sexta-feira, março 12, 2021

Jojo Rabbit, de Taika Waititi ***


O diretor neozelandês Taika Waititi vinha em uma ascendente interessante. Depois do divertido e promissor “O que fazemos nas sombras” (2014), ele foi responsável por umas das obras mais personalíssima e engraçada dos Estúdios Marvel, o ótimo “Thor: Ragnarok” (2017). Assim, as expectativas para “Jojo Rabbit” (2019) eram consideráveis. Os 15 minutos iniciais do filme, basicamente a parte em que o protagonista fica no acampamento para crianças nazistas, são antológicos e honram as boas promessas geradas em torno de Waititi. São de um humor alucinado, ácido, com uma encenação tão pirada que até faz lembrar o Monty Pyton. Depois, a magia se desfaz e a impressão que fica é que Waititi se adequa a alguns preceitos acadêmicos óbvios de filmes de 2ª Guerra para sugerir uma respeitabilidade artística. Não chega a ser exatamente ruim, só é dolorosamente óbvio e previsível, uma espécie de variante mais engraçadinha de “A vida é bela” (1997). Nem mesmo a boa sacada imagética/textual de um Hitler como amigo imaginário consegue se sustentar de maneira convincente. Pelo menos a conclusão poética de “Jojo Rabbit” tira um pouco a obra da vala comum e mostra que Waititi não é um talento totalmente domesticado.

terça-feira, março 09, 2021

1917, de Sam Mendes **

 


O gênero dos filmes de guerra não é estranho para o diretor britânico Sam Mendes. Ele dirigiu “Soldado anônimo” (2005), sardônica obra a refletir sobre o desigual conflito no Golfo Pérsico entre Estados Unidos e Iraque. A irônica e desapaixonada narrativa evidenciava uma ácida reflexão sobre o vazio ético daquela guerra, retirando qualquer carga patriótica ou ufanista de sua abordagem. Assim, causa estranheza que Mendes tenha entregue um trabalho tão asséptico e convencional em “1917” (2019), que narra episódios baseados em fatos reais que se sucederam no front europeu na I Guerra Mundial. A princípio, o filme sugere uma certa ousadia formal ao sugerir que toda a trama será concentrada em uma encenação sem cortes. Tal recurso narrativo, entretanto, pouco acrescenta ao filme em termos sensoriais, dando até por vezes a impressão que se está assistindo a alguém jogando um game de guerra. Essa impressão é acentuada pelo próprio roteiro do filme, em que fatos se sucedem de maneira esquemática e apelativa. Falta profundidade psicológica e efetiva densidade dramática para as ações da trama e seus personagens – tudo se desenvolve quase mecanicamente a reproduzir de maneira algo preguiçosa os clichês de heroísmo e sacrifício do gênero. O mofado resultado final de “1917” mais evidencia uma obra protocolar para marcar os 100 anos do final do conflito do que uma pretensão de se entregar um filme realmente memorável.

sexta-feira, março 05, 2021

O farol, de Robert Eggers ***1/2

 


Depois da obra-prima “A bruxa” (2016), o diretor norte-americano Robert Eggers volta a investir no horror calcado em fortes simbologias em “O farol” (2019). Se o resultado final não é tão expressivo quanto a obra anterior, é de se convir que ainda assim o filme em questão tem momentos memoráveis. O cineasta abdica de facilidades narrativas e investe em um formalismo de notável rigor estético e em uma encenação que funde sem cerimônias o naturalismo e o delirante, às vezes resvalando até em uma concepção teatral desconcertante (nesse sentido, a interpretação possessa de William Dafoe é um enfático indicativo). A tenebrosa fotografia em preto e branco, o grafismo brutal de algumas sequências e a soturna ambientação da obra claramente sugerem o uso de alguns preceitos básicos do gênero horror, mas com o desenvolver da trama tais quesitos se distorcem a favor de um intrincado jogo cênico e textual em que os limites da realidade e da fantasia se mostram cada vez mais tênues, jogando o filme em uma bizarra e perturbadora área artística-existencial que evoca tanto uma jornada devastadora sobre a natureza humana quanto um conto a expor de maneira visceral o atávico conflito entre o homem e a natureza.

quinta-feira, novembro 19, 2020

LOLA LIVRE!

 




Como já escrevi em alguns textos anteriores neste blog, não tenho o costume de falar de coisas pessoais neste espaço. Tendo em vista, entretanto, que fiquei bastante tempo sem escrever por aqui, achei que era oportuno eu dar algumas explicações do que ocorreu na minha vida nos últimos meses.

