesmo por vezes
encantadora. Dentro da concepção artística desse trabalho Ovashvili, a
exposição do passar do tempo é essencial na construção dramática. O
passo-a-passo do levantamento de uma plantação de milho em uma pequena ilha
temporária de um rio interiorano, assim como a amostragem do cotidiano de sua
manutenção, é essencial para se dimensionar a carga dos conflitos e dilemas delineados
pelo roteiro. A valorização dos silêncios e ênfase nas expressões e gestuais
dos personagens também são essenciais para a atmosfera de melancolia e mesmo para
a sensação de tragédia iminente e inevitável que pairam de forma constante
sobre “A ilha do milharal”. O rigor dessa abordagem estética e emocional
encontra um complemento acertado na encenação, principalmente por uma direção
de fotografia que consegue captar com uma grandiosidade contida as nuances
visuais dos belos cenários naturais do filme. Se em grande parte da narrativa
predomina essa discrição nas escolhas artísticas de Ovashvili, as sequenciais
finais da tempestade que inunda a ilha e destrói grande parte da plantação de
milho representam uma catarse sensorial impactante capaz de fixar no imaginário
do espectador por um bom tempo.
Boa parte de amigos e conhecidos costuma dizer que as minhas recomendações para filmes funcionam ao contrário: quando eu digo que o filme é bom é porque na realidade ele é uma bomba, e vice-versa. Aí a explicação para o nome do blog... A minha intenção nesse espaço é falar sobre qualquer tipo de filme: bons e ruins, novos ou antigos, blockbusters ou obscuridades. Cotações: 0 a 4 estrelas.
terça-feira, dezembro 01, 2015
segunda-feira, novembro 30, 2015
Mistress America, de Noah Baumbach ***
Se em “Frances Ha” (2012) o diretor Noah Baumbach fazia uma
espécie de releitura contemporânea de alguns dos maneirismos habituais da
Nouvelle Vague, em “Mistress America” (2015), sua nova colaboração com atriz e
roteirista Greta Gerwig, ele faz a revitalização moderninha daquelas comédias norte-americanas
amalucadas dos anos 30 e 40. Usando como personagens estudantes esnobes de literatura,
pseudointelectuais e figuras boêmias da noite nova-iorquina, Baumbach faz uma
espécie de inventário emocional de uma geração de jovens de classe média dentro
de uma estrutura narrativa que parece uma reciclagem do clássico “Levada da
breca” (1938) de Howard Hawks. Pode parecer esquisito por vezes, até porque o
cineasta deixa impresso boa parte do seu habitual estilo típico de cinema
independente contemporâneo: narrativa seca que por vezes emula um estilo
documental, roteiro de caráter naturalista, trilha sonora pop rock de acento
indie (no caso, com excelentes temas compostos pela dupla Dean & Britta,
além de antológicas canções de OMD e Suicide). Num primeiro momento, essa
mistura de referências diversas pode parecer indigesta, mas com o desenrolar da
trama o filme fica mais fluente e orgânico no seu misto de pretensão cool e
comicidade. Da metade para o fim, por sinal, fica bem engraçado, com a
protagonista Brooke (Gerwig), em suas tiradas bem humoradas e no seu porte
desengonçado, fazendo lembrar até mesmo algumas personagens memoráveis interpretadas
por Katherine Hepburn.
sexta-feira, novembro 27, 2015
As mil e uma noites: Volume 1 - O inquieto, de Miguel Gomes ****
Tempos conturbados como o que vivemos na atualidade podem
nos angustiar, perturbar, deprimir ou provocar algumas outras reações
negativas. Por outro lado, um cenário de crise econômica, social e cultural
também é capaz de despertar algo de muito positivo – a criatividade artística
necessária para contestar, criticar e ironizar um status quo opressor e
hipócrita. E esse é justamente o caso do extraordinário “As mil e uma noites:
Volume 1 – O inquieto” (2015), produção cinematográfica portuguesa em que o
diretor Miguel Gomes destila de forma contundente o seu descontentamento com o
governo e a sociedade de seu país. Desde o início, de forma mesma expressa, o
cineasta deixa clara a sua motivação na realização da obra em questão,
colocando que a conjuntura econômica de austeridade fiscal e cortes de
benefícios sociais torna para ele impossível fazer um filme sem que tal assunto
entre dentro de sua temática. O trabalho de Gomes, entretanto, não reduz a
estética a mero veículo para um discurso panfletário. O próprio formalismo do
filme tem um viés político ao se recusar a fazer concessões de fácil digestão para
o público. Gomes combina com notável fluidez documentário, ficção e
metalinguagem, fazendo com que a encenação naturalista se entrelace de forma
estranhamente harmônica com elementos de cinema fantástico e mesmo aspectos de
desconstrução narrativa. Dessa maneira, o Portugal atual de políticas
econômicas ditadas por tecnocratas e de desemprego estrutural convive com um
país de cotidiano arcadista repleto de realismo mágico. A inventiva concepção
artística de Gomes remete a outra antológica versão desse mesmo clássico
literário, aquela perpetrada por Pasolini em 1974, filme que adaptava o
clássico texto oriental para uma linguagem de herança neorrealista. Ainda que
de estilos diversos, as obras de Gomes e Pasolini se irmanam na capacidade de refletir
seus respectivos tempos históricos em narrativas repletas de imaginação e
ironia.
quinta-feira, novembro 26, 2015
Os Maias - Cenas da vida romântica, de João Botelho ***1/2
Para o diretor português João Botelho, não bastava
simplesmente adaptar o original literário de “Os Maias – Cenas da vida
romântica” (2014) para dentro de uma linguagem cinematográfica. Para o
cineasta, primordial era preservar a essência temática da obra e valorizar a
prosa lapidada ao extremo do escritor Eça de Queiroz. Para isso, Botelho
recusou a simples encenação naturalista e apostou numa estilização formal
acentuada. A produção se baseia em truques estéticos simples e na empostação
dos diálogos. É como se a preocupação não fosse que aquilo que se vê em tela
fosse crível ou acessível para o espectador moderno, interessando mais criar
uma determinada atmosfera que se preocupasse em colocar o espectador dentro de
um vórtice sensorial. Nesse sentido, a Lisboa que se revela na obra é quase
difusa, beirando o onírico – parece uma capital portuguesa do século XIX que
habita o imaginário de um possível leitor apaixonado de Eça. O texto que brota
da tela através da narração e dos diálogos vem num tom solene, por vezes
declamado. Ao invés do anacronismo tedioso, tal recurso provoca um estranho
encantamento pela força e encadeamento dessas palavras e diálogos que denotam
uma ampla gama de sentimentos e sensações. A trama de “Os Maias” pode sugerir
em sua superfície uma tragédia novelesca, mas nas suas entrelinhas traz um fino
senso de humor a satirizar as hipocrisias e mesquinharias da sociedade
portuguesa da época. É grande mérito de João Botelho saber preservar essas
geniais nuances da escrita de Eça, traduzindo esse clima de decadência sedutora
em várias sequencias antológicas, o que fica evidente principalmente nas cenas
em que a ácida metralhadora verbal de João da Ega (Pedro Inês) se manifesta e
na lassidão perturbadora da última sequência de sexo entro Carlos da Maia (Graciano
Dias) e Maria Eduarda (Maria Flor).
quarta-feira, novembro 25, 2015
Aliança do crime, de Scott Cooper **
Tinha tudo para ser um puta filme: o mesmo diretor dos
excelentes “Coração louco” (2009) e “Tudo por justiça” (2013), a impressionante
história real que inspirou a obra-prima “Os infiltrados” (2006) e um elenco
repleto de ótimos atores. O resultado final de “Aliança do crime” (2015),
entretanto, fica bem aquém dessas altas expectativas. Por vezes, até dá para
sentir algumas fagulhas criativas que dão uma ideia do que o filme poderia ser,
principalmente em algumas sequencias de ação e violência que mostram que Scott Cooper
tem um talento natural para esse tipo de cenas. O que falta para a produção é
uma narrativa equilibrada e dinâmica que consiga conciliar esses bons momentos
de forma mais satisfatória. No geral, prevalece uma abordagem burocrática e
despersonalizada que faz com que o filme raramente consiga despertar alguma
tensão efetiva ou empatia pelas situações e personagens. O roteiro é
tremendamente superficial e derivativo, além das caracterizações dramáticas do
elenco serem afetadas e caricaturais. Falta uma densidade estética e temática
melhor trabalhada – do jeito que ficou, parece que se está vendo um episódio qualquer
daqueles programas televisivos banais sobre crimes em que a encenação parece um
mero pretexto para o conteúdo jornalístico apelativo, o que acaba sendo muito
pouco para um cineasta como Cooper.
