Filmes sobre apocalipse praticamente representam um subgênero
na história do cinema. Na maioria das vezes, são obras no gênero fantástico que
mostram as consequências para o mundo de um hipotético evento-cataclisma que
destrói a ordem civilizada e expõe a sociedade a situações extremas de barbárie
e sobrevivência. Mas o que ocorre quando um filme retrata o apocalipse como
sentimento e não como um fato específico? Pois é justamente isso que retrata “Nico,
1988” (2017), produção biográfica que tem como protagonista a cultuada cantora
que participou do primeiro disco do Velvet Underground em 1967e depois
desenvolveu uma carreira solo marcada tanto pelo caráter artístico peculiar
quanto pela obscuridade em termos comerciais e de reconhecimento de um grande
público. Ao invés de fazer uma acadêmica e óbvia reconstituição resumida de
toda a vida de sua personagem principal, a obra prefere focar nos últimos dois
anos de carreira (e vida) da artista. Escolha muito acertada da diretora
Susanna Nicchiarelli: ao delimitar esse compacto espaço temporal, a narrativa
consegue evidenciar com sensibilidade e contundência a força abrasiva da música
muito particular de Nico bem como os dilemas e contradições pessoais que
marcavam a sua personalidade, além de revelar o traço do indissociável entre a
vida pessoal e a arte da cantora. A estética sombria e o roteiro muito bem
depurado formatam um conceito artístico e existencial de notável coerência e perspicácia,
o que se pode perceber em nuances extraordinárias como a sequência de abertura,
em que em sua infância Nico presencia de longe Berlin sendo devastada pelos
aliados. Em sua rotina de viagens e shows pela Europa na parte final de sua
carreira, percebe-se os estertores finais da Guerra Fria, e se estabelece com
sutileza a ponte entre a arte de Nico e tais eventos históricos de grandes
conflitos armados, em que canções e arranjos se mostram como a efetiva trilha
sonora de um século marcado por banhos de sangue e os sentimentos de paranoia e
mal-estar diante de um possível holocausto nuclear. O sóbrio formalismo adotado
por Nicchiarelli para “Nico, 1988” se encaixa de maneira precisa dentro dessa
conceituação artística, valorizando tanto um caráter realista da história da
cantora em sua abordagem quanto enfatizando um tom de imaginário estilizado sobre
a sua figura, principalmente quando retrata as conturbadas apresentações ao
vivo de Nico, o que dá ao filme uma atraente atmosfera misteriosa, típica de
uma época pré-internet em que informações sobre determinados artistas “malditos”
traziam um certo tom nebuloso.
Boa parte de amigos e conhecidos costuma dizer que as minhas recomendações para filmes funcionam ao contrário: quando eu digo que o filme é bom é porque na realidade ele é uma bomba, e vice-versa. Aí a explicação para o nome do blog... A minha intenção nesse espaço é falar sobre qualquer tipo de filme: bons e ruins, novos ou antigos, blockbusters ou obscuridades. Cotações: 0 a 4 estrelas.
quinta-feira, agosto 09, 2018
quarta-feira, agosto 08, 2018
Missão impossível: Efeito fallout, de Christopher McQuarrie **1/2
É um argumento razoável colocar que os momentos mais
dramáticos/intimistas de “Missão impossível: Efeito fallout” (2018), aqueles
envolvendo mais a tensão psicológica e mesmo sentimental entre os personagens,
teriam um caráter secundário para o filme e serviriam apenas de pretexto para
as vertiginosas sequências de ação da produção dirigida por Christopher
McQuarrie. É verdade também, entretanto, é que tais momentos mais “calmos”
também contribuem na construção da narrativa e dessa forma ajudam a expor a própria
configuração artística/existencial da obra em questão. E nesse sentido, acabam
por revelar as fraquezas desse novo capítulo das aventuras de Ethan Hunt (Tom
Cruise). Se no extraordinário primeiro filme de 1996 concebido pelo mestre
Brian De Palma se tinha um longa preciso e exato na coreografia de sua ação
aliado a roteiro e atmosfera que remetiam a reconstrução do tom farsesco das
antigas aventuras de espionagem, nesse filme mais recente a ênfase é em um derivativo
caráter de gigantismo e exagero das inúmeras cenas de perseguições em terra e aéreas, embates físicos e tiroteios que têm como suporte uma trama repleta de
sentimentalismo barato beirando o infantil e simplificações éticas e
ideológicas duvidosas. Ver Luther (Ving Rhames) com cara de choro falando
seguido da conturbada vida sentimental de Hunt, por exemplo, chega a ser
constrangedor. E a simbologia de um protagonista algo truculento auxiliado por
dois geeks tecnológicos a combater terroristas e “anarquistas” que desafiam a
ordem sócio-econômica-política é perfeitamente coerente com o tempo que vivemos,
mas incomoda pelo teor conformista e defensor do establishment. É claro que a
maioria absoluta do que sai dos grandes estúdios no gênero nos últimos tempos
também adota essa postura narrativa, mas pelo alguns deles fazem com mais
sutileza, ironia ou mesmo alguma ousadia.
terça-feira, agosto 07, 2018
Anjos da noite, de Wilson Barros ***
Há filmes que são quase que indissociáveis da época em que
foram realizados. A produção brasileira “Anjos da noite” (1987) é um desses
casos. Nos anos 80, havia uma vertente no cinema nacional, principalmente
oriunda de São Paulo, que trazia uma urgência em colocar em prática um conjunto
estético-temático que se mostrasse em sintonia com um ideal artístico
pós-moderno, necessidade essa fruto provável do período obscurantista dos anos
de chumbo da ditadura militar. Se no Rio de Janeiro diretores e produtores
enveredavam por obras “praieiras” de caráter festivo-hedonista, em São Paulo o
foco estava numa ambientação noturna estilizada com tramas envolvendo figuras “outsiders”
(artistas, pequenos marginais, prostitutas, michês, gangsteres) em narrativas
que abarcavam tanto a encenação naturalista quanto atmosferas oníricas/delirantes
típicas do cinema fantástico e dos musicais e tons metalinguísticos. O filme de
Wilson Barros tem tudo isso, por vezes esbarrando em uma narrativa irregular e na
ingenuidade suas pretensões, em outros momentos trazendo algum encanto em sua
trama mosaico de vários personagens, como se fosse uma simpática versão nativa
do clássico da estilização cinematográfica oitentista “O fundo do coração”
(1982).
segunda-feira, agosto 06, 2018
Rei, de Niles Atallah ****
A relação conturbada entre o homem branco ocidental
colonizador e povos nativos/colonizados representa uma temática recorrente no
cinema, de clássicas obras-primas como “Aguirre, a cólera dos deuses” (1972) e “Apocalypse
Now” (1979) até extraordinários filmes mais recentes do quilate de “Z, a cidade
perdida” (2016) e “Zama” (2017). Nessa instigante tradição, inscreve-se também
a produção chilena “Rei” (2017). A formatação concebida pelo diretor Niles
Atallah faz lembrar o teor delirante do longa brasileiro “Ex-isto” (2010),
também de temática semelhante, mas com uma narrativa ainda mais estilizada.
Atallah insere alguns momentos de uma encenação realista. O efetivo foco
artístico de “Rei”, entretanto, está no romper com o naturalismo, em que o olhar
histórico sobre o episódio do aventureiro francês Antoine de Tounens (Rodrigo
Lisboa) que tentou construir um reino próprio nas regiões da Araucaria e da
Patagônia em meados do século XIX é perpassado por um viés mágico e subjetivo.
