quinta-feira, maio 09, 2019

A lenda dos oito samurais, de Kinji Fukarasu **1/2


Mesmo para um padrão de aventura japonesa oitentista “A lenda dos oito samurais” (1983) pode ser considerado uma tremenda tosquice. É uma junção desajeitada entre fantasia e a mitologia samurai e que, apesar de datada em vários aspectos, tem os seus momentos divertidos e por vezes até inquietantes, principalmente pelo fato de investir em um grafismo mais violento e sórdido. Funciona como curiosidade. E quase só...

quarta-feira, maio 08, 2019

Jurassic World: Reino ameaçado, de Juan Antonio Bayona *


Se “Jurassic World: O mundo dos dinossauros” (2015) era uma retomada anódina do universo de dinossauros da franquia “Jurassic Park”, esse “Jurassic World: Reino ameaçado” (2018) descamba de vez para a picaretice descarada. É como se os produtores pegassem as ideias mais estapafúrdias de produções oportunistas que imitaram a série cinematográfica criada por Spielberg, dessem recursos milionários típicos de grandes estúdios e entregassem a direção para um cara qualquer nota. O resultado é uma obra que emula preguiçosamente ideias visuais e clichês textuais dos filmes anteriores, incapaz de gerar alguma tensão dramática ou mesmo alguma cena que fuja do trivial. Salva um pouco a barra do longa dirigido por Jan Antonio Bayona o terço final da narrativa, no sentido de ser tão cretina a ideia de um leilão de dinossauros que acaba rendendo alguns momentos de humor involuntário. Resta no final a curiosidade em se imaginar o quão baixo os produtores da franquia descerão no próximo filme (afinal, as enormes bilheterias na arrecadação e os ganchos escancarados na conclusão dão a certeza de mais uma produção com dinossauros digitalizados).

terça-feira, maio 07, 2019

Pequena grande vida, de Alexander Payne **


No melhor de sua filmografia, o diretor norte-americano Alexander Payne foi responsável por uma fina síntese narrativa de ironia ácida e densidade dramática. É só conferir isso em “Eleição” (1999), “As confissões de Schmidt” (2002) e “Nebraska” (2013). Sua particular concepção artística, entretanto, desmorona em “Pequena grande vida” (2017). O que era para ser uma sardônica ficção científica repleta de subtexto sócio-político acaba se convertendo em uma pálida fábula. O início do filme é até promissor: o roteiro insinua alguns rumos interessantes, as trucagens digitais com as pessoas miniaturizadas têm um divertido charme imagético e a encenação apresenta originalidade na forma com que realismo e absurdo se alternam. Aos poucos, as boas promessas criativas vão se esvanecendo com a falta de um rumo mais definido da trama e o tom apático das interpretações. Não chega a ser especialmente ruim, é só anódino de maneira anestesiante.

sexta-feira, maio 03, 2019

Wilson, de Craig Johnson **


Se você quer conhecer um filme que serve como exemplo de como não se deve adaptar uma ótima história em quadrinhos para o cinema, recomendo que assista a “Wilson” (2017). Toda aquela sardônica narrativa da graphic novel original escrita e desenhada pelo brilhante quadrinhista Daniel Clowes, que combina melancolia e ironia destinadas a fazer um ácido retrato dos valores pequeno-burgueses da sociedade norte-americana, acaba sendo reduzida a um conto fofinho de autoajuda. O início do filme até dá uma enganada, é onde se concentra os momentos de humor mais sacana do roteiro, mas ao longo da trama isso vai se diluindo em doses enjoadas de assepsia visual e diálogos engraçadinhos. A esforçada interpretação de Woody Harrelson no papel título procura dar alguma dignidade para o longa. Acaba senso insuficiente, entretanto, diante da direção preguiçosa e sem graça de Craig Johnson. Se você não conhece a HQ de Clowes, corra para ler e esqueça esse filme medíocre.

