sexta-feira, novembro 29, 2013

Lost in La Mancha, de Keith Fulton e Louis Pepe ***1/2


Raras obras foram tão reveladoras dos bastidores da indústria cinematográfica quanto “Lost in La Mancha” (2012). E também da própria paixão pelo cinema. A intenção dos diretores Keith Fulton e Louis Pepe era fazer o registro das filmagens da versão para as telas do clássico literário “Dom Quixote” pela ótica muito particular do cineasta Terry Gillian. Acabaram, entretanto, documentando as etapas que levaram a produção em questão ao fracasso de não se realizar. Apesar do conteúdo melancólico de sua história, “Lost in La Mancha” empolga pela dimensão épica e trágica do calvário de Gillian para colocar em ação aquilo que habitava o seu imaginário. Por vezes, pode-se ver o que o filme poderia ter sido caso tivesse se efetivado, principalmente nas seqüências em que Gillian utiliza alguns nativos da região onde filma como gigantes. E isso acentua ainda mais a frustração tanto do diretor quanto dos apreciadores de cinema. Os empecilhos que surgem são de natureza diversa: uma tempestade que destrói um set de filmagens, atrasos na chegada de membros do elenco, falta de dinheiro, logística que se mostra insuficiente, o ator principal que acaba ficando doente gravemente. Aqueles que acham que fazer um filme se limita a inspiração e questões artísticas terão uma dura desilusão, pois “Lost in la mancha” evidencia que questões administrativas se mostram tão vitais para uma obra cinematográfica quanto a criatividade de um diretor.

quinta-feira, novembro 28, 2013

O planeta dos vampiros, de Mario Bava ***


É inegável que “O planeta dos vampiros” (1965) pareça bastante datado para os dias de hoje. É uma obra que transita entre o horror e a ficção científica, mas que se mostra incapaz de gerar tensão ou medo para as platéias contemporâneas, ao contrário de outros trabalhos do diretor italiano que até hoje mantém o poder perturbador e inquietante como “Kill, Baby, Kill” (1966) e “Lisa e o demônio” (1973). O que mantém o interesse de “O planeta dos vampiros” é a sua construção visual. A partir de recursos típicos de filmes B, a produção é marcante pelas atmosferas góticas e pela fotografia de tons pictóricos, que geram um estranho encanto estético, e que faz até pensar se Ridley Scott não utilizou a obra em questão como referência formal na concepção do extraordinário “Prometheus” (2012).

quarta-feira, novembro 27, 2013

Gravidade, de Alfonso Cuarón ***1/2


Boa parte dos comentários que foram feitos em relação à “Gravidade” (2013) faz supor que o filme representa para a ficção científica deste século o que “2011 – Uma odisséia no espaço” (1968) representou para o gênero no século passado. É claro que se trata de um grande exagero. As propostas de tais produções são bem diferentes entre si. A referida obra dirigida por Stanley Kubrick era um drama espacial de cunho existencial e filosófico, enquanto o filme concebido pelo diretor mexicano Alfonso Cuarón se enquadra, em essência, entre a ficção científica e a aventura, com toques de melodrama. A propensão para o escapismo, entretanto, não constitui demérito para “Gravidade”. No campo sensorial, trata-se realmente de um trabalho de peso: a beleza gráfica da criativa direção de fotografia (que varia com elegância e ousadia entre movimentos “gravidade zero” e momentos de pura contemplação) e dos efeitos especiais parecem jogar o espectador no meio do espaço sideral, representando um novo estágio técnico e artístico para o gênero e mostrando que realismo e diversão podem conviver sem problemas. Por outro lado, a narrativa emperra em alguns momentos, pois a trama pedia uma abordagem mais naturalista e por vezes as coisas caem para um misto de intimismo lacrimoso e épico excessivo. Numa trama que se baseia em uma astronauta que se encontra à deriva no espaço, há diálogos e música demais. Faz imaginar que o estilo mais seco e objetivo de um Herzog seria mais adequado. Mesmo com essas ressalvas, “Gravidade” é uma obra memorável e que traz de bônus o indiscutível mérito de Cuarón em ter extraído uma interpretação bastante expressiva de Sandra Bullock.