Para isso, Atallah se vale de recursos estéticos e narrativos variados –
utiliza bitolas antigas para filmar, encena com preceitos teatrais as
sequências de julgamento do protagonista, abusa de trucagens artesanais de
beleza pictórica desconcertante para enfatizar o caráter onírico de algumas
cenas. Esse insólito barroquismo de “Rei” não se limita ao mero efeito
experimental ou exótico, estando em perfeita sintonia existencial com o próprio
caráter ambíguo do roteiro, que tanto evidencia um fascínio com o modus
operandi alucinado e romântico de Tounens na busca de seus objetivos quanto um
teor crítico sobre as ações exploradoras/opressoras em relação aos povos
nativos da América do Sul.
sexta-feira, agosto 03, 2018
8 mulheres e meia, de Peter Greenaway ***1/2
Pode-se dizer que “8 mulheres e meia” (1998) é uma variação
dos preceitos estéticos e temáticos que o diretor britânico Peter Greenaway
tinha colocado em prática em outros de seus filmes com resultados mais
satisfatórios. Ainda assim, uma obra menor de Greenaway é sempre bem mais
interessante que a grande maioria dos filmes que estão em cartaz. Na produção
em questão, há aquela combinação habitual do cineasta – barroquismo delirante,
atmosferas carregadas de erotismo mórbido, caracterizações estilizadas de
personagens e situações, roteiro repleto de simbolismos diversos. Por vezes os
exageros formais e o cerebralismo que permeiam o longa, assim como o tom lúdico
e intrincado do roteiro a versar sobre opressão machista/econômica, deixam a
narrativa um tanto irregular e cansativa, mas em boa parte das sequências há
aquele impacto imagético/sensorial que deixa o espectador tanto desconcertado
quanto encantado com esse cinema muito peculiar de Greenaway.
quinta-feira, agosto 02, 2018
Custódia, de Xavier Legrand ***
Na sua construção formal-narrativa, “Custódia” (2017) parece
uma variação dos preceitos artísticos de alguns dos principais filmes dos
irmãos Dardenne. Há aquela sóbria abordagem estética a embalar uma trama de
forte conteúdo intimista-social. Ainda que tenha esse aspecto derivativo, o
filme do diretor francês Xavier Legrand consegue ter um considerável impacto
sensorial para as plateias. O conjunto encenação, edição e fotografia configura
uma forte atmosfera de tensão sufocante na história da conturbada relação entre
um homem violento e perturbado e a ex-mulher e filhos. Há um tom quase
documental por vezes na narrativa, em que até detalhes burocráticos e
administrativos de um processo judicial de separação litigiosa, por exemplo,
são expostos em suas minúcias justamente para caracterizar uma ambientação de
opressão machista e econômica sobre aqueles mais fragilizados (mulheres,
crianças, pobres) perante esse sistema sócio-econômico. Legrand não se vale de
artifícios de fácil manipulação sentimental, como música melosa ou
caracterizações caricatas – seu filme tem uma objetividade e secura que realçam
com precisão e sensibilidade alguns tormentos existenciais típicos da sociedade
contemporânea, além de um elenco cujas composições dramáticas à flor-da-pele se
mostram em notável sintonia com tal proposta.
quarta-feira, agosto 01, 2018
Giselle, de Victor Di Mello ***
Expressivo exemplar do exploitation brasileiro, “Giselle”
(1980) é uma obra que tem até alguns aspectos datados em termos narrativos, mas
que mesmo assim consegue impressionar nos dias de hoje. Certas nuances
temáticas e estéticas remetem muito ao cinema intimista de Walter Hugo Khouri,
só que com uma preponderância ainda maior para o erótico e o grotesco. Sugerem
ainda uma espécie de leitura sócio-política da época, principalmente no que diz
respeito à repressão do regime militar e os conflitos ideológicos, além de uma
visão irônica sobre os costumes da burguesia nativa. Por vezes, tais pretensões
artísticas existenciais trazem um caráter perturbador para a obra, em outros
momentos apenas resvalam no superficial e no oportunista. O que fica de
memorável realmente nesse longa dirigido por Victor Di Mello é no acentuado
fator de violência e sexualidade gráficas que inundam a tela em algumas
sequências. Pode-se acusar o filme de várias coisas, até de um certo apelo
preconceituoso que seria quase impensável no cinema contemporâneo, mas pelo
menos não se pode dizer que caia em concepções imagéticas e narrativas
assépticas. Por mais desagradável e vulgar que sejam algumas de suas cenas, “Giselle”
é o tipo de obra que se instaura de forma insinuante no imaginário do
espectador.
terça-feira, julho 31, 2018
O terceiro assassinato, de Hirokazu Kore-eda **1/2
A maioria dos filmes dirigido pelo diretor japonês Kirokazu
Kore-eda é formada por sóbrios melodramas familiares. “O terceiro assassinato”
(2017) representa, em um primeiro momento, uma insólita mudança de gênero
cinematográfico para o cineasta, enveredando para a área do suspense policial.
A trama gira em torno das misteriosas motivações de um brutal assassinato de um
homem por parte de um ex-empregado seu. Ocorre, entretanto, que no desenvolver
da narrativa se pode perceber que Kore-eda procura se distanciar dos clichês
temáticos e estéticos inerentes a esse tipo de produção, procurando adequar a
trama dentro de seus habituais preceitos artísticos. Assim, o foco é mais
acentuado nos dilemas intimistas dos personagens (investigadores, suspeito,
familiares da vítima) e também em se realizar uma espécie de crítico panorama moral
da sociedade japonesa contemporânea. As ambições do diretor são interessantes
nessa formatação, mas a verdade é que o resultado final acaba deixando a
desejar. O motivo principal para essa frustração está justamente naquilo que
sempre foi o forte nas obras dirigidas por Kore-eda – a encenação. O que geralmente
era preciso e minucioso em outros filmes do cineasta, agora parece
descompassado e enfadonho em “O terceiro assassinado”, fazendo com que até
mesmo o próprio roteiro do longa se mostre por vezes banal e perdido em
excessos sentimentais.
segunda-feira, julho 30, 2018
Alguma coisa assim, de Esmir Filho e Mariana Bastos ***
Há uma certa conexão existencial-artística entre as
produções brasileiras “Gabriel e a montanha” (2017) e “Alguma coisa assim” (2018)
- além, é claro, de compartilharem a atriz Caroline Abras em seus respectivos
elencos. Os dois filmes são retratos de uma classe média contemporânea
aprisionada em uma bolha de alienação e hedonismo. Se na produção dirigida por
Felipe Gamarano Barbosa o protagonista Gabriel (João Pedro Zappa) interage com
africanos pobres como se esses fossem apenas atrativos de suas viagens ou
motivos de teses sócio-econômicas distanciadas, na obra conduzida por Esmir
Filho e Mariana Bastos os personagens principais Mari (Abras) e Caio (André
Antunes) parecem viver em uma universo à parte de uma ampla realidade
brasileira, com uma fotogênica e descolada rotina em que se sugere que São
Paulo e Berlin pouco se distinguem (ok, a primeira tem umas pichações a
mais...). Mas tal aspecto temático é apenas um dos elementos na narrativa, em
que o foco principal está mais no aspecto intimista da relação entre Mari e
Caio. Há recursos formais e textuais bem interessantes em cena, desde o fato de
que o filme foi sendo realizado ao longo de mais de 10 anos (as primeiras
filmagens datam de meados da década passada), para ter uma captação mais
realista e profunda do processo de amadurecimento emocional dos personagens,
até a uma abordagem que valoriza uma narrativa atmosférica e sensorial e uma
excelente trilha sonora baseada em temas eletrônicos e canções de forte traço
melancólico. A estética de “Alguma coisa assim” é inconstante, fluida, variando
do realismo até um tom onírico e chapado, o que acaba se mostrando coerente com
um roteiro que realça as ambiguidades dos seus personagens e situações e que se
evidencia ainda numa fluidez erótica por vezes desconcertante e mesmo nas
soluções insólitas dos dilemas da difusa história de amor e amizade entre Mari
e Caio.
sexta-feira, julho 27, 2018
Ilha dos cachorros, de Wes Anderson ****
Tem coisas que só Wes Anderson consegue fazer. A combinação
parecia improvável em “Ilha dos cachorros” (2018) – animação em stop-motion,
parábola política, fábula moral, homenagem/paródia ao gênero aventura com
samurais. Na ótica particular do cineasta norte-americano, entretanto, todos
esses elementos se entrecruzam com uma lógica e coerência artísticas
extraordinárias, além de perpassados por uma síntese bizarra de ironia
sardônica e pungência insólita (na realidade, uma abordagem que já era marca de
Anderson em seus filmes anteriores). Ao invés daquela estética clean que é
característica de Pixar e Disney, Anderson busca uma concepção imagética mais “suja”
e expressiva, fazendo lembrar muito o estilo de Bill Plympton, ainda que sem
todo aquele tom delirante. Sua evocação da cultura japonesa na trama não é
meramente aleatória, pois a pegada mais reflexiva e contemplativa da narrativa
remete a uma forma de filmar que é tradicional da escola clássica do cinema
nipônico (os amplos planos de cenários ermos, por exemplo, fazem lembrar
clássicas aventuras de Akira Kurosawa). Em outros momentos, a intensidade da ação
cinematográfica traz aquele senso cartunesco que era marca registrada de uma
animação norte-americana de décadas atrás. Todas essas nuances de influências
formais se sintonizam de maneira precisa com um roteiro que tanto valoriza a
carga sócio-política de cenas cruciais como preserva o aspecto de diversão e
mesmo sentimental de forte carga humanista de outras passagens importantes da
trama. Nesse expressivo conjunto criativo, “Ilha dos cachorros” reforça ainda
mais o nome de Wes Anderson como uma espécie de amoroso cronista “fílmico” dos
desajustados e esquisitões.
quinta-feira, julho 26, 2018
Para o outro lado, de Kiyoshi Kurosawa ***1/2
A vinculação do diretor japonês Kiyoshi Kurosawa com o
cinema fantástico é forte, mas não de uma forma tradicional (ou pelo menos com
aqueles direcionamentos estéticos-temáticos que nós espectadores ocidentais
estamos acostumados). Em seus filmes, o elemento metafísico está sempre
presente, incorporando-se com fluidez a uma narrativa de ambientação naturalista.
