Há de se concordar com pelo menos uma coisa em relação à
mais recente trilogia “Star Wars” – há uma certa coerência artística e
existencial entre os dois primeiros capítulos. Isso porque “Os últimos Jedi”
(2017) desperta a mesma impressão que “O despertar da força” (2015): são filmes
que mais parecem uma reciclagem oportunista e sem inspiração das produções clássicas
do que obras que acrescentam algo de novo à mitologia original criada por
George Lucas ou mesmo emulem uma continuação natural da saga de ficção
científica mais famosa da história do cinema moderno. Nesse longa mais recente,
até há alguns pontos positivos, como a bela direção de fotografia, algumas
sequências de ação que remetem a uma escola clássica de cinema de aventura e
mesmo e, por vezes, a caracterização de Mark Hammil como o lendário Luke
Skywalker que impressiona por um forte caráter icônico. Tais acertos,
entretanto, representam muito pouco para salvar uma narrativa destituída de
densidade dramática convincente, uma encenação apática e um roteiro que vai do
nada para o lugar nenhum. Além disso, fica reforçada a constatação que os novos
personagens da trilogia são destituídos de interesse e carisma, com “destaque”
absoluto para o ridículo vilão criança mimada Kylo Ren (Adam Driver), enquanto
as figuras clássicas são maltratadas de maneira burra e impiedosa pela forma
apelativa com que são utilizadas. Nesse último ponto, a morte de Luke Skywalker
é absurdamente anticlimática e sem sentido, parecendo apenas visar uma
manipulação sentimental gratuita. No cômputo geral, “Os últimos Jedi” joga fora
a boa impressão causada pelo ótimo “Rogue One” (2016) e faz temer até onde essa
picaretice mercadológica pode chegar.
Boa parte de amigos e conhecidos costuma dizer que as minhas recomendações para filmes funcionam ao contrário: quando eu digo que o filme é bom é porque na realidade ele é uma bomba, e vice-versa. Aí a explicação para o nome do blog... A minha intenção nesse espaço é falar sobre qualquer tipo de filme: bons e ruins, novos ou antigos, blockbusters ou obscuridades. Cotações: 0 a 4 estrelas.
terça-feira, dezembro 19, 2017
segunda-feira, dezembro 18, 2017
31, de Rob Zombie ***
Pelo menos com uma coisa até os detratores de Rob Zombie tem
de concordar: há uma forte coerência autoral em sua filmografia. Em grande
parte das produções que dirigiu se pode perceber uma recorrência de elementos
temáticos e narrativos – grafismo violento explícito, atmosfera sórdida e amoral,
psicopatas e assassinos em geral como personagens fundamentais nas tramas, até
a sua esposa Sheri Moon parece interpretar variações diferentes de um mesmo
papel. Tudo isso se encontra em “31” (2016), com direito inclusive a palhaços
matadores ao estilo do memorável Capitão Spalding (Sid Haig) de “A casa dos mil
corpos” (2003) e “Os rejeitados pelo diabo” (2005). O filme dá uma constante
impressão ao espectador que ele já viu tudo que aparece na tela de forma mais
convincente e impactante em outros filmes do próprio Zombie. Ainda assim, tem o
seu encanto, principalmente porque o formalismo casca grossa do cineasta e o
seu gosto por histórias sombrias e niilistas afastam “31” do lugar comum
asséptico que tomou conta do cinema de horror contemporâneo.
sexta-feira, dezembro 15, 2017
John Wick - Um novo dia para matar, de Chad Stahelski ****
Tudo aquilo que escrevi sobre “De volta ao jogo” (2014)
nesse blog se aplica novamente para a sua continuação “John Wick – Um novo dia
para matar” (2017). Cabe ressaltar, entretanto, que esse novo capítulo da
brutal saga de violência e ironia do protagonista vivido por Keanu Reeves
também não se limitar ao reciclar de uma fórmula que já havia dado bastante
certo no filme anterior. Na verdade, o diretor Chad Stahelski depura ainda mais
a narrativa e a estética, configurando encenação e atmosfera em um teor ainda
maior de estilização e barroquismo audiovisual. E se alguém ainda acha que a
melhor coisa que Reeves participou no gênero ação está na superestimada trilogia
“Matriz”, talvez devesse rever seus conceitos ao assistir às precisas e
alucinadas coreografias de lutas e tiroteios de “John Wick” ou na percepção da
divertida sagacidade de diálogos e no tom misto de cartunesco e consistente densidade
psicológica do roteiro.
quinta-feira, dezembro 14, 2017
Assassinato no Expresso do Oriente, de Kenneth Branagh **
Na função de diretor, o britânico Kenneth Branagh tem como
obras mais destacadas algumas recriações vigorosas e criativas de trabalhos de
Shakespeare como “Henrique V” (1989), “Muito barulho por nada” (1993) e “Hamlet”
(1996). Tal fato fez com que produtores o convocassem com certa frequência para
a releitura de obras e personagens clássicos de diversos meios de expressão, no
desejo de oferecer uma abordagem de maior estofo dramático e narrativo. Nesse
sentido, a produção em que melhor atingiu esse objetivo foi a bela adaptação de
“Cinderela” (2015). Em outros casos, entretanto, os resultados finais foram
decepcionantes, vide “Thor” (2011) e “Operação sombra: Jack Ryan” (2014). Sua
obra mais recente nessa vertente, “Assassinato no Expresso do Oriente” (2017),
incursão do cineasta pelo universo do mais popular livro da escritora Agatha
Christie, fica enquadrada também na categoria frustrante. Pode-se perceber um
certo requinte em termos de direção de arte e atmosfera, além de Branagh
conseguir extrair algumas atuações carismáticas de seu elenco. Mais tais
aspecto positivos são insuficientes para a apagar a má impressão de uma
narrativa amorfa, uma composição cênica/visual marcada pela assepsia e um
roteiro que resvala no melodramático excessivo, principalmente nos exageros
cafonas do terço final do filme. A opulência audiovisual concebida por Branagh
é vazia e tediosa e poucas vezes consegue trazer algum efetivo encanto para o
espectador.
terça-feira, dezembro 12, 2017
Como ser solteiro, de Rosane Svartman *
É bom deixar clara logo de cara uma constatação: “Como ser
solteiro” (1998) é uma legítima tranqueira do cinema nacional. A impressão é de
uma equação mal-ajambrada entre aquelas produções cariocas toscas e pueris da
primeira metade dos anos 80, tipo “Menino do Rio” e “Bete Balançco”, e
referências estéticas e temáticas a clássicas comédias românticas juvenis da
mesma época dirigidas por John Hughes (“Gatinhas e gatões”, “A garota de rosa
shocking”). Ainda assim, assistir a essa produção de Rosane Svartman acaba
despertando por vezes curiosidade e simpatia. Por trás de uma concepção
narrativa amorfa e um roteiro repleto de tiradas cômicas e dramáticas
rasteiras, como se fosse a junção de “Zorra total” com uma novela global das
mais chulés, há algo de uma atmosfera mista de inocente malandragem e
sensualidade à flor da pele que remete a um imaginário carioca que se perdeu
nos últimos anos – ficar de maneira deliberada nas mãos de evangélicos
obscurantistas e picaretas como Garotinho e Crivella não é uma situação pela
qual se passa incólume. Assim, mesmo um filme ordinário e ruim como esse “Como
ser solteiro” acaba despertando uma certa nostalgia perturbadora.
segunda-feira, dezembro 11, 2017
Waiting for B., de Paulo Cesar Toledo e Abigail Spindel ***
O documentário brasileiro “Waiting for B.” (2015) tem por
ponto de partida uma premissa até bem simples: o retrato do cotidiano de alguns
jovens que se encontravam acampados a dias em frente ao Estádio Morumbi para o
show que a cantora Beyoncé deu no local em 2013. Em termos existenciais, alguns
aspectos unem esses garotos – a maioria é de origem humilde em termos
econômicos e são homossexuais, com uma trajetória de vida com vários episódios
de preconceito e discriminação. O filme, entretanto, passa longe do simples
retrato sociológico ou da pura reportagem. Os diretores Paulo Cesar Toledo e
Abigail Spindel conseguem elaborar uma narrativa cativante, alternando diversas
ambientações e situações de maneira fluente e coesa, indo das conversas bem-humoradas
e as sessões de coreografias dos fãs da cantora nas filas, passando pela crueza
do registro do dia-a-dia de alguns deles com a família e no trabalho e
concluindo com o frenesi e tensão do dia da apresentação de Beyoncé. Diante
desse quatro estético-temático, o resultado final é uma obra de forte caráter
libertário na forma com que consegue conciliar em sua abordagem tanto a
contundência de seu discurso comportamental desafiador quanto uma certa leveza
no teor de ironia sagaz que perpassa o filme quando os seus protagonistas estão
em cena.
sexta-feira, dezembro 08, 2017
A cidade onde envelheço, de Marília Rocha ***
Em um primeiro momento, a narrativa de “A cidade onde
envelheço” (2016) aparenta uma certa aridez que pode parecer um pouco incômoda.