terça-feira, novembro 26, 2013

O capital, de Costa-Gavras ***1/2


Os admiradores mais radicais do diretor grego Costa-Gavras podem considerar sua obra mais recente, “O capital” (2012), um tanto convencional. Na verdade, desde os anos 80 os filmes do cineasta passam por uma espécie de suavização. Isso, claro, se compararmos tais obras com aquelas produções clássicas setentistas que ele dirigiu como “Z”, “Estado de sítio” e “Sessão especial de justiça”, em que combinava temática política com um formalismo seco, beirando o estilo documental. Mas mesmo dentro de uma abordagem mais tradicional Costa-Gavras consegue se mostrar acima da média. “O capital” se formata como um thriller de suspense tendo como trama intrigas no mundo corporativo dos grandes bancos mundiais. O assunto do roteiro, assim, é bastante oportuno, afinal se relaciona com um dos grandes temas contemporâneos, a crise econômica mundial que predomina desde 2080 até os dias de hoje. Não há a pretensão de se fazer explicações sobre as causas de tal crise, com a história tendo mais uma função simbólica sobre os valores e interesses de uma sociedade marcada pela ganância e ascensão econômica. Costa-Gavras trabalha com boa parte dos clichês do gênero thriller, com direito a viradas inesperadas na trama (que na realidade nem são tão surpreendentes assim), trabalhando tais obviedades, entretanto, com ironia e precisão estética. Assim, mesmo dentro de uma confortável maturidade artística, o cineasta mostra que ainda tem lenha para queimar.

segunda-feira, novembro 25, 2013

Por que você partiu?, de Eric Belhassen **1/2


A proposta artística do documentário “Por que você partiu?” (2012) é interessante e tem algo de original – a trama trata das trajetórias pessoais e profissionais de sete chefs de cozinha franceses que se estabeleceram no Brasil, servindo tanto quanto um panorama social sobre a atividade de profissional culinário estrangeiro num país como o nosso quanto o retrato intimista desses seres “exilados”. A partir disso, o próprio diretor Eric Belhassen, um francês radicado em terras brasileiras, faz uma espécie de acerto de contas sentimental com a família e o passado para tentar entender o motivo pelo qual deixou o seu país e se estabeleceu por aqui. O tratamento formal da produção não tem muita criatividade formal, estando distante do interesse que a originalidade de sua temática desperta, mas o documentário não deixa de ser uma obra curiosa e com alguns momentos memoráveis. As figuras dos cozinheiros são marcantes e cada um deles apresenta peculiaridades comportamentais e históricos pessoais diferenciados, o que ajuda a compor um mosaico amplo. E por mais que a função do cinema não seja a de ser meramente informativo, não deixa de ser uma qualidade do filme o seu caráter didático no sentido de mostrar como funciona pelo menos parte dos mecanismos de ascensão da alta culinária no Brasil.

sexta-feira, novembro 22, 2013

Rebobine isso!, de Josh Joshson **1/2


A temática de “Rebobine isso!” (2013) é bastante curiosa: a trajetória histórica do VHS. Em meio a tantas notícias atuais envolvendo novas tecnologias para ver filme, tal assunto, em um primeiro momento, pode beirar o anacronismo. Isso sem contar que em termos formais o documentário em questão deixa a desejar: não há praticamente ousadias estéticas e por vezes a produção se perde como narrativa, enfatizando longos depoimentos de alguns entrevistados que beiram o desinteressante. A obra, entretanto, acaba gerando empatia por alguns detalhes bastante particulares. Primeiramente por uma questão nostálgica: vários cinéfilos na faixa dos 30 a 40 anos (inclusive este que vos escreve) desenvolveram o seu gosto por filmes através de várias sessões com fitas VSH na sua juventude. Tal formato também se vinculou a determinados gêneros de filmes, como produções baratas e/ou obscuras de ficção científica, horror, fantasia, ação e até artes marciais. Assim, é inegável que uma certa aura de magia envolva as recordações sobre o período em que as fitas estiveram no auge de uso e popularidade. Nesse sentido, “Rebobine isso!” consegue estabelecer um interessante painel de fãs e profissionais do cinema que tiveram uma ligação muito forte com o mercado dos VHS. Além disso, o documentário extrapola o mero interesse sentimental sobre o assunto, conseguindo contextualizar a importância da tecnologia junto à própria indústria do cinema da época, bem como estabelece a comparação entre a decadência e fim inexoráveis do VHS com os atuais preceitos comerciais e administrativos da referida indústria. No final das contas, ao falar sobre um passado nem tão distante, “Robobine isso!” se torna bastante emblemático dos tempos atuais.

