quinta-feira, janeiro 31, 2019

WiFi Ralph - Quebrando a internet, de Phil Johnston e Rich Moore **1/2


Há uma diferença artística-existencial que é fundamental entre “Detona Ralph” (2012) e a sua continuação “WiFi Ralph – Quebrando a internet” (2018) – enquanto o primeiro filme primava por uma visão entre o nostálgico e o irônico sobre o universo dos games e utilizando o recurso da paródia e do pastiche, nessa segunda da parte das aventuras do protagonista Ralph o foco se estende sobre uma reflexão sobre o universo da internet com citações diretas a empresas virtuais que realmente existem. Nessa pegada, essa animação mais recente decepciona pela abordagem narrativa e formal superficial e previsível em excesso e por uma visão sócio-política fortemente conformista e em defesa do ordenamento capitalista contemporâneo estabelecido por empresas de comércio virtual. Por mais que a produção seja dirigida principalmente para um público infanto-juvenil e que alguns aleguem que esse não seria uma plateia tão exigente, não dá para negar que marca um retrocesso em relação a criatividade estética e textual do filme anterior e que também contém um mal disfarçado subtexto ideológico conservador dentro do dilema em que as angústias e medos do protagonista acabam afetando a tranquilidade e assepsia dos inúmeros negócios e futilidades que se desenvolvem na rede.

segunda-feira, janeiro 28, 2019

Homem-aranha: No Aranhaverso, de Peter Ramsey, Bob Persichetit e Rodney Rothman ***1/2

Se a trilogia dirigida por Sam Raimi se refere ao Homem-aranha do universo Marvel tradicional criado por Stan Lee e os filmes de Marc Webb e o mais recente do estúdios Marvel têm uma ligação mais forte com a versão Ultimate do herói aracnídeo, a animação “Homem-aranha: No Aranhaverso” (2018) é a junção alucinada disso tudo e mais um pouco, com um resultado final bastante coerente e divertido. O já bem manjado recurso temático de diversos universos alternativos para uma mesma realidade é aproveitado com criatividade, fazendo com que o filme seja acessível para o público em geral e também repleto de citações e referências que são uma delícia para os fãs de longa data do personagem nos quadrinhos. Mais importante que isso e que dá um encanto atemporal para a produção, entretanto, é a sensacional conjunção entre a precisão da dinâmica narrativa, o original e estonteante grafismo (que, inclusive, se alterna de maneira fluente entre diversos estilos de traço de acordo com cada um dos universos que se chocam) e o roteiro que concilia com maestria densidade dramática e um senso de humor que foge com louvor do engraçadinho metido à besta. No cômputo geral, é o melhor filme de Homem-aranha desde a segunda parte dirigida por Raimi e lançada em 2004.

quarta-feira, janeiro 09, 2019

Mais ou menos grávida, de John G. Avildsen ***


É até meio estranho – um cineasta que ficou conhecido por algumas obras célebres no gênero “filmes de luta” (“Rocky, um lutador”, “Karatê Kid”) acaba dirigindo uma comédia dramática juvenil influenciada pelo mestre John Hughes. Mas até que John G. Avildsen se saiu bem em “Mais ou menos grávida” (1988). Não há nada de novo em termos narrativos e temáticos, mas há sensibilidade e mesmo sobriedade na eficiente síntese entre roteiro e encenação. Avildsen consegue oferecer as condições ideais para a musa oitentista Molly Ringwald brilhe dentro de uma trama que alterna com naturalidade uma abordagem realista dentro da questão da gravidez precoce e a dinâmica básica de uma comédia romântica. No cômputo geral, é uma memorável Sessão da Tarde daquelas que não se faz mais.

