quinta-feira, novembro 03, 2016

Lolo: O filho da minha namorada, de Julie Delpy ***

A filmografia de Julie Delpy como diretora parece girar dentro de uma fórmula narrativa simples – crônicas familiares que além da reflexão sobre as relações pessoais também apresentam um subtexto sócio-político. Dentro desse conceito artístico, o ponto alto da carreira da cineasta é o extraordinário “O verão do Skylab” (2011). “Lolo: O filho da minha namorada” (2015) não apresenta o mesmo nível de qualidade, mas ainda assim tem os seus pontos inquietantes. Num primeiro momento, o espectador se sente envolvido pelos eficientes truques cômicos relacionados aos planos perversos do jovem Lolo (Vincent Lacoste) para acabar com o namoro de sua mãe, a cosmopolita Violette (Delpy), com o ingênuo interiorano Jean-René (Dany Boon), rendendo algumas divertidas cenas que envolvem um humor físico que beira o pastelão e o escatológico. Numa visão mais atenta da trama e mesmo da encenação concebida por Delpy, entretanto, pode-se perceber algo de sombrio e irônico em detalhes como a caracterização psicótica de Lolo, a violência física e psicológica de algumas das “brincadeiras” do personagem-título e as sutis ironias que se fazem em determinadas situações do roteiro que envolvem questões de classe e a atual situação econômica da Europa. De se considerar também a crueza de alguns diálogos a expor a sexualidades e as seguranças existenciais de uma mulher adulta na sociedade contemporânea. Ainda que o final feliz agridoce do filme represente uma espécie de concessão típica de uma comédia romântica, “Lolo” reforça a impressão de que Delpy possui um traço autoral na forma com que elabora suas narrativas cinematográficas.

terça-feira, novembro 01, 2016

Demônio de neon, de Nicolas Winding Refn ****

A obra-prima “Drive” (2011) se provou como uma extraordinária exceção dentro do estilo habitual do diretor Nicolas Winding Refn, pois era uma obra marcada por uma narrativa precisa e de formalismo clássico que se adaptava de acordo com a marca autoral do cineasta. Nas demais produções de sua filmografia, o dinamarquês investe numa abordagem que valoriza muito mais o sensorial e o atmosférico do que os meandros do roteiro, vide filmes antológicos como “O guerreiro silencioso” (2009) e “Apenas deus perdoa” (2013). “Demônio de neon” (2016) é uma continuação dos preceitos artísticos de Refn – imagine-se um conto moral às avessas sobre a beleza e a inocência marcado por uma ambientação difusa de hedonismo, horror e delírio onírico e se pode ter uma ideia do que representa essa estranha narrativa. As referências visuais e temáticas são diversas e insólitas, como o horror sensual e barroco de Mario Bava, as nuances enigmáticas de David Lynch, o realismo de corres berrantes de algumas produções oitentistas (leia-se “O fundo do coração” e “Dublê de corpo”). Refn amarra todas essas influências e citações dentro de uma linguagem coesa e particular, fazendo o espectador entrar num vórtice de loucura, violência e erotismo, ora repugnante, ora bizarramente encantador. O esmero estético se manifesta em cada detalhe do filme e não se reduz a mero exibicionismo técnico, revelando notável sintonia existencial com a própria natureza misteriosa e simbolista do roteiro, conforme pode ser observado na climática trilha sonora de temas eletrônicos, na fotografia que varia com notável desenvoltura entre o sombrio sutil e o luminoso exagerado, na encenação de síntese desconcertante entre o naturalismo e o estilizado, na caracterização maneirista e icônica dos personagens. Por falar nisso, é curioso perceber que no elenco da produção está Karl Grusman, que atuou no papel principal de “Love” (2015), de Gaspar Noé, cineasta que é uma espécie de gêmeo criativo existencial de Refn.

segunda-feira, outubro 31, 2016

A nona vida de Louis Drax, de Alexandre Aja ***1/2

O diretor francês Alexandre Aja é um dos nomes mais interessantes a terem surgidos no panorama mundial do cinema fantástico nos últimos anos. Sua filmografia é baseada numa síntese artística bastante pessoal e marcante, combinando grafismo exagerado, senso narrativo preciso e atmosferas entre o doentio e o delirante, vide obras memoráveis como “Alta tensão” (2003), “Viagem maldita” (2006) e “Piranha 3D” (2010). Em sua obra mais recente, “A nona vida de Louis Drax” (2015), Aja mantém a sua marca autoral e ainda envereda por uma insólita recriação do suspense psicológico característico de algumas produções de Alfred Hitchcock (principalmente o clássico “Quando fala o coração”) sob um prisma de conto fabular à maneira de Tim Burton e Guillermo Del Toro. Essa junção de elementos estéticos diversos acaba tendo um resultado final bastante coeso. A trama é algo rocambolesca, repleta de flashbacks e alternando inclusive planos dimensionais (o real, o imaginário e o onírico), mas Aja consegue dar uma unidade impressionante e nada confusa dentro desses universos temporais e existenciais paralelos. Os elementos psicanalíticos podem parecer manjados num primeiro momento ao versarem sobre pulsões homicidas, desejos sexuais difusos, o mar como símbolo da segurança materna e mitomania, mas com o tempo eles acabam se revelando funcionais e intrigantes, ainda mais quando se integram ao apuro visual expressivo de Aja e a sua dinâmica narrativa que emula uma verdadeira jornada dentro de um pesadelo úmido e sombrio. Dentro dessa lógica artística peculiar e marcada pela morbidez romântica, o cineasta também acerta na forma com que dirige o seu elenco, de quem arranca algumas composições dramáticas antológicas, com destaque para a caracterização meio alucinada do garoto Aiden Longworth no papel título e para atuação no estilo “loira enigmática e fatal” de Sarah Gandon (e que faz lembrar algumas personas inesquecíveis nessa linha criadas por Hitchcock).

sexta-feira, outubro 28, 2016

Terra estranha, de Kim Farrant ***1/2

As regiões desérticas da Austrália têm um histórico interessante como cenário expressivo de produções relevantes na história do cinema, vide produções antológicas como “A longa caminhada” (1971), “O corte da navalha” (1984), “A proposta” (2006) e toda a franquia “Mad Max”. Essa fascinante tradição se mantém em “Terra estranha” (2015), obra em que o deserto australiano funciona quase como se fosse um personagem próprio da trama, ditando não só as intempéries físicas sofridas pelos indivíduos como também servindo de fator simbólico das confusões existenciais de tais figuras. Em sua superfície, o roteiro tem como mote principal o desaparecimento de um casal de jovens irmãos numa árida cidade interiorana e toda a sorte que dúvidas e suspeitas que um evento como esse pode suscitar. A diretora Kim Farrant usa alguns clichês narrativos do gênero suspense, mas essa rendição ao convencional é ilusória. Aos poucos, a narrativa vai se tornando cada vez mais atmosférica e misteriosa, dando vazão a uma série de cenas marcadas por um perturbador misto de languidez a flor-da-pele, desejos difusos e frustrações sentimentais. A procura pelos adolescentes vai se tornando um processo de expiação de culpas e acerto de contas com o passado obscuro dos personagens. Farrant acerta no alvo ao não se preocupar com as aparentes pontas soltas da trama, levando mais em conta as consequências psíquicas dos fatos do que se concentrando em encontrar “bandidos”, o que fica evidenciado na poética, enigmática e algo libertária conclusão do filme. A abordagem estética adotada por Farrant para essa saga existencial é outro grande acerto, com uma direção de fotografia magnífica a explorar a riqueza de nuances imagéticas proporcionada pelos cenários desérticos em termos de iluminação e enquadramentos, além da climática trilha sonora que acentua ainda mais a síntese de mistério e delírio da narrativa. De se considerar ainda as atuações de Nicole Kidman e Joseph Fiennes, que entregam algumas das composições dramáticas mais complexas de suas carreiras.

quinta-feira, outubro 27, 2016

A passageira, de Salvador Del Solar ***

Assim como na produção argentina “Kóblic” (2016), o filme peruano “A passageira” (2014) procura formatar uma reflexão sobre a ditadura militar na América Latina dentro de uma estrutura de cinema de gênero (no caso, o suspense policial). Se na citada obra portenha tal propósito fica apenas na intenção, ainda que resulte num divertido faroeste reciclado, no trabalho do diretor Salvador Del Solar essa síntese entre questionamento político-social e formatação de gênero soa mais homogênea e convincente, tendo como principal responsável para isso um roteiro muito bem delineado em seu desenvolvimento e subtextos. Há nuances na trama que revelam um forte caráter simbólico a refletir uma sociedade marcada pela opressão e exploração de classes. Nesse sentido, a figura da personagem Celina (Magaly Solier), nativa de uma vila indígena exterminada por militares na época da ditadura, é bastante emblemática – quando adolescente, abusada por militares; na fase adulta, explorada por agiotas e picaretas de classe média alta. Seu discurso final, indignado e no seu dialeto nativo, representa a cena mais memorável de “A passageira” no seu misto de fúria e frustração. A abordagem formal e textual de Del Solar para a história que conta é marcada por uma sobriedade admirável, ainda que a narrativa se ressinta de um certo excesso de convencionalismos. Ainda assim, “A passageira” consegue preservar a sua capacidade de inquietar e se fixar por um tempo no imaginário do espectador.

