São infindáveis as críticas e artigos dedicados a louvar os
méritos artísticos ao longo das últimas décadas da clássica produção cômica
norte-americana “Contrastes humanos” (1941). E realmente é quase inquestionável
que o filme do diretor Preston Sturges representa uma síntese formal-temática
perfeita daquilo que se convencionou denominar comédia maluca. A encenação
dinâmica, o carisma do elenco, os diálogos afiados e o subtexto irônico a expor
os interesses econômicos e a fogueira das vaidades da Hollywood da época são
traços marcantes de uma obra que se mostra atemporal. Confesso, entretanto, que
ao rever o filme recentemente fiquei incomodado com o tom moralizante e
conservador do roteiro. Talvez os atribulados tempos que vivemos na atualidade
colaborem para tal percepção, principalmente nessa conjunção de obscurantismo e
cinismo que tomou o Brasil e boa parte do mundo ocidental. A conclusão do filme
que ressalta a necessidade primordial do cinema de oferecer diversão escapista
para o espectador visando atenuar a dureza da realidade na qual ele está
inserido soa demasiadamente conivente com o processo progressivo de alienação e
brutalização que sempre assolou a sociedade capitalista-cristã.
Boa parte de amigos e conhecidos costuma dizer que as minhas recomendações para filmes funcionam ao contrário: quando eu digo que o filme é bom é porque na realidade ele é uma bomba, e vice-versa. Aí a explicação para o nome do blog... A minha intenção nesse espaço é falar sobre qualquer tipo de filme: bons e ruins, novos ou antigos, blockbusters ou obscuridades. Cotações: 0 a 4 estrelas.
quinta-feira, abril 04, 2019
quarta-feira, abril 03, 2019
Diga amém, alguém, de George T. Niereberg ****
Se a estrutura narrativa caótica de “Ornette: Made in
America” (1985) evoca a música repleta de improvisos e experimentações de seu
protagonista, o documentário “Diga amém, alguém” (1982) se vincula a um
formalismo mais convencional em sintonia com o caráter tradicional do ritmo
musical que coloca em cena, o gospel. Isso não quer dizer que o filme dirigido
por George T. Niereberg seja menos inquietante, pois dentro dessa estética
baseada em modelos clássicos a obra consegue transmitir muito da força
artística e emocional do gospel. O documentário se focaliza em duas figuras
importantes do gênero, o compositor e cantor Thomas A. Dorsey e a cantora
Willie Mae Ford Smith, com uma narrativa que se baseia em dois elementos
bastante utilizados no cinema verdade concentrado na temática musical:
depoimentos dos protagonistas e “coadjuvantes” (parentes, amigos, admiradores)
e números musicais. Só que Niereberg executa tais princípios com brilho e
convicção, sabendo extrair tanto informações preciosas quanto emoções genuínas
nas entrevistas, além de valorizar com sensibilidade todos os saborosos
detalhes cênicos das apresentações musicais nos cultos. E não se trata aqui de
querer converter espectadores para o protestantismo – filme não se interessa em
se aprofundar no proselitismo religioso, dando a entender que o fator místico
seria um oportuno pretexto na elaboração e interpretação de uma música de
caráter tão transcendente e intenso, além de enfatizar em algumas pequenas
nuances o teor conservador e machista da visão de mundo do protestantismo, em
uma curiosa contradição com as expansivos e pungentes canções que provem de
seus cultos.
terça-feira, abril 02, 2019
Ornette: Made in America, de Shirley Clarke ****
A conexão literatura-música-cinema que se estabelece no
encontro entre o músico Ornette Coleman e o escritor Burroughs é mais lembrada pelo
público em geral pelo filme “Mistérios e paixões” (1991), obra-prima dirigida
por David Cronenberg que adaptava o clássico livro de Burroughs, “O almoço nu”,
e que também contava em sua trilha sonora com alguns temas compostos e tocados
por Coleman. A ligação entre os dois artistas é mais do que natural – os escritos
derivados da escola beat concebidos por Burroughs são praticamente um equivalente
existencial-literário para o free jazz alucinado de Coleman. Em “Ornette: Made
in America” (1985) esse encontro entre esses dois titãs culturais dos Estados
Unidos já havia sido registrado, filme esse de impacto artístico equiparável
àquele de Cronenberg. O longa dirigido por Shirley Clarke é um misto de
documentário biográfico e ensaio poético-visual a retratar a vida e arte de
Coleman. A fórmula narrativa de contar a história de uma vida de maneira linear
seria insuficiente para dar uma efetiva ideia do significado dessa figura
singular da música contemporânea. Assim, Clarke opta por um fluxo sensorial
desconcertante, que varia entre o encanto e a perturbação. A narrativa tem como
eixo principal uma apresentação de seu protagonista com sua banda junto a uma
orquestra sinfônica da sua cidade natal no Texas. O que parece inicialmente uma
rendição de Coleman a um formato tradicional e “respeitável” de execução e
composição musicais aos poucos se revela como uma sofisticada desconstrução de
parâmetros rítmicos, harmônicos e melódicos. E esse é justamente o procedimento
formal adotado por Clarke na condução de seu filme – ao invés de se limitar a
um formato convencional de junção de entrevistas e cenas de arquivos, a
diretora mistura tais recursos com encenação estilizada, trucagens/colagens bem-humoradas
e digressões existenciais/artísticas de Coleman tentando explicar a sua música,
sempre tendo por base uma edição que transforma tudo isso em um vórtice audiovisual
de sensações e ideias que aproximam o espectador da musicalidade à flor-da-pele
do artista, mas sempre preservando a aura de mistério e estranheza dessa
particular forma de arte. Poucas vezes na história do cinema um documentário
sobre um artista se mostrou em tamanha sintonia com seu personagem principal
quanto “Ornette: Made in America”.
segunda-feira, abril 01, 2019
Elegia de um crime, de Cristiano Burlan ****
Acredito que tanto em sua realização artística quanto na
análise crítica que possa gerar, o documentário “Elegia de um crime” (2018)
passa por uma profunda questão ética. A partir do fato de que sua construção
narrativa e sua formulação de subtexto se vinculam a uma perturbadora tragédia
pessoal de seu realizador, o diretor Cristiano Burlan, pode-se pensar o quanto é
válido usar um fato real tão pessoal para atingir determinados fins estéticos e
temáticos, assim como o quanto crítica e o público têm o direito de o direito e
capacidade de fazerem um julgamento existencial-artístico sobre aquilo que se viu
na tela. O resultado final da obra, entretanto, é tão impressionante que ela
acaba transcendendo tais tipos de considerações. Se em “Mataram meu irmão”
(2013) ele já havia enveredado pelo documentário-memorialista de maneira
memorável, nesse trabalho mais recente o seu amadurecimento como cineasta faz
com que a sua investigação autoral e intimista sobre a conturbada vida de sua
mãe e a sua brutal morte pelas mãos do companheiro se mostre afiada em termos
formais e com uma densidade humanista impressionante. Toda a narrativa é
perpassada pelos sentimentos de raiva, frustração e culpa de Burlan pelo
melancólico destino de sua mãe, com ele não se furtando em momento algum em se
colocar em cena como personagem essencial em seu filme, mas também há no longa
uma elaboração de encenação e mesmo de roteiro que fazem de “Elegia de um crime”
também um panorama desolado da pobreza, da falta de perspectivas sociais e do
machismo opressor de uma sociedade brasileira contemporânea e decadente. Nos
depoimentos de parentes e amigos de sua mãe, o diretor consegue extrair uma
pungência à flor-da-pele, assim como também tem sucesso em fazer com que a
captação da ação cinematográfica tenha tensão dramática eletrizante. Não se
pode dizer com precisão se “Elegia de um crime” foi catártico o suficiente para
que o seu realizador ficasse mais em paz com deus demônios internos, mas para o
público se trata de uma experiência cinematográfica que provavelmente ficará
colada em seu imaginário por um bom tempo.
sexta-feira, março 29, 2019
Nós, de Jornan Peele ***1/2
Há um forte ponto comum entre “Nós” (2019) e “Corra!”
(2017), o filme anterior do diretor Jordan Peele – são narrativas que em suas
metades iniciais se formatam no gênero horror, mas que depois adquirem traços
de ficção científica (ainda que sempre carregadas no grafismo sangrento),
principalmente no sentido de que procuram uma causa “científica” para aquilo
que aparentemente seria sobrenatural. No filme mais recente, Peele até investe
mais em uma sutil simbologia do que em amarrar pontas soltas da trama. Assim, a
efetiva força da obra está em sua vigorosa encenação e em algumas nuances do
roteiro. Nesse sentido, é interessante reparar como aquela primeira sequência
da praia, aparentemente “amena”, seja bastante reveladora de um subtexto bem
ácido na forma com que disseca as hipocrisias e tensões nas relações humanas
dentro de uma sociedade capitalista marcada por diferenças de classes e raciais
– em meio a conversas civilizadas entre os membros de duas famílias à beira-mar
se pode constatar sutis ressentimentos e invejas entre os dois clãs. Quando a
narrativa chega finalmente nos momentos de violência e ação mais predominantes
tais conflitos que se encontravam antes em um plano platônico/existencial se
materializam com fúria desmedida – a família de Adelaide (Lupita Nyong’o) pode
até se valer da brutalidade para fins de sobrevivência, mas também revela uma
certa facilidade na forma com que ferem e matam seus antagonistas
(principalmente os duplos da família com que haviam se encontrado na praia).
