A filmografia de Julie Delpy como diretora parece girar
dentro de uma fórmula narrativa simples – crônicas familiares que além da
reflexão sobre as relações pessoais também apresentam um subtexto
sócio-político. Dentro desse conceito artístico, o ponto alto da carreira da
cineasta é o extraordinário “O verão do Skylab” (2011). “Lolo: O filho da minha
namorada” (2015) não apresenta o mesmo nível de qualidade, mas ainda assim tem
os seus pontos inquietantes. Num primeiro momento, o espectador se sente
envolvido pelos eficientes truques cômicos relacionados aos planos perversos do
jovem Lolo (Vincent Lacoste) para acabar com o namoro de sua mãe, a cosmopolita
Violette (Delpy), com o ingênuo interiorano Jean-René (Dany Boon), rendendo
algumas divertidas cenas que envolvem um humor físico que beira o pastelão e o
escatológico. Numa visão mais atenta da trama e mesmo da encenação concebida
por Delpy, entretanto, pode-se perceber algo de sombrio e irônico em detalhes
como a caracterização psicótica de Lolo, a violência física e psicológica de
algumas das “brincadeiras” do personagem-título e as sutis ironias que se fazem
em determinadas situações do roteiro que envolvem questões de classe e a atual
situação econômica da Europa. De se considerar também a crueza de alguns
diálogos a expor a sexualidades e as seguranças existenciais de uma mulher
adulta na sociedade contemporânea. Ainda que o final feliz agridoce do filme
represente uma espécie de concessão típica de uma comédia romântica, “Lolo”
reforça a impressão de que Delpy possui um traço autoral na forma com que
elabora suas narrativas cinematográficas.
Boa parte de amigos e conhecidos costuma dizer que as minhas recomendações para filmes funcionam ao contrário: quando eu digo que o filme é bom é porque na realidade ele é uma bomba, e vice-versa. Aí a explicação para o nome do blog... A minha intenção nesse espaço é falar sobre qualquer tipo de filme: bons e ruins, novos ou antigos, blockbusters ou obscuridades. Cotações: 0 a 4 estrelas.
quinta-feira, novembro 03, 2016
terça-feira, novembro 01, 2016
Demônio de neon, de Nicolas Winding Refn ****
A obra-prima “Drive” (2011) se provou como uma
extraordinária exceção dentro do estilo habitual do diretor Nicolas Winding
Refn, pois era uma obra marcada por uma narrativa precisa e de formalismo
clássico que se adaptava de acordo com a marca autoral do cineasta. Nas demais
produções de sua filmografia, o dinamarquês investe numa abordagem que valoriza
muito mais o sensorial e o atmosférico do que os meandros do roteiro, vide
filmes antológicos como “O guerreiro silencioso” (2009) e “Apenas deus perdoa”
(2013). “Demônio de neon” (2016) é uma continuação dos preceitos artísticos de
Refn – imagine-se um conto moral às avessas sobre a beleza e a inocência
marcado por uma ambientação difusa de hedonismo, horror e delírio onírico e se
pode ter uma ideia do que representa essa estranha narrativa. As referências
visuais e temáticas são diversas e insólitas, como o horror sensual e barroco
de Mario Bava, as nuances enigmáticas de David Lynch, o realismo de corres
berrantes de algumas produções oitentistas (leia-se “O fundo do coração” e “Dublê
de corpo”). Refn amarra todas essas influências e citações dentro de uma linguagem
coesa e particular, fazendo o espectador entrar num vórtice de loucura,
violência e erotismo, ora repugnante, ora bizarramente encantador. O esmero
estético se manifesta em cada detalhe do filme e não se reduz a mero exibicionismo
técnico, revelando notável sintonia existencial com a própria natureza
misteriosa e simbolista do roteiro, conforme pode ser observado na climática trilha
sonora de temas eletrônicos, na fotografia que varia com notável desenvoltura
entre o sombrio sutil e o luminoso exagerado, na encenação de síntese desconcertante
entre o naturalismo e o estilizado, na caracterização maneirista e icônica dos
personagens. Por falar nisso, é curioso perceber que no elenco da produção está
Karl Grusman, que atuou no papel principal de “Love” (2015), de Gaspar Noé, cineasta
que é uma espécie de gêmeo criativo existencial de Refn.
segunda-feira, outubro 31, 2016
A nona vida de Louis Drax, de Alexandre Aja ***1/2
O diretor francês Alexandre Aja é um dos nomes mais
interessantes a terem surgidos no panorama mundial do cinema fantástico nos
últimos anos. Sua filmografia é baseada numa síntese artística bastante pessoal
e marcante, combinando grafismo exagerado, senso narrativo preciso e atmosferas
entre o doentio e o delirante, vide obras memoráveis como “Alta tensão” (2003),
“Viagem maldita” (2006) e “Piranha 3D” (2010). Em sua obra mais recente, “A
nona vida de Louis Drax” (2015), Aja mantém a sua marca autoral e ainda envereda
por uma insólita recriação do suspense psicológico característico de algumas
produções de Alfred Hitchcock (principalmente o clássico “Quando fala o coração”)
sob um prisma de conto fabular à maneira de Tim Burton e Guillermo Del Toro.
Essa junção de elementos estéticos diversos acaba tendo um resultado final
bastante coeso. A trama é algo rocambolesca, repleta de flashbacks e alternando
inclusive planos dimensionais (o real, o imaginário e o onírico), mas Aja
consegue dar uma unidade impressionante e nada confusa dentro desses universos
temporais e existenciais paralelos. Os elementos psicanalíticos podem parecer
manjados num primeiro momento ao versarem sobre pulsões homicidas, desejos
sexuais difusos, o mar como símbolo da segurança materna e mitomania, mas com o
tempo eles acabam se revelando funcionais e intrigantes, ainda mais quando se
integram ao apuro visual expressivo de Aja e a sua dinâmica narrativa que emula
uma verdadeira jornada dentro de um pesadelo úmido e sombrio. Dentro dessa
lógica artística peculiar e marcada pela morbidez romântica, o cineasta também
acerta na forma com que dirige o seu elenco, de quem arranca algumas composições
dramáticas antológicas, com destaque para a caracterização meio alucinada do
garoto Aiden Longworth no papel título e para atuação no estilo “loira
enigmática e fatal” de Sarah Gandon (e que faz lembrar algumas personas
inesquecíveis nessa linha criadas por Hitchcock).
sexta-feira, outubro 28, 2016
Terra estranha, de Kim Farrant ***1/2
As regiões desérticas da Austrália têm um histórico
interessante como cenário expressivo de produções relevantes na história do
cinema, vide produções antológicas como “A longa caminhada” (1971), “O corte da
navalha” (1984), “A proposta” (2006) e toda a franquia “Mad Max”. Essa
fascinante tradição se mantém em “Terra estranha” (2015), obra em que o deserto
australiano funciona quase como se fosse um personagem próprio da trama, ditando
não só as intempéries físicas sofridas pelos indivíduos como também servindo de
fator simbólico das confusões existenciais de tais figuras. Em sua superfície,
o roteiro tem como mote principal o desaparecimento de um casal de jovens
irmãos numa árida cidade interiorana e toda a sorte que dúvidas e suspeitas que
um evento como esse pode suscitar. A diretora Kim Farrant usa alguns clichês
narrativos do gênero suspense, mas essa rendição ao convencional é ilusória.
Aos poucos, a narrativa vai se tornando cada vez mais atmosférica e misteriosa,
dando vazão a uma série de cenas marcadas por um perturbador misto de languidez
a flor-da-pele, desejos difusos e frustrações sentimentais. A procura pelos
adolescentes vai se tornando um processo de expiação de culpas e acerto de
contas com o passado obscuro dos personagens. Farrant acerta no alvo ao não se
preocupar com as aparentes pontas soltas da trama, levando mais em conta as consequências
psíquicas dos fatos do que se concentrando em encontrar “bandidos”, o que fica
evidenciado na poética, enigmática e algo libertária conclusão do filme. A
abordagem estética adotada por Farrant para essa saga existencial é outro
grande acerto, com uma direção de fotografia magnífica a explorar a riqueza de
nuances imagéticas proporcionada pelos cenários desérticos em termos de
iluminação e enquadramentos, além da climática trilha sonora que acentua ainda
mais a síntese de mistério e delírio da narrativa. De se considerar ainda as
atuações de Nicole Kidman e Joseph Fiennes, que entregam algumas das
composições dramáticas mais complexas de suas carreiras.
quinta-feira, outubro 27, 2016
A passageira, de Salvador Del Solar ***
Assim como na produção argentina “Kóblic” (2016), o filme
peruano “A passageira” (2014) procura formatar uma reflexão sobre a ditadura
militar na América Latina dentro de uma estrutura de cinema de gênero (no caso,
o suspense policial). Se na citada obra portenha tal propósito fica apenas na
intenção, ainda que resulte num divertido faroeste reciclado, no trabalho do
diretor Salvador Del Solar essa síntese entre questionamento político-social e formatação
de gênero soa mais homogênea e convincente, tendo como principal responsável
para isso um roteiro muito bem delineado em seu desenvolvimento e subtextos. Há
nuances na trama que revelam um forte caráter simbólico a refletir uma
sociedade marcada pela opressão e exploração de classes. Nesse sentido, a
figura da personagem Celina (Magaly Solier), nativa de uma vila indígena
exterminada por militares na época da ditadura, é bastante emblemática – quando
adolescente, abusada por militares; na fase adulta, explorada por agiotas e
picaretas de classe média alta. Seu discurso final, indignado e no seu dialeto
nativo, representa a cena mais memorável de “A passageira” no seu misto de fúria
e frustração. A abordagem formal e textual de Del Solar para a história que
conta é marcada por uma sobriedade admirável, ainda que a narrativa se ressinta
de um certo excesso de convencionalismos. Ainda assim, “A passageira” consegue
preservar a sua capacidade de inquietar e se fixar por um tempo no imaginário
do espectador.