terça-feira, novembro 24, 2015
Cativas - Presas pelo coração, de Joana Nin **1/2
É interessante observar como “Cativas – Presas pelo coração”
(2013) é uma obra que consegue ser tão emblemática tanto das qualidades quanto
dos vícios que marcam a contemporânea filmografia do documentário brasileiro. A
temática do filme em questão é bem determinada: o cotidiano das mulheres que
são namoradas e esposas de homens que se encontram cumprindo penas em
estabelecimentos prisionais. A abordagem concebida pela diretora Joana Nin
valoriza bastante o viés do dramático ao retratar as dificuldades e amarguras
que uma situação dessas pode trazer para a vida de suas protagonistas, mas por
vezes se permite um leve acento bem humorado. De certa forma, é um trabalho que
se mostra em conexões com outros exemplares recentes do gênero que buscam uma
espécie de síntese da natureza entre o sentimental, o melodramático e o brega,
a tentar buscar a essência da alma brasileira do cidadão típico dessa nova classe
C. Dentro de tal perspectiva, a cineasta abusa dos longos depoimentos em que
suas entrevistadas narram suas respectivas trajetórias de envolvimento com
amores “bandidos”. Em algumas dessas entrevistas, há nuances expressivas a
explicitar a natureza insondável de algumas escolhas pessoais. Em boa parte dos
outros depoimentos, entretanto, há uma certa atmosfera de enfado na repetição
excessiva de histórias e lamentações muito semelhantes entre si. Ainda assim,
em seu contexto geral, “Cativas” até consegue ter um saldo positivo
principalmente pelas sequências em que Nin consegue transcender a formatação
convencional. Nesse sentido, destaque absoluto para a sequência da visita
íntima, que culmina numa suarenta e ousada cena de sexo real filmada de forma
consentida. Antológica também são as tomadas finais, em que uma jovem mulher
percorre os labirínticos corredores de uma penitenciária até chegar ao pátio de
visitas e encontrar o seu amado, tudo isso ao som de uma pérola romântica de
Márcio Greyck.
segunda-feira, novembro 23, 2015
Olmo e a gaivota, de Petra Costa e Lea Glob ***
Se em “Elena” (2012) a diretora Petra Costa realizou um
documentário marcado por um subjetivismo que fazia com que a obra beirasse a
ficção, em “Olmo e a gaivota” (2014), codirigido com a dinamarquesa Lea Glob,
ela novamente se embrenha em uma fronteira nebulosa entre o real e o
imaginário. Essa produção mais recente apresenta uma estrutura narrativa
intrincada, em que as situações e os personagens podem ser considerados “verdadeiros”,
só que se desenvolvem de forma encenada, com direito, inclusive, a intervenções
diretas das realizadoras interagindo com seus atores. Esse hibrido de cinema
verdade, ficção, metalinguagem e teatro (os “personagens” são em sua maioria
profissionais do meio) apresenta um sensorialismo desconcertante, pois os
recursos estéticos não estão ali apenas para experimentos de linguagem,
mostrando também um sintonia notável com a própria temática do filme. A obra se
propõe a uma espécie de desnudamento sentimental da protagonista Olivia
Corsini, uma atriz que se descobre grávida justamente quando estava em vias de
estrear em uma ambiciosa montagem de “A gaivota”, de Anton Tchecov, acaba tendo
de abandonar a peça e entra em uma crise existencial ao ter de ficar recolhida
em casa durante o período de gestação. Através dessa história intimista, as
diretora propõem um olhar ao mesmo tempo cru e sensível da condição feminina
perante ao machismo e ao materialismo típicos da sociedade ocidental
contemporânea. E não se trata de mera chorumela sentimentalista – ainda que não
tenha a contundência formal e o clima de loucura e onirismo constantes de “Elena”,
“Olmo e a gaivota” é contundente e sem concessões no seu discurso estilístico e
de conteúdo.
sexta-feira, novembro 20, 2015
Head - Os Monkees estão soltos, de Bob Rafelson ****
Poucos filmes conseguiram captar de forma tão plena as
contradições e dilemas do anos 60 quanto “Head – Os Monkees estão soltos”
(1968). Em seu longa-metragem de estreia, o diretor norte-americano Bob
Rafelson realizou uma obra conturbada e fervilhante de criatividade alucinada,
fazendo tanto um inventário de suas obsessões artísticas quanto um comentário
ácido sobre uma época de transição e mudanças em todos os sentidos (cultura,
comportamento, política e afins). A narrativa parece obedecer a um fluxo
aleatório de referências, pensamentos e imagens. Num primeiro momento, tudo
pode parecer gratuito ou puramente experimental, como se fosse apenas uma
grande brincadeira chapada de Rafelson e dos Monkees. Aos poucos, entretanto,
essa profusão de elementos e ideias vão adquirindo um sentido singular,
configurando uma perspectiva estética e temática de caráter crítico e irônico.
Os Monkees entrando num vórtice de cenas diversas que remetem aos gêneros
cinematográficos mais clássicos, a presença constante de figuras icônicas da
cultura pop (Victor Mature, a Coca Cola), a colagem de sequencias documentais,
as trucagens que remetem a um estilo psicodélico – tudo isso se combina numa
narrativa que se estrutura como um pesadelo sem fim e que ainda soa
tremendamente ousada nos dias de hoje no seu questionamento sobre a relação
entre arte e comércio. A trilha sonora, composta por melodiosas e lisérgicas
canções da banda protagonista, é o complemento exato a sublinhar essa obra marcada
pela esquisitice formal e por uma lucidez desconcertante.
quinta-feira, novembro 19, 2015
007 contra spectre, de Sam Mendes **1/2
A franquia “007” acabou tomando um outro direcionamento a
partir do momento em que Daniel Craig assumiu o papel de James Bond. A violência
ficou mais explícita, as histórias assumiram uma atmosfera soturna e Bond se
tornou um personagem brutal e um tanto sorumbático. Para muitos, esse novo
direcionamento representava uma traição àquele perfil de produções escapistas e
divertidas, além da caracterização do protagonista que primava por um misto de
charme e canalhice, tipo esse consagrado por Sean Connery, Roger Moore e Pierce
Brosnan. Deixando esses purismos de lado, é fato que essa fase recente teve ótimos
momentos dignos de entrar em qualquer antologia do melhor que já foi feito com
o personagem criado por Ian Fleming. A ação alucinada de “Cassino Royale” (2006)
e a elegância formal de “Skyfall” (2012) mostraram que a série ainda podia
render produções cativantes. Em “007 contra Spectre” (2015), a fórmula atual,
entretanto, já demonstra evidentes sinais de cansaço. É claro que estão
presentes algumas boas sacadas estéticas (o plano-sequência inicial é
memorável), além das trucagens apresentarem um nível gráfico expressivo. O
problema dessa nova aventura de 007 é uma narrativa esquemática em excesso e
pouco criativa. O roteiro faz suceder fatos de forma mecânica e pouco
convincente, não gerando interesse ou empatia, o que se estende para uma
caracterização pouco inspirada dos personagens (Blofeld, por exemplo, é
mostrado como um vilão qualquer, e não como o antagonista mais relevante da
extensa galeria de adversário de Bond). E mesma a pretensa seriedade temática
da era Craig acaba soando ridícula diante da forma simplória com que a trama
pretende se conectar com as histórias dos produções anteriores. Tiroteios,
pancadarias e explosões se acumulam e se mostram banais e incapazes de gerar
alguma efetiva tensão para o filme. Há boatos que dizem que Craig está pensando
em sair da pele do agente secreto mais famoso do cinema. Diante de sua eterna
cara de tédio em “Spectre” e da frouxidão da obra em questão, talvez tais suposições
não sejam tão fantasiosas.
terça-feira, novembro 17, 2015
O futuro, de Mirada July **1/2
Mais do que cineasta, a norte-americana Miranda July é essencialmente
uma artista multimídia. Nesse sentido, suas produções cinematográficas mais
parecem um laboratório de suas ideias e obsessões artísticas do que
propriamente filmes perfeitamente acabados. Coerente com tal proposta, “O
futuro” (2011) pode frustrar aqueles que esperam um formalismo rebuscado ou
equilibrado. Quem estiver com a mente mais aberta para a proposta estética de
July, entretanto, pode até se sentir envolvido em algumas cenas com a narrativa
trôpega e que por vezes extrapola para o fabular. Não se trata de uma obra de
fácil digestão – as situações e dilemas do roteiro são expostos num tom
oscilante e fragmentado, com os eventos da tramas e mesmo a caracterização
psicológica dos personagens se desenvolvendo pelas vias do aleatório e do onírico.
Por vezes, predomina uma certa ambiência de distanciamento emocional. Em outras
passagens, a combinação entre intimismo cortante e elementos de ficção
científica acaba criando uma atmosfera estranha e perturbadora. Mesmo que o
resultado final de “O futuro” seja irregular, as ousadias e excentricidades de
July acabam criando algumas cenas capazes de se fixar sutilmente em nosso
imaginário.
segunda-feira, novembro 16, 2015
A floresta que se move, de Vinícius Coimbra *
O diretor Vinicius Coimbra trabalhou em algumas novelas e
outras produções televisivas da Globo nesses últimos anos. Esse seu histórico
na TV fica evidente na própria concepção artística de “A floresta que se move”
(2015), seu filme mais recente. A intenção da obra era adaptar “Macbeth”, a
clássica peça teatral de Willian Shakespeare, para o contexto contemporâneo
brasileiro, fazendo com que a bastante conhecida trama envolvendo poder,
traição, culpa e morte se enquadrasse dentro de um cenário envolvendo valores
pequeno burgueses e a rotina de picaretagens econômicas de grandes bancos. Se
as ambições de Coimbra até parecem interessantes, o resultado final,
entretanto, deixa muito a desejar. O filme naufraga de forma constrangedora em
todos os seus aspectos: o roteiro é destituído do menor traço de sutileza, a
encenação é truncada e beira o amador na caracterização de cenas e personagens,
o elenco abusa da canastrice dramática, o formalismo é asséptico e
despersonalizado evocando um reclame alongado ou mesmo um insípido capítulo de
uma novela qualquer. Se a intenção do espectador era ver uma versão
cinematográfica para um texto original de Shakespeare, é melhor procurar algum
trabalho dirigido por Kenneth Branagh. Mas se por outro o desejo da plateia é
assistir a alguma tranqueira, dá para encarar esse “A floresta que se move”.