quarta-feira, outubro 26, 2016

Kóblic, de Sebastián Borensztein ***

O diretor argentino Sebastián Borensztein dá a impressão de querer realizar uma revitalização de clichês de filmes de gênero. No medíocre “Um conto chinês” (2011), fez uma espécie de recriação pálida de comédia romântica, ainda que procurasse dar uma aparência ilusória de realismo dramático. Em sua mais recente empreitada, “Kóblic” (2016), o cineasta busca uma espécie de síntese entre drama político e policial, mas o que realmente atinge como resultado final é um faroeste reciclado e por vezes até bem divertido. O roteiro insinua uma pretensa seriedade ao evocar o drama de desaparecidos políticos que na verdade eram jogados ao mar por agentes da repressão no período da ditadura militar argentina nos anos 70 e 80. Mas essa aura solene é jogada por terra diante dos furos da trama – se o protagonista Kóblic (Ricardo Darín) quer tanto ficar incógnito numa cidadezinha fim de mundo do interior, por que se expõe tanto saindo para beber no único bordel da região e também tendo um caso com a companheira de um tipinho violento e execrável? Isso sem contar que em algumas sequências o filme se perde em excessos melodramáticos, principalmente nas partes românticas. Na verdade, a melhor forma de encarar “Kóblic” é como se fosse um tipo de versão fuleira para “Os brutos também amam” (1953). A caracterização do delegado vilão Velarde (Oscar Martinez), por exemplo, é um primor de escrotidão e sordidez. E o terço final repleto de duelos e mortes encenados com boa dinâmica e detalhamento visual é bem memorável. Em tais cenas, Borensztein consegue dar uma certa ambientação mitológica cativante para a sua obra, e com Darín conseguindo tendo uma interessante altivez icônica para o seu personagem que faz lembrar algo do enigmático cowboy Shane.

terça-feira, outubro 25, 2016

Festa da salsicha, de Conrad Vernon e Greg Tiernan ***1/2

É intrigante que um dos filmes mais ácidos e contestadores da atual temporada seja uma animação norte-americana cômica, desbocada e escatológica. Mas esse é exatamente o caso em “Festa da salsicha” (2016). O filme dos diretores Conrad Vernon e Greg Tiernan obedece a uma estrutura narrativa fabular básica no gênero das animações, em que uma trama repleta de aventura e alguns toques românticos traz em suas entrelinhas uma “moral da história” envolvendo superação e amadurecimento, com direito, inclusive, a momentos musicais entre o apoteótico e o meloso. Só que o roteiro que mostra alimentos antropomorfizados de um supermercado que tomam consciência de que servem somente para saciar a fome dos deuses gigantes (no caso, os seres humanos) na realidade se mostra uma corrosiva diatribe contra alguns dos valores mais caros da sociedade contemporânea. Na visão da obra, a religião só serve para iludir ignorantes incautos para que esses não questionem uma realidade de opressão e exploração, fazendo com que uma classe dominante se beneficie dessa alienação (não faz lembrar um certo país que teve um golpe de estado recentemente com a colaboração de uma direita evangélica?). E a melhor resposta para tal empulhação mística seria a revolta violenta, além de uma filosofia de vida baseada num hedonismo libertário. “Festa da salsicha” consegue formatar esse discurso ousado e humanista em uma narrativa bastante divertida e movimentada, além de trazer um grafismo marcante na forma com que violência, sexo e escatologia são expostos em cena. Caros pais, não se assustem com a faixa etária, essa é a animação que seus filhos devem ver!!

segunda-feira, outubro 24, 2016

Meu amigo, o dragão, de David Lowery **1/2

Dá para perceber em “Meu amigo, o dragão” (2016) uma certa abordagem conceitual diferente. Tanto em sua estética quanto no conteúdo, o filme do diretor David Lowery parece querer recuperar uma atmosfera setentista em termos de atmosfera e construção narrativa. Há um caráter de crônica nostálgica e ingênua aliada a um viés ecológico na forma com que a trama é apresenta na tela. Essa concepção provavelmente vem do fato da produção ser uma refilmagem de uma animação de 1977. Diante de tais escolhas artísticas, a obra de Lowery até tem algum encanto em determinadas passagens, fruto de uma encenação bem coreografada na combinação de trucagens digitais e interação entre os personagens. Por outro lado, essa ambientação agridoce por vezes retira a capacidade do filme em gerar tensão para a plateia, o que seria fundamental dentro de um trabalho no gênero aventura fantástica juvenil. Dá até para entender que se buscou um perfil mais humano na caracterização dos dilemas e críticas comportamentais presentes no roteiro, mas no geral essa coisa de fofice excessiva faz com que os vilões e ameaças que surgem ao longo da história se mostrem poucos críveis ou assustadores.

quinta-feira, outubro 20, 2016

O botão de pérola, de Patrício Gusmán ***1/2

No seu primeiro terço de duração, o documentário chileno “O botão de pérola” (2015) sugere ao espectador em sua formatação como se fosse uma versão mais apurada e artística daquelas produções televisivas de canais como Discovery ou History Chanel a versar sobre a importância da água na sobrevivência e desenvolvimento da humanidade. Com o desenrolar da narrativa, entretanto, o diretor Patrício Gusmán vai desviando de maneira sutil sua obra para um viés sócio-político-cultural desconcertante, traçando um desolador retrato do massacre dos povos nativos de seu país e relacionando com o brutal massacre de perseguidos políticos na ditadura de Pinochet, cujos corpos eram jogados no meio do oceano. Mais que um simples manifesto panfletário, o caráter humanista e poético da abordagem de Gusmán consegue combinar com coerência e sensibilidade essa ampla temática dentro de uma linguagem cinematográfica apurada e de uma visão existencial complexa, em que todos os aspectos da narrativa se entrelaçam com desenvoltura – fotografia grandiosa, engenhosas trucagens visuais, atmosfera e trilha sonora solenes, roteiro repleto de preciosas nuances textuais valorizadas pela etérea narração do próprio Gusmán. Nessa estranha e encantadora síntese artística concebida pelo cineasta, a antropologia e o fantástico convivem de maneira harmônica dentro um fascinante e bizarro universo.

quarta-feira, outubro 19, 2016

Um dia perfeito, de Fernando León de Aranoa ***

O cineasta espanhol Fernando León de Aranoa havia demonstrado notável domínio narrativo e sensibilidade no trato de temática social no extraordinário “Segunda-feira ao sol” (2001). Ainda que sem o mesmo grau de brilho artístico do filme mencionado, “Um dia perfeito” (2015) mostra que Aranoa permanece com suas mencionadas qualidades. O tema da trama é espinhoso – o cotidiano de um grupo de ajuda humanitária no conflito dos Bálcãs em meados dos anos 90. Ocorre que a abordagem é diferenciada e surpreendente, pois, ainda que preserve a forte aura dramática, há uma certa atmosfera de ironia e absurdo que predomina sutilmente por todo o filme, fazendo lembrar de leve a clássica comédia de guerra “MASH” (1970). Tal orientação existencial da narrativa revela uma coerência pertinente, em que as desventuras sentimentais do responsável de segurança Mambrú (Benicio Del Toro) e a obsessão por velocidade, perigo e rock and roll do motorista B (Tim Robbins) funcionam como válvulas de escape emocionais diante de uma rotina repleta de morte, destruição e barbárie de um conflito étnico-político. O subtexto do roteiro guarda ainda uma crítica ao olhar hipócrita e moralista que o mundo ocidental tem sobre a guerra naquela região, em que alegações e julgamentos de que tais lutas e demais atitudes delas advindas sejam “sem sentido” se revelam estéreis, pois na verdade os reflexos de tal conflito apenas demonstram valores e dilemas típicos da sociedade capitalista contemporânea. No mais, a notável interação entre o elenco homogêneo em boas atuações e a ótima trilha sonora roqueira se mostram em sintonia com as soluções narrativas e temáticas de Aranoa, fazendo de “Um dia perfeito” uma inquietante obra a refletir sobre a natureza das guerras no mundo atual.

terça-feira, outubro 18, 2016

Nosso fiel traidor, de Susanna White ***

Dentro do universo das adaptações cinematográficas de obras literárias do escritor John Le Carré, “Nosso fiel traidor” (2015) está longe do brilhantismo de produções extraordinárias como “O alfaiate do Panamá” (2001) e “O espião que sabia demais” (2011), mas também não chega perto de induzir ao sono como “A casa da Rússia” (1990) e “O homem mais procurado” (2014). O filme da diretora Susanna White até começa um pouco claudicante, principalmente na breguice da sua sequência de abertura e também por uma encenação soando excessivamente mecânica. Com o desenrolar da narrativa, entretanto, a fórmula estética-temática ganha mais corpo e a tensão se mostra mais efetivamente presente. Os truques do roteiro são óbvios, típicos das tramas de espionagem de Le Carré, mas são desenvolvidos com eficiência e convicção. A direção de fotografia valoriza o exotismo e beleza dos cenários cosmopolitas e paisagens naturais que aparecem ao longo da história, há uma atmosfera que alterna habilmente entre a elegância contida e a leve sensualidade, prepondera um clima constante de mistério e suspense que provoca algum frio no estômago do espectador e algumas cenas guardam um poder imagético forte na sua simbologia (a sequência final com o protagonista Perry Makepeace andando na contramão de uma pequena multidão é um achado). No mais, as boas atuações carismáticas de Ewan McGregor, Stellan Skarsgard e Damian Lewis acentuam a notável sobriedade formal de “Nosso fiel traidor”.