Talvez isso seja o mais perturbador em “Nós” – a de como a fronteira entre a
civilização e a luta bárbara pela sobrevivência é tênue. Por mais que haja a
justificativa da presença de duplos perversos e selvagens, o limite que os
separa das pessoas “normais” não apresenta tantas dificuldades em ser
transposto. Um cenário que beira o apocalíptico parece ser encarado pelos personagens
(e o mundo que os cerca) quase como se fosse um caminho natural para a
humanidade.
quinta-feira, março 28, 2019
As filhas do fogo, de Albertina Carri ***1/2
Desde que se convencionou como gênero cinematográfico, a
pornografia, na grande maioria de suas produções, tem como pilares
estéticos-existenciais pelos menos dois grandes princípios – suas coreografias
eróticas visam satisfazer desejos e fantasias eminentemente masculinas e aquilo
que se poderia entender como roteiro na verdade seria mero pretexto para várias
sequências de sexo explícito. Em “As filhas do fogo” (2018), a diretora
argentina Albertina Carri brinca e subverte com tais fundamentos na forma com
que articula a sua narrativa. Não se trata de uma obra essencialmente
pornográfica, mas sim de um drama político-existencial de questionamento do
patriarcalismo e de exposição/valorização do prazer feminino que incorpora
elementos da pornografia. Há um senso de presença de trama, com essa,
entretanto, se esvanecendo aos poucos, sem a necessidade de existência dos
mecanismos convencionais da escrita para cinema, para que o filme se converta
em um fluxo sensorial de erotismo, poesia, ensaio filosófico/visual e onirismo.
Ou seja, o roteiro que se submete aparentemente ao furor erótico e libertário de
transas homoeróticas femininas. O fato de uma das personagens principais ser
uma cineasta acentua ainda mais a impressão de uma obra de caráter artístico
que beira o metalinguístico na forma com que expõe seus questionamentos
temáticos e os seus dilemas estéticos. A grande quantidade e variedade de
sequenciais de sexo não implica em uma saturação dos sentidos, mas sim na
configuração da possibilidade de amplitude dos papeis sexuais nessas relações
sentimentais-carnais (ativo e passivo, dominador e dominado, feminilizado e
masculinizado). No choque de preceitos de gêneros cinematográficos distintos a
sensação primordial é de que a narrativa se quebra e se torna uma estrada que
nunca termina, sem a necessidade de uma conclusão moralizante ou uma solução
final para as suas personagens. Bastam que elas existam e transem para
sempre...
terça-feira, março 26, 2019
A casa de veraneio, de Valeria Bruni Tedeschi ***1/2
As produções francesas “A casa de veraneio” (2018) e “Uma
casa à beira-mar” (2017), ainda que aparentemente de forma involuntária,
guardam fortes conexões artísticas-existenciais – são obras que partem de
início de uma abordagem de caráter intimista ao retratar conturbadas relações
familiares e amorosas, mas que aos poucos vão se configurando como sutis
alegorias sócio-políticas a retratar a crise moral e ideológica do mundo
ocidental contemporâneo. Se o filme de Robert Guédiguian tem uma narrativa de
caráter francamente realista, o longa dirigido pela também atriz Valeria Bruni
Tedeschi por vezes se permite inserir perturbadores toques oníricos e
metafísicos. “A casa de veraneio” tem sua força concentrada em uma encenação
vigorosa e em um roteiro repleto de achados de simbologia que variam entre a
ironia cortante e a pungência. Se por um lado a trama focaliza as dores
sentimentais da protagonista Anna (Tedeschi) e os conflitos repletos de
ressentimentos de sua família em uma mansão de veraneio na Côte d’Azur, por
outro também revela o cotidiano de exploração e alienação de seus empregados
perdidos entre frustrações pessoais e escapadas eróticas. A contraposição entre
tais classes sociais parece evocar os jogos sexuais e sardônicos de “A regra do
jogo” (1939), clássico do cinema francês. Esse vórtice de desejos e sentimentos
é captado por Nathalie (Noémie Lvovsky), uma escritora/roteirista de esquerda
convidada na mansão e que é atropelada/tragada por toda essa situação confusa.
Se Ana, diretora de cinema, vê todo o caos ao seu redor como fonte de
inspiração para seus filmes, refletindo uma postura de egoísmo e até alguma
indiferença pelos desdobramentos beirando o trágico de todos esses conflitos,
Nathalie procura a reflexão crítica ao observar uma situação que serve como
metáfora de uma Europa já desgastada pelos opressivos valores sócio-econômicos neoliberais.
Nesse sentido, a presença da filha adotiva negra e africana de Ana na trama
está muito longe do gratuita – na sua doçura infantil e mesmo na sua surpreendente
lucidez sobre a realidade dos “adultos” que estão à sua volta, fica evidente a
projeção de um futuro de renovação para a Europa que passa longe de velhos
padrões brancos, colonialistas e patriarcais.
sexta-feira, março 22, 2019
Onde está você, João Gilberto?, de Georges Cachot ***
Um diretor francês faz uma reconstituição audiovisual do
percurso de um escritor alemão que veio ao Brasil e tentou se encontrar
pessoalmente com o mestre da bossa nova João Gilberto. A premissa da trama do
roteiro do documentário “Onde está você, João Gilberto?” (2018) pode fazer parecer
que a produção dirigida por Georges Cachot se trata apenas de mero exotismo ou
excentricidade cômica. Com o desenrolar da narrativa, entretanto, o filme vai
adquirindo de maneira sutil contornos mais sombrios e misteriosos. Até porque
logo no início se fica sabendo que Marc Fischer, o mencionado escritor
germânico, acabou por cometer suicídio pouco depois de concluir o livro em que
narrava a sua busca infrutífera por um encontro com seu ídolo musical. A
motivação de livro e filme em suas respectivas buscas é a arte serena e
sofisticada perpetrada pelo músico baiano, mas o resultado final da produção é
bem distante dessa leveza artística. O que fica evidente em cena é um estudo algo
perturbador sobre a obsessão doentia em vários de seus níveis, indo do desejo
exagerado de Fischer e Cachot em ver de perto João Gilberto até o comportamento
beirando maníaco do cantor e violinista em manter a sua privacidade a qualquer
custo. No processo, o filme acaba fazendo uma espécie de inventário existencial/artístico
da bossa nova e seus desdobramentos ao juntar depoimentos e números musicais de
alguns dos principais personagens do movimento como Marcos Valle, João Donato e
Miúcha, com destaque para a entrevista com Roberto Menescal, quando esse
descreve João Gilberto como uma fonte de negativismo com suas manias e
esquisitices a obrigar aqueles que estão à sua volta a lhe obedecerem de
maneira quase incondicional. Diante de uma procura que vai se tornando cada vez
mais sem saída, Cachot perverte a própria obra, que em seus momentos finais
abandona o puro cinema verdade e adquire o formato de uma encenação a refletir
um desejo que nunca sairá do plano platônico (ou dos sonhos?).
quinta-feira, março 21, 2019
Gimme danger, de Jim Jarmusch ***
Para quem conhece a trajetória de Jim Jarmusch e gosta de
Stooges, “Gimme danger” (2016) pode ser um tanto decepcionante. Jarmusch sempre
demonstrou ter uma ligação forte com a música em seus filmes, vide obras
memoráveis como “Trem mistério” (1989) e “Year of the horse” (1997). A carreira
dos Stooges foi marcada por grandes doses de confusão, bizarrices e sordidez,
matéria-prima que seria um prato cheio para um cineasta mais afeito à cultura
underground como Jarmusch. O documentário que conta a história da banda,
entretanto, peca por um tratamento por vezes excessivamente reverente e convencional,
beirando o institucional. O terço final da narrativa, por exemplo, é um balde
de água fria ao captar o processo de aceitação dos Stooges pelo
establishment/mainstream, com direito, inclusive, a entrar no Rock and Roll
Hall of Fame, premiação de viés ostensivamente conservador. Apesar de tais
escorregadas, o filme ainda assim merece conferida por dois motivos óbvios: a
música dos Stooges em seu período mais produtivo (segunda metade dos anos 60 e
primeira dos 70) configura uma das melhores páginas da história do rock e
Jarmusch é um diretor muito acima da média mesmo em trabalhos menos inspirados.
