Ao se assistir à “Vazante” (2017), dá para entender um pouco
a polêmica que o filme de Daniela Thomas vem causando. O retrato que faz da
escravidão do Brasil no século XIX causa certo teor de perturbação por uma
abordagem emocional e histórica marcada pela sobriedade e ausência de uma
delimitação mais clara entre o “bem” e o “mal” – ou seja, não dá para dizer que
se trata de uma trama com mocinhos e bandidos. O retrato que o roteiro propõe
mostra o regime escravista entranhado na sociedade como algo normal,
corriqueiro. Na trama, as famílias de fazendeiros que possuem escravos não
apresentam uma caracterização de sádicos ou dementes racistas, mas sim de
pessoas normais, eventualmente atormentadas, que aceitam e se valem daquela
situação de exploração desumana como algo normal e aceitável no seu cotidiano.
Mesmo na ala dos escravizados predomina um teor de resignação, com eventuais
situações de revolta. Na verdade, essa visão da escravidão como algo normal e
corriqueiro é que dá a verdadeira dimensão assustadora da situação e ajuda
melhor a explicar como o racismo no Brasil apresenta todo esse contexto de
hipocrisia e crueldade na sociedade contemporânea. Voltando ao filme, também é um
acerto o trabalho minucioso de direção de arte e fotografia em preto e branco que
compõem um registro audiovisual marcado tanto pelo áspero realismo quanto por
uma beleza melancólica no seu sutil registro que vai das grandes tomadas de
paisagens naturais até enquadramentos e encenação de caráter intimista. O que
atrapalha o longa-metragem de Thomas é que no terço final da narrativa a obra
se converte num gasto melodrama envolvendo adultérios e gravidezes suspeitas que
por vezes beiram o novelesco banal, ainda que guardem um simbolismo por vezes
inquietante.
Boa parte de amigos e conhecidos costuma dizer que as minhas recomendações para filmes funcionam ao contrário: quando eu digo que o filme é bom é porque na realidade ele é uma bomba, e vice-versa. Aí a explicação para o nome do blog... A minha intenção nesse espaço é falar sobre qualquer tipo de filme: bons e ruins, novos ou antigos, blockbusters ou obscuridades. Cotações: 0 a 4 estrelas.
segunda-feira, novembro 13, 2017
sexta-feira, novembro 10, 2017
Dois é bom, três é demais, de Anthony e Joe Russo **
Os créditos na direção de “Dois é bom, três é demais” (2006)
até sugerem algo de promissor. Afinal, trata-se dos irmãos Anthony e Joe Russo,
responsáveis por um dos melhores filmes da Marvel Studios, “Capitã América: O
soldado invernal” (2014). O resultado final dessa comédia, entretanto, deixa
bastante a desejar. Não chega a ser exatamente ruim – há alguns momentos daquele
humor grosseiro que efetivamente rendem algumas risadas, além de uma visão mais
crítica sobre questões comportamentais e mesmo intimistas dentro da sociedade
norte-americana. Tais aspectos positivos, entretanto, são sufocados pelo
convencionalismo excessivo e derivativo da forma com que a narrativa é conduzida,
além de um roteiro bastante conservador em suas resoluções. Afinal, o que dizer
de uma conclusão em que um eterno desajustado acaba se enquadrando nos padrões
ao se descobrir como um excelente palestrante de autoajuda?
quinta-feira, novembro 09, 2017
Terra selvagem, de Taylor Sheridan ***
Na ainda pequena amostragem que já se teve das obras do
diretor e roteirista Taylor Sheridan nas salas de cinemas, dá para dizer que
ele segue uma certa linhagem autoral. Em “Sicário” (2015) e “A qualquer custo”
(2016), produções que contaram com roteiros de sua autoria, pode-se perceber
uma expressiva síntese entre os preceitos do cinema de ação e abordagem e
atmosfera mais reflexivas, além de tramas que trazem em seus respectivos
subtextos uma sutil visão crítica sobre os descaminhos morais e sociais da
sociedade norte-americana contemporânea. Num contexto ainda mais amplo, são
filmes que revelam ainda uma releitura contemporânea dos gêneros policial e
faroeste. Em “Terra selvagem” (2017), longa-metragem de estreia de Sheridan
como diretor, tais características das mencionadas obras anteriores voltam a se
manifestar, sem, contudo, apresentar um foco artístico tão preciso. Há uma
narrativa envolvente, a memorável fotografia que valoriza a forte beleza
plástica das amplas paisagens geladas que servem de cenário para a trama,
sequências de ação muito bem dirigidas (o brutal tiroteio final é
particularmente antológico), encenação que por vezes cria momentos de sufocante
tensão psicológica e uma adequada trilha sonora climática composta e executada
por Nick Cave e Warren Ellis (ainda que dê a impressão de ser um tanto
derivativa de outros temas mais consistentes que eles fizeram para filmes
anteriores). O que incomoda em “Terra selvagem” é um excesso de cenas marcadas
por um forçado teor contemplativo e solene e um roteiro que força a barra em
diálogos filosóficos de almanaque, o que faz com que a narrativa não seja tão
equilibrada quanto as de “Sicário” e “A qualquer custo”.
quarta-feira, novembro 08, 2017
Na praia à noite sozinha, de Hong Sang-soo ***1/2
Os filmes do diretor sul-coreano Hong Sang-soo apresentam
elementos narrativos que são recorrentes. Não se trata de acomodação artística,
mas sim de depuração de uma linguagem cinematográfica muito peculiar. Isso fica
evidente em “Na praia à noite sozinha” (2017). Nessa obra mais recente, estão
lá aqueles aspectos formais e temáticos que já constavam em seus filmes
anteriores – os planos narrativos que se alternam entre o real e o imaginário,
a encenação de fluidez insólita e cativante (evidentes, por exemplos, nas
sequências em que os personagens dialogam ao redor de uma mesa jantando ou
bebendo), o estilo de filmar e editar que sugere uma síntese particular entre a
aparente rusticidade e a sofisticação, o roteiro que alude ao universo do cinema
como um de seus principais cenários. Dentro desse conjunto estético-textual, a
narrativa faz com que espectador embarque em um contexto sensorial de estranho
encanto, em que as situações da trama se sucedem quase como se fosse um sonho,
em que algumas soluções marcadas pelo absurdo acabam ganhando uma notável
coerência existencial-artística. Assim, cenas parecem se repetir com sutis
variações, assim como as próprias noções de espaço e tempo se mostram elásticas,
mas o encanto de tais excentricidades é filtrado dentro de um formato de
crônica cotidiana. Ou seja, parece complicado, mas no final das contas é de uma
simplicidade desconcertante.
terça-feira, novembro 07, 2017
O estigma de Satanás, de Piers Haggard ***
Na época de seu lançamento, “O estigma de Satanás” (1971) já
tinha um certo caráter anacrônico. Vinculado àquela escola de horror delineada
pela produtora inglesa Hammer, o filme do diretor Piers Haggard traz realmente
a impressão de uma obra datada, principalmente pela formatação tradicional de
seu roteiro, pela fleuma de sua encenação e pela sua atmosfera entre o gótico e
o pastoril. Ainda assim, esse passadismo por vezes tem algo atraente na forma
com que a sua narrativa se espraia na tela, sugerindo uma síntese entre o encantador
e o perturbador – é de se considerar que o longa capricha mais na violência e
violência gráficas do que os trabalhos da Hammer. Algumas trucagens e mesmo
detalhes da maquiagem e caracterização visual jogam o filme naquela zona
nebulosa do humor involuntário, impressão essa acentuada por algumas passagens
da trama excessivamente maniqueístas. Por outro lado, há uma estranha
ambientação difusa e ambígua em determinadas sequências, principalmente
naquelas envolvendo rituais de magia negra, além de um sutil subtexto a sugerir
uma crítica a um ordenamento religioso patriarcal e opressor. Por mais que a
conclusão da produção evoque a velha máxima do “bem vencendo o mal”, há um
traço de melancolia amarga na forma com o representante da ordem e da moral do
vilarejo interiorano reprime e esmaga o grupo de jovens e deserdados cultores
do “mal”.