quinta-feira, maio 02, 2019

A maldição da chorona, de Michael Chaves *1/2


A franquia “Invocação do mal” e seus derivados estão mais vinculados a um conceito de “terror carola cristão”, ou sejam, parece que sua preocupação maior está em difundir os valores católicos (e religiões assemelhadas) do que propriamente em construir uma obra de horror convincente em termos artísticos. “A maldição da chorona” (2019) é exemplar enfático dessa tendência da franquia. Assim como em “Anabelle” e “A freira”, a estrutura narrativa apenas repete uma fórmula gasta, algo como uma derivação qualquer nota de “O exorcista” (1973). Os truques de sustos são previsíveis a um ponto de serem incapazes de provocar algum susto satisfatório, enquanto a caracterização visual é preguiçosa e pouco imaginativa (a personagem-título repete todos os maneirismos imagéticos da assombração de “A freira”). Todo esse conjunto formal-narrativo embala uma trama óbvia e conservadora de doer – com direito a um ex-padre renegado como herói durão e uma série de situações estereotipadas reveladoras de uma visão de mundo reacionária e preconceituosa. De certa forma, o filme do diretor Michael Chaves está em perfeita sintonia existencial com os tempos de obscurantismo e opressão sócio-religiosa que vivemos.

terça-feira, abril 30, 2019

O valor de um homem, de Stéphane Brizé ***


Em sua filmografia, o diretor francês Stéphane Brizé costuma se vincular à cartilha estética-temática do realismo. Se em “Mademoiselle Chambon” (2010) e “Uma primavera com minha mãe” (2013) essa abordagem artística se enquadrava dentro de um roteiro de caráter intimista, em “O valor de um homem” (2016) o enfoque da trama se concentra em um forte teor social (sem que com isso se esqueça, entretanto, do lado subjetivo dos personagens). Se Brizé não apresenta a mesma classe formal-narrativa de Ken Loach e dos irmãos Dardenne, grandes mestres dessa linhagem cinematográfica, ainda sim o seu filme apresenta forte impacto para o espectador pela misto de austeridade e humanismo com que expõe os dilemas éticos de um homem desempregado (Vincent Lindon, excelente) diante de um cotidiano marcado por injustiças, desmandos e humilhações derivados de uma cruel ordenamento sócio-econômico “moderno” e neoliberal. Brizé não se furta de escolher um lado na história que conta– seu panfletarismo é contundente e sincero, o que carrega ainda mais a sua narrativa em termos de pungência e tensão dramática.

segunda-feira, abril 29, 2019

3 faces, de Jafar Panahi ***1/2


O diretor iraniano Jafar Panahi retomar as suas habituais obsessões estéticas e temáticas em “3 faces” (2018). O que não dizer que isso signifique comodismo artístico. Muito pelo contrário. O cineasta demonstra precisão e sensibilidade na construção do realismo de seu filme: o uso preferencial do plano-sequência, a montagem invisível, a encenação de forte teor naturalista. Tudo isso se junta à sua também costumeira dissecação da própria linguagem cinematográfica, em um jogo cênico em que o metalinguístico, a ficção e o real se combinam de maneira fluente e inquietante. Na trama de uma garota de interior aspirante a atriz/diretora que pede a ajuda de maneira dramática para o diretor e uma atriz famosa no país (Behnaz Jafari) diante da fúria conservadora de sua família e da comunidade que a cerca, Panahi faz com que o humanismo inerente ao roteiro encontre uma moldura formal/narrativa sóbria e insinuante. A forma com que o diretor expõe o cotidiano do vilarejo onde a história se desenvolve, captando detalhes da rotina das pessoas e os depoimentos/pensamentos rústicos dos moradores, faz pensar no clássico documentário “O fim e o princípio” (2006) recriado como ficção. No longa de Panahi, entretanto, a captação dessa ambientação rural e dessa “sabedoria” algo primitiva ganha contornos de uma sutil e desolada crítica à opressão religiosa e patriarcal de uma sociedade de valores ancestrais.

quinta-feira, abril 25, 2019

O anjo, de Luis Ortega ***


O cinema mainstream argentino tem como característica básica a emulação fiel dos preceitos narrativos do cinema norte-americano clássico, o que para muitos é a explicação maior pelo fato de ser melhor sucedido em termos comerciais e artísticos do que as produções brasileiras populares. Se esse direcionamento artístico em vários casos acaba rendendo obras assépticas e despersonalizadas, em outras oportunidades até surpreende ao dar origem a alguns filmes inquietantes. Nesse último caso dá para enquadrar “O anjo” (2018). Nada no longa-metragem dirigido por Luis Ortega remete à alguma efetivo sopro de originalidade ou de grande sobressalto criativo em termos narrativos ou temáticos. É mais um filme policial dentro daquela tradicional linhagem a mostrar a ascensão e queda de um meliante – e que geralmente se baseia em fatos reais (o que é exatamente o caso do filme de Ortega). Tem até direito a sequências de ação e violência regadas a muito rock and roll setentista (impossível de não lembrar de cenas semelhantes de obras-primas de Martin Scorsese como “Os bons companheiros” e “Cassino”). Ainda assim, é uma obra que por vezes cativa o espectador pela competência e convicção de Ortega em ficar remexendo clichês narrativos, além de contar com um desempenho magnético e memorável de Lorenzo Ferro no papel do protagonista Carlitos Puch. As sequências dele saltando muros e telhados, fazendo caras e bocas, disparando tiros ou simplesmente dançando estilosamente demonstram uma impressionante expressão corporal e valorizam ainda mais a encenação elegante concebida por Ortega.

