sexta-feira, julho 26, 2019

Quatro irmãos, de John Singleton ***


Recentemente falecido, o diretor norte-americano John Singleton sempre passou a impressão de uma grande promessa que não seu cumpriu. “Os donos da rua” (1991) criou uma forte expectativa em torno de seu nome por se tratar de um trabalho vigoroso em torno de uma temática problemática envolvendo racismo e jovens negros dos subúrbios envolvidos com a criminalidade, revelando ainda alguns atores em início de carreira que depois obtiveram algum prestígio. Ainda que fosse um trabalho memorável, em termos formais e narrativos não trazia grandes ousadias, o que talvez caracterizasse que a tal expectativa sobre seus próximos trabalhos fosse até exagerada. A verdade é que Singleton se tornou um artesão competente dentro dos padrões comerciais tradicionais do cinema de ação contemporâneo (e não o “grande cineasta autoral” que a crítica e parte do público esperavam). Nesse sentido, “Quatro irmãos é um trabalho emblemático dentro desse direcionamento artístico. É uma obra que traz uma carga considerável dos clichês estéticos e temáticos inerentes ao gênero, mas trabalhados de forma segura o suficiente para garantir o interesse da plateia. Por outro lado, Singleton até se permite realizar algumas bem-sacadas referências ao cinema blaxploitation, principalmente na utilização da trilha sonora funk-soul e na encenação algo estilizada de algumas sequências. Ou seja, nesses termos, “Quatro irmãos” por vezes até se mostra acima da média e fora do rotineiro.

quarta-feira, julho 24, 2019

Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story By Martin Scorsese, de Martin Scorsese ****


Eu tenho uma espécie de convicção pessoal em relação ao prêmio Nobel de literatura que Bob Dylan ganhou em 2016 – a de que uma das razões para tal premiação, além dos motivos óbvios da grande qualidade artística de boa parte das letras que compôs e do ótimo livro “Memórias”, seria a genialidade de algumas entrevistas que ele concedeu ao longo de sua carreira. Alguns desses depoimentos são verdadeiras pérolas de criação literária, onde a realidade e a mitificação (ou simplesmente a mentira) se entrelaçam como uma coisa só, dificultando a visualização da tênue fronteira que as separam. E é esse caráter de brilhante loroteiro/contador de causos de Dylan que fica explícito no “documentário ficcional” “Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story By Martin Scorsese” (2019). Em um primeiro momento, o filme de Scorsese pode parecer um simples registro da longa turnê misto de concertos e shows de vaudeville que Dylan promoveu em meados dos anos 70. E é claro que estão lá a captação de momentos musicais antológicos de tais apresentações. Só que com o desenvolver da narrativa o universo do filme se expande para algo como uma junção alucinada/poética que também inclui ensaio sócio-político repleto de amarga ironia, inventário cultural iluminado e encenações maliciosas (até depoimentos contemporâneos de Dylan e outras pessoas que estiveram envolvidas com a Rolling Thunder se encontra nessa zona nebulosa entre a verdade e a mentira). Assim como no brilhante “Não estou lá” (2007), o filme de Scorsese está mais preocupado em expor a complexidade artística/existencial de Dylan do que em simplesmente esclarecer de maneira linear detalhes da vida de seu protagonista. As inquietações estéticas/temáticas do diretor e a síntese de trovador lúcido e cara-de-pau jocoso composto na persona de Dylan resultam em uma obra fascinante e repleta de obscuras e sedutoras nuances que exigem um olhar atento e contemplativo do espectador para esse atordoante mosaico de referências culturais e políticas, o que acaba se configurando como um grande desafio artístico nesses tempos em que filmes conservadores/corporativos de super-heróis se tornaram a grande referência cultural da sociedade ocidental.

