segunda-feira, fevereiro 10, 2020

A vida invisível, de Karim Ainouz **


Duas perguntas me vieram à cabeça quando terminei de assistir a “A vida invisível” (2019): por que raios um diretor como Karim Aïnouz fez algo tão insosso quanto esse filme? E por que justamente escolheram logo esse filme para representar o Brasil na edição do Oscar desse ano, e logo em 2019 quando várias produções nacionais bem mais relevantes e interessantes estrearam nos cinemas? Até que para a segunda pergunta a resposta não é tão difícil, afinal os órgãos governamentais “competentes” de um Brasil dominado pela besta fera não poderiam escolher filmes contestadores e inquietantes como “Bacurau” ou “Inferninho”. Não é que “A vida invisível” seja ruim – o filme é até bem fotografado e conta com algumas interpretações convincentes. Mas sua narrativa amorfa e roteiro previsível fazem tudo parecer um grande e entediante novelão global (é claro que com alguns aspectos formais mais atraentes). Ou seja, muito pouco para o diretor que tem em seu currículo filmes tão impactantes quanto “Viajo porque preciso, volto porque te amo” (2009) ou “Praia do futuro” (2014).

sexta-feira, fevereiro 07, 2020

Parasita, de Bong Joon Ho ***1/2


Dentro da filmografia do diretor sul-coreano Bong Joon Ho, “Parasita” (2019) talvez seja o seu filme mais acessível e pop, no sentido de um subtexto que se expõe de maneira mais explícita. Pode ser que isso se explique pelo próprio contexto sócio-político-existencial em que o filme foi lançado – no meio da ascensão mundial de uma linha ideológica de extrema direita que sintetiza neoliberalismo econômico desumanizador, nacionalismo canalha e obscurantismo religioso, uma obra a versar de maneira tão ácida e contundente sobre conflito de classes acaba tendo tanto um efeito catártico para alguns quanto perturbador para outros. Ainda que não tenha a precisão narrativa e estética de obras anteriores magníficas do cineasta como “Memórias de um assassino” (2003) e “O hospedeiro” (2006), “Parasita” apresenta uma interessante conjunção entre a estrutura formal de um suspense psicológico agoniante e uma temática repleta de ramificações complexas em termos de relações humanas, o que também ajuda a explicar a forte empatia que tem com grande parte do público.

quinta-feira, fevereiro 06, 2020

Coringa, de Todd Phillips ***


Não deixa de ser irônico que justamente no período em que o diretor norte-americano Martin Scorsese entrou em conflito com fãs e profissionais da indústria cinematográfica por criticar a hegemonia comercial e cultural dos filmes de super-herói na atualidade apareça uma produção tendo como protagonista o principal rival do Batman e que se mostre bastante influenciada em termos temáticos e narrativos em dois célebres filmes do mesmo Scorsese, “Taxi driver” (1976) e “O rei da comédia” (1982). E ainda mais curioso é que tal obra se torne uma das mais comentadas do ano, seja um tremendo sucesso de bilheteria e ganhe importantes prêmios em festivais e votações da crítica especializada. Nesse contexto, talvez o grande mérito (ou sorte) de “Coringa” (2019) seja o fato dessa produção dirigida por Todd Phillips captar um certo zeitgeist contemporâneo, ainda que um tanto por vias tortas e também em alguns momentos reproduzindo uma ótica existencial-política simplória. Na realidade, a percepção de que haja personagens clássicos da DC na trama revela uma certa tendência a forçar a barra por parte dos roteiristas, tendo em vista que o roteiro mostra tendência para o comentário social e para a tensão psicológica-intimista que poderia retratar a vida de qualquer um de uma multidão de pobres coitados vítimas da opressão social e indiferença afetiva típicas da sociedade ocidental capitalista do mundo atual. É como se personagens como o Coringa e Thomas Wayne fossem jogados ali na trama de uma forma arbitrária apenas para dar uma satisfação para o público ávido por mais um filme de super-herói. Passando por essa impressão incômoda, entretanto, o filme de Phillips até é bem envolvente por vezes, principalmente pela dinâmica narrativa engendrada pelo cineasta e pela interpretação à flor-da-pele de Joaquin Phoenix. Dá até para perdoar um pouco a visão reacionária do filme ao reduzir a revolta e desejo de mudanças de boa parte da população por uma sociedade mais justa como simples combustível para revoltas caóticas e violentas.