Afinal, sua ruindade é tão escancarada que chega até a ser divertida.
quinta-feira, novembro 12, 2015
Hacker, de Michael Mann ***1/2
Desde a sua estréia nos cinemas, a trajetória de Hacker (2015) não tem sido das mais festejadas.
Grande fracasso comercial nos Estados Unidos, amplamente malhado pela crítica “especializada”,
lançado direto em DVD no Brasil. Diante de tais fatos, num primeiro momento,
poderia-se afirmar que o filme mais recente do diretor norte-americano Michael
Mann é um dos grandes fiascos do ano. Por mais que Mann seja cultuado por um
número expressivo de admiradores, não dá para dizer que essa recepção negativa
seja uma novidade para ele. Ele não é aquele típico cineasta “respeitável” que
com frequência recebe prêmios em festivais, indicações ao Oscar, várias
resenhas elogiosas de jornais e revistas. Pelo contrário – alguns de seus
melhores filmes tiveram uma recepção inicial fria por parte de críticos e foram
sucessos moderados de bilheteria. Essa recepção tem algumas explicações. Mann
começou a trabalhar na televisão (mídia considerada menos “nobre”), nunca
esteve ligado a uma turma ou movimento cinematográficos específicos (como, por
exemplo, Scorsese com o pessoal da “Nova Hollywood” ou Jim Jarmusch na ponta de
lança do cinema independente norte-americano) e se vinculou aos gêneros
policial e aventura. Para muitos, ele sempre foi visto no máximo como um
competente “tarefeiro” dos grandes estúdios. Dentro dessa lógica, sua biografia
tem semelhanças com as de outros hoje incensados diretores como John Ford,
Howard Hawks e Alfred Hitchcock: a de autores que dentro de uma estrutura
convencional de grandes produções comerciais conseguiam expressar uma visão
particular e bastante criativa da arte cinematográfica. Filme a filme, Mann construiu
uma sólida filmografia que com o passar do tempo passou por reavaliações e se
tornou peça chave na compreensão da evolução da linguagem estética do cinema
contemporâneo. Em obras-primas como Fogo
contra fogo (1995), Colateral (2004)
e Miami Vice (2005) se expandiram de forma extraordinária
os elementos artísticos mais caros do cinema de Michael Mann: a dinâmica precisa
de narrativa, a montagem elegante e moderna que tanto se vale do classicismo
quanto de influências inesperadas da estética “video-clipeira” dos anos 80
(fonte de onde William Friedkin também bebeu no seminal Viver e morrer em Los Angeles), a fotografia de notável textura
imagética (poucos diretores conseguiram aproveitar de forma tão criativa a
plasticidade da filmagem em câmera digital quanto Mann), o uso criativo de
canções e temas incidentais na trilha sonora para a construção da tensão
dramática, a caracterização sóbria de personagens, o virtuosismo insuperável no
registro de cenas de pancadaria e tiroteio. Nesse último quesito, aliás, Mann
representa uma verdadeira escola dentro do cinema de ação: enquanto Sam
Peckinpah é o mestre da violência em câmera lenta e John Woo se sobressai pelo
barroquismo exagerado na concepção da ação cinematográfica, Mann se notabilizou
por um realismo conciso e impactante.
Ainda que não esteja no nível artístico do melhor da
filmografia de Michael Mann, Hacker é uma obra que está em sintonia com aquilo
que faz dele um dos mais importantes cineastas em atividade. Na realidade, é
muito mais coerente com o estilo autoral de Mann do que Inimigos públicos (2009), obra essa que se mostrava como uma certa
descaracterização do marca estilística de Mann em nome de um academicismo
típico do gênero “filme de época” (afinal, tratava-se da recriação dos últimos
meses de vida do célebre gangster John Dillinger). Nessa produção mais recente,
Mann volta a se concentrar numa temática contemporânea, com uma trama
envolvendo jogos de espionagem e terrorismo tecnológico. Aliás, o roteiro de
Hacker é o seu ponto fraco, perdendo-se por vezes em alguns clichês baratos que
trancam a narrativa. Em um primeiro momento, Mann parece até preocupado em
provar ser “moderno” para as plateias jovens, perdendo tempo com algumas
trucagens genéricas (as tomadas “internas” em redes de computadores são chatas
e desnecessárias). Aos poucos e de forma sutil, entretanto, a narrativa vai se
assentando e a sensibilidade e técnica refinadas de Mann afloram com mais
intensidade. Ainda que o filme trabalhe dentro dos preceitos esperados de um
tradicional “thriller” de ação, pode-se perceber uma série de nuances que o
diferencia do que se faz na maioria dos casos dentro do gênero. A
caracterização taciturna e de poucas palavras do protagonista Nicholas Hathaway (Chris Hemsworth) é
exemplar dessa abordagem, fazendo lembrar o antológico personagem principal interpretado
por Alain Delon no clássico francês O
samurai (1967). Aliás, o filme de Jean-Pierre Melville é uma boa referência
para entender a encenação proposta por Mann – ao invés da narrativa de ritmo
frenético, prevalecem cenas marcadas por uma tensão discreta que desembocam em
econômicas e vigorosas sequencias de ação. A metade final de Hacker é onde a
narrativa entra em definitivo ponto de bala, com Mann extraindo uma fina
síntese de suspense cool e violência gráfica, com absoluto destaque para toda a
climática sequência de Nicholas enfrentando seus antagonistas a base de
porrada, tiros, facadas e sagacidade numa procissão religiosa em Jacarta. Tais
momentos, junto à sequência da ópera em Missão
Impossível: Nação secreta e a todo Mad
Max: A estrada da fúria, representam um dos grandes destaques do cinema de
ação de 2015.
quarta-feira, novembro 11, 2015
Dheepan - O refúgio, de Jacques Audiard ***1/2
O diretor francês Jacques Audiard teve uma
interessante sacada narrativa em “Dheepan – O refúgio” (2015) ao formatar o
filme dentro de uma estrutura clássica do gênero faroeste. É só observar os
pontos chaves da trama. A migração do Sri Lanka para a França do ex-guerrilheiro
Dheepan (Antonythasan Jesuthasan),
da jovem Yalini (Kalieaswari Srinivasan) e da pequena Illayaal (Claudine
Vinasithamby), estranhos entre si e que fingem ser uma família, fugindo de um
cotidiano de guerra constante e privações em busca de estabilidade econômica e
social traz clara relação com os pioneiros que séculos atrás desbravaram o
selvagem oeste norte-americano em busca de uma vida melhor; a rotina conturbada
da “família” em um condomínio popular francês dominado por traficantes remete
ao dia-a-dia daqueles que conviviam com pistoleiros e assaltantes de bancos e diligências
no velho oeste; o dilema existencial de Dheepan entre a recusa a assumir sua antiga
condição de homem violento e homicida e a necessidade de preservar sua
integridade física e daqueles que o cercam é o mesmo de anti-heróis antológicos
como o William Munny da obra-prima “Os imperdoáveis” (1992). Por fim, a
memorável e brutal sequência em que o protagonista invade sozinho um prédio
repleto de marginais para resgatar Yalini é o correspondente das habituais
cenas finais de duelos entre mocinhos e bandidos. Também é mérito de Audiard
conseguir enquadrar de maneira orgânica e convincente essa espécie de faroeste
contemporâneo dentro de uma perspectiva típica de um drama que varia de forma
notável entre o social e o intimista. Nesse sentido, o caráter humanista de “Dheepan”
é bastante acentuado na sua profunda e sensível caracterização psicológica de
personagens e situações, qualidade essa que Audiard já tinha mostrado domínio
em obras contundentes como “De tanto bater meu coração parou” (2005) e “O
profeta” (2009) – essa última, por sinal, uma singular recriação do gênero “policial/gangster”.
terça-feira, novembro 10, 2015
Straight Outta Compton - A história do N.W.A., de F. Gary Gray ***
O fato de Dr. Dre e Ice Cube, membros originais do N.W.A.,
serem produtores da cinebiografia do lendário grupo de rap, “Straight Outta
Comtpon – A história do N.W.A.” (2015), acaba não passando o incólume. Por
vários momentos, a produção parece ter um caráter institucional ou de marketing
pessoal dos artistas focados. Os quinze minutos finais do filme são bem
emblemáticos dessa tendência de propaganda autocelebratória. E é justamente aí
que reside as sequências mais fracas da obra dirigida por F. Gary Gray, ficando
visível um artificialismo incômodo na narrativa. Por outro lado, existem outros
motivos que fazem com que se entenda porque “Straight Outta Compton” tenha
gerado tanta empatia com uma expressiva parcela do público. Para começar, as
cenas envolvendo ensaios, gravações em estúdio e shows são empolgantes na forma
com que conjugam a música impactante do N.W.A. com uma encenação precisa e
icônica. É de se destacar ainda que Gray é um diretor competente para cenas de
ação, o que fica evidente na tensa sequência de abertura do filme, além dos
momentos que retratam o cotidiano dos personagens principais com repressão
policial e envolvimento com criminalidade. E falando nessa questão da
brutalidade da polícia, aí reside também um dos grandes méritos da produção,
que transparece uma raiva sincera e contundente por parte da população negra
nos Estados Unidos diante de uma conjuntura de sistemático desrespeito com
direitos humanos por parte de órgãos de segurança do Estado e preconceitos raciais
diversos a gerar situações humilhantes e vexatórias. O roteiro não abre
concessões e nem soluções conciliatórias e paternalistas em sua visão de mundo:
todos os personagens brancos são vistos como racistas e exploradores, enquanto
que o teor desbocado e revoltado das letras do N.W.A. é a consequência natural
e justa contra a hipocrisia e preconceito social da sociedade norte-americana.