segunda-feira, julho 22, 2019

Só você, de Norman Jewison **


Quando se vê nos créditos de um filme o nome de um cineasta como Norman Jewison na direção, o mesmo cara que dirigiu filmes memoráveis como “A mesa do diabo” (1965), “No calor da noite” (1967) e “Feitiço da lua” (1987), além do fotógrafo favorito de Ingmar Bergman (Sven Nykvist), é claro que expectativa só pode ser alta. O resultado final de “Só você” (1994), entretanto, é tão banal e derivativo que fica difícil acreditar que os artistas mencionados realmente trabalharam nesse abacaxi. Provavelmente deve ter faltado algum dinheiro para pagar as contas para ambos e eles precisavam quebrar o galho de alguma forma qualquer, pois em nenhum momento da narrativa dá para perceber alguma espécie de transcendência estética ou temática. A não ser que alguém ache divertido ver a Marisa Tomei tentando ser a nova Audrey Hepburn de qualquer maneira.

sexta-feira, julho 19, 2019

Mulher infernal, de Dennis Dugan ***


O diretor norte-americano Dennis Dugan é uma espécie de especialista de comédias na linhagem besteirol. Não quer dizer, entretanto, que seja exatamente um exímio artesão no gênero. Pelo contrário – na maioria das vezes, seus filmes oscilam entre o médio e o escancaradamente ruim. Por vezes, consegue acertar e fazer algo de memorável. “Mulher infernal” (2001) é uma dessas exceções. É uma obra que consegue ironizar com verve e boas sacadas cômicas aqueles clichês machistas juvenis de uma parcela de “jovens adultos” do seu país. Steve Zahn e Jack Black conseguem extrair de seus papéis cativantes caracterizações e garantem boa parte do interesse pelo filme. É de se ressaltar também um certo talento de Dugan na encenação de algumas sequências de humor físico bem acentuado, beirando o pastelão grosseiro. No cômputo final, é claro que está bem distante de ser uma obra-prima da comédia, mas é bem acima da média em relação ao que Dugan costuma fazer.

quarta-feira, julho 17, 2019

Johnny English, de Peter Howitt *


Não adianta: a missão de vida de Rowan Atkinson é interpretar o Mr. Bean. Fora do personagem, é como se o ator perdesse a sua magia e ficasse ruminando maneirismos típicos de sua clássica criação. “Johnny English” (2003) é exemplar claro disso – trata-se de mais uma recriação cômica da figura de James Bond (desde os anos 60 periodicamente aparece alguma produção fazendo isso...). Por vezes, o filme chega a ser quase engraçado, principalmente em suas sequências iniciais. Lá pela metade da narrativa, entretanto, o interesse pela obra já se dissipou e tudo fica chato de vez. No fim das contas, é bem mais negócio rever algum episódio do Mr. Bean...

terça-feira, julho 16, 2019

Sicário: Dia do soldado, de Stefano Sollima **


Ainda que tivesse um roteiro um tanto derivativo, “Sicário: Terra de ninguém” (2015) impressionava por uma notável conjunção entre uma encenação precisa e uma concepção formal apurada, destacando uma direção de fotografia fenomenal e uma música incidental bastante singular. Nesse expressivo conjunto artístico, era impossível não lembrar de algumas das melhores produções dirigidas por Michael Mann. Sua continuação, “Sicário: Dia de soldado” (2018), na comparação, deixa muito a desejar. Sua articulação narrativa-estética é apenas correta, transcendendo quase nada dentro daquilo que se faz no gênero policial/ação atualmente. A trama continua pecando pela pouca originalidade, além de pender para incômodos clichês machistas. Ou seja, a típica continuação irrelevante que talvez nem precisasse existir.

segunda-feira, julho 15, 2019

Anos 90, de Jonah Hill ***1/2


Aqueles que acham que a caracterização pueril e estereotipada de adolescentes em “Homem-Aranha: Longe de casa” (2019) pode ser considerada algo convincente acabarão por levar um susto se assistirem a “Anos 90” (2018). Esse filme dirigido por Johan Hill, mais conhecido como ator por algumas interpretações antológicas (“Superbad”, “O lobo de Wall Street”), é um retrato da juventude marcado por uma concepção estética-temática que sintetiza crueza e poesia. Mesmo uma junção que hoje em dia pode parecer tão batida quanto skate e música pop/rock (a trilha é um belo apanhado de raps e hardcores memoráveis dos anos 80 e 90) acaba ganhando uma dimensão imagética-sensorial surpreendente na forma com que Hill conduz a narrativa. É como se “Kids” (1995) fosse recriado sob uma perspectiva menos afetada e fetichista e se concentrasse em um olhar mais humanista. A caracterização de personagens e situações tem complexidade e profundidade psicológica, ao mesmo tempo que a narrativa é fluente, envolvendo o espectador a partir de uma encenação que privilegia a forte expressão dramática e corporal do elenco (nesse aspecto, toda a ala de crianças e adolescente é um capítulo à parte em termos de atuações intensas – é provável que os anos como intérprete de Hill tenham contado como efetiva experiência para a sua excelente direção de atores).