“Para o outro lado” (2015) é exemplar enfático dessa particular concepção
artística, com uma trama em que fantasmas e vivos coabitam um mundo com
naturalidade, não havendo maiores explicações sobre o fenômeno e nem a
necessidade de uma atmosfera de suspense ou mistério. A história do marido
falecido que retorna depois de anos para viajar com a sua viúva apresenta como
tônica preponderante um caráter entre o simbólico e o intimista. Os aspectos
bizarros do roteiro aos poucos se insinuam no imaginário do espectador com uma
desconcertante coerência onírica/existencial, valorizados por uma encenação
sóbria e pungente.
quarta-feira, julho 25, 2018
Infância, de Domingos Oliveira *1/2
A filmografia de Domingos Oliveira parece ser um eterno “Amarcord”
– são obras que se desenvolvem em torno das memórias e obsessões sentimentais
do cineasta. Se por um lado isso é admirável no sentido de configurar uma
coerência autoral muito particular dentro da história do cinema brasileiro, por
outro faz com que os filmes de Oliveira se mantenham em uma linha tênue entre o
memorável, o razoável e o francamente ruim. “Infância” (2014) se enquadra nessa
última categoria. O longa se equilibra de maneira irregular em polos opostos de
abordagem artística – por vezes o cineasta busca uma encenação mais solta,
plena de verborragia excêntrica e com uma ambientação até pretensamente
delirante; em outras oportunidades, procura se adequar aos preceitos de um
cinema acadêmico de época. Em nenhuma dessas abordagens se mostra satisfatório
e nessa tensão narrativa a produção acaba se mostrando autoindulgente e esquemática,
bem distante da criatividade estética/temática esfuziante e divertida de filmes
antológicos como “Todas as mulheres do mundo” (1967) e “BR183” (2016). Há até
sequências em “Infância” que remetem a uma comicidade bem típica de Oliveira,
principalmente de um lado mais picaresco dos personagens, e que sugerem que o
filme poderia ter ficado bem mais interessante em seu resultado final se o
diretor tivesse acertado a mão na narrativa.
terça-feira, julho 24, 2018
É apenas o fim do mundo, de Xavier Dolan **
A força dos filmes mais significativos do diretor canadense
Xavier Dolan está no vigor da encenação. Os roteiros tinham um direcionamento
básico de melodrama familiar, com poucas variações, mas embalados em uma desconcertante
dinâmica cênica. Em “É apenas o fim do mundo” (2016), justamente aquilo que
diferenciava a concepção artística de Dolan acaba caindo por terra em nome de
uma desgastada formatação teatral. Sai a crueza naturalista e entra em seu
lugar uma estilizada narrativa que em momento algum consegue convencer. O
roteiro acentua ainda mais essa impressão – parece uma variação pouco
imaginativa e sentimental em excesso das peças mais conhecidas de Tennessee
Williams. O que salva um pouco as coisas são algumas composições dramáticas
intensas de parte do elenco. Insuficientes, entretanto, para tirar o filme do
enfadonho.
segunda-feira, julho 23, 2018
A garota desconhecida, de Luc e Jean-Pierre Dardenne ***
Em seus filmes, os irmãos Dardenne obedecem a uma rigorosa
fórmula temática-estética-narrativa. Sãos obras que se configuram como sóbrios
contos morais a versarem sobre dilemas intimistas dentro de um contexto social
conturbado embalados num severo formalismo que dispensa artificialismos fáceis
e palatáveis, remetendo a escolhas artísticas herdadas da escola neorrealista. “A
garota desconhecida” (2016) não altera em nada desse habitual estilo fílmico
dos Dardenne. Não tem a mesma intensidade artística e existencial de “O garoto
da bicicleta” (2011) e “Dois dias, uma noite” (2014) e o sabor de deja vu
excessivo por vezes fica mais latente. Mesmo assim, por vezes, sua crueza estilística
e o humanismo a flor-da-pele da trama têm aquela síntese incômoda entre caráter
perturbador e encanto que marcou boa parte da filmografia dos cineastas.
sexta-feira, julho 20, 2018
Jason Bourne, de Paul Greengrass *
É claro que é compreensível produtores e demais executivos
quererem retomar uma franquia cinematográfica lucrativa. Afinal, é mais fácil
trazer de voltar uma fórmula narrativa já testada e aprovada pelas grandes
plateias do que procurar algum novo filão criativo/comercial. Em alguns casos,
essa reciclagem, além da grana fácil para quem investiu na ideia, pode render
alguma coisa relevante em termos narrativos/artísticos. Não é o caso de “Jason
Bourne” (2016). A impressão final que se tem ao assistir à obra em questão é
que tudo aquilo que poderia haver de interessante e divertido em relação ao
personagem e seu universo se esgotou em “A supremacia Bourne” (2004) e “O ultimato
Bourne” (2004). O roteiro é um mero compêndio de ideias requentadas, o diretor
Paul Greengrass se limita a repetir de maneira irritante e cansativa todos os
seus habituais maneirismos estéticos/cênicos e Matt Damon nem se esforça muito
em sair de um registro dramático inexpressivo. Assim, não poderia haver outro
resultado final que não fosse enfadonho e perfeitamente esquecível.
quinta-feira, julho 19, 2018
Uma casa à beira-mar, de Robert Guédiguian ****
Há muitos anos que o diretor francês Robert Guédiguian filma
praticamente da mesma forma. Sua narrativa é de estrutura clássica, a encenação
é um misto de fluidez e rigor, a temática sempre sintetiza intimismo com olhar
crítico sobre as mazelas sociais e políticas. Ele até pode ser previsível em
seus preceitos artísticos-existenciais, mas sempre os coloca em prática de forma
vigorosa. Em algumas oportunidades o resultado final não chega a ser tão
memorável, mas quando ele acerta a mão de verdade, a impressão que resta é de
um forte impacto emocional para o espectador. “Uma casa à beira-mar” (2017) é
um desses pontos altos da carreira do cineasta. O roteiro traz uma série de
elementos bastantes caros para a sociedade na atualidade: descontentamento com
a globalização econômica massacrante, a perseguição a refugiados e imigrantes,
a nostalgia por um passado mais humano. A visão expressa pelo filme sobre tais
temas tem um forte caráter panfletário, por vezes beirando a ingenuidade e o
anacronismo, só que Guédiguian formata tudo isso com uma convicção e uma
lucidez contundentes em sua narrativa que acaba encantando pelo humanismo sem
concessões de tal abordagem. As simbologias imagéticas e textuais são simples,
diretas, mas altamente eficazes na delicadeza e precisão de sua execução. Mesmo
a forma com que o cenário natural em que a história se passa, a de uma bela vila
de pescadores no interior da França, foge da simples caracterização “cartão
postal” e se configura como um pequeno e complexo universo a refletir as
contradições e dilemas da Europa contemporânea. No mais, “Uma casa à beira mar”
também representa uma impressionante depuração das melhores qualidades de
Guédiguian como realizador – a direção de atores extrai nuances dramáticas magníficas
das atuações do elenco, a atmosfera do filme varia de maneira natural entre a
dureza realista e uma doçura quase fabular, o discurso humanista alia
melancolia e esperança nas doses exatas. A sensacional sequência final da
produção, de um lirismo pungente à flor-da-pele, coroa com perfeição as
coerentes soluções autorais de Guédiguian para a sua obra.
quarta-feira, julho 18, 2018
Jack Reacher: Sem retorno, de Edward Zwick **
O diretor norte-americano Edward Zwick está bem longe de ser
alguém de forte traço autoral em seus filmes ou dado a grandes arroubos de
originalidade. Está mais para aquela ala de “tarefeiros” de Hollywood que pegam
sem pestanejar os projetos sem pestanejar muito os projetos que os grandes
estúdios lhes mandam. Nessa linhagem, entretanto, pode ser considerado um
cineasta competente com algumas obras memoráveis no currículo, principalmente
no gênero ação, como “O último samurai” (2003) e “Diamante de sangue” (2006).