Há farto e precioso material de arquivo a mostrar os anos loucos de existência
dos Stooges, além de alguns depoimentos entre o cômico e o pungente de
ex-integrantes, e em alguns momentos Jarchusch consegue dar uma dinâmica
narrativa interessante para todo esse conteúdo. Ou seja, no mínimo “Gimme
danger” consegue ser informativo e divertido.
quarta-feira, março 20, 2019
Lazzaro felice, de Alice Rorwacher ****
A fronteira entre o realismo e o fantástico já havia sido
explorada de maneira memorável pela diretora Alice Rohrwacher em “As maravilhas”
(2015). Em “Lazzaro felice” (2018) ela retoma essa abordagem artística com
vigor e originalidade ainda maiores. A obra é algo como se o naturalismo
poético de “A árvores dos tamancos” (1978) fosse contaminado pelos tons
alegóricos das narrativas audiovisuais de Pasolini. A primeira parte do filme,
desenvolvida no âmbito rural, evoca um neo-realismo tardio, mas pertinente,
expondo um subtexto de forte teor de crítica social relativo a exploração
econômica e cultural. Na segunda parte da narrativa, com a ação se voltando
para um contexto urbano, a atmosfera envereda por uma síntese estranha entre a
ironia e o místico, mas permanecendo com sutileza uma visão sócio-econômica
pessimista sobre as relações humanas. A obra aos poucos vai se configurando
como uma parábola religiosa, em que algumas passagens da trama são claras
citações a histórias bíblicas. Ao invés de acentuar beatitude ou alguma
transcendência mística, entretanto, tais citações à religiosidade cristã acabam
se revelando como ácidas alfinetadas na hipocrisia moral da sociedade
contemporânea, estabelecendo as contradições do discurso religioso
institucional com os sentimentos e atitudes de mesquinharia e perversidade
inerentes a um ordenamento capitalista-cristão. Nessa sua obra-diatribe,
Rorwacher estabelece algo de atemporal em sua abordagem estética-existencial,
em que passado e presente se mostram por vezes quase indistintos quando se
trata de expor que os mecanismos de opressão sobre os desfavorecidos pouco se
alteraram nos últimos séculos.
terça-feira, março 19, 2019
Roma, de Alfonso Cuarón ****
Depois de passar quase duas décadas envolvido com produções
dentro do gênero fantástico (onde foi muito bem-sucedido, por sinal), o diretor
mexicano Alfonso Cuarón volta a trabalhar na linha do drama que alia intimismo
e temática social, na intenção de formar uma espécie de panorama
sócio-político-existencial do seu país. Se em “E sua mãe também” (2001) ele
focava o seu olhar nos preconceitos e desventuras afetivas da classe média alta,
em “Roma” (2018) a trama se concentra de maneira mais aguda na rotina dos
desfavorecidos social e economicamente, mais especificamente dos descendentes
indígenas, ainda que haja a presença forte do quotidiano de uma família
pequeno-burguesa. Para isso, Cuarón aposta em uma fórmula narrativa de talhe
clássico – direção de fotografia de tons que beiram o épico, edição de ritmo
sereno e atmosfera de sobriedade emocional (ainda que o roteiro tenha fortes
pendores sentimentais). Nessa rigorosa concepção estética-temática, o que tinha
tudo para cair no melodrama excessivo acaba se configurando em um impiedoso retrato
da injustiça social, da alienação política e dos conflitos de classe. O
esmerado trabalho imagético e a sutileza da encenação realçam de maneira
contundente os sentimentos de opressão, exploração e desesperança que rondam o
dia-a-dia da protagonista Cleo (Yalitza Aparício), sem que ela mesmo perceba
com clareza tudo que se passa com ela. Cuarón não busca soluções fáceis para os
dilemas da trama e nem ameniza o seu formalismo angustiante para tornar as
coisas palatáveis para o espectador. Pelo contrário – a meia-hora final de “Roma”
dispensa a idealização banal de uma conciliação ilusória entre os seus atores
sociais, enfatizando ainda mais a crueldade e hipocrisia de uma sociedade
patriarcal-cristã-capitalista em relação às camadas mais humildes e a
incapacidade dessas em se revoltar de maneira efetiva contra quem lhes impõe
condições degradantes de vida.
segunda-feira, março 18, 2019
Imagem e palavra, de Jean-Luc Godard ****
A primeira conexão que me veio à mente ao assistir a “Imagem
e palavra” (2018) foi com o disco “Endtroducing...” de DJ Shadow. No álbum em
questão, canções e sonoridades se formam a partir de colagens insólitas de
trechos de outras canções, sons ambientais, diálogos e batidas, com um resultado
final cuja estranha beleza não está em um acabamento formal límpido, mas
exatamente em uma ambientação entre a sujeira desconexa e a musicalidade
expressiva que brota de um aparente universo paralelo. No filme de Jean-Luc Godard,
a noção tradicional e bem-comportada de cinema como meio de expressão que conta
uma história linear com começo, meio e fim é jogada para o espaço – aliás,
coisa que já havia sido feita com muita propriedade nos filmes mais recentes do
cineasta franco-suiço. Em “Imagem e palavra” a narrativa se formata
essencialmente a partir de um muito particular trabalho de edição que evoca o
memorialismo histórico de Godard expresso na tela como um devaneio/reflexão
localizado na zona limite entre as reminiscências e o onírico. Toda a junção de
trechos de filmes ficcionais e documentários, reportagens e fotogramas com
temas musicais e declamação de prosa, poesia, filosofia e afins não se
cristaliza como uma estrutura apolínea e clara para os olhos do espectador, mas
sim como um jorro sensorial por vezes atordoante, em outros momentos plácido,
em que os cortes na montagem são abruptos e desvinculados de um regramento
formal convencional. Há várias cenas em que a imagem trata de uma coisa, a
música vem de um trecho diverso e há um terceiro elemento da voz narradora que
também brota de um outro plano dimensional/narrativo – ainda que diferentes
entre si, os elementos convergem para um discurso
artístico/político/existencial de unicidade e coerência, ou seja, essa estética
de aparência difusa é o amparo ideal para uma visão humanista de forte rigor
intelectual sobre a história dos dois últimos séculos do mundo, em que a brutal
oposição entre as propensões do ser humano tanto para o irracional (guerras,
preconceitos) quanto para o iluminismo (arte, cultura, ciência) acabam
desembocando no conflito atual entre o ocidente e o oriente. Mesmo os créditos
iniciais e finais rompem com o ordenamento mercadológico e artístico da indústria
cinematográfica contemporânea, sugerindo um loop contínuo de um filme (e da
História) que se recusam a findar e serem catalogadas como obras acabadas. É
Godard ainda mostrando que é uma figura difícil de engolir pelo
establishment/mainstream.
sexta-feira, março 15, 2019
O outro lado do vento, de Orson Welles ****
Toda a carreira artística do diretor norte-americano Orson
Welles se pautou em uma fascinante tensão criativa entre um lado classicista em
termos formais e um forte fator de inovações e experimentação de linguagem
cinematográfica. “O outro lado do vento” (2018), seu filme “perdido” lançado
recentemente, é uma extensão dessa marca autoral do cineasta, assim como
reflete estética e existencialmente a época em que foi realizado (os anos
70). Naquela década, Welles já se
encontrava distante dos grandes estúdios e tinha dificuldades para concluir
seus projetos em função de dificuldades econômicas. Ao mesmo tempo, era uma
época em que o cinema norte-americano passou por profundas transformações
provocadas pelos egressos da Nova Hollywood (um deles, Peter Bogdanovich, tem
importante participação no resultado final de “O outro lado do vento”). Também
foi um tempo em que o cinema exploitation se encontrava em voga nas telas pelo
mundo inteiro. “O outro lado do vento” é síntese de todas essas características
e dilemas artísticos do período com a notória e indelével veia autoral de
Welles. A narrativa é fragmentada, a fotografia se sobressai pela estilização, há
várias cenas marcadas por sexo e violência e o roteiro tem um subtexto
intrincado e que flerta com a metalinguagem e o autobiográfico, e tudo isso é
filtrado pelo barroquismo muito particular do diretor. É Welles se mostrando
atento às principais tendências formais e temáticas da época, mas as manipulando
com radical ousadia e entregando um resultado final desconcertante e memorável.
quinta-feira, março 14, 2019
Capitã Marvel, de Anna Boden e Ryan Fleck ***
Gostando-se ou não do resultado final de “Capitã Marvel”
(2019), pode-se entrar em consenso pelo menos com uma coisa em relação ao filme
– ele serve para mostrar que em termos musicais a década de 90 foi fodástica.