Os silêncios são enfatizados com vigor, a atmosfera tem algo de documental a
partir do registro seco da lente da diretora Marília Rocha, a trama realça
aspectos de um cotidiano simples e por vezes tedioso dos personagens. São em
algumas sutilezas estéticas e nas nuances existenciais do roteiro que o filme
vai despertando um insólito encanto para o espectador. Arroubos emocionais e
viradas espetaculares na história são dispensados em nome de uma fluência
narrativa natural e serena, em que motivações e maiores explicações sobre as
atitudes das protagonistas Tereza (Elizabete Francisca Santos) e Francisca
(Francisca Manuel) dão lugar a um teor instintivo e mesmo misterioso sobre o
comportamento errático de tais figuras. A forma com que Rocha faz com que o
filme acompanhe a trajetória das personagens evidencia um olhar poético sobre
as agruras e a pequenas delícias de suas rotinas, valorizando ainda detalhes
cênicos notáveis como a intensa interação dramática entre as atrizes principais
e mesmo o sedutor sotaque português das intérpretes.
quinta-feira, dezembro 07, 2017
Pai em dose dupla 2, de Sean Anders ***
O diretor Sean Anders atinge uma proeza considerável em “Pai
em dose dupla 2” – fazer com que uma sequência não se caracterize como
meramente oportunista e que consegue ainda ser melhor que o primeiro filme.
Essa continuação explora basicamente as mesmas questões temáticas e
direcionamento narrativo da produção anterior, mas de uma maneira mais
alucinada e sentimental (por mais contraditório que isso possa parecer). Anders
privilegia com maior intensidade os aspectos grosseiros e exagerados da comédia
física, com forte ênfase nesse lado para cenas envolvendo constrangimentos e
desastres com o personagem apatetado Brad (Will Ferrell), ao mesmo tempo que o
lado de crítica de costumes se harmoniza com bizarra fluência com um insólito e
até bem sacado tom de lições edificantes de vida. A direção de Anders dá uma
fluência admirável na conciliação desses diferentes polos da narrativa e que se
mostra em sintonia com o mote principal do roteiro – o confronto entre a imagem
idealizada de durão do típico macho norte-americano com a tendência para a
emotividade derramada típica do cidadão de classe média. Complementando essas
belas sacadas criativas da direção, há um elenco bastante inspirado, do
quarteto principal de atores até o elenco infantil, e a excelente utilização
das canções natalinas da trilha sonora (destaque para a memorável sequência dos
personagens acampados dentro de um cinema).
quarta-feira, dezembro 06, 2017
Um senhor estagiário, de Nancy Meyer *
Ok, a gente pode ter boa vontade e pensar que um filme como “Um
senhor estagiário” (2015) pode oferecer alguma reflexão sobre a questão da
velhice na sociedade contemporânea ocidental. E até lembrar que o protagonista Ben
Whittaker é interpretado por Robert De Niro, um ator cujo currículo tem tantas
obras marcantes que se a gente for citar pelo menos parte delas vai acabar
ocupando mais que a metade do parágrafo desse comentário. Assistindo ao filme
da diretora Nancy Meyer, entretanto, todas essas nossas considerações vão por
água abaixo e só se pode concluir que De Niro aceitou participar de algo tão
medíocre, reacionário e brega porque o cachê realmente devia ser muito bom. A
abordagem temática superficial e esquemática, o roteiro repleto de clichês
vagabundos e um formalismo mofado e tedioso resultam num filme difícil de
aguentar até o fim.
terça-feira, dezembro 05, 2017
Gabriel e a montanha, de Fellipe Barbosa ***
Se em “Casa grande” (2015) o diretor Fellipe Barbosa
oferecia um retrato pálido e esquemático sobre a decadência moral e econômica
da burguesia nacional neste século, em “Gabriel e a montanha” (2017) o seu
discurso artístico-existencial se mostra melhor focado e por vezes até beirando
o poético. O grande acerto em suas abordagens narrativa e temática está na
forma com que o protagonista Gabriel Buchmann (João Pedro Zappa) é colocado em
cena – se no início da trama o personagem possui uma certa aura santificada,
idealizada, na maneira com que interage com as figuras que encontra em suas
andanças pela continente africano, aos poucos essa impressão vai se mostrando
enganosa, quando o que fica evidenciada é a ambiguidade das intenções e da
personalidade de Gabriel. A entrada em cena de Cris (Caroline Abras), namorada
dele, é fundamental nessa dissecação existencial. Em trechos de conversas e
mesmo na tensão amorosa entre o casal fica esboçado de maneira sutil as
possíveis razões que levaram Gabriel a realizar a sua jornada. Nas frustrações,
angústias e desejos do protagonista ficam sintetizadas um conjunto de valores e
ambições de uma jovem geração movida a arrivismo e insensibilidade. Quando Cris
volta a ficar ausente da narrativa, essa passa a se tornar mais rarefeita, a
atmosfera do filme envereda para algo entre o realismo e o etéreo e mesmo o
roteiro e estética privilegiam uma forte carga de simbologias textuais e
visuais. As escolhas de Gabriel se tornam bizarras, seu comportamento ainda
mais errático. Seu trágico fim deixa a fascinante interrogação – um suicídio
dissimulado ou apenas o resultado de escolhas cretinas? Fellipe Barbosa embala
essa história intrincada com algumas escolhas formais adequadas e, em
determinados momentos, até encantadoras, principalmente pela fluência cênica do
seu elenco (inclusive os nativos “amadores”), pela forma com que as belas
paisagens africanas são aproveitadas na direção de fotografia e nos expressivos
temas musicais étnicos da trilha sonora.
segunda-feira, dezembro 04, 2017
Snuff - Vítimas do prazer, de Cláudio Cunha ***1/2
A parceria entre Cláudio Cunha na direção e Carlos
Reichenbach no roteiro em “Snuff –Vítimas do prazer” (1977) tem como resultado
final justamente aquilo que se poderia esperar de uma união dessas – uma síntese
muito bem delineada entre inventividade artística e ambientação sórdida
exploitation, combinação habitual naquilo de melhor que o cinema da Boca do
Lixo produziu. Roteiro e narrativa obedecem aos preceitos básicos dos gêneros
horror e suspense, mas também conseguem criar um subtexto e atmosfera repletos
de nuances irônicas e dramáticas, além de uma vigorosa simbologia visual e
textual. Dentro de tal concepção artística, há detalhes cênicos antológicos,
como a forma insólita em que a música clássica se insere em sequências marcadas
pela escatologia, o grafismo violento de algumas cenas, o erotismo misto de galhofeiro
e sensual e as composições dramáticas viscerais e cheias de verve de boa parte
do elenco.
sexta-feira, dezembro 01, 2017
Elvis & Nixon, de Liza Johnson **1/2
O encontro real entre Elvis Presley e Richard Nixon foi um
evento histórico que trouxe uma carga simbólica muito forte: o rei do rock, o
ícone máximo de um gênero musical e mesmo comportamental que teve no DNA de sua
formação um forte caráter de rebeldia, se declarou disposto a colaborar com um
dos líderes políticos mais conservadores do século XX. Ou seja, a riqueza de
aspectos contraditórios e complexos de mais de uma geração da sociedade
ocidental estava sintetizada na reunião desses dois homens. Diante de tais
circunstâncias, a produção norte-americana “Elvis & Nixon” (2016) se
mostrava bastante promissora ao propor a recriação dramática desse fato
controverso. Ocorre, entretanto, que a abordagem da diretora Liza Johnson passa
bem distante tanto de uma maior profundidade temática quanto de uma narrativa
mais inquietante. Roteiro e encenação privilegiam um viés cômico e superficial,
sem sugerir maiores leituras sociais e culturais sobre o significado de premissa
maior da trama. A cineasta enfatiza mais uma caracterização caricatural a
sugerir o ridículo de algumas situações e personagens, num direcionamento que
por vezes até chega a ser levemente divertidos, mas nada que vá muito além
disso, impressão essa acentuada nas atuações cartunescas e carismáticas de
Michael Shannon e Kevin Spacey nos papeis principais.
