Duas perguntas me vieram à cabeça quando terminei de
assistir a “A vida invisível” (2019): por que raios um diretor como Karim
Aïnouz fez algo tão insosso quanto esse filme? E por que justamente escolheram
logo esse filme para representar o Brasil na edição do Oscar desse ano, e logo em
2019 quando várias produções nacionais bem mais relevantes e interessantes
estrearam nos cinemas? Até que para a segunda pergunta a resposta não é tão
difícil, afinal os órgãos governamentais “competentes” de um Brasil dominado
pela besta fera não poderiam escolher filmes contestadores e inquietantes como “Bacurau”
ou “Inferninho”. Não é que “A vida invisível” seja ruim – o filme é até bem
fotografado e conta com algumas interpretações convincentes. Mas sua narrativa
amorfa e roteiro previsível fazem tudo parecer um grande e entediante novelão
global (é claro que com alguns aspectos formais mais atraentes). Ou seja, muito
pouco para o diretor que tem em seu currículo filmes tão impactantes quanto “Viajo
porque preciso, volto porque te amo” (2009) ou “Praia do futuro” (2014).
Boa parte de amigos e conhecidos costuma dizer que as minhas recomendações para filmes funcionam ao contrário: quando eu digo que o filme é bom é porque na realidade ele é uma bomba, e vice-versa. Aí a explicação para o nome do blog... A minha intenção nesse espaço é falar sobre qualquer tipo de filme: bons e ruins, novos ou antigos, blockbusters ou obscuridades. Cotações: 0 a 4 estrelas.
segunda-feira, fevereiro 10, 2020
sexta-feira, fevereiro 07, 2020
Parasita, de Bong Joon Ho ***1/2
Dentro da filmografia do diretor sul-coreano Bong Joon Ho, “Parasita”
(2019) talvez seja o seu filme mais acessível e pop, no sentido de um subtexto
que se expõe de maneira mais explícita. Pode ser que isso se explique pelo
próprio contexto sócio-político-existencial em que o filme foi lançado – no meio
da ascensão mundial de uma linha ideológica de extrema direita que sintetiza
neoliberalismo econômico desumanizador, nacionalismo canalha e obscurantismo
religioso, uma obra a versar de maneira tão ácida e contundente sobre conflito
de classes acaba tendo tanto um efeito catártico para alguns quanto perturbador
para outros. Ainda que não tenha a precisão narrativa e estética de obras
anteriores magníficas do cineasta como “Memórias de um assassino” (2003) e “O
hospedeiro” (2006), “Parasita” apresenta uma interessante conjunção entre a estrutura
formal de um suspense psicológico agoniante e uma temática repleta de
ramificações complexas em termos de relações humanas, o que também ajuda a
explicar a forte empatia que tem com grande parte do público.
quinta-feira, fevereiro 06, 2020
Coringa, de Todd Phillips ***
Não deixa de ser irônico que justamente no período em que o
diretor norte-americano Martin Scorsese entrou em conflito com fãs e
profissionais da indústria cinematográfica por criticar a hegemonia comercial e
cultural dos filmes de super-herói na atualidade apareça uma produção tendo
como protagonista o principal rival do Batman e que se mostre bastante
influenciada em termos temáticos e narrativos em dois célebres filmes do mesmo
Scorsese, “Taxi driver” (1976) e “O rei da comédia” (1982). E ainda mais
curioso é que tal obra se torne uma das mais comentadas do ano, seja um
tremendo sucesso de bilheteria e ganhe importantes prêmios em festivais e
votações da crítica especializada. Nesse contexto, talvez o grande mérito (ou
sorte) de “Coringa” (2019) seja o fato dessa produção dirigida por Todd
Phillips captar um certo zeitgeist contemporâneo, ainda que um tanto por vias
tortas e também em alguns momentos reproduzindo uma ótica existencial-política
simplória. Na realidade, a percepção de que haja personagens clássicos da DC na
trama revela uma certa tendência a forçar a barra por parte dos roteiristas,
tendo em vista que o roteiro mostra tendência para o comentário social e para a
tensão psicológica-intimista que poderia retratar a vida de qualquer um de uma
multidão de pobres coitados vítimas da opressão social e indiferença afetiva
típicas da sociedade ocidental capitalista do mundo atual. É como se personagens
como o Coringa e Thomas Wayne fossem jogados ali na trama de uma forma
arbitrária apenas para dar uma satisfação para o público ávido por mais um
filme de super-herói. Passando por essa impressão incômoda, entretanto, o filme
de Phillips até é bem envolvente por vezes, principalmente pela dinâmica narrativa
engendrada pelo cineasta e pela interpretação à flor-da-pele de Joaquin
Phoenix. Dá até para perdoar um pouco a visão reacionária do filme ao reduzir a
revolta e desejo de mudanças de boa parte da população por uma sociedade mais
justa como simples combustível para revoltas caóticas e violentas.