segunda-feira, outubro 17, 2016

Cegonhas - A história que não te contaram, de Nicholas Stoller e Doug Sweetland ***

Talvez ao se analisar uma animação norte-americana voltada para o público infantil e enxergar implicações culturais e existenciais pode parecer que se esteja forçando a barra, tentando se dar alguma legitimidade para uma produção de caráter eminentemente comercial, que visa não só lucrar nas bilheterias como também vender um monte de bugigangas atreladas (brinquedos, lanches e afins). É claro que existem filmes e franquias no gênero que enveredam por essa lógica meramente mercantilista, mas também há exemplares que extrapolam tais intenções comerciais e procuram oferecer algo mais em suas pretensões artísticas (a grande maioria do que a Pixar já fez é atestado de tal prática). Nesse último caso, dá para enquadrar “Cegonhas – A história que não te contaram” (2016). O filme em questão obedece a uma fórmula eficiente de diversão – personagens carismáticos, roteiro bem delineado, grafismo expressivo, boas sequências de ação. A cereja do seu bolo, entretanto, está no sutil e contundente subtexto da sua trama, em que os mecanismos desumanos de exaltação à ambição de ascensão social e conseqüente desagregação das relações sócio-afetivas são expostos com ironia e sensibilidade. Há algo também de um certo encanto nostálgico na valorização da imaginação e inocência infantis perante um mundo cada vez mais dominado por avanços tecnológicos e consumismo desarvorado. Ainda que não traga o mesmo brilhantismo temático e estético de algumas animações contemporâneas (como “Wall-E” e “Detona Ralph!”), “Cegonhas” ainda consegue surpreender e comover o espectador pelo inusitado e mesmo coragem de algumas de suas soluções narrativas.

sexta-feira, outubro 14, 2016

Kubo e as cordas mágicas, de Travis Knight ***1/2

Há um estranho e fascinante conceito que perpassa toda a narrativa e a concepção estética da animação norte-americana “Kubo e as cordas mágicas” (2016) – a flexibilidade do papel. O protagonista do título tem como principal poder mágico a capacidade de moldar a forma e os movimentos de papéis através do toque de seu instrumento de cordas. A técnica de animação, misto de efeitos digitais e stop-motion, e o grafismo do traço sempre evocam essas figuras de papiros e folhas, gerando uma síntese entre fragilidade aparente e beleza. O fato da trama se passar no Japão e se referir a elementos da cultura nipônica, nesse sentido, não é gratuito, vide a técnica do origami que por diversas é mencionada em trechos fundamentais do roteiro. E há outros fortes pontos positivos nas escolhas artísticas do diretor Travis Knight que formam um todo poderoso e memorável: a caracterização bem delineada de personagens carismáticos, cenas de ação plenas de tensão e dramaticidade, trilha sonora de arranjos e melodias que primam pela sutileza e a contenção de sua utilização, refinado senso de humor. Nessa conjunção conceitual entre estética e temática, o resultado é uma narrativa encantadora que transita com desenvoltura entre o fabular, a aventura, o horror e o elegíaco, e que faz prevalecer como filosofia existencial um tributo à tolerância. 

quinta-feira, outubro 13, 2016

Lua em sagitário, de Márcia Paraíso *1/2

No meio de um cenário sócio-político tão conturbado como o atual, em que preconceitos e hipocrisias cada vez mais afloram com força, não deixa de ser salutar que um filme como “Lua em sagitário” (2015) apareça nos cinemas, principalmente pelo conteúdo de sua parte temática. A obra apresenta um retrato positivo e humano sobre os movimentos sociais, sempre tão marginalizados na visão da mídia oficial, além de procurar uma perspectiva mais sensível sobre os dilemas da adolescência feminina e que fuja de parâmetros óbvios e conservadores. E há uma cena em particular que surpreende pela contundência textual que é aquela do discurso do jovem Murilo (Fagundes Emanuel) sobre as raízes do conflito de classes na sociedade brasileira, um tema tabu dentro do cotidiano de novelas e noticiários pasteurizados da maioria das pessoas. O grande problema da produção dirigida por Márcia Paraíso é que a ousadia de sua temática não é acompanhada por uma construção narrativa e por um formalismo de relevo. A cineasta se acomoda em adequar a trama dentro de um formato de comédia dramática estilo “boy meets girl” pouco convincente e de encenação precária. Por diversas oportunidades, a impressão que se tem no desenvolvimento de situações e personagens é de uma rígida e superficial linguagem presa a estereótipos que retira muito da vida e desenvoltura da narrativa, fazendo tudo parecer um teatro escolar ou amador (qualquer cena que envolva os pais da protagonista Ana, por exemplo, é constrangedora na sua formatação simplória). Há uma sequência em que “Lua em sagitário” até dá uma ideia de que poderia ter sido uma experiência bem mais interessante como cinema que é quando Ana e Murilo ficam hospedados na casa de um velho casal hippie interpretado por Elke Maravilha e Serguei – os toques de lisergia e sensualidade na atmosfera de tais tomadas são meio esquisitas, mas apresentam muito mais vida e desafio existencial/artístico do que em todo o resto do filme. E há outros elementos positivos na obra: a garota Manuela Campagna tem uma forte presença cênica e a trilha sonora é repleta de ótimas canções nos gêneros pop e rock. Tais aspectos, entretanto, estão longe de salvar “Lua em sagitário” e apenas reforçam a expectativa frustrada de que a produção poderia ter sido muito melhor.

terça-feira, outubro 11, 2016

Viva a França!, de Christian Carion **1/2

É curioso como algumas obras ganham uma conotação diferenciada em virtude do período em que são lançadas. O atual crescimento mundial da xenofobia decorrente dos grandes fluxos migratórios provocados por conflitos étnicos e políticos faz com que “Viva a França!” (2015), ainda que verse sobre fatos que se sucederam durante a 2ª Guerra Mundial, provoque uma reflexão sobre a temática do preconceito e do seu uso político ao narrar a história da população de uma cidade do interior da França que é obrigada a abandonar seus lares e perambular por estradas e trilhas em fuga dos nazistas que recém invadiram o seu país. A produção dirigida por Christian Carion está bem longe de ser um trabalho excepcional em termos de linguagem cinematográfica, apostando numa narrativa bastante convencional, ainda que correta, e num roteiro de fortes traços melodramáticos que beira o novelesco. Mesmo a trilha sonora do veterano Enio Morricone se rende por vezes a clichês melosos (os temas bem mais expressivos no também recente “Os oito odiados” mostra que o velho mestre ainda é capaz de surpreender). Por outro lado, o elenco de atuações seguras e sutis conseguem compensar a abordagem artística um tanto mofada de Carion. No mais, resta à “Viva a França!” a já mencionada possibilidade de fazer sua plateia refletir sobre os estranhos e hipócritas descaminhos da sociedade ocidental na presente conjuntura sócio-política.

segunda-feira, outubro 10, 2016

Os senhores da guerra, de Tabajara Ruas *

Dá para dizer que pelo menos há duas coisas em que a produção gaúcha “Os senhores da guerra” (2014) acertou: o bom senso de marketing por lançar o filme em questão na semana farroupilha e o competente trabalho de Kapel Furman nos efeitos especiais (com destaque para a parte “gore” da coisa – vísceras e sangue proliferam de forma convincente). Fora esses dois aspectos, a obra dirigida por Tabajara Ruas naufraga da maneira clamorosa, principalmente pelos mesmos equívocos que vêm marcando esse gênero do drama de época regionalista gaúcho, em que o simples fato de ter como pano de fundo eventos históricos importantes procura mascarar uma falta de apuro na encenação e na dinâmica da narrativa (vide outros trabalhos falhados nesse linha como as adaptações cinematográficas recentes dos clássicos literários “Contos gauchescos” e “O tempo e o vento”). Não há uma fluência dramática no desenvolvimento de personagens e situações que os tornem críveis ou cativantes. Assim, o elenco interage e profere seus diálogos de maneira artificial e empostada, beirando um didatismo e mecanicidade que faz lembrar uma teatralização de terceira de um programa televisivo educativo estilo “telecurso 2º grau”. Ou seja, pode funcionar até numa sala de aula, mas como cinema está muito longe de convencer. Além disso, o roteiro peca demais na forma como personagens entram e saem da narrativa sem maiores explicações ou aprofundamento, sugerindo que algumas cenas devem ter ficado de fora na montagem e o que sobrou acabou mal costurado. Esse tom meio apressado na concepção da trama também fica evidente nas sequências de batalha (que deveriam ser o ápice existencial do filme), não havendo uma coreografia de impacto nas sequências de lutas e tiroteios, prevalecendo uma edição que picota a ação de uma maneira que parece querer esconder uma certa precariedade na encenação. A direção de fotografia é anódina dentro do seu estilo cartão postal, enquanto a trilha sonora envereda por uma obviedade em suas milongas de letras e melodias pouco marcantes. Diante de todas essas soluções artísticas nada inspiradas de “Os senhores da guerra”, mesmo boas ideias como a do texto em forma de poesia de um narrador/declamador, sugerindo uma espécie de síntese formal entre literatura e cinema, acaba se revelando apenas um recurso estético cansativo e sem força. Em um ano como esse, em que outras produções gaúchas (“Ponto zero”, “Errantes”, “Nós duas descendo a escada”) apareceram em nossas salas de cinema mostrando caminhos narrativos mais inquietantes e criativos, um filme como “Os senhores da guerra”, de linguagem cinematográfica tão mofada e destituída de vigor, acaba destinado a uma espécie de limbo de trabalhos inexpressivos.