terça-feira, janeiro 08, 2019

Wood & Stock - Sexo, orégano e rock'n'roll, de Otto Guerra *

Se “As cidades dos piratas” (2018) marca um efetivo amadurecimento de Otto Guerra como diretor de animações, tanto em termos de rigor narrativo e estético quanto na depuração criativa de roteiro, “Wood & Stock – Sexo, orégano e rock’n’roll” (2006) peca exatamente pela autoindulgência com que trata a sua síntese de formalismo e temática. Tudo no filme soa preguiçoso e despersonalizado, como se o diretor estivesse no automático e preenchesse as lacunas da obra com as soluções mais óbvias e sem graça. Parece que Guerra leu apressadamente alguns números da antológica revista Chiclete com Banana e não entendeu a essência dos personagens e do próprio criador Angeli. Só isso explica a impressão constante de que se está assistindo a uma versão asséptica e fofinha de criaturas que no original dos quadrinhos eram marcadas pela sordidez e mesmo um niilismo perturbador. O resultado final desse direcionamento do cineasta é uma obra em que narrativa e personagens carecem de carisma e tensão, fazendo com que o espectador pouco se importe com o que está acontecendo na tela. Assim, são desperdiçadas as interessantes possibilidades criativas que o universo de Angeli oferecia e outros recursos de peso que Guerra tinha em mãos (principalmente a ótima trilha sonora). Pode servir de consolo que esse fracasso artístico do cineasta talvez seja encarado como uma espécie de laboratório de aprendizado que serviu como lição do que não fazer quando o cineasta enveredou para o mundo gráfico de Laerte no já mencionado “A cidade dos piratas”.

sexta-feira, janeiro 04, 2019

Estorvo, de Ruy Guerra ***


A relação artística entre Ruy Guerra e Chico Buarque é longa e prolífica. Principalmente nos anos 70, rendeu algumas canções e peças teatrais memoráveis. Assim, o cineasta adaptar um livro do cantor e compositor pareceu uma consequência natural. O resultado final, “Estorvo” (1998), está bem distante de ser uma obra-prima, mas ainda assim revela perturbadoras inquietações criativas. Para começar, a síntese entre cinema e literatura na produção não se conjuga de forma tão fluida e natural –Guerra não se mostra interessado em somente adaptar a trama da obra literária dentro de uma linguagem cinematográfica convencional. Ele parece obcecado pela palavra, pela nuances do texto, e procura encaixar a sonoridade do discurso dentro de um fluxo sensorial marcado pelo lirismo e sordidez. A sucessão daquilo que ocorre na tela obedece a um pensamento desordenado e fragmentado do protagonista (Jorge Perrugoria), fazendo com que a estética e a atmosfera do filme se guiem por uma lógica de subjetividade que por vezes beira o delirante. A abordagem naturalista é evocada de vez em quando na narrativa, mas logo é manchada por um desordenamento formal e existencial predominante na visão artística do diretor. As escolhas de Guerra não são gratuitas, pois na confusa saga do personagem principal se escondem lúcidos questionamentos sócio-políticos-intimistas que desembocam em soluções formais e temáticas desconcertantes. A jornada narrativa de “Estorvo” é irregular e difícil, mas em sua conclusão a impressão é que ela ficará grudada em nosso imaginário como uma lembrança entre o incômodo e o prazeroso.

quinta-feira, janeiro 03, 2019

Lost Zweig, de Sylvio Back ***


O fluxo criativo do articulista deste blog obedece a um direcionamento simples. À medida que vou vendo filmes no cinema, DVD e afins, escrevo sobre eles na ordem em que os assisti. Dessa forma, acaba me parecendo uma certa ironia do destino que esteja escrevendo sobre “Lost Zweig” (2003) justamente nesse três de janeiro de 2019. A produção dirigida por Sylvio Back trata da última semana da vida do escritor austríaco Stefan Zweig, que cometeu suicídio junto à esposa no Brasil em 1942. A morte do artista sempre carregou uma aura de mistério, inerente a essa tipo de evento, ainda que ele tenha deixado um bilhete de despedida bem esclarecedor em relação aos seus motivos. O que se pode apreender como efetiva causa de sua decisão estava em um mal-estar existencial diante de um mundo que se encaminhava naquele momento com muita naturalidade para o nazi-fascismo. E como um brasileiro com um mínimo de sensibilidade e racionalidade pode se sentir na atualidade diante de um ordenamento sócio-político baseado em uma conjunção nefasta de patriarcalismo, racismo, misoginia, homofobia, xenofobia e exclusão social que foi escolhido pela própria população? Quantos Zweigs devemos ter por aí?