quinta-feira, novembro 21, 2013

É o fim, de Seth Rogen e Evan Goldberg ***1/2


Seth Rogen é um cara esperto. Com freqüência, ele é acusado de sempre interpretar o mesmo tipo de papel, e de que os seus roteiros têm um conteúdo auto-referencial e machista. E daí o que ele decide fazer em sua estréia como diretor? Ora, ele simplesmente trabalha em cima de uma trama em que ele e seus melhores amigos-atores interpretam a si mesmo, fazendo com que tudo aquilo do qual lhe acusavam como defeito seja encarado como legítima matéria-prima para o seu filme. O resultado, entretanto, está longe do mero exercício de narcisismo. “É o fim” (2013) é uma explosiva mistura de metalinguagem e tiração de sarro. Em meio a um pastiche de roteiro de temática apocalíptica, Rogen, ao lado do codiretor Evan Goldberg, ironiza de forma ácida o meio artístico em que vive, pleno de hedonismo, megalomania e vazio existencial, mas fazendo questão de deixar claro que também brinca com o imaginário da platéia (afinal, quem nunca quis ter a vida de astro de Hollywood?). A caracterização do elenco que interpreta a si mesmo é caricatural, exagerada: Rogen e sua turma trabalham mais com a idéia a qual o público e imprensa fazem deles como pessoa do que com algum conceito da realidade de como eles são efetivamente em suas vidas particulares. Nessa onda, as citações e referências a outros filmes que eles tenham participado podem soar nerd ou geek, mas na realidade também dão à obra uma espécie de aura de crônica comportamental a refletir uma época específica. Além disso, Rogen e Goldberg encontram soluções formais inquietantes, em que o tom de filmagem caseira bem feita de algumas sequências se mostre em sintonia admirável com a ambientação de horror apocalípticos de outras cenas. Todos esses aspectos estéticos e temáticos dão a “É o fim” um caráter delirante, mas sem que o filme perca a sua noção de comédia popular. Tanto que a conclusão do filme, com os Backstreet Boys caracterizados como anjos e promovendo um tremendo baile no paraíso, reflete com precisão essa natureza híbrida, esquisita e divertida da obra.

quarta-feira, novembro 20, 2013

Mato sem cachorro, de Pedro Amorim **1/2

Enquadrado no gênero das comédias românticas, “Mato sem cachorro” (2013) por vezes envereda pelos equívocos comuns de tal tipo de filme. Por outro lado, é inegável que a produção traz uma tensão criativa ausente na grande maioria das obras cômicas brasileiras que tem aparecido nos cinemas, principalmente naquelas oriundas da Globo Filmes (por sinal, o filme em questão também tem essa origem). No meio dos quiproquós habituais, dá para sentir um olhar um pouco mais agudo sobre os relacionamentos amorosos. Os motivos que levam o casal Zoé (Leandra Leal) e Deco (Bruno Gagliasso) a se separar são bem humanos e pertinentes aos nossos tempos. Afinal, fala-se muito em comodismo, no desgaste natural do tempo, o que faz com que a obra ganhe uma empatia maior. Além disso, em algumas cenas, o diretor Pedro Amorim consegue integrar essa temática mais crua com a formatação cômica com alguma naturalidade. Também colabora o elenco: Gagliasso e Gabriela Duarte fogem daqueles registros insossos habituais da televisão e oferecem certa visceralidade em seus papéis, enquanto Leandra Leal mostra que é capaz de dar consistência e encanto para qualquer papel – sua presença cênica é simplesmente magnética.