Não sou aquilo que se pode chamar de um escritor “profissional”, no sentido de ser alguém que vive da escrita. Também não gosto de dizer que se trata de “hobby” porque sinto uma grande necessidade em determinados momentos de me expressar escrevendo as minhas impressões. Acredito ainda que o simples gosto pela escrita ou mesmo uma certa facilidade para elaborar textos não implica necessariamente em uma grande facilidade no ato de escrever. Isso porque quem tem o costume de publicar aquilo que escreve na maioria das vezes procurará ter o cuidado em ter um encadeamento lógico de ideias, um certo cuidado formal, até mesmo oferecer alguma relevância para aquilo que está produzindo. Assim, em boa parte dos anos em que escrevi para esse blog procurei estabelecer uma certa autodisciplina ao elaborar meus textos, no sentido de que boa parte daquilo que a que assistisse nos cinemas ou em outras mídias (canal a cabo, DVD) fosse comentado nesse espaço.

Bem, essa pequena digressão acima é para tentar justificar esse longo período sem escrever, pois a tal autodisciplina que mencionei também exige um certo tempo livre no dia para que eu pudesse refletir e produzir os textos desse blog. Conforme já disse no início desse texto, não sou um escritor profissional. O que sou na verdade é um funcionário público que gosta muito de cinema (e outras formas de expressão cultural) e tem a necessidade de expor suas ideias sobre os filmes que vê. Assim, nas horas vagas da minha atividade profissional e de algumas outras obrigações pessoais sempre procurei estabelecer esse hábito da escrita e publicação virtual. Dessa forma, o item tempo sempre foi essencial para a existência desse blog, assim, é claro, como uma relativa calma existencial (ou simplesmente cabeça fria) para poder exercer alguma reflexão e botar as ideias na página em branco do word. Ah, e tempo também para poder ver os filmes...

Ocorre que a partir de agosto de 2019 a minha vida pessoal entrou em um grande turbilhão emocional, em que tempo se tornou algo escasso e várias preocupações tomaram a minha mente. Nessa época, minha esposa Mariana, que se encontrava grávida, foi internada com um quadro grave de pré-eclâmpsia. Para aqueles que não conhecem essa doença (confesso que tomei conhecimento dela quando a Mariana foi internada), em língua de leigo seria basicamente um mal que acomete as grávidas fazendo com que a pressão delas fique constantemente alta e a placenta fica seriamente prejudicada e passa pouca alimentação para o bebê. Ou seja, a gravidez se torna de risco. A grande batalha em situações como essa é tentar prolongar ao máximo o período de gestação da criança que certamente nascerá prematura. Quando internada, minha esposa estava com 24 semanas de gestação, o que fazia com que o parto naquele momento se tornasse muito arriscado e com altas chances de óbito da nossa bebê. No início, a Mariana estava internada no hospital Divina Providência, mas devido à complexidade de sua situação foi transferida para o hospital São Lucas, da PUC, cujo setor materno-infantil era referência-modelo no nosso Estado. Conseguimos segurar por mais duas semanas a gravidez dela, e com 26 semanas e 6 dias de gestação, pesando 484 gramas, a nossa filha, a Lola, nasceu. Devido ao trabalho de alta qualificação e incansável de profissionais da UTI neonatal do Hospital São Lucas, onde ficou internada por quase 7 meses, e sem esquecer também das importantes ações prévias do setor de obstetrícia dessa mesma instituição hospitalar, a Lola não apenas sobreviveu como apresentou uma progressiva e impressionante melhora em sua qualidade de vida. Seria muito cômodo vir aqui e dizer que tudo isso se tratou de um milagre divino, mas o que realmente presenciamos foi o fruto da competência, estudo e dedicação de todos essas pessoas (médicas e médicos, técnicas e técnicos, enfermeiras). Cada medida adotada por esses profissionais vinha com tanto embasamento técnico-científico, entusiasmo e carinho que acabamos adquirindo com o tempo mais segurança e esperança de que tudo daria certo.