A versão cinematográfica concebida por Back para a tragédia de seu protagonista é marcada por uma fascinante ambiguidade estética e emocional, o que por vezes torna a narrativa um tanto fria e irregular. A impressão inicial é de uma abordagem de teor realista/naturalista, tanto na caracterização de personagens e situações como na atmosfera do filme. Aos poucos, entretanto, a obra vai ganhando uma conotação mais complexa e difusa, em que elementos que beiram o delirante realçam a narrativa. Diante dos posicionamentos escorregadios do governo Vargas diante à Alemanha nazista e da situação desesperadora de seus conterrâneos judeus na Europa, Zweig (Rüdige Vogler) vai se deixando inebriar pela sensualidade latente explosiva e pelo comportamento humano contraditório típicos do ambiente exótico que o cerca. Nesse perturbador contexto histórico em que ele está inserido, sua decisão final pode parecer brusca e radical, mas também ganha uma conotação existencial de dolorosa coerência.

quarta-feira, janeiro 02, 2019

Luciferina, de Gonzalo Calzada *1/2


Entre as várias possibilidades propiciadas pelo FANTASPOA para os apreciadores de cinema de Porto Alegre está a chance de conhecer um outro lado do cinema argentino, principalmente no que diz respeito a produções independentes no gênero horror. Na edição de 2018 não foi diferente. Se foi possível conhecer o perturbador (e por vezes inventivo) “Aterrorizados”, também se teve a chance de conferir “Luciferina”, obra que padece de forte anemia criativa em sua recriação barata de clichês narrativos de horror. É claro que há de se louvar o bom nível da produção em termos de recursos, principalmente no que diz respeito a efeitos especiais (no mesmo nível, nesse aspecto, de boa parte das produções norte-americanas no gênero que aportam com certa frequência em nossos multiplexes). No final das contas, entretanto, acaba sendo muito pouco para afastar o filme de Gonzalo Calzada da previsibilidade temática e de um formalismo medíocre.

terça-feira, janeiro 01, 2019

TOP 25 2018

1
1)      Zama, de Lucrecia Martel
2)      Arábia, de João Dumans e Affonso Uchoa
3)      O processo, de Maria Augusta Ramos
4)      Me chame pelo seu nome, de Luca Guadagnino
5)      Trama fantasma, de Paul Thomas Anderson
6)      As boas maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra
7)      O dia depois, de Hong Sang-soo
8)      Baronesa, de Juliana Antunes
9)      O amante duplo, de François Ozon
10)   Infiltrado na Klan, de Spike Lee
11)   Uma casa à beira-mar, de Robert Guédiguian
12)   Em chamas, de Chang-Dong Lee
13)   Roma, de Alfonso Cuarón
14)   A casa que Jack construiu, de Lars Von Trier
15)   Você nunca esteve realmente aqui, de Lynne Ramsay
16)   120 batimentos por minuto, de Robin Campillo
17)   O outro lado do vento, de Orson Welles
18)   Rei, de Niles Atallah
19)   Jogador nº 1, de Steven Spielberg
20)   A balada de Buster Scruggs, de Ethan e Joel Coen
21)   A ilha dos cachorros, de Wes Anderson
22)   Nico, 1988, de Susanna Nicchiarelli
23)   Projeto Flórida, de Sean S. Baker
24)   Histórias que nosso cinema (não) contava, de Fernanda Pessoa
25)   Imagens do Estado Novo, de Eduardo Escorel


sexta-feira, dezembro 28, 2018

Pura adrenalina, de Wes Anderson ***1/2


O primeiro longa-metragem dirigido por Wes Anderson, “Pura adrenalina” (1996), traz boa parte daquilo que uma obra de estreia de um cineasta autoral costuma apresentar, principalmente no sentido de apresentar uma grande série de ideias e concepções criativas que no conjunto geral nem sempre conseguem serem sintetizadas em um equilíbrio narrativo constante. Ainda assim, é um filme bastante empolgante na sua combinação de comédia amalucada, policial desajeitado e melodrama agridoce, fórmula essa que seria ainda melhor delineada em produções posteriores. É curioso ainda observar como Anderson na época mostrava um forte vínculo com certas convenções formais e temáticas típicas daqueles filmes envolvendo road movies e jovens ingênuos e inconsequentes tão caros a uma determinada linhagem do cinema norte-americano. Esses clichês narrativos, entretanto, são trabalhados com um saudável misto de ironia e sensibilidade, além de serem perpassados com um olhar artístico bastante pessoal por parte de Anderson. No mais, de se destacar a antológica sequência do roubo frustrado em uma transportadora, a ótima trilha sonora cancioneira e as memoráveis atuações dos irmãos Wilson em início de carreira e do veterano James Caan.