quinta-feira, novembro 30, 2017
Invasão zumbi, de Yeon Sang-ho ***1/2
Filmes sobre apocalipse zumbi se tornaram bastante
recorrentes nos últimos anos. E é claro que o excesso de obras no gênero
provocou uma exaustão criativa a um ponto que poucas produções realmente se
destacaram por trazer algo de efetivo interesse. Dentro dessas exceções, dá
para citar o longa sul-coreano “Invasão zumbi” (2016). Aa rigor não há grandes
novidades na forma com que o diretor Yeon Sang-ho conduz a sua narrativa. O que
diferencia o filme é uma encenação muito bem azeitada, que combina na medida
certa sequências de ação frenéticas e coreografadas com precisão e momentos
intimistas entre o contemplativo e o melodrama, além da caracterização visual
dos zumbis e da direção de arte de tons pós-apocalipticos comporem um todo
imagético de forte impacto sensorial. A concepção estética e temática engendrada
por Sang-ho foge daquele padrão asséptico de horror ocidental destinado para
grandes plateias. Ou seja, pela sua atmosfera sórdida e pessimista, “Invasão
zumbi” se mostra mais em sintonia com os trabalhos referenciais de George
Romero do que com produções despersonalizadas e inexpressivas como “Guerra
mundial Z” (2013).
quarta-feira, novembro 29, 2017
Câmara de espelhos, de Dea Ferraz ***1/2
O discurso do senso comum, ou da “sabedoria popular” como
preferem alguns, é fortemente influenciado por uma opressora doutrinação
machista-patriarcal. Nessa vertente de “pensamento”, teorias duvidosas e
filosofia de botequim se incorporam no imaginário popular como verdades quase
inatacáveis. Uma das mais frequentes delas diz, naquelas generalizações
obscurantistas que muita gente adora, que a mulher tem um modo de agir tomado
pela emoção e intuição, enquanto o homem seria aquele cujas atitudes revelariam
uma maior racionalidade. O grande mote artístico-existencial do documentário “Câmera
de espelhos” (2016) é a ácida dissecação desse ideário sócio-cultural, em que a
visão crítica da diretora Dea Ferraz não se limita na exposição de sua temática
contestatória, mas também no próprio método estético concebido pela cineasta.
Não é à toa que em algumas passagens do filme são explicitados as técnicas
formais e o próprio direcionamento de conteúdo da obra. É como se Ferraz
quisesse evidenciar o seu cartesianismo de maneira contundente, elaborando uma
obra tanto marcada pelo rigor de sua execução narrativa quanto pela clareza de
suas ideias sobre a política dos sexos. A precisão no delinear de tal concepção
narrativa e filosófica, com sutis toques de psicodrama, se contrapõe de maneira
brilhante com a hipocrisia e preconceito dos diálogos entre os “personagens” do
seu filme. Há algo de perverso e mesmo manipulador na forma com que a diretora
extrai algumas perturbadoras constatações dos depoimentos que colhe ao longo do
filme, mas tal método se mostra legítimo e eficaz quando se percebe a
capacidade de “Câmara de espelhos” revelar com sensibilidade e lucidez uma
verdade que a sociedade e a mídia procuram dissimular com revoltante
desfaçatez.
terça-feira, novembro 28, 2017
Linha de frente, de Gary Felder **1/2
Filmes de ação com Jason Statham, com raras exceções,
praticamente se tornaram um subgênero. Narrativa e trama geralmente obedecem a
preceitos básicos e manjados – o protagonista interpretado por Statham é um
sujeito meio sorumbático que guarda alguns mistérios em seu passado, algo que
tem a ver com o fato dele ser na real um cara muito durão e que manda muita
porrada quando incomodado, e o roteiro se desenvolve com as premissas
previsíveis que farão com que distribua bordoadas e tiros para quem lhe
incomodar. Por vezes, tal receita até dá certo e rende alguns filmes acima da
média, mas na maioria das vezes a fórmula cai na mesmice. E esse é o caso de “Linha
de frente” (2013). A produção dirigida por Gary Felder insinua em alguns
momentos uma caracterização de situações e personagens mais perturbadoras,
principalmente quando o vilão vivido por James Franco está em cena. No final
das contas, entretanto, são pequenas nuances que aos poucos vão perdendo
importância em nome das convenções habituais do gênero mencionadas
anteriormente.
segunda-feira, novembro 27, 2017
O melhor professor da minha vida, de Olivier Ayache-Vidal ***
Que o pessoal responsável por fazer as versões de títulos de
filmes estrangeiros para português no Brasil tem alguns critérios questionáveis
já é mais do que sabido. Mas no caso de “O melhor professor da minha vida”
(2017) eles realmente se puxaram. O título escolhido tanto pode atrair ou
repelir possíveis espectadores e nos dois casos pela ideia equivocada que dá da
abordagem dessa produção francesa dirigida por Olivier Ayache-Vidal, além de
estar distante do tom mais sutil e poético do original “grandes mentes”. Em
síntese, o longa em questão não se filia aquela linhagem de obras edificantes que
mostram professores superando todas as dificuldades em uma sala de aula e dando
lições de vidas para os alunos e, por consequência, para a plateia. O filme de
Ayache-Vidal está mais vinculado em termos estéticos-temáticos à escola
realista da obra-prima “Entre os muros da escola” (2008). O roteiro não
apresenta soluções mágicas dentro da trama em que o arrogante professor
François Foucault (Denis Podalydès), proveniente de uma escola elitista de
Paris, se vê obrigado a dar aulas em um colégio da rede pública da capital. A
visão artística e existencial da obra sobre a relação ensino e meio social é
marcada pela lucidez amarga, ainda que permita de maneira coerente vislumbrar
saídas a partir de uma perspectiva humanista de educação. A concepção formal
para contar essa história é simples e tradicional, não tendo o mesmo grau de
inventividade e dinâmica estéticas da aludida obra de Laurent Cantet, mas não
se rende a truques baratos e consegue se mostrar como uma moldura contundente
para as intenções de Ayache-Vidal, com destaque para uma encenação de notável
fluidez e para as atuações vigorosas do elenco.
sexta-feira, novembro 24, 2017
Carmen, de Carlos Saura ***1/2
A premissa principal da trama de “Carmen” (1983) é algo
manjada, quase apelativa no seu teor melodramático: nos bastidores de uma
adaptação flamenca da ópera “Carmen” de Bizet, desenvolve-se um enredo
envolvendo paixão e ciúme entre o diretor-coreógrafo e sua principal atriz, em
paralelo com a história de temática semelhante da ópera encenada. Na verdade,
tal roteiro serve apenas como um pretexto para o diretor Carlos Saura expor na
tela aquilo que realmente lhe interessa – as sanguíneas coreografias flamencas,
a fusão exuberante dos temas originais de Bizet com o virtuosismo de Paco de
Lucía, o rigoroso formalismo baseado no detalhismo cênico e em composições
imagéticas exuberantes. Em se tratando de Saura, é claro que se prefere a sua
fase setentista baseada na síntese entre crônica intimista-política e narrativa
de teor delirante, mas dentro de sua filmografia voltada para a música, “Carmen”
é um de seus trabalhos mais contundentes.
quinta-feira, novembro 23, 2017
Crime desorganizado, de Jon Favreau ***
Na trajetória de Jon Favreau como diretor, pode-se perceber
uma certa linha conceitual em suas concepções narrativas, mesmo quando atua
dentro do esquema dos blockbusters dos grandes estúdios – a de buscar uma
releitura vigorosa dos modelos tradicionais do “cinemão” incorporando um viés
sardônico típico das produções independentes de onde despontou inicialmente. “Crime
desorganizado” (2001) representa uma obra de transição na filmografia do
cineasta – trata-se de um longa-metragem no gênero comédia policial ainda da época
em que Favreau era mais atuante dentro do universo “B” do cinema norte-americano,
sendo que alguns anos depois se tornou o diretor responsável pelo megassucesso “Homem
de ferro” (2008). “Crime desorganizado” centra a sua trama no ambiente de
picaretas e bandidos pé-de-chinelo, com um roteiro que privilegia a comédia de
erros, situações absurdas, diálogos sardônicos e alguns momentos de violência
entre a crueza e o cartunesco. Nada de muito original, Scorsese e Tarantino já
fizeram tudo isso de forma bem mais impactante, mas ainda assim a dinâmica
narrativa engendrada por Favreau consegue ser envolvente, extraindo ainda
caracterizações carismáticas de seu elenco (com destaque para o próprio Favreau
e para o habitual parceiro Vince Vaughn).
quarta-feira, novembro 22, 2017
Liga da Justiça, de Zack Snyder *
Se “Mulher Maravilha” (2017) representou um certo raio de
esperança para que as adaptações cinematográficas dos quadrinhos da DC pudessem
engrenar em algo minimamente convincente, “Liga da Justiça” (2017) prova que as
coisas continuarão na mesma. Estão lá todos os elementos habituais do padrão
Zack Snyder de produção: a ausência de uma narrativa fluente, sequências de
ação medíocres, concepção visual derivativa, roteiro beirando o simplório e
repleto de diálogos cretinos, caracterizações de personagens entre o
inexpressivo e o constrangedor (Ben Affleck passa a constante sensação de que gostaria
de estar em outro lugar). Ou seja, nada muito diferente das porcarias
anteriores “Superman – O homem de aço” (2013), “Batman vs. Superman: A origem
da justiça” (2016) e “Esquadrão suicida” (2016). É visível que a parceria
Warner/DC quer emular algumas das estratégias artísticas e comerciais dos
Estúdios Marvel, mas faz isso de maneira descuidada e puramente oportunista.