quarta-feira, outubro 26, 2016
Kóblic, de Sebastián Borensztein ***
O diretor argentino Sebastián Borensztein dá a impressão de
querer realizar uma revitalização de clichês de filmes de gênero. No medíocre “Um
conto chinês” (2011), fez uma espécie de recriação pálida de comédia romântica,
ainda que procurasse dar uma aparência ilusória de realismo dramático. Em sua
mais recente empreitada, “Kóblic” (2016), o cineasta busca uma espécie de síntese
entre drama político e policial, mas o que realmente atinge como resultado
final é um faroeste reciclado e por vezes até bem divertido. O roteiro insinua
uma pretensa seriedade ao evocar o drama de desaparecidos políticos que na
verdade eram jogados ao mar por agentes da repressão no período da ditadura
militar argentina nos anos 70 e 80. Mas essa aura solene é jogada por terra
diante dos furos da trama – se o protagonista Kóblic (Ricardo Darín) quer tanto
ficar incógnito numa cidadezinha fim de mundo do interior, por que se expõe
tanto saindo para beber no único bordel da região e também tendo um caso com a
companheira de um tipinho violento e execrável? Isso sem contar que em algumas
sequências o filme se perde em excessos melodramáticos, principalmente nas
partes românticas. Na verdade, a melhor forma de encarar “Kóblic” é como se
fosse um tipo de versão fuleira para “Os brutos também amam” (1953). A
caracterização do delegado vilão Velarde (Oscar Martinez), por exemplo, é um
primor de escrotidão e sordidez. E o terço final repleto de duelos e mortes
encenados com boa dinâmica e detalhamento visual é bem memorável. Em tais
cenas, Borensztein consegue dar uma certa ambientação mitológica cativante para
a sua obra, e com Darín conseguindo tendo uma interessante altivez icônica para
o seu personagem que faz lembrar algo do enigmático cowboy Shane.
terça-feira, outubro 25, 2016
Festa da salsicha, de Conrad Vernon e Greg Tiernan ***1/2
É intrigante que um dos filmes mais ácidos e contestadores
da atual temporada seja uma animação norte-americana cômica, desbocada e escatológica.
Mas esse é exatamente o caso em “Festa da salsicha” (2016). O filme dos
diretores Conrad Vernon e Greg Tiernan obedece a uma estrutura narrativa
fabular básica no gênero das animações, em que uma trama repleta de aventura e
alguns toques românticos traz em suas entrelinhas uma “moral da história”
envolvendo superação e amadurecimento, com direito, inclusive, a momentos
musicais entre o apoteótico e o meloso. Só que o roteiro que mostra alimentos
antropomorfizados de um supermercado que tomam consciência de que servem
somente para saciar a fome dos deuses gigantes (no caso, os seres humanos) na
realidade se mostra uma corrosiva diatribe contra alguns dos valores mais caros
da sociedade contemporânea. Na visão da obra, a religião só serve para iludir
ignorantes incautos para que esses não questionem uma realidade de opressão e
exploração, fazendo com que uma classe dominante se beneficie dessa alienação
(não faz lembrar um certo país que teve um golpe de estado recentemente com a
colaboração de uma direita evangélica?). E a melhor resposta para tal empulhação
mística seria a revolta violenta, além de uma filosofia de vida baseada num
hedonismo libertário. “Festa da salsicha” consegue formatar esse discurso
ousado e humanista em uma narrativa bastante divertida e movimentada, além de
trazer um grafismo marcante na forma com que violência, sexo e escatologia são
expostos em cena. Caros pais, não se assustem com a faixa etária, essa é a
animação que seus filhos devem ver!!
segunda-feira, outubro 24, 2016
Meu amigo, o dragão, de David Lowery **1/2
Dá para perceber em “Meu amigo, o dragão” (2016) uma certa
abordagem conceitual diferente. Tanto em sua estética quanto no conteúdo, o
filme do diretor David Lowery parece querer recuperar uma atmosfera setentista em
termos de atmosfera e construção narrativa. Há um caráter de crônica nostálgica
e ingênua aliada a um viés ecológico na forma com que a trama é apresenta na
tela. Essa concepção provavelmente vem do fato da produção ser uma refilmagem
de uma animação de 1977. Diante de tais escolhas artísticas, a obra de Lowery
até tem algum encanto em determinadas passagens, fruto de uma encenação bem
coreografada na combinação de trucagens digitais e interação entre os
personagens. Por outro lado, essa ambientação agridoce por vezes retira a
capacidade do filme em gerar tensão para a plateia, o que seria fundamental
dentro de um trabalho no gênero aventura fantástica juvenil. Dá até para
entender que se buscou um perfil mais humano na caracterização dos dilemas e críticas
comportamentais presentes no roteiro, mas no geral essa coisa de fofice excessiva
faz com que os vilões e ameaças que surgem ao longo da história se mostrem
poucos críveis ou assustadores.
quinta-feira, outubro 20, 2016
O botão de pérola, de Patrício Gusmán ***1/2
No seu primeiro terço de duração, o documentário chileno “O
botão de pérola” (2015) sugere ao espectador em sua formatação como se fosse
uma versão mais apurada e artística daquelas produções televisivas de canais
como Discovery ou History Chanel a versar sobre a importância da água na
sobrevivência e desenvolvimento da humanidade. Com o desenrolar da narrativa,
entretanto, o diretor Patrício Gusmán vai desviando de maneira sutil sua obra
para um viés sócio-político-cultural desconcertante, traçando um desolador
retrato do massacre dos povos nativos de seu país e relacionando com o brutal
massacre de perseguidos políticos na ditadura de Pinochet, cujos corpos eram
jogados no meio do oceano. Mais que um simples manifesto panfletário, o caráter
humanista e poético da abordagem de Gusmán consegue combinar com coerência e
sensibilidade essa ampla temática dentro de uma linguagem cinematográfica
apurada e de uma visão existencial complexa, em que todos os aspectos da
narrativa se entrelaçam com desenvoltura – fotografia grandiosa, engenhosas
trucagens visuais, atmosfera e trilha sonora solenes, roteiro repleto de preciosas
nuances textuais valorizadas pela etérea narração do próprio Gusmán. Nessa
estranha e encantadora síntese artística concebida pelo cineasta, a antropologia
e o fantástico convivem de maneira harmônica dentro um fascinante e bizarro
universo.
quarta-feira, outubro 19, 2016
Um dia perfeito, de Fernando León de Aranoa ***
O cineasta espanhol Fernando León de Aranoa havia
demonstrado notável domínio narrativo e sensibilidade no trato de temática
social no extraordinário “Segunda-feira ao sol” (2001). Ainda que sem o mesmo
grau de brilho artístico do filme mencionado, “Um dia perfeito” (2015) mostra que
Aranoa permanece com suas mencionadas qualidades. O tema da trama é espinhoso –
o cotidiano de um grupo de ajuda humanitária no conflito dos Bálcãs em meados
dos anos 90. Ocorre que a abordagem é diferenciada e surpreendente, pois, ainda
que preserve a forte aura dramática, há uma certa atmosfera de ironia e absurdo
que predomina sutilmente por todo o filme, fazendo lembrar de leve a clássica
comédia de guerra “MASH” (1970). Tal orientação existencial da narrativa revela
uma coerência pertinente, em que as desventuras sentimentais do responsável de
segurança Mambrú (Benicio Del Toro) e a obsessão por velocidade, perigo e rock
and roll do motorista B (Tim Robbins) funcionam como válvulas de escape
emocionais diante de uma rotina repleta de morte, destruição e barbárie de um
conflito étnico-político. O subtexto do roteiro guarda ainda uma crítica ao
olhar hipócrita e moralista que o mundo ocidental tem sobre a guerra naquela
região, em que alegações e julgamentos de que tais lutas e demais atitudes
delas advindas sejam “sem sentido” se revelam estéreis, pois na verdade os
reflexos de tal conflito apenas demonstram valores e dilemas típicos da
sociedade capitalista contemporânea. No mais, a notável interação entre o
elenco homogêneo em boas atuações e a ótima trilha sonora roqueira se mostram
em sintonia com as soluções narrativas e temáticas de Aranoa, fazendo de “Um
dia perfeito” uma inquietante obra a refletir sobre a natureza das guerras no
mundo atual.