quinta-feira, dezembro 27, 2018

O beijo no asfalto, de Murilo Benício ***1/2


Pode-se dizer que a narrativa na versão cinematográfica de “O beijo no asfalto” (2018) dirigida por Murilo Benício avança de forma linear. Isso não quer dizer, entretanto, que estamos diante de mais uma adaptação convencional da obra de Nelson Rodrigues. O cineasta envereda por uma escolha estética bastante intrigante, dividindo a encenação em três planos: o ensaio em uma mesa com os atores, a ação que se desenvolve em âmbito de cinema e a dramatização como peça teatral. Em todas essas direções, sempre fica presente de maneira visível para o espectador uma desconstrução da ilusão de “realidade” – os artistas discutem as nuances do texto original, as câmeras interagem de maneira ostensiva com o elenco, a plateia no teatro se mostra presente em outras passagens. Tais detalhes formais não levam para um distanciamento emocional em relação àquilo que se vê na tela, mas sim para explicitar a atemporalidade da dramaticidade e lucidez do texto original, além de acentuar o vigor da encenação proposta por Benício. A sensacional direção de fotografia de Walter Carvalho a valorizar um expressionista preto-e-branco colabora para a sensação de uma sombria e sufocante atmosfera de opressão e hipocrisia moral. A arejada modernidade dessa concepção artística não se resume a uma mera experiência de estilização, fazendo com que o texto de Nelson Rodrigues ganhe uma perturbadora ressonância existencial com o tenebroso cenário sócio-político do Brasil atual.

quarta-feira, dezembro 19, 2018

As viúvas, de Steve McQueen ***1/2


Em um primeiro momento, “As viúvas” (2018) pode aparentar ser mais um filme rotineiro na linha “um assalto perfeito”. A presença de Steve McQueen na direção, entretanto, afasta bastante o longa do lugar comum. Sua abordagem narrativa é fortemente sóbria, evitando excessos óbvios e desnecessários – nesse sentido, por exemplo, é de se observar como a elegante trilha sonora pontua com discrição e sensibilidade as sequências mais tensas da obra. Em essência o filme realmente pertence ao gênero policial de ação, mas sabe valorizar a densidade dramática dos momentos mais intimistas e a caracterização psicológica consistente de seus personagens. O roteiro apresenta um subtexto bem delineado e lúcido em seus contornos sócio-políticos e mesmo de contestação aos valores de uma sociedade patriarcal. E o que coroa essas boas soluções artísticas da obra é a encenação minuciosa de McQueen, tanto nas sequências de ação marcadas por um detalhismo visual e coreográfico impressionante quanto nas cenas focadas em diálogos rascantes. Todo esse rigor formal e narrativo acaba gerando algumas passagens antológicas, como aquele plano-sequência em que o político em campanha Jack Mulligan (Colin Farrell) percorre um trajeto em que vai de uma praça popular no centro de Chicago, onde fazia um comício, até a sua burguesa casa em uma zona nobre da cidade, em expressiva simbologia audiovisual a sinalizar de maneira contundente uma equação baseada em demagogia, alienação e exploração sócio-econômica. No mais, “As viúvas” também pode servir como um alento para aqueles que estão sentindo falta daqueles filmes policiais mistos de casca-grossa e cerebrais que o mestre Michael Mann tanto gosta de fazer.