Discordando ou não de tal ótica, é inegável que ela é ousada e desafiadora
perante um status quo tão alienado e conformista.
segunda-feira, novembro 09, 2015
Minha irmã, de Ursula Meyer ***
Diferente do seu filme anterior, “Home” (2008), obra que por
vezes enveredava por uma abordagem que beirava o delirante, em “Minha irmã”
(2012) a diretora Ursula Meyer optou por uma vertente cinematográfica bem
definida, o realismo social. Dentro desse gênero, a cineasta pouco ousa em
termos formais e temáticos – estão lá todos os preceitos inerentes a tal estilo
(a narrativa seca, a encenação naturalista, a discreta trilha sonora que
sublinha sutilmente algumas cenas, a temática a combinar o olhar intimista e
uma trama a expor as mazelas econômicas e comportamentais da sociedade
ocidental capitalista). Se por um lado a produção em questão não traz nada de
novo em sua estética, por outro é inegável que Meyer enlaça os referidos
elementos do gênero com convicção e coerência. A caracterização de situações e
personagens é marcada pela crueza e pela complexidade psicológica, dispensando
sentimentalismos fáceis e soluções escapistas. Por várias vezes a dupla de
protagonistas Louise (Léa Seydoux) e Simon (Kacey Klein) é irritante em suas
atitudes imaturas e conturbadas, mas é justamente por isso que ambos parecem
críveis e perturbadores. A dureza existencial e artística com que Meyer conduz
a narrativa não afasta o forte pendor humanista de “Minha irmã”. Pelo
contrário: apenas ainda mais enfatiza o impacto emocional do filme. A contundente
conclusão do filme sintetiza com perfeição essa visão de mundo, ao juntar de
forma precisa o formalismo sem concessões de Meyer com um olhar amoroso sobre a
relação entre dois personagens principais.
sexta-feira, novembro 06, 2015
Obra, de Gregório Graziasi **
No histórico pessoal do diretor Gregório Graziasi, consta
que por um tempo ele foi estudante de arquitetura. Em seu primeiro
longa-metragem, “Obra” (2013), tal referência não passa despercebida. O
protagonista da trama, João Carlos (Irandhir Santos), é um arquiteto, enquanto
o cerne da concepção formal do filme se baseia na direção de fotografia que
valoriza bastante os cenários urbanos de prédios e asfaltos da cidade de São
Paulo. Os enquadramentos compõem um ambientação ambígua, que oscila entre o
requinte plástico de formas e texturas e o sufocamento do concreto duro e frio
típico da capital paulista. A intenção de Graziasi é clara – estabelecer um
paralelo entre essa arquitetura caótica, mista de beleza melancólica e feiura
opressiva, com o estado de angústia existencial do personagem principal. A
trama, formatada dentro de uma estrutura narrativa ligada ao gênero suspense,
ao poucos se expande para uma conotação mais simbólica, a retratar
principalmente a desigualdade social e o conflito de classes típicos da
sociedade brasileira contemporânea. Se as intenções artísticas de Graziasi são
ambiciosas e ousadas, por outro lado a execução de suas concepções deixa
bastante a desejar. É inegável que a produção apresenta um esmero estético, mas
isso não consegue se vincular a uma narrativa envolvente. A encenação é
engessada, sem frescor ou naturalidade, e mesmo as pretensas metáforas do
roteiro se efetivam de forma primária e artificial. A falta de traquejo
narrativo em “Obra” compromete até mesmo as atuações do elenco, onde mesmo a
intepretação de um ator diferenciado como Irandhir Santos se mostra afetada e
pouco convincente.
quinta-feira, novembro 05, 2015
Sicario, de Denis Villeneuve ***
O canadense Denis Villeneuve é um cineasta que mostra geralmente
em seus filmes boa mão para cenas de ação e para construir narrativas fluentes.
O que incomoda em filmes como “Incêndios” (2010) e “Os suspeitos” (2013),
entretanto, é o tom solene da ambientação e a queda para os clichês mais
baratos do suspense e do melodrama, fazendo com que por vezes se tenha a
impressão de se estar assistindo a um grande novelão. Em sua produção mais
recente, “Sicario” (2015), não dá para dizer que ele tenha se livrado de forma
plena de tais vícios, mas ainda assim entrega um trabalho bem mais satisfatório
e memorável. Para que isso tenha acontecido, contou com dois grandes trunfos: a
exuberante fotografia de Roger Deakins (indispensável assistir “Sicario” numa
sala de cinema para fruir das nuances sensacionais de enquadramentos e
iluminação) e a sinistra trilha sonora composta pelo islandês Jóhann Jóhansson.
Além disso, a encenação concebida por Villeneuve se mostra ainda mais elaborada
e dinâmica que o habitual. Por mais que o roteiro seja previsível em seu
desenvolvimento, o requinte formal do filme consegue extrair momentos de tensão
bem convincentes. O que impede “Sicario” de atingir um nível artístico mais
transcendente é o fato de Villeneuve continuar se levando mais a sério do que
merece. Com alguma constância, surgem sequencias que assumem um caráter
messiânico a anunciar a corrupção e prepotência de agências de segurança do
governo como se estivessem expressando uma grande novidade, o que acaba soando
um pouco ridículo diante de uma caracterização superficial e óbvia de situações
e personagens – ainda que esses últimos sejam rasos na sua construção
psicológica, há de se ressaltar as ótimas e carismáticas atuações de Josh
Brolin e Benicio Del Toro. No mais, falta para “Sicário” o estofo criativo e as
atmosferas de perturbadora sordidez de “Selvagens” (2012), filme que também
retratava os violentos grupos mexicanos de tráfico de drogas, e mesmo aquele
vigor casca grossa de “Miami Vice” (2006) para que entre no rol dos policiais
contemporâneos antológicos. Mas do jeito que ficou, ainda é um prato cheio para
os curtidores do gênero.
quarta-feira, novembro 04, 2015
45 anos, de Andrew Haigh ***
Há uma impressão de letargia que pontua boa parte da duração
de “45 anos” (2015). A direção de Andrew Haigh é bastante austera na sua
concepção narrativa – assim como não há grandes arroubos criativos em termos
estéticos, também é perceptível que o cineasta não se deixa levar por truques
sentimentais para facilitar a vida do espectador. Mesmo a trama é marcada por
uma conotação modorrenta, em que os fatos da história contada se sucedem de
forma lenta e com variações sutis. Os motes principais do roteiro se
desenvolvem em alguns poucos dias da semana em que ocorrerá a festa de 45 anos
de casado casal protagonista Geoff e Kate Mercer (Tom Courtenay e Charlotte
Rampling em atuações precisas), obedecendo a uma lógica de repetições de atos
do cotidiano e de um certo imobilismo existencial por parte dos personagens
principais que por vezes pode levar a uma sensação de tédio sonolento para quem
assiste ao filme. O que pode parecer um formalismo irritante aos poucos vai
revelando uma coerência sensorial notável. Por trás da atmosfera taciturna e da
interação entre os indivíduos baseados em olhares e gestos expressivos e
diálogos superficiais há uma espécie de discreta revolução intimista a dissecar
a ilusão de felicidade pequeno burguesa. As irônicas e ácidas sequências finais
de “45 anos” reafirmam o seu caráter levemente subversivo, tanto no discurso
hipócrita e no passos de dança debochados de Geoff quanto na expressão de
amargura e frustração de Kate.