segunda-feira, novembro 06, 2017
Thor: Ragnarok, de Taika Waititi ***1/2
Em alguns posts que escrevi neste blog falando sobre filmes
que adaptavam o universo das HQs de super-heróis para as telas, foi mencionada
a necessidade das obras do gênero em questão em procurar preservar uma certa
essência dos quadrinhos originais nessa transposição de uma mídia para outra
visando resgatar aquilo que personagens e histórias dos “comics” têm de
interessante e peculiar que justificam a sua perenidade. Pois “Thor: Ragnarok”
(2017) acaba sendo um desmentido enfático dessa tese! O diretor neozelandês
Taika Waititi pega figuras, conceitos e outros elementos diversos do clássico
universo da Marvel e os recria num contexto diferente e algo delirante, mas
sempre transparecendo uma coerência artística-existencial desconcertante.
Tentando resumir, dá para dizer que esse novo capítulo das aventuras do mais
famoso deus de Asgard pega toda aquela solene mitologia nórdica típica do
protagonista e a enquadra numa lógica estética e temática que remete
diretamente a produções de ficção científica barata dos anos 80 (impressão essa
acentuada pela divertida e esquisita trilha sonora baseada em tecnopop
concebida por Mark Mothersbaugh, ex-integrante da banda new wave Devo), o que
coloca o filme diretamente em sintonia com a franquia de “Os guardiões da
galáxia”. Tal orientação artística, entretanto, não faz com que “Thor: Ragnarok”
caia na mera paródia, ainda que haja um considerável número de cenas e diálogos
movidos a piadinhas infames. Na narrativa, há tudo aquilo que um bom filme de
super-heróis deveria ter: cenas de ação coreografadas e encenadas com precisão
e detalhismo memoráveis, concepção visual de grafismo expressivo e criativo,
sequências com forte tensão dramática e personagens bem construídos e
carismáticos. Ou seja, uma ótima surpresa para aqueles que tinham ficado decepcionados
com a tendência para o romantismo xaroposo dos dois primeiros filmes do
personagem. Já para quem conhecia o longa anterior de Waititi, a pérola cult “O
que fazemos na sombra” (2014), excêntrica comédia a tirar um sarro dos clichês
habituais dos filmes de vampiros, acaba não sendo uma surpresa tão grande
assim, ainda que “Thor: Ragnarok” revele uma forte evolução artística por parte
de Waititi.
quarta-feira, novembro 01, 2017
Meu amigo hindu, de Héctor Babendo *
O cineasta Héctor Babenco é um nome muito importante na
história do cinema brasileiro. Além de ter dirigido obras fundamentais da
filmografia nacional, como “Lúcio Flávio – Passageiro da agonia” (1977) e “Pixote
– A lei do mais fraco” (1981), também foi o responsável por produções
internacionais memoráveis como “Ironweed” (1987) e “Brincando nos campos do
senhor” (1991). Dessa forma, é evidente que causa bastante frustração saber que
o seu filme-testamento seja um longa-metragem tão decepcionante quanto “Meu amigo
hindu” (2015). Na verdade, os trabalhos imediatamente anteriores de Babenco, “Carandiru”
(2003) e “O passado” (2007), já mostravam um considerável declínio em termos de
inspiração criativa, mas nada também que chegasse aos picos de ruindade do
trabalho derradeiro do diretor. Resumindo, trata-se de uma egotrip narcisista e
autoindulgente do diretor, concebida e elaborada sem o menor traço do cuidado estético-narrativo
e da consistente densidade psicológica que eram marcantes em seus melhores
filmes. É claro que dá para entender que Babenco quisesse transpor para as
telas o seu drama pessoal real de um doloroso tratamento para uma grave doença
e o consequente processo de desagregação de sua vida pessoal decorrente desse
fato, além de mostrar também o seu reerguimento como indivíduo diante de tais
circunstâncias difíceis e complexas. Um artista tem o direito de manifestar
suas obsessões da forma como quiser, e no caso do diretor dá para dizer que a
sua história tem um alcance universal. O verdadeiro equívoco de “Meu amigo
hindu” é que essa viagem intimista ganha um tratamento formal desleixado e
derivativo, acentuado ainda mais por escolhas de produção tremendamente esdruxulas
– para começar, por melhor ator que seja Willem Dafoe, por que escolher um ator
norte-americano para o papel de um protagonista brasileiro, numa trama que se
passa no Brasil, com demais personagens vividos por um elenco brasileiro que
fala em inglês? E com o complemento de que quando a história passa a se situar
nos Estados Unidos aparecem novamente atores brasileiros interpretando
norte-americanos com um inglês macarrônico? E a partir do momento que Bárbara
Paz entra em cena interpretando a si própria, a produção toma outro rumo. E
para pior, caindo no francamente ridículo, beirando a comédia involuntária.
terça-feira, outubro 31, 2017
Rendez-vous, de André Techiné ***1/2
Os filmes do diretor André Techiné geralmente parecem
se configurar como sóbrios contos morais. A grande questão, entretanto, é que
essa moral obedece a uma lógica ambígua e particular. “Rendez-vous” (1985) é um
exemplar enfático dessa tendência do cineasta francês. Como principal mote
aparente de sua trama, desenvolve-se um conturbado triângulo amoroso em meio ao
cenário artístico parisiense. Só que um dos vértices de tal relacionamento é de
um atormentado ator que morre logo no terço inicial do filme. Nesse sentido, a
narrativa concebida por Techiné vai se equilibrando numa tênue linha entre uma
ambientação naturalista e uma atmosfera fantástica, como se a convivência entre
esses dois planos beirasse o prosaico. Por trás da estranheza dessa história há
ainda um subtexto sutil sobre a natureza da arte – a forma com que a
protagonista Nina (Juliett Binoche) amadurece entre os descaminhos de sua vida
amorosa também serve como substrato da autodescoberta de suas potencialidades
como atriz. As evidentes implicações psicológicas e simbólicas do roteiro
recebem um tratamento formal misto de rigor e fluidez por parte de Techiné,
centrando grande força no vigor de sua encenação e na estética precisa da fotografia
e edição.
segunda-feira, outubro 30, 2017
O formidável, de Michel Hazanavicius ***
Em um primeiro momento, a primeira coisa que salta aos olhos
ao assistir a “O formidável” (2017) são algumas brincadeiras e referências
estéticas concebidas pelo diretor Michel Hazanavicius que perpassam a narrativa
que evocam sequências memoráveis de produções marcantes dirigidas por Jean-Luc
Godard, o protagonista da trama do filme baseada em fatos reais. Por vezes tais
truques são pertinentes e engraçados, em outros momentos são apenas pueris.