quarta-feira, fevereiro 05, 2020
Ad Astra, de James Gray ***
A conjunção entre o diretor norte-americano James Gray e o
gênero ficção-científica parecia bastante promissora, mas o resultado final de “Ad
Astra” (2019) fica bem aquém de tais expectativas. Não chega a ser exatamente um
mau filme. Pelo contrário – a segura condução da narrativa por parte da Gray
até torna o filme uma aventura espacial agradável. Mas apenas essa correção
acaba sendo frustrante diante do notável currículo do cineasta. Falta maior
estofo para as sequências mais dramáticas/intimistas, enquanto as cenas de ação
se limitam a serem meramente competentes. A impressão é de que Gray se deixa
obscurecer para fazer de seu trabalho apenas um veículo para o estrelismo de
Brad Pitt.
terça-feira, fevereiro 04, 2020
Era uma vez em... Hollywood, de Quentin Tarantino ****
Se “Bastardos inglórios” (2009) e “Django livre” (2012) marcavam
a guinada de Quentin Tarantino para um padrão mais tradicional de narrativa
cinematográfica enquanto “Os oito odiados” (2015) parecia representar a
retomada mais purista de sua linguagem própria, “Era uma vez em... Hollywood”
(2019) representa justamente a cristalização da junção orgânica do classicismo
estético-formal da cinematografia clássica norte-americana com o habitual
padrão autoral do diretor. E o resultado disso é o filme mais poético e
melancólico de Tarantino. Nesse sentido, a opção por uma formatação de fábula,
já indicada no título do filme, não é gratuita ou mera piada. Ao reimaginar os
fatos reais que levaram ao bárbaro assassinato coletivo de Sharon Tate e seus
amigos pelo grupo de fanáticos liderados por Charles Mason, momento chave na
decretação do fim do sonho contracultural na década de 60, Tarantino não só
realiza uma síntese perfeita entre a homenagem e a ironia sobre o cenário
cultural e a indústria cinematográfica da época como também evoca com sutileza
o caráter simbólico daquilo que aconteceu no passado na construção de um
presente mais desumanizado e desesperançado. A minuciosa recriação estilizada
da época, o caráter icônico das interpretações do elenco e a encenação entre o
caricatural e o solene formam um todo artístico de desconcertante encanto
sensorial não apenas por uma questão técnica-formal, mas também por ressaltarem
com tremenda sensibilidade a proposta estética-existencial do filme. Tarantino
sempre fez questão em sua trajetória artística em se assumir como um
diretor-cinéfilo e quando aborda essa paixão pelo cinema como uma das temáticas
mais prementes de “Era uma vez em... Hollywood” faz precisamente isso da forma
menos óbvia possível – citações e referências a momentos clássicos da mitologia
cinematografia norte-americana se inserem na narrativa com notáveis coerência e
originalidade, ajudando a formar um amplo e lúcido painel da relação entre
cinema, mitologia sessentista e comentário sócio-político-cultural.