sexta-feira, julho 12, 2019

Megarromântico, de Todd Strauss-Schulson *


Uma comédia romântica tirando sarro das comédias românticas, mas que ao mesmo tempo se rende a todos os clichês do gênero? Sim, isso já foi feito várias vezes e na maioria das vezes o resultado final foi desastroso. E com “Megarromântico” (2019) essa tradição não muda.

quinta-feira, julho 11, 2019

Homem-Aranha: Longe de casa, de Jon Watts **1/2


Por mais que se exalte uma coerência mercadológica e artística dos Estúdios Marvel na elaboração e execução de seu universo cinematográfico, coisa que outras franquias de super-heróis nas telas não conseguem ter, fica cada vez mais evidente em seus filmes recentes que seus criadores estão ficando perto de um beco estético-temático sem saída. “Homem-Aranha: Longe de casa” (2019) é exemplo claro dessa encruzilhada – é um filme divertido por vezes, há algum carisma em seus personagens, mas a impressão final é de algo tão pueril que pouco consegue extrair alguma efetiva tensão dramática de seus momentos cruciais. Ainda que ocorra vez e outra algumas boas soluções narrativas, com destaque para as cenas em que o herói aracnídeo e seu antagonista Mysterio duelam em meio a cenários delirantes de uma realidade que se transforma constantemente, o que prevalece para o espectador é a sensação de uma colcha-de-retalhos preguiçosa, misturando de maneira mecânica elementos diversos de comédia-romântica adolescente, aventura estilo James Bond (com diretos a vários cenários exóticos/turísticos) e a fórmula típica (e asséptica) de filmes contemporâneos de super-herói. Quem quiser ficar com uma obra memorável recente do alter ego de Peter Parker pelo jeito vai ter de ficar mesmo com a ótima animação “Homem-Aranha no aranhaverso” (2018).

quarta-feira, julho 10, 2019

O homem duplicado, de Denis Vileneuve **


Por vezes, pode-se perceber na narrativa de “O homem duplicado” (2014) alguma tentativa de transcender a obviedade dentro da temática do duplo, principalmente quando aborda a questão do vazio existencial que perpassa as vidas dos dois personagens interpretados por Jake Gyllenhaal. Em tais momentos, pode-se perceber fragmentos de uma visão mais sutil e irônica, característica típica da escrita de José Saramago, autor da obra literária na qual o filme de Denis Vileneuve. Mas são apenas em algumas sequências que se pode perceber essa fuga da previsibilidade artística. Vileneuve é até um diretor competente, principalmente no que diz respeito a uma dinâmica cênica que se evidenciou em bons filmes como “Sicário” (2015) e “A chegada” (2016). Em outras obras, entretanto, sua concepção estética-temática se revela superficial, resvalando em clichês formais e textuais poucos inspirados, o que representa bem o caso desse “O homem duplicado”.

segunda-feira, julho 08, 2019

Uma relação delicada, de Catherine Breillat ***


Há uma densa relação de prolixidade dos diálogos e intensa carnalidade em “Uma relação delicada” (2013), combinação essa característica de boa parte do cinema francês. Para a diretora Catherine Breillat, o estranho relacionamento entre a renomada cineasta Maud (Isabelle Huppert) e o picareta Vilko (Kool Shen) é um agudo pretexto temático para esmiuçar de maneira sutil e sardônica os conflitos de classe e o vazio existencial do mundo pequeno-burguês ocidental. Na narrativa árida do filme, o sentimentalismo passa longe, e o que predomina é uma incômoda sensação de interesses e desejos que estão sempre escusos ou mal explicados. O que era para ser uma espécie de pesquisa de campo ou mesmo uma jornada de autodescoberta para Maud acaba se transformando em uma espécie de pesadelo, quase como um mergulho no coração das trevas de um ordenamento social que ela achava conhecer. Boa parte da força dramática do filme se concentra na delicada composição cênica de Huppert, que varia sua interpretação com notável versatilidade entre um ar blase e a pura perplexidade patética.