sexta-feira, outubro 07, 2016

Corrida sem fim, de Monte Hellman ****

“Sem destino” (1969) é considerada como a obra fundamental do cinema a marcar o movimento da contracultura nos anos 60. A obra-prima de Denis Hopper ajudou a definir um estilo mais libertário de filmar e também uma abordagem temática contestadora dos valores e preconceitos pequeno-burgueses da sociedade ocidental, além de ajudar a construir o mito da estrada como uma espécie de reflexo de questionamentos existenciais. Ainda que mais obscura, a produção norte-americana “Corrida sem fim” (1971) aprofunda ainda mais esses preceitos artísticos de “Sem destino”. O diretor Monte Hellman delineia a sua narrativa de forma minimalista – em contraponto às corridas alucinadas que permeiam a trama, os “bastidores” que às envolvem tem uma caracterização dramática contemplativa e melancólica, enfatizando silêncios e diálogos algo elípticos. A estética na concepção visual obedece a uma estranha síntese entre o clássico e a concisão, em que direção de fotografia investe em enquadramentos que tanto dão uma ideia de imensidão épica das paisagens interioranas dos Estados Unidos quanto de melancolia e desolação, como se fosse uma espécie de atualização desolada dos faroestes de John Ford. Tal moldura formal revela uma sintonia extraordinária com o sutil subtexto do roteiro que enfatiza a sensação de inadequação e impossibilidade de aceitação das regras de convívio social por parte dos personagens desajustados que povoam a trama. Aliás, as atuações icônicas de James Taylor, Dennis Wilson e Warren Oates nos papeis de tais figuras outsiders representam outro ponto alto de verdadeira pérola escondida da filmografia norte-americana.

quinta-feira, outubro 06, 2016

Crooklyn, de Spike Lee ****

Em um primeiro momento, “Crookly” (1994) aparenta algo como um nostálgico e movimentado drama familiar situado no bairro nova-iorquino Brooklyn na virada das décadas 60 e 70. Por vezes, a estrutura narrativa acentua essa impressão ao formatar a trama em alguns momentos como se fosse uma sucessão de episódios entre o cômico e o pitoresco. Aos poucos, entretanto, os personagens e as próprias situações do roteiro vão ganhando unidade e mesmo maior profundidade psicológica. A história do processo de amadurecimento da pequena Troy (Zelda Harris) em meio a um conturbado ambiente familiar (pai música desempregado, mãe sobrecarregada e irmãos encapetados) ganha nuances dramáticas muito bem delineadas e também apresenta um forte subtexto sócio-político, em que a gradual tomada de consciência da protagonista da necessidade de fortalecer seu caráter e postura moral diante das dificuldades da vida se relaciona com um contexto histórico em que os negros norte-americanos passam a ser tornarem mais proativos e contestadores da discriminação que sofrem (não à toa, Martin Luther King, Angela Davis e Malcom X são originários desse cenário). Dessa forma, “Crooklyn” mostra notável sintonia com outros filmes de seu diretor Spike Lee que também apresentam essa temática social como “Faça a coisa certa” (1989), “Febre na selva” (1991) e “Malcom X” (1992). E também assim como em tais obras, estão lá boa parte das características mais expressivas do estilo do cineasta – a encenação vibrante, a concepção visual baseada em cores fortes e enquadramentos virtuosos, a montagem sintetizada numa dinâmica peculiar entre imagem e som. Nesse último quesito, “Crooklyn” é particularmente antológico na forma com que as maravilhosas canções de black music da trilha sonora se inserem na narrativa.

quarta-feira, outubro 05, 2016

Incompreendida, de Asia Argento ***1/2

Não se pode ser filha de um gênio perturbado como Dario Argento e fica incólume a isso. Asia Argento tem pautado a sua trajetória como atriz e cineasta por obras que sempre tangenciam a estranheza e a sordidez. Depois da descida aos infernos nas falsas memórias do pseudo-escritor J.T. Leroy no brilhante Maldito coração (2004), ela volta à função de diretora em Incompreendida (2014), obra de nítido cunho autobiográfico em que Asia focaliza alguns episódios de sua infância na época em que seus pais se separaram. Boatos e fofocas dizem que Dario Argento entrou em depressão depois de assistir ao resultado final. E não é para menos: ainda que o roteiro traga algumas convenções típicas do gênero do memorialismo cinematográfico, resvalando por vezes no sentimentalismo, o retrato que a diretora oferece é bastante visceral e cruel de uma rotina de incompreensão, indiferença e abandono por parte de seus pais. Mas o painel emocional elaborado por Asia não é unidimensional ou maniqueísta: ainda que pai (Gabriel Garko) e mãe (Charlotte Gainsbourg) sejam figuras bem escrotas em algumas situações, há também uma aura de fascinação em torno de suas figuras exuberantes. Nesse sentido, Argento por vezes incorpora uma estilização visual e narrativa que remete diretamente ao melhor da obra de Dario, além de evidenciar um trabalho de direção de arte sensacional na evocação da estética oitentista, com direito inclusive a uma memorável trilha sonora de pastiches de canções de típica sonoridade da época. Tais nuances formais e temáticas de Incompreendida fazem com que se imagine como seria um filme de horror dirigido por Asia.

terça-feira, outubro 04, 2016

O lar das crianças peculiares, de Tim Burton ***

Não que “O lar das crianças peculiares” (2016) seja um mau filme. Pelo contrário – perto dessas franquias de fantasia adolescente que proliferam aos montes nas salas de cinema ultimamente, a produção em questão até se destaca pela narrativa equilibrada e pela caracterização visual de criatividade acima da média. O que torna tal obra frustrante, entretanto, é o fato de se saber que quem é o seu diretor é Tim Burton, nome de quem se espera sempre muito mais. Por vezes, em algumas sequências, até dá para perceber aquela síntese de formalismo barroco e atmosfera bizarra que se tornou a grande marca artística de Burton. Fora isso, o traço autoral do cineasta aparece muito pouco, ficando imersa no roteiro genérico e numa certa assepsia estética. Ao invés de perverter os cânones narrativos típicos do gênero aventura contemporâneo e os moldar dentro de seus conceitos particulares, Burton se limita a readequar sua linguagem dentro de tal ortodoxia. O resultado final é competente e até consegue cativar por vezes a plateia, mas é duro saber que esse padrão bem comportado vem do mesmo cara que concebeu diversões alucinadas antológicas como “Batman – O retorno” (1992) e “Marte ataca!” (1996) ou geniais contos de fadas perversos como “Edward Mãos de Tesoura” (1990) ou “A lenda do cavaleiro sem cabeça” (1999).

segunda-feira, outubro 03, 2016

Sete homens e um destino, de Antoine Fuqua ***

Essa refilmagem do clássico faroeste de 1960 dirigido por John Sturges está bem longe de cair na vala comum do mero oportunismo. O que o diretor Antoine Fuqua faz em “Sete homens e um destino” (2016) é uma releitura equilibrada, que tanto moderniza algumas nuances temáticas e traços estéticos quanto preserva a narrativa tradicional de western mitológico e épico. É claro que a comparação que se faz entre as duas obras diz muito sobre a mudança na linguagem do cinema de ação que se operaram nas décadas que separam as duas versões. Diante do formalismo mais frenético da produção desse ano, o filme de Sturges parece contemplativo, quase como se algo proveniente do cinema europeu. Ainda assim, o trabalho de Fuqua apresenta um certo rigor em sua realização, com um roteiro que dá alguma profundidade psicológica para os seus personagens e que faz com que algumas situações da história tenham um subtexto sócio-político bem delineado (o discurso inicial do latifundiário-vilão Bartholomew Bogue sobre a ligação capitalismo e religião é bastante revelador sobre a hipócrita moral da sociedade ocidental), além de um formalismo eficiente na sua síntese de fotografia épica, edição bem dosada nos seus cortes e sequências de ação coreografadas com precisão em suas profusões de tiros e destruição (com destaque para toda a sequência final do duelo entre os protagonistas e as dezenas de facínoras comandados por Bogue). E mesmo aspectos que poderiam soar forçados, como o fato dos “mocinhos” representarem um conjunto étnico mais diversificado, acabam se inserindo com naturalidade na narrativa. Tais escolhas artísticas de Fuqua fazem com que o seu filme tenha uma tendência mais realista do que a obra original, que tinha uma atmosfera mais mítica, evidenciando ainda que o cinema de ação contemporâneo dos grandes estúdios ainda é capaz de cativar o espectador sem apelar para excessos pseudo-modernos como os do terrível “Esquadrão Suicida”.