terça-feira, novembro 19, 2013

A bela que dorme, de Marco Bellochio ***1/2


Depois do barroquismo arrojado de “Vincere” (2009) e da simplicidade tocante de “Irmãs jamais” (2010), o diretor italiano Marco Bellochio enveredou por caminhos mais tradicionais em “A bela que dorme” (2010). Dentro desse aparente convencionalismo, o cineasta engedra uma narrativa sóbria e elegante, que por vezes até resvala num tom de melodrama, e acaba criando um panorama bastante crítico da atual sociedade italiana. A eutanásia é o mote central da trama e a partir de tal assunto o filme se equilibra entre o intimismo e questionamentos sociais e políticos, sem soar necessariamente panfletário. Para Bellochio não interessa agitar uma bandeira, mas sim enfocar as contradições e dilemas de um país dividido por crenças religiosas e jogadas políticas. Se o filme não traz as ousadias formais de outras obras do diretor, por outro lado se torna memorável pela serena contundência de sua abordagem.

segunda-feira, novembro 18, 2013

O verão do Skylab, de Julie Delpy ****


As relações que se estabelecem entre “O verão do Skylab” (2011) com outras produções que estrearam em Porto Alegre em 2013 tanto podem parecer coincidências como também podem sugerir conseqüências naturais. No primeiro caso, não há como não lembrar do extraordinário “Depois de maio” (2012), que fazia um retrato poético e amargo dos primeiros anos após o conturbado maio de 1968 na França, enquanto o filme de Julie Delpy focaliza um dia na virada entre 1979 e 1980 e mostra ainda, através do microcosmo de uma reunião familiar, uma sociedade dividida entre aqueles impregnados por um ideário libertário e outros bastante críticos e conservadores sobre tais ideais. Já “Antes da meia-noite” (2013) mostrou muito da capacidade autoral de Julie Delpy, que além de atuar também colaborou de forma decisiva no roteiro. Tais referências enriquecem ainda mais a apreciação de “O verão do Skylab”, mas tal obra pode ser apreciada perfeitamente prescindindo de tais comparações. Trata-se de uma produção de admirável maturidade em sua concepção. Delpy se vale de uma premissa já utilizada várias vezes (a reunião familiar que oscila entre a diversão, a nostalgia e a ironia) e ainda assim entrega um filme vigoroso e arejado. O filme é divertido ao extremo mostrando as brincadeiras, piadas e brigas típicas nesse tipo de reunião, assim como traz a dose de certa de melancolia ao focalizar as ilusões perdidas de alguns personagens. E nesse conjunto de um drama familiar, apresenta com sutileza um subtexto de forte conteúdo político e social ao radiografar os valores e contradições da sociedade francesa. E é claro que não daria para esquecer o fenomenal trabalho de direção de elenco, com um destaque especial para a ala infanto-juvenil – Delpy se coloca com honras numa tradição do cinema francês de cineasta que retratam com doçura e contundência o universo de crianças e adolescente, vide obras como “Zero de comportamento” (1933), “Os incompreendidos” (1959) e “Ponette” (1996).

quinta-feira, novembro 14, 2013

Uma viagem com Martin Scorsese pelo cinema americano, de Martin Scorsese e Michael Henry Wilson ****

É claro que para muitos (inclusive esse que vos escreve) “Uma viagem com Martin Scorsese pelo cinema americano” (1995) cumpre uma espécie de função didática. Afinal, o documentário consegue ser bastante abrangente e aprofundado sobre a fascinante temática que aborda. Além disso, Scorsese e o co-diretor Michael Henry Wilson conseguem dar uma dinâmica diferenciada para a produção em termos de roteiro e edição. Colabora também a paixão e o conhecimento de causa que o genial cineasta norte-americano coloca em cada palavra nos seus depoimentos. Mas ainda mais interessante do que encarar o documentário como uma aula sobre a história do cinema norte-americano e ver como se ele se relaciona com a própria filmografia de Scorsese e a sua história pessoal. É como se em cada um dos filmes que ali são analisados pudéssemos ver fragmentos das inspirações e obsessões temáticas e formais que posteriormente compuseram alguns clássicos do cinema como “Caminhos perigosos” (1973), “O touro indomável” (1980), “A época da inocência” (1993) e “Os infiltrados” (2006). No final das contas, não deixa de ser uma viagem pela mente criativa de um dos maiores criadores da cinematografia contemporânea.