São tantas as pérolas rock e pop que aparecem ao longo da narrativa que isso
por si só já tornaria a mais nova produção dos estúdios Marvel um passatempo
bem agradável. Mas o filme dirigido por Anna Boden e Ryan Fleck consegue ter
outros atrativos convincentes para o espectador. As sequências iniciais podem
até parecem um tanto derivativas na asséptica e pouco original conjunção
efeitos especiais e direção de arte (dá uma impressão de refugo pouco inspirado
da saga “Star Wars”, o que é natural pelo fato das trucagens digitais serem de
responsabilidade da Industrial Light & Magic, a mesma da novela espacial de
George Lucas). É quando os skrulls entram em cena e a ação pouco depois passa
para o planeta Terra que a obra começa a se mostrar efetivamente divertida e
por vezes empolgante. Claro que dentro de um certo padrão de previsibilidade
dos estúdios Marvel, mas o que é já é acima da média quando se pensa nos
diversos abacaxis recentes das adaptações cinematográficas do Universo DC. O
filme se permite até a algumas leves e saudáveis alterações dentro de certos
parâmetros temáticos originais dos quadrinhos, principalmente na caracterização
da protagonista e dos skrulls, que se revelam bem funcionais para a produção.
Aliás, em termos de roteiro, a exposição de um discurso de empoderamento
feminino consegue ter coerência e alguma profundidade, não forçando a barra e
nem caindo na gratuidade. Essa questão sócio-comportamental, inclusive,
insere-se com naturalidade dentro do caráter de aventura escapista da obra. No
final das contas, pode-se ficar de bode com toda a dominação mercadológica
derivada de “Capitão Marvel” e da babação geek em volta da Marvel Estúdios, mas
pelo menos dá para se reconhecer que o filme não se limita a ser mero pretexto
para toda essa badalação comercial.
terça-feira, março 12, 2019
A balada de Buster Scruggs, de Ethan e Joel Coen ****
Enveredar para o faroeste não é exatamente uma novidade para
os irmãos Coen. Os cineastas já haviam realizados releituras bem autorais e
particulares do gênero, tanto na atualização contemporânea de “Onde os fracos
não têm vez” (2007) quanto no tom crepuscular de “Bravura indômita” (2010). Em “A
balada de Buster Scruggs” (2018), entretanto, esse processo de recriação se mostra
mais radical e desconcertante, em uma abordagem artística e existencial que talvez
só encontre paralelos recentes com a reconstrução “tarantinesca” do gênero no
sensacional “Os oitos odiados” (2015). Ao dividir a narrativa em seis
episódios, os Coen buscam caminhos estéticos e temáticos diferentes para cada
segmento, mas sem nunca perder a unidade artística-conceitual. Indo do musical
estilizado até o horror gótico, e passando pelo realismo e a comédia de erros,
o filme nunca perde o prumo a partir de uma impecável síntese formal-textual,
com destaque para a fotografia de plasticidade arrebatadora, um roteiro
lapidado à beira da perfeição e um elenco repleto de atuações memoráveis. “A
balada de Buster Scruggs” é uma obra que reflete uma das grandes marcas
autorais dos Coen – a capacidade de entrelaçar com naturalidade elementos do
cinema clássico norte-americano com algumas nuances perversas de renovação.
segunda-feira, março 11, 2019
Nunca convide o seu ex, de Ryan Eggold **
Na pretensão, “Nunca convide o seu ex” (2017) era para ser
uma visão mais crua e desencantada da gasta premissa de protagonista levemente
desajustado que percebe o quanto a sua vida desandou quando sabe que uma
ex-namorada está prestes a se casar com outro e daí decide reverter a situação
faltando poucos dias para o fatídico matrimônio. O filme do diretor Ryan Eggold
também tem algo de “500 dias com ela” (2009) ao fazer um retrato irônico sobre
os jovens adultos do século XXI, com direito a algumas referências de cultura
pop (afinal, nerds e geeks adoram esse tipo de coisa
auto-celebratória/marturbatória). Em meio a tantas intenções e influências,
entretanto, a narrativa se perde devido a uma abordagem artística superficial e
previsível. A pretensa transgressão de questionar os valores pequeno-burgueses
se revela pífia – toda a saga de mal-estar existencial e equívocos do
protagonista Adam (Justin Long) não causa qualquer tensão dramática,
limitando-se a evocar uma estéril fotogenia estética e um insípido tratamento
temático destinados a não perturbarem um público não muito exigente.
sexta-feira, março 08, 2019
Sexo, drogas e jingle bells, de Jonathan Levine *1/2
A parceria entre o diretor Jonathan Levine e os atores
Joseph Gordon-Levitt e Seth Rogen tinha se mostrado frutífera no excelente
drama “50%” (2010). Em “Sexo, drogas e jingle bells” (2015), entretanto, a
reunião entre eles tem resultados bem menos satisfatórios. A premissa inicial
do roteiro é até promissora, em que um trio de amigos tem a tradição de fazer
uma noite de loucuras anual justamente na véspera de natal. A trama em seu
começo até insinua algumas situações interessantes e engraçadas, mas a
narrativa vai se revelando cada vez mais previsível e quadrada, além das
soluções do roteiro se apresentarem convencionais e conservadoras em excesso.
No cômputo geral, está mais para uma produção natalina rotineira do que para
uma boa gozação com o tema (coisa que se podia esperar tendo em vista o
histórico de direto e elenco).
quinta-feira, março 07, 2019
A garota na névoa, de Donato Carrisi **
No que uma produção italiana no gênero suspense se
diferencia de outra norte-americana rotineira no mesmo gênero? Em nada, ou pelo
menos é que o se consta ao assistir a “A garota na névoa” (2018). Por vezes,
até há um esboço de fuga do lugar comum na caracterização do protagonista Vogel
(Toni Servillo), um veterano e excêntrico detetive que investiga o sumiço, e
provável assassinato, de uma adolescente em uma aldeia no interior da Itália. A
impressão de algo diferente, entretanto, logo se dissipa no desenvolvimento da uma
narrativa esquemática, e de concepção visual asséptica que jogam o filme do
diretor Donato Carrisi para o limbo das obras fáceis de ver e também fáceis de
esquecer. Falta sutileza e tensão dramática consistente na encenação e mesmo na
edição – repare-se, por exemplo, como uma música incidental ostensiva e
constante deixa a narrativa com uma incômoda atmosfera rococó. Não que uma
ambientação operística/barroca fosse necessariamente um defeito – é só pensar
que Dario Argento adorava impregnar seus filmes com exageros barrocos
extraordinários. Assim, falta para Carrisi um senso audiovisual mais apurado para
justificar a sua pretensão de grandiosidade estética. E mesmo a tentativa de se
realizar no subtexto do roteiro uma visão crítica sobre o fanatismo religioso e
a falta de escrúpulos da mídia sensacionalista na sociedade moderna acaba se
frustrando diante da superficialidade dos truques banais da trama com suas
viradas rocambolescas e estapafúrdias.
quarta-feira, março 06, 2019
Um balde de sangue, de Roger Corman ***1/2
O diretor norte-americano Roger Corman geralmente é mais
lembrado como um cineasta capaz de realizar filmes bastante lucrativos operando
a partir de condições e recursos modestos ou mesmo por ter sido o produtor que
possibilitou os primeiros passos artísticos de uma série de importantes diretores
e atores ligados à “Nova Hollywood” (Francis Ford Coppola, Jack Nicholson,
Peter Bogdanovich). Por trás de tais credenciais, entretanto, há também o fato
de que Corman tinha também talento acima da média como diretor. Em boa parte de
sua filmografia fica evidenciada a capacidade de estabelecer narrativas seguras
e envolventes, além de inventivas soluções imagéticas e roteiros que sabiam
sintetizar de maneira insólita dramaticidade e ironia. “Um balde de sangue” (1959)
é exemplar enfático desse traço autoral de Corman. É de se reparar na forma
fluente com que tiração de sarro com a cultura beatnick, humor negro e algumas
ambiências de horror clássico convivem na mesma narrativa. O diretor transcende
as limitações e anacronismos dessa linhagem de produções e cria uma obra
repleta de desconcertantes nuances formais-temáticas, com destaque para a direção
de arte mista de caricatural e estilização, a ótima atuação de Dick Miller em
um raro papel de protagonista, as expressivas sequências finais de perseguição e
atmosfera e trama carregadas de comicidade macabra.
sexta-feira, março 01, 2019
Dogman, de Matteo Garrone ***
O diretor italiano Matteo Garrone volta a focar suas lentes
no submundo do crime em “Dogman” (2018), assim como tinha feito em “Gomorra”
(2008), sua obra mais célebre e que o tornou conhecido mundialmente. Se a obra
mais antiga tinha uma abordagem formal que emulava o documental e tinha um
escopo mais amplo na sua visão temática, em “Dogman” a narrativa tem caráter
intimista e se formata como um drama convencional, ainda que em termos estéticos
haja uma crueza audiovisual. O cenário de uma periferia marcada por um aspecto
arruinado e dominada pela contravenção é rústico e algo desolado e mesmo os
personagens tem uma caracterização entre o desglamourizado e a estilização
sórdida, tudo embalado, entretanto, por uma direção de fotografia que consegue
dar uma plasticidade insólita para o filme. O roteiro se desenvolve por
caminhos bem previsíveis, mas é mérito de Garrone saber extrair alguns momentos
de efetiva tensão dramática, além de um senso de humor flertando com o macabro.