Diante desse cenário, “Jack Reacher: Sem retorno” (2016) acaba sendo uma
considerável decepção, pois consegue ser ainda mais genérico e sem graça que o
primeiro longa da franquia, “Jack Reacher: O último tiro” (2012). Zwick conduz
a narrativa de maneira mecânica e asséptica, adjetivos que também poderiam se
aplicar com exatidão para a atuação de Tom Cruise no papel-título. E o pior é
que nem dá dizer que o filme está em sintonia com o que vem sendo feito no
gênero nos últimos anos, pois a franquia “John Wick”, por exemplo, vem
comprovando que ainda pode haver muita criatividade nas produções de ação e
aventura.
terça-feira, julho 17, 2018
Gente de sorte, de Neil Burger **1/2
Filmes que retratam à volta para casa de combatentes de uma
guerra já representam uma certa tradição no cinema norte-americano. Alguns dos
principais conflitos nos quais o Estados Unidos esteve envolvido tiveram obras
marcantes a mostrar o difícil processo de readaptação de veteranos em solo
nativo, vide obras nesse sentido referentes à 2ª Guerra Mundial (“Os melhores
anos de nossas vidas”) e o conflito do Vietnã (“Amargo regresso”). “Gente de
sorte” (2008) adequa essa temática para a invasão do Iraque pelos
norte-americanos na primeira década do século XXI. O filme do diretor Neil
Burger se mantém em uma linha tênue entre o ufanista e uma perspectiva mais
crítica sobre a situação dos personagens. Na verdade, prefere se manter dentro
de uma estrutura narrativa que oscila entre o ameno melodrama e o discreto teor
cômico. Por vezes é agradável, em outros momentos beira a insipidez. Ou seja,
cabe ao espectador esperar que um dia saia uma obra mais contundente sobre o
tema em questão.
segunda-feira, julho 16, 2018
Hannah, de Andrea Pallaoro ***
O diretor italiano Andrea Pallaoro exerce em “Hannah” (2017)
um rigoroso exercício de estilo estético/existencial. A premissa do roteiro é
objetiva e quase espartana em seus desdobramentos – a austera rotina de Hannah
(Charlotte Rampling) a partir da prisão de seu marido. O crime e as suas circunstâncias
que levaram à condenação de seu companheiro são expostos ao longo da narrativa
em sutis nuances de gestos, expressões faciais e econômicos diálogos. Para
Pallaoro, além da exposição do cotidiano desolador da protagonista, há um
interesse primordial na forma com que os elementos da trama se apresentam ao
espectador. É quase como se fosse um desafio contemplativo do cineasta em
relação ao seu público – o entendimento pleno do que se viu na tela vem apenas
na conclusão do filme, e mesmo assim sem um tom de grande revelação dramática.
A “solução” para os aparentes mistérios sugeridos na trama é simples, ainda que
perturbadora. Não há julgamento moral sobre as atitudes dos personagens, apenas
uma atmosfera resignada de fatalismo e inexorabilidade no destino dos
indivíduos. Fica estabelecida uma relação simbiótica entre os ascetismos da
vida de Hannah e do formalismo sem concessões de Pallaoro. Nessa cerebral concepção
artística, ainda que coerente com o aludido exercício de estilo do diretor, não
há muito espaço para grandes arroubos sensoriais. A fresta de maior
transcendência que se abre é uma poderosa interpretação dramática da atriz
principal. Charlotte Rampling domina toda a narrativa com uma sensacional
atuação marcada pela contenção de sentimentos e que por vezes explodem em
violentas manifestações emocionais. É como se observássemos um prédio ruindo em
câmera lenta.
sexta-feira, julho 13, 2018
Encontro de casais, de Peter Bilinsgley **
A parceria entre os atores Vince Vaughn e Jon Favreau já
rendeu alguns filmes memoráveis, com evidente destaque para o sensacional “Swingers
– Curtindo a noite” (1996). “Encontro de casais” (2009) talvez seja o ponto
mais baixo dessa parceria. Em seu início, o filme até sugere uma interessante
visão irônica sobre as agruras do casamento na sociedade contemporânea. Aos
poucos, entretanto, a narrativa se rende a trivialidades banais em seu roteiro
e a uma encenação insípida. Tudo se formata em soluções temáticas e formais
conservadoras e previsíveis. Há sequências com alguma graça eventual, mas é
muito pouco para tirar o longa dirigido por Peter Bilinsgley do limbo das
nulidades cinematográficas.
quinta-feira, julho 12, 2018
Homem-Formiga e a Vespa, de Peyton Reed ***
Em termos conceituais-narrativos, na comparação com “O
Homem-Formiga” (2015), o diretor Peyton Reed pouco mudou em “Homem-Formiga e a
Vespa” (2018). A fórmula é aquela mesma, aventura escapista com toques de
melodrama familiar e um monte de piadinhas bestas (algumas até bem engraçadas).
A narrativa e o roteiro demoram um pouco a engrenar, principalmente pelo
excesso de explicações pseudocientíficas e de dilemas sentimentais dos
personagens. Na metade final do filme, entretanto, prevalece um ritmo de ação
mais frenético, por vezes quase desgovernado, e daí as coisas melhoram
bastante. Até os momentos engraçadinhos ficam bem mais funcionais. Há um
casamento eficaz entre a criatividade dos efeitos digitais com a ótimas
coreografias de lutas e perseguições automobilísticas e que acaba gerando
algumas sequências memoráveis. Além disso, a caracterização do mundo quântico é
repleta de excelentes sacadas visuais, deixando aquele gostinho de quero mais
(aliás, uma interessante possibilidade criativa de histórias para os Estúdios
Marvel, como comprova uma das cenas pós-créditos), e as atuações do elenco têm
uma forte empatia cênica (destaque para o carisma boa-praça de Paul Rudd e as
boas tiradas cômicas de Michael Peña). Na comparação com outras produções do
universo cinematográfico Marvel, “Homem-Formiga e a Vespa” não tem a
perturbadora densidade dramática de “Os Vingadores: Guerra infinita” (2018) ou
a combinação insana de brutalidade e ironia de “Thor: Ragnarok” (2017), mas é
mais empolgante que o correto “Pantera Negra” (2018) e mesmo que o primeiro
filme de 2015. Ou seja, por mais que todas as estratégias de marketing dos
estúdios Marvel possam encher o saco, se eles continuarem entregando produções
divertidas como essa é provável que toda essa onda de filmes de super-heróis
ainda vá muito longe...
quarta-feira, julho 11, 2018
Donnie Darko, de Richard Kelly ***
O título de grande referência cult
cinematográfica que se atribui à “Donnie Darko” (2001) tem algo de exagerado.
No cômputo geral, o filme dirigido por Richard Kelly é uma espécie de colcha de
retalhos de influências das principais vertentes estéticas e temáticas do
cinema independente norte-americano das últimas décadas. Estão lá a crítica
entre o agridoce e o sarcástico aos valores do american way of life das
principais obras de Sofia Coppola, o formalismo bizarro dos clássicos de Tim
Burton, as ambientações delirantes características de David Lynch. Isso sem
falar da esperta trilha sonora recheada de marcantes canções oitentistas pop e
rock. Falta para esse trabalho de estreia na direção de Kelly uma pegada
artística/narrativa mais ousada – as aparentes esquisitices que pairam sobre a
encenação e roteiro aos poucos se formatam de maneira “redonda” demais,
esvanecendo bastante do clima de mistério e estranhamento que predomina na
metade inicial do filme. Ainda assim, “Donnie Darko” é uma obra que tem o seu
lado cativante, principalmente em termos de caracterização de personagens e
situações da trama. Mesmo que não seja especialmente original como um todo, a
fluência da narrativa e algumas soluções visuais sardônicas (destaque para
aquele coelho gigante escroto) oferecem para o longa alguns momentos
memoráveis.