quarta-feira, novembro 13, 2013

Tá chovendo hamburguer 2, de Cody Cameron e Kris Pearn **1/2

Pode ser que para alguns o mote de “Ta chovendo hambúrguer 2” (2013), assim como na primeira parte, possa parecer um tanto cretino. Mas pense nessa premissa: numa ilha, alimentos ganham vida, tanto podendo ser novos tipos de vegetais quanto os mais esquisitos animais. Dependendo das cabeças criativas envolvidas, daria para criar um verdadeiro épico surrealista, algo na linha da versão genial da Disney para “Alice no país das maravilhas” (1951). O problema é que não era exatamente isso que os diretores Cody Cameron e Kris Pean pensaram para a animação em questão... A produção até encanta eventualmente pela sua beleza gráfica, por uma certa estilização que foge por vezes dos padrões habituais contemporâneos do gênero. Mas o que predomina é um convencionalismo incômodo. Por mais que as boas ideias apareçam aqui e ali, tudo acaba tendo se formatar para os limites restritivos típicos de uma obra infanto-juvenil vinda de um grande estúdio. E se até a outrora criativa Pixar vem padecendo de tais limitações, o que dirão os outros estúdios – claro que há as honrosas exceções, como demonstra o extraordinário “Detona Ralph” (2012).

terça-feira, novembro 12, 2013

Eu, Anna, de Barnaby Southcombe ***

Em termos de roteiro e narrativa, dá para dizer que o diretor Barnaby Southcombe navega em mares tranquilos e previsíveis em “Eu, Anna” (2011). É evidente também, entretanto, que faz isso com considerável elegância. Um dos pontos fortes do filme está na construção de atmosfera – por mais que se saiba que o mistério que envolve a figura da protagonista nem seja tão surpreendente assim, a tensão climática que envolve a trama chega a ser perturbadora na sua combinação de sensualidade, sordidez, culpa e expiação. Southcombe sabe alternar suspense sóbrio com momentos de violência gráfica impactante. O outro trunfo da produção está no seu par de atores principais, Charlotte Rampling e Gabriel Byrne, que com atuações calculadamente contidas se mostram em perfeita sintonia com a natural sutileza da obra.

quinta-feira, novembro 07, 2013

Cinemania, de Angela Christlieb e Stephen Kijak ****

O título desse documentário, sua sinopse e mesmo os primeiros momentos do filme podem fazer supor que se verá uma espécie de declaração de amor ao cinema, ou quem sabe haverá discussões e comentários interessantes sobre clássicas produções ou pérolas obscuras. Pois bem, “Cinemania” (2002) até tem um pouco disso tudo, mas na essência é algo como uma sombria e irônica crônica sobre desajustados e perturbados. Como o documentário se passa em Nova Iorque, dá para dizer que se trata do outro lado do american way of life. Em algumas oportunidades os cinéfilos focados são bem articulados em suas considerações, em outras nem tanto, mas o que fica em evidência na maioria das cenas é uma relação compulsiva com o ato de ver filmes. Quando eles falam sobre isso, pode-se perceber que raramente há uma efetiva reflexão sobre o que assistem nas telas, com os cinéfilos apenas enumerando produções, contando causos excêntricos sobre suas relações obsessivas com cinema. O que predomina no documentário são criaturas solitárias, tristes, por vezes engraçadas, em outras até assustadoras. E os diretores Angela Christlieb e Stephen Kijak não se limitam a apenas colher depoimentos reveladores – eles têm senso cinematográfico notável nos registros ambientais que fazem, tanto das residências sujas e repletas de quinquilharias dos seus protagonistas como deles se movendo em seu “habitat natural” (no caso, salas de cinema). 