sexta-feira, julho 05, 2019

Divino amor, de Gabriel Mascaro ***1/2


Pela filmografia prévia do diretor Gabriel Mascaro e por sua temática polêmica (uma sociedade brasileira futurista distópica onde religiões evangélicas capturaram o estado nacional), era de se imaginar que em “Divino amor” (2019) o tom da narrativa e a abordagem existencial da matéria tivessem um teor mais explosivo. Pois é justamente o contrário que ocorre no filme. Mascaro investe em um tom contemplativo e ambíguo, em que os elementos cênicos e textuais se inserem com sutileza e naturalidade. Mesmo a concepção visual inerente ao gênero ficção científica onde a obra se insere recebe um tratamento quase que apenas de nuances, em que detalhes imagéticos da fotografia e direção de arte fazem essa sugestão de um futurismo beirando o naïf. Tal direcionamento artístico não é gratuito: nesse contexto de um país amplamente dominando por uma doutrina religiosa de forte teor obscurantista, a insipidez clean de cenários e figurinos denota uma ambientação entre o inexpressivo e o opressor. Se por vezes há uma insinuação de um hedonismo quase inconsciente em festas rave-gospel e em surubas controladas por pastores, em outros momentos a indigência intelectual de pregações e canções e o moralismo exacerbado de aconselhamentos configuram uma atmosfera de pesadelo sufocante. Tais contrastes na narrativa provocam uma sensação de desconforto desconcertante para o espectador. E de maneira progressiva, aquilo que era para ser um retrato entre o intimista e o sócio-político de um futuro marcado pela alienação e desolamento vai se convertendo aos poucos em uma espécie de perversa parábola bíblica. Na conclusão de “Divino amor”, todos aqueles elementos narrativos que pareciam dispersos e contrastantes convergem para uma perturbadora síntese de ironia, amargura e desafio, em um resultado final memorável que provavelmente ficará grudado no imaginário de quem assiste por um bom tempo.

terça-feira, julho 02, 2019

Uma juventude alemã, de Jean-Gabriel Périot ****


Estranhas coincidências... Há poucas semanas passadas foi exibida no Cinema Capitólio a versão do diretor Luca Guadagnino para “Suspiria” (2018), sendo que nessa recente adaptação a trama fica situada na Berlin de meados dos anos 70, havendo várias referências históricas à atuação do grupo de esquerda radical Baader Meinhof. Poucos dias depois, o mesmo cinema exibiu “Uma juventude alemã” (2015), documentário que expõe a trajetória do referido grupo. É curioso que ambos os filmes evitam tanto o olhar moralizante quanto a anódina abordagem acrítica. Se o horror ficcional de Guadagnino faz um perturbador paralelo existencial entre o grupo e uma confraria de bruxas (que também é uma escola de balé!), no sentido de serem agrupamentos de ações violentas de caráter libertário/contestatório, a obra documental dirigida por Jean-Gabriel Périot é um fascinante de misto de viagem sensorial e relato histórico sobre o controvertido histórico do Baader Meinhof. O fato do grupo ter entre seus membros estudantes de cinema e jornalistas parece influenciar na própria formatação narrativa do documentário, fazendo com que fique estabelecida quase que de maneira constante uma contraposição dialética na colagem/edição do material de arquivo. Assim, as filmagens de reportagem da época, a reproduzirem debates e ações de conflito nas ruas, trazem em seu âmago um discurso oficialista e conservador, sempre em tom desaprovador das ações do grupo (tanto nos debates e protestos pacíficos quanto nas ações terroristas), enquanto o material cinematográfico confeccionado por membros do próprio Baader Meinhof e os trechos de filmes ficcionais relativos a essa temática de insurreições ironizam e desconstroem esse mesmo discurso oficial. E na tensão entre tais estéticas e discursos é que se evidencia o particular caráter artístico/político de “Uma juventude alemã” – mais do que uma pretensa (e mentirosa) abordagem “isenta”, é uma obra que evita o maniqueísmo fácil e ressalta a complexidade sócio-ideológica dos conflitos da época. Nesse vórtice atordoante imagético-textual, fica por vezes em primeiro plano a brutalidade das ações terroristas do Baader Meinhof, mas também se valoriza que por trás de um discurso de radicalismo também havia um arguto e legítimo raio x sobre as ações discriminatórias e opressivas de um governo submetido aos ditames políticos e econômicos de interesses exclusivos da ala burguesa da sociedade alemã. A melancólica e poética conclusão de “Uma juventude alemã” realça com brilhantismo esse olhar lúcido e nada banal sobre um conflito que em sua essência perdura até os dias de hoje em âmbito mundial.