terça-feira, outubro 18, 2016
Nosso fiel traidor, de Susanna White ***
Dentro do universo das adaptações cinematográficas de obras
literárias do escritor John Le Carré, “Nosso fiel traidor” (2015) está longe do
brilhantismo de produções extraordinárias como “O alfaiate do Panamá” (2001) e “O
espião que sabia demais” (2011), mas também não chega perto de induzir ao sono
como “A casa da Rússia” (1990) e “O homem mais procurado” (2014). O filme da
diretora Susanna White até começa um pouco claudicante, principalmente na
breguice da sua sequência de abertura e também por uma encenação soando
excessivamente mecânica. Com o desenrolar da narrativa, entretanto, a fórmula
estética-temática ganha mais corpo e a tensão se mostra mais efetivamente
presente. Os truques do roteiro são óbvios, típicos das tramas de espionagem de
Le Carré, mas são desenvolvidos com eficiência e convicção. A direção de
fotografia valoriza o exotismo e beleza dos cenários cosmopolitas e paisagens
naturais que aparecem ao longo da história, há uma atmosfera que alterna
habilmente entre a elegância contida e a leve sensualidade, prepondera um clima
constante de mistério e suspense que provoca algum frio no estômago do
espectador e algumas cenas guardam um poder imagético forte na sua simbologia
(a sequência final com o protagonista Perry Makepeace andando na contramão de
uma pequena multidão é um achado). No mais, as boas atuações carismáticas de
Ewan McGregor, Stellan Skarsgard e Damian Lewis acentuam a notável sobriedade
formal de “Nosso fiel traidor”.
segunda-feira, outubro 17, 2016
Cegonhas - A história que não te contaram, de Nicholas Stoller e Doug Sweetland ***
Talvez ao se analisar uma animação norte-americana voltada
para o público infantil e enxergar implicações culturais e existenciais pode
parecer que se esteja forçando a barra, tentando se dar alguma legitimidade
para uma produção de caráter eminentemente comercial, que visa não só lucrar
nas bilheterias como também vender um monte de bugigangas atreladas
(brinquedos, lanches e afins). É claro que existem filmes e franquias no gênero
que enveredam por essa lógica meramente mercantilista, mas também há exemplares
que extrapolam tais intenções comerciais e procuram oferecer algo mais em suas
pretensões artísticas (a grande maioria do que a Pixar já fez é atestado de tal
prática). Nesse último caso, dá para enquadrar “Cegonhas – A história que não
te contaram” (2016). O filme em questão obedece a uma fórmula eficiente de
diversão – personagens carismáticos, roteiro bem delineado, grafismo
expressivo, boas sequências de ação. A cereja do seu bolo, entretanto, está no
sutil e contundente subtexto da sua trama, em que os mecanismos desumanos de
exaltação à ambição de ascensão social e conseqüente desagregação das relações
sócio-afetivas são expostos com ironia e sensibilidade. Há algo também de um
certo encanto nostálgico na valorização da imaginação e inocência infantis
perante um mundo cada vez mais dominado por avanços tecnológicos e consumismo
desarvorado. Ainda que não traga o mesmo brilhantismo temático e estético de
algumas animações contemporâneas (como “Wall-E” e “Detona Ralph!”), “Cegonhas”
ainda consegue surpreender e comover o espectador pelo inusitado e mesmo
coragem de algumas de suas soluções narrativas.
sexta-feira, outubro 14, 2016
Kubo e as cordas mágicas, de Travis Knight ***1/2
Há um estranho e fascinante conceito que perpassa toda a
narrativa e a concepção estética da animação norte-americana “Kubo e as cordas
mágicas” (2016) – a flexibilidade do papel. O protagonista do título tem como
principal poder mágico a capacidade de moldar a forma e os movimentos de papéis
através do toque de seu instrumento de cordas. A técnica de animação, misto de
efeitos digitais e stop-motion, e o grafismo do traço sempre evocam essas
figuras de papiros e folhas, gerando uma síntese entre fragilidade aparente e
beleza. O fato da trama se passar no Japão e se referir a elementos da cultura
nipônica, nesse sentido, não é gratuito, vide a técnica do origami que por
diversas é mencionada em trechos fundamentais do roteiro. E há outros fortes
pontos positivos nas escolhas artísticas do diretor Travis Knight que formam um
todo poderoso e memorável: a caracterização bem delineada de personagens carismáticos,
cenas de ação plenas de tensão e dramaticidade, trilha sonora de arranjos e
melodias que primam pela sutileza e a contenção de sua utilização, refinado
senso de humor. Nessa conjunção conceitual entre estética e temática, o
resultado é uma narrativa encantadora que transita com desenvoltura entre o
fabular, a aventura, o horror e o elegíaco, e que faz prevalecer como filosofia
existencial um tributo à tolerância.
quinta-feira, outubro 13, 2016
Lua em sagitário, de Márcia Paraíso *1/2
No meio de um cenário sócio-político tão conturbado como o
atual, em que preconceitos e hipocrisias cada vez mais afloram com força, não
deixa de ser salutar que um filme como “Lua em sagitário” (2015) apareça nos
cinemas, principalmente pelo conteúdo de sua parte temática. A obra apresenta
um retrato positivo e humano sobre os movimentos sociais, sempre tão
marginalizados na visão da mídia oficial, além de procurar uma perspectiva mais
sensível sobre os dilemas da adolescência feminina e que fuja de parâmetros óbvios
e conservadores. E há uma cena em particular que surpreende pela contundência textual
que é aquela do discurso do jovem Murilo (Fagundes Emanuel) sobre as raízes do
conflito de classes na sociedade brasileira, um tema tabu dentro do cotidiano
de novelas e noticiários pasteurizados da maioria das pessoas. O grande
problema da produção dirigida por Márcia Paraíso é que a ousadia de sua temática
não é acompanhada por uma construção narrativa e por um formalismo de relevo. A
cineasta se acomoda em adequar a trama dentro de um formato de comédia dramática
estilo “boy meets girl” pouco convincente e de encenação precária. Por diversas
oportunidades, a impressão que se tem no desenvolvimento de situações e
personagens é de uma rígida e superficial linguagem presa a estereótipos que
retira muito da vida e desenvoltura da narrativa, fazendo tudo parecer um
teatro escolar ou amador (qualquer cena que envolva os pais da protagonista Ana,
por exemplo, é constrangedora na sua formatação simplória). Há uma sequência em
que “Lua em sagitário” até dá uma ideia de que poderia ter sido uma experiência
bem mais interessante como cinema que é quando Ana e Murilo ficam hospedados na
casa de um velho casal hippie interpretado por Elke Maravilha e Serguei – os toques
de lisergia e sensualidade na atmosfera de tais tomadas são meio esquisitas,
mas apresentam muito mais vida e desafio existencial/artístico do que em todo o
resto do filme. E há outros elementos positivos na obra: a garota Manuela
Campagna tem uma forte presença cênica e a trilha sonora é repleta de ótimas
canções nos gêneros pop e rock. Tais aspectos, entretanto, estão longe de
salvar “Lua em sagitário” e apenas reforçam a expectativa frustrada de que a
produção poderia ter sido muito melhor.
terça-feira, outubro 11, 2016
Viva a França!, de Christian Carion **1/2
É curioso como algumas obras ganham uma conotação
diferenciada em virtude do período em que são lançadas. O atual crescimento
mundial da xenofobia decorrente dos grandes fluxos migratórios provocados por
conflitos étnicos e políticos faz com que “Viva a França!” (2015), ainda que
verse sobre fatos que se sucederam durante a 2ª Guerra Mundial, provoque uma
reflexão sobre a temática do preconceito e do seu uso político ao narrar a
história da população de uma cidade do interior da França que é obrigada a
abandonar seus lares e perambular por estradas e trilhas em fuga dos nazistas
que recém invadiram o seu país. A produção dirigida por Christian Carion está
bem longe de ser um trabalho excepcional em termos de linguagem
cinematográfica, apostando numa narrativa bastante convencional, ainda que
correta, e num roteiro de fortes traços melodramáticos que beira o novelesco.
Mesmo a trilha sonora do veterano Enio Morricone se rende por vezes a clichês
melosos (os temas bem mais expressivos no também recente “Os oito odiados”
mostra que o velho mestre ainda é capaz de surpreender). Por outro lado, o
elenco de atuações seguras e sutis conseguem compensar a abordagem artística um
tanto mofada de Carion. No mais, resta à “Viva a França!” a já mencionada
possibilidade de fazer sua plateia refletir sobre os estranhos e hipócritas
descaminhos da sociedade ocidental na presente conjuntura sócio-política.
segunda-feira, outubro 10, 2016
Os senhores da guerra, de Tabajara Ruas *
Dá para dizer que pelo menos há duas coisas em que a
produção gaúcha “Os senhores da guerra” (2014) acertou: o bom senso de
marketing por lançar o filme em questão na semana farroupilha e o competente
trabalho de Kapel Furman nos efeitos especiais (com destaque para a parte “gore”
da coisa – vísceras e sangue proliferam de forma convincente). Fora esses dois
aspectos, a obra dirigida por Tabajara Ruas naufraga da maneira clamorosa,
principalmente pelos mesmos equívocos que vêm marcando esse gênero do drama de
época regionalista gaúcho, em que o simples fato de ter como pano de fundo
eventos históricos importantes procura mascarar uma falta de apuro na encenação
e na dinâmica da narrativa (vide outros trabalhos falhados nesse linha como as
adaptações cinematográficas recentes dos clássicos literários “Contos
gauchescos” e “O tempo e o vento”). Não há uma fluência dramática no
desenvolvimento de personagens e situações que os tornem críveis ou cativantes.