segunda-feira, fevereiro 03, 2020
Top 25 Melhores filmes de 2019
1)
Era uma vez em Hollywood, de Quentin Tarantino
2)
Clímax, de Gaspar Noé
3)
Palavra e imagem, de Jean-Luc Godard
4)
Suspiria, de Lucas Guadagnino
5)
Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano
Dornelles
6)
Rolling Thunder Revue, de Martin Scorsese
7)
Inferninho, de Guto Parente e Pedro Diógens
8)
A cidade dos piratas, de Otto Guerra
9)
Elegia de um crime, de Cristiano Burlan
10)
Estou me guardando para quando o carnaval
chegar, de Marcelo Gomes
11)
Temporada, de André Novais Oliveira
12)
Em trânsito, de Christian Petzold
13)
A sombra do pai, de Gabriela Amaral Almeida
14)
No coração do mundo, de Gabriel Martins e
Maurilio Martins
15)
Anos 90, de Jonah Hill
16)
O irlandês, de Martin Scorsese
17)
3 faces, de Jafar Panahi
18)
Vidro, de M. Night Shyamalan
19)
As filhas do fogo, de Albertina Carri
20)
Homem-Aranha no Aranhaverso, de Peter Ramsey,
Bob Persichetti e Rodney Rothman
21)
Parasita, de Bong Joon-ho
22)
Divino amor, de Gabriel Mascaro
23)
A casa de veraneio, de Valeria Bruni Tedeschi
24)
Vermelho sol, de Benjamin Naishtat
25)
Compra-me um revólver, de Julio Hernández Condón
segunda-feira, dezembro 30, 2019
Os pássaros de Massachusetts, de Bruno de Oliveira ***
Tudo aquilo que parece aleatório ou casual em “Os pássaros
de Massachusetts” (2019) na realidade revela um domínio rigoroso e notável da
narrativa cinematográfica por parte do diretor Bruno de Oliveira. Os fatos da
trama se sucedem de maneira fluida, beirando o espontâneo, mas o que dá
realmente essa impressão de leveza é a encenação precisa engendrada pelo
cineasta. O tratamento estético-existencial do filme evoca tanto clássicos de
Eric Rohmer quanto a sofisticação narrativa disfarçada de amadorismo do coreano
Hong Sang-soo, ou seja, a obra de Oliveira remete a um desconcertante híbrido
de modernidade e nostalgia. Dentro dessa curiosa formatação, é de se destacar o
registro audiovisual de uma Porto Alegre melancólica e crepuscular, mas que por
vezes também soa como um insólito e algo encanador universo paralelo (em
contraste, por exemplo, com o retrato depressivo e assustador da capital rio-grandense
em “Tinta bruta”). Num contexto geral, uma das mais curiosas revelações do
cinema gaúcho dos últimos anos.
sexta-feira, dezembro 27, 2019
Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles ****
Excessos tomam conta de “Bacurau” (2019). Mas são aqueles
excessos típicos de quem assistiu muito filme bom na vida e quer colocar o
máximo disso num filme só (além de deixar evidente algumas convicções
existenciais/políticas). O grande mérito dos diretores Kleber Mendonça Filho e
Juliano Dornelles é justamente fazer com que referências e citações não se
amontoem como se fossem uma mera colcha de retalhos estética, realizando uma
obra que tem uma unidade artística coerente e impressionante. O lírico
sensorialismo de algumas sequências e o misto desconcertante de poesia e prosa
de determinados diálogos remetem ao melhor do que o Cinema Novo e o Cinema
Marginal brasileiros produziram em seus respectivos auges, assim como a
encenação da violência tem algo do barroquismo brutal de mestres do faroeste
como Peckimpah e Leone e mesmo do horror operístico de Fulci e Argento. E no
meio desses arroubos formais e narrativos, preserva-se um senso humanista
lúcido e comovente. Nesse conjunto artístico, cristaliza-se um trabalho
emblemático para o cinema brasileiro, tanto em seus antológicos detalhes
cênicos como na capacidade de captar um perturbador zeitgeist.
sexta-feira, setembro 13, 2019
No coração do mundo, de Gabriel e Maurílio Martins ***1/2
Em um primeiro momento, a narrativa de “No coração do mundo”
(2019) parece se configurar como uma sóbria junção de elementos de drama
intimista e crônica social, com uma trama que mostra as insatisfações
econômicas e existenciais de um grupo de personagens na periferia da cidade
mineira de Contagem (o mesmo cenário, aliás, dos memoráveis “A vizinhança do
tigre” e “Temporada”). O roteiro é bem delineado e aprofunda de maneira madura
os desejos e dilemas de seus personagens, impressão essa que se acentua pela
encenação que investe em um naturalismo de notável desenvoltura e que por vezes
evoca trejeitos documentais. Nesse sentido, é de se valorizar também um ótimo
trabalho de direção de elenco que valoriza tanto a espontaneidade amadora de
alguns atores quanto a precisão dramática de uma artista poderosa como Grace
Passô. De maneira sutil e coerente, entretanto, a narrativa vai se convertendo
ainda em um tenso thriller policial. O tradicional formato “planejamento de um
roubo perfeito” se insere com naturalidade na ambientação da trama e vai dando
para o filme uma atmosfera cada vez mais sufocante. De certa forma, é como se a
linhagem formal-temática do clássico cinema noir norte-americano e as trucagens
estéticas de Michael Mann se incorporassem de maneira mais que convincente
nesse contemporâneo cinema nacional de forte teor sócio-político. Essas
escolhas criativas, situada naquela zona limite entre a tradição e a
originalidade, se cristalizam de forma vigorosa no ato final de “No coração do
mundo”, em uma bela síntese entre ação cinematográfica, tensão dramática e
melancolia.