segunda-feira, julho 01, 2019

Vidas duplas, de Olivier Assayas ***


Por vezes, a produção francesa “Vidas duplas” (2018) passa a impressão que o seu diretor Olivier Assayas estava mais interessado no filme como um veículo para impressões culturais-políticas-existenciais sobre o mundo contemporâneo do que propriamente entregar uma obra perfeitamente acabada em termos narrativos. Não que o filme padeça de alguma indigência formal – na realidade, é até um trabalho bem envolvente para espectador em alguns momentos. Pesa no filme, entretanto, uma prolixidade nos diálogos, que aparentam uma necessidade urgente em abarcar vários dilemas da pós-modernidade que nos afligem. Nessa ânsia, dá para dizer que há um exagero em discussões tecnológicas e econômicas que fazem com que o longa tenha um certo ar datado, distante, dessa forma, da beleza atemporal de obras como “Depois de maio” (2012) e “Personal shopper” (2016), primorosos trabalhos anteriores de Assayas. Ainda assim, a sobriedade da encenação e o desempenho dramático preciso do elenco fazem com que o filme adquira em algumas sequências uma frequência sensorial algo hipnotizante, em que a profundidade dos diálogos e situações do roteiro e uma interessante atmosfera mista de ironia e melancolia levam o espectador para uma serena zona entre o encanto e a reflexão.

quarta-feira, junho 26, 2019

Dor e glória, de Pedro Almodóvar ***


Na maioria das oportunidades, quando um cineasta de forte traço autoral resolve realizar um filme de teor autobiográfico, o resultado final costuma ser memorável. Afinal, há um artista de visão criativa e existencial diferenciada a refletir sobre o próprio passado sob uma perspectiva subjetiva particular e mais livre das amarras mercadológicas. Dentro de tal concepção, por exemplo, diretores consagrados como Federico Fellini, Ingmar Bergman, John Boorman e Woody Allen conceberam trabalhos antológicos como, respectivamente, “Amarcord” (1973), “Fanny e Alexander” (1982), “Esperança e Glória” (1987) e “A era do rádio” (1987). Assim, um filme como “Dor e glória” (2019) acaba sendo um tanto decepcionante. Afinal, trata-se de obra baseada nas lembranças pessoais de seu diretor, o espanhol Pedro Almodóvar, um dos grandes diretores em atividade. É claro que não chega a ser ruim – pelo contrário, por vezes é até uma obra bem envolvente. A impressão constante, entretanto, é que alguns elementos temáticos e estéticos presentes no longa em questão já foram muito melhor trabalhados em trabalhos anteriores de Almodóvar. As sequências em aparente flashback são exemplos claros de uma certa falta de vigor de “Dor e glória” – são corretas, mas genéricas, quase nem parecendo que são de autoria de alguém de abordagem artística tão original e característica quanto Almodóvar. É claro que alguns detalhes fazem o filme valer uma conferida, principalmente pela ótima atuação de Antonio Banderas e o conjunto fotografia-direção de arte repleto de belos achados imagéticos. Ainda assim, pode ficar para o espectador aquela sensação de que no conjunto geral poderia ter sido bem melhor.