Assim, o elenco interage e profere seus diálogos de maneira artificial e
empostada, beirando um didatismo e mecanicidade que faz lembrar uma teatralização
de terceira de um programa televisivo educativo estilo “telecurso 2º grau”. Ou
seja, pode funcionar até numa sala de aula, mas como cinema está muito longe de
convencer. Além disso, o roteiro peca demais na forma como personagens entram e
saem da narrativa sem maiores explicações ou aprofundamento, sugerindo que
algumas cenas devem ter ficado de fora na montagem e o que sobrou acabou mal
costurado. Esse tom meio apressado na concepção da trama também fica evidente
nas sequências de batalha (que deveriam ser o ápice existencial do filme), não
havendo uma coreografia de impacto nas sequências de lutas e tiroteios,
prevalecendo uma edição que picota a ação de uma maneira que parece querer
esconder uma certa precariedade na encenação. A direção de fotografia é anódina
dentro do seu estilo cartão postal, enquanto a trilha sonora envereda por uma
obviedade em suas milongas de letras e melodias pouco marcantes. Diante de
todas essas soluções artísticas nada inspiradas de “Os senhores da guerra”,
mesmo boas ideias como a do texto em forma de poesia de um narrador/declamador,
sugerindo uma espécie de síntese formal entre literatura e cinema, acaba se
revelando apenas um recurso estético cansativo e sem força. Em um ano como
esse, em que outras produções gaúchas (“Ponto zero”, “Errantes”, “Nós duas
descendo a escada”) apareceram em nossas salas de cinema mostrando caminhos
narrativos mais inquietantes e criativos, um filme como “Os senhores da guerra”,
de linguagem cinematográfica tão mofada e destituída de vigor, acaba destinado
a uma espécie de limbo de trabalhos inexpressivos.
sexta-feira, outubro 07, 2016
Corrida sem fim, de Monte Hellman ****
“Sem destino” (1969) é considerada como a obra fundamental
do cinema a marcar o movimento da contracultura nos anos 60. A obra-prima de
Denis Hopper ajudou a definir um estilo mais libertário de filmar e também uma
abordagem temática contestadora dos valores e preconceitos pequeno-burgueses da
sociedade ocidental, além de ajudar a construir o mito da estrada como uma
espécie de reflexo de questionamentos existenciais. Ainda que mais obscura, a
produção norte-americana “Corrida sem fim” (1971) aprofunda ainda mais esses
preceitos artísticos de “Sem destino”. O diretor Monte Hellman delineia a sua narrativa
de forma minimalista – em contraponto às corridas alucinadas que permeiam a
trama, os “bastidores” que às envolvem tem uma caracterização dramática
contemplativa e melancólica, enfatizando silêncios e diálogos algo elípticos. A
estética na concepção visual obedece a uma estranha síntese entre o clássico e
a concisão, em que direção de fotografia investe em enquadramentos que tanto
dão uma ideia de imensidão épica das paisagens interioranas dos Estados Unidos
quanto de melancolia e desolação, como se fosse uma espécie de atualização
desolada dos faroestes de John Ford. Tal moldura formal revela uma sintonia
extraordinária com o sutil subtexto do roteiro que enfatiza a sensação de
inadequação e impossibilidade de aceitação das regras de convívio social por
parte dos personagens desajustados que povoam a trama. Aliás, as atuações icônicas
de James Taylor, Dennis Wilson e Warren Oates nos papeis de tais figuras
outsiders representam outro ponto alto de verdadeira pérola escondida da
filmografia norte-americana.
quinta-feira, outubro 06, 2016
Crooklyn, de Spike Lee ****
Em um primeiro momento, “Crookly” (1994) aparenta algo como
um nostálgico e movimentado drama familiar situado no bairro nova-iorquino
Brooklyn na virada das décadas 60 e 70. Por vezes, a estrutura narrativa
acentua essa impressão ao formatar a trama em alguns momentos como se fosse uma
sucessão de episódios entre o cômico e o pitoresco. Aos poucos, entretanto, os
personagens e as próprias situações do roteiro vão ganhando unidade e mesmo maior
profundidade psicológica. A história do processo de amadurecimento da pequena
Troy (Zelda Harris) em meio a um conturbado ambiente familiar (pai música
desempregado, mãe sobrecarregada e irmãos encapetados) ganha nuances dramáticas
muito bem delineadas e também apresenta um forte subtexto sócio-político, em
que a gradual tomada de consciência da protagonista da necessidade de
fortalecer seu caráter e postura moral diante das dificuldades da vida se
relaciona com um contexto histórico em que os negros norte-americanos passam a
ser tornarem mais proativos e contestadores da discriminação que sofrem (não à
toa, Martin Luther King, Angela Davis e Malcom X são originários desse
cenário). Dessa forma, “Crooklyn” mostra notável sintonia com outros filmes de
seu diretor Spike Lee que também apresentam essa temática social como “Faça a
coisa certa” (1989), “Febre na selva” (1991) e “Malcom X” (1992). E também
assim como em tais obras, estão lá boa parte das características mais
expressivas do estilo do cineasta – a encenação vibrante, a concepção visual
baseada em cores fortes e enquadramentos virtuosos, a montagem sintetizada numa
dinâmica peculiar entre imagem e som. Nesse último quesito, “Crooklyn” é
particularmente antológico na forma com que as maravilhosas canções de black
music da trilha sonora se inserem na narrativa.
quarta-feira, outubro 05, 2016
Incompreendida, de Asia Argento ***1/2
Não se pode ser filha de um gênio perturbado como Dario
Argento e fica incólume a isso. Asia Argento tem pautado a sua trajetória como
atriz e cineasta por obras que sempre tangenciam a estranheza e a sordidez.
Depois da descida aos infernos nas falsas memórias do pseudo-escritor J.T.
Leroy no brilhante Maldito coração (2004),
ela volta à função de diretora em Incompreendida
(2014), obra de nítido cunho autobiográfico em que Asia focaliza alguns
episódios de sua infância na época em que seus pais se separaram. Boatos e
fofocas dizem que Dario Argento entrou em depressão depois de assistir ao
resultado final. E não é para menos: ainda que o roteiro traga algumas
convenções típicas do gênero do memorialismo cinematográfico, resvalando por
vezes no sentimentalismo, o retrato que a diretora oferece é bastante visceral
e cruel de uma rotina de incompreensão, indiferença e abandono por parte de
seus pais. Mas o painel emocional elaborado por Asia não é unidimensional ou
maniqueísta: ainda que pai (Gabriel Garko) e mãe (Charlotte Gainsbourg) sejam
figuras bem escrotas em algumas situações, há também uma aura de fascinação em
torno de suas figuras exuberantes. Nesse sentido, Argento por vezes incorpora
uma estilização visual e narrativa que remete diretamente ao melhor da obra de
Dario, além de evidenciar um trabalho de direção de arte sensacional na
evocação da estética oitentista, com direito inclusive a uma memorável trilha
sonora de pastiches de canções de típica sonoridade da época. Tais nuances
formais e temáticas de Incompreendida fazem
com que se imagine como seria um filme de horror dirigido por Asia.
terça-feira, outubro 04, 2016
O lar das crianças peculiares, de Tim Burton ***
Não que “O lar das crianças peculiares” (2016) seja um mau
filme. Pelo contrário – perto dessas franquias de fantasia adolescente que
proliferam aos montes nas salas de cinema ultimamente, a produção em questão
até se destaca pela narrativa equilibrada e pela caracterização visual de
criatividade acima da média. O que torna tal obra frustrante, entretanto, é o
fato de se saber que quem é o seu diretor é Tim Burton, nome de quem se espera
sempre muito mais. Por vezes, em algumas sequências, até dá para perceber
aquela síntese de formalismo barroco e atmosfera bizarra que se tornou a grande
marca artística de Burton. Fora isso, o traço autoral do cineasta aparece muito
pouco, ficando imersa no roteiro genérico e numa certa assepsia estética. Ao
invés de perverter os cânones narrativos típicos do gênero aventura
contemporâneo e os moldar dentro de seus conceitos particulares, Burton se limita
a readequar sua linguagem dentro de tal ortodoxia. O resultado final é
competente e até consegue cativar por vezes a plateia, mas é duro saber que
esse padrão bem comportado vem do mesmo cara que concebeu diversões alucinadas antológicas
como “Batman – O retorno” (1992) e “Marte ataca!” (1996) ou geniais contos de
fadas perversos como “Edward Mãos de Tesoura” (1990) ou “A lenda do cavaleiro
sem cabeça” (1999).
segunda-feira, outubro 03, 2016
Sete homens e um destino, de Antoine Fuqua ***
Essa refilmagem do clássico faroeste de 1960 dirigido por
John Sturges está bem longe de cair na vala comum do mero oportunismo. O que o
diretor Antoine Fuqua faz em “Sete homens e um destino” (2016) é uma releitura
equilibrada, que tanto moderniza algumas nuances temáticas e traços estéticos
quanto preserva a narrativa tradicional de western mitológico e épico. É claro
que a comparação que se faz entre as duas obras diz muito sobre a mudança na
linguagem do cinema de ação que se operaram nas décadas que separam as duas
versões. Diante do formalismo mais frenético da produção desse ano, o filme de
Sturges parece contemplativo, quase como se algo proveniente do cinema europeu.