quarta-feira, fevereiro 05, 2020

Ad Astra, de James Gray ***


A conjunção entre o diretor norte-americano James Gray e o gênero ficção-científica parecia bastante promissora, mas o resultado final de “Ad Astra” (2019) fica bem aquém de tais expectativas. Não chega a ser exatamente um mau filme. Pelo contrário – a segura condução da narrativa por parte da Gray até torna o filme uma aventura espacial agradável. Mas apenas essa correção acaba sendo frustrante diante do notável currículo do cineasta. Falta maior estofo para as sequências mais dramáticas/intimistas, enquanto as cenas de ação se limitam a serem meramente competentes. A impressão é de que Gray se deixa obscurecer para fazer de seu trabalho apenas um veículo para o estrelismo de Brad Pitt.

terça-feira, fevereiro 04, 2020

Era uma vez em... Hollywood, de Quentin Tarantino ****


Se “Bastardos inglórios” (2009) e “Django livre” (2012) marcavam a guinada de Quentin Tarantino para um padrão mais tradicional de narrativa cinematográfica enquanto “Os oito odiados” (2015) parecia representar a retomada mais purista de sua linguagem própria, “Era uma vez em... Hollywood” (2019) representa justamente a cristalização da junção orgânica do classicismo estético-formal da cinematografia clássica norte-americana com o habitual padrão autoral do diretor. E o resultado disso é o filme mais poético e melancólico de Tarantino. Nesse sentido, a opção por uma formatação de fábula, já indicada no título do filme, não é gratuita ou mera piada. Ao reimaginar os fatos reais que levaram ao bárbaro assassinato coletivo de Sharon Tate e seus amigos pelo grupo de fanáticos liderados por Charles Mason, momento chave na decretação do fim do sonho contracultural na década de 60, Tarantino não só realiza uma síntese perfeita entre a homenagem e a ironia sobre o cenário cultural e a indústria cinematográfica da época como também evoca com sutileza o caráter simbólico daquilo que aconteceu no passado na construção de um presente mais desumanizado e desesperançado. A minuciosa recriação estilizada da época, o caráter icônico das interpretações do elenco e a encenação entre o caricatural e o solene formam um todo artístico de desconcertante encanto sensorial não apenas por uma questão técnica-formal, mas também por ressaltarem com tremenda sensibilidade a proposta estética-existencial do filme. Tarantino sempre fez questão em sua trajetória artística em se assumir como um diretor-cinéfilo e quando aborda essa paixão pelo cinema como uma das temáticas mais prementes de “Era uma vez em... Hollywood” faz precisamente isso da forma menos óbvia possível – citações e referências a momentos clássicos da mitologia cinematografia norte-americana se inserem na narrativa com notáveis coerência e originalidade, ajudando a formar um amplo e lúcido painel da relação entre cinema, mitologia sessentista e comentário sócio-político-cultural.

segunda-feira, fevereiro 03, 2020

Top 25 Melhores filmes de 2019


1)      Era uma vez em Hollywood, de Quentin Tarantino
2)      Clímax, de Gaspar Noé
3)      Palavra e imagem, de Jean-Luc Godard
4)      Suspiria, de Lucas Guadagnino
5)      Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles
6)      Rolling Thunder Revue, de Martin Scorsese
7)      Inferninho, de Guto Parente e Pedro Diógens
8)      A cidade dos piratas, de Otto Guerra
9)      Elegia de um crime, de Cristiano Burlan
10)   Estou me guardando para quando o carnaval chegar, de Marcelo Gomes
11)   Temporada, de André Novais Oliveira
12)   Em trânsito, de Christian Petzold
13)   A sombra do pai, de Gabriela Amaral Almeida
14)   No coração do mundo, de Gabriel Martins e Maurilio Martins
15)   Anos 90, de Jonah Hill
16)   O irlandês, de Martin Scorsese
17)   3 faces, de Jafar Panahi
18)   Vidro, de M. Night Shyamalan
19)   As filhas do fogo, de Albertina Carri
20)   Homem-Aranha no Aranhaverso, de Peter Ramsey, Bob Persichetti e Rodney Rothman
21)   Parasita, de Bong Joon-ho
22)   Divino amor, de Gabriel Mascaro
23)   A casa de veraneio, de Valeria Bruni Tedeschi
24)   Vermelho sol, de Benjamin Naishtat
25)   Compra-me um revólver, de Julio Hernández Condón