terça-feira, dezembro 18, 2018

Aquaman, de James Wan *1/2


A presença do roteirista Geoff Johns nos créditos de “Aquaman” (2018) é decisiva. Ele foi o responsável pelo roteiro da série própria do personagem no reboot que o universo DC sofreu em 2012. E as histórias eram ruins, das piores que o célebre herói dos mares já teve em sua trajetória nos quadrinhos. É justamente essa fase que serve como base para a trama do filme dirigido por James Wan e é aquela velha história: o que começa errado dificilmente tem chances de terminar bem... Voltando a falar do roteiro, é claro que em uma produção blockbuster não há uma grande obrigação artística em ser original, sendo que acumular clichês temáticos faz parte do jogo. Por vezes, esse procedimento reciclador pode ser feito com competência e vigor e gerar algo de empolgante, mas não é o caso de “Aquaman” – a impressão constante é de que os roteiristas chupinharam na maior cara de pau várias passagens da trilogia de “O senhor dos anéis” e da forma mais mecânica e artificial possível. Embalando a picaretagem há uma encenação risível de primária nos momentos mais dramáticos e uma opulência visual vazia e asséptica (é de se reparar que nas sequências envolvendo personagens baleados, destroçados e dilacerados não há sangue!!). Para coroar todos esses equívocos, Jason Momoa é inexpressivo demais e pouco carismático para segurar o papel principal (isso falar que sua truculência beira a escrotidão). Ok, algumas sequências de ação até são divertidas na sua coreografia e por vezes a caracterização visual de alguns efeitos especiais são interessantes. Mas isso é muito pouco para aguentar longas duas horas e meia de barulheira e breguice. No cômputo geral, “Aquaman” confirma que a DC continua soando perdida em suas adaptações para o cinema, estando bem longe do padrão de qualidade dos Estúdios Marvel. Só geek sem noção pode gostar dessa presepada.

segunda-feira, dezembro 17, 2018

Que mal eu fiz a deus, de Philippe de Chauveron *


Por mais que possa se pretender como uma espécie de retrato da França multicultural atual, a verdade é que a produção “Que mal eu fiz a deus?” (2014)  apenas reforça preconceitos e estereótipos sobre a temática do racismo e da xenofobia devido à incapacidade do diretor Philippe de Chauvenon de dar alguma profundidade e consistência dramática (ou mesmo irônica) para a sua obra. O filme se dilui através de clichês cômicos gastos e empilhados sem a menor criatividade e vigor, além de contar com um roteiro que acumula caracterizações caricaturais de personagens e situações. Na comparação com outros filmes mais recentes que também flertaram de maneira mais marcante com esse mesmo assunto, como “A esquiva” (2003) e “Entre os muros da escola” (2008), o longa de Chauveron se revela constrangedor.

sexta-feira, dezembro 14, 2018

A estrela nua, de José Antônio Garcia e Ícaro Martins ***1/2


Havia uma vertente do cinema paulista nos anos 80 que acabou se tornando quase um subgênero dentro da história do cinema brasileiro, representando uma série de filmes que buscavam uma linguagem pós-moderna em suas respectivas concepções e realizações. Obras que juntavam metalinguagem, estética estilizada, citações fílmicas e literárias, aproximação com o universo da música que beirava um formato video-clipeiro. Talvez o grande representante dessa linhagem de filmes nacionais foi o diretor Guilherme de Almeida Prado, mas alguns outros diretores também conseguiram entregar alguns trabalhos memoráveis. Entre eles, estão José Antônio Garcia e Ícaro Martins, cineastas responsáveis por “A estrela nua” (1985). O filme em questão se enquadrava em todas as características acima citadas, mas está muito longe do meramente genérico. As citações à filmografia de Roman Polanski são até bem óbvias - no contexto da obra, entretanto, têm um efeito dramático mais que eficiente. A trilha sonora de Arrigo Barnabé tem a síntese exata entre a esquisitice e o climático e realça com sensibilidade a atmosfera entre o luxuriante e o doentio que perpassa a narrativa. Coroando as boas soluções temáticas e formais da obra, há uma atuação marcante de Carla Camurati como protagonista em que a loucura e a sensualidade convivem com naturalidade perturbadora.