quarta-feira, abril 24, 2019

O lamento, de Na Hong-jin ***


Há momentos em “O lamento” (2016) que fazem lembrar a expressiva síntese de originalidade e tensão de outras produções sul-coreanas antológicas que enveredaram pelo gênero suspense como “Old Boy” (2003), “Medo” (2003), “Mother” (2009) e “Em chamas” (2018). O diretor Na Hong-jin se utiliza de uma encenação que foge dos padrões tradicionais ocidentais para esse tipo de filme, principalmente quando a narrativa se formata dentro de um padrão de comicidade. As reações dos personagens diante de algumas situações limite do roteiro se aproximam mais de um espanto cômico do que de arroubos melodramáticos ou de heroísmo. O grafismo sanguinolento do filme também é mais brutal e cru do que aqueles que estamos acostumados a ver nessa linhagem de produções vindas dos estúdios norte-americanos. Esse conjunto artístico por vezes se mostra perturbador e angustiante, mas a verdade é que “O lamento” não consegue manter esse nível de maneira mais constante, principalmente quando se rende a alguns preceitos narrativos mais convencionais. Ou seja, não está no mesmo nível artístico dos filmes mencionados no início desse texto. Ainda assim, é uma obra de respeito e acima da média do que vem se fazendo nos últimos anos no gênero.

terça-feira, abril 23, 2019

Chuva é cantoria na aldeia dos mortos, de João Salaviza e Renée Nader Messora ***1/2


Faz algumas semanas que ouvi um depoimento extraordinário de uma deputada indígena se contrapondo contra um pronunciamento preconceituoso e reacionário da ministra da agricultura que ofendia a cultura do silvícola brasileiro. No referido pronunciamento da deputada, ela colocava como era reducionista tentar enquadrar o índio dentro de uma ótica capitalista-cristã, quando na verdade a concepção existencial do indígena se baseia em uma visão completamente diversa do ambiente e do trabalho. Essa lógica particular de vida é algo que extravasa com um misto de sensibilidade e contundência na produção brasileira “Chuva é cantoria na aldeia do morto” (2018), e que faz com que a própria narrativa do filme dos diretores João Salaviza e Renée Nader Messora tenha de se adaptar a uma linguagem estética bastante na contramão do que se faz no cinema ocidental contemporâneo. No terço inicial da obra, o espectador entra de cabeça em um universo paralelo de sensações audiovisuais – a encenação respeita o ritmo de vida sereno e rústico de uma comunidade indígena Khahô, em que os sons da natureza e uma imensidão de verde e terra absorvem os nossos sentidos e fazem com que a união entre o realismo e o metafísico pareça natural e coerente. Quando a narrativa se volta para um centro urbano, o contraste é chocante, com uma poluição sonora e visual irrompendo com violência e que se mostra em desolada sintonia com uma sociedade embrutecida típica das cidades brasileiras contemporâneas. No terço final, com a trama sendo retomada para o cotidiano da tribo, a narrativa se torna mais etérea, com danças, cantos e sutis trucagens visuais constituindo um delicado e envolvente vórtice sensorial, impressão essa que se reforça na misteriosa conclusão do filme, uma primorosa cena em que natureza e misticismo se fundem de maneira antológica.

segunda-feira, abril 22, 2019

Los silencios, de Beatriz Seigner ***


A combinação de drama intimista, teor sócio-político e realismo fantástico engendrada pela diretora Beatriz Seigner em “Los silêncios” (2018) não se configura em uma narrativa sempre equilibrada. Isso se compensa, entretanto, por alguns momentos de pungência arrebatadora. A forma com que os planos do real e do metafísico se relacionam revela engenhosidade formal e sensibilidade temática por parte do filme. Mesmo não se recorrendo a trucagens, há uma fluência natural na forma com que situações e personagens transitam entre a encenação naturalista e a caracterização do metafísico. O roteiro foge dos estereótipos fáceis da religiosidade cristã moralista e envereda em uma intersecção criativa entre melancólicas assombrações e forte e crítico comentário sobre um cenário de exploração econômica e opressão armada no interior da Colômbia. Há uma sutileza desconcertante e por vezes comovente na forma com que fantasmas se manifestam no cotidiano de privações e trabalho duro de um vilarejo na fronteira entre o Brasil e Colômbia. Seigner evita os truques narrativos óbvios de melodrama convencional, privilegiando expressivos silêncios e gestuais em sua encenação, além de uma certa crueza visual na concepção imagética da direção de fotografia, o que não quer dizer que a obra não tenha uma surpreendente beleza plástica rústica.