segunda-feira, dezembro 30, 2019

Os pássaros de Massachusetts, de Bruno de Oliveira ***


Tudo aquilo que parece aleatório ou casual em “Os pássaros de Massachusetts” (2019) na realidade revela um domínio rigoroso e notável da narrativa cinematográfica por parte do diretor Bruno de Oliveira. Os fatos da trama se sucedem de maneira fluida, beirando o espontâneo, mas o que dá realmente essa impressão de leveza é a encenação precisa engendrada pelo cineasta. O tratamento estético-existencial do filme evoca tanto clássicos de Eric Rohmer quanto a sofisticação narrativa disfarçada de amadorismo do coreano Hong Sang-soo, ou seja, a obra de Oliveira remete a um desconcertante híbrido de modernidade e nostalgia. Dentro dessa curiosa formatação, é de se destacar o registro audiovisual de uma Porto Alegre melancólica e crepuscular, mas que por vezes também soa como um insólito e algo encanador universo paralelo (em contraste, por exemplo, com o retrato depressivo e assustador da capital rio-grandense em “Tinta bruta”). Num contexto geral, uma das mais curiosas revelações do cinema gaúcho dos últimos anos.

sexta-feira, dezembro 27, 2019

Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles ****


Excessos tomam conta de “Bacurau” (2019). Mas são aqueles excessos típicos de quem assistiu muito filme bom na vida e quer colocar o máximo disso num filme só (além de deixar evidente algumas convicções existenciais/políticas). O grande mérito dos diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles é justamente fazer com que referências e citações não se amontoem como se fossem uma mera colcha de retalhos estética, realizando uma obra que tem uma unidade artística coerente e impressionante. O lírico sensorialismo de algumas sequências e o misto desconcertante de poesia e prosa de determinados diálogos remetem ao melhor do que o Cinema Novo e o Cinema Marginal brasileiros produziram em seus respectivos auges, assim como a encenação da violência tem algo do barroquismo brutal de mestres do faroeste como Peckimpah e Leone e mesmo do horror operístico de Fulci e Argento. E no meio desses arroubos formais e narrativos, preserva-se um senso humanista lúcido e comovente. Nesse conjunto artístico, cristaliza-se um trabalho emblemático para o cinema brasileiro, tanto em seus antológicos detalhes cênicos como na capacidade de captar um perturbador zeitgeist.

sexta-feira, setembro 13, 2019

No coração do mundo, de Gabriel e Maurílio Martins ***1/2


Em um primeiro momento, a narrativa de “No coração do mundo” (2019) parece se configurar como uma sóbria junção de elementos de drama intimista e crônica social, com uma trama que mostra as insatisfações econômicas e existenciais de um grupo de personagens na periferia da cidade mineira de Contagem (o mesmo cenário, aliás, dos memoráveis “A vizinhança do tigre” e “Temporada”). O roteiro é bem delineado e aprofunda de maneira madura os desejos e dilemas de seus personagens, impressão essa que se acentua pela encenação que investe em um naturalismo de notável desenvoltura e que por vezes evoca trejeitos documentais. Nesse sentido, é de se valorizar também um ótimo trabalho de direção de elenco que valoriza tanto a espontaneidade amadora de alguns atores quanto a precisão dramática de uma artista poderosa como Grace Passô. De maneira sutil e coerente, entretanto, a narrativa vai se convertendo ainda em um tenso thriller policial. O tradicional formato “planejamento de um roubo perfeito” se insere com naturalidade na ambientação da trama e vai dando para o filme uma atmosfera cada vez mais sufocante. De certa forma, é como se a linhagem formal-temática do clássico cinema noir norte-americano e as trucagens estéticas de Michael Mann se incorporassem de maneira mais que convincente nesse contemporâneo cinema nacional de forte teor sócio-político. Essas escolhas criativas, situada naquela zona limite entre a tradição e a originalidade, se cristalizam de forma vigorosa no ato final de “No coração do mundo”, em uma bela síntese entre ação cinematográfica, tensão dramática e melancolia.