sábado, setembro 07, 2019
Vermelho sol, de Benjamin Naishtat ***1/2
O cineasta argentino vem construindo sua filmografia a
partir de um olhar bastante singular dentro do gênero do cinema político. Se em
“Bem perto de Buenos Aires” (2014) a narrativa partia de uma abordagem
intimista para chegar em uma ácida visão sobre os conflitos de classe e em “O
movimento” (2015) a aventura de época se convertia com sutileza demolidora no
retrato de um atavismo da opressão social, na obra mais recente do diretor, “Vermelho
sol” (2018), a estruturação de suspense traz em seu âmago uma recriação
assustadora e impiedosa da Argentina de meados dos anos 70 prestes a ser tomada
de vez por uma ditadura militar. A concepção formal/existencial de Naishtat
para o seu filme é cirúrgica – a narrativa se constrói aos poucos de maneira
sóbria, sem apelações. Nesse sentido, encenação e direção de fotografia compõem
uma obra de atmosfera sufocante, em que a impressão perturbadora de uma força
repressora a pairar sobre as relações humanas é constante. O roteiro de “Vermelho
sol” também se distancia dos meros maniqueísmos fáceis, ao evidenciar que as
ações totalitárias não partem simplesmente “de cima para baixo”, mas também são
corroboradas por uma classe média hipócrita, obscurantista e arrivista, o que
pode ser atestada na sinistra sequência de abertura do filme. Aliás, não muito
diferente do que acontece na sociedade brasileira atual governada pela besta
fera.
quinta-feira, setembro 05, 2019
O homem que matou Don Quixote, de Terry Gillian **
Todas as histórias e mitos que
envolveram a conturbada realização da particular visão do diretor Terry Gillian
sobre o personagem mais célebre da literatura ocidental estiveram por décadas
nos imaginários não só dos admiradores do cineasta em questão como dos
cinéfilos em geral – algumas delas, inclusive, acaram rendendo o extraordinário
documentário “Lost in La Mancha” (2002). Todos pensavam nas várias
possibilidades criativas que a recriação da figura de Don Quixote poderia
render nas mãos do artista que concebeu obras delirantes e antológicas como “Brazil
– O filme” (1985), “O barão de Munchausen” (1988), “Os doze macacos” (1995) e “Medo
e delírio em Las Vegas” (1998). Pois agora que finalmente a produção tão
desejada por Gilian e um considerável público se concretizou, a pergunta que
fica é: valeu a pena tanta espera e alarde? Diante do resultado final de “O
homem que matou Don Quixote” (2018), a resposta é um frustrante não. Não chega
a ser exatamente um filme ruim – é até pior que isso, pois a impressão
constante durante boa parte da narrativa é de um trabalho anódino, previsível,
sem graça. Toda aquela lógica estética-temática marcada por uma ligação
insólita entre o real e a fantasia que caracterizou boa parte do melhor da
filmografia de Gillian se sujeita e diminui a um barroquismo estéril e a uma
atmosfera de excessivo sentimentalismo. A impressão geral é a de releitura
equivocada do clássico de Cervantes por um viés desajeitado de realismo
fantástico típico de Garcia Marquez pela severa perspectiva anglo-saxã de
Gillian (aliás, nem parece que se trata de um ex-Monty Python). Ou seja,
Gillian realizou seu sonho, mas para boa parte da plateia é capaz que a lenda
de uma possível obra-prima que nunca se concretizou por infortúnios do destino seja
bem mais atraente.