Assim, se o espectador quiser ver algum filme interessante no gênero aventura
de super-heróis, é bem melhor ficar com “Thor: Ragnarok”, que ainda está em
cartaz e é bem mais divertido, consistente e ousado do que essa tranqueira
chamada “Liga da Justiça”, obra que não faz jus à importância do supergrupo da
DC na história dos “comics” (para aqueles que duvidam disso, recomendo fases
sensacionais da Liga escritas por Keith Giffen e Grant Morrison).
terça-feira, novembro 21, 2017
O outro lado da esperança, de Aki Kaurismäki ***
O que diferencia “O outro lado da esperança” (2017) de
outras produções dirigidas pelo finlandês Aki Kaurismäki é o fato de ser a obra
do cineasta com a trama mais escancaradamente sócio-política. Vários detalhes
do roteiro apresentam forte ressonância com alguns dos principais temas que
dominam a sociedade europeia – a crescente xenofobia cultural, a cada vez mais
intensa migração de árabes para o continente em virtude de conflitos bélicos em
seus países natais, a onda de desemprego que joga a economia na informalidade e
na precariedade. Há um forte tom panfletário de crítica social na abordagem de
Kaurismäki, mas sem que isso afete o estilo habitual do diretor. Pelo contrário
– tais aspectos se complementam com bastante naturalidade e coerência. Dessa
forma, estão lá na narrativa sempre presente a comicidade baseada numa
encenação austera, a idiossincrasia ascética na caracterização de situações e
personagens, a empatia que brota de econômicos truques narrativos, os belos
números musicais que irrompem de maneira insólita, a atmosfera entre o realismo
e o poético que por vezes desconcerta o espectador. A conjunção de tais
aspectos artísticos acaba gerando alguns momentos memoráveis, principalmente na
ambígua sequência final, em que o trágico e o tom esperançoso convivem em uma
estranha harmonia.
segunda-feira, novembro 20, 2017
A conexão francesa, de Cédric Jimenez **1/2
Parecia promissor: “A conexão francesa” (2014) tem como base
principal de sua trama a recriação dos fatos reais que inspiraram o clássico “Operação
França” (1971). As boas expectativas, entretanto, ficaram só na intenção. A
produção dirigida por Cédric Jimenez é uma obra no gênero policial que fica
sempre no campo do derivativo – é bem feito e por vezes até envolve o
espectador, mas está muito longe da criatividade e ousadia estéticas da
obra-prima de William Friedkin. Encenação e montagem são excessivamente
convencionais, com uma atmosfera que por diversos momentos recai no melodrama
banal. A decepção é ainda maior quando se lembra que o cinema policial francês
contemporâneo já apresentou trabalhos bem mais memoráveis como “36” (2004) e “Inimigo
público nº 1 – Risco de morte” (2008).
sexta-feira, novembro 17, 2017
Diabo no corpo, de Marco Bellocchio ***1/2
Em boa parte da filmografia do diretor italiano Marco
Bellochio, sexo e política se ligam por conexões complexas e indissociáveis.
Por vias ora tortuosas, ora de sutil delicadeza, o erotismo adquire tanto
contorno libertários quanto de um discurso ideológico difuso. Tudo isso fica
evidente em “Diabo no corpo” (1986) – a encenação precisa e descarnada e a
crueza dos embates sexuais acentuam uma concepção artística e existencial
marcada por uma visão entre o amargo e o irônico dos dilemas e descaminhos da
política italiana nas últimas décadas do século XX. Assim, sexo beirando o
explícito e a temática espinhosa do terrorismo político parecem caminhar lado a
lado com uma naturalidade bizarra e por vezes até encantadora.
quinta-feira, novembro 16, 2017
Condado macabro, de Marcos DeBrito e André de Campos Mello *
Onde está o caminho para o horror nacional? Bem, algumas
produções até indicaram caminhos interessantes, vide obras como “Mangue negro”
(2008), “Quando eu era vivo” (2014) e “O diabo mora aqui” (2015), que buscaram
uma síntese entre fatores estéticos e temáticos tradicionais do gênero com
singulares elementos regionais e culturais. Ou seja, houve em tais filmes a
procura de uma linguagem própria que extravasasse o simples reciclar sem
imaginação de clichês narrativos. Pois “Condado macabro” (2015) vai justamente
na direção oposta dos longas mencionados – os diretores Marcos DeBrito e André
de Campos Mello parecem dispostos apenas em copiar/homenagear alguns de seus mestres
ou influências preferenciais (Rob Zombie, “O massacre da serra elétrica”, slasher
movies oitentistas, torture porn contemporâneo, palhaços escrotos, referências
pop a la Tarantino) na cara-de-pau e com um formalismo desleixado de dar nos
nervos. Pode ser que alguns truques estilísticos e uma certa atmosfera irônica
indiquem uma obra que não se pretende levar tão a sério, mas isso acaba soando
apenas como desculpa esfarrapada para justificar uma realização tão indulgente.
No mais, prevalecem detalhes patéticos como escolhas equivocadas no elenco (o
que dizer de atores e atrizes trintões interpretando adolescentes?) e um
roteiro desconjuntado e repleto de situações absurdamente cretinas (destaque
maior para o momento quando a turminha de “jovens” descobre o primeiro
assassinato e na hora da fuga perde longos minutos arrumando as malas!).
terça-feira, novembro 14, 2017
No intenso agora, de João Moreira Salles ***1/2
Em “Santiago” (2017), o documentarista João Moreira Salles
construía uma narrativa intimista vinculada a uma temática de caráter bastante
pessoal a partir de registros concebidos e realizados originários de filmagens
próprias. Já em “Últimas conversas” (2014), o derradeiro longa-metragem de
Eduardo Coutinho, Salles foi responsável por fazer os arremates finais no
material coletado por Coutinho, principalmente no que diz respeito à montagem,
tendo em vista a morte desse último. De certa forma, “No intenso agora” (2017)
parece evocar um cruzamento entre os dois filmes mencionados anteriormente: a
partir de registros audiovisuais e imagens exclusivamente de terceiros, o
cineasta constrói a sua narrativa marcada pelo subjetivismo e pessoalidade. O
trabalho de edição é engenhoso e delicado – filmagens amadoras, trechos de
documentários, passagens de produções de caráter institucional, partes de reportagens,
tudo vai se juntando e relacionando tendo como princípio uma visão artística e
existencial delimitada com sensibilidade. Essa visão se personifica na narração
de própria voz de Salles. O tom monocórdio da locução e o texto que sintetiza
relato histórico e reminiscências pessoais formam um conjunto perturbador e
ambíguo que dá um sentido particular desconcertante para as imagens e sons que
brotam da tela. A impressão sensorial é de um longo devaneio de Salles que
mistura melancolia, desilusão, nostalgia, ironia amarga e uma sutil e vaga
noção de deslumbramento. Pode-se argumentar que há um tom vacilante e difuso na
narrativa que sugira um direcionamento ideológico, mas a verdade é que “No
intenso agora” não tem um propósito primordial de convencer alguém de alguma
coisa. Está mais para a tentativa de materialização fílmica de determinados
sentimentos e desejos que talvez nem o próprio Salles saiba direito do que se
trata. E é nessa imprecisão nebulosa de intenções que reside o encanto de seu
documentário.
segunda-feira, novembro 13, 2017
Vazante, de Daniela Thomas ***
Ao se assistir à “Vazante” (2017), dá para entender um pouco
a polêmica que o filme de Daniela Thomas vem causando. O retrato que faz da
escravidão do Brasil no século XIX causa certo teor de perturbação por uma
abordagem emocional e histórica marcada pela sobriedade e ausência de uma
delimitação mais clara entre o “bem” e o “mal” – ou seja, não dá para dizer que
se trata de uma trama com mocinhos e bandidos. O retrato que o roteiro propõe
mostra o regime escravista entranhado na sociedade como algo normal,
corriqueiro. Na trama, as famílias de fazendeiros que possuem escravos não
apresentam uma caracterização de sádicos ou dementes racistas, mas sim de
pessoas normais, eventualmente atormentadas, que aceitam e se valem daquela
situação de exploração desumana como algo normal e aceitável no seu cotidiano.