Também é de se destacar que a produção se estrutura quase como se fosse uma
comédia romântica, com um roteiro que enfatiza situações e soluções típicas do
gênero. Tais detalhes temáticos e narrativos, entretanto, representam uma superfície
enganadora sobre as reais intenções da obra, pois a efetiva força de “O
formidável” está no contundente subtexto do seu roteiro e no vigor de sua
encenação, fatores esses ainda reforçados pele interpretação sanguínea de Louis
Garrel no papel de Godard. Em meio aos desacertos, contradições e dilemas do
personagem principal com as causas e consequências do maio de 1968 em Paris está
uma arguta observação sobre o papel de um artista perante a sociedade em que
está inserido. No meio de cobranças para se mostrar acessível para os seus
admiradores, em cumprir expectativas advindas da condição de ser um gênio
cinematográfico “consagrado” e também em se enquadrar nos padrões de
comportamento “civilizado” de uma sociedade pequeno-burguesa, o que fica
realmente estabelecido como o grande mote da trama é a necessidade de
reinvenção e apreensão da realidade por parte do artista diante de um evento
histórico tão complexo e perturbador quanto as revoltas estudantis da época.
Nesse aspecto, o filme de Hazanavicius não facilita as coisas – Godard quase
sempre é visto pelo olhar da jovem e algo ingênua esposa Anne Wiazemsky (Stacy
Martin), sugerindo-se uma personalidade irascível, geniosa e arrogante por
parte do cineasta, mas que sutilmente esconde um sentimento de inconformismo e
da busca de preservar o seu senso humanista perante hipócritas cobranças e
acusações daqueles que o cercam. A melancólica conclusão de “O formidável”
sublinha com notável coerência e precisão as verdadeiras ambições artísticas e
existenciais do longa-metragem de Hazanavicius.
sexta-feira, outubro 27, 2017
Mishima - Uma vida em quatro capítulos, de Paul Schrader ****
Daquela geração/cena de cineastas e roteiristas que
despontaram no final dos anos 60 e se consagraram de vez na década de 1970, a
chamada “Nova Hollywood”, Paul Schrader é o que teve trajetória e estilo mais
singulares. Enquanto seus colegas se dedicaram a estética e narrativa que sintetizavam
a linguagem clássica do cinema norte-americano da primeira metade do século XX e
as inovações artísticas das correntes europeias mais prementes da época,
principalmente a Nouvelle Vague, Schrader enveredou para uma releitura bastante
particular do cerebralismo do Robert Bresson e do minimalismo expressivo de
Yasujiro Ozu. “Mishima – Uma vida em quatro capítulos” (1985) é um exemplar
enfático de tal tendência artística de Schrader. Ao invés de optar pela
convencional cinebiografia estilo “resumão”, o diretor preferiu fazer um
verdadeiro tratado artístico-existencial sobre o polêmico escritor japonês
Yukio Mishima, relacionando alguns eventos marcantes de sua vida com trechos de
suas principais obras, sugerindo uma bela e estranha simbiose entre a “realidade”
do criador e o universo ficcional que criou. O resultado final é desconcertante,
com Schrader conciliando com naturalidade e bizarra coerência um plano
narrativo de seco corte naturalista com sequencias de tinturas entre o onírico
e o alegórico, além de preservar com sensibilidade uma temática complexa em que
homossexualidade, culto ao apolíneo e nacionalismo convivem em uma harmonia
perturbadora.
quinta-feira, outubro 26, 2017
Quatro amigas e um casamento, de Leslye Headland **
As comédias norte-americanas contemporâneas que enveredam
para a temática do retrato comportamental de gerações diversas (jovens, adultos
e afins) parecem sempre andar no fio da navalha. Por vezes, aparecem algumas
produções que realmente trazem uma visão lúcida sobre contradições e dilemas
típicos dos tempos que vivemos, em meio aos habituais episódios de piadas
grosseiras e escatológicas, tendo um resultado final artístico bem memorável –
nessa linha, daria para citar alguns trabalhos mais recentes dos irmãos
Farrelly. E também há o caso de um número considerável de filmes que caem na
mais pura irrelevância. “Quatro amigas e um casamento” (2012) fica no meio
caminho. Na primeira metade do longa, a narrativa até insinua uma visão
sarcástica, por vezes até amarga, sobre os desencontros sentimentais e alguns
padrões morais hipócritas da sociedade ocidental, com algumas cenas interessantes
em termos de encenação e boas situações cômicas. Na parte final do roteiro,
entretanto, tudo se formata em soluções convencionais e mesmo moralistas, em
meio a um formalismo derivativo, frustrando as expectativas promissoras
iniciais.
quarta-feira, outubro 25, 2017
Bom comportamento, de Ben e Joshua Safdie ***1/2
Por vezes, principalmente em seu terço inicial, a estrutura
narrativa e a trama de “Bom comportamento” (2017) sugerem um derivado do gênero
suspense-policial naquela linha de uma história envolvendo um grande plano de
roubo ou golpe semelhante. Com o desenrolar da narrativa, entretanto, a
verdadeira natureza do filme dirigido por Bem e Joshua Safdie vai se
manifestando de maneira contundente e perturbadora. A trajetória do assaltante
Connie (Robert Pattinson) para tentar libertar o irmão Nick (Ben Safdie) após
este ter sido preso durante a fuga de um roubo à banco frustrado mais tem a ver
com uma crônica sardônica sobre desajustados do que propriamente com um
thriller de ação. Ainda assim, a forma com que os Safdie conduzem a produção privilegia
a tensão e a encenação frenética. A uma certa altura da trama, fica evidente
que as escolhas de Connie na busca do seu objetivo obedecem a uma lógica
aleatória e equivocada, típica de um habitual perdedor. Quando entra em cena o
esquisito marginal Ray (Buddy Durress), o roteiro e atmosfera de “Bom
comportamento” ficam ainda mais configurados dentro de uma síntese que oscila
entre o melancólico e o delirante – não à toa, Connie e Ray embalam suas
correrias e mancadas com doses generosas de álcool e LSD, fazendo com que o
espectador embarque em um amargo e longo pesadelo com direito a desconcertantes
toques cômicos. O formalismo articulado pelos diretores acentua com precisão
essa ambientação marcada pela crueza e por um sutil humor negro – há uma
clareza imagética que realça cada gesto e expressão dos personagens,
amplificando tanto a assustadora brutalidade gráfica de algumas cenas quanto a
densidade psicológica e a frieza emocional de outras sequências. Além disso,
conta-se com alguns detalhes cênicos que revelam notável sintonia com o
espírito da obra, como as vigorosas interpretações de Pattinson e Duress e a
trilha sonora que combina timbres oitentistas e nuances eletrônicas.