segunda-feira, agosto 26, 2019
Abaixo a gravidade, de Edgar Navarro ***1/2
Talvez em tempos mais tranquilos e
menos brutalizados, um filme como “Abaixo a gravidade” (2019) poderia ser analisado
como uma obra a versar com melancolia e ironia, além de um viés surrealista,
sobre a velhice, em que a conexão com o filme mais celebrado de seu diretor, “Superoutro”
(1989), está justamente no contraponto em que este último representaria uma
explosiva manifestação estética e existencial enquanto que no longa mais
recente esse caráter de intensa anarquia artística foi filtrado por um olhar
mais sereno (ainda que igualmente desconcertante). Mas já que “Abaixo a
gravidade” foi lançado em meados de 2019, com o país dominado pelo designíos de
uma besta-fera e seus fervorosos admiradores/defensores, o trabalho de Navarro
ganho uma conotação ainda mais ampla e desafiadora. A trajetória do idoso Bené
(Everaldo Pontes) em busca de algum sentido em sua vida em meio a um caos
social e à indiferença de boa parte da sociedade se enquadra em uma narrativa
libertária e a um roteiro repleta de bizarras e poéticas simbologias. Bené busca
para sua vida uma síntese de paz interior, justiça social e possibilidade de extravasar
sua sexualidade e acaba esbarrando em mundo cada vez mais neurótico e desigual.
Na condução dessa pequena saga intimista, Navarro insere elementos de ficção
científica e algo de nonsense, sem nunca perder, entretanto, a coesão de
encenação e narrativa. Assim, aquilo que se inicia com uma abordagem realista
ao poucos se manifesta tanto como sombria fábula quanto como onirismo
encantador.
quinta-feira, agosto 08, 2019
Estou me guardando para quando o carnaval chegar, de Marcelo Gomes ****
Pode-se dizer que “Estou me guardando para quando o carnaval
chegar” (2019) tem como produção gêmea em termos artísticos/existenciais outra
obra expressiva do cinema nacional recente, a obra-prima “Arábia” (2017). Em
ambos os filmes, há uma visão humanista crítica e sutil sobre o “progresso”
sócio-econômico no Brasil deste século (e mesmo milênio) dentro de estruturas
estéticas-formais em que gêneros cinematográficos tradicionais são pervertidos
com elementos narrativos insólitos. No caso do documentário de Marcelo Gomes,
uma obra que a princípio poderia parecer uma investigação beirando o
jornalístico-histórico sobre uma cidade do interior pernambucano aos poucos se
converte em um amargo e irônico ensaio sensorial sobre os descaminhos da
sociedade capitalista contemporânea, com direito ainda a um certo viés
intimista/memorialista. O resultado final é desconcertante, principalmente no
confronto que se estabelece na visão de Gomes entre um passado idealizado e
mais humanizado e um presente marcado pela opressão mal disfarçada da busca
arrivista e incessante de ascensão sócio-econômica que automatiza e brutaliza
as individualidades. Entre os registros secos do cotidiano de trabalho manual e
mecânico constante e dos depoimentos entusiasmados daqueles que “venceram” na
vida, são inseridos na narrativa trechos reveladores de um atávico caráter
desafiador e malandro de parte dessas pessoas que ainda resistem, mesmo sem
saber, em se deixar suplantar totalmente por essa lógica conformista do “trabalho
dignificante”. Nesse sentido, o terço final da narrativa, quando a população de
Toritama desarma o seu conservador discurso “pró-trabalho eterno” e se rende a
alguns dias de diversão inconsequente no carnaval, é revelador dessa condição
de rebeldia e contestação quase involuntária que marca tanto o filme de Gomes
quanto a própria natureza de parcela do povo brasileiro.
quarta-feira, agosto 07, 2019
The mongolian connection, de Drew Thomas ***
Dentro dos cada vez mais restritivos (e obscuros) critérios
de escolhas do mercado de distribuição de filmes no Brasil, talvez o destino de
“The mongolian connection” (2019) fosse o de ser exibido por aqui em algum
serviço de streaming e olhe lá (até porque nem em DVD mais esse tipo de filme
tem chegado por aqui – afinal, ainda existe locadora disso?). Graças ao
FANTASPOA, entretanto, o espectador porto-alegrense teve a chance de ver essa
produção policial norte-americana independente na tela grande. Não há nada de
particularmente original no filme, mas é uma reciclagem bem eficaz e divertida
de clichês do gênero. As coreografias de tiroteios, porradarias e perseguições
automobilísticas são bem-feitas, encenação e caracterizações garantem alguma
densidade dramática e o roteiro até oferece exotismo ao situar grande parte da
ação na Mongólia. Ou seja, o diretor Drew Thomas pode estar distante de ser um
Michael Mann, mas pelo menos entrega um filme policial bem decente e que
sustenta o interesse do espectador por uma hora e meia. O que não deixa de ser
um feito.