Mesmo na ala dos escravizados predomina um teor de resignação, com eventuais
situações de revolta. Na verdade, essa visão da escravidão como algo normal e
corriqueiro é que dá a verdadeira dimensão assustadora da situação e ajuda
melhor a explicar como o racismo no Brasil apresenta todo esse contexto de
hipocrisia e crueldade na sociedade contemporânea. Voltando ao filme, também é um
acerto o trabalho minucioso de direção de arte e fotografia em preto e branco que
compõem um registro audiovisual marcado tanto pelo áspero realismo quanto por
uma beleza melancólica no seu sutil registro que vai das grandes tomadas de
paisagens naturais até enquadramentos e encenação de caráter intimista. O que
atrapalha o longa-metragem de Thomas é que no terço final da narrativa a obra
se converte num gasto melodrama envolvendo adultérios e gravidezes suspeitas que
por vezes beiram o novelesco banal, ainda que guardem um simbolismo por vezes
inquietante.
sexta-feira, novembro 10, 2017
Dois é bom, três é demais, de Anthony e Joe Russo **
Os créditos na direção de “Dois é bom, três é demais” (2006)
até sugerem algo de promissor. Afinal, trata-se dos irmãos Anthony e Joe Russo,
responsáveis por um dos melhores filmes da Marvel Studios, “Capitã América: O
soldado invernal” (2014). O resultado final dessa comédia, entretanto, deixa
bastante a desejar. Não chega a ser exatamente ruim – há alguns momentos daquele
humor grosseiro que efetivamente rendem algumas risadas, além de uma visão mais
crítica sobre questões comportamentais e mesmo intimistas dentro da sociedade
norte-americana. Tais aspectos positivos, entretanto, são sufocados pelo
convencionalismo excessivo e derivativo da forma com que a narrativa é conduzida,
além de um roteiro bastante conservador em suas resoluções. Afinal, o que dizer
de uma conclusão em que um eterno desajustado acaba se enquadrando nos padrões
ao se descobrir como um excelente palestrante de autoajuda?
quinta-feira, novembro 09, 2017
Terra selvagem, de Taylor Sheridan ***
Na ainda pequena amostragem que já se teve das obras do
diretor e roteirista Taylor Sheridan nas salas de cinemas, dá para dizer que
ele segue uma certa linhagem autoral. Em “Sicário” (2015) e “A qualquer custo”
(2016), produções que contaram com roteiros de sua autoria, pode-se perceber
uma expressiva síntese entre os preceitos do cinema de ação e abordagem e
atmosfera mais reflexivas, além de tramas que trazem em seus respectivos
subtextos uma sutil visão crítica sobre os descaminhos morais e sociais da
sociedade norte-americana contemporânea. Num contexto ainda mais amplo, são
filmes que revelam ainda uma releitura contemporânea dos gêneros policial e
faroeste. Em “Terra selvagem” (2017), longa-metragem de estreia de Sheridan
como diretor, tais características das mencionadas obras anteriores voltam a se
manifestar, sem, contudo, apresentar um foco artístico tão preciso. Há uma
narrativa envolvente, a memorável fotografia que valoriza a forte beleza
plástica das amplas paisagens geladas que servem de cenário para a trama,
sequências de ação muito bem dirigidas (o brutal tiroteio final é
particularmente antológico), encenação que por vezes cria momentos de sufocante
tensão psicológica e uma adequada trilha sonora climática composta e executada
por Nick Cave e Warren Ellis (ainda que dê a impressão de ser um tanto
derivativa de outros temas mais consistentes que eles fizeram para filmes
anteriores). O que incomoda em “Terra selvagem” é um excesso de cenas marcadas
por um forçado teor contemplativo e solene e um roteiro que força a barra em
diálogos filosóficos de almanaque, o que faz com que a narrativa não seja tão
equilibrada quanto as de “Sicário” e “A qualquer custo”.
quarta-feira, novembro 08, 2017
Na praia à noite sozinha, de Hong Sang-soo ***1/2
Os filmes do diretor sul-coreano Hong Sang-soo apresentam
elementos narrativos que são recorrentes. Não se trata de acomodação artística,
mas sim de depuração de uma linguagem cinematográfica muito peculiar. Isso fica
evidente em “Na praia à noite sozinha” (2017). Nessa obra mais recente, estão
lá aqueles aspectos formais e temáticos que já constavam em seus filmes
anteriores – os planos narrativos que se alternam entre o real e o imaginário,
a encenação de fluidez insólita e cativante (evidentes, por exemplos, nas
sequências em que os personagens dialogam ao redor de uma mesa jantando ou
bebendo), o estilo de filmar e editar que sugere uma síntese particular entre a
aparente rusticidade e a sofisticação, o roteiro que alude ao universo do cinema
como um de seus principais cenários. Dentro desse conjunto estético-textual, a
narrativa faz com que espectador embarque em um contexto sensorial de estranho
encanto, em que as situações da trama se sucedem quase como se fosse um sonho,
em que algumas soluções marcadas pelo absurdo acabam ganhando uma notável
coerência existencial-artística. Assim, cenas parecem se repetir com sutis
variações, assim como as próprias noções de espaço e tempo se mostram elásticas,
mas o encanto de tais excentricidades é filtrado dentro de um formato de
crônica cotidiana. Ou seja, parece complicado, mas no final das contas é de uma
simplicidade desconcertante.
terça-feira, novembro 07, 2017
O estigma de Satanás, de Piers Haggard ***
Na época de seu lançamento, “O estigma de Satanás” (1971) já
tinha um certo caráter anacrônico. Vinculado àquela escola de horror delineada
pela produtora inglesa Hammer, o filme do diretor Piers Haggard traz realmente
a impressão de uma obra datada, principalmente pela formatação tradicional de
seu roteiro, pela fleuma de sua encenação e pela sua atmosfera entre o gótico e
o pastoril. Ainda assim, esse passadismo por vezes tem algo atraente na forma
com que a sua narrativa se espraia na tela, sugerindo uma síntese entre o encantador
e o perturbador – é de se considerar que o longa capricha mais na violência e
violência gráficas do que os trabalhos da Hammer. Algumas trucagens e mesmo
detalhes da maquiagem e caracterização visual jogam o filme naquela zona
nebulosa do humor involuntário, impressão essa acentuada por algumas passagens
da trama excessivamente maniqueístas. Por outro lado, há uma estranha
ambientação difusa e ambígua em determinadas sequências, principalmente
naquelas envolvendo rituais de magia negra, além de um sutil subtexto a sugerir
uma crítica a um ordenamento religioso patriarcal e opressor. Por mais que a
conclusão da produção evoque a velha máxima do “bem vencendo o mal”, há um
traço de melancolia amarga na forma com o representante da ordem e da moral do
vilarejo interiorano reprime e esmaga o grupo de jovens e deserdados cultores
do “mal”.
segunda-feira, novembro 06, 2017
Thor: Ragnarok, de Taika Waititi ***1/2
Em alguns posts que escrevi neste blog falando sobre filmes
que adaptavam o universo das HQs de super-heróis para as telas, foi mencionada
a necessidade das obras do gênero em questão em procurar preservar uma certa
essência dos quadrinhos originais nessa transposição de uma mídia para outra
visando resgatar aquilo que personagens e histórias dos “comics” têm de
interessante e peculiar que justificam a sua perenidade. Pois “Thor: Ragnarok”
(2017) acaba sendo um desmentido enfático dessa tese! O diretor neozelandês
Taika Waititi pega figuras, conceitos e outros elementos diversos do clássico
universo da Marvel e os recria num contexto diferente e algo delirante, mas
sempre transparecendo uma coerência artística-existencial desconcertante.