Nesse ponto do meu relato, quero destacar um aspecto muito importante, dentro de outros tantos, que aprendi nessa situação de pai de uma prematura extrema com quem diariamente ficava dentro de uma UTI neonatal por todo esse longo tempo de internação da Lola. A constante presença de pai e mãe junto ao bebê prematuro é fundamental para sua sobrevivência, recuperação e bem estar. Isso não é lição de auto ajuda ou algum misticismo. É ciência mesmo, comprovada pela experiência. A criança reconhece seus pais, sente-se estimulada pela presença deles. Na UTI, procurávamos dar todo o nosso carinho possível, acompanhávamos boa parte das ações médicas, até ajudávamos no que podíamos os profissionais que lá trabalhavam. Para que essa minha participação ativa fosse possível tive a boa ventura de ser funcionário público municipal de Porto Alegre, o que possibilitou que eu obtivesse e renovasse por mais de uma vez a minha LTF (licença para tratamento de familiar). Na UTI, presenciei várias situações em que os pais não podiam permanecer acompanhando seus bebês internados porque não dispunham da possibilidade de uma licença como essa, somente a licença paternidade de 20 dias. Ou seja, se a criança ficasse mais de 20 dias internadas, e eram vários os casos em que isso ocorria, a grande maioria dos pais não tinha a possibilidade de um acompanhamento mais constante de seus filhos. Uma LTF como a que eu tirei não é um privilégio (como a mídia oficial e boa parte da sociedade gosta de pregar), mas sim um direito social que todos os pais deviam ter. É uma medida humana, necessária, sadia. Para muitos o que estou dizendo pode soar anacrônico, afinal o Estado do Bem Estar Social vem sendo avacalhado sistematicamente por boa parte dos governantes no mundo e pela grande imprensa (principalmente a do Brasil). O que posso dizer é que um direito como esse foi duramente conquistado, exigiu muita luta e tempo para ser implementado e consolidado. Só que para tirá-lo basta uma maioria de direita em algum congresso ou assembleia, e assim ele vai para o espaço. Não se trata de mera pregação de uma teoria conspiratória. Na atual gestão do prefeito Marchezan, o plano de carreira dos servidores municipais foi sistematicamente destruído, fazendo com que vários cargos públicos necessários para suprir serviços essenciais para a sociedade se tornassem pouco atrativos para atrair bons profissionais nos concursos públicos, além de arrochar os salários daqueles que já trabalham na Administração Municipal. E os próximos passos declarados nessa marcha insensata e cruel de Marchezan seria atacar uma série de direitos sociais dos servidores, o que acabaria inclusive se refletindo na qualidade do serviço público prestado para a população. Com a derrota de Marchezan no primeiro turno estamos livres disso? É claro que não. Sebastião Melo é um político de direita que também acredita no Estado Mínimo, sendo que seu vice, Ricardo Gomes, foi um dos vereadores que comandaram a campanha de destruição do plano de carreira dos servidores públicos municipais de Porto Alegre, respaldando a política administrativa nefasta de Marchezan. Ou seja, essa coalização da chapa de Sebastião Mello apoiou as ações sociais, políticas, econômicas, administrativas e culturais de Marchezan por quase todo o seu mandato.

Voltando a falar do período em que a Lola ficou internada, gostaria de fazer um destaque especial a um profissional do setor Materno Infantil do Hospital São Lucas dentro desse extraordinário grupo de pessoas que salvou a vida da minha filha: o cirurgião-pediátrico João Cyrus Bastos. Ele realizou uma lobectomia em nossa filha quando ela tinha apenas duas semanas de vida e ainda com menos de 500 gramas de peso. Tal procedimento era a única coisa que podia ser feita para salvar a vida dela, pois ela estava com um enfisema em seu pequeno pulmão. Segundo comentários que ouvimos nos corredores, era uma operação arriscadíssima e não havia notícias que havia dado certo em um bebê tão diminuto quanto a Lola. O Dr. Cyrus não só realizou com extrema perícia tal cirurgia como também foi muito bem sucedido no resultado final – a Lola deixou de apresentar a situação de enfisema e a partir disso seu quadro clínico evoluiu de maneira bárbara. Meses depois, levamos a Lola para o Dr. Cyrus examiná-la em seu consultório e nessa oportunidade ele nos contou que nos anos 80 ele estava no Japão a estudos e lá presenciou uma cirurgia exatamente igual a que tinha feito em nossa filha, mas que cujo resultado tinha sido o óbito do bebê. Ele disse que naquele momento ele aprendeu o que não devia fazer naquela situação (não nos perguntem o que foi, pois somos leigos nesses assuntos...), e usou esse conhecimento justamente no caso da Lola. Ou seja, um ato que consistiu em puros empirismo e conhecimento.