sexta-feira, setembro 30, 2016

O silêncio do céu, de Marco Dutra ***1/2

Formatar um estilo autoral dentro do cinema de gênero parece ser a grande obsessão artística do diretor brasileiro Marco Dutra. Depois de enquadrar o horror num viés de crítica social em “Trabalhar cansa” (2011) e num bizarro trinômio família-religiosidade-loucura em “Quando eu era vivo” (2014), em “O silêncio do céu” (2016) o cineasta volta sua atenção para o suspense com fins de realizar uma contundente reflexão sobre a violência e o sexismo. Logo no início do filme, ele já afasta a trama de clichês recorrentes dentro do gênero em questão – mais importante para o protagonista Mario (Leonardo Sbaraglia) do que saber quem são os estupradores da sua esposa Diana (Carolina Dieckmann) é entender o contexto que levou a tal fato e também colocar em cheque suas fobias (inclusive aquela que impediu que ele fizesse algo para impedir o ato brutal que presenciou). Nessa perspectiva, Dutra constrói uma narrativa bastante atmosférica, valendo-se de uma eficiente narração de teor literário e uma encenação baseada fortemente na linguagem gestual e nos silêncios expressivos. A fotografia sombria e a elegante edição acentuam ainda mais a perturbadora aura de mistério da obra. Ao se aprofundar em sua investigação pessoal, Mario não se vê de frente apenas aos seus antagonistas, mas também diante dos desejos da sua mulher e de seus próprios medos e preconceitos. A vingança que engedra pode até inicialmente evocar algo de catártico, mas na verdade deixa claro a inevitabilidade de suas frustrações existenciais. Ainda que não tenha aquele genial clima de demência entre o desconcertante e o comovente de “Quando eu era vivo”, “O silêncio do céu” reforça o nome de Marco Dutra como um dos talentos mais expressivos a aparecerem no cinema nacional nos últimos anos.

O vale do amor, de Guillaume Nicloux ***1/2

Uma das fases mais expressivas na filmografia do diretor Roberto Rossellini foi quando ele incorporou o seu estilo naturalista que havia depurado em suas primeiras obras no neo-realismo italiano dentro de um formato de conto moral-metafísico. Em parceria com a sua esposa na época, Ingrid Bergman, lançou obras memoráveis nessa particular formatação (Stromboli, Europa 51, Viagem à Itália). A produção francesa “O vale do amor” (2015) se mostra como uma vigorosa extensão desses preceitos artísticos de Rossellini. Na maior parte de sua duração, a narrativa se mostra vinculada a uma encenação e ambientação de fortes tons naturalistas, em que a direção de fotografia de enquadramentos secos e iluminação crua e a edição de poucos cortes e ritmo austero acentuam uma atmosfera que beira o sufocante, tanto pela sensação física de calor severo que os protagonistas interpretados por Gérard Depardieu e Isabelle Huppert sentem por se encontrarem no escaldante Vale da Morte nos Estados Unidos quanto pelo mal estar psicológico causado pelo suicídio do filho de ambos. Há algo na encenação e no roteiro que evoca o documental, principalmente pelo fato de que características das personas de Depardieu e Huppert são incorporadas em seus personagens. Só que aos poucos alguns elementos de cinema fantástico vão se inserindo na narrativa, fazendo com que a atmosfera da obra trafegue ambiguamente entre uma possível desagregação mental dos indivíduos e uma comovente hipótese de transcendência mística. O fato de “O vale do amor” nunca deixar exatamente claro o que está acontecendo na tela aumenta a sua aura de mistério e explicita um perturbador teor sensorial à flor-da-pele.

quarta-feira, setembro 28, 2016

Lembranças de um amor eterno, de Giuseppe Tornatore **

Giuseppe Tornatore tem seus méritos como cineasta. Pode-se dizer que em décadas de carreira conseguiu criar uma espécie de marca autoral, fazendo uma espécie de síntese de melodrama convencional e formalismo correto. Os pontos altos de sua carreira (“Cinema Paradiso” e “Estamos todos bem”), ainda que festejados com exagero por boa de público e crítica, são exemplares expressivos dessa sua fórmula artística. Por vezes, entretanto, a receita de Tornatore desanda e resulta em equívocos como “Lembranças de um amor eterno” (2015). É claro que estão lá alguns preceitos do “cinema de qualidade”, como fotografia estilo cartão postal e edição acadêmica. O grande problema do filme é que a abordagem estética para a trama é desencontrada – os exageros sentimentais do roteiro pediam uma narrativa mais equilibrada e mesmo ambígua. É só lembrar do que Roman Polanski aprontou no extraordinário “O escritor fantasma” (201), em que uma histórica rocambolesca de suspense e intrigas era envolvida em ambientação doentia mista de ironia e goticismo e um barroquismo estético de rigor notável. No filme de Tornatore, não há esse senso artístico, fazendo com que uma trama apelativa beirando o ridículo seja levada extremamente a sério e não permita ao espectador algum espaço para a dúvida e tensão. O elemento fantástico que é sugerido no terço inicial do filme é logo extirpado em nome de um realismo novelesco, impressão essa acentuada pelas atuações canastronas de Jeremy Irons e Olga Kurylenko, com o roteiro também sugerindo um duvidoso elogio ao patriarcalismo. Se Polanski tivesse colocado as mãos em “Lembranças de um amor eterno”, provavelmente teríamos visto uma bela tiração de sarro com tais elementos temáticos moralistas. Do jeito que ficou, o filme apenas reforça o anacronismo estilístico de Tornatore.

terça-feira, setembro 27, 2016

Marguerite, de Xavier Giannoli ***

Ainda que sua estrutura narrativa se baseie em uma linguagem bastante acadêmica, a produção francesa “Marguerite” (2015) consegue causar algum impacto para o espectador pela sobriedade do seu formalismo e pela maturidade humanista da sua abordagem temática. Há todo o requinte visual esperado dentro de um filme de época de grande orçamento, mas tal cuidado não implica necessariamente numa assepsia estética. O diretor Xavier Giannoli faz com que a bela fotografia de paisagens interioranas, interiores suntuosos e prédios de arquitetura sofisticada tenha o contraponto de uma atmosfera sombria e melancólica, com direito inclusive a algo de sordidez e mesmo bizarro (as figuras do serviçal exótico e sorumbático e a da mulher barbada são interessantes achados dramáticos). O roteiro apresenta um subtexto intimista e social sutil e contundente, ao refletir sobre as hipocrisias e preconceitos de uma nobreza em decadência na França da primeira metade do século XX e mostrar como o conflito de classes se manifestava mesmo dentro de uma relação matrimonial (a burguesia deslumbrada versus a aristocracia parasita). O filme de Giannoli também aproveita com sensibilidade o fato de sua trama se desenvolver nos âmbitos da música e do teatro, tendo uma bela trilha sonora que se insere de maneira precisa na narrativa e números operísticos que trazem uma ambiguidade na sua encenação, entre o decadentismo e o encanto. Diante de tais acertos estéticos e textuais, “Marguerite” acaba se revelando bastante superior a “Florence” (2016), produção norte-americana que baseia nos mesmos fatos reais que inspiraram a obra de Giannoli.