Tentando resumir, dá para dizer que esse novo capítulo das aventuras do mais
famoso deus de Asgard pega toda aquela solene mitologia nórdica típica do
protagonista e a enquadra numa lógica estética e temática que remete
diretamente a produções de ficção científica barata dos anos 80 (impressão essa
acentuada pela divertida e esquisita trilha sonora baseada em tecnopop
concebida por Mark Mothersbaugh, ex-integrante da banda new wave Devo), o que
coloca o filme diretamente em sintonia com a franquia de “Os guardiões da
galáxia”. Tal orientação artística, entretanto, não faz com que “Thor: Ragnarok”
caia na mera paródia, ainda que haja um considerável número de cenas e diálogos
movidos a piadinhas infames. Na narrativa, há tudo aquilo que um bom filme de
super-heróis deveria ter: cenas de ação coreografadas e encenadas com precisão
e detalhismo memoráveis, concepção visual de grafismo expressivo e criativo,
sequências com forte tensão dramática e personagens bem construídos e
carismáticos. Ou seja, uma ótima surpresa para aqueles que tinham ficado decepcionados
com a tendência para o romantismo xaroposo dos dois primeiros filmes do
personagem. Já para quem conhecia o longa anterior de Waititi, a pérola cult “O
que fazemos na sombra” (2014), excêntrica comédia a tirar um sarro dos clichês
habituais dos filmes de vampiros, acaba não sendo uma surpresa tão grande
assim, ainda que “Thor: Ragnarok” revele uma forte evolução artística por parte
de Waititi.
quarta-feira, novembro 01, 2017
Meu amigo hindu, de Héctor Babendo *
O cineasta Héctor Babenco é um nome muito importante na
história do cinema brasileiro. Além de ter dirigido obras fundamentais da
filmografia nacional, como “Lúcio Flávio – Passageiro da agonia” (1977) e “Pixote
– A lei do mais fraco” (1981), também foi o responsável por produções
internacionais memoráveis como “Ironweed” (1987) e “Brincando nos campos do
senhor” (1991). Dessa forma, é evidente que causa bastante frustração saber que
o seu filme-testamento seja um longa-metragem tão decepcionante quanto “Meu amigo
hindu” (2015). Na verdade, os trabalhos imediatamente anteriores de Babenco, “Carandiru”
(2003) e “O passado” (2007), já mostravam um considerável declínio em termos de
inspiração criativa, mas nada também que chegasse aos picos de ruindade do
trabalho derradeiro do diretor. Resumindo, trata-se de uma egotrip narcisista e
autoindulgente do diretor, concebida e elaborada sem o menor traço do cuidado estético-narrativo
e da consistente densidade psicológica que eram marcantes em seus melhores
filmes. É claro que dá para entender que Babenco quisesse transpor para as
telas o seu drama pessoal real de um doloroso tratamento para uma grave doença
e o consequente processo de desagregação de sua vida pessoal decorrente desse
fato, além de mostrar também o seu reerguimento como indivíduo diante de tais
circunstâncias difíceis e complexas. Um artista tem o direito de manifestar
suas obsessões da forma como quiser, e no caso do diretor dá para dizer que a
sua história tem um alcance universal. O verdadeiro equívoco de “Meu amigo
hindu” é que essa viagem intimista ganha um tratamento formal desleixado e
derivativo, acentuado ainda mais por escolhas de produção tremendamente esdruxulas
– para começar, por melhor ator que seja Willem Dafoe, por que escolher um ator
norte-americano para o papel de um protagonista brasileiro, numa trama que se
passa no Brasil, com demais personagens vividos por um elenco brasileiro que
fala em inglês? E com o complemento de que quando a história passa a se situar
nos Estados Unidos aparecem novamente atores brasileiros interpretando
norte-americanos com um inglês macarrônico? E a partir do momento que Bárbara
Paz entra em cena interpretando a si própria, a produção toma outro rumo. E
para pior, caindo no francamente ridículo, beirando a comédia involuntária.
terça-feira, outubro 31, 2017
Rendez-vous, de André Techiné ***1/2
Os filmes do diretor André Techiné geralmente parecem
se configurar como sóbrios contos morais. A grande questão, entretanto, é que
essa moral obedece a uma lógica ambígua e particular. “Rendez-vous” (1985) é um
exemplar enfático dessa tendência do cineasta francês. Como principal mote
aparente de sua trama, desenvolve-se um conturbado triângulo amoroso em meio ao
cenário artístico parisiense. Só que um dos vértices de tal relacionamento é de
um atormentado ator que morre logo no terço inicial do filme. Nesse sentido, a
narrativa concebida por Techiné vai se equilibrando numa tênue linha entre uma
ambientação naturalista e uma atmosfera fantástica, como se a convivência entre
esses dois planos beirasse o prosaico. Por trás da estranheza dessa história há
ainda um subtexto sutil sobre a natureza da arte – a forma com que a
protagonista Nina (Juliett Binoche) amadurece entre os descaminhos de sua vida
amorosa também serve como substrato da autodescoberta de suas potencialidades
como atriz. As evidentes implicações psicológicas e simbólicas do roteiro
recebem um tratamento formal misto de rigor e fluidez por parte de Techiné,
centrando grande força no vigor de sua encenação e na estética precisa da fotografia
e edição.
segunda-feira, outubro 30, 2017
O formidável, de Michel Hazanavicius ***
Em um primeiro momento, a primeira coisa que salta aos olhos
ao assistir a “O formidável” (2017) são algumas brincadeiras e referências
estéticas concebidas pelo diretor Michel Hazanavicius que perpassam a narrativa
que evocam sequências memoráveis de produções marcantes dirigidas por Jean-Luc
Godard, o protagonista da trama do filme baseada em fatos reais. Por vezes tais
truques são pertinentes e engraçados, em outros momentos são apenas pueris.
Também é de se destacar que a produção se estrutura quase como se fosse uma
comédia romântica, com um roteiro que enfatiza situações e soluções típicas do
gênero. Tais detalhes temáticos e narrativos, entretanto, representam uma superfície
enganadora sobre as reais intenções da obra, pois a efetiva força de “O
formidável” está no contundente subtexto do seu roteiro e no vigor de sua
encenação, fatores esses ainda reforçados pele interpretação sanguínea de Louis
Garrel no papel de Godard. Em meio aos desacertos, contradições e dilemas do
personagem principal com as causas e consequências do maio de 1968 em Paris está
uma arguta observação sobre o papel de um artista perante a sociedade em que
está inserido. No meio de cobranças para se mostrar acessível para os seus
admiradores, em cumprir expectativas advindas da condição de ser um gênio
cinematográfico “consagrado” e também em se enquadrar nos padrões de
comportamento “civilizado” de uma sociedade pequeno-burguesa, o que fica
realmente estabelecido como o grande mote da trama é a necessidade de
reinvenção e apreensão da realidade por parte do artista diante de um evento
histórico tão complexo e perturbador quanto as revoltas estudantis da época.
Nesse aspecto, o filme de Hazanavicius não facilita as coisas – Godard quase
sempre é visto pelo olhar da jovem e algo ingênua esposa Anne Wiazemsky (Stacy
Martin), sugerindo-se uma personalidade irascível, geniosa e arrogante por
parte do cineasta, mas que sutilmente esconde um sentimento de inconformismo e
da busca de preservar o seu senso humanista perante hipócritas cobranças e
acusações daqueles que o cercam. A melancólica conclusão de “O formidável”
sublinha com notável coerência e precisão as verdadeiras ambições artísticas e
existenciais do longa-metragem de Hazanavicius.
sexta-feira, outubro 27, 2017
Mishima - Uma vida em quatro capítulos, de Paul Schrader ****
Daquela geração/cena de cineastas e roteiristas que
despontaram no final dos anos 60 e se consagraram de vez na década de 1970, a
chamada “Nova Hollywood”, Paul Schrader é o que teve trajetória e estilo mais
singulares. Enquanto seus colegas se dedicaram a estética e narrativa que sintetizavam
a linguagem clássica do cinema norte-americano da primeira metade do século XX e
as inovações artísticas das correntes europeias mais prementes da época,
principalmente a Nouvelle Vague, Schrader enveredou para uma releitura bastante
particular do cerebralismo do Robert Bresson e do minimalismo expressivo de
Yasujiro Ozu. “Mishima – Uma vida em quatro capítulos” (1985) é um exemplar
enfático de tal tendência artística de Schrader. Ao invés de optar pela
convencional cinebiografia estilo “resumão”, o diretor preferiu fazer um
verdadeiro tratado artístico-existencial sobre o polêmico escritor japonês
Yukio Mishima, relacionando alguns eventos marcantes de sua vida com trechos de
suas principais obras, sugerindo uma bela e estranha simbiose entre a “realidade”
do criador e o universo ficcional que criou. O resultado final é desconcertante,
com Schrader conciliando com naturalidade e bizarra coerência um plano
narrativo de seco corte naturalista com sequencias de tinturas entre o onírico
e o alegórico, além de preservar com sensibilidade uma temática complexa em que
homossexualidade, culto ao apolíneo e nacionalismo convivem em uma harmonia
perturbadora.