Ainda assim, o trabalho de Fuqua apresenta um certo rigor em sua realização,
com um roteiro que dá alguma profundidade psicológica para os seus personagens
e que faz com que algumas situações da história tenham um subtexto
sócio-político bem delineado (o discurso inicial do latifundiário-vilão
Bartholomew Bogue sobre a ligação capitalismo e religião é bastante revelador
sobre a hipócrita moral da sociedade ocidental), além de um formalismo
eficiente na sua síntese de fotografia épica, edição bem dosada nos seus cortes
e sequências de ação coreografadas com precisão em suas profusões de tiros e
destruição (com destaque para toda a sequência final do duelo entre os protagonistas
e as dezenas de facínoras comandados por Bogue). E mesmo aspectos que poderiam
soar forçados, como o fato dos “mocinhos” representarem um conjunto étnico mais
diversificado, acabam se inserindo com naturalidade na narrativa. Tais escolhas
artísticas de Fuqua fazem com que o seu filme tenha uma tendência mais realista
do que a obra original, que tinha uma atmosfera mais mítica, evidenciando ainda
que o cinema de ação contemporâneo dos grandes estúdios ainda é capaz de
cativar o espectador sem apelar para excessos pseudo-modernos como os do
terrível “Esquadrão Suicida”.
sexta-feira, setembro 30, 2016
O silêncio do céu, de Marco Dutra ***1/2
Formatar um estilo autoral dentro do cinema de gênero parece
ser a grande obsessão artística do diretor brasileiro Marco Dutra. Depois de
enquadrar o horror num viés de crítica social em “Trabalhar cansa” (2011) e num
bizarro trinômio família-religiosidade-loucura em “Quando eu era vivo” (2014),
em “O silêncio do céu” (2016) o cineasta volta sua atenção para o suspense com
fins de realizar uma contundente reflexão sobre a violência e o sexismo. Logo
no início do filme, ele já afasta a trama de clichês recorrentes dentro do
gênero em questão – mais importante para o protagonista Mario (Leonardo
Sbaraglia) do que saber quem são os estupradores da sua esposa Diana (Carolina
Dieckmann) é entender o contexto que levou a tal fato e também colocar em
cheque suas fobias (inclusive aquela que impediu que ele fizesse algo para
impedir o ato brutal que presenciou). Nessa perspectiva, Dutra constrói uma
narrativa bastante atmosférica, valendo-se de uma eficiente narração de teor
literário e uma encenação baseada fortemente na linguagem gestual e nos
silêncios expressivos. A fotografia sombria e a elegante edição acentuam ainda
mais a perturbadora aura de mistério da obra. Ao se aprofundar em sua investigação
pessoal, Mario não se vê de frente apenas aos seus antagonistas, mas também
diante dos desejos da sua mulher e de seus próprios medos e preconceitos. A
vingança que engedra pode até inicialmente evocar algo de catártico, mas na
verdade deixa claro a inevitabilidade de suas frustrações existenciais. Ainda
que não tenha aquele genial clima de demência entre o desconcertante e o
comovente de “Quando eu era vivo”, “O silêncio do céu” reforça o nome de Marco
Dutra como um dos talentos mais expressivos a aparecerem no cinema nacional nos
últimos anos.
O vale do amor, de Guillaume Nicloux ***1/2
Uma das fases mais expressivas na filmografia do diretor
Roberto Rossellini foi quando ele incorporou o seu estilo naturalista que havia
depurado em suas primeiras obras no neo-realismo italiano dentro de um formato
de conto moral-metafísico. Em parceria com a sua esposa na época, Ingrid
Bergman, lançou obras memoráveis nessa particular formatação (Stromboli, Europa
51, Viagem à Itália). A produção francesa “O vale do amor” (2015) se mostra
como uma vigorosa extensão desses preceitos artísticos de Rossellini. Na maior
parte de sua duração, a narrativa se mostra vinculada a uma encenação e
ambientação de fortes tons naturalistas, em que a direção de fotografia de
enquadramentos secos e iluminação crua e a edição de poucos cortes e ritmo
austero acentuam uma atmosfera que beira o sufocante, tanto pela sensação
física de calor severo que os protagonistas interpretados por Gérard Depardieu
e Isabelle Huppert sentem por se encontrarem no escaldante Vale da Morte nos
Estados Unidos quanto pelo mal estar psicológico causado pelo suicídio do filho
de ambos. Há algo na encenação e no roteiro que evoca o documental,
principalmente pelo fato de que características das personas de Depardieu e
Huppert são incorporadas em seus personagens. Só que aos poucos alguns
elementos de cinema fantástico vão se inserindo na narrativa, fazendo com que a
atmosfera da obra trafegue ambiguamente entre uma possível desagregação mental
dos indivíduos e uma comovente hipótese de transcendência mística. O fato de “O
vale do amor” nunca deixar exatamente claro o que está acontecendo na tela
aumenta a sua aura de mistério e explicita um perturbador teor sensorial à
flor-da-pele.
quarta-feira, setembro 28, 2016
Lembranças de um amor eterno, de Giuseppe Tornatore **
Giuseppe Tornatore tem seus méritos como cineasta. Pode-se
dizer que em décadas de carreira conseguiu criar uma espécie de marca autoral,
fazendo uma espécie de síntese de melodrama convencional e formalismo correto.
Os pontos altos de sua carreira (“Cinema Paradiso” e “Estamos todos bem”),
ainda que festejados com exagero por boa de público e crítica, são exemplares
expressivos dessa sua fórmula artística. Por vezes, entretanto, a receita de
Tornatore desanda e resulta em equívocos como “Lembranças de um amor eterno”
(2015). É claro que estão lá alguns preceitos do “cinema de qualidade”, como fotografia
estilo cartão postal e edição acadêmica. O grande problema do filme é que a
abordagem estética para a trama é desencontrada – os exageros sentimentais do
roteiro pediam uma narrativa mais equilibrada e mesmo ambígua. É só lembrar do
que Roman Polanski aprontou no extraordinário “O escritor fantasma” (201), em
que uma histórica rocambolesca de suspense e intrigas era envolvida em
ambientação doentia mista de ironia e goticismo e um barroquismo estético de
rigor notável. No filme de Tornatore, não há esse senso artístico, fazendo com
que uma trama apelativa beirando o ridículo seja levada extremamente a sério e
não permita ao espectador algum espaço para a dúvida e tensão. O elemento
fantástico que é sugerido no terço inicial do filme é logo extirpado em nome de
um realismo novelesco, impressão essa acentuada pelas atuações canastronas de
Jeremy Irons e Olga Kurylenko, com o roteiro também sugerindo um duvidoso
elogio ao patriarcalismo. Se Polanski tivesse colocado as mãos em “Lembranças
de um amor eterno”, provavelmente teríamos visto uma bela tiração de sarro com
tais elementos temáticos moralistas. Do jeito que ficou, o filme apenas reforça
o anacronismo estilístico de Tornatore.
terça-feira, setembro 27, 2016
Marguerite, de Xavier Giannoli ***
Ainda que sua estrutura narrativa se baseie em uma linguagem
bastante acadêmica, a produção francesa “Marguerite” (2015) consegue causar
algum impacto para o espectador pela sobriedade do seu formalismo e pela
maturidade humanista da sua abordagem temática. Há todo o requinte visual esperado
dentro de um filme de época de grande orçamento, mas tal cuidado não implica
necessariamente numa assepsia estética. O diretor Xavier Giannoli faz com que a
bela fotografia de paisagens interioranas, interiores suntuosos e prédios de
arquitetura sofisticada tenha o contraponto de uma atmosfera sombria e
melancólica, com direito inclusive a algo de sordidez e mesmo bizarro (as
figuras do serviçal exótico e sorumbático e a da mulher barbada são
interessantes achados dramáticos). O roteiro apresenta um subtexto intimista e social
sutil e contundente, ao refletir sobre as hipocrisias e preconceitos de uma nobreza
em decadência na França da primeira metade do século XX e mostrar como o
conflito de classes se manifestava mesmo dentro de uma relação matrimonial (a
burguesia deslumbrada versus a aristocracia parasita). O filme de Giannoli
também aproveita com sensibilidade o fato de sua trama se desenvolver nos
âmbitos da música e do teatro, tendo uma bela trilha sonora que se insere de
maneira precisa na narrativa e números operísticos que trazem uma ambiguidade
na sua encenação, entre o decadentismo e o encanto. Diante de tais acertos
estéticos e textuais, “Marguerite” acaba se revelando bastante superior a “Florence”
(2016), produção norte-americana que baseia nos mesmos fatos reais que
inspiraram a obra de Giannoli.