Ponto positivo também para a forte química entre os dois principais atores
Marcello Fonte e Edoardo Pesce, interessante tanto por suas expressivas
performances quanto pelo contraste físico e psicológico entre os dois. Em um
contexto geral, o filme de Garrone é bem realizado, mas incomoda a falta de
maiores arroubos criativos ou de uma efetiva transcendência artística. A
decepção se justifica ainda mais quando se pensa em tantos clássicos do cinema
italiano que enveredaram para essa vertente do realismo social com resultando
bem mais memoráveis que “Dogman”.
quinta-feira, fevereiro 28, 2019
A mula, de Clint Eastwood ***
É claro que Clint Eastwood já dirigiu filmes muito melhores
que “A mula” (2018). Mas não deixa de ser um alívio que esse filme mais recente
não seja um equívoco das proporções do lamentável “15h17 – Trem para Paris”
(2018). “A mula” tem aquele tom crepuscular de “Gran Torino” (2008), em que a
velha persona de durão de Eastwood está desgastada pelo passar dos anos e
também pelas mudanças comportamentais e sociais que o mundo passou nas últimas
décadas. Assim, o protagonista Leo Sharp (Eastwood) se move em cena quase como
um dinossauro cansado, mas que ainda se permite algumas diversões e
transgressões. As velhas distinções entre o bem e o mal se mostram bem mais
nebulosas. Assim, o ato do personagem principal em colaborar com traficantes de
drogas tem conotações bastante ambíguas – sabe-se da violência e sordidez que
envolve esse “comércio”, mas para alguém que já está nos anos finais da
existência, o que interessa é conseguir uma grana para ajudar amigos e
familiares e ainda usufruir um pouco dos prazeres da vida. As consequências
sombrias do crime são previsíveis, mas Leo aceita o seu destino com resignação
e até dignidade. Em um país que boa parte dos cidadãos tem suas vidas
arruinadas pelos interesses do mercado, traficar alguns quilos de drogas não se
mostra um crime tão horrível assim. Uma constatação assim até surpreende quando
se pensa que Eastwood é um velho republicano convicto, mas é perfeitamente
coerente para o diretor que realizou filmes de forte complexidade moral como “Os
imperdoáveis” (1992) e “American sniper” (2015). Ainda que o roteiro de “A mula”
tenha algumas inconsistências e se volte por vezes para o melodrama excessivo,
a narrativa de talhe clássico e a encenação serena concebidas por Eastwood
tornam a obra uma experiência cativante e memorável.
quarta-feira, fevereiro 27, 2019
Guerra fria, de Pawel Pawlikowski ***
Os primeiros 20 minutos de “Guerra fria” (2018) são bem
interessantes e fazem valer o ingresso para ver o filme: na Polônia do início
da década de 50, dois musicistas percorrem o interior do país registrando
cantos folclóricos, selecionando jovens cantores e dançarinos e por fim
montando espetáculos tendo por base o cancioneiro que colheram. A fotografia e
a narrativa que evocam um certo tom documental, a beleza bruta da música e a
ótima fotografia compõem um todo sedutor. Depois, o filme se converte em um
melodrama romântico previsível e beirando o banal, além de trazer uma abordagem
muito estereotipada e conservadora dos conflitos políticos e ideológicos da
época. De qualquer forma, a plasticidade extrema conferida pelo diretor Pawel
Pawlikowski acaba deixando as coisas agradáveis de se ver (mesmo a sujeira e
violência de algumas passagens se mostram quase palatáveis). Assim, apesar de
todo o anacronismo estético-existencial e a impressão constante de se assistir
a um “Casablanca” (1942) reciclado, “Guerra fria” não deixa de ser uma obra
curiosa (principalmente, vale a pena reforçar, por aquelas sequencias
iniciais).
terça-feira, fevereiro 26, 2019
Bom trabalho, de Claire Denis ****
As relações de poder hierárquico, os intensos exercícios
físicos e os episódios de camaradagem dentro de um ordenamento militar são
vistos por muitos como inerentes e sintomáticos do espírito de disciplina e
moralidade desse tipo de instituição. No âmbito da produção francesa “Bom
trabalho” (1999), entretanto, tais aspectos são reveladores de um mal
disfarçado jogo de intrigas e de um homoerotismo latente. Nessa concepção
existencial, a diretora Claire Denis não busca o choque gratuito ou algum
sensacionalismo barato. O teor sexual que se estabelece em um pelotão da Legião
Estrangeira em uma cidade exótica e de calor escaldante no interior da África é
um misto desconcertante de intensidade e sutileza. Denis explora de maneira
sensível e engenhosa cada nuance imagética e existencial do seu texto e cenário.
Os diálogos obscuros, os exercícios militares e a vida noturna dos recrutas,
praças e oficiais nas noites de danças e flertes da cidade que ocupam trazem em
suas entrelinhas tanto difusos aspectos intimistas dessas vidas quanto um
contundente teor sócio-político na exposição da conturbada relação da França
com as suas ex-colônias. Discurso e temática intrincados recebem um tratamento
estético em plena sintonia no seu detalhismo cênico e narrativo. O filme por
vezes se afasta do linear e espalha seus elementos como um quebra-cabeça
intrigante, fazendo com que a encenação tenha uma marcação que beira a tragédia
grega, ainda que sempre marcada por uma atmosfera rarefeita e irônica. A
direção de fotografia não se limita a um mero registro “cartão postal” das
paisagens naturais exóticas – pelo contrário, enfatiza nuances como as luzes estouradas
solares e artificiais e a imagem desfocada e granulada de algumas passagens.
Dentro de tal abordagem visual, o realismo inicia por vezes ganha ares de uma
incursão em uma dimensão paralela, impressão essa acentuada por uma trilha
sonora que se alterna com maestria entre o tom operístico, dançantes temas
étnicos e rocks climáticos.
segunda-feira, fevereiro 25, 2019
A favorita, de Yórgos Lánthimos ***
Vire e mexe e as coisas se repetem de maneira que beira o
manjado – quase que anualmente aparece algum drama inglês de fundo histórico
falando sobre uma rainha britânica de algumas décadas ou séculos atrás com uma
abordagem entre o realismo e o farsesco sempre abusando de uma direção de arte
caprichada e um elenco de nomes competentes. Por seu rigor formal o tal do
filme chama atenção de parcela expressiva da crítica e conquista alguma
indicações ao Oscar e premiações afins. “A favorita” (2018) é o caso mais
recente desse processo mercadológico-artístico. É claro que não chega a ser
ruim, pois há realmente um esmerado cuidado estético, as atuações da trinca
protagonistas têm os seus momentos expressivos (principalmente por parte de
Olívia Colman) e o diretor Yórgos Lánthimos consegue extrair algumas memoráveis
sequências de humor bizarro e erotismo perverso. Mas também não justifica tanto
estardalhaço de “novidade” como vem se propagando por aí.
sexta-feira, fevereiro 22, 2019
Uma aventura lego 2, de Mike Michell
Se “Uma aventura Lego 2” (2019) não chega a ser uma decepção
como “WiFi Ralph – Detonando a internet” (2018), também não chega a ser tão
empolgante e divertido como “Lego Batman: O filme” (2017). O filme pouco avança
em relação ao que já havia sido apresentado em “Uma aventura Lego” (2014), mas,
mesmo assim, ainda consegue se manter como uma animação acima da média. Há boas
sacadas em termos visuais e de ideias de roteiro – nesse último aspecto, acaba
fazendo algumas ironias ácidas contra a tendência apocalíptica e sombria “fake”
e apelativa de alguns blockbusters norte-americanos mais recentes. A forma com
que o universo fantástico dos bonecos e o mundo “real” dos humanos convivem
também tem um interessante teor de criatividade. O subtexto até apresenta
algumas ousadias ao fugir de uma tendência mais conservadora e evocar valores
como tolerância e respeito em relação ao diferente. É claro que o lado de
narrativa de aventura e grafismo detalhista e exuberante são fatores bastante
atraentes para o público, assim como os diálogos e situações da trama que
aludem a referências de cultura pop são prato cheio para o público nerd. No
final das contas, entretanto, o que torna o filme de Mike Michell como uma
produção memorável é essa tendência na valorização do humanismo em suas
soluções temáticas.