quinta-feira, outubro 26, 2017
Quatro amigas e um casamento, de Leslye Headland **
As comédias norte-americanas contemporâneas que enveredam
para a temática do retrato comportamental de gerações diversas (jovens, adultos
e afins) parecem sempre andar no fio da navalha. Por vezes, aparecem algumas
produções que realmente trazem uma visão lúcida sobre contradições e dilemas
típicos dos tempos que vivemos, em meio aos habituais episódios de piadas
grosseiras e escatológicas, tendo um resultado final artístico bem memorável –
nessa linha, daria para citar alguns trabalhos mais recentes dos irmãos
Farrelly. E também há o caso de um número considerável de filmes que caem na
mais pura irrelevância. “Quatro amigas e um casamento” (2012) fica no meio
caminho. Na primeira metade do longa, a narrativa até insinua uma visão
sarcástica, por vezes até amarga, sobre os desencontros sentimentais e alguns
padrões morais hipócritas da sociedade ocidental, com algumas cenas interessantes
em termos de encenação e boas situações cômicas. Na parte final do roteiro,
entretanto, tudo se formata em soluções convencionais e mesmo moralistas, em
meio a um formalismo derivativo, frustrando as expectativas promissoras
iniciais.
quarta-feira, outubro 25, 2017
Bom comportamento, de Ben e Joshua Safdie ***1/2
Por vezes, principalmente em seu terço inicial, a estrutura
narrativa e a trama de “Bom comportamento” (2017) sugerem um derivado do gênero
suspense-policial naquela linha de uma história envolvendo um grande plano de
roubo ou golpe semelhante. Com o desenrolar da narrativa, entretanto, a
verdadeira natureza do filme dirigido por Bem e Joshua Safdie vai se
manifestando de maneira contundente e perturbadora. A trajetória do assaltante
Connie (Robert Pattinson) para tentar libertar o irmão Nick (Ben Safdie) após
este ter sido preso durante a fuga de um roubo à banco frustrado mais tem a ver
com uma crônica sardônica sobre desajustados do que propriamente com um
thriller de ação. Ainda assim, a forma com que os Safdie conduzem a produção privilegia
a tensão e a encenação frenética. A uma certa altura da trama, fica evidente
que as escolhas de Connie na busca do seu objetivo obedecem a uma lógica
aleatória e equivocada, típica de um habitual perdedor. Quando entra em cena o
esquisito marginal Ray (Buddy Durress), o roteiro e atmosfera de “Bom
comportamento” ficam ainda mais configurados dentro de uma síntese que oscila
entre o melancólico e o delirante – não à toa, Connie e Ray embalam suas
correrias e mancadas com doses generosas de álcool e LSD, fazendo com que o
espectador embarque em um amargo e longo pesadelo com direito a desconcertantes
toques cômicos. O formalismo articulado pelos diretores acentua com precisão
essa ambientação marcada pela crueza e por um sutil humor negro – há uma
clareza imagética que realça cada gesto e expressão dos personagens,
amplificando tanto a assustadora brutalidade gráfica de algumas cenas quanto a
densidade psicológica e a frieza emocional de outras sequências. Além disso,
conta-se com alguns detalhes cênicos que revelam notável sintonia com o
espírito da obra, como as vigorosas interpretações de Pattinson e Duress e a
trilha sonora que combina timbres oitentistas e nuances eletrônicas.
terça-feira, outubro 24, 2017
Cacaso na corda bamba, de José Joaquim Salles e PH Souza **1/2
Os mais ranhetas podem implicar com a prolífica relação que
se estabeleceu no cinema nacional nos últimos anos entre o gênero documentário
e a temática relacionada à história da música brasileira, principalmente pelo
fato de que boa parte das produções que se originaram de tal relação não é
marcada por grandes ousadias formais e narrativas. O que ocorre é que o
universo do cancioneiro nacional é tão amplo que se torna um assunto
praticamente inesgotável pela riqueza de artistas de relevo com quem o país
conta ou já contou, tanto em nomes conhecidos e consagrados quanto daqueles
mais obscuros. Nessa última vertente, enquadra-se Antônio Carlos Brito, o
biografado de “Cacaso na corda bamba” (2016). Em um primeiro momento, confesso
que a figura desse poeta e letrista me soava desconhecida. Ao assistir ao filme
dos diretores José Joaquim Salles e PH Souza, entretanto, constatei que lá para
o meu imaginário cultural particular ele era alguém próximo, sendo coautor de
canções ao lado Edu Lobo e Francis Himes que estavam lá coladas na minha
memória. O formato narrativo do documentário é aquele mesmo que se está
acostumado, com entrevistas e imagens de arquivos se entrelaçando de maneira
correta e nada mais, mas o teor de tal material é tão interessante e de forte
caráter humanista que o espectador acaba se envolvendo com a história contada e
por vezes mesmo encantado com o singular talento de Cacaso, além de também
ficar comovido com o fato de sua morte precoce. Essa gama de sensações já torna
“Cacaso na corda bomba” uma experiência mais que válida.
segunda-feira, outubro 23, 2017
Logan Lucky - Roubo em família, de Steven Soderbergh ***
Parece que aquela síntese entre os gêneros policial e ação
envolvendo uma trama relacionada a grandes roubos e falcatruas afins é a praia
favorita do diretor norte-americano Steven Soderbergh. “Logan Lucky – Roubo em
família” (2017) é a sua mais nova incursão a esse estilo de filme, com uma
estrutura narrativa que remete diretamente à franquia de “Onze homens e um
segredo”, só que com adicional de cenários e personagens remeterem ao universo
de caipiras sulistas. Se os filmes anteriores tinham uma atmosfera irônica e
sequências de caráter cômico, “Logan Lucky” acentua ainda mais o caráter
jocoso, com momentos que beiram a paródia. O roteiro é bem menos lapidado e a
condução da narrativa em certo momentos evidencia uma certa frouxidão. Dá a
impressão de que Soderbergh e elenco estavam mais a afim de se divertir fazendo
o filme do que propriamente interessados em uma produção bem-acabada. Esse
desleixo fica evidente na meia-hora inicial do longa, que cai com frequência na
indulgência e na pura chatice. Mas é quando a trama começa a esboçar os
preparativos para o grande assalto que é o mote principal do roteiro que a obra
diz a que veio. Daí sim podemos sentir a habitual habilidade narrativa de
Soderbergh de transformar clichês formais e temáticos em algo envolvente para o
espectador. A encenação fica bem mais precisa, a montagem apresenta uma
dinâmica sedutora, as atuações do elenco se configuram com mais nuances
dramáticas e cômicas. De bônus, há uma interessante abordagem mista de
sacanagem e carinho com os valores sulistas e uma sensacional trilha sonora
cancioneira. Ou seja, no final das contas Soderbergh não entrega uma obra-prima
na linha de “Irresistível paixão” (1998), mas ainda se mostra capaz de gerar um
trabalho bastante divertido e memorável.
quinta-feira, outubro 19, 2017
Detroit em rebelião, de Kathryn Bigelow ***
A combinação parecia infalível: a diretora de “Guerra ao
terror” (2008) e “A hora mais escura” (2012), obras antológicas na síntese de cinema
de ação e realismo dramático, filmando uma revoltante história real envolvendo
brutalidade policial durante conflitos raciais na Detroit de 1967. O resultado
final de “Detroit em rebelião” (2017), entretanto, fica aquém das altas
expectativas. A junção de elementos dos gêneros de thriller e drama de tribunal
com alguns elementos de técnicas documentais, além da inserção de registros de
arquivos da época, não soa tão orgânica. A diretora Kathryn Bigelow cai em
alguns momentos numa encenação de tendências excessivamente melodramáticas e
convencionais e mesmo a direção de arte soa um artificialismo estilizado
incômodo. Tais ressalvas, entretanto, não implicam necessariamente em um mau
filme. Pelo contrário – em suas quase duas horas e meia de duração, a produção
consegue apresentar uma narrativa envolvente, ainda que sem maiores arroubos
criativos. As longas sequências em que um grupo de policiais sádicos tortura psicológica
e fisicamente um grupo de jovens negros num hotel apresentam uma tensão
dramática quase palpável em seu detalhismo cênico, na sua atmosfera fatalista e
na sua brutalidade gráfica explícita. Vale mencionar ainda a coerência sombria
e melancólica da forma com que o roteiro se desenvolve, em que ao invés de se
buscar conclusões moralizantes ou conciliadoras, evidencia-se uma visão crua e
pessimista sobre a possibilidade de uma convivência racial pacífica nos Estados
Unidos.
quarta-feira, outubro 18, 2017
Especialista em crise, de David Gordon Green **
O diretor norte-americano David Gordon Green não é
exatamente um grande inovador em termos de linguagem cinematográfica. No melhor
de sua filmografia, entretanto, mostrou-se como um cineasta de talhe clássico
na elaboração de narrativas sóbrias, no formalismo preciso e em roteiros bem
delineados. Assim, uma obra tão genérica e sem inspiração como “Especialista em
crise” (2014) causa frustração. Em um primeiro momento, o longa-metragem em
questão até parece promissor ao evidenciar uma trama que sugere uma crítica às
hipocrisias do marketing político típico da sociedade ocidental, ao mostrar um
duelo de dois consultores políticos dos Estados Unidos numa eleição de um país
latino-americano fictício. Os desdobramentos do roteiro vão desbotando essa boa
impressão ao apresentarem caracterizações simplórias e ingênuas de situações e
personagens, sempre embalado por estética e narrativa preguiçosas e sem graça.