quinta-feira, dezembro 13, 2018

Em chamas, de Chang-Dong Lee ****


A construção do suspense no produção sul-coreana “Em chamas” (2018) se efetiva por meios narrativos bastantes distantes daqueles que estamos acostumados em produções ocidentais no gênero. Isso porque o diretor Chang Dong-Lee se propõe apresentar para o espectador quase que apenas sugestões de soluções de roteiro e uma forma de filmar que beira o elíptico na maneira que uma encenação detalhista, por vezes quase repetitiva, se alia a um formalismo que procura o contemplativo e o atmosférico. Aqui e ali na trama se insere motes tradicionais – pode ser que tenha havido um desaparecimento (ou mesmo assassinato) de uma personagem importante, talvez esteja em cena um psicopata matador de belas mulheres, há a possibilidade de que um sádico jogo de gato-e-rato tenha se estabelecido entre protagonista e antagonista. Para o filme, entretanto, a verdade é que pouco importa amarrar as pontas soltas desses aspectos temáticos. O que realmente é vital é estabelecer para o público a sensação de permanente dúvida sobre o real sentido daquilo que se está vendo. Tão importante quanto os truques narrativos do gênero, por vezes até mais, é a exposição fragmentada da vida de Jong-soo: a silenciosa relação conflituosa com o pai violento, o ressentimento com a fuga da mãe, o desejo frustrado de ser escritor, a paixão inesperada e desenfreada pela antiga vizinha de infância Hae-mi (Jeon Jong-seo), a ira constantemente reprimida. No conjunto desses pequenos flashs do seu cotidiano se encontra o campo ideal para o estranho jogo mental que se desenvolve com o misterioso Ben (Steve Yeun). Chang-Dong Lee prepara esses elementos como um sutil e sólido quebra-cabeça que primeiro envolve o espectador para depois jogá-lo de cabeça no clima de pesadelo sem fim do terço final da narrativa. Mesmo na explosão de brutalidade da sequência final, que em um primeiro momento poderia aparentar algo de catarse redentora, acaba se acentuando ainda mais a impressão de um mal-estar existencial que nunca cessará.

quarta-feira, dezembro 12, 2018

Tinta bruta, de Filipe Matzembacher e Márcio Reolon ***1/2


A real Porto Alegre contemporânea parece ser o cenário de “Tinta bruta” (2018). Até mais do que isso: a capital gaúcha por vezes se mostra como uma personagem própria do filme. Dentro da concepção artística-existencial colocada em prática pelos diretores Filipe Matzembacher e Márcio Reolon, entretanto, esse espaço físico e mesmo o espaço temporal dão a impressão de que estamos assistindo a uma espécie de mundo paralelo distópico. Essa sensação se desenvolve a partir de sutis e reveladoras sacadas narrativas, visuais e textuais – as sufocantes sequências em tribunais, as cenas em festas que se desenrolam de maneira que beiram o clandestino, os olhares que sugerem desaprovação por parte de anônimos, a frieza emocional de ruas e avenidas quase desertas no Centro. Em um pungente diálogo, um personagem diz se sentir em um limbo/purgatório ao descrever qual é a sensação de viver nessa Porto Alegre opressiva e desumanizada. Em mais de uma oportunidade, indivíduos manifestam a vontade de sair da cidade. Impossível não pensar “Bem-vindo à Porto Alegre de Marchezan e ao Brasil de Bolsonaro”... Nesse contexto, a vida virtual de Pedro (Shico Menegat) como performer erótico e o intenso caso amoroso que ele mantém com Leo (Bruno Fernandes), ainda que por vezes reforcem uma ideia de alienação e escapismo, têm o significado de uma transgressão libertária e hedonista diante de uma sociedade que massacra moral e fisicamente o diferente. Nesses termos políticos-existenciais, a obra de Matzembacher e Reolon tem conexão com o também recente “Rasga coração” (2018), mas enquanto o filme de Furtado opta pela prolixidade de seus diálogos e numa marcação que resvala no teatral, “Tinta bruta” é lacônico e preciso no seu texto e enfatiza seu forte componente dramático no vigor da sua encenação, com destaque para voluptuosidade desesperada das cenas de sexo, e na expressividade de silêncios, gestos e olhares. Não à toa, a sequência final da dança solitária de Pedro em uma melancólica rave evoca na lassidão e delicadeza de sua coreografia uma declaração de irresignação e desafio em resistir diante de um repressivo aparato burocrático/político/moral.