terça-feira, julho 10, 2018
Os incríveis 2, de Brad Bird ***1/2
Quando “Os incríveis” (2004) foi lançado nos cinemas,
faltavam ainda alguns anos para que o universo dos Estúdios Marvel se
configurasse de maneira plena no cenário cinematográfico (ideia essa que depois
foi imitada pelo conjunto DC/Warner). Naquele cenário, a animação da Pixar
dirigida por Brad Bird talvez fosse a melhor tradução de diversos conceitos
inerentes às aventuras de super-heróis das HQs. Havia até uma influência muito
bem filtrada de elementos temáticos do “Watchmen” de Alan Moore (coisa, aliás,
do qual a medíocre adaptação concebida pelo nefasto Zack Snyder passou longe). Ainda
que não traga o mesmo grau de criatividade do filme original, “Os incríveis 2”
(2018) consegue lograr em alguns momentos uma inspiração temática/estética
semelhante. O roteiro é bastante previsível em seus desdobramentos, mas sabe
valorizar uma interessante interação dramática/cômica entre os personagens e
apresenta contundente coerência em suas viradas e na caracterização de
situações e personagens. A qualidade gráfica é excepcional, com evidente destaque
para as sequências envolvendo as luzes esfuziantes quando o vilão hipnotizador
está em cena, e aliada a coreografia frenética e precisa das cenas de ação acaba
resultando em uma narrativa envolvente. Nesse cenário fortemente consolidado de
produções de super-heróis, a franquia da Pixar perde aquele caráter de novidade
da década passada, mas também se mostra em relevante sintonia com o atual
contexto histórico/artístico – está no nível do melhor que os Estúdios Marvel
já lançou e está bem adiante de tudo que a DC/Warner tem apresentado.
segunda-feira, julho 09, 2018
As boas maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra ****
Em dupla ou a solo, a filmografia em conjunto de Juliana
Rojas e Marco Dutra configura uma estranha e fascinante síntese entre o gênero
fantástico, o arguto intimismo e a sutil crítica social. Tal concepção
artística já havia se estabelecido de maneira contundente em “Trabalhar cansa”,
“Quando eu era vivo” e “A sinfonia da necrópole” e novamente se cristaliza com
expressivo impacto em “As boas maneiras”. Nessa produção mais recente, o
fabular e o horror sobrenatural se integram com naturalidade dentro de um
cenário urbano e contemporâneo “realista”, construindo simbologias imagéticas e
textuais desconcertantes na eficácia e simplicidade de seus recursos visuais,
na engenhosidade estética e no roteiro preciso na sua combinação de sóbria
dramaticidade e humor mórbido. A figura do lobisomem que paira sobre a
narrativa, na ambiguidade da contraposição entre o humano civilizado e a fera
selvagem, também reflete na marca da dualidade que se estabelece em vários
momentos do filme – a metrópole moderna e cosmopolita (e seus “castelos”) e a
periferia (o “vilarejo”) fortemente vinculada à pobreza e a raízes regionais separadas
por uma ponte, o cotidiano hedonista e vazio de Ana (Marjorie Estiano) e a
rotina austera de privações de Clara (Isabél Zuaa) que colidem a partir do
choque erótico entre as duas personagens, a atmosfera de silenciosa tensão
psicológica da primeira parte da narrativa e o ritmo mais acentuado de aventura
e horror explícito do segundo momento do filme. Pontuando com sensibilidade
essa concepção formal-temática há detalhes cênicos memoráveis como os belos
números musicais que remetem a tragédias gregas e cantigas folclóricas, a
direção de fotografia que emula uma ambientação fabular no seu jogo de
enquadramentos e iluminação, as interpretações entre o visceral e o delicado do
elenco e os efeitos especiais que alternam com criatividade e fluência
trucagens animatrônicas, digitais e de maquiagem. Coroando essas soluções
artísticas de Rojas e Dutra vem um “gran finale” capaz de ficar muito tempo
colado no imaginário do espectador pela sua carga catártica e melancólica.
sexta-feira, julho 06, 2018
Aterrorizados, de Demián Rugna ***
Há algo de desequilibrado em “Aterrorizados” (2017). Por
vezes a encenação parece um tanto truncada, parte do elenco envereda por um tom
canastrão em suas interpretações, o roteiro fica especialmente confuso em
algumas passagens. Ocorre, entretanto, que tais “defeitos” também ajudam a dar
um charme especial para essa produção de horror dirigida pelo argentino Demián
Rugna, afastando a obra daquele caráter asséptico que grassa em boa parte do
que vem sendo feito no gênero nos últimos anos. Rugna evoca muito do melhor do
cinema do diretor italiano Lucio Fulci – há aquelas ambientações sujas e
sórdidas, o grafismo violento e perturbador e o tom obscuro na narrativa que
permearam obras clássicas como “Zombi 2” (1979) e “Terror nas trevas” (1981). É
claro que Rugna não tem a mesma classe artística de Fulci, mas ainda assim
consegue oferecer um filme de horror bastante eficaz em termos de tensão
dramática e teor imagético de forte impacto sensorial.
quinta-feira, julho 05, 2018
Ex-pajé, de Luiz Bolognesi ***1/2
Por mais que se fale que “Ex-pajé” (2018) seja um
documentário e que o filme em questão tenha participado de festivais do gênero,
a efetiva percepção que se tem da obra dirigida por Luiz Bolognesi é de uma contundente
recriação dos principais preceitos do neo-realismo italiano – estão lá a
temática de forte cunho social, o uso de um elenco de amadores, o
aproveitamento de recursos naturais e externos. Nesse contexto, a narrativa se
formata em termos de encenação e atmosfera praticamente como um conto fabular,
revelando ainda uma rigorosa decupagem. Essa concepção artística revela uma
coerência existencial notável com o subtexto repleto de nuances do roteiro.
Nesse sentido, é de se reparar na forma com que a direção de fotografia capta
as imagens da floresta onde vivem os índios Pater Saruí, principais personagens
da história, em que esses cenários refletem um caráter misto de beleza e
mistério e complementam o forte teor místico da trama. Com sutileza, fica
estabelecido um embate marcante que paira sobre toda a narrativa: a força
opressora da cultura branca, na síntese entre os madeireiros brancos que
invadem as terras indígenas e o opressor missionarismo evangélico que
estabelece um processo de aculturação na tribo, e a discreta resistência mística/cultural
do lado silvícola promovida pelo pajé “aposentado” Perpera Surui e pelo seu
sobrinho ativista virtual Ubiratan Surui. Bolognesi evita uma abordagem
espetaculosa desse conflito, preferindo um ritmo narrativo contemplativo, quase
plácido, que acentuam com vigor e sensibilidade elementos cênicos fundamentais
para a obra, como os sons da natureza, a impenetrável beleza da floresta e os
gestos e expressões de seus principais personagens. Nesse sentido, a sequência
final de “Ex-pajé” tem um impacto sensorial memorável: Perpera Surui observa a
floresta de maneira e serena, como se ambos fossem uma única entidade.
quarta-feira, julho 04, 2018
Auto de resistência, de Natasha Leri e Lula Carvalho ***1/2
No gênero documentário, muito se fala sobre os limites entre
a captação daquilo que é efetivamente “verdade” e a realidade encenada. Em “Auto
de resistência” (2018), assim como em “O processo” (2017), o questionamento vai
mais além – e se a nossa própria realidade não é uma encenação mal disfarçada?
No filme de Natasha Leri e Lula Carvalho, a narrativa se foca em boa parte nos
ritos processuais judiciais de ações penais que apuram os assassinatos de
jovens dos morros e periferias do Rio de Janeiro por parte de policiais em
serviço. Nessa abordagem que combina um certo caráter investigativo com um
forte lado de dramático discurso sócio-existencial, a obra se vale da captação
própria de cenas envolvendo os depoimentos de familiares e amigos das vítimas e
daqueles que os apoiam em sua cruzada e de audiências de algumas dessas ações
judiciais, além de usar filmagens de terceiros que geralmente são provas
escancaradas da brutalidade homicida da polícia. O registro de todos esses
momentos é de um detalhismo minucioso que vai do incômodo ao francamente
perturbador. A saga por busca de alguma justiça em relação às ações violentas
do aparelho estatal de segurança vai se revelando cada vez mais quixotesca,
além de escancarar o abismo sócio-econômico entre as partes envolvidas – jovens
pobres e negros são executados por policiais também pobres e negros e são
analisados de maneira indiferente e mecânica por um aparelho institucional-jurídico
composto por profissionais brancos e burgueses. Cumprir os ritos processuais
mais parece a necessidade da imposição de uma teatralização hipócrita do que do
que propriamente oferecer justiça. Na conclusão de uma audiência, ao proferir
uma sentença condenatória, uma juíza discursa que o resultado final pouco
alento trará para a sociedade e mais tem a função do cumprimento de um preceito
legal. Nessa assertiva entre o melancólico e o cinismo reside a razão de ser de
um sistema opressor e injusto tão bem dissecado em “Auto de resistência”.