Pois não é que o Dr. Cyrus, profissional brilhante e dedicado conforme descrevemos acima, foi sumariamente demitido pela atual direção do Hospital São Lucas no corrente ano? Seu grande ato faltoso foi simplesmente ter participado de uma manifestação no Parque da Redenção contrária à decisão por parte da referida direção para o fechamento de toda o setor materno infantil do hospital em questão, além de várias vezes ter manifestado sua inconformidade com tal decisão. Ou seja, simplesmente porque ele expressou de maneira livre a sua opinião sofreu essa represália arbitrária e cruel contra a sua pessoa. Deve-se ressaltar que a causa que o Dr. Cyrus defende é mais do que justa: além de afetar a vida de vários profissionais que ali trabalham, o fechamento de toda a ala pediátrica da Hospital São Lucas teve como principais vítimas as camadas mais pobres e necessitadas da população de Porto Alegre e do resto do Estado, tendo em vista que a maioria dos atendimentos que lá se efetivavam eram bancada pelo SUS. Em nome do lucro econômico de alguns poucos sócios e acionistas, milhares de mães e crianças ficaram simplesmente desassistidas, pois, afinal, que instituições conseguirão cobrir a falta daquele que é considerado como o centro de referência do Rio Grande do Sul no nascimento e atendimento de milhares de bebês? Ou seja, por agir como um cidadão consciente, em atitude de justa contestação que deveria ser seguida por todos aqueles que tivessem um mínimo de consciência social (coisa que a maioria dos brasileiros não tem), o Dr. Cyrus foi defenestrado de maneira vil e autoritária pela direção da instituição em que trabalhava. Como diria William Blake em “Provérbios do inferno”, digas a verdade e o homem torpe te evitará... Aliás, essa postura questionável na forma de encarar o contraditório por parte da direção do São Lucas já havia ficado evidente no mesmo dia em que as notícias sobre o fechamento da ala pediátrica se espalharam no hospital, quando ficou bastante ostensiva a presença de guardas pelos andares dos prédios, em clara atitude de intimidação em relação aos profissionais, estudantes de medicina da PUC e usuários dos serviços da instituição. Pelo jeito, a noção de diálogo democrático por parte dessa direção é bem distorcida.

A forma mesquinha e insensível com que a atual direção do Hospital São Lucas tem agiu, tanto pela decisão de fechar sua ala materno infantil como pela maneira draconiana que puniu o Dr. Cyrus, nos faz lembra o conceito formulado pela filósofa Hannah Arendt, a da banalidade do mal, em que ações desumanas e cruéis são efetivadas como se fossem meras medidas burocráticas e técnicas.

 

Não temos exatamente o conhecimento preciso da natureza ou regime jurídicos que constitui e rege uma instituição como o Hospital São Lucas da PUC. Sabemos com certeza, entretanto, que tem a participação do grupo religioso dos irmãos maristas, ligados à igreja católica, e que devido a isso a instituição acaba recebendo um tratamento de tributos diferenciado por se tratar de órgão filantrópico ou coisa parecida. Assim, nos perguntamos qual seria a opinião desses “homens de deus” sobre o desmonte de um centro de excelência no tratamento médico de bebês e crianças que atende um número amplo de pessoas atingidas por forte vulnerabilidade social e econômica e também sobre a forma com que são tratados aqueles que questionam a ética e moralidade de uma ação deletéria como essa da atual administração do Hospital São Lucas. Tais religiosos concordam que o lucro econômico da instituição vem em primeiro lugar em detrimento da saúde e bem-estar de milhares de bebês e crianças? Os irmãos maristas acham perfeitamente normal demitir sumariamente um profissional gabaritado e bem-quisto como o Dr. Cyrus simplesmente pelo fato dele discordar da decisão em questão da direção do hospital e manifestar de forma livre e expressa a sua opinião? Essa é a noção de humanismo por parte desses cristãos? A ação de solidariedade e fraternidade de tais religiosos se limitaria a rezar padre-nosso e ave maria na beira da cama de pacientes e ficar contando o quanto faturaram no mês ao invés de fazer algo que realmente colabore de forma efetiva para uma vida melhor das pessoas? Em caso de respostas positivas para tais perguntas, até não nos surpreenderia tanto, afinal tais religiosos podem estar saudosos da época da inquisição...

E também nos perguntamos: qual seria a opinião do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (SIMERS) sobre essa afrontosa demissão do Dr. Cyrus? O SIMERS considera normal um profissional da área que pretende defender ser tratado de forma tão desrespeitosa assim? E sobre o fechamento sumário do setor materno infantil? Ou está mais preocupada em caçar médicos cubanos comunistas que supostamente querem invadir o Brasil?

E eu me pergunto: se a gravidez e internação da minha esposa e o nascimento da Lola tivessem ocorrido alguns meses após, quando não existia mais o setor materno infantil do Hospital São Lucas? Minha filha conseguiria sobreviver? Em caso de óbito, eu deveria me consolar com o fato de que os donos da instituição estariam lucrando mais?

Sei que não vai ser essa demissão absurda que impedirá o Dr. Cyrus de continuar exercendo a sua profissão com os habituais talento e dedicação. A menção que faço nesse relato é apenas para reforçar a gratidão e admiração pela sua figura. Se o senhor já era um herói para nós por ser um dos principais responsáveis pela sobrevivência e bem-estar de nossa filhinha, ficou ainda em um patamar mais alto ao sabermos que teve a coragem de enfrentar de peito aberto esses tecnocratas arrivistas da atual direção do Hospital São Lucas. Por mais que o senhor tenha ficado incomodado com o seu desligamento da instituição em que trabalhou com afinco por tantos anos, temos certeza de que pode dormir com a consciência tranquila por ter agido como um grande humanista. Por mais que os membros da direção do São Lucas e seus asseclas maristas provavelmente devam ter recebido tapinhas nas costas de seus amigos e conhecidos de maçonaria, MBL, Opus Dei e afins por fecharem a ala pediátrica do hospital e tiranizar aqueles que se mostraram contrários a tal decisão, eles não terão a possibilidade de ficar com a consciência em paz como o senhor, Dr. Cyrus, pode desfrutar. A História os julgará por aquilo que eles realmente são e representam.