terça-feira, dezembro 11, 2018

Rasga coração, de Jorge Furtado ***


“O mercado de notícias” (2014) marcou uma espécie de ruptura na carreira de Jorge Furtado como diretor de longas-metragens. Ao invés de filmes baseados em uma desgastada fórmula de diálogos espertinhos e narrativa frouxa beirando o paródico involuntário, o cineasta passou a lançar filmes marcados pela sobriedade estética e roteiros mais densos em termos de construção dramática e discurso de subtexto. “Rasga coração” (2018) é uma continuação dessa tendência de maturidade artística por parte de Furtado. Por ser baseada em uma peça teatral, por vezes a confluência narrativa entre cinema e teatro se mostra um tanto truncada, principalmente pelo fato da marcação cênica nesses momentos se revelar um pouco engessada. Em outras sequências, entretanto, o diretor consegue acertar o tom no choque entre os dois meios de expressão e a narrativa se mostra fluente e mesmo com um estranho encanto. O roteiro brinca com alguns clichês temáticos básicos (conflito de gerações, desilusões ideológicas) e lhes dá uma roupagem dinâmica e contundente, além de um bem-vindo caráter de ambiguidade na construção de personagens e situações. Contribui também para esse direcionamento artístico uma direção de arte e concepção cênica que não se atrelam de maneira plena ao realismo, investindo de maneira pontual em um olhar estilizado tanto na evocação do passado quanto na interação entre os personagens. De certa forma, essa abordagem de Furtado demonstra sintonia com aquela tramada por Spike Lee no também recente “Infiltrado na Klan” (2018), em que aparentes ingenuidade e idealização na encenação e trama escondem na verdade um retrato vigoroso de um ordenamento sócio-político injusto e opressor. Valorizado ainda por algumas ótimas atuações em seu elenco, “Rasga coração” surpreende por se revelar como a obra mais exuberante e sensual de Furtado.

quarta-feira, dezembro 05, 2018

Excelentíssimos, de Douglas Duarte ***1/2


Quando comecei a escrever para esse blog em 2006, procurei dar um tom na terceira pessoa nos meus textos. A intenção era focar a minha análise/percepção diretamente no filme a ser apreciado, enfatizando mais os seus méritos (e deméritos) artísticos. Eu não sentia tanta necessidade de enfatizar aspectos subjetivos ou pessoais, no sentido da minha relação existencial com aquilo a que eu assistia. Acredito que por alguns bons anos mantive com razoável constância esse tipo de abordagem. Nos últimos tempos, entretanto, tenho percebido que os meus textos cada vez mais refletem uma percepção pessoal minha sobre o mundo, e não apenas um enfoque objetivo sobre os filmes. Para mim, não se trata de uma evolução ou amadurecimento do meu estilo. Vejo apenas como um processo inevitável diante dos perturbadores fatos sócio-políticos que tomaram o país e o mundo nos últimos anos. Dependendo da forma como tais fatos estão retratados em determinados filmes, fica impossível para mim simplesmente deixar de expressar alguns sentimentos e constatações que não se situam apenas no campo estético e formal. Bem, senti necessidade de fazer essa digressão (ou mesmo confissão) ao pensar no que escrever sobre “Excelentíssimos” (2018). Eu estava temeroso de ver esse documentário de Douglas Duarte não por receio de suas possíveis qualidades artísticas, mas sim pelo fato de que eu já havia assistido nesse ano ao extraordinário “O processo” (2017), de temática muito semelhante, e tinha sido uma experiência bastante dolorosa ficar relembrando os nefastos fatos relativos ao golpe de 2016. Minha curiosidade cinematográfica, todavia, acabaram me fazendo suplantar tais temores e lá estava eu no Cibe Bancários encarando mais uma infernal jornada de exposição de amargas lembranças.