sábado, setembro 07, 2019

Vermelho sol, de Benjamin Naishtat ***1/2


O cineasta argentino vem construindo sua filmografia a partir de um olhar bastante singular dentro do gênero do cinema político. Se em “Bem perto de Buenos Aires” (2014) a narrativa partia de uma abordagem intimista para chegar em uma ácida visão sobre os conflitos de classe e em “O movimento” (2015) a aventura de época se convertia com sutileza demolidora no retrato de um atavismo da opressão social, na obra mais recente do diretor, “Vermelho sol” (2018), a estruturação de suspense traz em seu âmago uma recriação assustadora e impiedosa da Argentina de meados dos anos 70 prestes a ser tomada de vez por uma ditadura militar. A concepção formal/existencial de Naishtat para o seu filme é cirúrgica – a narrativa se constrói aos poucos de maneira sóbria, sem apelações. Nesse sentido, encenação e direção de fotografia compõem uma obra de atmosfera sufocante, em que a impressão perturbadora de uma força repressora a pairar sobre as relações humanas é constante. O roteiro de “Vermelho sol” também se distancia dos meros maniqueísmos fáceis, ao evidenciar que as ações totalitárias não partem simplesmente “de cima para baixo”, mas também são corroboradas por uma classe média hipócrita, obscurantista e arrivista, o que pode ser atestada na sinistra sequência de abertura do filme. Aliás, não muito diferente do que acontece na sociedade brasileira atual governada pela besta fera.

quinta-feira, setembro 05, 2019

O homem que matou Don Quixote, de Terry Gillian **


Todas as histórias e mitos que envolveram a conturbada realização da particular visão do diretor Terry Gillian sobre o personagem mais célebre da literatura ocidental estiveram por décadas nos imaginários não só dos admiradores do cineasta em questão como dos cinéfilos em geral – algumas delas, inclusive, acaram rendendo o extraordinário documentário “Lost in La Mancha” (2002). Todos pensavam nas várias possibilidades criativas que a recriação da figura de Don Quixote poderia render nas mãos do artista que concebeu obras delirantes e antológicas como “Brazil – O filme” (1985), “O barão de Munchausen” (1988), “Os doze macacos” (1995) e “Medo e delírio em Las Vegas” (1998). Pois agora que finalmente a produção tão desejada por Gilian e um considerável público se concretizou, a pergunta que fica é: valeu a pena tanta espera e alarde? Diante do resultado final de “O homem que matou Don Quixote” (2018), a resposta é um frustrante não. Não chega a ser exatamente um filme ruim – é até pior que isso, pois a impressão constante durante boa parte da narrativa é de um trabalho anódino, previsível, sem graça. Toda aquela lógica estética-temática marcada por uma ligação insólita entre o real e a fantasia que caracterizou boa parte do melhor da filmografia de Gillian se sujeita e diminui a um barroquismo estéril e a uma atmosfera de excessivo sentimentalismo. A impressão geral é a de releitura equivocada do clássico de Cervantes por um viés desajeitado de realismo fantástico típico de Garcia Marquez pela severa perspectiva anglo-saxã de Gillian (aliás, nem parece que se trata de um ex-Monty Python). Ou seja, Gillian realizou seu sonho, mas para boa parte da plateia é capaz que a lenda de uma possível obra-prima que nunca se concretizou por infortúnios do destino seja bem mais atraente.