terça-feira, outubro 24, 2017
Cacaso na corda bamba, de José Joaquim Salles e PH Souza **1/2
Os mais ranhetas podem implicar com a prolífica relação que
se estabeleceu no cinema nacional nos últimos anos entre o gênero documentário
e a temática relacionada à história da música brasileira, principalmente pelo
fato de que boa parte das produções que se originaram de tal relação não é
marcada por grandes ousadias formais e narrativas. O que ocorre é que o
universo do cancioneiro nacional é tão amplo que se torna um assunto
praticamente inesgotável pela riqueza de artistas de relevo com quem o país
conta ou já contou, tanto em nomes conhecidos e consagrados quanto daqueles
mais obscuros. Nessa última vertente, enquadra-se Antônio Carlos Brito, o
biografado de “Cacaso na corda bamba” (2016). Em um primeiro momento, confesso
que a figura desse poeta e letrista me soava desconhecida. Ao assistir ao filme
dos diretores José Joaquim Salles e PH Souza, entretanto, constatei que lá para
o meu imaginário cultural particular ele era alguém próximo, sendo coautor de
canções ao lado Edu Lobo e Francis Himes que estavam lá coladas na minha
memória. O formato narrativo do documentário é aquele mesmo que se está
acostumado, com entrevistas e imagens de arquivos se entrelaçando de maneira
correta e nada mais, mas o teor de tal material é tão interessante e de forte
caráter humanista que o espectador acaba se envolvendo com a história contada e
por vezes mesmo encantado com o singular talento de Cacaso, além de também
ficar comovido com o fato de sua morte precoce. Essa gama de sensações já torna
“Cacaso na corda bomba” uma experiência mais que válida.
segunda-feira, outubro 23, 2017
Logan Lucky - Roubo em família, de Steven Soderbergh ***
Parece que aquela síntese entre os gêneros policial e ação
envolvendo uma trama relacionada a grandes roubos e falcatruas afins é a praia
favorita do diretor norte-americano Steven Soderbergh. “Logan Lucky – Roubo em
família” (2017) é a sua mais nova incursão a esse estilo de filme, com uma
estrutura narrativa que remete diretamente à franquia de “Onze homens e um
segredo”, só que com adicional de cenários e personagens remeterem ao universo
de caipiras sulistas. Se os filmes anteriores tinham uma atmosfera irônica e
sequências de caráter cômico, “Logan Lucky” acentua ainda mais o caráter
jocoso, com momentos que beiram a paródia. O roteiro é bem menos lapidado e a
condução da narrativa em certo momentos evidencia uma certa frouxidão. Dá a
impressão de que Soderbergh e elenco estavam mais a afim de se divertir fazendo
o filme do que propriamente interessados em uma produção bem-acabada. Esse
desleixo fica evidente na meia-hora inicial do longa, que cai com frequência na
indulgência e na pura chatice. Mas é quando a trama começa a esboçar os
preparativos para o grande assalto que é o mote principal do roteiro que a obra
diz a que veio. Daí sim podemos sentir a habitual habilidade narrativa de
Soderbergh de transformar clichês formais e temáticos em algo envolvente para o
espectador. A encenação fica bem mais precisa, a montagem apresenta uma
dinâmica sedutora, as atuações do elenco se configuram com mais nuances
dramáticas e cômicas. De bônus, há uma interessante abordagem mista de
sacanagem e carinho com os valores sulistas e uma sensacional trilha sonora
cancioneira. Ou seja, no final das contas Soderbergh não entrega uma obra-prima
na linha de “Irresistível paixão” (1998), mas ainda se mostra capaz de gerar um
trabalho bastante divertido e memorável.
quinta-feira, outubro 19, 2017
Detroit em rebelião, de Kathryn Bigelow ***
A combinação parecia infalível: a diretora de “Guerra ao
terror” (2008) e “A hora mais escura” (2012), obras antológicas na síntese de cinema
de ação e realismo dramático, filmando uma revoltante história real envolvendo
brutalidade policial durante conflitos raciais na Detroit de 1967. O resultado
final de “Detroit em rebelião” (2017), entretanto, fica aquém das altas
expectativas. A junção de elementos dos gêneros de thriller e drama de tribunal
com alguns elementos de técnicas documentais, além da inserção de registros de
arquivos da época, não soa tão orgânica. A diretora Kathryn Bigelow cai em
alguns momentos numa encenação de tendências excessivamente melodramáticas e
convencionais e mesmo a direção de arte soa um artificialismo estilizado
incômodo. Tais ressalvas, entretanto, não implicam necessariamente em um mau
filme. Pelo contrário – em suas quase duas horas e meia de duração, a produção
consegue apresentar uma narrativa envolvente, ainda que sem maiores arroubos
criativos. As longas sequências em que um grupo de policiais sádicos tortura psicológica
e fisicamente um grupo de jovens negros num hotel apresentam uma tensão
dramática quase palpável em seu detalhismo cênico, na sua atmosfera fatalista e
na sua brutalidade gráfica explícita. Vale mencionar ainda a coerência sombria
e melancólica da forma com que o roteiro se desenvolve, em que ao invés de se
buscar conclusões moralizantes ou conciliadoras, evidencia-se uma visão crua e
pessimista sobre a possibilidade de uma convivência racial pacífica nos Estados
Unidos.
quarta-feira, outubro 18, 2017
Especialista em crise, de David Gordon Green **
O diretor norte-americano David Gordon Green não é
exatamente um grande inovador em termos de linguagem cinematográfica. No melhor
de sua filmografia, entretanto, mostrou-se como um cineasta de talhe clássico
na elaboração de narrativas sóbrias, no formalismo preciso e em roteiros bem
delineados. Assim, uma obra tão genérica e sem inspiração como “Especialista em
crise” (2014) causa frustração. Em um primeiro momento, o longa-metragem em
questão até parece promissor ao evidenciar uma trama que sugere uma crítica às
hipocrisias do marketing político típico da sociedade ocidental, ao mostrar um
duelo de dois consultores políticos dos Estados Unidos numa eleição de um país
latino-americano fictício. Os desdobramentos do roteiro vão desbotando essa boa
impressão ao apresentarem caracterizações simplórias e ingênuas de situações e
personagens, sempre embalado por estética e narrativa preguiçosas e sem graça.
Tal resultado final frustrante faz pensar que Gordon Green aceitou meio de má vontade
um projeto de encomenda...
terça-feira, outubro 17, 2017
Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve **1/2
Se a continuação de um filme marcante só aparece 35 anos após
o lançamento da obra original é de se presumir que tal “demora” seja
justificada por um tremendo cuidado artístico em sua concepção e realização.
Assistindo-se a “Blade Runner 2049” (2017), entretanto, não é essa a impressão
que salta aos olhos. Há elementos na produção que realçam algo de diferente – a
bela trilha sonora que sintetiza com bizarra harmonia melodias e dissonâncias, a
direção de arte que concilia estilização e realismo sórdido, a fotografia de
requintada sobriedade imagética e mesmo a composição dramática precisa de Ryan
Gosling no papel do protagonista K/Joe. O problema é que a junção dessas partes
não resulta em um todo convincente, principalmente pela narrativa irregular e
por um roteiro que resvala por várias vezes no simplório. Se a obra-prima de
1982 dirigida por Ridley Scott foi um verdadeiro marco da ficção científica, ao
juntar aspectos fundamentais e singulares do gênero mencionado com preceitos de
cinema noir e influenciando uma série de filmes na linha futurista distópica ou
apocalíptica, essa continuação dirigida por Denis Villeneuve mais parece um pálido
derivativo dessas obras herdeiras do longa-metragem original. Não há aquela
atmosfera enigmática, a ambientação algo imprecisa, os personagens ambíguos, a
sensualidade insólita, as econômicas e antológicas sequências de brutalidade. O
que fica em “Blade Runner 2049” é a necessidade contemporânea de amarrar todas
as pontas da trama para deixar tudo mastigado para o espectador, as cenas de ação
marcadas pelo banal tom apoteótico, os clichês mal ajambrados do roteiro, o
tedioso tom solene da narrativa. Isso sem falar que a atuação de Harrison Ford
mais faz lembrar um Han Solo aposentado e canastrão do que um Rick Deckard
amadurecido e amargo.