terça-feira, novembro 03, 2015
Ponte dos espiões, de Steven Spielberg **1/2
Toda a sequência inicial de “Ponte dos espiões” (2015), obra
mais recente de Steven Spielberg, que envolve a perseguição e captura do espião
soviético Rudolf Abel (Mark Rylance), parece uma antítese do que se verá no restante
do filme: é tensa, seca, praticamente não recorre a trilha sonora, valorizando
o bem executado jogo de montagem precisa, virtuosos movimentos de câmera e
enquadramentos expressivos, fazendo lembrar, inclusive, “Munique” (2005), uma
das melhores produções dirigidas pelo próprio Spielberg. Não que na maior parte
da duração de “Ponte dos espiões” não dê para perceber o preciosismo técnico
habitual do cineasta. Muito pelo contrário. O formalismo do filme é responsável
pelo que há de melhor nele, em sua capacidade de seduzir a plateia pela sua
plasticidade e mesmo por uma narrativa acessível. O problema, entretanto, é que
tirando os aludidos primeiros momentos, raramente essa estética consegue fazer
a produção transcender. Spielberg se deixar levar por alguns clichês narrativos
preguiçosos, fazendo com que poucas vezes se consiga sentir uma atmosfera de
tensão mais palpável. A caracterização dos personagens trafega entre o caricato
e o superficial (até o tal espião soviético mais parece um velhinho simpático e
injustiçado do que um espião perigoso), a ambientação e direção de arte são
marcadas por uma assepsia visual e o complexo jogo de interesses políticos que
marca a trama acaba se reduzindo a maniqueísmos e edificantes lições de vida. É
claro que boa parte desses maneirismos temáticos e formais é inerente no estilo
de Spielberg, mas a diferença é que em outros trabalhos mais consistentes eles
conseguiam se adequar de forma mais convincente e orgânica. Do jeitos que
ficaram em “Ponte dos espiões”, tais maneirismos apenas dão a impressão de um
artista acima da média que se acomodou em concepções artísticas mofadas.
quinta-feira, outubro 29, 2015
Numa escola de Havana, de Ernesto Daranas **1/2
No atual contexto sócio-político tanto nacional quanto
internacional, a produção cubana “Numa escola de Havana” (2014) ganha uma
perspectiva humanista diferenciada a partir da visão de mundo que o diretor
Ernesto Daranas deixa clara na trama do filme. Dentro de uma conjuntura em que
setores conservadores da sociedade civil, políticos oportunistas e religiosos
fundamentalistas clamam pela redução da maioridade penal e o aumento no rigor
de aplicação de penas para jovens infratores, a obra de Daranas expõe um olhar
tolerante e complexo sobre a infância e a adolescência inserida num cotidiano
de pobreza e privações diversas. O roteiro não expõe soluções fáceis para o
destino do jovem protagonista Chala (Armando Valdes Freire) e nem caracteriza o
personagem através de estereótipos e idealizações – Chala por diversos momentos
é francamente desagradável e teimoso em seu comportamento. Essa dureza na concepção
do personagem e de algumas situações é necessária justamente para realçar a
importância de uma abordagem mais humana e racional na condução da questões
envolvendo menores em condição de vulnerabilidade social e econômica. Nesse
sentido, a figura da veterana professora Carmela (Alina Rodrigues) ganha uma
conotação simbólica nas suas atitudes de enfrentamento contra a insensibilidade
e o caráter obtuso da burocracia educacional. Mas se nesse âmbito temático “Numa
escola de Havana” se revela contundente, em termos formais não vai muito além
dentro da estrutura clássica de melodrama. A encenação concebida por Daranas é
apenas correta, chegando por vezes à beira do enfadonho. A narrativa evoca algo
do clássico “Os incompreendidos” (1959), obra emblemática a retratar uma
juventude conturbada e rebelde. É óbvio, entretanto, que Daranas está longe de
ter a classe e inventividade estéticas de um Truffaut.
quarta-feira, outubro 28, 2015
A colina escarlate, de Guillermo Del Toro ****
Num primeiro momento, o que mais salta aos olhos em “A
colina escarlate” (2015) é a grande gama de referências estéticas e textuais a
obras e estilos emblemáticos do gênero horror. O castelo que neva em seu
interior faz lembrar uma construção semelhante do “Drácula” (1931) de Tod
Browning, a trama que parece um pastiche de diversas produções clássicas da
Hammer, o erotismo latente que evoca filmes marcante do terror europeu dos anos
60 e 70. O que faz o trabalho de Guillermo Del Toro transcender a mera
reciclagem nostálgica é a forte pegada autoral do cineasta mexicano. Del Toro
filtra todas essas citações e influências e as reprocessa de forma muito
particular. Dessa forma, o que se tem na tela é uma revisão radical e por vezes
até delirante dos clichês e convenções mais básicos desse gênero. Se em boa
parte dessas obras de décadas atrás havia uma certa sutileza nos quesitos
violência e tabus morais, onde o recurso da sugestão era usado como princípio
básico da narrativa, no filme de Del Toro tal preceito é jogado para o espaço.
A estrutura de roteiro é clássica e até mesmo manjada nos seus conflitos e
viradas. Assim, o efeito do suspense não é exatamente o forte da obra em
questão. O que faz a diferença em ‘A colina escarlate” é o extremo requinte
concentrado na elaboração da atmosfera gótica, na plasticidade visual detalhista
e na narrativa de ritmo elegante e tenso. A conjunção da direção de fotografia
de tons barrocos e uso inspirado de efeitos visuais (o melhor design visual de
fantasmas dos últimos tempos!) se aliam de maneira orgânica com a brutalidade
explícita da sequencias de violência que beiram o gore e com uma ambientação
perturbadora no seu misto constante de ultrarromantismo e sordidez. Em perfeita
sintonia artística com as escolhas formais de Del Toro, as composições
dramáticas do elenco são antológicas em interpretações icônicas e expressivas,
com destaque absoluto para Jessica Chastain, antológica como vilã sedutora e
enlouquecida. Diante de todos esses acertos, “A colina escarlate” é o trabalho
mais equilibrado e impactante de Del Toro na sua combinação de virtuosismo
estilizado e obsessões temáticas.
terça-feira, outubro 27, 2015
Atividade paranormal: Dimensão fantasma, de Gregory Plotkin **
Desde o seu primeiro filme, a franquia “Atividade paranormal”
se apoia em um arsenal limitado de truques narrativos – filmagem estilo “amador”
(simulando a situação de que algum dos personagens estará sempre registrando o
que está acontecendo), sustos “inesperados” que surgem a partir de uma
encenação que evoca os aspectos corriqueiros do cotidiano, trama baseada na
gasta fórmula “personagens incrédulos que aos poucos vão se convencendo que
estão sendo assolados por forças do mal”. Ou seja, uma variação sem maiores
atrativos da fórmula consagrada em “A bruxa de Blair” (1999). Diante de tal
mesmice, é até louvável que o diretor Gregory Plotkin tenha procurado
acrescentar algo de novo nesse recente “Atividade paranormal: Dimensão fantasma”
(2015). Ainda que não representem exatamente uma novidade no gênero horror, os
recursos formais na obra em questão se mostram mais elaborados, principalmente
em termos de efeitos especiais e dinâmica narrativa. A história ganha uma
perspectiva mais ampla em seus desdobramentos. Apesar de tais tentativas,
entretanto, o filme não consegue avançar muito além daquilo que já havia sido
explorado nos trabalhos anteriores da franquia. A fórmula da trama, na
realidade, é aprisionadora, muito baseada em sustos baratos, fazendo com que
alguns aspectos promissores do roteiro (relação entre bruxas e demônios,
distorções temporais) sejam subaproveitados. Falta também para Plotkin uma
pegada criativa mais consistente para explorar de forma mais eficaz os clichês
narrativos típicos de um filme de terror. Do jeito que ficou, “Dimensão
fantasma” pode até render alguns momentos de diversão escapista razoável e
justificar comercialmente mais uma continuação oportunista, mas também está muito
longe de apresentar algo capaz de se fixar no imaginário do espectador.
segunda-feira, outubro 26, 2015
Peter Pan, de Joe Wright *
Uma dos aspectos mais admiráveis das adaptações
cinematográficas que o diretor britânico Joe Wright concebeu em “Orgulho e
preconceito” (2005) e “Anna Karenina” (2012) era a forma com que ele remodelou
os originais literários e os enquadrou dentro de narrativas audiovisuais
personalíssimas. Diante de tais experiências pregressas, não há como o
resultado final de “Peter Pan” (2015) não ser bastante frustrante. Isso porque
o filme em questão parece uma colcha de retalhos genérica e mal ajambrada de
uma série de preceitos formais e temáticos que tomaram os gêneros fantasia e
aventura nos últimos anos – a releitura de personagens clássicos mostrando suas
origens (a despeito daquilo que os autores originais tinham realmente em mente
quando criaram as figuras em questão), a inserção de elementos de cultura pop
contemporânea em histórias de época (à moda “Moulin Rouge”). O jeito com que
Wright combina tais tendências estéticas e textuais é bastante disparatado,
fazendo com que suas soluções criativas pareçam estar mais vinculadas a um
direcionamento mercadológico do que a inspirações artísticas. E mesmo a
encenação vigorosa e a utilização meticulosa dos recursos formais de fotografia
e edição, habituais na filmografia do cineasta e que tinham atingido ponto de
bala no magnífico “Hanna” (2011), acabam enterrados em nome de uma direção
burocrática e sem o menor traço autoral, sendo que o elenco tomado por atuações
sem carisma e densidade só faz tudo piorar ainda mais. Por vezes, até dá para
dizer que a beleza plástica de algumas sequências chama a atenção pela
qualidade das trucagens digitais, mais tais impressões são efêmeras e é até
vazias diante de uma narrativa tão truncada e sem vida. Assim, “Peter Pan” nunca
empolga, ficando reduzido a um amontoado medíocre e sem graça de clichês oportunistas
sexta-feira, outubro 23, 2015
Hotel Transilvânia 2, de Genddy Tartakovsky *1/2
O que justifica que uma animação tão derivativa quanto o
primeiro “Hotel Transilvânia” (2012) ganhe um continuação? A resposta é óbvia e
simples – grana! Dessa forma, tentar listar as razões que levam “Hotel
Transilvânia 2” (2015) a ser uma obra anódina chega até a ser algo um pouco
inútil, pois diante da máquina de merchandising que envolve a franquia, a
qualidade artística do filme chega a ser um mero detalhe. É claro que dá para
realçar a qualidade do traço em determinadas passagens ou algumas boas piadas,
mas tais aspectos são incapazes de gerar uma narrativa envolvente. Tudo nessa
produção dirigida por Genddy Tartakovsky parece estar no piloto automático. No
final das contas, o que interessa para todos (inclusive para o próprio público)
é o evento de ir para sala escurar comer pipoca e muito eventualmente dar
alguma risada. É a mesma linha de raciocínio que se aplica as outras franquias
de animação (“Madagascar”, “A era do gelo”, “Meu malvado favorito” e afins).