quinta-feira, fevereiro 21, 2019
Adyós, general, de Omar de Barros Filho ****
No panorama histórico-estético do cinema gaúcho, “Adyós,
general” (1986) é uma obra completamente fora da curva – não se liga a nenhum
movimento, escola ou qualquer outro tipo de linhagem que se configurou no
Estado. Bem, talvez dê para pensar no recente e extraordinário “A cidade dos
piratas” (2018), de Otto Guerra (aliás, Guerra é responsável pela animação dos
créditos de abertura de “Adyós, genera”, numa bizarra coincidência. Ou não?). A
origem da obra dirigida por Omar de Barros Filho já é característica da sua
natureza estranha – um jornalista com grande experiência na imprensa
alternativa e de esquerda resolve fazer um filme de ficção para narrar fatos
que presenciou ao cobrir os conflitos armados entre as forças do governo e a
guerrilha em El Salvador nos anos 80. O grande diferencial, entretanto, é que o
cineasta/repórter filtra essa trama histórica-biográfica sob uma bizarra e
inventiva perspectiva narrativa-estética, fazendo um cruzamento delirante e
genial de preceitos de Cinema Novo e Cinema Underground e mais alguns toques de
referências documentais. Encenação, direção de fotografia e edição se fundem
sob um formalismo de forte caráter libertário. A narrativa vai se tornando cada
vez mais alegórica e intrincada, baseada em diálogos/discursos repletos de
expressivas nuances políticas/filosóficas e em um grafismo brutal baseado em
violência e sexo que por vezes envereda sem cerimônias no escatológico. Ainda
que toda essa concepção artística possa ser chocante para boa parte da
audiência, em seu subtexto há um forte teor humanista e poético que só encontra
paralelo talvez com a obra-prima extrema de Pasolini, “Saló – Os 120 dias de sodoma”
(1975). O grito de Omar de Barros Filho contra a opressão e a hipocrisia das forças
reacionárias é feroz na sua indignação e sarcasmo e só poderia mesmo se
concretizar por meios de uma linguagem cinematográfica tão desafiadora e
criativa quando essa apresentada em “Adyós, general”. Os encantos (e perturbações)
do filme se mostram atemporais, vide a forma coerente com que a obra se
relaciona com o atual cenário sócio-político brasileiro e mundial, tomados por
uma ascensão desmedida de governos autoritários de direita.
quarta-feira, fevereiro 20, 2019
Clímax, de Gaspar Noé ****
Mas, afinal, o que é “Clímax” (2018)? Por vezes, o filme
mais recente de Gaspar Noé parece uma versão do inferno do clássico “O baile”
(1983). Se a obra-prima de Ettore Scola é um painel artístico-histórico do
século XX que se configura em diversas coreografias que se desenvolvem ao longo
de décadas no mesmo espaço físico de um salão de dança, a produção de Noé é um
panorama estético-existencial sobre o estado político-mental de uma Europa em
desagregação no final do mesmo século (e antecipando os tempos ainda mais
conturbados do século XXI) em que toda a ação se cristaliza em uma hora e meia
regada a sexo, drogas, violência, morte e muitas performances (individuais e
coletivas) ao som da uma magnífica trilha sonora regada a temas eletrônicos/dançantes
antológicos dos anos 80 e 90. Essa junção improvável de musical, horror e
melodrama recebe um tratamento narrativo e formal em perfeita sintonia com essa
síntese de delírio, sordidez e fragmentação – há um senso de virtuosismo
barroco que paira sobre a narrativa, vide vertiginosos planos-sequências e uma
rigorosa marcação cênica na movimentação de uma ampla gama de personagens e nas
enlouquecidas e vibrantes coreografias, mas que sempre é marcado por momentos
de descontinuidades tanto em cortes bruscos como nos próprios créditos do filme
que irrompem em momentos dos mais inesperados (a referência de que o próprio
filme está chapado como seus personagens é óbvia, mas inegavelmente engenhosa e
eficaz). Em meio a esse grafismo brutal e à aparente desordem imagética/sonora
de “Clímax”, Noé, assim como já tinha feito em “Irreversível” (2002) e “Enter
the void” (2009), desconcerta o espectador diante dessa fúria sensorial que ao
mesmo tempo empolga pela sua exuberância audiovisual e perturba por uma visão
sombria e desencantada da humanidade do novo milênio.
terça-feira, fevereiro 19, 2019
Creed 2, de Steven Caple Jr. **
Se o primeiro “Creed” (2015) representou um vigoroso frescor
de renovação para o universo do lutador Rocky Balboa, “Creed 2” (2018) é
exatamente o lado oposto – parece um compêndio sem inspiração dos mais gastos
clichês narrativos e temáticos dos piores momentos da franquia “Rocky”. É claro
que para alguns nostálgicos tudo poderá parecer uma homenagem à mitologia da
série cinematográfica – ou seja, o mesmo papo furado a justificar os novos
capítulos sem pé nem cabeça de “Star Wars”. De uma certa forma, é como se tivéssemos
assistindo a uma refilmagem da divertida picaretagem “Rocky 4” (1985), mas se
levando bem mais a sério (ainda que não tenha toda aquele grau de ufanismo
patriótico, pois daí seria queimação de filme em excesso).
segunda-feira, fevereiro 18, 2019
Vice, de Adam McKay ***
Em seus primeiros longas-metragens, em colaboração com o
ator Will Ferrell, o diretor Adam McKay praticamente redefiniu alguns
parâmetros da comédia cinematográfica. Depois, mudou seu interesse temático
para outra área, ainda que preservasse alguns maneirismos cômicos de suas
produções iniciais. Nessa fase mais recente, McKay se mostra mais focado em
fazer um inventário histórico-artístico-existencial do panorama sócio-político
dos Estados Unidos do século XXI, ainda que sabendo que a situação atual do
país é fruto de uma série de fatos decisivos do século passado. Se “A grande
aposta” (2015) era uma visão sombria e irônica sobre a crise econômica que
assolou o seu país e o mundo em 2008, “Vice” (2018) volta a sua atenção para a
trajetória do político Dick Cheney (Christian Bale), vice-presidente na era
George W. Bush, e sua nefasta influência sobre diversas áreas da sociedade
norte-americana nas últimas décadas. McKay ousa ao se afastar de alguns clichês
narrativos tradicionais do gênero cinebiografia, preferindo enveredar para o
lado do farsesco. Ainda que o roteiro seja bastante informativo e marcado por
uma ácida lucidez, a encenação recorra a interessantes recursos de
metalinguagem e quebra da quarta parede e a edição repleta de eficientes
truques tenha um expressivo dinamismo, falta para o filme por vezes uma
densidade dramática mais convincente – os excessos caricaturais e a grande
quantidade de fatos expostos na trama deixam por vezes o trabalho de McKay
marcado pela superficialidade. O equilíbrio entre o lado intimista da obra e o
seu viés sócio-político também não apresentam uma harmonia mais constante, em
que uma tentativa de humanização do protagonista faz com que em alguns momentos
a compreensão sobre a efetiva dimensão de alguns de seus atos mais escabrosos
seja atenuada. Ainda assim, no saldo geral, “Vice” é um filme inquietante e em
algumas passagens até mesmo perturbador na maneira com que disseca a hipocrisia
e desfaçatez da direita e reacionários afins na forma com que ditam os rumos
políticos e econômicos do mundo ocidental. A análise em forma fílmica de McKay
é bem mais esclarecedora sobre o mundo que vivemos do que a visão alienante do
Jornal Nacional, Veja e outros bastões “oficiais” do jornalismo. E apenas
decepciona um pouco porque como filme não tem o mesmo equilíbrio
narrativo-temático de “A grande aposta”.
sexta-feira, fevereiro 15, 2019
Amigos filmam amigos, de Gabriel Carneiro, Alê Rodrigues, Diomédio Piskator e Ricardo Alexandre Corsetti **
Não dá para dizer que “Amigos filmam amigos” (2018) seja
propriamente um documentário de longa-metragem. Está mais para uma ação de
amigos e admiradores do cinema da Boca do Lixo paulista que fizeram uma espécie
de homenagem fílmica a alguns dos principais profissionais daquele cenário e
época. São cinco episódios conduzidos cada um por diretores diferentes e com
resultados artísticos igualmente diversos. Se a parte que focaliza o ator José
Lopes (o Índio) peca pelo excesso de sentimentalismo, aquelas protagonizadas
pelo diretor de fotografia Virgílio Roveda, o ator Satã e o cineasta Tony
Ciambra são apenas corretas, ou seja, informativos e bastante convencionais (o
que não deixa de ter seus atrativos para aqueles interessados na história do
cinema nacional). O melhor episódio disparado é o dedicado ao diretor José
Miziara, responsável por alguns grandes sucessos comerciais nos anos 80. Gabriel
Carneiro, diretor responsável por esse segmento, vai muito além do didático,
conseguindo fazer um retrato contundente e melancólico sobre um talentoso
artista amargurando um ostracismo devido aos impiedosos ditames da indústria
cultural contemporânea.