sexta-feira, junho 21, 2019

Suspiria, de Luca Guadagnino ****


No terreno das refilmagens, poucas obras podem ser consideradas como verdadeiras recriações tais como a recente versão de “Suspiria” (2018). Se o filme original dirigido por Dario Argento, lançado em 1977, era uma combinação brilhante de violento terror gráfico e barroquismo beirando o delirante, aliada a um roteiro que respeitava a tradicional divisão maniqueísta entre o bem e o mal (nesse último caso, representado na figura das feiticeiras), na revisão do cineasta Luca Guadagino permanece um formalismo de forte caráter virtuosístico, mas o horror agora recebe uma forte conotação de simbologias sócio-políticas. O papel das bruxas ainda é a de antagonistas, ainda que se contextualizando em aspectos existenciais mais complexos. A trama é inserida em um conturbado contexto local-histórico – a Alemanha de meados dos anos 70 tomadas por manifestações estudantis em prol de grupos terroristas. Se tais organizações eram vistas por alguns como legítimas contestações ao ordenamento burguês-cristão-patriarcal da sociedade ocidental, as bruxas que comandam uma academia de dança moderna em Berlin acabam ganhando de maneira perversamente sutil (e cortante) essa conotação de desafio à ordem vigente. Sem simplificar essas questões histórico-políticas, o filme faz um inventário artístico-temático sensível e contundente de fatos decisivos na formação cultural do século XX – 2ª Guerra Mundial, Guerra Fria, contracultura – evidenciando para a humanidade um período em que os conflitos armados, a exploração sócio-econômica e a opressão religiosa-comportamental criaram um ambiente de paranoia e violência (com reflexos que sentimos até os dias de hoje). Guadagnino ainda aproveita as possibilidades criativas de boa parte da história se desenvolver em uma academia de dança expondo na tela sequências luxuriantes e perturbadoras de balés coreografados com precisão e originalidade atordoantes. Nesse sentido, a síntese entre dança e horror faz lembrar outra obra extraordinária lançada recentemente, “Clímax” (2018). É claro que a particular concepção artística engendrada por Guadagnino provocou repulsa em boa parte dos apreciadores do longa de Argento e mesmo de fãs de terror convencional, mas o que realmente frustraria seria tentar adaptar a obra original mimetizando preguiçosamente maneirismos estéticos e textuais de quarenta anos atrás. Nesse sentido, a visão autoral de Guadagnino na verdade também serve para atestar a atemporalidade do filme de Argento mostrando a impossibilidade de apenas tentar repetir aquilo que já havia sido feito com brilhantismo nos 70.

quarta-feira, junho 12, 2019

Compra-me um revólver, de Julio Hernández Cordón ***1/2


A referência mais óbvia que vem à mente ao se assistir à produção mexicana “Compra-me um revólver” (2018) é “Mad Max – Além da cúpula do trovão” (1985). Afinal, o filme dirigido por Julio Hernández Cordón é uma ficção-científica futurista distópica tendo entre seus principais personagens crianças órfãs abandonadas sobrevivendo em um ambiente hostil. Ao invés de adotar o tom espetaculoso/apoteótico do clássico oitentista de George Miller, esse longa-metragem mais recente se utiliza de uma concepção narrativa-estética mais contida e de uma encenação sóbria, em que efeitos especiais praticamente inexistem e a economia de recursos é determinante em termos de direção de arte e fotografia. E tudo isso que poderia ser visto como um limitador criativo na verdade se converte em uma grande força artística no filme de Cordón, pois aproxima um possível futuro tenebroso de um presente não muito diferente, causando para o espectador um efeito sensorial/existencial perturbador (caos social, exploração humana, violência desmedida, machismo e abandono infantil não estão distantes da realidade do México e de vários outros países da América Latina). O limite entre a sufocante tensão dramática de um thriller de suspense e a reflexão melancólica do subtexto de forte teor sócio-político é sempre difuso, fazendo com que a ligação entre esses dois lados da obra seja intrínseca de maneira contundente. Ainda que a dureza temática e formal predomine na narrativa, “Compra-me um revólver” sabe se permitir nos momentos certos uma certa dose de poesia, conforme se pode perceber em sua evocativa sequência de conclusão.