Sorte que pelo menos tem a Pixar e a Disney que de vez em quando resolvem
arriscar um pouco mais dentro desse esquema viciado.
quinta-feira, outubro 22, 2015
Um amor a cada esquina, de Peter Bogdanovich ***1/2
O diretor Peter Bogdanovich sempre nutriu uma grande paixão
pelo cinema clássico norte-americano da primeira metade do século XX. Antes de
se tornar cineasta, dedicou matérias e ensaios sobre filmes e diretores que
admirava. Mesmo seus próprios filmes refletem esse seu amor por tais
filmografias e artistas, deixando isso claro em termos de estéticas,
influências, citações e referências. Após um longo período sem aparecer com
alguma nova produção nas telas, Bogdanovich retoma com a mesma pegada
reverencial e algo nostálgica em “Um amor a cada esquina” (2013). Nesse
trabalho, talvez o nome que mais venha à mente seja o de Howard Hawks,
principalmente com aquelas comédias amalucadas cheia de quiproquós como “Levada
da Breca” (1938) e “Jejum de amor” (1940), além de alguns diálogos espirituosos
evocarem o encanto das produções cômicas de Ernest Lubitsch (aliás, um de seus
filmes, “Cluny Brown”, é citado diretamente no roteiro). O fascinante no
formato narrativo concebido por Bogdanovich é que tudo pode parecer um tanto
aleatório e pueril, mas na verdade tem por trás uma encenação bastante
meticulosa tanto no desenvolvimento das situações do roteiro quanto nos
relacionamentos que se estabelecem entre os personagens, contando ainda com uma
azeitada direção de atores (Jennifer Aniston tem aqui a sua mais convincente
atuação no cinema e Imogem Poots com seu misto de doçura e ironia faz lembrar
mitos como Audrey Hepburn e Claudette Colbert). Tais truques formais e
temáticos podem até soar a princípio anacrônicos, mas aos poucos vão conferindo
ao filme uma atmosfera atemporal e de irrealidade sedutora (vide as hilárias
coincidências que permeiam toda a trama).
quarta-feira, outubro 21, 2015
O ciclo da vida, de Zhang Yang *
O diretor chinês Zhang Yang tinha demonstrando habilidade
narrativa razoável no envolvente “Banhos” (1999). Assim, seu nome aparecendo
como diretor de “O ciclo da vida” (2012) acabava por chamar atenção especial
para a produção. As sequenciais iniciais desse filme mais recente por sua vez
pareciam confirmar as boas expectativas, ao fazer um registro entre a crueza e
a sensibilidade registrando o dia-a-dia melancólico e sereno num asilo de
idosos. Essas positivas impressões, entretanto, caem por terra com o desenrolar
da narrativa. As opções estéticas e de roteiro se revelam equivocadas,
desprovendo o filme de qualquer resquício de sutileza e efetiva densidade dramática.
Os idosos personagens principais recebem uma caracterização caricatural – são criaturas
unidimensionais, quase como seres bonzinhos e fofinhos que sofrem uma
discriminação incompreensível da sociedade. Os conflitos e dilemas da trama são
expostos de forma ostensiva e maniqueísta em diálogos e situações que
desconhecem a sobriedade e a contenção, o que acaba resultando numa encenação
artificiosa, beirando o infantil (no mau sentido da palavra). Em vários
momentos as falas dos personagens mais parecem textos institucionais a proferirem
intermináveis lições de vida. É claro que o aspecto sentimental tem uma preponderância
inevitável em boa parte das obras que aborde a questão da velhice e do
abandono, vide algumas produções marcantes da história do cinema. O problema de
“O ciclo da vida” é que se confunde esse lado sentimental com pura pieguice
oportunista, fazendo com que o filme de Yang mais pareça um novelão mexicano de
lágrimas fáceis e manipuladoras.
terça-feira, outubro 20, 2015
Lulu, nua e crua, de Solveig Aspach **
O roteiro de “Lulu, nua e crua” (2013) tem um certo caráter
de contestação ao mostrar a história de uma mulher que entra em uma espécie de
crise existencial e resolve se afastar da família por alguns dias e ficar
perambulando pelas ruas de cidadezinhas do interior da França. Nesse período,
acaba se envolvendo com desajustados e passa a reavaliar os valores morais que
sempre permearam sua vida. Tal premissa de trama até poderia render uma obra
inquietante, mas a abordagem da diretora Solveig Aspach é tão burocrática que
acaba esvaziando qualquer possibilidade de ousadia que o filme poderia ter. Por
vezes até transparece um certo traço de elegância na maneira de filmar da
diretora. Insinua-se um estilo reflexivo e naturalista em sua encenação. Com o
desenrolar da narrativa, entretanto, essas promessas acabam se mostrando ilusórias.
Tais elementos estéticos são jogados na tela e não conseguem se cristalizar a
ponto de gerar interesse ou inquietação por parte do espectador. Aspach não
consegue dar um estofo dramático suficiente capaz de gerar tensão ou empatia
pela história ou pelos personagens. O trio de desocupados que se tornam amigos
de Lulu (Karin Viard), um deles sendo até amante dela, por exemplo, recebe uma
caracterização caricata e sem profundidade psicológica, mais parecendo um grupo
de “amiguinhos fofinhos e sujinhos” da personagem principal do que seres
humanos críveis. Mesmo o elemento sensual que ocasionalmente aparece vem sempre
em uma perspectiva casta e envergonhada. Por mais que a obra transmita um desconforto
com alguns padrões comportamentais da sociedade, tudo é passado sob um filtro
de superficialidade e insipidez, fazendo a narrativa mais parecer algum vídeo
motivacional de autoajuda do que uma obra cinematográfica propriamente dita.
segunda-feira, outubro 19, 2015
Bata antes de entrar, de Eli Roth **
O fato de “O albergue” (2005) ser uma espécie de clássico do
cinema de horror desse século sempre fará com que se preste atenção nos filmes
que o diretor Eli Roth venha a lançar. Sua ótima sequencia lançada em 2007
aumentaram ainda mais o crédito de Roth. Tais expectativas positivas,
entretanto, acabam sendo frustradas com sua obra mais recente, “Bata antes de
entrar” (2015). O que incomoda no filme não é simplesmente o fato de se apoiar
em diversos clichês narrativos. Afinal, a trama no estilo “psicopatas dementes
atormentando um bom lar pequeno burguês” pode ainda render alguma coisa de
interessante (é só lembrar, por exemplo, o que Michael Haneke aprontou nas duas
versões do brilhante “Funny Games”). Nesse sentido, a produção dirigida por
Roth traz um roteiro que até traz alguns elementos instigantes no confronto que
se faz entre as forças do caos representada pela enlouquecida dupla de gostosas
sádicas e os bons valores morais e sociais simbolizadas pela fotogênico,
asséptico e hipócrita patriarca que é acossado pelas garotas (aliás, ele é um
arquiteto hipster descolado casado com uma bela artista plástica espanhola). O
problema de “Bata antes de entrar” é que os elementos de ousadia demente e
questionadora não passam para a própria concepção artística do filme – ao invés
do barroquismo visual enlouquecido e sangrento de “O albergue”, há uma espécie
de formalismo contido e despersonalizado. A encenação proposta por Roth é
genérica e carente de tensão, não causando empatia para nenhum dos personagens
(aliás, tendo um Keanu Reeves no auge da inexpressividade dramática fica bem difícil
ter tal empatia). Por vezes, até se insinua em alguns detalhes traços de uma
estética diferenciada, em que Roth poderia dar vazão à criatividade que havia
demonstrado em trabalhos anteriores, como nas sequencias de sexo, no bom uso de
canções de rock e pop para criar uma atmosfera, em alguns diálogos desbocados,
em algumas ambientações de sordidez perturbadora. Mas tais intenções acabam
ficando só na promessa diante de boa parte das soluções artísticas conservadoras
da obra.