quinta-feira, fevereiro 14, 2019
A misteriosa morte de Pérola, de Guto Parente ***1/2
Em um primeiro momento, a primeira referência que pode vir à
mente quando se assiste a “A misteriosa morte de Pérola” (2014) é a filmografia
de David Lynch. Estão lá na narrativa do filme de Guto Parente uma série de
recursos narrativos que o genial cineasta norte-americano usou com recorrência
em seus trabalhos – a trama que se divide em dois momentos distintos que possuem
uma obscura inter-relação entre eles, uma atmosfera que trafega sem maiores
cerimônias entre a realidade e o delírio, a encenação que também varia entre o
naturalismo e a estilização. Apesar de tais elementos familiares, Parente ainda
assim consegue ter um traço de originalidade em suas concepções artísticas e
demonstra saber manter a atenção do espectador mediante uma forte tensão
dramática na manipulação do ritmo narrativo e do rigor imagético da direção de
fotografia. Não se tem uma produção no gênero suspense “puro”, pois há uma
carga intimista/psicológica densa tanto na exposição minuciosa do desolado cotidiano
e do processo de fragmentação psíquica de Pérola (Ticiana Augusto Lima) em seu
autoexílio em um apartamento no interior da França quanto na visita que o seu
namorado faz ao apartamento depois da morte da garota. Parente acentua e
harmoniza essa perturbadora combinação entre suspense e drama a partir de
algumas elegantes nuances formais, vide a contraposição entre a sua judiciosa
encenação e a inserção de falsos e “amadores” trechos documentais e o uso de
uma trilha sonora repleta de temas musicais dissonantes.
quarta-feira, fevereiro 13, 2019
Inferninho, de Guto Parente e Pedro Diógenes ****
Logo no início da narrativa em “Infernino” (2018),
ambientação e encenação remetem ao clássico do cineasta alemão Rainer Werner
Fassbinder, “Querelle” (1982) – em um misto de estilização e sordidez, um
boteco de beira de cais caindo aos pedaços abriga um atendente vestido de
coelho, uma cantora de cabaret-brega, um tecladista clone de Beethoven e uma
clientela composta basicamente de desajustados vestidos de refugos de cultura
pop. O grande mérito dos diretores Guto Parente e Pedro Diógenes é fazer com
que o filme fuja da paródia besta e se configure como uma alegoria ácida e pungente
sobre os conturbados dias atuais. Para isso, a obra se vale de uma original
reciclagem de melodrama sórdido aos moldes do já citado Fassbinder e de um
realismo neon herdeiro da obra-prima “O fundo do coração” (1981). A síntese de
referências e citações sempre se mostra empolgante e filtrada por uma
particular visão estética e temática. Parente e Diógenes se valem de truques visuais
simples e de grande eficácia imagética. Nesse sentido, as sequências mais
oníricas e delirantes encantam pela sutileza entre o naif e o sofisticado de
suas trucagens baratas. E mesmo os momentos mais naturalistas são perpassados
por um requintado barroquismo artesanal e repleto de nuances. Ou seja, a partir
de parcos recursos de produção os diretores extraem o máximo em um formalismo
que demonstra rigor e criatividade, sabendo ainda aproveitar com sensibilidade
os demais elementos narrativos, com destaque para os ótimos temas originais da
trilha sonora e algumas intensas atuações de seu elenco (com grande destaque
para Yuri Yamamoto e Démick Lopes).
terça-feira, fevereiro 12, 2019
Singapore Sling, de Nikos Nikolaidis ****
Em sua época áurea, nas décadas de 1940 e 1950, o cinema
noir era marcado por uma fascinante ambiguidade artística – influenciado esteticamente
pela literatura policial “pulp” e pelo expressionismo alemão, toda a
perversidade e sordidez presente em seu subtexto tinha que se adaptar aos
moldes narrativos tradicionais do cinema comercial norte-americano da época e,
principalmente, aos padrões morais dos códigos de condutas dos grandes
estúdios. A produção grega “Singapore Sling” (1990) parte de um pressuposto
artístico inquietante – se não houvesse essas limitações da época em que se
desenvolveu, como seria o cinema noir? A resposta oferecida pelo resultado final
do filme dirigido por Nikos Nikolaidis pode parecer puramente especulativa, mas
também oferece alguns momentos memoráveis na sua síntese entre clichês
narrativos de filme policial clássico, toques de exploitation e forte teor
experimental. Roteiro e encenação deixam aflorar de maneira impiedosa
escatologia, incesto, ostensivo brutalismo gráfico, despudorada sexualidade e
um doentio senso de humor, tudo filtrado dentro de uma concepção formal de
forte rigor plástico e perpassado por uma atmosfera entre o melancólico e o
poético. No todo, é uma obra inclassificável e desconcertante, o que ajuda
explicar porque foi proibida em alguns países ou simplesmente nem foi exibida
comercialmente em outros mercados (inclusive o Brasil). É necessário,
entretanto, que apreciadores de um cinema que vá além das grandes bilheterias
ou de premiações do Oscar corram atrás dessa pérola de insólita beleza.
segunda-feira, fevereiro 11, 2019
A casa do cemitério, de Lucio Fulci ****
O horror cinematográfico concebido pelo diretor italiano
Lucio Fulci parece habitar um universo paralelo dentro do próprio gênero. Por
mais que suas obras flertem com temas e truques narrativos bastante
característicos de outros filmes dessa linhagem, a encenação e atmosfera
rarefeitas e o teor imagético doentio constantes em sua filmografia marcam uma
diferenciação perturbadora e contundente para o seu público. “A casa do
cemitério” (1981) é um comprovante enfático do ideário artístico muito
particular de Fulci. O roteiro gira em torno da velha premissa de uma casa
mal-assombrada, mas isso é apenas um detalhe/pretexto para uma tenebrosa viagem
sensorial, vide a combinação desconcertante entre fotografia e direção de arte
que sintetizam climas góticos e puro gore escatológico, com direito a muitos
vermes saindo de ferimentos e mortes atrozes à base de perfurações, lacerações
e afins. Ainda que brutalidade gráfica seja muito presente, Fulci consegue
preservar um teor muito original de suspense, principalmente pelo fato de que a
origem do horror vem de fontes incertas ou mal-explicadas (na verdade, para
Fulci explicações plausíveis para o mal constante que paira nas tramas de seus
filmes são completamente dispensáveis – o que vale é simplesmente a
consequência desse mal). Se para os apreciadores do horror asséptico das
franquias cinematográficas norte-americanas do gênero na atualidade assistir a “A
casa do cemitério “ pode ser uma experiência indigesta, para os demais
apreciadores do terror cinematográfico essa obra-prima de Fulci é um verdadeiro
prato-cheio estético/existencial.
sexta-feira, fevereiro 08, 2019
Assunto de família, de Hirokazu Kore-eda ***1/2
Em termos temáticos, o cinema do diretor Hirokazu Kore-eda
gira em torno das relações familiares. Sua abordagem artística-existencial,
contudo, não se vincula a fazer loas sobre tal matéria. Pelo contrário – os
conturbados relacionamentos entre pais, filhos e demais parentes servem como
uma espécie de reflexo das relações humanas em si no mundo contemporâneo. Nesse
sentido, “Assunto de família” (2018) é uma das obras mais agudas de Kore-eda. A
“família” que acolhe Yuri, uma pequena garota fugitiva de um lar de classe
média alta onde sofre maus-tratos, está mais para um grupo de deserdados que se
uniu quase que por caso fortuito. Ainda que a relação entre tais pessoas seja
marcada por uma certa fragilidade sócio-econômica, e que mesmo algumas delas
pratiquem pequenos crimes e contravenções para custear a sobrevivência, o
vínculo sentimental entre elas vai se mostrando cada vez mais pungente. A
mensagem do subtexto da trama é sutil e clara – em uma sociedade de consumo
marcada pela assepsia emocional e por valores mercantilistas, a instituição da
família biológica tradicional deixou de ser garantia de estabilidade emocional
para os seus membros. Mesmo que de maneira inconsciente, o novo agrupamento em
que Yuri se insere é marcado por uma espontaneidade e solidariedade que os
coloca em atitude de desafio perante o ordenamento social vigente. Por isso
mesmo, a harmonia “familiar” estabelecida entre eles é de existência precária e
previsivelmente se desfaz quando confrontada com a forças de segurança institucionais.