quinta-feira, abril 18, 2019

Rock'n roll: Por trás da fama, de Guilaume Canet ***


Fazer um filme que seja uma crítica à fogueira das vaidades que representa o universo dos famosos no cinema não chega a ser exatamente uma novidade. “Rock’n roll: Por trás da fama” (2017) está longe de ser uma obra definitiva dentro da temática, mas pelo menos escorre o seu fel de maneira divertida e por vezes até surpreendente. O diretor e ator Guilaume Canet formata o seu filme como se fosse uma narrativa ficcional tradicional, salpicando o roteiro com toques metalinguísticos. Na trama, ele e sua mulher Marion Cotilard interpretam a si próprios, assim como vários nomes do elenco, em situações que parodiam vários dos clichês e dilemas que envolvem o meio artístico em seu país (e, de certa forma, em boa parte do mundo cultural ocidental). A obra ironiza a tudo, não poupando ninguém: aspirantes arrivistas dispostos a tudo pela fama, atores consagrados obcecados em satisfazer o ego com premiações e entrevistas diversas, produtores e agentes preocupados exclusivamente com os dividendos das produções. A abordagem humorística de Canet varia como uma montanha russa, indo da ironia sutil à comicidade física que beira o exagero grotesco, o que representa variações radicais na própria atmosfera da obra, entre o realismo e o quase delírio. Isso faz com que o impacto do filme oscile entre momentos de um pastelão meio bobo e deslocado e o sofisticado e desconcertante sarcasmo. No cômputo geral, ainda que irregular na sua coesão narrativa, é uma obra memorável no insólito de seu tom sardônico.

quarta-feira, abril 17, 2019

Instinto selvagem 2, de Michael Caton-Jones *


É claro que fazer uma continuação da obra-prima do suspense “Instinto selvagem 2” (1992) no mesmo nível artístico seria um desafio muito difícil de superar. Mas o que surpreende nessa segunda parte dirigida por Michael Caton-Jones, lançada em 2006, é o nível atingido de ruindade absoluta. Nada funciona no filme a um ponto que seus equívocos narrativos e textuais chegam nas raias do francamente ridículo e risível. Caton-Jones se perde em maneirismos estéticos estéreis na tentativa desesperada de emular o formalismo preciso e inventivo de Paul Verhoeven, além de se perder em um roteiro simplório e caricato. Caton-Jones nunca foi cineasta de grandes voos criativos, mas seu currículo é marcado por algumas memoráveis produções cujos roteiro e formalismo eram marcados por um eficiente misto de convencionalismo e sobriedade (“Memphis Belle”, “O despertar de um homem”, “Rob Roy”). Ou seja, bem distante dos descalabros de “Instinto selvagem 2”. Sharon Stone, de volta ao papel principal de Catherine Tramell, deixa-se contaminar pelo espírito de tranqueira do filme e entrega uma interpretação canastrona constrangedora. Essa combinação de picaretagem, oportunismo e incompetência faz de “Instinto selvagem 2” uma bela lição de como uma produção de respeitáveis recursos humanos e materiais pode resultar em um clamoroso desastre.

terça-feira, abril 16, 2019

A história verdadeira, de Rupert Goold **


No papel, “A história verdadeira” (2015) seria uma obra bastante promissora. Uma trama baseada em fatos reais com uma premissa interessante (a relação ambígua entre um repórter decadente e um melífluo assassino psicopata) e uma dupla de ótimos atores (Jonah Hill e James Franco) nos papéis principais. Ocorre, entretanto, que o tratamento artístico do diretor Ruper Goold é tão convencional e superficial que acaba jogando a obra no ralo da irrelevância. A pretensa densidade psicológica dos personagens, a busca por uma atmosfera de tensão dramática e ambivalência moral e a construção de um roteiro efetivamente convincente se esvanecem em nome de um formalismo destituído de ousadia e de uma insípida assepsia visual.