segunda-feira, agosto 26, 2019

Abaixo a gravidade, de Edgar Navarro ***1/2


Talvez em tempos mais tranquilos e menos brutalizados, um filme como “Abaixo a gravidade” (2019) poderia ser analisado como uma obra a versar com melancolia e ironia, além de um viés surrealista, sobre a velhice, em que a conexão com o filme mais celebrado de seu diretor, “Superoutro” (1989), está justamente no contraponto em que este último representaria uma explosiva manifestação estética e existencial enquanto que no longa mais recente esse caráter de intensa anarquia artística foi filtrado por um olhar mais sereno (ainda que igualmente desconcertante). Mas já que “Abaixo a gravidade” foi lançado em meados de 2019, com o país dominado pelo designíos de uma besta-fera e seus fervorosos admiradores/defensores, o trabalho de Navarro ganho uma conotação ainda mais ampla e desafiadora. A trajetória do idoso Bené (Everaldo Pontes) em busca de algum sentido em sua vida em meio a um caos social e à indiferença de boa parte da sociedade se enquadra em uma narrativa libertária e a um roteiro repleta de bizarras e poéticas simbologias. Bené busca para sua vida uma síntese de paz interior, justiça social e possibilidade de extravasar sua sexualidade e acaba esbarrando em mundo cada vez mais neurótico e desigual. Na condução dessa pequena saga intimista, Navarro insere elementos de ficção científica e algo de nonsense, sem nunca perder, entretanto, a coesão de encenação e narrativa. Assim, aquilo que se inicia com uma abordagem realista ao poucos se manifesta tanto como sombria fábula quanto como onirismo encantador.

quinta-feira, agosto 08, 2019

Estou me guardando para quando o carnaval chegar, de Marcelo Gomes ****


Pode-se dizer que “Estou me guardando para quando o carnaval chegar” (2019) tem como produção gêmea em termos artísticos/existenciais outra obra expressiva do cinema nacional recente, a obra-prima “Arábia” (2017). Em ambos os filmes, há uma visão humanista crítica e sutil sobre o “progresso” sócio-econômico no Brasil deste século (e mesmo milênio) dentro de estruturas estéticas-formais em que gêneros cinematográficos tradicionais são pervertidos com elementos narrativos insólitos. No caso do documentário de Marcelo Gomes, uma obra que a princípio poderia parecer uma investigação beirando o jornalístico-histórico sobre uma cidade do interior pernambucano aos poucos se converte em um amargo e irônico ensaio sensorial sobre os descaminhos da sociedade capitalista contemporânea, com direito ainda a um certo viés intimista/memorialista. O resultado final é desconcertante, principalmente no confronto que se estabelece na visão de Gomes entre um passado idealizado e mais humanizado e um presente marcado pela opressão mal disfarçada da busca arrivista e incessante de ascensão sócio-econômica que automatiza e brutaliza as individualidades. Entre os registros secos do cotidiano de trabalho manual e mecânico constante e dos depoimentos entusiasmados daqueles que “venceram” na vida, são inseridos na narrativa trechos reveladores de um atávico caráter desafiador e malandro de parte dessas pessoas que ainda resistem, mesmo sem saber, em se deixar suplantar totalmente por essa lógica conformista do “trabalho dignificante”. Nesse sentido, o terço final da narrativa, quando a população de Toritama desarma o seu conservador discurso “pró-trabalho eterno” e se rende a alguns dias de diversão inconsequente no carnaval, é revelador dessa condição de rebeldia e contestação quase involuntária que marca tanto o filme de Gomes quanto a própria natureza de parcela do povo brasileiro.

quarta-feira, agosto 07, 2019

The mongolian connection, de Drew Thomas ***


Dentro dos cada vez mais restritivos (e obscuros) critérios de escolhas do mercado de distribuição de filmes no Brasil, talvez o destino de “The mongolian connection” (2019) fosse o de ser exibido por aqui em algum serviço de streaming e olhe lá (até porque nem em DVD mais esse tipo de filme tem chegado por aqui – afinal, ainda existe locadora disso?). Graças ao FANTASPOA, entretanto, o espectador porto-alegrense teve a chance de ver essa produção policial norte-americana independente na tela grande. Não há nada de particularmente original no filme, mas é uma reciclagem bem eficaz e divertida de clichês do gênero. As coreografias de tiroteios, porradarias e perseguições automobilísticas são bem-feitas, encenação e caracterizações garantem alguma densidade dramática e o roteiro até oferece exotismo ao situar grande parte da ação na Mongólia. Ou seja, o diretor Drew Thomas pode estar distante de ser um Michael Mann, mas pelo menos entrega um filme policial bem decente e que sustenta o interesse do espectador por uma hora e meia. O que não deixa de ser um feito.