terça-feira, julho 03, 2018
Un + une, de Claude Lelouch **
O cinema do diretor francês Claude Lelouch parece que vai
ser tornando cada vez mais autorrefencial. “Un + une” (2015) é um exemplar
enfático dessa tendência. Trama e atmosfera evocam aquela mistura de romantismo
exacerbado e homenagens ao universo cinematográfico já delineada em outros
longas-metragens do cineasta, sempre tendo como pano de fundo um cenário marcado
pelo exotismo e mistério. Se em outros filmes tal fórmula artística rendeu
alguns momentos memoráveis, na obra em questão o resultado final é banal e por
vezes enfadonho, ainda que a sua competência formal possa soar agradável em
algumas passagens. Com toda a sua fotogenia e amenidade narrativa, “Um + une” é
uma produção fácil de ver e mais fácil ainda de esquecer.
sexta-feira, junho 29, 2018
Direito de amar, de Tom Ford **1/2
Há elementos em “Direito de amar” (2009) que sugerem que o filme dirigido pelo cineasta/estilista Tom Ford possa alcançar alguma transcendência artística. A atuação de Colin Firth é bastante sanguínea, assim como a de Julianne Moore, e a concepção estética e atmosfera trazem um certo encanto sensorial para a obra. Com o desenrolar da narrativa, entretanto, tais pontos positivos vão se mostrando insuficientes para garantir o interesse do espectador. Ford se perde em um misto de pretensão e afetação, caindo em alguns clichês formais e temáticos que remetem a uma incômoda e entediante sensação de deja vu.
quinta-feira, junho 28, 2018
O amante duplo, de François Ozon ****
O cineasta francês François Ozon conseguiu deixar em sua
filmografia uma marca autoral marcada pelo insólito – sua assinatura artística
é marcada por uma síntese/pastiche de elementos narrativos de melodrama,
suspense e musical, por vezes alternando tais gêneros, em outros momentos
juntando-os na mesma obra. Em meio a altos e baixos em sua trajetória fílmica,
em “O amante duplo” (2017) ele atinge o seu pico criativo dentro de suas
particulares concepções narrativas-estéticas. Há algo na obra que evoca uma
junção alucinada entre o barroquismo de Brian De Palma e as atmosferas mórbidas
de David Cronenberg. Tais referências não são disparatadas. Ozon abusa de
truques formais (fusões de imagens, jogos de espelhos, split camera, trucagens
digitais), relacionando tais efeitos imagéticos a uma ambientação que oscila
entre a realidade e o delírio de maneira vertiginosa. Nesse sentido, o
sensorialismo do filme é desconcertante para o espectador. A impressão
constante é de uma narrativa pontuada por vários despertares de um sonho ruim
em que logo depois se descobre que apenas se entrou em um novo pesadelo. Mesmo
as sequências eróticas, de forte expressão gráfica, são contaminadas por um tom
doentio e onírico, como se o sensual e o patológico estivessem irmanados sem o
menor constrangimento. Nessa formatação artística, um roteiro repleto de
chavões básicos do suspense em termos de viradas de trama e soluções temáticas
acaba ganhando uma dimensão existencial de tensão perturbadora e profundidade
psicológica atordoante. O desempenho do elenco principal está em perfeita
sintonia com esse espírito alucinado de “O amante duplo”, com Marine Vacth e
Jérémie Renier entregando composições dramáticas carregadas de ambiguidades e
violentas variações de expressões e gestuais.
quarta-feira, junho 27, 2018
Fora de casa!, de Tom Green *
A atuação de Tom Green na boa comédia “Caindo na estrada”
(2000) até despertava uma certa curiosidade em relação ao ator. Sua
interpretação era uma síntese bem engraçada de escrotidão, pastelão e
ingenuidade, ainda que por vezes caísse em exageros desnecessários. Só que as
boas promessas dessa produção acabaram descambando em um exercício de egotrip
insuportável em “Fora de casa!” (2001). Até há algumas sacadas cômicas
interessantes, principalmente em um certo caráter ousado ao gozar o
politicamente correto, mas tudo isso é botado a perder pela direção displicente
do próprio Green – a ausência de uma mão
firme conduzindo a narrativa faz com que o comediante se perca nos seus
próprios excessos, retirando boa parte da graça que algumas soluções cômicas
poderiam alcançar. Esse tremendo fracasso artístico provavelmente pode ser a
causa pelo fato de que pouco se ouça falar hoje em dia no nome do Green,
relegando o ator/diretor ao limbo cinematográfico como um sub-Jim Carrey.
terça-feira, junho 26, 2018
The invitation, de Karyn Kusama *1/2
Se “Hereditário” (2018) é uma reciclagem vigorosa de clichês
temáticos e narrativos do gênero horror, “The invitation” (2015) representa uma
tentativa frustrada de recriação de tais preceitos. Dá para identificar ao
longo do filme uma série de elementos que já se viu em outras produções
trabalhados com maior inspiração criativa. Culpa da direção convencional em
excesso da cineasta Karyn Kusama que se perde em um roteiro repleto de truques
manjadod, na ausência de uma efetiva atmosfera de tensão, em uma concepção
visual asséptica e em um elenco repleto de atuações canastronas.
segunda-feira, junho 25, 2018
Hereditário, de Ari Aster ***
Não há como analisar “Hereditário” (2018) sem dissociar de
todos os comentários e expectativas que cercam o filme. Guardado às devidas proporções,
faz lembrar todo o marketing que se construiu em torno de “A bruxa de Blair” (1999)
na época de seu lançamento. E nos dois casos, o resultado final fica aquém de
toda a lenda publicitária/midiática estabelecida. No caso do filme dirigido por
Ari Aster, essa constatação não implica que que a obra em questão seja ruim.
Pelo contrário. “Hereditário” tem um cuidado formal e narrativo até acima da média
em relação ao que vem sendo feito no gênero nos últimos anos. É belamente
fotografado, encenação e trilha sonora constroem uma convincente atmosfera de
tensão, o roteiro tem uma lógica construída com rigor e o elenco apresenta
caracterizações dramáticas bem delineadas. Também é verdade, entretanto, que o
filme pouco transcende dessa linha do competente. É bastante genérico e
conservador dentro da linha de horror sobrenatural envolvendo conspirações
demoníacas. Na comparação, para ficarmos dentro dessa linhagem cinematográfica,
fica bem distante, por exemplo, da criatividade estética e do tom libertário-existencial
de “A bruxa” (2015).
quinta-feira, junho 21, 2018
Baronesa, de Juliana Antunes ****
A presença de Affonso Uchoa nos créditos como montador em “Baronesa”
(2017) não é mera coincidência. Os dois filmes dele como diretor, “A vizinhança
do tigre” (2014) e “Arábia” (2017), têm forte conexão artística e existencial
com a obra dirigida por Juliana Antunes. Estão lá a temática social e a
narrativa ficcional que emula traços documentais (isso sem falar no uso de
canções dos Racionais MC’s nas trilhas sonoras desses longas-metragens). Mas
enquanto nos trabalhos mencionados de Uchoa há uma atmosfera mais difusa e
lírica, em “Baronesa” a pegada é mais crua e direta e mesmo a trama se
desenvolve em um modelo mais linear. Isso não quer dizer, entretanto, que “Baronesa”
seja menos criativo e impactante. Pelo contrário. A encenação do cotidiano de realidade
das protagonistas Andreia e Leidiane tem uma fluidez impressionante – por mais
que o espectador saiba que aquilo que está na tela é fruto de um trabalho de
interpretação, há um ponto em que essa dramatização traz uma carga de
veracidade tão intensa que joga o filme para um limite perturbador entre o
documental e o encenado; nesse sentido, destaque para o tenebroso episódio de
abuso sexual entre os filhos de Leidiane. Colabora muito para isso a
intensidade e desenvoltura das atuações do elenco, com a cineasta extraindo
momentos antológicos na interação cênica entre esses “amadores”, com direito a
nuances desconcertantes nas variações que se estabelecem entre o cômico e o
trágico. Juliana Antunes também demonstra um senso imagético e narrativo
extraordinário, vide a direção de fotografia que valoriza tanto as sequências
mais intimistas em ambientes fechados quanto as tomadas de grandes planos
abertos nas favelas que servem de cenário para filme, além do sóbrio ritmo
narrativo que respeita a encenação minuciosa concebida pela diretora.
quarta-feira, junho 20, 2018
O caminho dos sonhos, de Angela Schanelec ***
O ascetismo estético e moral que foi a grande marca do
cinema do diretor francês Robert Bresson paira de maneira constante na
narrativa de “O caminho dos sonhos” (2016). A cineasta alemã Angela Schanelec
reduz o formalismo de seu filme ao essencial, formatando um austero conto moral
pontuado por uma bela direção de fotografia e uma montagem sóbria. Dentro desse
direcionamento artístico, não há grandes arroubos criativos ou sensoriais na
obra, o que por vezes torna assistir à produção uma experiência um tanto árida.