segunda-feira, outubro 16, 2017
Quanto mais quente melhor, de Billy Wilder ****
Assim como vários outros clássicos norte-americanos da época
do Star System dos grandes estúdios, “Quanto mais quente melhor” (1959) foi
realizado com a intenção primeira de divertir as platéias, mais até do que se
tornar uma obra de grande expressão cultural. Só que a genialidade do diretor
Billy Wilder na concepção e execução da narrativa do filme teve também como
resultado final um longa-metragem que pode ser considerado grande arte. Isso
fica evidente em expressivos detalhes como um elegante formalismo baseado em sutis
nuances imagéticas, encenação perfeitamente coreografada que sintetiza precisão
e desenvoltura alucinada, roteiro engenhoso no desenvolvimento de hilários quiproquós
e na elaboração dos sagazes diálogos e direção de atores que extrai atuações
inesquecíveis de todo o elenco principal e de boa parte dos coadjuvantes.
sexta-feira, outubro 13, 2017
Cícero Dias, o compadre de Picasso, de Vladimir Carvalho ***
Na filmografia de documentários do cineasta Vladimir
Carvalho se pode perceber a busca por uma síntese narrativa-existencial a
traçar a particular trajetória histórica-cultural do Brasil na exposição de
eventos marcantes ou de figuras de relevo na história do país. Em seu
longa-metragem mais recente, “Cícero Dias, o compadre de Picasso” (2016), o
diretor mantém a sua habitual abordagem artística ao contar a história do
pintor Cícero Dias. A obra não mostra maiores arroubos criativos e dramáticos,
estando longe da força estética e temática de trabalhos antológicos como “Conterrâneos
velhos de guerra” (1990) e “Rock Brasília – A era de ouro” (2011). Ainda assim,
é um documentário acima da média na maneira envolvente e didática com que
consegue conciliar os aspectos intimistas da vida do biografado com o contexto
sócio-político-cultural que o cercava. Em tempos que a iniciativa de
reacionários e fascistas em determinar o fechamento de exposições que desafiam
o moralismo hipócrita e oportunista é vista como algo normal e louvável, é saudável
assistir a uma obra que exalta a sensibilidade e a ousadia de um artista que
buscou em sua atividade criativa transcender o óbvio e as concepções
repressoras daquilo que é considerado “belo”.
segunda-feira, outubro 09, 2017
Polícia em poder da máfia, de John Hillcoat ***
Em alguns de seus filmes anteriores, o diretor australiano
John Hillcoat se mostrou um criativo recriador do cinema de gênero, enveredando
com resultados extraordinários pelo faroeste (“A proposta”), pela ficção
científica (“A estrada”) e pelo policial de época na linha gangster (“Os
infratores”). Assim, ao se saber que o seu projeto seguinte, “Polícia em poder
da máfia” (2016), trilharia o gênero policial contemporâneo, as expectativas só
poderiam ser altíssimas. O resultado, entretanto, ainda que competente, acaba
soando frustrante. O elenco é carismático (ainda que Kate Winslet abuse da
canastrice), algumas sequencias de ação são bem executadas e a narrativa é até
envolvente, mas o filme está longe da marcante fúria sensorial e da estética
mista de crueza casca grossa e requinte visual dos celebrados trabalhos
pregressos de Hillcoat. Parece mais uma eficiente produção genérica de um
diretor tarefeiro de Hollywood do que a obra de um cineasta de talento
singular.
sexta-feira, outubro 06, 2017
De volta ao jogo, de David Leitch e Chad Stahlski ***1/2
Pelo menos em termos de blockbusters, o gênero do cinema de
ação contemporâneo, com algumas honrosas exceções, dá a impressão que se
converteu em um grande vídeo game genérico. Coreografias de lutas e perseguições
dependem de recursos óbvios de efeitos digitais e câmeras lentas que por vezes
beiram o estático, por outras se aproximam de vídeos publicitários. O resultado
final de tais obras acaba sendo enfadonho, ainda que o espectador não consiga
dormir devido à barulheira excessiva que predomina em tais narrativas. “De
volta ao jogo” (2014) é uma obra que se coloca na contramão de tal tendência.
Os diretores David Leitch e Chad Stahelski conseguem para o filme uma
convincente síntese entre violência cartunesca e uma certa densidade dramática,
sabendo dosar com precisão sequências brutais e cenas que valorizam diálogos e
uma tensa interação psicológica entre os personagens. Com essa abordagem
artística, de certa forma, até fazem lembrar alguns trabalhos clássicos do
cineasta francês Jean Pierre Melville. A encenação é outro dos grandes trunfos
de “De volta ao jogo” – pode-se perceber tantos nas sequências mais frenéticas
quanto naquelas de caráter reflexivo uma atenção acurada em nuances imagéticas
e na fluidez do movimento cênico. Nesse sentido, até dá para dizer que há algo
de nostálgico nessa visão sobre o cinema de ação, fazendo lembrar alguns longas
marcantes dos anos 80, mas sempre conseguindo evidenciar também um traço
contemporâneo na concepção estético-temática da obra. E é claro que há o mérito
inquestionável de conseguir extrair de um notório canastrão como Keanu Reeves
uma forte e carismática atuação.
quinta-feira, outubro 05, 2017
Lamparina da aurora, de Frederico Machado **
Parece ser uma tendência no cinema contemporâneo filmes que
procuram uma síntese entre o horror e o alegórico carregado de simbolismos,
procurando subverter alguns dos principais preceitos do cinema de gênero. Nessa
perspectiva, destacam-se obras memoráveis como “Quando eu era vivo” (2014), “A
bruxa” (2015) e “Mãe” (2017). A produção brasileira “Lamparina da aurora”
(2017) trilha por caminhos artísticos parecido, mas seu resultado final é bem
frustrante. Roteiro e composição imagética até revelam ousadia na forma com que
buscam uma narrativa atmosférica baseada em metáforas visuais e temáticas.
Falta para tal narrativa, entretanto, ritmo e consistência para envolver o
espectador no que deveria ser uma espécie de vórtice sensorial perturbador e
desconcertante. Do jeito que ficou, o filme mais induz ao sono do que a uma
tensão consistente.
quarta-feira, outubro 04, 2017
Kingsman: O círculo dourado, de Matthew Vaughn **
O escritor escocês Mark Millar é um nome fundamental para se
entender não só o cenário dos quadrinhos contemporâneos como também a cada vez
mais intensa relação que se estabelece entre as indústrias das HQs e do cinema.
Millar é o roteirista de algumas das principais obras dos comics nos últimos 25
anos, além do fato de que boa parte dos títulos que fazem parte do seu selo
Millarworld já recebeu versões para a tela grande – sem contar que os filmes
dos Vingadores se baseiam em conceitos que Millar desenvolveu na série “Os
supremos” (no caso, os Vingadores do alternativo universo Ultimate da Marvel).
A franquia cinematográfica “Kingsman” é originária de uma minissérie da
MIllarworld, com um detalhe a mais: esse “Kingsman: O círculo dourado” (2017) é
uma continuação para os cinemas, mas que ainda nem se efetivou nos quadrinhos!