Pessoalmente, foi uma experiência dolorosa presenciar o desmantelamento do setor materno infantil do Hospital São Lucas. Quando chegamos lá, eu e a Mariana ficamos impressionados logo de cara com a estrutura profissional, material e humana de tudo aquilo. Com o tempo, principalmente depois do nascimento da Lola, ficou ainda mais evidente o grande grau de experiência científica e tecnológica disponível para os pacientes e aqueles que o acompanhavam, não só para os atendimentos particulares e de convênio como também para aqueles provenientes de SUS. Com absoluta certeza toda essa especialização diferenciada salvou a vida de um incontável número de crianças (o que foi justamente o caso da Lola). A partir de abril desse ano, quando foi anunciado de maneira brusca que daqui pouco meses toda aquela estrutura seria extinta do hospital, foi simplesmente melancólico ver tudo aquilo se desintegrando dia a dia. Dava na gente um nó na garganta ver o trabalho íntegro e diferenciado e os sonhos de todos aqueles profissionais se evaporando como se fosse nada, além de angústia por saber das várias famílias que ficariam desassistidas com o fim do materno infantil da instituição. A pergunta que mais me vinha à cabeça é como a sociedade porto-alegrense aceitou de forma tão branda essa perda inestimável para a área de saúde da cidade. Onde estavam as comunidades mais carentes da região que certamente seriam as mais prejudicadas por essa decisão desumana da direção do hospital? Ou daqueles supostos indignados de classe média alta que adoravam desfilar no Parcão em suas manifestações em 2015 e 2016?

Quando a Mariana foi internada, eu estava fora da cidade. Eu havia recebido um convite para trabalhar na edição do Festival de Gramado daquele ano (2019) participando do júri da crítica e representando a ACCIRS (Associação dos Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul). A internação da minha esposa se deu no antepenúltimo dia do festival, no final da tarde. Fiquei mais um dia para ver os restantes dos filmes das mostras e participar da reunião do júri para decidir os vencedores. Parti de volta para Porto Alegre no sábado de manhã, no dia da premiação. Assim, não presenciei os fatos lamentáveis de apedrejamento de profissionais do cinema por parte de “populares” no tapete vermelho na noite de premiação. Aliás, gostaria de agradecer à organização do festival por ter compreendido a minha situação e providenciado o meu transporte de volta à Porto Alegre antes do evento de encerramento.

Bem, como esse é um blog dedicado a filmes, acho oportuno fazer algumas considerações sobre o Festival de Gramado e a edição da qual participei. Devo confessar que antes dessa minha participação no evento em questão, eu nunca tinha ido acompanhar alguma edição do festival. Tinha uma certa preguiça em relação a como as coisas pareciam que funcionavam: a mostra não exibia tantos filmes, mais se falavam das celebridades globais que apareciam por lá do que propriamente das obras cinematográficas que eram exibidas, mais parecia um evento de turismo do que propriamente um festival de cinema. E acho Gramado uma cidade careira, elitista e jeca. O engraçado é que sempre que alguém me perguntava se eu não tinha vontade em ir ao festival, eu dizia que só iria se me convidassem para trabalhar em um júri e pagassem condução, hospedagem e transporte. Falava isso meio brincando, até. E não é que veio o convite dentro de tais condições? Fiquei muito honrado com o convite feito pelo ACCIRS, principalmente como reconhecimento por atividades que exerci ao longo dos anos como programador do Clube de Cinema de Porto Alegre, curador e jurado do FANTASPOA e, principalmente, por todo esse tempo em que escrevi nesse blog, além dos textos que produzi para outros veículos (com destaque para o Zinematógrafo, publicação do qual muito me orgulho de participar). Em tais circunstâncias, fiquei animado em participar do festival.