quarta-feira, novembro 06, 2013

CQ, de Roman Coppola ***

Tanto atuando roteirista como cineasta, Roman Coppola pauta sua carreira cinematográfica pela ironia, por um certo distanciamento emocional e pelo culto a estilização formal. “CQ” (2001) é um exemplar bem acabado dessas suas obsessões artísticas. Tendo por trama as desventuras de um norte-americano que vive na mítica Paris de 1969 e pretende ser um cineasta autoral reconhecido, Roman encontra o pretexto ideal para homenagear algumas de suas fontes inspiradoras: o existencialismo, a estética pop art de “Barbarella”, a Nouvelle Vague. Enfim, um culto tanto a ver filmes como a fazer filmes. Às vezes pode parecer meio superficial e sem densidade dramática, mas é inegável que em outras oportunidades essa viagem nostálgica de Roman gera sequências de forte encanto visual. 

terça-feira, novembro 05, 2013

Vivendo no abandono, de Tom DiCillo ***

Na história do cinema, há filmes que por seus méritos artísticos não chamam tanto a atenção, mas que com o tempo acabam ganhando um status diferente por serem emblemáticos de uma época. “Vivendo no abandono” (1995) é um bom exemplo desse tipo de produção, pois acaba sendo um retrato bastante fiel de uma época muito fervilhante para o cinema independente norte-americano (no presente caso, a década de 90). Tanto que a trama ficcional da obra versa justamente sobre a conturbada realização de um filme de baixo orçamento. O roteiro traz até citações e referências a nomes expressivos da cinematografia dos EUA na época, indo de piadas sobre Quentin Tarantino e chegando numa formatação narrativa que evoca algo do surrealismo particular de David Lynch (aliás, tem até uma tiração de sarro explícita com a célebre sequência de sonho com um anão de “Twin Peaks”). Isso sem contar que encabeça o elenco um ator que foi chave para esse tipo de cinema praticado na época, o excelente Steve Buscemi. Cabe ressaltar, entretanto, que “Vivendo no abandono” não se limita apenas a citações e piadinhas. O diretor Tom DiCillo consegue dar unidade para esse mar de referências, tendo como resultado final uma obra que se mostra uma sardônica e singular declaração de amor às agruras e delícias de se fazer um filme.

segunda-feira, novembro 04, 2013

R.I.P.D. - Agentes do além, de Robert Schwentke *1/2

É claro que não dá para condenar um filme simplesmente por ele ser genérico. Há várias obras que abusam dos clichês e mesmo assim impactam positivamente pela competência e vigor da sua realização. Bem, esse não é o caso de “R.I.P.D. – Agentes do além” (2013). O filme é uma colcha de retalho mal-costurada de lugares comuns e chupações descaradas. Dá para dizer que basicamente se trata de uma mistura indigesta entre “Homens de preto” (1997) e “Ghost – Do outro lado da vida” (1990). Mas o negócio não vinga não por uma falta de originalidade, mas sim pela flagrante incapacidade do diretor Robert Schwentke em criar uma narrativa envolvente ou pelo menos algumas sequências de efetiva tensão, predominando uma encenação desprovida de qualquer vigor. O filme tem alguns efeitos especiais interessantes, além de contar no elenco com os carismáticos Jeff Bridges e Kevin Bacon (apesar do espectador se indagar de forma constante por que eles se meteram nessa presepada), mas é muito pouco para compensar os vários equívocos que apresenta. Pelo menos, serve para confirmar que Schwentke é um cineasta que não tem salvação mesmo – afinal, é o mesmo cara que concebeu outros abacaxis como “Plano de vôo” (2004) e “Red – Aposentados e perigosos” (2013).

sexta-feira, novembro 01, 2013

Aconteceu em Saint-Tropez, de Danièle Thompson ***

Na superfície, “Aconteceu em Saint-Tropez” (2012) se formata e desenvolve como uma comédia romântica repleta daqueles clichês recorrentes: mal-entendidos, coincidências, paixões fulminantes, algumas lições de moral. O trunfo do filme, entretanto, está em pegar essas bobices e frivolidades e dar-lhes uma verve bastante sarcástica e espirituosa. A encenação proposta pela diretora Daniele Thompson combina leveza e uma pegada cerebral de forma equilibrada. Assim, a trama se permite, por vezes, um tom sombrio e até mórbido sem que pareça que a produção entre em descompasso. Fundamental para que Thompson mantenha esse frágil e tênue equilíbrio cômico-dramático é o desempenho de seu elenco, que sabe variar de forma admirável entre o tom caricatural e uma certa densidade dramática.