segunda-feira, agosto 05, 2019
Deodato Holocaust, de Felipe Guerra ***
Quem acompanha o trabalho de Felipe Guerra sabe que ele,
além de cineasta, é um misto de admirador, incentivador e estudioso do gênero
fantástico no cinema, indo de clássicos do estilo até as mais excêntricas
obscuridades e tranqueiras do gênero. Assim, um filme como o documentário “Deodato
Holocaust” (2019) serve não apenas como uma interessante amostragem da carreira
artística do cineasta italiano Ruggero Deodato como também evidencia essas
diferentes facetas do próprio Guerra. A escolha narrativa de priorizar como fio
condutor um longo depoimento de seu protagonista é arriscada, pois poderia
fazer com que o longa tivesse um caráter estritamente histórico e jornalístico.
Guerra evita que seu filme caia nessa armadilha ao usar uma edição que sabe
conciliar com uma dinâmica inteligente trechos com declarações contundentes de
Deodato e expressivas imagens de arquivos e dos filmes mencionados pelo
diretor. Além disso, a entrevista ainda consegue evitar a simples enumeração de
fatos e datas, fazendo com que seu protagonista profira declarações que variam
entre confissões existenciais e artísticas e um misto de ironia e desafio na
forma com que Deodato enfrenta os pontos mais polêmicos levantados nas
perguntas feitas por Guerra e equipe (principalmente no que diz respeito à toda
controvérsia que envolveu a realização e lançamento de “Canibal holocausto”). E
no que era para ser um simples documentário biográfico de um diretor, a obra
destaca de maneira sutil um subtexto que faz o retrato de uma geração de
artistas que desenvolveram seus trabalhos dentro dos ditames comerciais e
estéticos da época (anos 60 e 70 e primeira metade dos 80), mas que preservaram
um senso artístico particular, herdeiro da influência de alguns mestres que os
antecederam e com quem até mesmo trabalharam (Dario Argento, Mario Bava e
Deodato foram colaboradores, respectivamente, de Sergio Leone, Federico Fellini
e Roberto Rossellini).
sexta-feira, julho 26, 2019
Quatro irmãos, de John Singleton ***
Recentemente falecido, o diretor norte-americano John
Singleton sempre passou a impressão de uma grande promessa que não seu cumpriu.
“Os donos da rua” (1991) criou uma forte expectativa em torno de seu nome por
se tratar de um trabalho vigoroso em torno de uma temática problemática
envolvendo racismo e jovens negros dos subúrbios envolvidos com a
criminalidade, revelando ainda alguns atores em início de carreira que depois
obtiveram algum prestígio. Ainda que fosse um trabalho memorável, em termos
formais e narrativos não trazia grandes ousadias, o que talvez caracterizasse
que a tal expectativa sobre seus próximos trabalhos fosse até exagerada. A
verdade é que Singleton se tornou um artesão competente dentro dos padrões comerciais
tradicionais do cinema de ação contemporâneo (e não o “grande cineasta autoral”
que a crítica e parte do público esperavam). Nesse sentido, “Quatro irmãos é um
trabalho emblemático dentro desse direcionamento artístico. É uma obra que traz
uma carga considerável dos clichês estéticos e temáticos inerentes ao gênero,
mas trabalhados de forma segura o suficiente para garantir o interesse da
plateia. Por outro lado, Singleton até se permite realizar algumas bem-sacadas
referências ao cinema blaxploitation, principalmente na utilização da trilha
sonora funk-soul e na encenação algo estilizada de algumas sequências. Ou seja,
nesses termos, “Quatro irmãos” por vezes até se mostra acima da média e fora do
rotineiro.
quarta-feira, julho 24, 2019
Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story By Martin Scorsese, de Martin Scorsese ****
Eu tenho uma espécie de convicção pessoal em relação ao
prêmio Nobel de literatura que Bob Dylan ganhou em 2016 – a de que uma das
razões para tal premiação, além dos motivos óbvios da grande qualidade
artística de boa parte das letras que compôs e do ótimo livro “Memórias”, seria
a genialidade de algumas entrevistas que ele concedeu ao longo de sua carreira.