segunda-feira, setembro 26, 2016

Mate-me por favor, de Anita Rocha da Silveira ***1/2

Dentro da narrativa de “Mate-me por favor” (2015), pode-se perceber referências e citações culturais diversas – algumas passagens de interação entre os personagens remetem a antigas tiras e animações dos Peanuts (é de se reparar que adultos nunca aparecem em cena, como era habitual no universo de Charlie Brown e seus amigos); uma atmosfera misto de hedonismo e tédio faz lembrar filmes de Larry Clark e Harmony Korine; composições visuais e tiradas irônicas se conectam com o cinema underground brasileiro (a sequência onírica em que sangue em profusão sai da boca da protagonista Bia é semelhante àquela que ficou célebre com Helena Ignêz em “Sem essa, Aranha”); a síntese entre a escatologia e o patológico faz lembrar tanto boa parte da filmografia de David Cronenberg quanto os quadrinhos de Charlie Burns. O filme da diretora Anita Rocha da Silveira, entretanto, está longe de se resumir a uma simples junção de tiradas artísticas espertas. A cineasta combina com bizarra naturalidade esses elementos diversos, compondo uma obra que se estrutura como um conto entre o fabular e o horror para fazer uma sardônica e desoladora reflexão sobre a juventude e o cenário sócio-cultural brasileiro. No terço inicial do filme, o tom da narrativa demora a encaixar, principalmente pelo fato da complexidade de como o fantástico e o realismo devem se entrelaçar. Quando Anita Silveira consegue azeitar a conexão entre esses dois planos existenciais, “Mate-me por favor” se configura como uma doentia e encantadora viagem pelo imaginário pequeno-burguês ocidental. A trama até sugere inicialmente um viés de suspense tradicional ao enfatizar o mote do mistério de um assassino de adolescentes, mas aos poucos esse foco vai se dissipando e a caracterização de personagens e situações se torna difusa. Em meio a coreografias funk, pregações evangélicas alucinadas, sexualidade à flor-da-pele e desencontros amorosos “boy meets girl” a lá John Hughes, as jovens criaturas que se arrastam na narrativa como fotogênicos zumbis entram numa espiral de morbidez e desagregação mental que desemboca numa perturbadora e apocalíptica sequência final. Ao invés das leituras reducionistas a simplificar os males da sociedade contemporânea como patéticas projeções maniqueístas, a obra de Anita Silveira vê a violência que grassa na atualidade como a manifestação de um imaginário coletivo distorcido por valores hipócritas e obscurantistas.

sexta-feira, setembro 23, 2016

Samurai, de Gaspar Scheuer ***

É um fato curioso que a produção argentina “Samurai” (2012) tenha sido exibida dentro de uma mostra chamada Ciclo de Cinema Gauchesco, evento esse decorrente das comemorações da semana farroupilha. Isso porque essa última tem por escopo existencial a celebração hipócrita de valores reacionários e sexistas baseado na exploração da mão-de-obra barata de peões por parte de grandes estancieiros e na submissão da mulher, enquanto o filme do diretor Gaspar Scheuer propõe um olhar revisionista crítico de tal contexto histórico e comportamental. Para isso, a trama do filme traz como foco principal um aspecto insólito, a de imigrantes japoneses que se fixam nos pampas no final do século XIX, fugindo de perseguições políticas em seu país de origem, e acabam sendo oprimidos na terra estrangeira para onde se refugiaram. Num primeiro momento, a família do protagonista Takeo entra num dilema existencial, em que a herança cultural do avô samurai se mostra ameaçada diante da nova realidade em que se encontram. Com o desenvolvimento da história, entretanto, essa mesma tradição nativa começa a se revelar opressora no sentido de impedir uma visão mais ampla por parte dos indivíduos diante de uma situação sócio-econômica nova e conturbada. Acaba sendo estabelecida uma correlação entre as tradições nipônicas e gaúchas, mostrando de maneira sutil e contundente como o discurso oficial de valoração da bravura e de uma virilidade “macha” na realidade esconde um panorama de exploração e opressão social. Dentro dessa visão sombria e melancólica, Scheuer incorpora uma estética que revela um certo teor oriental na forma contemplativa com que articula sua narrativa, tanto em termos de atmosfera quanto em concepção visual.

quinta-feira, setembro 22, 2016

Bruxa de Blair, de Adam Wingard *1/2

Antes de mais nada, convém deixar claro uma coisa: “A bruxa de Blair” (1999) não inventou o formato falso documentário filmado em perspectiva subjetiva, ou seja, “registrado” por um dos personagens. Tal abordagem já havia sido utilizada no clássico gore italiano “Canibal holocausto” (1980) – por sinal, com muito mais classe narrativa e impacto sensorial. A obra de Ruggero Deodato, inclusive, também utilizou algumas criativas estratégias de marketing. Anos depois, a referida produção norte-americana repetiu alguns dos preceitos artísticos e mercadológicos, tendo por vantagem a possibilidade de usar a internet como eficaz instrumento de divulgação. Num contexto geral, dá para dizer que foi mais um fenômeno de propaganda criativa do que propriamente um filme realmente interessante, apesar de sua estética ter influenciado um sem número de trabalhos de horror. Nesse contexto, sua continuação, “Bruxa de Blair” (2016), é ainda mais frustrante, pois não traz o relativo ineditismo estético-marqueteiro da obra original e nem mesmo a simpática fuleirice formal de outrora. À moda da franquia “Atividade paranormal”, o mistério do inexplicável, talvez o maior charme do filme de 1999, é deixado de lado para investir num roteiro que explica tudo, além de um uso maior de efeitos especiais profissionais deixar tudo com uma formatação ainda mais derivativa e genérica. De certa forma, todos esses equívocos fazem com que “Bruxa de Blair” se mostre como uma obra emblemática dos nossos tempos, em que picaretices mercantilistas como essa refletem indústria e público presos dentro de um círculo vicioso de busca de lucro fácil e produtos culturais insossos e amorfos.

quarta-feira, setembro 21, 2016

Conexão Escobar, de Brad Furman **

A profusão de séries, documentários, reportagens e afins, aliado a um distanciamento temporal, faz com que se crie uma espécie de febre de atração pela figura do mega traficante Pablo Escobar. Dessa maneira, nada mais natural que apareça mais uma produção cinematográfica a ter a sua figura como dos principais focos temáticos. Em “Conexão Escobar” (2016), ele praticamente não dá as caras, com a trama tendo como personagens mais presentes policiais que o investigavam e traficantes que giravam em torno de sua figura. O roteiro tem como protagonista o oficial de alfândega Robert Mazur (Bryan Cranston), que se infiltrou na organização de Escobar como um falso “lavador” de dinheiro sujo visando desvendar a teia econômica-criminosa de tráfico de drogas arquitetada pelo chefão e seus cúmplices. O artesanato narrativo engedrado pelo diretor Brad Furman é competente, por vezes até evocando narrativas semelhantes que apresentam aquela atmosfera ambígua de atração e repulsa pelo ambiente do crime que é típica de algumas das melhores obras de Martin Scorsese (“Caminhos perigosos”, “Bons companheiros”, “Cassino”, “Infiltrados”). Mas essa pretensão artística de Furman acaba não se justificando, principalmente pelo fato dele estar longe de ter a genialidade estética/existencial de Scorsese. Mesmo alguns truques formais aparentemente ousados como planos-sequência soam apenas como mero artificio decorativo em meio a uma abordagem artística convencional e que por várias vezes resvala num moralismo conservador, além de apresentar personagens unidimensionais em excesso e que chegam até a resvalar na burrice. Nesse sentido, a absurda sequência final do falso casamento de Mazur é um primor de cretinice – é até difícil acreditar que o roteiro tenha se baseado em fatos reais.

segunda-feira, setembro 19, 2016

Nós duas descendo a escada, de Fabiano de Souza ***

Não deixa de ter algo de simbólico no fato de que “Nós duas descendo a escada” (2015) tenha estreado algumas poucas semanas antes do 20 de setembro, data de comemoração da “revolução” farroupilha. Na realidade, a efeméride citada serve muito mais para celebrar um certo “gauchismo” de viver, essa coisa bem bairrista a legitimar tradições e concepções preconceituosas. Nesse sentido, um filme como esse mencionado do diretor Fabiano de Souza se coloca bastante na contramão, ao trazer no seu amago um desejo de ser universal e libertário. Tal visão artística fica evidente na forma com que a cidade de Porto Alegre é retratada, numa abordagem que sugere um certo cosmopolitismo, não apresentando ranços regionalistas. Essa caracterização na ambientação da produção se correlaciona com a maneira com que o roteiro contextualiza a temática da homossexualidade, em que as noções de culpa e preconceito praticamente não dão as caras. Ainda que a trama tenha um viés principal intimista, a conjunção dessa humanista visão de mundo em relação a cultura e comportamento revelam um subtexto sócio-político sutil e contundente, além de colocar o filme em sintonia com obras contemporâneas marcantes dessa década como “Azul é a cor mais quente” (2013) e “Boi neon” (2015).