A curiosidade de tais dados estatísticos e comerciais exemplificam como os
quadrinhos se tornaram uma inesgotável fonte de estratégias de marketing e
lucro para as grandes corporações midiáticas, mas, no final das contas, não são
garantia de que o filme em questão será relevante como narrativa
cinematográfica. E nesse último quesito, o longa-metragem dirigido por Matthew
Vaughn deixa bastante a desejar. Para começar, os principais motes dramáticos
da trama da obra original de Millar são explorados de maneira superficial. Se
na minissérie havia uma certa ambiguidade na atmosfera e uma visão crítica
sobre o dilema político do conflito segurança versus liberdade, tema esse
recorrente nos quadrinhos de Millar, em “O círculo dourado” praticamente tais
características se perdem em meio a uma concepção estética e textual bastante
esquemática e superficial, com um roteiro que escancara um discurso
sócio-político maniqueísta e conservador. Mesmo no quesito de aventura
escapista o filme de Vaughn é frustrante, perdendo-se numa encenação e ritmo
narrativo que mais remetem a um vídeo game genérico. Vaughn até procura dar uma
certa credibilidade para a obra ao inserir algumas referências à cultura pop e
um tom galhofeiro em algumas sequências, mas tudo isso acaba soando estéril ou
forçado diante do convencionalismo inexpressivo das suas escolhas formais e do
desenvolvimento do roteiro. E a sensação de decepção fica ainda mais reforçada
quando vem à lembrança de que se trata do mesmo cineasta de trabalhos
memoráveis como “Nem tudo é o que parece” (2004), “Kick ass” (2010) e “X-Men:
Primeira classe” (2011).
terça-feira, outubro 03, 2017
Filha de ninguém, de Hong Sang-soo ***1/2
Há um detalhe narrativo em “Filha de ninguém” (2013) que
sintetiza de maneira contundente as particulares concepções artísticas do
diretor sul-coreano Hong Sang-soo – em algumas cenas do filme, o personagem do
professor (Lee Sun-kyun) com o qual a protagonista Haewon (Jeong Eun-Chae) tem
um caso fica ouvindo uma canção instrumental em um pequeno aparelho eletrônico,
com tal áudio sendo reproduzido diretamente em cena, sem truques de edição de
som. O que poderia parecer um recurso que beira o amadorismo na verdade tem um
efeito estético e dramático bastante desconcertante. Por toda a narrativa do
longa predomina essa noção de desconstrução formal que oscila entre o
estranhamento e o encantador que se mostra em notável sintonia com o roteiro
que evidencia um universo que abarca com naturalidade a realidade, o onírico,
banalidades do cotidiano e noções de parábola moral. Nesse sentido, para Hong
Sang-soo não parece haver muitas diferenciações entre as caracterizações de uma
abordagem naturalista e de uma estilização que evoque o delirante, com tais
planos de realidade se misturando como se fosse um registro único entre o
documental e o caseiro. Dentro dessa singular linguagem cinematográfica também
entra uma encenação marcada pela fluidez e por insólitas nuances cômicas (a
sequência em que Haewon e seu referido amante encontram por acaso seus colegas
de faculdade em um restaurante, por exemplo, é antológica em sua dinâmica e
ironia). Assim, ao invés de apelar para óbvios arroubos de virtuosismo técnico
ou de grandes viradas dramáticas em sua trama, “Filha de ninguém” conquista
pela lenta e hipnótica sedução do espectador ao propor um despojado e original
conjunto existencial-formal.
segunda-feira, outubro 02, 2017
Psiconautas - As crianças esquecidas, de Pedro Rivero e Alverto Vásquez ****
Na animação “A crise carnívora” (2007), o diretor espanhol Pedro
Rivero investia numa equação narrativa insólita baseada em grafismo sujo, humor
negro, violência, escatologia e alegoria política. Voltando ao gênero animação
em “Psiconautas – As crianças esquecidas” (2015), Rivero, junto ao quadrinista
Alberto Vásquez, refina a estética e a temática de seu trabalho anterior e
entrega uma obra memorável. O roteiro combina de maneira natural e poética aventura
pós apocalíptica, uma visão sombria sobre a dependência química e simbolismos
diversos, sempre sob uma perspectiva humanista e complexa. No desenvolvimento e
resolução da trama, não há espaço para o simples maniqueísmo ou moralismo
fáceis, havendo uma exposição crua e amarga das hipocrisias e preconceitos
típicos da sociedade ocidental contemporânea. Rivero e Vásquez investem num
formalismo personalíssimo – ao invés da perfeição realista ou da estilização
padrão de boa parte das animações dos grandes estúdios, há a valorização de um
traço de bizarra beleza pictórica, repleta de nuances imagéticas plenas de
lirismo e sagacidade. Repare-se, por exemplo, na figura do protagonista
Birdboy, cuja caracterização visual remete a uma estranha síntese de pássaro e
criatura gótica. Aliás, a própria concepção dos personagens do filme reflete as
ideias desconcertantes de “Psiconautas”, em que aparentemente “fofinhos” seres
antropomorfizados são inseridos em situações e cenários desoladores e sórdidos.
No conjunto geral das escolhas artísticas da produção, fica a impressão de um
contundente trabalho a evidenciar um mundo se desagregando em meio a um cenário
de obscurantismo místico e exploração econômica, reflexo não muito distante de nossa
realidade.
sexta-feira, setembro 29, 2017
Bellini e o demônio, de Marcelo Galvão *
É de se elogiar a pretensão do diretor Marcelo Galvão pela
concepção do que deveria ter sido “Bellini e o demônio” (2008), algo como uma
releitura abrasileirada do misto de cinema noir e horror sobrenatural do
clássico “Coração satânico” (1987), com direito ainda a toques da estética
metafísica-delirante de David Lynch. As bem sacadas referências da obra,
entretanto, não encontram uma execução à altura de suas intenções artísticas. O
filme padece de uma narrativa trôpega e encenação vacilante, além da canastrice
irremediável do elenco e do roteiro estapafúrdio. Diante de tais equívocos
formais e temáticos, o resultado final é de uma ruindade constrangedora que por
vezes acaba caindo na comicidade involuntária – no final das contas, isso até
faz com que assistir ao filme de Galvão até seja uma experiência divertida!
quinta-feira, setembro 28, 2017
Joe, de David Gordon Green ***
No melhor de sua filmografia, o diretor norte-americano
David Gordon Green se mostrou um inspirado reciclador de preceitos narrativos
clássicos de gêneros como o melodrama (“Prova de amor”), policial (“Contra
corrente”) e comédia (“Segurando as pontas”). “Joe” (2013) não está no mesmo
nível artístico das obras mencionadas, mas ainda assim é uma obra eficiente
como drama no estilo realista. O roteiro cai em alguns recursos óbvios em
termos de estruturação de situações e personagens, o que é compensado pelo
vigor da encenação concebida por Green. Além disso, há alguns detalhes que dão
um realce diferenciado para a produção, como a sombria trilha sonora e as
sóbrias composições dramáticas do elenco – nesse último quesito, Nicolas Cage
surpreende por sair daqueles registros entre a preguiça e o exagero de boa
parte de suas recentes atuações.