segunda-feira, setembro 26, 2016
Mate-me por favor, de Anita Rocha da Silveira ***1/2
Dentro da narrativa de “Mate-me por favor” (2015), pode-se
perceber referências e citações culturais diversas – algumas passagens de
interação entre os personagens remetem a antigas tiras e animações dos Peanuts
(é de se reparar que adultos nunca aparecem em cena, como era habitual no
universo de Charlie Brown e seus amigos); uma atmosfera misto de hedonismo e tédio
faz lembrar filmes de Larry Clark e Harmony Korine; composições visuais e
tiradas irônicas se conectam com o cinema underground brasileiro (a sequência
onírica em que sangue em profusão sai da boca da protagonista Bia é semelhante
àquela que ficou célebre com Helena Ignêz em “Sem essa, Aranha”); a síntese
entre a escatologia e o patológico faz lembrar tanto boa parte da filmografia
de David Cronenberg quanto os quadrinhos de Charlie Burns. O filme da diretora
Anita Rocha da Silveira, entretanto, está longe de se resumir a uma simples
junção de tiradas artísticas espertas. A cineasta combina com bizarra
naturalidade esses elementos diversos, compondo uma obra que se estrutura como
um conto entre o fabular e o horror para fazer uma sardônica e desoladora reflexão
sobre a juventude e o cenário sócio-cultural brasileiro. No terço inicial do
filme, o tom da narrativa demora a encaixar, principalmente pelo fato da
complexidade de como o fantástico e o realismo devem se entrelaçar. Quando
Anita Silveira consegue azeitar a conexão entre esses dois planos existenciais,
“Mate-me por favor” se configura como uma doentia e encantadora viagem pelo
imaginário pequeno-burguês ocidental. A trama até sugere inicialmente um viés
de suspense tradicional ao enfatizar o mote do mistério de um assassino de
adolescentes, mas aos poucos esse foco vai se dissipando e a caracterização de
personagens e situações se torna difusa. Em meio a coreografias funk, pregações
evangélicas alucinadas, sexualidade à flor-da-pele e desencontros amorosos “boy
meets girl” a lá John Hughes, as jovens criaturas que se arrastam na narrativa
como fotogênicos zumbis entram numa espiral de morbidez e desagregação mental
que desemboca numa perturbadora e apocalíptica sequência final. Ao invés das
leituras reducionistas a simplificar os males da sociedade contemporânea como
patéticas projeções maniqueístas, a obra de Anita Silveira vê a violência que
grassa na atualidade como a manifestação de um imaginário coletivo distorcido
por valores hipócritas e obscurantistas.
sexta-feira, setembro 23, 2016
Samurai, de Gaspar Scheuer ***
É um fato curioso que a produção argentina “Samurai” (2012)
tenha sido exibida dentro de uma mostra chamada Ciclo de Cinema Gauchesco,
evento esse decorrente das comemorações da semana farroupilha. Isso porque essa
última tem por escopo existencial a celebração hipócrita de valores
reacionários e sexistas baseado na exploração da mão-de-obra barata de peões
por parte de grandes estancieiros e na submissão da mulher, enquanto o filme do
diretor Gaspar Scheuer propõe um olhar revisionista crítico de tal contexto
histórico e comportamental. Para isso, a trama do filme traz como foco
principal um aspecto insólito, a de imigrantes japoneses que se fixam nos
pampas no final do século XIX, fugindo de perseguições políticas em seu país de
origem, e acabam sendo oprimidos na terra estrangeira para onde se refugiaram.
Num primeiro momento, a família do protagonista Takeo entra num dilema existencial,
em que a herança cultural do avô samurai se mostra ameaçada diante da nova
realidade em que se encontram. Com o desenvolvimento da história, entretanto,
essa mesma tradição nativa começa a se revelar opressora no sentido de impedir
uma visão mais ampla por parte dos indivíduos diante de uma situação
sócio-econômica nova e conturbada. Acaba sendo estabelecida uma correlação
entre as tradições nipônicas e gaúchas, mostrando de maneira sutil e
contundente como o discurso oficial de valoração da bravura e de uma virilidade
“macha” na realidade esconde um panorama de exploração e opressão social.
Dentro dessa visão sombria e melancólica, Scheuer incorpora uma estética que
revela um certo teor oriental na forma contemplativa com que articula sua
narrativa, tanto em termos de atmosfera quanto em concepção visual.
quinta-feira, setembro 22, 2016
Bruxa de Blair, de Adam Wingard *1/2
Antes de mais nada, convém deixar claro uma coisa: “A bruxa
de Blair” (1999) não inventou o formato falso documentário filmado em
perspectiva subjetiva, ou seja, “registrado” por um dos personagens. Tal
abordagem já havia sido utilizada no clássico gore italiano “Canibal holocausto”
(1980) – por sinal, com muito mais classe narrativa e impacto sensorial. A obra
de Ruggero Deodato, inclusive, também utilizou algumas criativas estratégias de
marketing. Anos depois, a referida produção norte-americana repetiu alguns dos
preceitos artísticos e mercadológicos, tendo por vantagem a possibilidade de
usar a internet como eficaz instrumento de divulgação. Num contexto geral, dá
para dizer que foi mais um fenômeno de propaganda criativa do que propriamente
um filme realmente interessante, apesar de sua estética ter influenciado um sem
número de trabalhos de horror. Nesse contexto, sua continuação, “Bruxa de Blair”
(2016), é ainda mais frustrante, pois não traz o relativo ineditismo
estético-marqueteiro da obra original e nem mesmo a simpática fuleirice formal
de outrora. À moda da franquia “Atividade paranormal”, o mistério do
inexplicável, talvez o maior charme do filme de 1999, é deixado de lado para
investir num roteiro que explica tudo, além de um uso maior de efeitos
especiais profissionais deixar tudo com uma formatação ainda mais derivativa e
genérica. De certa forma, todos esses equívocos fazem com que “Bruxa de Blair”
se mostre como uma obra emblemática dos nossos tempos, em que picaretices mercantilistas
como essa refletem indústria e público presos dentro de um círculo vicioso de
busca de lucro fácil e produtos culturais insossos e amorfos.
quarta-feira, setembro 21, 2016
Conexão Escobar, de Brad Furman **
A profusão de séries, documentários, reportagens e afins,
aliado a um distanciamento temporal, faz com que se crie uma espécie de febre
de atração pela figura do mega traficante Pablo Escobar. Dessa maneira, nada mais
natural que apareça mais uma produção cinematográfica a ter a sua figura como
dos principais focos temáticos. Em “Conexão Escobar” (2016), ele praticamente
não dá as caras, com a trama tendo como personagens mais presentes policiais
que o investigavam e traficantes que giravam em torno de sua figura. O roteiro
tem como protagonista o oficial de alfândega Robert Mazur (Bryan Cranston), que
se infiltrou na organização de Escobar como um falso “lavador” de dinheiro sujo
visando desvendar a teia econômica-criminosa de tráfico de drogas arquitetada
pelo chefão e seus cúmplices. O artesanato narrativo engedrado pelo diretor
Brad Furman é competente, por vezes até evocando narrativas semelhantes que
apresentam aquela atmosfera ambígua de atração e repulsa pelo ambiente do crime
que é típica de algumas das melhores obras de Martin Scorsese (“Caminhos
perigosos”, “Bons companheiros”, “Cassino”, “Infiltrados”). Mas essa pretensão
artística de Furman acaba não se justificando, principalmente pelo fato dele
estar longe de ter a genialidade estética/existencial de Scorsese. Mesmo alguns
truques formais aparentemente ousados como planos-sequência soam apenas como
mero artificio decorativo em meio a uma abordagem artística convencional e que
por várias vezes resvala num moralismo conservador, além de apresentar
personagens unidimensionais em excesso e que chegam até a resvalar na burrice. Nesse
sentido, a absurda sequência final do falso casamento de Mazur é um primor de
cretinice – é até difícil acreditar que o roteiro tenha se baseado em fatos
reais.
segunda-feira, setembro 19, 2016
Nós duas descendo a escada, de Fabiano de Souza ***
Não deixa de ter algo de simbólico no fato de que “Nós duas
descendo a escada” (2015) tenha estreado algumas poucas semanas antes do 20 de
setembro, data de comemoração da “revolução” farroupilha. Na realidade, a
efeméride citada serve muito mais para celebrar um certo “gauchismo” de viver,
essa coisa bem bairrista a legitimar tradições e concepções preconceituosas.
Nesse sentido, um filme como esse mencionado do diretor Fabiano de Souza se
coloca bastante na contramão, ao trazer no seu amago um desejo de ser universal
e libertário. Tal visão artística fica evidente na forma com que a cidade de Porto
Alegre é retratada, numa abordagem que sugere um certo cosmopolitismo, não
apresentando ranços regionalistas. Essa caracterização na ambientação da
produção se correlaciona com a maneira com que o roteiro contextualiza a
temática da homossexualidade, em que as noções de culpa e preconceito
praticamente não dão as caras. Ainda que a trama tenha um viés principal
intimista, a conjunção dessa humanista visão de mundo em relação a cultura e
comportamento revelam um subtexto sócio-político sutil e contundente, além de
colocar o filme em sintonia com obras contemporâneas marcantes dessa década
como “Azul é a cor mais quente” (2013) e “Boi neon” (2015).