segunda-feira, abril 15, 2019

O passageiro, de Jaume Collet-Serra **


Um filme de ação cuja trama traz um protagonista interpretado por Liam Neeson que é (aparentemente, pelo menos) um cidadão comum ou um pobre coitado em crise existencial-econômica-familiar que se vê envolvido em algum grande crime ou conspiração e com o desenrolar da narrativa acaba se revelando um sujeito de enorme sagacidade e desenvoltura que dá umas porradas nos vilões, descobre mistérios de maneira que beira o sherlockiano e até tem direito a uma redenção conciliadora com os seus entes queridos, o seu passado conturbado ou tudo isso junto. Quanta vezes você viu esse filme? Pois é, eu também assisti a diversas variações dessa fórmula, quase sempre pouco satisfatórias. “O passageiro” (2018) é mais uma derivação dessa concepção artística-comercial “consagrada”, o próprio diretor Jaume Collet-Serra trabalhou com Neeson em outros filmes bem parecidos. E aqui dá até para fazer valer um outro clichê: é um filmezinho por vezes divertido, que garante o interesse por alguns instantes em frente à televisão em uma noite de sonolência, mas que assim que termina pouca coisa fica retida na nossa mente. É claro que existe argumentos evidentes de que há muito público para diversão escapista medíocre, que o veterano Neeson tem direito a ganhar uma grana fácil nessa altura da sua vida. Ok, mas também há o direito de se constatar de maneira óbvia que “O passageiro” representa uma vertente preguiçosa e pouco memorável no gênero ação dos últimos anos.

sexta-feira, abril 12, 2019

Paraíso perdido, de Monique Ganderberg *1/2


Canções populares brasileiras, ou bregas como preferem outros, moldam a trama e a narrativa de “Paraíso perdido” (2018). É uma premissa criativa interessante e os recursos disponíveis para a diretora Monique Ganderberg sugeriam uma produção promissora – elenco com nomes expressivos, direção de arte e fotografia estilizadas que evocam um misto de sordidez e sofisticação e, claro, um belo cancioneiro para dar combustão aos números musicais e mesmo ao roteiro. Ainda assim, o filme tem um resultado final pouco satisfatório. A direção de Ganderberg é pouco ousada e desprovida de vigor, com um medo elitista de parecer exagerada ou ridícula, fazendo com que aquele aspecto mais derramado e visceral que deveria ser a tônica da narrativa acabe se convertendo em uma formatação previsível e asséptica. Digamos que os reais admiradores desse universo de exacerbado romantismo/sentimentalismo ficariam pouco atraídos pelo estilo soft e anódino de “Paraíso perdido”. Para aqueles que se interessam pela conjugação cinema e música popularesca/brega, vale muito mais a pena ver o pungente documentário “Vou rifar meu coração” (2012).

quinta-feira, abril 11, 2019

Bio - Construindo uma vida, de Carlos Gerbase ***


A filmografia do diretor gaúcho Carlos Gerbase, pelo menos em termos de longas-metragens, se divide entre esforçadas tentativas e filmes francamente ruins. Assim, “Bio – Construindo uma vida” (2017) acaba sendo uma surpresa positiva, pois é seu longa melhor sucedido em termos artísticos. A encenação talvez tenha sido o grande ponto fraco de suas produções anteriores, sendo que nessa obra mais recente ele finalmente consegue resolver esse problema ao formatar o seu filme como um falso documentário com elementos de ficção científica, melodrama e comentário sócio-político-histórico. Na maioria das sequências, os personagens estão sentados dando depoimentos de fluência e ritmo que beiram o literário. A concepção estética-temática aqui descrita pode sugerir algo confuso ou simplesmente esdrúxulo, mas o mérito de Gerbase é dar para tudo isso uma fluência narrativa envolvente, além do roteiro revelar um subtexto de nuances humanistas comoventes. Nesse sentido, também é interessante observar como a abordagem política-existencial de “Bio” ganha uma ressonância especial na associação que se faz com o tenebroso momento histórico que vivemos. Com sutileza irônica demolidora, a obra satiriza o obscurantismo religioso e a educação baseada em alienação e valores morais reacionários perpetrados pelo status quo conservador, valorizando, por outro lado, as ciências e as artes como forma de libertação e transcendência. Por vezes o longa padece de fotogenia e assepsia visual excessivas, mas esse é um detalhe negativo que se compensa por algumas ousadias, como a atilada direção de atores, a caracterização estilizada de um futuro high tech e o misto de serenidade melancólica e humor sardônico de algumas passagens da trama. Aliás, a forma engenhosa como a ficção científica é incorporada na narrativa parece em sintonia com o fato de que Gerbase por muito tempo foi baterista e compositor dos Replicantes, cujo nome é referência óbvia ao clássico sci fi “Blade Runner – O caçador de androides” (1982) e as letras de algumas das canções citavam um futurismo nebuloso.