De qualquer, tal abordagem acaba se revelando adequada para o tom de desilusão
amarga do roteiro. Schanelec consegue estabelecer de maneira coerente e
profunda algumas ideias complexas em termos de construção psicológica das
situações e dos personagens. Por vezes, até se tem a impressão que a
aleatoriedade predomina sobre a narrativa e a trama, mas as ligações
existenciais entre os fatos e criaturas da história vão se estabelecendo de
maneira sutil. Nesses termos, até mesmo os aspectos temporais se interligam a
partir de um conceito que se defini com fluidez – é como se os dilemas sócio-políticos
em 1984, época da primeira parte do filme, tivessem recebido apenas pequenas variações
em 2014, na metade final da trama, e ao mesmo tempo todas as contradições e
perturbações pessoais que assolam os principais personagens pouco mudassem com
os passar dos anos e o avanço da maturidade. Esse fatalismo até se evidencia
como algo óbvio, mas ainda assim tem um caráter perturbador para o espectador.
Nessa contraposição entre o previsível e o incômodo reside a efetiva
transcendência artística de “O caminho dos sonhos”.
quinta-feira, junho 14, 2018
Deixe a luz do sol entrar, de Claire Denis ***
Narrativa e encenação em “Deixe a luz do sol entrar” (2017)
se mostram em sintonia com a personalidade da protagonista Isabelle (Juliette
Binoche) – enquanto essa é uma mulher de comportamento errático, entre o
volúvel e o voluntarioso, os aludidos quesitos cinematográficos possuem um
caráter artístico inconstante, como se o filme seguisse um fluxo mais nebuloso,
dentro de um formato que mais se vincula ao episódico do que propriamente a um
ordenamento coerente. Os diversos envolvimentos sentimentais de Isabelle
radiografam não apenas suas dúvidas e inseguranças amorosas, mas também a
própria sociedade francesa contemporânea (o banqueiro canalha, o ator
egocêntrico, o ex-marido inconstante, o proletário misterioso). Por vezes tais
simbologias soam um tanto óbvias e esquemáticas, mas em outros momentos
configuram um arguto subtexto. A diretora Claire Denis foge de julgamentos
morais ou mesmo de uma lógica narrativa/temática equilibrada. Filme e
personagem principal entram em uma montanha russa de sensações e soluções
estéticas/existenciais, e sem necessariamente encontrar uma conclusão que
amarre essa “confusão”. O ponto mais fascinante da produção é justamente essa
impressão constante de tudo estar sempre em aberto. Os altos e baixos de
Isabelle não implicam na certeza de um amadurecimento para personagem ou no
atingimento do seu objetivo final do encontro do amor verdadeiro. Na sequência
final, no diálogo entre ela e um místico picareta (Gérard Depardieu),
encontra-se a síntese desconcertante de Denis em sua proposta para “Deixe a luz
do sol entrar”, em que a conversa entre os personagens é prolixa e repleta de
lugares comuns, mas provida de sedutor encanto em sua cadência e nuances.
quarta-feira, junho 13, 2018
Criaturas 2, de Mick Garris ***1/2
Quando foi lançado nos cinemas, “Criaturas 2” (1988) foi
encarado por grande parte do público e a crítica como mais um derivado da
franquia “Gremlins”. O próprio diretor Mick Garris, em depoimento dado em
sessão comentada do filme em questão no XIV FANTASPOA, admitiu que foi chamado
em virtude de sua ligação artística com Steven Spielberg, um dos principais
produtores de “Gremlins”. Com o passar dos anos, entretanto, essa impressão de
mera cópia foi se atenuando até chegar um ponto em que hoje em dia “Criaturas 2”
ganhou uma categorização de pérola obscura do cinema fantástico oitentista.
Garris não tinha a pretensão de fazer uma grande obra-prima do horror ou ficção
científica. Apenas se valeu de maneira eficiente das principais referências estéticas
e temáticas do cinema B norte-americano da época – o uso das trucagens visuais
é preciso e tem um encanto imagético perene, as atuações do elenco variam de
maneira divertida entre o caricatural e o simpático, o roteiro aparentemente
bobo e escapista esconde um subtexto de crítica sutil ao american way of life,
o grafismo violento e exagerado remente ao cartunesco, a encenação é variada e
de admirável desenvoltura tanto no quesito aventura quanto nas sequências mais
baseadas em diálogos (distante, aliás, das narrativas frenéticas atordoantes
dos blockbusters contemporâneos). Ou seja, no cômputo geral, “Criaturas 2” é um
passatempo nostálgico, beirando o anacrônico, mas que ainda assim revela alguns
agradáveis pontos criativos.
segunda-feira, junho 11, 2018
A câmera de Claire, de Hong Sang-soo ***1/2
Há elementos narrativos e temáticos que são recorrentes no
cinema de Hong Sanso-soo: a câmera que se move emulando uma filmagem caseira,
jovens mulheres que se envolvem amorosamente com homens mais velhos
comprometidos, personagens e situações ligados ao mundo do cinema, sequências
de diálogos entre o prosaico e o intimista que se desenvolvem em uma mesa para
refeições, o fluxo temporal que não obedece necessariamente a uma ordem linear.
Tudo isso está presente novamente em “A câmera de Claire” (2017) e ainda assim
a produção traz um frescor artístico encantador, como se o cineasta pudesse
extrair de tal concepção estética/textual sempre alguma surpresa sutilmente
desconcertante para o espectador. Nesse peculiar estilo de filmar, a presença
luminosa de Isabelle Hupert cai como uma luva. Sua atuação tem a medida certa
entre a leveza de seus gestos e expressões e a sutileza psicológica com que se
torna um catalizador involuntário de emoções para os demais personagens.
sexta-feira, junho 08, 2018
Han Solo: Uma história de Star Wars, de Ron Howard ***
Dentro da retomada da franquia “Star Wars”, pelo menos uma
coisa fica evidente: os spin offs da série são bem melhores que os capítulos
que dão prosseguimento à saga. Isso porque “Rogue One” (2016) e “Han Solo” (2018)
mostram narrativas, roteiros e encenações mais focadas e em sintonia
existencial-artística mais consistente com os filmes clássicos anteriores do
que “O despertar da força” (2015) e “Os últimos Jedi” (2017). Se “Rogue One”
tinha uma cara de produção B de orçamento milionário que cruzava
ficção-científica e filmes de guerra, “Han Solo” dá a impressão de um “Indiana
Jones” que se passa no espaço sideral. Esse pique de aventura oitentista é
perfeitamente compreensível – Ron Howard, nome expressivo nessa linhagem cinematográfica,
é o responsável pela direção. Ele faz tudo à moda antiga. Ainda que as
trucagens digitais deem o ar contemporâneo, o ritmo narrativo e a trama remetem
a um estilo mais tradicional de filmar, quase anacrônico, mas que se mostra
eficiente em termos de ação e suspense. Nada que chegue a ser especificamente
brilhante, Howard nunca foi um cineasta de obras-primas e de grandes arroubos
criativos, mas “Han Solo” é divertido e por vezes até mesmo cativante. E isso,
em termos de um blockbuster de ficção-científica de aventura, é um tremendo
mérito. E mesmo dentro desse caráter escapista, o filme consegue ter uma certa
densidade dramática, principalmente na caracterização de personagens e nos
dilemas éticos-morais da história. Tanto que os desdobramentos finais da trama
deixam certa curiosidade pelo destino de alguns personagens, principalmente da ambígua
Kira (Emilia Clarke) – já em “Os últimos Jedi”, por exemplo, a conclusão era
tão frouxa que a lembrança e interesse pelas figuras da trama rapidamente se
esvanecem após o término da exibição.
quinta-feira, junho 07, 2018
O maníaco, de William Lusting ****
Durante o XIV FANTASPOA, mais especificamente na sessão
comentada de “O maníaco” (1980), o diretor norte-americano William Lusting
confessou que o filme em questão era diretamente inspirado no gênero giallo.