Houve alguns momentos efetivamente antológicos na edição de 2019 de Gramado, principalmente a noite de abertura com a exibição hors concours de “Bacurau” – foi arrepiante presenciar a recepção sanguínea que o filme teve do público e a ovação final ao seu encerramento. Outro ponto positivo foi o convívio com os meus colegas de júri da crítica, todas pessoas muito gentis, inteligentes, agradáveis. Todo o processo de conversas sobre as obras das mostras para chegar ao resultado final dos melhores foi deveras estimulante pela troca de ideias e experiências. Ah, várias das sessões de debates dos filmes foram realmente memoráveis (com destaque óbvio para entrevista catártica com a equipe de “Bacurau”). Achei o quarto de hotel que me foi oferecido bem confortável, os restaurantes nos quais eu podia utilizar os vouchers que me foram dados eram de qualidade e o deslocamento na cidade estava facilitado. Com tudo isso, quer dizer que dobrei minha língua em relação ao festival? Infelizmente, não. O gosto que me sobrou na conclusão do evento foi amargo. O grande aspecto negativo que me levou a tal percepção é a forma com que fui tratado como jurado durante as sessões dos filmes. Apesar de estar sempre com a credencial de jurado em meu pescoço na maioria das oportunidades as pessoas que trabalhavam na entrada da sala de exibição criavam algum entrave estressante: perguntavam quem eu era (apesar de eu ter uma credencial bem grande no pescoço), diziam que a sala estava lotada (quando na realidade tinham pouquíssimas pessoas ainda lá dentro), simplesmente diziam que eu não podia entrar. E mesmo quando eu já estava acomodado na poltrona que me era reservada como jurado não foram poucas as vezes que esse pessoal chegava e me passavam mais para trás porque eles tinham que colocar no meu acento alguma subcelebridade, algum capitalista patrocinador ou alguma “autoridade” local (que quase sempre ia embora assim que o filme começava). Teve um episódio que me causou especial irritação, na sessão do filme “Hebe”, em que colocaram bem ao meu lado uma youtubber de quem eu nunca tinha ouvido falar (e espero nunca mais ver) e toda a sua equipe de produção e esse pessoal simplesmente não calou a boca durante todo o filme. Depois em conversas com jornalistas, críticos e outros membros de júris me disseram que isso não era um tratamento exclusivo para a minha pessoa – o pessoal que cuida da entrada no cinema trata mal mesmo todo membro de júri que não seja uma celebridade. Dizem que isso é uma tradição do Festival de Gramado, que todo o país tem essa referência não muito lisonjeira do evento. A organização do festival nunca percebeu isso? Como é a orientação que dão para essas pessoas que ficam na porta de entrada da sala? Num contexto geral, diante de tal tratamento, é como se a atividade intelectual e cultural de um crítico, de um jurado, fosse subestimada e desprezada como dispensável e irrelevante, importando reservar o tratamento devidamente respeitoso para aqueles que pudessem gerar dinheiro e publicidade para o festival. Se essa é a finalidade do Festival de Cinema de Gramado, então sugiro que mudem a sua natureza cultural, que ao invés de ser um festival de cinema seja, por exemplo, um festival que premie os melhores programas e artistas do ano da Globo! O Pedro Bial já não atua como curador do festival? Já não é meio caminho andado? Assim as celebridades que são tão apreciadas pela organização e pelo público comparecerão em maior número à Serra e todos ganharão mais dinheiro. Não é o que importa?

Aliás, devo acrescentar que o desrespeito não era apenas com o júri. Também era com o público. Todas as sessões atrasavam porque eles tinham de aguardar famosos e famosas chegarem e se acomodarem. Na sessão do belo filme gaúcho “Os pássaros de Massachusetts”, quando faltava uns quinze minutos para o fim, a organização simplesmente permitiu a entrada de uma multidão que assistiria à próxima sessão na sala, gerando uma barulheira e confusão que atrapalhou muito a apreciação do filme. Sinal claro de desconsideração não só com os espectadores que ali estavam, mas também com os profissionais que trabalharam na realização da obra em questão.

Olha, já fui a muitos festivais de cinema e música, até participei da organização de alguns. Nunca vi algo tão desorganizado e pouco respeitoso com o público quanto o Festival de Gramado. O episódio do apedrejamento no tapete vermelho na noite de encerramento acabou não me parecendo tão surpreendente, mas um desdobramento natural. Francamente, não pretendo voltar tão cedo ao Festival de Cinema de Gramado. Alguns dirão que o evento desse ano não teve problemas como esse. Acredito realmente, afinal ele foi virtual... Mas o que esperar de uma cidade em que Bolsonaro teve uma votação de mais de oitenta por cento? Não à toa, Gramado é um dos grandes focos de Covid no Rio Grande do Sul e mesmo assim seus comerciantes imploram por flexibilizações. Afinal, o que interessa é ganhar dinheiro.