sexta-feira, outubro 16, 2015
O clube, de Pablo Larrain ***
Há filmes em que os conceitos de suas respectivas concepções
artísticas são bem mais interessantes do que os resultados finais. Esse é o
caso da produção chilena “O clube” (2015). Dá para perceber durante a projeção
da obra que as ideias do diretor Pablo Larrian são ousadas e repletas de boas
sacadas. Através do microverso de uma casa localizada numa melancólica cidadezinha
no interior do Chile, onde residem padres afastados pelas igreja católica por
diversas razões (pedofilia, corrupção, ligações obscuras com o poder político),
a trama faz uma espécie de inventário dos podres morais tanto da religião
oficial quanto da própria sociedade chilena. Para isso, Larrain se utiliza de uma
abordagem formal e emocional dúbia e por vezes até distanciada, com o filme
alternando sua atmosfera de forma irônica entre o melodramático e o francamente
sórdido (nesse sentido, alguns diálogos do filme são engraçados e perturbadores
no seu misto de escrotidão e hipocrisia), além da fotografia buscar uma
ambientação gótica que se revela um sintonia existencial com o conteúdo de seu
roteiro. Tais recursos estéticos e textuais de “O clube” garantem uma narrativa
envolvente e que sabe criar um desconforto para o espectador. No geral,
entretanto, falta para Larrain uma certa centelha criativa que faça com que o
seu filme consiga transcender em uma experiência efetivamente memorável. No clímax
da narrativa, a noite em que os padres e a religiosa que os auxilia conspiram
para que os habitantes da cidade linchem um pobre coitado que os atormenta, por
exemplo, Larrain realiza uma composição cênica óbvia e um tanto desajeitada – o
que era para ser o grande momento de tensão dramática da produção acaba tendo
uma resolução banal. O tom conciliatório da conclusão da história também mostra
um lado conformado e conservador que atenta contra a diatribe social e política
que até então era a tônica da obra. Apesar de tais aspectos frustrantes, “O
clube” ainda mantém um grau de interesse acima da média e que deixa algo
inquietante martelando no inconsciente da plateia.
quinta-feira, outubro 15, 2015
Minha querida dama, de Israël Horovitz **
Trabalhando com um roteiro baseado em peça teatral de sua
própria autoria, o diretor Israël Horovitz até insinua algo de uma abordagem
diferenciada em “Minha querida dama” (2014). Há uma certa sobriedade na
condução da narrativa, o roteiro apresenta algumas sutilezas na caracterização
de personagens e situações, o elenco demonstra refinamento em suas composições
dramáticas (nesse sentido, é reconfortante ver Kevin Kline demonstrado mais
vigor em sua interpretação depois de sua atuação sonambula em “Ricki and The
Flash”). Com o desenrolar da trama, entretanto, essa boa impressão acaba se
esvanecendo. A sensação é de que o cenário principal da história, um grande,
antigo e bolorento prédio residencial, parece contaminar a narrativa da produção,
que se converte num mofado e previsível acúmulo de clichês formais e temáticos.
O roteiro até evoca dilemas e conflitos que poderiam render algo de mais ousado
em suas soluções, mas Horovitz encaminha tudo para resoluções sem brilho e
acomodadas. Sua encenação é amorfa e engessada, com a mão pesada do cineasta
fazendo com que a dinâmica mais pareça de um novelão de época das seis da tarde
(é só notar que as insinuações de incesto são prontamente esclarecidas para não
chocar as plateias).
quarta-feira, outubro 14, 2015
Todas as cores da escuridão, de Sergio Martino ***1/2
Dentro do gênero giallo, “Todas as cores da escuridão”
(1972) se mostra como um exemplar bem característico dessa linhagem de filmes.
Apesar de não estar no mesmo nível artístico de Dario Argento e Mario Bava, o
diretor Sergio Martino explora de forma bastante inspirada e radical vários
preceitos formais do gênero – a composição cênica exagerada e beirando o
barroco, a forte violência gráfica, as caracterizações um tanto canastronas de
boa parte do elenco. Mas se por um lado o filme de Martino é um giallo
emblemático, por outro a obra se permite alguns marcantes diferenciais
estéticos e temáticos. Para começar, a trama evoca uma tendência maior para o
sobrenatural ao envolver satanistas e delírios oníricos. Se normalmente a
maioria das produções de giallo se apresenta como um reflexo distorcido dos ditames
cinematográficos de Alfred Hitchcock, “Todas as cores da escuridão” parece um
inventário algo doentio do clima “the dream is over” do início dos anos 70 (a
ressaca moral e existencial dos esperançosos anos 60). É só reparar que os coloridos
e impressionistas sonhos da protagonista Jane (Edwige Fenech) são permeados por
um insólito clima psicodélico, além da excelente trilha sonora ser composta
basicamente por pastiches de rock sessentista psicodélico. Além disso, a trama
é bastante inspirada na obra-prima “O bebê de Rosemary” (1968) e nos sinistros
fatos reais de assassinato de Sharon Tate e amigos pelos seguidores de Charles
Mason. Para quem acha que filme de terror se resume a essas atuais produções
assépticas e descerebradas destinadas ao público adolescente (com honrosas
exceções como “Corrente do mal”), essa pequena joia concebida por Martino é uma
demonstração enfática das possibilidades criativas do horror.
sexta-feira, outubro 09, 2015
O mundo em duas voltas, de David Schürmann *1/2
A premissa de trama do documentário “O mundo em duas voltas”
(2006) é até interessante – estabelecer uma relação entre uma viagem de volta
ao mundo realizada por uma família brasileira e a mesma trajetória realizada de
forma pioneira por Fernão de Magalhães e suas naus em 1519. Para isso, a
narrativa entrecruza registros da viagem contemporânea com uma recriação
gráfica, quase uma HQ, da primeira jornada. O fato de um membro da família
viajante ser o diretor do filme, entretanto, acaba sendo determinante para que
a obra em questão seja bem frustrante. É claro que alguns sequencias são bem
interessantes ao captar a beleza natural dos diversos pontos ao redor do mundo
em que o barco dos Schürmann aportam e também em alguns momentos ao registrar
as dificuldades inerentes a uma aventura como essa, além do grafismo da
recriação da viagem de Magalhães ter um belo traço. Mas o que predomina mais ao
longo da narrativa é um tom asséptico e edificante, beirando o vídeo
institucional – não há conflito e dilemas nas histórias que envolvem os
Schürmann, tirando dessa forma qualquer possibilidade de uma tensão dramática
mais efetiva. Do jeito que ficou esse tratamento formal e temático despersonalizado,
a produção mais parece um anódino diário de férias de uma típica e fotogênica
família branca classe média alta, com direito a paisagens e costumes exóticos, do
que o retrato de uma aventura perigosa. De repente daria para ser tema de um
Fantástico ou Globo Repórter da vida, mas como experiência cinematográfica é
perfeitamente esquecível.
quinta-feira, outubro 08, 2015
Leviatã, de Andrey Zvyagintsev ***
Os prêmios e os inflamados
elogios de boa parte da crítica que a produção russa “Leviatã” (2014) ganhou ao
redor do mundo são até compreensíveis. Apesar da estrutura narrativa convencional
e rigorosa de melodrama, o filme dirigido por Andrey Zvyagintsev é uma crítica
severa e inclemente contra a desumanização e degradação existencial promovida
pelo avanço global de um capitalismo selvagem e agressivo através da história
simbólica do veterano pescador Kolia (Alekesey Serebryakov) que tem a sua vida
familiar e profissional destroçada pelas maquinações do poder público corrupto
de sua cidade e interesses comerciais de grandes corporações. O mote do roteiro
pode parecer manjado, mas são em alguns detalhes estéticos e temáticos que a
obra de Zvyasintsev se diferencia do lugar comum. Para começar, a
caracterização emocional concebida pelo cineasta é áspera e sem concessões – a trajetória
de Kolia é uma descida vertiginosa num pesadelo burocrático e pessoal. Ainda
que a ambientação e encenação tenham forte caráter naturalista, a impressão
sensorial da obra é de uma descida ao inferno. Pela trama, há determinados
momentos que corresponderiam àquelas “viradas” de história em que os “mocinhos”
começariam a dar a volta por cima, mas acaba sendo um truque perverso do
roteiro justamente para enfatizar o lado da inevitabilidade do destino quando
forças poderosas econômicas e políticas, com apoio inclusive das instituições
religiosas, se voltam contra um indivíduo comum. Por vezes, a conturbada
derrocada de Kolia evoca uma atmosfera kafkaniana, mas os motivos que levam ao
debacle do personagem estão longe de serem absurdos e inexplicáveis.
quarta-feira, outubro 07, 2015
Perdido em Marte, de Ridley Scott **
A equação ficção científica mais Ridley Scott sempre vai ser
promissora. Só que com “Perdido em Marte” (2015) ela já não se mostra mais
infalível. Dá até para dizer que os 15 minutos iniciais do filme, que se
desenvolvem exclusivamente em Marte, até animam em sua concepção cênica – a
encenação é sóbria, dá para sentir um clima de suspense mais palpável, até a
trilha sonora emula uma espécie de drones sombrios. Quando a ação passa a
envolver também personagens na Terra, entretanto, tudo isso que se insinuava de
forma positiva se desvanece e essa produção mais recente de Scott cai na vala
comum.