segunda-feira, agosto 05, 2019

Deodato Holocaust, de Felipe Guerra ***


Quem acompanha o trabalho de Felipe Guerra sabe que ele, além de cineasta, é um misto de admirador, incentivador e estudioso do gênero fantástico no cinema, indo de clássicos do estilo até as mais excêntricas obscuridades e tranqueiras do gênero. Assim, um filme como o documentário “Deodato Holocaust” (2019) serve não apenas como uma interessante amostragem da carreira artística do cineasta italiano Ruggero Deodato como também evidencia essas diferentes facetas do próprio Guerra. A escolha narrativa de priorizar como fio condutor um longo depoimento de seu protagonista é arriscada, pois poderia fazer com que o longa tivesse um caráter estritamente histórico e jornalístico. Guerra evita que seu filme caia nessa armadilha ao usar uma edição que sabe conciliar com uma dinâmica inteligente trechos com declarações contundentes de Deodato e expressivas imagens de arquivos e dos filmes mencionados pelo diretor. Além disso, a entrevista ainda consegue evitar a simples enumeração de fatos e datas, fazendo com que seu protagonista profira declarações que variam entre confissões existenciais e artísticas e um misto de ironia e desafio na forma com que Deodato enfrenta os pontos mais polêmicos levantados nas perguntas feitas por Guerra e equipe (principalmente no que diz respeito à toda controvérsia que envolveu a realização e lançamento de “Canibal holocausto”). E no que era para ser um simples documentário biográfico de um diretor, a obra destaca de maneira sutil um subtexto que faz o retrato de uma geração de artistas que desenvolveram seus trabalhos dentro dos ditames comerciais e estéticos da época (anos 60 e 70 e primeira metade dos 80), mas que preservaram um senso artístico particular, herdeiro da influência de alguns mestres que os antecederam e com quem até mesmo trabalharam (Dario Argento, Mario Bava e Deodato foram colaboradores, respectivamente, de Sergio Leone, Federico Fellini e Roberto Rossellini).

sexta-feira, julho 26, 2019

Quatro irmãos, de John Singleton ***


Recentemente falecido, o diretor norte-americano John Singleton sempre passou a impressão de uma grande promessa que não seu cumpriu. “Os donos da rua” (1991) criou uma forte expectativa em torno de seu nome por se tratar de um trabalho vigoroso em torno de uma temática problemática envolvendo racismo e jovens negros dos subúrbios envolvidos com a criminalidade, revelando ainda alguns atores em início de carreira que depois obtiveram algum prestígio. Ainda que fosse um trabalho memorável, em termos formais e narrativos não trazia grandes ousadias, o que talvez caracterizasse que a tal expectativa sobre seus próximos trabalhos fosse até exagerada. A verdade é que Singleton se tornou um artesão competente dentro dos padrões comerciais tradicionais do cinema de ação contemporâneo (e não o “grande cineasta autoral” que a crítica e parte do público esperavam). Nesse sentido, “Quatro irmãos é um trabalho emblemático dentro desse direcionamento artístico. É uma obra que traz uma carga considerável dos clichês estéticos e temáticos inerentes ao gênero, mas trabalhados de forma segura o suficiente para garantir o interesse da plateia. Por outro lado, Singleton até se permite realizar algumas bem-sacadas referências ao cinema blaxploitation, principalmente na utilização da trilha sonora funk-soul e na encenação algo estilizada de algumas sequências. Ou seja, nesses termos, “Quatro irmãos” por vezes até se mostra acima da média e fora do rotineiro.

quarta-feira, julho 24, 2019

Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story By Martin Scorsese, de Martin Scorsese ****