terça-feira, junho 11, 2019

Thriller - Um filme cruel, de Bo Arne Vibenius ****


Na sessão comentada da produção sueca “Thriller – Um filme cruel” (1973) realizada na última edição do FANTASPOA, a atriz Christina Lindberg disse que o filme em questão teria sido feito pelo diretor Bo Arne Vibenius com a intenção principal de ganhar um bom dinheiro, tendo em vista que o cineasta na época se encontrava na época em séries dificuldades financeiras, abusando, dessa forma, de alguns dos preceitos básicos do cinema exploitation da época, principalmente nos quesitos violência gráfica e sexo explícito. Por mais que a obra seja apelativa no uso constante de tais elementos de choque, entretanto, seu resultado final acabou extrapolando os meros fins lucrativos aludidos por Lindberg. Por mais que a brutalidade e pornografia estejam presentes, elas são incorporadas dentro de uma atmosfera desolada e uma narrativa sóbria, por vezes quase rarefeita, além de um subtexto repleto de ironia perversa, o que faz com que o conjunto estético-temático possua aquela bizarra síntese de repulsa e encantamento dos melhores filmes da linhagem exploitation setentista. Detalhes cênicos como as estranhas sequências de ação em câmera lenta e a atuação icônica de Lindberg fazem entender por que Quentin Tarantino sempre cita “Thriller” como uma das suas grandes inspirações criativas.

segunda-feira, junho 10, 2019

Viagem ao mundo da alucinação, de Roger Corman ***1/2


Ainda que seja um diretor bastante cultuado, Roger Corman foi antes de mais nada um grande homem de negócio dentro do cinema. Mesmo os antológicos filmes que realizou adaptando a obra literária de Edgar Allan Poe são frutos principalmente de um afiado senso de oportunidade mercadológica e de utilização de recursos de produção. Essa mesma lógica artística-comercial o levou a realizar alguns longas dentro da temática sexo-drogas-rock and roll quando essa tríade estava no auge em meados dos anos 1960. “Viagem ao mundo da alucinação” (1967) talvez seja o exemplar mais emblemático de tal tendência, tendo também relevante conotação histórica por trazer em seu elenco e equipe criativa os nomes de profissionais que poucos anos mais tarde estouraram em Hollywood como Jack Nicholson, Denis Hooper, Peter Fonda e Bruce Dern. Por outro lado, o filme de Corman transcende a mera curiosidade histórica ou comercial, tendo um peso artístico considerável. Em meio a maneirismos típicos de um caráter exploitation há momentos efetivamente antológicos, em que as angústias e inquietações existenciais do roteiro encontram uma moldura estética-narrativa mais que adequada. Truques imagéticos baratos, encenação vigorosa e uma trilha sonora que sintetiza rock psicodélico e easy listening de maneira notável formam um todo sensorial entre o atordoante e o encantador. Nessa levada, Corman articula com sensibilidade e ironia a sua particular visão sobre o universo lisérgico sessentista.

quinta-feira, junho 06, 2019

Mutant Blast, de Fernando Alle ***


Uma produção portuguesa de baixo orçamento envolvendo zumbis e uma sociedade pós-apocalipse? É claro que uma obra assim só poderia ser encarada como comédia. E o diretor Fernando Alle tem a plena consciência disso na realização de “Mutant Blast” (2018), fazendo de suas limitações de recursos e de uma sagaz criatividade formal/artesanal seus principais trunfos para realizar um longa divertido tanto em termos de ação quanto de ironia ácida. E o próprio fato dos atores falarem seus diálogos repleto de clichês do gênero com um sotaque lusitano dá um charme cômico para tudo isso ainda maior. É claro que nem sempre o tom debochado/esculachado do filme consegue garantir o equilíbrio narrativo, mas a série considerável de boas sacadas estéticas e textuais segura o interesse do espectador – nesse sentido, é de se destacar a atuação bonachona de Pedro Barão Dias no papel principal e a caracterização física-existencial de um refinado homem-lagosta!