Faz alguns meses que eu vinha pensando em escrever este texto, tanto para tentar marcar uma volta a escrever com mais regularidade para o blog quanto para botar para fora as frustrações, as revoltas e as alegrias que tive de agosto do ano passado para cá. Sentia uma grande necessidade de expressar toda essa gama de sentimentos, emoções, diatribes. A rotina de pai de uma prematura extrema, entretanto, falava mais alto. Minha filha vem apresentando uma excelente recuperação, mas ainda exige bastante cuidados. Além de pai, dá para dizer que sou uma espécie de enfermeiro para ela (assim como a Mariana também faz tais funções, mais do que eu até). A Lola ainda usa em parte do dia um cateter de oxigênio para auxiliar em sua respiração. Em função da gastro, a maior parte de sua alimentação se dá por uma sonda em sua barriguinha. Além de tudo, há uma série de medicações a serem dadas, alguns procedimentos especiais a serem diariamente executados. Em função disso tudo, não conseguimos simplesmente confiar em uma babá eletrônica. Eu e a Mariana nos revezamos nas madrugadas para termos certeza que está tudo bem com ela. Nesse contexto todo, sobra pouco tempo para outras atividades, isso sem falar do tremendo cansaço ao final do dia (ou da noite – na verdade, em uma situação como essa, dias, semanas, meses, horas, tudo parece meio igual, impressão mais acentuada ainda pela quarentena e isolamento). Assim, acabava adiando a elaboração desse texto de forma recorrente. Os resultados das eleições nesse último domingo (15/11), entretanto, acabou me dando a motivação final para finalmente botar na tela do computador as palavras que rondavam (ou assombravam) a minha mente.

Por mais que tenha ocorrido uma evolução em termos de representatividade na assembleia de vereadores, algo realmente animador, o resultado de primeiro turno para prefeitura aqui em Porto Alegre e em várias capitais e cidades pelo país me deixou algo perplexo. Quer dizer que depois das assustadoras queimadas no Amazonas e no Pantanal, da mortandade sem precedentes causadas pela Covid no Brasil, do apagão no Amapá, tudo fruto de ações deletérias e omissões criminosas oriundas de uma desumana política sócio-econômica de Estado mínimo produzidas por essa direita escrota que tomou praticamente todas as esferas de poder no Brasil, ainda assim a maior parte do povo brasileiro resolve dar mais um crédito para essa gente? Quer dizer que abrir todo o comércio imediatamente é solução para resolver a crise econômica derivada do Covid? Que negar a doença é a melhor forma de seguir em frente? Que sucatear o serviço público até a sua extinção vai suprir as carências de toda a população? Que tocar fogo e devastar nossas florestas, matas e afins é um dos únicos caminhos econômicos viáveis? Desculpem, mas já não considero isso mais ignorância ou alienação, mas sim irresponsabilidade, leviandade, desfaçatez, mesquinharia, obscurantismo safado.

Sei que muita gente vai considerar tudo isso que escrevi um poço de amargura ideológica, talvez seja mesmo. Mas se antes fatos negativos como os que apontei nesse texto eu já considerava revoltante, mais me parecem intoleráveis agora que tenho uma filha. No final das contas, acredito que tudo escrevi aqui seja um busca de esperança no sentido que a Lola possa herdar um mundo melhor, que as pessoas se deem conta que nossos filhos, netos e demais descendentes talvez tenham direito a um mundo mais humano, iluminista, justo e igualitário, e que fora disso só nos resta uma barbárie deprimente e injustificada.

Espero que depois dessa profusão de palavras eu consiga estabelecer de novo alguma rotina de ver filmes e escrever minhas opiniões, sinto realmente falta disso. Claro que não vai ser como antes, mas também acredito que poderá ser melhor diante de todas os sentimentos pungentes que minha filha vem me proporcionando e que vai continuar me oferecendo.

Dedico esse texto às minhas musas Mariana e Lola e também a todos aqueles profissionais que salvaram a vida de minha filha – os pediatras Alexandre e Humberto Fiore, Jorge, Manoel, Anna Carolina, Andrezza, Maria Letícia, Yohana e Gabriela; os cirurgiões pediátricos Cyrus, Fernanda Caráver, Fernanda e Mariana, os obstetras Charles, Edinho, Breno e Gabriela, as enfermeiras Ane, Mariana, Marina, Daniela, Morgana, Denise e Jaqueline, as técnicas Luce, Daniele (a da manhã e a da noite), Andressa, Selminha, Fernanda (a da tarde e a da noite), Simone, Lily, Carol, Neide, Tamara, Joice, Aline, Jose, Adriana, Tia Gê, Rosy e Ariane, aos técnicos Adriano e Gilson, à psicóloga Ieda, e se eu esqueci o nome de alguém, me perdoe, você não é menos importante por isso.