Em termos formais, “Nós duas descendo a escada” se estrutura em uma narrativa que evoca alguns clichês típicos de comédia romântica, mas que também são pervertidos por truques estéticos que remetem a algumas das principais obras da Nouvelle Vague e a uma série de referências e citações culturais (filmes, livros, música), além de trazer na sua encenação e em algumas situações do roteiro uma crueza de pegada realista. Essa síntese artística demora um pouco para dar liga, mas quando as coisas engrenam, principalmente a partir da primeira sequência de sexo entre as protagonistas Adri (Miriã Possani) e Mona (Carina Dias), a narrativa ganha uma fluência envolvente que ora diverte por algumas tiradas dos diálogos e sacadas da edição (o detalhe de usar manchetes de jornal como “marcação” do tempo é um recurso bem engenhoso), ora comove pela intensidade na interação entre as personagens principais. Como cereja do bolo, a ótima trilha sonora, baseada em temas de Frank Jorge e belas canções de artistas como Karina Buhr, Tulipa Ruiz e Arthur de Farias, pontua com sensibilidade a narrativa. Nesse conjunto de acertos, “Nós duas descendo a escada” reforça a ideia de coerência artística na filmografia de Fabiano de Souza, que conta ainda com outras produções marcantes como “A última estrada da praia” (2011), “Os filmes estão vivos” (2013) e “Ocidentes” (2014).

sexta-feira, setembro 16, 2016

Herança de sangue, de Jean-François Richet ***1/2

O extraordinário drama policial francês “Inimigo público nº 1” (2008) fez com que o nome do diretor Jean-François Richet se tornasse um dos mais promissores para o gênero. Quando saiu a notícia de que sua próxima realização para um estúdio norte-americano traria como protagonista Mel Gibson, um dos grandes ícones de filmes de ação nos anos 80 e 90 (vide as franquias “Mad Max” e “Máquina Mortífera”), as expectativas se tornaram altas. “Herança de sangue” (2016), o resultado desse encontro de titãs, não é tão bom quanto se poderia esperar, principalmente pelo fato de que Richet teve de se enquadrar dentro de algumas convenções formais e temáticas mais comportadas típica do cinema norte-americano comercial. Ainda assim, o saldo final é positivo e memorável. O cineasta francês não é adepto da escola contemporânea de ação de câmeras tremidas e edição super-picotada – sua narrativa tem um talhe clássico, contando ainda com uma encenação que valoriza muito a composição visual e a clareza de movimentos. Tal noção cênica realça ainda mais a figura carismática e sagaz de Gibson no papel do protagonista John Link, cuja interpretação tem uma combinação notável entre serenidade e resignação trágica. Apesar de uma certa previsibilidade do roteiro, há uma ambiguidade inquietante na caracterização de situações e personagens, em que o passado obscuro de determinadas figuras da trama é evocado de maneira sutil e incômoda. Todas essas particularidades fazem de “Herança de sangue” uma relevante obra no estilo “policial casca grossa”, coisa rara no gênero nos dias de hoje.

quinta-feira, setembro 15, 2016

O homem nas trevas, de Fede Alvarez ***

Na refilmagem de “A morte do demônio” (2013), o diretor uruguaio Fede Alvarez já havia mostrado que tinha uma boa mão para o cinema de horror. Ainda que não tivesse o mesmo grau de inventividade de Sam Raimi, o responsável pelo filme original, demonstrou um considerável grau de criatividade na encenação e mesmo em certas nuances perturbadoras do roteiro. Em seu novo filme, “O homem nas trevas” (2016), ele se confirma como um nome interessante dentro do gênero. Narrativa e trama se estruturam nos moldes e clichês tradicionais do horror, mas o vigor do formalismo de Alvarez e o subtexto algo perverso da história colocam a produção em um nível acima da média. O truque temático básico de concentrar a narrativa dentro do espaço físico limitado de uma velha casa é explorado com habilidade, valorizando planos-sequência detalhistas, a atmosfera lúgubre e a direção de fotografia que evoca um certo gótico em seus enquadramentos e iluminação. É interessante também como a questão social e econômica da atual conjuntura dos Estados Unidos e uma ambiguidade na delimitação das fronteiras entre o bem e o mal dão uma perturbadora aura de sordidez e profundidade psicológica para os personagens e situações da trama. Dentro dessa bem delineada abordagem artística e existencial de Alvarez, mesmo o gancho na conclusão do filme para uma possível continuação não parece meramente oportunista – há uma coerência na impossibilidade de um final feliz redentor para a protagonista arrivista Rocky (Jane Levy).

quarta-feira, setembro 14, 2016

Agnus Dei, de Anne Fontaine **1/2

Uma obra que tem como temática freiras polonesas estupradas durante a 2ª Guerra Mundial já tem um potencial claro para ser explosiva. Talvez se fosse realizada nas décadas de 60 e 70 poderia receber um tratamento tipicamente exploitation. No caso de “Agnus Dei” (2015), entretanto, a abordagem é mais solene e sutil. A diretora Anne Fontaine prefere enfatizar mais as consequências psicológicas e morais do que investir no grafismo explícito das religiosas sendo violentadas. Nesse sentido, a atmosfera do filme é mais de uma certa sobriedade emocional e de uma incômoda tensão. O subtexto do roteiro questiona os fundamentos de uma sociedade machista e patriarcal que força as vítimas a terem de se comportar como se fossem culpadas pelas brutalidades que sofreram. Ainda que tenha esse caráter de contestação, em termos formais a produção prima por um tom asséptico na narrativa e em sua concepção visual, o que reduz consideravelmente a sua força. E mesmo dentro de seu perfil de crítica social e cultural a obra de Fontaine acaba caindo na superficialidade, pois há um certo maniqueísmo na caracterização de algumas situações e personagens, principalmente na figura da madre superiora, deixando-se de se apresentar uma visão mais contundente sobre os absurdos dogmas religiosos que impedem as freiras de se tornarem mais proativas em suas atitudes.

terça-feira, setembro 13, 2016

El Bola, de Achero Mañas **1/2

Dentro da temática das atribulações da adolescência, a produção espanhola “El Bola” (2000) até surpreende em alguns momentos por um certo vigor na encenação e pelo fato do roteiro apresentar algumas sutilezas. Num contexto geral, a trama apresenta uma visão crítica sobre a violência e intolerância inerentes ao patriarcalismo da sociedade ocidental. Nesse aspecto, o fato do jovem protagonista Pablo (Juan José Ballesta), constantemente brutalizado pelo próprio pai, só encontrar alento na família mais liberal do amigo Alfredo (Pablo Galán) não deixa de ter um caráter simbólico, remetendo a um aspecto existencial que há décadas aparece de forma recorrente no cinema espanhol – o conflito entre os valores repressores da sociedade tradicional herdeira do franquismo e o humanismo e irreverência que marca parte do país após a queda do ditador. É claro que o diretor Achero Mañas não apresenta o mesmo grau de ousadia e excelência artística para abordar tal assunto de um Pedro Almodovar (é só lembrar o que esse aprontou no extraordinário “A má educação”) e sua estética bem comportada não chega a ser muito memorável, mas ainda assim “El Bola” não deixa de causar uma certa perturbação para o espectador.

segunda-feira, setembro 12, 2016

Errante - Um filme de encontros, de Gustavo Spolidoro ***

Em relação ao longa-metragem anterior de Gustavo Spolidoro, “Morro do céu” (2009), o filme mais recente do diretor gaúcho, “Errante – Um filme de encontros” (2014), representa uma radicalização dentro da sua concepção no gênero documentário. Spolidoro deixa a narrativa e a câmera fluírem de acordo com seus sonhos e devaneios, além de contarem também com os acasos do destino. Não se trata de uma obra que busca a perfeição formal e mesmo uma linha temática que se mostre coerente sempre. Por vezes, tal síntese estética-existencial é incômoda, quase resvalando num aparente “amadorismo”, principalmente em seu terço inicial, quando o cineasta parece estar procurando um caminho mais definido e deixa expresso para o espectador suas inquietações e ambições para o seu filme. Numa dessas suas digressões, Spolidoro cita Jean Rouch e isso não é gratuito, pois “Errante” trafega numa bifurcação entre o documentário etnológico de Rouch e o gosto pelos depoimentos de entrevistados que variam naturalmente entre o banal e o profundo que era típico na filmografia de Eduardo Coutinho. Essa junção de influências e referências, contudo, não implica num simples pastiche de estilos alheios. Pelo contrário: há uma aura de certa originalidade que em determinado momento, de maneira sutil, envolve a plateia pela maneira como o insólito se insere dentro do cotidiano. Dentro de um “roteiro” em que convivem em bizarra harmonia na mesma trama estrangeiros radicados no Brasil ou apenas de passagem, idosos aposentados jogando conversa fora ou vagado pela cidade num rumo obscuro, um criador de marionetes, um jogador de bocha que se diz entendido em fósseis, gatos domésticos e cachorros vira-latas, o fluxo sensorial e mesmo conceitual da câmera de Spolidoro deseja se interligar com o olhar do próprio espectador ao sugerir que se esse último concentrasse a sua atenção naquilo que lhe parece corriqueiro e desimportante poderia encontrar algo de estranho e fascinante, e , quem sabe, haveria até a possibilidade de ingressar universo quase paralelo.

sexta-feira, setembro 09, 2016

Jornada nas estrelas: Sem fronteiras, de Justin Lin ***

É interessante observar que nos últimos episódios das franquias cinematográficas “Jornada nas estrelas” e “Guerra nas estrelas” as diferenças existenciais entre as duas ficam bastante evidenciadas. Enquanto a saga criada por George Lucas é uma síntese de escolas diferentes no gênero melodrama de aventura (histórias de capa e espada, faroestes, mitologias diversas) cuja trama se desenvolve dentro de um ambiente de espaço sideral e planetas alienígenas, as produções derivadas do conceito original de Gene Roddenberry apresentam uma ligação mais aprofundada com as questões pertinentes ao gênero ficção-científica. Ainda que de forma sutil, pode-se perceber no roteiro de “Sem fronteiras” (2016) situações que envolvem elementos que sempre estiveram rondando os filmes e seriados de “Jornada nas estrelas”: o conflito entre crenças pessoais e místicas com o raciocínio científico, a necessidade do ser humano expandir seus horizontes físicos e culturais através das viagens intergalácticas e o contato com outras civilizações, a busca da concretização da utopia de harmonia entre diferentes raças (no filme em questão, sintetizado na figura do planeta-nave que agrega seres humanos e diversos povos alienígenas, além do fato de se mostrar com naturalidade a homossexualidade do Sr. Sulu). É grande mérito do diretor Justin Lin conseguir conciliar esse subtexto humanista dentro de uma estrutura de narrativa de ação. Os dilemas da trama básica são até simples e seu desenvolvimento traz algumas obviedades, mas a fluência da encenação e os efeitos digitais de visual criativo e expressivo apresentam um resultado envolvente. No conjunto geral, talvez esse seja o filme da retomada concebida por J.J. Abrams que mais se aproxima do espírito característico da série clássica, sem que com isso se caia no mero revivalismo oportunista (ao contrário da simples nostalgia mofada de “O despertar da força”).