quarta-feira, setembro 27, 2017
Zoolander 2, de Ben Stiller **1/2
Pode-se dizer que a trajetória de Ben Stiller como cineasta
é bem mais interessante do que na função de ator. Se interpretando ele se
mantém dentro de uma linha linear entre dramas realistas e previsíveis comédias
“família”, com algumas exceções, quando assume a direção os rumos artísticos
que toma são mais ousados, vide o humor delirante de obras memoráveis como “Zoolander”
(2001) e “Trovão tropical” (2008). Dentro desse contexto, “Zoolander 2” (2016)
acaba parecendo bem frustrante em seu resultado final. Stiller requenta piadas
e maneirismos do primeiro filme, por vezes até acaba obtendo algumas sequências
memoráveis em termos de comicidade nonsense, mas está bem longe daquela antológica
atmosfera alucinada de seus melhores longas.
terça-feira, setembro 26, 2017
Mãe!, de Darren Aronofsky ***1/2
Quem for assistir a “Mãe!” (2017) achando que se trata de um
filme de terror tradicional vai dar com os burros n’água. O filme do diretor
Darren Aronofsky está mais para uma equação bizarra: imagine alguma obra típica
de Lars Von Trier, como “Anticristo” (2009) ou “Melancolia” (2011), refilmada
por James Cameron. O resultado dessa combinação aparentemente improvável pode
não ser exatamente uma obra-prima, mas ainda assim é um trabalho perturbador e fascinante
em seus exageros de encenação e na sua intrincada simbologia. Ao contrário de “O
lutador” (2008) e “Cisne negro” (2010), longas anteriores de Aronofsky marcados
por uma narrativa mais equilibrada e concepção estética mais sutil, “Mãe!” se
aproxima dos delírios barrocos e do ritmo narrativo irregular de “Fonte da vida”
(2006). Tal opção artística do cineasta não é gratuita ou acidental, pois o que
o diretor faz é jogar o espectador direto na mente caótica e fervilhante de
ideias e concepções megalomaníacas de um escritor (Javier Barden) para fazer um
cortante retrato existencial sobre o patriarcalismo e opressão religiosa na
sociedade ocidental. O contraponto que se estabelece entre o protagonista e sua
esposa (Jennifer Lawrence) se manifesta num primeiro momento como de caráter
intimista e aos poucos vai ganhando contornos cada vez mais épicos e complexos,
com o roteiro recheando várias sequências com metáforas visuais e mesmo
textuais desconcertantes que transformam “Mãe!” em uma sombria parábola moral
que se conecta com uma linhagem recente de filmes como “A bruxa” (2015) e “O
ornitólogo” (2016) que questionam de maneira ácida a pérfida e indissociável
relação entre obscurantismo religioso e os mecanismos de dominação
político-social.
sexta-feira, setembro 22, 2017
It - A coisa, de Andy Muschietti ***
A figura do escritor Stephen King não se restringe apenas ao
âmbito literário. O alcance de sua obra se estendeu a outras mídias, fazendo
com que o autor se configurasse numa espécie de universo cultural próprio,
tornando-se uma referência no imaginário popular ocidental, principalmente no
que diz respeito na caracterização das referências estéticas e temáticas dos
anos 80, época em que alguns dos seus principais livros e filmes baseados em
seus originais foram lançados. Nesse sentido, a nova versão cinematográfica de “It
– A coisa” (2017), um de seus livros mais conhecidos, é um exemplar expressivo
dessa síntese entre King e anos 80. O filme do diretor Andy Muschietti evoca na
sua estrutura narrativa e no seu roteiro uma combinação da exaltação da amizade
na adolescência de “Conta comigo” (1986), da aventura juvenil escapista de “Goonies”
(1985) e do terror sobrenatural explícito da franquia oitentista “A hora do
pesadelo”. Ou seja, pura nostalgia divertida reciclada com os efeitos especiais
contemporâneos. Dentro de tal concepção, é uma obra que até surpreende por
doses de violência gráfica maiores que o habitual nesse tipo de produção, por
vezes beirando até o escatológico. A trama evoca em determinadas passagens
questões espinhosas como racismo, pedofilia, incesto e opressão religiosa, mas
sempre de forma mais sutil, com a narrativa privilegiando a ação e o grafismo
sangrento. Tal direcionamento acaba fazendo com que “It” resvale por vezes no
convencionalismo excessivo, quando justamente as melhores passagens da obra
estão naquelas sequências que valorizam um horror mais atmosférico e
perturbador que se relaciona com os segredos e medos obscuros de uma
cidadezinha interiorana típica do “american way of life”.
quinta-feira, setembro 21, 2017
Feito na América, de Doug Liman ***
Pelo menos em termos da concepção e realização de seus
filmes, dá para dizer que o diretor Doug Liman é um grande admirador da obra de
Martin Scorsese. “Swingers” (1996), um de seus primeiros longas e talvez o seu
melhor trabalho como cineasta, fazia uma explícita homenagem à “Os bons
companheiros” (1990), uma das mais expressivas obras-primas de Scorsese, na
sequência em que um grupo de amigos atravessava as portas de serviços de um
restaurante para demonstrar o seu poder de influência. Em “Feito na América”
(2017), recente produção dirigida por Liman, essa aproximação com a aludida
influência se mostra novamente evidente. Roteiro e estrutura narrativa remetem
diretamente a filmes como “Os bons companheiros” e “O lobo de Wall Street”
(2013) – tramas baseadas em histórias reais mostrando as conturbadas
trajetórias pessoais de protagonistas que atingiram grandes picos de riqueza econômica
ao transitarem em um tênue limite entre a livre-iniciativa e a franca bandidagem,
em abordagens que trazem em seu subtexto uma visão crítica e irônica sobre a
relação intrínseca entre capitalismo e ilicitudes. No caso da obra de Liman, a
biografia do piloto de avião Barry Seal (Tom Cruise), misto de agente da CIA e
traficante de drogas, também traz à tona segredos obscuros da política
internacional dos Estados Unidos na era Reagan. Liman não tem o mesmo nível
artístico de Scorsese, que transformou seus citados filmes em vertiginosas
viagens sensoriais sobre a ambição humana e degradação ética – Liman é mais
tradicionalista e previsível na condução de sua narrativa. Ainda assim, “Feito
na América” tem momentos memoráveis, principalmente nas sequências de ação e na
boa caracterização de Cruise no papel principal. Aliás, em termos de ação
cinematográfica, não há como não fazer uma outra associação com Scorsese na
obra em questão nas divertidas cenas em que Seal aterrissa seu avião no meio de
uma cidadezinha do interior, evocando uma cena parecida em “O aviador” (2004).
terça-feira, setembro 19, 2017
Cauby - Começaria tudo outra vez, de Nelson Hoineff ***
A partir do surgimento da bossa nova no final dos anos 50, a
música brasileira sofreu um processo de polarização que perdura até hoje, em
que em uma visão simplificadora e reducionista, e por isso mesmo equivocada,
foi estabelecida uma divisão entre aquilo que é considerado “de qualidade” e
outro que é determinado como “brega”. O cantor Cauby Peixoto, que surgiu alguns
anos antes da bossa nova, foi um artista que, diante de tal concepção
restritiva, encontrou dificuldades em ser catalogado. Dessa forma, sua
importância e talento, localizados numa insólita área entre o popular e o
sofisticado, nunca tiveram um reconhecimento mais amplo por público e crítica. Esse
dilema existencial-artístico é captado com notável sensibilidade e perspicácia
pelo diretor Nelson Hoineff no documentário “Cauby – Começaria tudo outra vez”
(2013). Na concepção narrativa do longa, a vida pessoal e a trajetória
profissional do biografado se entrelaçam de maneira indissolúvel como uma coisa
só – o estilo misto de técnica impecável e exageros maneiristas de Cauby se
relaciona com sua personalidade sedutoramente ambígua. O roteiro passeia com naturalidade
e conhecimento de causa tanto pelos “causos” e fofocas que marcaram a biografia
de Cauby, sem parecer apelativo ou gratuito, como pela sua evolução como
intérprete. Nesse último aspecto, sintetiza exemplarmente detalhes e
singularidades de seus principais discos e canções, realçando a beleza
atemporal da arte do cantor para admiradores de primeira hora e neófitos.