Para encerrar, queria citar uma passagem da bela e contundente canção de Paulo César Pinheiro, “Pesadelo”, que resume boa parte dos sentimentos que esse texto carrega:

 

“Quando um muro separa uma ponte une

Se a vingança encara, o remorso pune

Você vem me agarra, alguém vem me solta

Você vai na marra ela um dia volta

E se a força é tua ela um dia é nossa

 

Olha muro, olha a ponte

Olha o dia de ontem, chegando

Que medo você tem de nós

Olha aí”

quinta-feira, outubro 01, 2020

A frente fria que a chuva traz, de Neville D'Almeida ***


O cineasta Neville D’Almeida fez uma das melhores adaptações para o cinema de uma peça do dramaturgo Nelson Rodrigues em “Os sete gatinhos” (1980), preservando a força cômica-dramática do original e também dando uma dinâmica cênica que fugia totalmente do mero teatro filmado. Em “A frente fria que a chuva traz” (2015), o diretor volta ao universo do teatro só que com o trabalho de um autor mais contemporâneo, Mário Bortolotto. Nessa obra mais recente, D’Almeida atinge resultados artístico menos satisfatórios, tanto por uma encenação que por vezes não se decide entre o teatral e o cinematográfico quanto por um texto de momentos entre o ingênuo e o apelativo. Ainda assim, é um trabalho acima da média que se valoriza por algumas nuances formais e existenciais interessantes. As interpretações do elenco são bastante intensas, ainda que beirando o excessivo em algumas passagens, e ganham uma forte dimensão dramática ao se associarem a ambientação sórdida e sardônica concebida por D’Almeida. E por mais que a escrita de Bortolotto derrape, há trechos que se mostram contundentes e até perturbadores na ácida e irônica maneira que retratam a sociedade de classes no Brasil, mostrando bastante sintonia, inclusive, com o tenebroso momento histórico que vivemos no país.

quarta-feira, setembro 23, 2020

O irlandês, de Martin Scorsese ***1/2

 


É estranho dizer que um filme é ótimo e também ao mesmo tempo é decepcionante. Mas esse é justamente o caso de “O irlandês” (2019). Contribui para essa percepção todo o contexto em que o filme foi lançado. O diretor Martin Scorsese vinha de uma sensacional trinca consecutiva de obras-primas: “O lobo de Wall Street” (2013), “Silêncio” (2016) e “Rolling Thunder Revue” (2019). A produção em questão ainda marca a volta do cineasta a um gênero, os filmes de gangsteres, no qual lançou algumas das suas obras mais memoráveis. Ocorre que nesse trabalho mais recente não há a tensão nervosa a flor-da-pele de “Caminhos perigosos” (1973), o misto de ironia e paranoia de “Os bons companheiros” (1990), o barroquismo gráfico grandioso e violento de “Cassino” (1995) e nem a ação eletrizante de “Os infiltrados” (2006). O que predomina em “O irlandês” é uma narrativa clássica e serena, quase solene, sem grandes arroubos estéticos. A ambição de Scorsese é grande: ao mostrar a história real do assassino da Máfia Frank Sheeran (Robert De Niro), procura fazer uma síntese entre um amplo painel sócio-político da história dos Estados Unidos do século XX e a trajetória pessoal de seu protagonista. Apesar da longa duração do filme, incomoda que determinadas passagens do roteiro se mostram um tanto superficiais e mal desenvolvidas, principalmente no que se refere à personagem Peggy (Anna Paquin), filha de Frank. Nesses momentos, há a sensação incômoda do filme cair num tom de melodrama moralista, como se em tais sequências Scorsese tivesse perdido a mão na condução rigorosa de direção, coisa praticamente inexistente no melhor de sua filmografia. Ainda que isso possa frustrar aqueles que tivessem altas expectativas para a obra, há qualidades notáveis que que colocam “O irlandês” em um nível muito acima da média. O extraordinário trabalho de montagem faz com que o espectador nem sinta as três horas e meia de duração passarem, a parte histórica do roteiro tem uma visão existencial bastante lúcida e sofisticada sobre a sua temática e há algumas interpretações magníficas no elenco, com destaque absoluto para Joe Pesci. De repente pode ser pouco em se tratando de Scorsese, mas tais qualidades artísticas tornam “O irlandês” um acontecimento cinematográfico bastante relevante no atual panorama do cinema mundial.

quinta-feira, fevereiro 13, 2020

Jumanji, de Joe Johnson ***


Dos cineastas “afilhados” de Steven Spielberg, Joe Johnson provavelmente é um dos menos badalados. Observando sua filmografia, entretanto, pode-se dizer tranquilamente que é um dos mais constantes em termos de qualidade e quantidade. “Jumanji” (1995) é bem ilustrativo do seu padrão formal-temático – é um blockbuster na linha aventura familiar que tem boa parte dos clichês narrativos do gênero, mas com uma direção tão segura na condução da trama que todos os detalhes pueris do roteiro e os lugares comuns de seu formalismo passam batido. Está bem longe de ser um clássico, mas é diversão acima da média. Mesmo os anacronismos de alguns recursos estéticos típicos da época acabam ganhando um certo encanto nostálgico diante da fluência narrativa estabelecida por Johnson.