Na nova vida que cada um deles ganha dentro dos padrões oficializados, o afeto
e generosidade que recebem são falhos e insuficientes. Kore-eda concebe uma
narrativa serena e melancólica carregada de poesia visual para essa saga
intimista e fatalista, em um formalismo sóbrio que se revela sempre preciso
para a sutil e cortante carga dramática do roteiro.
quinta-feira, fevereiro 07, 2019
Praça pública, de Agnès Jaoui ***
A verborragia intensa e irônica sempre foi uma marca
característica de grande parte do cinema francês. Exemplo claro disso é a
filmografia da diretora Agnès Jaoui. Nas duas últimas décadas, ela construiu uma
sólida obra baseada na prolixidade de diálogos e em um senso cômico sutil e
afiado. “Praça pública” (2018) continua nessa levada e tem alguns momentos bem
interessantes, ainda que Jaoui nada inove no seu estilo e não tenha grandes
arroubos criativos estéticos. Seu roteiro parte de uma premissa temática bem
manjada, a de uma grande festa numa casa de campo que reúne personagens de todos
os tipos em que apresentam uma série de quiproquós e conflitos sociais e
sentimentais. Apesar de tal previsibilidade, Jaoui dirige com verve e
segurança, extraindo algumas ótimas performances de seu elenco e momentos
efetivamente bem engraçados. A narrativa tem uma dinâmica envolvente e faz com
que o subtexto da trama aflore com eficácia, principalmente no sentido de
ridicularizar uma classe média alta arrogante que se atribui uma importância
intelectual elevada quando na verdade se compraze em frivolidades até bem
mundanas. Mesmo o eterno conflito entre valores de direita e esquerda recebe um
tratamento engenhoso e lúcido. Ou seja, no conjunto geral, um belo panorama da
sociedade francesa contemporânea realizado com classe formal e temática acima
da média.
quarta-feira, fevereiro 06, 2019
Vidro, de M. Night Shyamalan ***1/2
Muito se falou que “Corpo fechado” (2000) seria a releitura
particular do diretor M. Night Shyamalan sobre a mitologia do super-herói,
ainda que o filme estivesse mais para um melodrama fantástico do que para o gênero
aventura. Já em “Fragmentado” (2017) essa recriação se evidenciava mais
palpável e convincente, principalmente porque os elementos do suspense e da
ação se mostravam bem mais presentes. “Vidro” (2019), conclusão da trilogia,
demonstra que a tal releitura finalmente se cristaliza da maneira mais
descabelada e vigorosa possível. É uma obra que se liga plenamente à linhagem
de aventura de super-herói, mas que também consegue trazer uma atmosfera muito
própria do melhor da filmografia de Shyamalan. Ao contrário daquela preservação
de conceitos de permanência e fidelidade a um determinado universo,
característico das versões para o cinema dos quadrinhos originais da Marvel e
DC, “Vidro” é bem mais radical em suas soluções estéticas e temáticas. O filme
aposta em um grafismo mais brutal e em uma ambientação marcada pelo sombrio e o
bizarro, além de uma encenação que sintetiza com notável fluidez o cartunesco
violento e a densidade psicológica/dramática. O roteiro é até marcado por
algumas inconsistências e mesmo por um confuso subtexto sócio-político, mas
sabe oferecer momentos de impacto para o espectador, principalmente no terço
final da narrativa, repleto de destruição, morte e alguns desenlaces
surpreendentes. O elenco entra de cabeça de no espírito algo maníaco do filme,
com destaque para as composições dramáticas exageradas de Samuel L. Jackson e
Sarah Paulson, o impressionante trabalho expressivo corporal de James McAvoy e
mesmo a altivez serena e melancólica Bruce Willis (aliás, mérito para Shyamalan
extrair uma interpretação decente de Willis depois de alguns anos de atuações
no piloto automático).
terça-feira, fevereiro 05, 2019
Temporada, de André Novais Oliveira ***1/2
Assim como em sua obra anterior, “Ela volta na quinta”
(2015), o diretor André Novais Oliveira volta o olhar da sua câmera para um
registro do cotidiano utilizando um estilo narrativo que evoca trejeitos
documentais em “Temporada” (2018). Apesar da aparente secura de tal abordagem,
aos poucos seu filme vai revelando uma subjetividade ímpar que envolve sutilmente
o espectador. Na história da protagonista Juliana (Grace Passô) que busca reiniciar
a vida em um emprego público de baixa remuneração e de contato diário com as
ruas da periferia da cidade mineira de Contagem há todos as durezas e privações
típicas do proletariado brasileiro no conturbado cenário sócio-econômico
brasileiro dos últimos anos (aliás, vale dizer de um proletariado que de
maneira regressiva vai ser convertendo em um precariado). Ainda assim, o
cineasta vai contaminando sua narrativa com um pungente viés intimista/humanista,
em que a rotina da personagem principal repleta de agruras também ganha uma
perspectiva otimista a partir de um rico panorama de conversas, camaradagens, flertes
e pequenas conquistas do dia-a-dia. Mesmo uma cidade aparentemente tão
desprovidas de encantos como Contagem por vezes ganha belos contornos
imagéticos (a sequência em que Juliana e um amigo conversam sentados diante de
um pequeno lago contaminado por esgoto, por exemplo, tem uma insólita dimensão
poética) – faz lembrar aquele inesquecível trecho de canção dos Racionais MC’s,
“até no lixão nasce flor”. Tais achados narrativos afloram a partir de uma
concepção artística/existencial rigorosa e coerente por parte de Novais
Oliveira, em que uma estética que sabe extrair rudeza e plasticidade nas
medidas certas de seus cenários convive com notável sintonia com um roteiro muito
bem delineado no desenvolvimento de seus personagens e situações.
segunda-feira, fevereiro 04, 2019
Asako I & II, de Ryusuke Hamaquchi ***
O melodrama é um gênero cinematográfico complicado. As
produções realizadas nesse estilo sempre andarão em uma fronteira tênue entre a
sobriedade narrativa e o novelesco “mexicano”. Essa linha divisória é frágil e fazer
com que um filme não descambe para o equívoco artístico exige um senso cênico e
textual marcado pela sutileza e precisão. E esse é justamente o caso do longa
japonês “Asako I & II” (2018). A história da protagonista-título que se
envolve em momentos diversos de sua vida com dois homens iguais fisicamente e
de personalidades opostas pode até aparentar em um primeiro momento um caráter
rocambolesco e exagerado digno dos romances água-com-açucar estilo “Sabrina”. A
concepção estética-temática do diretor Ryusuke Hamaquchi é decisiva para que essa
trama ganhe consistência e interesse. O fluxo da narrativa é sereno e
melancólico, valorizando detalhes visuais marcados pela simplicidade, fatos
banais do cotidiano, gestos e silêncios dos personagens e diálogos repletos de
pequenas nuances dramáticas, compondo um todo formal-existencial que seduz de
maneira quase imperceptível o espectador. Dentro de tal direcionamento artístico,
mesmo as situações de potencial mais exagerado do terço final da narrativa
acabam ganhando uma naturalidade desconcertante e bastante pungente.
sexta-feira, fevereiro 01, 2019
Green book - O guia, de Peter Farrelly **
É provável que vários textos críticos sobre “Green book – O guia”
(2018) tenham dito que o filme parece uma variação de “Conduzindo Miss Daisy”
(1989). E o caso é exatamente esse, só que a obra dirigida por Peter Farrelly é
bem menos inspirada que a produção oscarizada de Bruce Beresford. Enquanto essa
última era um melodrama marcado por uma sobriedade narrativa e mesmo uma leveza
na encenação e interpretação de seus protagonistas, o que fazia com que o seu subtexto
sobre racismo se mostrasse mais afiado, em “Green book” qualquer traço de
sutileza em termos formais e temáticos é suprimido em nome de uma abordagem
artística/existencial óbvia e equivocada. É o tipo de filme que não deixa o
espectador respirar ou pensar – há música melosa e ostensiva sublinhando todos
os momentos edificantes e a cada cinco minutos há um personagem discursando
sobre preconceito racial. A embalagem estética acaba sendo o complemento exato
diante dessa concepção narrativa-textual, com fotografia e direção de arte
marcadas por uma assepsia visual digna de cartão postal. Todas essas soluções
narrativas de Farrelly levam o seu filme para uma conclusão conciliatória de
caráter conservador e hipócrita, fazendo com que “Green book” se mostre bem
menos impactante e memorável do que outras obras lançadas em 2018 que trataram
de maneira mais contundente sobre a questão do racismo como “Infiltrado na Klan”
e “Roma”.
Assinar:
Postagens (Atom)







