Alguns desses depoimentos são verdadeiras pérolas de criação literária, onde a
realidade e a mitificação (ou simplesmente a mentira) se entrelaçam como uma
coisa só, dificultando a visualização da tênue fronteira que as separam. E é
esse caráter de brilhante loroteiro/contador de causos de Dylan que fica
explícito no “documentário ficcional” “Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story
By Martin Scorsese” (2019). Em um primeiro momento, o filme de Scorsese pode
parecer um simples registro da longa turnê misto de concertos e shows de
vaudeville que Dylan promoveu em meados dos anos 70. E é claro que estão lá a
captação de momentos musicais antológicos de tais apresentações. Só que com o
desenvolver da narrativa o universo do filme se expande para algo como uma
junção alucinada/poética que também inclui ensaio sócio-político repleto de
amarga ironia, inventário cultural iluminado e encenações maliciosas (até
depoimentos contemporâneos de Dylan e outras pessoas que estiveram envolvidas
com a Rolling Thunder se encontra nessa zona nebulosa entre a verdade e a
mentira). Assim como no brilhante “Não estou lá” (2007), o filme de Scorsese
está mais preocupado em expor a complexidade artística/existencial de Dylan do
que em simplesmente esclarecer de maneira linear detalhes da vida de seu
protagonista. As inquietações estéticas/temáticas do diretor e a síntese de
trovador lúcido e cara-de-pau jocoso composto na persona de Dylan resultam em
uma obra fascinante e repleta de obscuras e sedutoras nuances que exigem um
olhar atento e contemplativo do espectador para esse atordoante mosaico de
referências culturais e políticas, o que acaba se configurando como um grande
desafio artístico nesses tempos em que filmes conservadores/corporativos de
super-heróis se tornaram a grande referência cultural da sociedade ocidental.
segunda-feira, julho 22, 2019
Só você, de Norman Jewison **
Quando se vê nos créditos de um filme o nome de um cineasta
como Norman Jewison na direção, o mesmo cara que dirigiu filmes memoráveis como
“A mesa do diabo” (1965), “No calor da noite” (1967) e “Feitiço da lua” (1987),
além do fotógrafo favorito de Ingmar Bergman (Sven Nykvist), é claro que
expectativa só pode ser alta. O resultado final de “Só você” (1994),
entretanto, é tão banal e derivativo que fica difícil acreditar que os artistas
mencionados realmente trabalharam nesse abacaxi. Provavelmente deve ter faltado
algum dinheiro para pagar as contas para ambos e eles precisavam quebrar o
galho de alguma forma qualquer, pois em nenhum momento da narrativa dá para
perceber alguma espécie de transcendência estética ou temática. A não ser que
alguém ache divertido ver a Marisa Tomei tentando ser a nova Audrey Hepburn de
qualquer maneira.
sexta-feira, julho 19, 2019
Mulher infernal, de Dennis Dugan ***
O diretor norte-americano Dennis Dugan é uma espécie de
especialista de comédias na linhagem besteirol. Não quer dizer, entretanto, que
seja exatamente um exímio artesão no gênero. Pelo contrário – na maioria das
vezes, seus filmes oscilam entre o médio e o escancaradamente ruim. Por vezes,
consegue acertar e fazer algo de memorável. “Mulher infernal” (2001) é uma
dessas exceções. É uma obra que consegue ironizar com verve e boas sacadas
cômicas aqueles clichês machistas juvenis de uma parcela de “jovens adultos” do
seu país. Steve Zahn e Jack Black conseguem extrair de seus papéis cativantes
caracterizações e garantem boa parte do interesse pelo filme. É de se ressaltar
também um certo talento de Dugan na encenação de algumas sequências de humor
físico bem acentuado, beirando o pastelão grosseiro. No cômputo final, é claro
que está bem distante de ser uma obra-prima da comédia, mas é bem acima da
média em relação ao que Dugan costuma fazer.
quarta-feira, julho 17, 2019
Johnny English, de Peter Howitt *
Não adianta: a missão de vida de Rowan Atkinson é
interpretar o Mr. Bean. Fora do personagem, é como se o ator perdesse a sua
magia e ficasse ruminando maneirismos típicos de sua clássica criação. “Johnny
English” (2003) é exemplar claro disso – trata-se de mais uma recriação cômica
da figura de James Bond (desde os anos 60 periodicamente aparece alguma
produção fazendo isso...). Por vezes, o filme chega a ser quase engraçado,
principalmente em suas sequências iniciais. Lá pela metade da narrativa,
entretanto, o interesse pela obra já se dissipou e tudo fica chato de vez. No
fim das contas, é bem mais negócio rever algum episódio do Mr. Bean...
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