E já que entrei de vez nessa de narrativa em primeira pessoa, lá vai mais uma confissão pessoal – em termos de acompanhar aquilo que acontece pelo mundo, sou um cara ainda com uma cabeça “século XX”, pois a minha maneira de me informar é pela leitura. Não sou de ver televisão, vídeos na internet e afins. Assim, nada daquilo que aparece na tela em “Excelentíssimos” chega a ser exatamente uma novidade para mim. Sei que o Congresso está tomado de indivíduos que representam aquilo que há de pior na humanidade: obscurantistas religiosos que exploram a fé alheia em busca de poder sócio-político-econômico, a bancada da bala, gente que odeia e persegue minorias (indígenas, comunidade LGBT), misóginos, defensores de ruralistas que desprezam movimentos sociais. O que é novo para mim é ver essa gente em ação na tela grande despejando impropérios, preconceitos, cinismo, hipocrisia e demais chorumes da alma humana (a sequência em que deputados da bancada evangélica utilizam um gabinete para celebrar um culto e conspirarem contra o governo é particularmente tenebrosa). E nesse sentido o diretor Rogério Duarte constrói uma sombria narrativa que é muito mais aterrorizante que boa parte do que se fez no gênero horror nos últimos anos. Enquanto Maria Augusta Ramos manteve um austero e implacável formalismo em “O processo”, Duarte preferiu um enfoque estético mais caótico ao captar outras fontes audiovisuais (propagandas políticas, reportagens) e aliar ao seu material próprio, além de juntar alguns bem sacados truques de edição e uma tenebrosa e climática trilha sonora (o que dá para o filme por vezes uma irônica atmosfera de terror gótico).

Talvez em um contexto histórico diverso do atual em que se assistisse a “Excelentíssimos” é provável que esse festival de escrotidões até soaria pateticamente cômico. Na nossa situação atual, entretanto, a sensação é de pura tragédia. E fica evidente que a vitória do inominável nas eleições não foi algo tão surpreendente – aliás, ele é um dos personagens mais destacados na saga dantesca retratada no filme.

terça-feira, dezembro 04, 2018

O sonho não acabou, de Sérgio Rezende **


Ver um filme como “O sonho não acabou” (1982) em pleno 2018 é uma experiência amarga. Não tanto pelos méritos artísticos do filme, mas pelos diferentes contextos históricos que separam a época em que se desenvolve a trama da produção dirigida por Sérgio Rezende e o do presente. Enquanto o roteiro da obra foca jovens universitários de Brasília sobrevivendo nos anos finais da ditadura militar no Brasil, com todos os seus desejos e frustrações se chocando em um ambiente de opressão institucional, nos dias de hoje uma parcela expressiva da população brasileira manifesta o seu desejo em viver sob um governo totalitário de forte traço militarista. Deixando de lado melancólicas (e necessárias) digressões políticas-existenciais, o longa de Rezende não deixa de revelar algumas inquietações artísticas e temáticas típicas daquela época, ressaltando uma tendência na busca de uma linguagem mais moderna (pelo menos para os padrões do início da década de 1980), mas esbarrando em uma inexperiência narrativa por parte do cineasta. A tosquice e ingenuidade da encenação deixam tudo um tanto datado, ainda que essa certa precariedade involuntária faça que por vezes o filme fique até bem divertido e simpático. Em seus trabalhos posteriores, Rezende se mostrou um realizador mais maduro e convencional. O que ganhou em profissionalismo, perdeu em espontaneidade, característica que paira sobre boa parte da duração de “O sonho não acabou”.

segunda-feira, dezembro 03, 2018

Carbono, de Olivier Marchal **


Quando os primeiros filmes do diretor Olivier Marchal foram lançados, ficou sugerido que havia um sopro de renovação dentro do cinema policial francês, principalmente nos sensacionais “36” (2004) e “M73 – A última missão” (2008). Essa boa impressão inicial, entretanto, começo a se dissipar em obras posteriores até se dissolver quase por completo em “Carbono” (2017). Obras sobre a ascensão e queda de gangsteres (ou contraventores semelhantes) são quase tão antigas quanto o próprio cinema e nesse gênero cineastas como Martin Scorsese já provaram que ainda se pode extrair algo de relevante. Não foi o caso de Marchal, pois seu filme é um repisar constante e sem imaginação de clichês narrativos e temáticos. O roteiro é banal, beirando o primário e o francamente imbecil na caracterização de situações e personagens, e mesmo o seu aspecto formal pouco ultrapassa o correto, longe daquela combinação precisa entre o sóbrio e o vigoroso que marcou as melhores produções dirigidas por Marchal.