Talvez o que haja de mais relevante em “Perdido em Marte”
não esteja propriamente relacionada ao seu roteiro ou a sua estética. O que
chama mais atenção são alguns dados sociológicos e políticos que constam na
trama – negros e latinos ocupam funções de destaque na NASA, as agências
espaciais chinesa e norte-americana colaboram em nome do bem comum, mulheres têm
papéis proativos, o papel da ciência e do conhecimento é mais valorizado em
detrimento de misticismos e afins. Ainda que partindo de uma necessidade de ser
politicamente correto, tais elementos da história até revelam um certo traço de
ousadia. Mas qualquer sinal de maior criatividade acaba parando nesse ponto.
Incomoda bastante no filme a despersonalização formal e assepsia na condução da
narrativa, o que acaba sendo bem decepcionante em relação a um diretor com uma
filmografia tão expressiva quanto Scott. Ao invés daquela tenebrosa e
assustadora atmosfera gótica de “Alien – O oitavo passageiro” (1979) e “Prometheus”
(2012) ou da rica caracterização imagética misturando alta tecnologia e
sordidez de “Blade Runner” (1982), fica uma concepção visual sem graça e
genérica, beirando uma fotogenia derivativa. A encenação é bem comportada e
previsível, fazendo com que poucas vezes haja uma tensão dramática mais efetiva.
Por várias vezes o protagonista Mark Watney (Matt Damon) parece mais se
comportar como se estivesse numa colônia de férias do que propriamente alguém
que está isolado em um planeta inóspito. Pode ser que a intenção fosse
justamente essa, reforçar o lado fodão de um típico astronauta
norte-americano... Além disso, as soluções encontradas para os principais
dilemas e conflitos da trama são pueris e apressadas, fazendo a obra mais
parecer um episódio meia-boca de “Profissão perigo” do que uma ficção
científica cinematográfica de primeira linha. Aliás, diante de tais escolhas
criativas, talvez um título melhor para o filme fosse “Férias frustradas de MacGyver
em Marte”.
terça-feira, outubro 06, 2015
La Sapienza, de Eugène Green ****
As primeiras cenas de “La Sapienza” (2014) são bastante
reveladoras do estilo do diretor francês Eugène Green: complementadas por uma
narração over de impessoal tom discursivo do protagonista Alexandre Schmid
(Fabrizio Rongione), há registros panorâmicos de prédios parisienses. O teor
didático a expor detalhes arquitetônicos dá um certo tom de frieza e assepsia
tanto para o personagem em si, um arquiteto premiado, como para a própria
abordagem formal de Green. Mas essas sequencias iniciais também tem um caráter
enganador para a obra. Com o desenrolar da narrativa, o filme vai ganhando um
caráter de conto moral com traços metafísicos. Dentro dessa lógica, é
fundamental a rigorosa caracterização de personagens e situações concebidas por
Green. Logo que Alexandre e sua esposa Aliénor (Christelle Prot) chegam à
Itália e conhecem um misterioso casal jovem de irmão e irmã, a trama passa a
adquirir de forma sutil uma conotação mais ambígua. Dentro das concepções
artísticas de Green, mais importante que o realismo na encenação está a
expressividade visual e textual da obra. Para isso, ele se vale de uma estética
anti-naturalista, cujos maneirismos imagéticos e de interpretação dos atores
valorizam detalhes cênicos e dos diálogos, além de excertos estilizados de
literatura e pintura que se incorporam dentro da narrativa com fluidez e
naturalidade. Os belíssimos cenários naturais e de construções como castelos,
igrejas e outros prédios seculares não ganham apenas uma função decorativa, mas
também são quase como personagens próprios que interagem com o sentido
existencial da obra. A disposição cênica dos principais personagens funciona
como uma complementação icônica dentro de enquadramentos que simulam
verdadeiros afrescos. A equação artística proposta por Green é engenhosa e
severa em suas diversas nuances, fazendo com que uma estética que beira o barroco
interaja de forma intrínseca e coerente com um conteúdo repleto de simbologias
entre o fabular e o religioso. Diante de tais soluções estéticas e temáticas, é
como se estivéssemos diante de uma releitura vigorosa e autoral do cinema ascético
de Robert Bresson.
segunda-feira, outubro 05, 2015
Homem comum, de Carlos Nader ***1/2
O documentarista Carlos Nader se mostra em “Homem comum”
(2014) como uma espécie de herdeiro espiritual dos preceitos artísticos de
Eduardo Coutinho, principalmente na questão em como o imprevisível e o
aleatório se incorporam em seus respectivos modus operandi. Além disso,
transparece a forma com que questionamentos existenciais e formais se tornam
parte da razão de ser das produções, fazendo com que aquilo que se planejava no
início das filmagens se revele apenas a ponta do iceberg. Mas Nader não é
apenas um mero reciclador de ideias e conceitos alheios – pode-se perceber em
sua obra um traço autoral bastante particular. Se em “Pan-cinema permanente”
(2008) ele fazia um registro misto entre o realismo e o delirante da vida e
obra do poeta e letrista Wally Salomão, em “Homem comum” ele molda a história
de vida de um caminhoneiro e sua família dentro de uma espécie de fábula
existencialista e mística. Para isso, Nader expande as próprias noções do que
deveria ser “cinema verdade”. Ele se vale de encenações nitidamente ensaiadas,
além de truques de edição que remetem a uma estrutura ficcional – nesse sentido,
é extraordinária o formato de fluxo onírico em que trechos de cenas que foram
registradas ao longo de vinte anos e de sequências do clássico cinematográfico “A
palavra” (1955) se encadeiam, afastando o filme do mero registro cronológico de
fatos e transformando a narrativa num vórtice sensorial desconcertante. Em
diversos momentos, são expostos com clareza motivos para determinadas escolhas
narrativas, como se houvesse uma espécie de auto-dissecação estética da obra. E
há algo de ironia perversa na forma com que Nader manipula os elementos emocionais
do filme. Uma das coisas mais fascinantes de “Homem comum”, entretanto, é
justamente como o sentimentalismo brejeiro da obra é preservado no seu contundente
humanismo e se entrelaça com a forte criatividade formal de Nader, resultando
numa espécie de cruzamento entre farsa, metafísica e filosofia.
sexta-feira, outubro 02, 2015
O segredo da cabana, de Drew Goddard ***1/2
De todos os gêneros cinematográficos, talvez aquele que se
encontra em uma encruzilhada criativa mais profunda é o horror. Diretores e roteiristas,
com algumas exceções, não conseguem parecerem convincentes ao emular os mesmos
e surrados clichês narrativos de sempre. A grande “novidade” que proliferou nos
últimos anos é a cópia exaustiva da estética “realista” de “A bruxa de Blair”
(1999) - e que em boa parte das oportunidades mais parece uma desculpa para
esconder a incompetência formal e temática dos cineastas. “O segredo da cabana”
(2011) é uma obra que foge dessa crise artística justamente por saber se
aproveitar com criatividade e ironia perversa das fórmulas e truques mais
manjados do gênero. O roteiro traz uma insólita trama que inicialmente se
desenvolve a partir de premissas e resoluções já bastante conhecidas do
público, mas que aos poucos começam a serem “envenenadas” com elementos de
farsa e ficção científica. Há um detalhe fundamental, entretanto, que impede
que o filme caia numa simples paródia – o diretor Drew Goddard consegue criar
uma atmosfera efetiva de tensão, assim como mostra uma sensibilidade imagética
aguçada numa encenação que privilegia uma violência gráfica impactante e trucagens
que combinam de forma magistral técnicas tradicionais e efeitos digitais. Com o
transcorrer da narrativa, de forma sutil e orgânica, as convenções do gênero
vão sendo pervertidas, resultando num bizarro conto que evidencia fascinantes
referências do universo fantástico tanto do cinema quanto da literatura (a
apoteótica e devastadora conclusão da produção, por exemplo, é uma excelente
transposição de conceitos lovecraftianos para o cinema).
quinta-feira, outubro 01, 2015
Timbuktu, de Abderrahmane Sissako **
Há filme que ganham destaque na
mídia, indicações e prêmios em festivais importantes e reconhecimento da
crítica muito mais pelo contexto histórico político-social em que são lançados
do que pelos seus méritos artísticos em si. “Timbuktu” (2014) é um exemplar
claro dessa tendência. No mundo atual, em que conflitos religiosos dominam boa
parte do globo, esse longa da Mauritânia acaba ressoando de forma mais ampla,
ao ter como trama principal o cotidiano de uma família de nômades pastores que
é abalado pela opressão e desmando do grupo fundamentalista religioso que
domina a região onde moram. A direção de Abderrahmane Sissako é apenas correta –
direção de fotografia e edição apresentam competência, gerando uma narrativa
fácil de acompanhar, mas que não necessariamente é envolvente. O espectador
pode até se comover com as injustiças e
tragédias que permeiam a trama, mas não há alguma tensão mais efetiva e nem
algum rasgo estético que salte aos olhos. Dentro da atual conjuntura, o filme é
uma experiência válida pelo caráter informativo de sua temática, chamando
atenção para o momento histórico conturbado pelo qual atravessa um número
considerável de países asiáticos e africanos tomados pelo fanatismo místico. Em
termos puramente cinematográficos, entretanto, “Timbuktu” é uma produção
descartável e de criatividade anêmica.
Assinar:
Postagens (Atom)





