quinta-feira, setembro 08, 2016

Funcionário do mês, de Gennaro Nunziante **

Imagine que Renato Aragão em sua fase menos inspirada resolvesse fazer uma comédia a satirizar o funcionalismo público no Brasil. De certa forma, até não chega a ser um grande exercício de imaginação, pois a grande onda atual no humor brasileiro é se mostrar como um transgressor de direita... Mas se a hipótese de um Didi Mocó burocrata não parece tão absurda, então dá para se ter uma ideia do que representa a produção italiana “Funcionário do mês” (2016). A trama com o protagonista Checco (Checco Zalone), um funcionário público obcecado por não perder a estabilidade, até guarda algumas boas piadas. E é interessante a proposta do diretor Gennaro Nunziante de enquadrar uma temática de forte caráter social dentro de uma formatação de comédia escrachada. O problema é que a encenação é tão caricata que com o tempo acaba se tornando enfadonha, além da visão existencial da obra sobre questões complexas como reformas administrativas e desemprego cair em reducionismos preconceituosos e vazios. É consenso que o humor no geral tenha uma função de contestação dos valores morais e sociais do status quo vigente, mas “Funcionário do mês” apenas se limita a propagar um discurso que na verdade é a ladainha favorita de grandes corporações e da mídia oficial e dos políticos que as defendem.

terça-feira, setembro 06, 2016

Aquarius, de Kleber Mendonça Filho ****

Por mais que “Aquarius” (2016) possa estar dividindo opiniões e causando polêmicas variadas, um aspecto é inegável no filme do diretor Kleber Mendonça Filho: a capacidade de captar o espírito de uma época. É impressionante como ao longo da trama se identifica questões que trazem uma identificação com o cotidiano contemporâneo do espectador. Estão lá o conflito e preconceito de classes, a brutalidade verbal e física nas relações humanas, a ambição econômica e social tomada como valor fundamental, a degradação da concepção humanista de vida, a relação intrínseca entre religião e poder econômico, o moralismo obtuso como máscara de interesses obscuros. Mendonça Filho embaralha toda essa temática conturbada dentro de uma estrutura narrativa típica de um filme de horror, envolvida em uma linguagem cinematográfica repleta de simbologias simples e eficazes. O fato de se valer do cinema de gênero é uma sacada estética e existencial extraordinária por parte do cineasta, fazendo lembrar um recurso narrativo semelhante que Marco Dutra havia articulado no impressionante “Quando eu era vivo” (2014) – ainda que a temática se associe a um viés realista, o barroquismo formal e o exagero na encenação e em determinadas passagens do roteiro amplificam ainda mais o mal-estar em decorrência de uma sociedade em desequilíbrio moral e ético. Tudo na protagonista Clara (Sônia Braga) remete ao arquétipo de uma heroína: a defesa irredutível de seus direitos, a percepção humanista aguçada, o gosto cultural hiper-sensível (que é um gancho genial para uma trilha sonora repleta de canções magníficas), enquanto o seu antagonista Humberto Carrão (Diego Bonfim), um ganancioso especulador imobiliário, recebe uma caracterização entre o odioso e o patético. Tais elementos na composição dramática, associados a passagens da trama que configuram um embate contundente entre o “bem” e o “mal”, podem sugerir um aparente e simplista maniqueísmo da obra. O que evidencia na realidade, entretanto, é uma postura artística ousada e desafiadora por parte de “Aquarius” no questionamento de valores de uma sociedade dominada pelo mercantilismo e exploração humana. O filme de Mendonça Filho exala uma fúria sincera e visceral, tendo por resultado final uma catarse desconcertante e redentora.

segunda-feira, setembro 05, 2016

Loucas de alegria, de Paolo Virzi ***

Os responsáveis pela distribuição no Brasil da produção italiana “Loucas de alegria” (2016) deveriam se cuidar, pois a forma a forma escolhida para divulgar o filme em questão é pura propaganda enganosa. O cartaz e o título brasileiro sugerem uma comédia agridoce, repleta de edificantes lições de vida, daquelas que senhoras na terceira idade adoram para animar suas tardes. É bem provável que as velhinhas levem um belo susto quando assistirem de fato à obra do diretor Paolo Virzi. A trama até guarda uma estrutura típica de melodrama, resvalando por vezes no sentimentalismo. O que prevalece na maior parte do tempo da narrativa, entretanto, é uma encenação vigorosa e uma caracterização bastante crua e perturbadora de situações e personagens. Por trás do viés cômico, há um misto de sutileza e contundência ao retratar o comportamento humano tanto por parte das duas protagonistas com distúrbio mental quanto nos valores hipócritas daqueles que são envolvidos em suas confusões e desventuras. O registro formal concebido por Virzi tem um certo grau de perversidade, em que a direção de fotografia em determinados momentos privilegia um estilo cartão-postal de enquadramentos e iluminação, para logo em seguida enveredar em sequências de atmosfera entre o sujo e o sórdido. As atrizes que interpretam as personagens principais também representam outro ponto alto do filme – enquanto Valeria Bruni Tedeschi é pura exuberância alucinada, Micaela Ramazzotti cativa na sua síntese de doçura e violência, com a interação entre ambas apresentando uma dinâmica complexa, divertida e por vezes até assustadora, demonstrando notável sintonia com as próprias concepções artísticas de Virzi.

sexta-feira, setembro 02, 2016

Código das ruas, de Spike Lee **

No papel, “Código das ruas” (2004) tinha tudo para ser uma obra memorável. A trama remete a estrutura clássica dos filmes policiais que narram a ascensão de gângsteres, mas também se relacionando com a questão dos conflitos de classes e etnias bastante presente na sociedade norte-americana contemporânea. Como condutor da narrativa, está Spike Lee, já bastante calejado na temática racial e um dos diretores contemporâneos de linguagem formal mais apurada. É só lembrar, por exemplo, que é o cineasta responsável pela explosiva cinebiografia “Malcolm X” (1992), obra que já apresentava uma extraordinária síntese dos elementos acima mencionados. Ocorre, entretanto, que em “Código das ruas” as coisas não se acertam como o esperado... O problema não é tanto o roteiro esquemático e previsível – o grande incômodo é a direção sem brilho e derivativa de Spike Lee. Não há aquela encenação vibrante de “Faça a coisa certa” (1989), a ironia madura de “Febre da selva” (1991), as sutilezas narrativas de “Crooklyn” (1994), a dramaticidade à flor-da-pele de “A última noite” (2002), a ação lapidada à perfeição de “O plano perfeito” (2006), a atmosfera operística e sórdida de “O verão de Sam” (1999), a tensão perturbadora de “Irmãos de sangue” (1996). O que se tem é um produto genérico e sem graça, que parece feito por um tarefeiro qualquer, não se podendo perceber em qualquer instante o traço autoral característico de Spike Lee.

quinta-feira, setembro 01, 2016

A morte de J.P. Cuenca, de João Paulo Cuenca ***

Seria fácil enquadrar “A morte de J.P. Cuenca” (2014) como uma pretensiosa e desagradável egotrip de seu diretor/roteirista/principal ator João Paulo Cuenca. Não se trata especialmente de uma obra que traga cenas de grande apuro estético, e por vezes a aridez de seu formalismo pode até causar um certo enfado. Na sua mistura de elementos de encenações ficcionais e documentais, a produção parece buscar uma brecha dimensional específica, quase como se fosse um pesadelo se materializando de forma crua na realidade. Nessa particular concepção artística, a crise que envolve a identidade do autor, a do anônimo morto que tomou a sua identidade, tanto se aprofunda como uma perturbadora crise existencial como por uma espécie de radiografia social da degradação moral da cidade do Rio de Janeiro, cada vez mais gentrificada por desumanos condomínios de luxo que sugerem um apartheid social. Morbidez e ambiguidade são constantes na atmosfera do filme, fazendo com que a recriação do real vá se dissolvendo de forma progressiva e o elemento do delírio se torne cada vez mais presente, culminando no rito final de sexo e morte. Ainda que esse coquetel não seja dos mais palatáveis, é inegável também a capacidade de inquietar o espectador por parte de “A morte de J.P. Cuenca”.