Tal resultado final frustrante faz pensar que Gordon Green aceitou meio de má vontade
um projeto de encomenda...
terça-feira, outubro 17, 2017
Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve **1/2
Se a continuação de um filme marcante só aparece 35 anos após
o lançamento da obra original é de se presumir que tal “demora” seja
justificada por um tremendo cuidado artístico em sua concepção e realização.
Assistindo-se a “Blade Runner 2049” (2017), entretanto, não é essa a impressão
que salta aos olhos. Há elementos na produção que realçam algo de diferente – a
bela trilha sonora que sintetiza com bizarra harmonia melodias e dissonâncias, a
direção de arte que concilia estilização e realismo sórdido, a fotografia de
requintada sobriedade imagética e mesmo a composição dramática precisa de Ryan
Gosling no papel do protagonista K/Joe. O problema é que a junção dessas partes
não resulta em um todo convincente, principalmente pela narrativa irregular e
por um roteiro que resvala por várias vezes no simplório. Se a obra-prima de
1982 dirigida por Ridley Scott foi um verdadeiro marco da ficção científica, ao
juntar aspectos fundamentais e singulares do gênero mencionado com preceitos de
cinema noir e influenciando uma série de filmes na linha futurista distópica ou
apocalíptica, essa continuação dirigida por Denis Villeneuve mais parece um pálido
derivativo dessas obras herdeiras do longa-metragem original. Não há aquela
atmosfera enigmática, a ambientação algo imprecisa, os personagens ambíguos, a
sensualidade insólita, as econômicas e antológicas sequências de brutalidade. O
que fica em “Blade Runner 2049” é a necessidade contemporânea de amarrar todas
as pontas da trama para deixar tudo mastigado para o espectador, as cenas de ação
marcadas pelo banal tom apoteótico, os clichês mal ajambrados do roteiro, o
tedioso tom solene da narrativa. Isso sem falar que a atuação de Harrison Ford
mais faz lembrar um Han Solo aposentado e canastrão do que um Rick Deckard
amadurecido e amargo.
segunda-feira, outubro 16, 2017
Quanto mais quente melhor, de Billy Wilder ****
Assim como vários outros clássicos norte-americanos da época
do Star System dos grandes estúdios, “Quanto mais quente melhor” (1959) foi
realizado com a intenção primeira de divertir as platéias, mais até do que se
tornar uma obra de grande expressão cultural. Só que a genialidade do diretor
Billy Wilder na concepção e execução da narrativa do filme teve também como
resultado final um longa-metragem que pode ser considerado grande arte. Isso
fica evidente em expressivos detalhes como um elegante formalismo baseado em sutis
nuances imagéticas, encenação perfeitamente coreografada que sintetiza precisão
e desenvoltura alucinada, roteiro engenhoso no desenvolvimento de hilários quiproquós
e na elaboração dos sagazes diálogos e direção de atores que extrai atuações
inesquecíveis de todo o elenco principal e de boa parte dos coadjuvantes.
sexta-feira, outubro 13, 2017
Cícero Dias, o compadre de Picasso, de Vladimir Carvalho ***
Na filmografia de documentários do cineasta Vladimir
Carvalho se pode perceber a busca por uma síntese narrativa-existencial a
traçar a particular trajetória histórica-cultural do Brasil na exposição de
eventos marcantes ou de figuras de relevo na história do país. Em seu
longa-metragem mais recente, “Cícero Dias, o compadre de Picasso” (2016), o
diretor mantém a sua habitual abordagem artística ao contar a história do
pintor Cícero Dias. A obra não mostra maiores arroubos criativos e dramáticos,
estando longe da força estética e temática de trabalhos antológicos como “Conterrâneos
velhos de guerra” (1990) e “Rock Brasília – A era de ouro” (2011). Ainda assim,
é um documentário acima da média na maneira envolvente e didática com que
consegue conciliar os aspectos intimistas da vida do biografado com o contexto
sócio-político-cultural que o cercava. Em tempos que a iniciativa de
reacionários e fascistas em determinar o fechamento de exposições que desafiam
o moralismo hipócrita e oportunista é vista como algo normal e louvável, é saudável
assistir a uma obra que exalta a sensibilidade e a ousadia de um artista que
buscou em sua atividade criativa transcender o óbvio e as concepções
repressoras daquilo que é considerado “belo”.
segunda-feira, outubro 09, 2017
Polícia em poder da máfia, de John Hillcoat ***
Em alguns de seus filmes anteriores, o diretor australiano
John Hillcoat se mostrou um criativo recriador do cinema de gênero, enveredando
com resultados extraordinários pelo faroeste (“A proposta”), pela ficção
científica (“A estrada”) e pelo policial de época na linha gangster (“Os
infratores”). Assim, ao se saber que o seu projeto seguinte, “Polícia em poder
da máfia” (2016), trilharia o gênero policial contemporâneo, as expectativas só
poderiam ser altíssimas. O resultado, entretanto, ainda que competente, acaba
soando frustrante. O elenco é carismático (ainda que Kate Winslet abuse da
canastrice), algumas sequencias de ação são bem executadas e a narrativa é até
envolvente, mas o filme está longe da marcante fúria sensorial e da estética
mista de crueza casca grossa e requinte visual dos celebrados trabalhos
pregressos de Hillcoat. Parece mais uma eficiente produção genérica de um
diretor tarefeiro de Hollywood do que a obra de um cineasta de talento
singular.
sexta-feira, outubro 06, 2017
De volta ao jogo, de David Leitch e Chad Stahlski ***1/2
Pelo menos em termos de blockbusters, o gênero do cinema de
ação contemporâneo, com algumas honrosas exceções, dá a impressão que se
converteu em um grande vídeo game genérico. Coreografias de lutas e perseguições
dependem de recursos óbvios de efeitos digitais e câmeras lentas que por vezes
beiram o estático, por outras se aproximam de vídeos publicitários. O resultado
final de tais obras acaba sendo enfadonho, ainda que o espectador não consiga
dormir devido à barulheira excessiva que predomina em tais narrativas. “De
volta ao jogo” (2014) é uma obra que se coloca na contramão de tal tendência.
Os diretores David Leitch e Chad Stahelski conseguem para o filme uma
convincente síntese entre violência cartunesca e uma certa densidade dramática,
sabendo dosar com precisão sequências brutais e cenas que valorizam diálogos e
uma tensa interação psicológica entre os personagens. Com essa abordagem
artística, de certa forma, até fazem lembrar alguns trabalhos clássicos do
cineasta francês Jean Pierre Melville. A encenação é outro dos grandes trunfos
de “De volta ao jogo” – pode-se perceber tantos nas sequências mais frenéticas
quanto naquelas de caráter reflexivo uma atenção acurada em nuances imagéticas
e na fluidez do movimento cênico. Nesse sentido, até dá para dizer que há algo
de nostálgico nessa visão sobre o cinema de ação, fazendo lembrar alguns longas
marcantes dos anos 80, mas sempre conseguindo evidenciar também um traço
contemporâneo na concepção estético-temática da obra. E é claro que há o mérito
inquestionável de conseguir extrair de um notório canastrão como Keanu Reeves
uma forte e carismática atuação.
quinta-feira, outubro 05, 2017
Lamparina da aurora, de Frederico Machado **
Parece ser uma tendência no cinema contemporâneo filmes que
procuram uma síntese entre o horror e o alegórico carregado de simbolismos,
procurando subverter alguns dos principais preceitos do cinema de gênero. Nessa
perspectiva, destacam-se obras memoráveis como “Quando eu era vivo” (2014), “A
bruxa” (2015) e “Mãe” (2017). A produção brasileira “Lamparina da aurora”
(2017) trilha por caminhos artísticos parecido, mas seu resultado final é bem
frustrante. Roteiro e composição imagética até revelam ousadia na forma com que
buscam uma narrativa atmosférica baseada em metáforas visuais e temáticas.
Falta para tal narrativa, entretanto, ritmo e consistência para envolver o
espectador no que deveria ser uma espécie de vórtice sensorial perturbador e
desconcertante. Do jeito que ficou, o filme mais induz ao sono do que a uma
tensão consistente.
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