Em termos formais, “Nós duas descendo a escada” se estrutura
em uma narrativa que evoca alguns clichês típicos de comédia romântica, mas que
também são pervertidos por truques estéticos que remetem a algumas das
principais obras da Nouvelle Vague e a uma série de referências e citações culturais
(filmes, livros, música), além de trazer na sua encenação e em algumas
situações do roteiro uma crueza de pegada realista. Essa síntese artística
demora um pouco para dar liga, mas quando as coisas engrenam, principalmente a
partir da primeira sequência de sexo entre as protagonistas Adri (Miriã
Possani) e Mona (Carina Dias), a narrativa ganha uma fluência envolvente que
ora diverte por algumas tiradas dos diálogos e sacadas da edição (o detalhe de
usar manchetes de jornal como “marcação” do tempo é um recurso bem engenhoso),
ora comove pela intensidade na interação entre as personagens principais. Como
cereja do bolo, a ótima trilha sonora, baseada em temas de Frank Jorge e belas
canções de artistas como Karina Buhr, Tulipa Ruiz e Arthur de Farias, pontua
com sensibilidade a narrativa. Nesse conjunto de acertos, “Nós duas descendo a
escada” reforça a ideia de coerência artística na filmografia de Fabiano de
Souza, que conta ainda com outras produções marcantes como “A última estrada da
praia” (2011), “Os filmes estão vivos” (2013) e “Ocidentes” (2014).
sexta-feira, setembro 16, 2016
Herança de sangue, de Jean-François Richet ***1/2
O extraordinário drama policial francês “Inimigo público nº 1”
(2008) fez com que o nome do diretor Jean-François Richet se tornasse um dos
mais promissores para o gênero. Quando saiu a notícia de que sua próxima
realização para um estúdio norte-americano traria como protagonista Mel Gibson,
um dos grandes ícones de filmes de ação nos anos 80 e 90 (vide as franquias “Mad
Max” e “Máquina Mortífera”), as expectativas se tornaram altas. “Herança de
sangue” (2016), o resultado desse encontro de titãs, não é tão bom quanto se
poderia esperar, principalmente pelo fato de que Richet teve de se enquadrar
dentro de algumas convenções formais e temáticas mais comportadas típica do
cinema norte-americano comercial. Ainda assim, o saldo final é positivo e
memorável. O cineasta francês não é adepto da escola contemporânea de ação de
câmeras tremidas e edição super-picotada – sua narrativa tem um talhe clássico,
contando ainda com uma encenação que valoriza muito a composição visual e a
clareza de movimentos. Tal noção cênica realça ainda mais a figura carismática e
sagaz de Gibson no papel do protagonista John Link, cuja interpretação tem uma
combinação notável entre serenidade e resignação trágica. Apesar de uma certa
previsibilidade do roteiro, há uma ambiguidade inquietante na caracterização de
situações e personagens, em que o passado obscuro de determinadas figuras da
trama é evocado de maneira sutil e incômoda. Todas essas particularidades fazem
de “Herança de sangue” uma relevante obra no estilo “policial casca grossa”,
coisa rara no gênero nos dias de hoje.
quinta-feira, setembro 15, 2016
O homem nas trevas, de Fede Alvarez ***
Na refilmagem de “A morte do demônio” (2013), o diretor
uruguaio Fede Alvarez já havia mostrado que tinha uma boa mão para o cinema de
horror. Ainda que não tivesse o mesmo grau de inventividade de Sam Raimi, o
responsável pelo filme original, demonstrou um considerável grau de
criatividade na encenação e mesmo em certas nuances perturbadoras do roteiro.
Em seu novo filme, “O homem nas trevas” (2016), ele se confirma como um nome
interessante dentro do gênero. Narrativa e trama se estruturam nos moldes e
clichês tradicionais do horror, mas o vigor do formalismo de Alvarez e o
subtexto algo perverso da história colocam a produção em um nível acima da
média. O truque temático básico de concentrar a narrativa dentro do espaço
físico limitado de uma velha casa é explorado com habilidade, valorizando
planos-sequência detalhistas, a atmosfera lúgubre e a direção de fotografia que
evoca um certo gótico em seus enquadramentos e iluminação. É interessante
também como a questão social e econômica da atual conjuntura dos Estados Unidos
e uma ambiguidade na delimitação das fronteiras entre o bem e o mal dão uma
perturbadora aura de sordidez e profundidade psicológica para os personagens e
situações da trama. Dentro dessa bem delineada abordagem artística e
existencial de Alvarez, mesmo o gancho na conclusão do filme para uma possível
continuação não parece meramente oportunista – há uma coerência na
impossibilidade de um final feliz redentor para a protagonista arrivista Rocky (Jane
Levy).
quarta-feira, setembro 14, 2016
Agnus Dei, de Anne Fontaine **1/2
Uma obra que tem como temática freiras polonesas estupradas
durante a 2ª Guerra Mundial já tem um potencial claro para ser explosiva.
Talvez se fosse realizada nas décadas de 60 e 70 poderia receber um tratamento
tipicamente exploitation. No caso de “Agnus Dei” (2015), entretanto, a
abordagem é mais solene e sutil. A diretora Anne Fontaine prefere enfatizar
mais as consequências psicológicas e morais do que investir no grafismo
explícito das religiosas sendo violentadas. Nesse sentido, a atmosfera do filme
é mais de uma certa sobriedade emocional e de uma incômoda tensão. O subtexto
do roteiro questiona os fundamentos de uma sociedade machista e patriarcal que
força as vítimas a terem de se comportar como se fossem culpadas pelas
brutalidades que sofreram. Ainda que tenha esse caráter de contestação, em
termos formais a produção prima por um tom asséptico na narrativa e em sua
concepção visual, o que reduz consideravelmente a sua força. E mesmo dentro de
seu perfil de crítica social e cultural a obra de Fontaine acaba caindo na
superficialidade, pois há um certo maniqueísmo na caracterização de algumas
situações e personagens, principalmente na figura da madre superiora,
deixando-se de se apresentar uma visão mais contundente sobre os absurdos
dogmas religiosos que impedem as freiras de se tornarem mais proativas em suas
atitudes.
terça-feira, setembro 13, 2016
El Bola, de Achero Mañas **1/2
Dentro da temática das atribulações da adolescência, a
produção espanhola “El Bola” (2000) até surpreende em alguns momentos por um
certo vigor na encenação e pelo fato do roteiro apresentar algumas sutilezas.
Num contexto geral, a trama apresenta uma visão crítica sobre a violência e
intolerância inerentes ao patriarcalismo da sociedade ocidental. Nesse aspecto,
o fato do jovem protagonista Pablo (Juan José Ballesta), constantemente
brutalizado pelo próprio pai, só encontrar alento na família mais liberal do
amigo Alfredo (Pablo Galán) não deixa de ter um caráter simbólico, remetendo a
um aspecto existencial que há décadas aparece de forma recorrente no cinema
espanhol – o conflito entre os valores repressores da sociedade tradicional
herdeira do franquismo e o humanismo e irreverência que marca parte do país
após a queda do ditador. É claro que o diretor Achero Mañas não apresenta o
mesmo grau de ousadia e excelência artística para abordar tal assunto de um
Pedro Almodovar (é só lembrar o que esse aprontou no extraordinário “A má
educação”) e sua estética bem comportada não chega a ser muito memorável, mas
ainda assim “El Bola” não deixa de causar uma certa perturbação para o
espectador.
segunda-feira, setembro 12, 2016
Errante - Um filme de encontros, de Gustavo Spolidoro ***
Em relação ao longa-metragem anterior de Gustavo Spolidoro, “Morro
do céu” (2009), o filme mais recente do diretor gaúcho, “Errante – Um filme de
encontros” (2014), representa uma radicalização dentro da sua concepção no
gênero documentário. Spolidoro deixa a narrativa e a câmera fluírem de acordo
com seus sonhos e devaneios, além de contarem também com os acasos do destino.
Não se trata de uma obra que busca a perfeição formal e mesmo uma linha
temática que se mostre coerente sempre. Por vezes, tal síntese
estética-existencial é incômoda, quase resvalando num aparente “amadorismo”,
principalmente em seu terço inicial, quando o cineasta parece estar procurando
um caminho mais definido e deixa expresso para o espectador suas inquietações e
ambições para o seu filme. Numa dessas suas digressões, Spolidoro cita Jean
Rouch e isso não é gratuito, pois “Errante” trafega numa bifurcação entre o
documentário etnológico de Rouch e o gosto pelos depoimentos de entrevistados
que variam naturalmente entre o banal e o profundo que era típico na
filmografia de Eduardo Coutinho. Essa junção de influências e referências,
contudo, não implica num simples pastiche de estilos alheios. Pelo contrário:
há uma aura de certa originalidade que em determinado momento, de maneira
sutil, envolve a plateia pela maneira como o insólito se insere dentro do
cotidiano. Dentro de um “roteiro” em que convivem em bizarra harmonia na mesma
trama estrangeiros radicados no Brasil ou apenas de passagem, idosos
aposentados jogando conversa fora ou vagado pela cidade num rumo obscuro, um
criador de marionetes, um jogador de bocha que se diz entendido em fósseis,
gatos domésticos e cachorros vira-latas, o fluxo sensorial e mesmo conceitual
da câmera de Spolidoro deseja se interligar com o olhar do próprio espectador
ao sugerir que se esse último concentrasse a sua atenção naquilo que lhe parece
corriqueiro e desimportante poderia encontrar algo de estranho e fascinante, e
, quem sabe, haveria até a possibilidade de ingressar universo quase paralelo.