quarta-feira, abril 10, 2019

Shazam!, de David Sandberg **1/2


Para começo de conversa, sempre conheci o protagonista de “Shazam!” (2019) como Capitão Marvel. Assim, já começa como uma estranheza o próprio nome do filme. E um certo descompasso criativo é o que marca a produção dirigida por David Sandberg. Em boa parte de sua narrativa, predomina o tom de uma síntese entre aventura e comédia a exaltar valores juvenis e familiares, mas por vezes são inseridos alguns elementos temáticos e gráficos bastante sombrios, principalmente em sequências fortes de mutilação e morte e na caracterização visual dos monstros/pecados. A obra até procura em alguns momentos uma densidade dramática, flertando com o pesado assunto do abandono infantil, atenuada, entretanto, pelo caráter pueril de várias sequências do filme. As diversas cenas de ação e as inúmeras trucagens digitais são competentes e espalhafatosas, mas nada especialmente diferente ou memorável. Ou seja, no geral, “Shazam!” é uma produção rotineira e esquecível. Contudo, diante da ruindade absoluta de outros filmes originários do universo dos quadrinhos da DC como “Esquadrão Suicida” (2016) e “Aquaman” (2018), acaba ganhando algum destaque artístico justamente por não pisar na bola de forma tão clamorosa.

segunda-feira, abril 08, 2019

Duas rainhas, de Josie Rourke **


O episódio histórico do embate entre Mary Stuart e Elizabeth I pelo trono da Inglaterra foi levado várias vezes para o cinema. “Duas rainhas” (2018), a mais recente versão cinematográfica, tem um certo diferencial – sua grande referência estética-temática é “Maria Antonieta” (2006), produção em que Sofia Coppola fez uma releitura modernizada da vida da célebre rainha e por tabela de fatos importantes da Revolução Francesa. No filme dirigido por Josie Rourke, estão alguns preceitos narrativos e formais que lembram bastante o mencionado trabalho da Coppola filha: direção de arte e figurinos que mais remetem a uma estilização do que a reconstituição fiel, encenação vinculada ao naturalismo, roteiro que incorpora uma visão mais contemporânea e crítica dos fatos históricos. Nesse último aspecto, vale ressaltar que “Duas rainhas” enfoca aspectos como a opressão do poder patriarcal, a manipulação religiosa, o machismo covarde e mesmo outros preconceitos morais (como a homofobia), o que não deixa de ser uma ousadia existencial nesses tempos de avanço da agenda neo-reacionária mundo afora. As boas intenções de seu subtexto e as pretensões artísticas da obra, entretanto, acabam se mostrando insuficientes diante da mãe pesada de Rourke na condução da narrativa. Os excessos de uma atmosfera algo solene jogam por diversas vezes o filme na vala comum do enfadonho e previsível, o que faz de “Duas rainhas” uma produção rotineira dentro do gênero filme de época.

sexta-feira, abril 05, 2019

O lagosta, de Yorgos Lanthimos ***


Na maioria do que se escreve e comenta em relação a “O lagosta” (2015) há uma variedade de opiniões que varia a qualificação do filme entre a excentricidade indie e o genial. Na realidade, a produção dirigida por Yorgos Lanthimos não chega a tais extremos e está mais vinculada a uma linhagem já tradicional da ficção científica, algo como uma variação das narrativas distópicas típicas de Phillip K. Dick e das atmosferas esquizoides de alguns dos melhores trabalhos de Terry Gillian. A obra de Lanthimos está bem longe da excelência artística dessas referências mencionadas, mas ainda assim tem os seus momentos inquietantes, principalmente na forma com que cruza uma tensão dramática perturbadora, nuances cômicas e uma encenação marcada pelo ascetismo/rigor estético. Por vezes o roteiro peca por algumas concepções simplórias na forma em que seu subtexto contrapõe um status quo asséptico e opressor e a uma resistência de rebeldes marcada pela incoerência e radicalismo. Ainda assim, é uma obra capaz de colar algumas de suas sequências em nosso imaginário.