Eu tenho uma espécie de convicção pessoal em relação ao prêmio Nobel de literatura que Bob Dylan ganhou em 2016 – a de que uma das razões para tal premiação, além dos motivos óbvios da grande qualidade artística de boa parte das letras que compôs e do ótimo livro “Memórias”, seria a genialidade de algumas entrevistas que ele concedeu ao longo de sua carreira. Alguns desses depoimentos são verdadeiras pérolas de criação literária, onde a realidade e a mitificação (ou simplesmente a mentira) se entrelaçam como uma coisa só, dificultando a visualização da tênue fronteira que as separam. E é esse caráter de brilhante loroteiro/contador de causos de Dylan que fica explícito no “documentário ficcional” “Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story By Martin Scorsese” (2019). Em um primeiro momento, o filme de Scorsese pode parecer um simples registro da longa turnê misto de concertos e shows de vaudeville que Dylan promoveu em meados dos anos 70. E é claro que estão lá a captação de momentos musicais antológicos de tais apresentações. Só que com o desenvolver da narrativa o universo do filme se expande para algo como uma junção alucinada/poética que também inclui ensaio sócio-político repleto de amarga ironia, inventário cultural iluminado e encenações maliciosas (até depoimentos contemporâneos de Dylan e outras pessoas que estiveram envolvidas com a Rolling Thunder se encontra nessa zona nebulosa entre a verdade e a mentira). Assim como no brilhante “Não estou lá” (2007), o filme de Scorsese está mais preocupado em expor a complexidade artística/existencial de Dylan do que em simplesmente esclarecer de maneira linear detalhes da vida de seu protagonista. As inquietações estéticas/temáticas do diretor e a síntese de trovador lúcido e cara-de-pau jocoso composto na persona de Dylan resultam em uma obra fascinante e repleta de obscuras e sedutoras nuances que exigem um olhar atento e contemplativo do espectador para esse atordoante mosaico de referências culturais e políticas, o que acaba se configurando como um grande desafio artístico nesses tempos em que filmes conservadores/corporativos de super-heróis se tornaram a grande referência cultural da sociedade ocidental.

segunda-feira, julho 22, 2019

Só você, de Norman Jewison **


Quando se vê nos créditos de um filme o nome de um cineasta como Norman Jewison na direção, o mesmo cara que dirigiu filmes memoráveis como “A mesa do diabo” (1965), “No calor da noite” (1967) e “Feitiço da lua” (1987), além do fotógrafo favorito de Ingmar Bergman (Sven Nykvist), é claro que expectativa só pode ser alta. O resultado final de “Só você” (1994), entretanto, é tão banal e derivativo que fica difícil acreditar que os artistas mencionados realmente trabalharam nesse abacaxi. Provavelmente deve ter faltado algum dinheiro para pagar as contas para ambos e eles precisavam quebrar o galho de alguma forma qualquer, pois em nenhum momento da narrativa dá para perceber alguma espécie de transcendência estética ou temática. A não ser que alguém ache divertido ver a Marisa Tomei tentando ser a nova Audrey Hepburn de qualquer maneira.

sexta-feira, julho 19, 2019

Mulher infernal, de Dennis Dugan ***


O diretor norte-americano Dennis Dugan é uma espécie de especialista de comédias na linhagem besteirol. Não quer dizer, entretanto, que seja exatamente um exímio artesão no gênero. Pelo contrário – na maioria das vezes, seus filmes oscilam entre o médio e o escancaradamente ruim. Por vezes, consegue acertar e fazer algo de memorável. “Mulher infernal” (2001) é uma dessas exceções. É uma obra que consegue ironizar com verve e boas sacadas cômicas aqueles clichês machistas juvenis de uma parcela de “jovens adultos” do seu país. Steve Zahn e Jack Black conseguem extrair de seus papéis cativantes caracterizações e garantem boa parte do interesse pelo filme. É de se ressaltar também um certo talento de Dugan na encenação de algumas sequências de humor físico bem acentuado, beirando o pastelão grosseiro. No cômputo final, é claro que está bem distante de ser uma obra-prima da comédia, mas é bem acima da média em relação ao que Dugan costuma fazer.

quarta-feira, julho 17, 2019

Johnny English, de Peter Howitt *


Não adianta: a missão de vida de Rowan Atkinson é interpretar o Mr. Bean. Fora do personagem, é como se o ator perdesse a sua magia e ficasse ruminando maneirismos típicos de sua clássica criação. “Johnny English” (2003) é exemplar claro disso – trata-se de mais uma recriação cômica da figura de James Bond (desde os anos 60 periodicamente aparece alguma produção fazendo isso...). Por vezes, o filme chega a ser quase engraçado, principalmente em suas sequências iniciais. Lá pela metade da narrativa, entretanto, o interesse pela obra já se dissipou e tudo fica chato de vez. No fim das contas, é bem mais negócio rever algum episódio do Mr. Bean...