sexta-feira, setembro 09, 2016
Jornada nas estrelas: Sem fronteiras, de Justin Lin ***
É interessante observar que nos últimos episódios das
franquias cinematográficas “Jornada nas estrelas” e “Guerra nas estrelas” as
diferenças existenciais entre as duas ficam bastante evidenciadas. Enquanto a
saga criada por George Lucas é uma síntese de escolas diferentes no gênero
melodrama de aventura (histórias de capa e espada, faroestes, mitologias
diversas) cuja trama se desenvolve dentro de um ambiente de espaço sideral e
planetas alienígenas, as produções derivadas do conceito original de Gene
Roddenberry apresentam uma ligação mais aprofundada com as questões pertinentes
ao gênero ficção-científica. Ainda que de forma sutil, pode-se perceber no
roteiro de “Sem fronteiras” (2016) situações que envolvem elementos que sempre
estiveram rondando os filmes e seriados de “Jornada nas estrelas”: o conflito
entre crenças pessoais e místicas com o raciocínio científico, a necessidade do
ser humano expandir seus horizontes físicos e culturais através das viagens intergalácticas
e o contato com outras civilizações, a busca da concretização da utopia de
harmonia entre diferentes raças (no filme em questão, sintetizado na figura do
planeta-nave que agrega seres humanos e diversos povos alienígenas, além do
fato de se mostrar com naturalidade a homossexualidade do Sr. Sulu). É grande mérito
do diretor Justin Lin conseguir conciliar esse subtexto humanista dentro de uma
estrutura de narrativa de ação. Os dilemas da trama básica são até simples e
seu desenvolvimento traz algumas obviedades, mas a fluência da encenação e os
efeitos digitais de visual criativo e expressivo apresentam um resultado
envolvente. No conjunto geral, talvez esse seja o filme da retomada concebida
por J.J. Abrams que mais se aproxima do espírito característico da série
clássica, sem que com isso se caia no mero revivalismo oportunista (ao
contrário da simples nostalgia mofada de “O despertar da força”).
quinta-feira, setembro 08, 2016
Funcionário do mês, de Gennaro Nunziante **
Imagine que Renato Aragão em sua fase menos inspirada
resolvesse fazer uma comédia a satirizar o funcionalismo público no Brasil. De
certa forma, até não chega a ser um grande exercício de imaginação, pois a
grande onda atual no humor brasileiro é se mostrar como um transgressor de
direita... Mas se a hipótese de um Didi Mocó burocrata não parece tão absurda,
então dá para se ter uma ideia do que representa a produção italiana “Funcionário
do mês” (2016). A trama com o protagonista Checco (Checco Zalone), um
funcionário público obcecado por não perder a estabilidade, até guarda algumas
boas piadas. E é interessante a proposta do diretor Gennaro Nunziante de
enquadrar uma temática de forte caráter social dentro de uma formatação de
comédia escrachada. O problema é que a encenação é tão caricata que com o tempo
acaba se tornando enfadonha, além da visão existencial da obra sobre questões
complexas como reformas administrativas e desemprego cair em reducionismos
preconceituosos e vazios. É consenso que o humor no geral tenha uma função de
contestação dos valores morais e sociais do status quo vigente, mas “Funcionário
do mês” apenas se limita a propagar um discurso que na verdade é a ladainha
favorita de grandes corporações e da mídia oficial e dos políticos que as
defendem.
terça-feira, setembro 06, 2016
Aquarius, de Kleber Mendonça Filho ****
Por mais que “Aquarius” (2016) possa estar dividindo
opiniões e causando polêmicas variadas, um aspecto é inegável no filme do
diretor Kleber Mendonça Filho: a capacidade de captar o espírito de uma época.
É impressionante como ao longo da trama se identifica questões que trazem uma
identificação com o cotidiano contemporâneo do espectador. Estão lá o conflito
e preconceito de classes, a brutalidade verbal e física nas relações humanas, a
ambição econômica e social tomada como valor fundamental, a degradação da
concepção humanista de vida, a relação intrínseca entre religião e poder
econômico, o moralismo obtuso como máscara de interesses obscuros. Mendonça
Filho embaralha toda essa temática conturbada dentro de uma estrutura narrativa
típica de um filme de horror, envolvida em uma linguagem cinematográfica
repleta de simbologias simples e eficazes. O fato de se valer do cinema de
gênero é uma sacada estética e existencial extraordinária por parte do
cineasta, fazendo lembrar um recurso narrativo semelhante que Marco Dutra havia
articulado no impressionante “Quando eu era vivo” (2014) – ainda que a temática
se associe a um viés realista, o barroquismo formal e o exagero na encenação e
em determinadas passagens do roteiro amplificam ainda mais o mal-estar em
decorrência de uma sociedade em desequilíbrio moral e ético. Tudo na
protagonista Clara (Sônia Braga) remete ao arquétipo de uma heroína: a defesa
irredutível de seus direitos, a percepção humanista aguçada, o gosto cultural
hiper-sensível (que é um gancho genial para uma trilha sonora repleta de canções
magníficas), enquanto o seu antagonista Humberto Carrão (Diego Bonfim), um ganancioso
especulador imobiliário, recebe uma caracterização entre o odioso e o patético.
Tais elementos na composição dramática, associados a passagens da trama que
configuram um embate contundente entre o “bem” e o “mal”, podem sugerir um
aparente e simplista maniqueísmo da obra. O que evidencia na realidade,
entretanto, é uma postura artística ousada e desafiadora por parte de “Aquarius”
no questionamento de valores de uma sociedade dominada pelo mercantilismo e
exploração humana. O filme de Mendonça Filho exala uma fúria sincera e
visceral, tendo por resultado final uma catarse desconcertante e redentora.
segunda-feira, setembro 05, 2016
Loucas de alegria, de Paolo Virzi ***
Os responsáveis pela distribuição no Brasil da produção
italiana “Loucas de alegria” (2016) deveriam se cuidar, pois a forma a forma
escolhida para divulgar o filme em questão é pura propaganda enganosa. O cartaz
e o título brasileiro sugerem uma comédia agridoce, repleta de edificantes
lições de vida, daquelas que senhoras na terceira idade adoram para animar suas
tardes. É bem provável que as velhinhas levem um belo susto quando assistirem
de fato à obra do diretor Paolo Virzi. A trama até guarda uma estrutura típica
de melodrama, resvalando por vezes no sentimentalismo. O que prevalece na maior
parte do tempo da narrativa, entretanto, é uma encenação vigorosa e uma
caracterização bastante crua e perturbadora de situações e personagens. Por
trás do viés cômico, há um misto de sutileza e contundência ao retratar o
comportamento humano tanto por parte das duas protagonistas com distúrbio
mental quanto nos valores hipócritas daqueles que são envolvidos em suas
confusões e desventuras. O registro formal concebido por Virzi tem um certo
grau de perversidade, em que a direção de fotografia em determinados momentos
privilegia um estilo cartão-postal de enquadramentos e iluminação, para logo em
seguida enveredar em sequências de atmosfera entre o sujo e o sórdido. As
atrizes que interpretam as personagens principais também representam outro
ponto alto do filme – enquanto Valeria Bruni Tedeschi é pura exuberância
alucinada, Micaela Ramazzotti cativa na sua síntese de doçura e violência, com
a interação entre ambas apresentando uma dinâmica complexa, divertida e por
vezes até assustadora, demonstrando notável sintonia com as próprias concepções
artísticas de Virzi.
sexta-feira, setembro 02, 2016
Código das ruas, de Spike Lee **
No papel, “Código das ruas” (2004) tinha tudo para ser uma
obra memorável. A trama remete a estrutura clássica dos filmes policiais que narram
a ascensão de gângsteres, mas também se relacionando com a questão dos
conflitos de classes e etnias bastante presente na sociedade norte-americana
contemporânea. Como condutor da narrativa, está Spike Lee, já bastante calejado
na temática racial e um dos diretores contemporâneos de linguagem formal mais
apurada. É só lembrar, por exemplo, que é o cineasta responsável pela explosiva
cinebiografia “Malcolm X” (1992), obra que já apresentava uma extraordinária
síntese dos elementos acima mencionados. Ocorre, entretanto, que em “Código das
ruas” as coisas não se acertam como o esperado... O problema não é tanto o
roteiro esquemático e previsível – o grande incômodo é a direção sem brilho e
derivativa de Spike Lee. Não há aquela encenação vibrante de “Faça a coisa
certa” (1989), a ironia madura de “Febre da selva” (1991), as sutilezas
narrativas de “Crooklyn” (1994), a dramaticidade à flor-da-pele de “A última
noite” (2002), a ação lapidada à perfeição de “O plano perfeito” (2006), a
atmosfera operística e sórdida de “O verão de Sam” (1999), a tensão
perturbadora de “Irmãos de sangue” (1996). O que se tem é um produto genérico e
sem graça, que parece feito por um tarefeiro qualquer, não se podendo perceber
em qualquer instante o traço autoral característico de Spike Lee.
quinta-feira, setembro 01, 2016
A morte de J.P. Cuenca, de João Paulo Cuenca ***
Seria fácil enquadrar “A morte de J.P. Cuenca” (2014) como
uma pretensiosa e desagradável egotrip de seu diretor/roteirista/principal ator
João Paulo Cuenca. Não se trata especialmente de uma obra que traga cenas de
grande apuro estético, e por vezes a aridez de seu formalismo pode até causar um
certo enfado. Na sua mistura de elementos de encenações ficcionais e
documentais, a produção parece buscar uma brecha dimensional específica, quase como
se fosse um pesadelo se materializando de forma crua na realidade. Nessa
particular concepção artística, a crise que envolve a identidade do autor, a do
anônimo morto que tomou a sua identidade, tanto se aprofunda como uma
perturbadora crise existencial como por uma espécie de radiografia social da
degradação moral da cidade do Rio de Janeiro, cada vez mais gentrificada por
desumanos condomínios de luxo que sugerem um apartheid social. Morbidez e
ambiguidade são constantes na atmosfera do filme, fazendo com que a recriação
do real vá se dissolvendo de forma progressiva e o elemento do delírio se torne
cada vez mais presente, culminando no rito final de sexo e morte. Ainda que
esse coquetel não seja dos mais palatáveis, é inegável também a capacidade de
inquietar o espectador por parte de “A morte de J.P. Cuenca”.
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