Assistindo à referida obra, tal constatação fica bastante evidente, vide o
grafismo exagerado e escatológico das cenas de assassinatos, os temas
incidentais algo dissonantes da trilha sonora e a atmosfera entre o sombrio e o
sórdido que predomina na narrativa. Essas referências, entretanto, são
incorporadas dentro de uma visão artística bem particular por parte de Lusting.
Ao invés daquela concepção estética que emulava o operístico e o barroco que
marcou vários trabalhos de Dario Argento, Mario Bava, Lucio Fulci e tanto
outros luminares italianos, “O maníaco” apresenta um formalismo bem mais cru e
direto, ainda que rigoroso e coerente sob a direção segura de Lusting. A
encenação e o roteiro se mostram em uma impressionante sintonia na forma com
que retratam a história do psicopata assassino Frank Zito (Joe Spinell) – ao
invés da narrativa ser enquadrada dentro de um óbvio e maniqueísta conto sobre
o embate entre o bem e o mal, o que se tem é um registro aterrorizante e
desolador do cotidiano do demente homicida trucidando mulheres e se perdendo em
delírio edipianos. A tensão sufocante do filme não vem tanto do suspense em
relação à morte de suas vítimas, mas sim da progressiva desagregação mental e
moral do protagonista que o leva a um fim que se configura como um pesadelo
perturbador. É notável também como Lusting incorpora a própria cidade de Nova
York na narrativa – mais do que simples pano de fundo, a metrópole funciona
como uma espécie de extensão imagética e existencial dos delírios brutais de
Frank, entre uma efervescência de cores e barulhos e ambientações de sujeira e
ruínas.
quarta-feira, junho 06, 2018
O processo, de Maria Augusta Ramos ****
Pode-se acusar a diretora Maria Augusta Ramos de ser “parcial”
e “panfletária” em “O processo” (2017). Na forma com que a narrativa se
desenvolve, fica bem claro que a cineasta escolheu um lado. Mas isso não representa
demérito algum para o seu filme. Afinal, o documentário cinematográfico não é
equivalente a uma cobertura jornalística imparcial. E pelo menos a diretora não
cai na hipocrisia da dita “isenção” tão apregoada (e pouco praticada) pela
Globo e outros grandes grupos midiáticos. Mas o que torna “O processo” um
trabalho antológico dentro do gênero cinema-verdade é efetivamente a sua
concepção artística. Isso fica logo evidente na sua impressionante abertura –
em um grande plano-sequência panorâmico, a câmera registra as ruas em frente ao
Congresso Nacional, no dia da votação pelo impeachment por parte dos deputados federais,
divididas entre aqueles que apoiam e combatem o golpe parlamentar. O registro
imagético é a perfeita tradução de um país profundamente polarizado em termos
ideológicos.
A narrativa e o formalismo de “O processo” obedecem a uma
lógica de rigor estético e existencial por parte de sua diretora. Ela não
recorre a uma voz narradora que explique as coisas mastigadas para o espectador
e nem a uma música incidental que evoque alguma atmosfera. Nem mesmo faz
entrevistas diretas com os principais personagens da dantesca saga que
desenrola na tela. No máximo se permite a econômicos comentários escritos que
contextuam a ação e o tempo. Para o filme, basta fazer o registro audiovisual
dos atos e fatos e os encaixar dentro de uma sóbria montagem. Se tais escolhas
podem parecer espartanas, na prática são mais que suficientes para que Maria
Augusta construa uma obra repleta de sufocante tensão dramática. Por vezes, a
ambientação opressora e a sensação de fatalismo se tornam tão angustiantes que
a própria narrativa oferece certos momentos em que a tela fica escura e o som
silencia para que se possa respirar um pouco. A situação de que os senadores
esquerdistas e o advogado geral da união que defendem Dilma Houssef evocam uma
síntese de abnegação e altivez enquanto a “acusadora” Janaína Paschoal parece
uma fanática fundamentalista e senadores de direita demonstrem uma desfaçatez nada
constrangida pode sugerir algo de maniqueísta, mas também garante um forte grau
de empatia e emotividade para a obra.
O misto de austeridade e vigor com que Maria Augusta Ramos
conduz “O processo” é desconcertante na medida em que a exposição dos fatos
históricos também é marcada por um sutil subjetivismo na sua construção como
narrativa. Dentro dessa visão artística, o documentário transcende a sua
própria condição e vai se convertendo também em um verdadeiro conto de horror.
Talvez essa condição se arrefeça em alguns anos, quando toda essa história se
torne um pouco mais distante e o ato de se relembrar o que ocorreu naqueles
meses 2016 não seja tão doloroso. No calor desse conturbado 2018, entretanto, “O
processo” é um potente retrato de um país despedaçado pelo fascismo de direita
e pelo impiedoso domínio sócio-político de grandes conglomerados econômicos e
midiáticos (aspectos esses diretamente ligado ao processo do impeachment/golpe
sofrido por Dilma, ligação que o filme estabelece com contundência). Tal
cenário desolador encontra a tradução perfeita na melancólica e sombria cena
final de “O processo”, em que a tela vai sendo tomada por uma densa fumaça,
oriunda da mistura entre gás lacrimogênio e fogo de um cenário de conflito
entre polícia e manifestantes de grupos sociais protestando contra as ações do
usurpador Temer no ataque a direitos trabalhistas e previdenciários.
terça-feira, junho 05, 2018
Deadpool 2, de David Leitch **
Parecia muito promissor: a continuação do divertido “Deadpool”
(2016) dirigido por David Leitch, responsável por ótimos filmes de ação
recentes (“De volta ao jogo” e “Atômica”). O resultado final, entretanto, ficou
bem aquém em relação às boas expectativas que se tinha. A fórmula narrativa que
deu certo no primeiro filme está lá – violência gráfica explícita, humor
metalinguístico e escroto, frenéticas cenas de ação. Só que tais elementos
formais e temáticos são repetidos à exaustão a um ponto que se retira qualquer
traço de tensão da obra. Isso fica bem evidente nas caracterizações de
personagens importantes como Cable (Josh Brolin), Dominó (Zazie Beetz) e
Fanático. Se nas histórias dos quadrinhos originais tais figuras têm considerável
peso dramático, no filme em questão se limitam a distribuir porrada e dizerem
algumas breves frases. A gozação indiscriminada com o universo das produções de
super-herói às vezes até rende algumas boas piadas e tem o seu grau de ousadia,
mas a repetição excessiva dessa atmosfera de farsa no final das contas deixa tudo
muito cansativo e banal. Mesmo as cenas de ação caem numa formatação derivativa
e pouco memorável. E por mais que Deadpool (Ryan Reynolds) goste de tirar um
sarro com a franquia de Wolverine, a verdade é que o filme de Leitch ficou
muito distante da classe estética e da perturbadora trama do antológico “Logan”
(2017).
segunda-feira, junho 04, 2018
Amante por um dia, de Philippe Garrel ***1/2
O cinema do diretor francês Philippe Garrel obedece a um
fluxo narrativo muito particular. Isso é bastante evidente em “Amante por um
dia” (2017). A partir de uma premissa simples de roteiro, situações e
personagens se desenvolvem de uma maneira fluída, não obedecendo a maniqueísmos
morais e fórmulas estéticas. A encenação valoriza os gestos do cotidiano, as
reações imprevisíveis, a sutil expressividade dos olhares dos atores. A
atmosfera até remete a um certo tom solene ao esmiuçar a jornada intimista dos
personagens, principalmente no que sugere a combinação de uma voz de narração
de traço e texto quase literário e os discretos e românticos temas musicais
incidentais, mas há uma ágil e moderna desenvoltura na forma com que as coisas se
desenrolam em cena. Se as sequências envolvendo diálogo revelam delicadeza e
sobriedade na sua condução e ambientação, nas ótimas cenas de sexo há uma
intensidade visceral na coreografia dos corpos, como se sugerisse uma contundente
contraposição entre a racionalidade do discurso amoroso/intelectual com a crueza
carnal do coito. Ao longo da narrativa, essa concepção artística de Garrel vai
configurando uma coerência formal e textual contundente, até chegar a uma
conclusão que desconcerta o espectador ao dispensar arroubos emocionais e
moralismos fáceis. Para Garrel, o que existe na vida e na arte é simplesmente o
destino que ignora crenças e regras sentimentais dos indivíduos que rege.
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