No conjunto geral, a visão do documentário sobre o seu
protagonista traz em seu subtexto uma espécie de radiografia da alma popular do
brasileiro, com todas as suas grandezas e contradições, coisa que Hoineff já
havia feito também com muitos acertos em “Alô, alô, Terezinha!” (2009).
segunda-feira, setembro 18, 2017
As duas Irenes, de Fábio Meira ***
Os dois longas-metragens que mais ganharam prêmios e
chamaram à atenção na edição de 2017 do Festival de Gramado, “Como nossos pais”
e “As duas Irenes”, têm em comum o fato de que as premissas básicas de sua
trama versam sobre a oprimida condição feminina perante uma sociedade
patriarcal, além dos seus respectivos subtextos também indicarem possibilidades
de reação diante desse quadro. Se no primeiro filme há elementos temáticos de
modernidade que acabam se perdendo por vezes em uma narrativa que caem em
alguns apelativos truques melodramáticos, na obra dirigida por Fábio Meira a
abordagem artística-existencial se mostra mais sóbria e universal. O acabamento
formal da produção é tradicional e não mostra grandes arroubos estéticos, mas a
edição e fotografia formam um conjunto narrativo de ritmo sereno, quase
contemplativo, que se mostra em perfeita sintonia com o espírito de sutil e
ácida contestação presente no roteiro. A encenação valoriza a síntese de vigor
e delicadeza nas composições dramáticas das duas garotas protagonistas, além de
realçar os aspectos contraditórios da figura paterna dominadora e carismática
de Tonico (Marco Ricca). Em alguns momentos, Meira até brinca com alguns
clichês narrativos, como se insinuasse um caminho mais previsível e conciliador
para a trama do filme. Em seu terço final, entretanto, “As duas Irenes” se
direciona para caminhos mais libertários e questionadores, com uma conclusão
que evoca um desconcertante misto de desafio e ironia.
sexta-feira, setembro 15, 2017
Billi Pig, de José Eduardo Belmonte *
A intenção do diretor José Eduardo Belmonte é até louvável
em “Billi Pig” (2011) – reciclar o gênero comédia na linha pastelão/chanchada
sob uma perspectiva autoral e com forte viés sócio-cultural. De certa forma, é
o que ele fez posteriormente dentro do gênero policial com o sofrível “Alemão”
(2013), logrando resultado artístico semelhante. Falta para o filme uma maior
convicção na execução de sua proposta. A encenação não tem fluência, o elenco
se perde em desempenhos caricaturais e o roteiro trabalha clichês sem maiores
inspirações. No conjunto geral, trata-se de uma obra bem distante dos melhores
momentos de Belmonte como cineasta, vide trabalhos memoráveis como “A concepção”
(2005) e “Se nada mais der certo” (2008).
quinta-feira, setembro 14, 2017
Como nossos pais, de Laís Bodanzky **1/2
De todos os meios de expressão artístico-cultural, a música
popular é aquele formato que melhor traduziu as alegrias, mazelas, dilemas e
contradições da nação brasileira, ou seja, a alma de um povo. Há um infindável
número de artistas expressivos e canções antológicas que formaram esse rico
panorama histórico e existencial. Dentro desse contexto, dois nomes que
certamente se destacam é Belchior e Jorge Mautner. O primeiro na articulação de
um cancioneiro marcado pela rebeldia estética-comportamental em boa parte de
seus temas, o segundo pela configuração de uma síntese de musicalidade e poesia
que une filosofia libertária, lirismo desconcertante e a fusão insólita entre o
erudito e o popular. Assim, a presença de Belchior e Mautner dentro da
concepção do longa “Como nossos pais” (2017) não é gratuita. É como se a
diretora Laís Bodanzky quisesse transpor o ideário artístico de tais figuras
para o subtexto de seu filme. Para isso, há uma premissa básica até bastante
engenhosa na sua trama: ao anunciar para a filha Rosa (Maria Ribeiro) que essa
na verdade é filha de outro homem e de que também estaria com câncer terminal,
a personagem Clarice (Clarisse Abumjara) pretende detonar um processo de
mudança na vida de Rosa para que ela saia de um limbo marcado pelo marasmo
profissional e pessoal. Ocorre, entretanto, que iniciado tal processo, ele foge
do controle dos padrões desejados por Clarice – Maria passa a questionar todos
os aspectos que regem a sua vida, principalmente no que diz respeito aos seus
relacionamentos pessoais. O que era para ser um pequeno ajuste dentro de um
ordenamento pequeno-burguês, acaba caindo num mergulho no caos. Se tal
pretensão temática pode até soar radical, na prática as coisas não são bem
assim. O maior equívoco de Bodansky é que por vezes a produção cai numa
formatação narrativa previsível e formulaica, quase como se fosse um manual dos
sofrimentos da mulher moderna. Em termos sociológicos, isso pode até funcionar,
no sentido de fazer com que a plateia masculina crie uma empatia com o universo
feminino (ainda que restrito dentro de um padrão classe média). Como cinema,
entretanto, o resultado final é falho porque o formalismo da obra se mostra
conservador diante da proposta libertária do seu subtexto. A presença xamânica
de Mautner no elenco é prova desse problema de abordagem estética de “Como
nossos pais” – sempre que está em cena, ele rouba atenção justamente porque sua
composição dramática foge do previsível e do linear. Aliás, em termos de
atuações, justiça seja feita, a interpretação de Maria Ribeiro também é de se
destacar pela fúria e vigor que expressa. No mais, “Como nossos pais”, a canção
de Belchior evocada pelo título do filme, é um tema que versa sobre amargura e
irresignação diante da capitulação final perante a ordem pequeno-burguesa, e
não uma ode ao conformismo geracional conforme sugere a sequência em que a
música é tocada ao piano. Mas ainda que o longa de Bodansky seja equivocado em
boa parte de suas soluções narrativas, é de se louvar a inquietude criativa de
suas intenções, o que fica bem evidente na contundência das suas sequências
finais.
quarta-feira, setembro 13, 2017
O reencontro, de Martin Provost **1/2
Se em “Violette” (2013) o diretor francês Martin Provost
conseguiu estabelecer uma narrativa marcada pelo classicismo sóbrio para contar
uma história real que refletia de forma vigorosa alguns dos principais dilemas
e conflitos artísticos-existenciais do século XX, em “O reencontro” (2017) ele
envereda pelo gênero do melodrama de maneira bem menos contundente. A trama de
caráter intimista até evoca um certo viés sócio-político no retrato de uma
sociedade europeia cada vez mais desumanizada e vinculada a um regime sócio-econômico
excludente e individualista. Por outro lado, Provost se rende a truques
sentimentais um tanto apelativos e a soluções narrativas bastante formulaicas,
ainda que a sua encenação guarde uma interessante síntese entre rigor e
naturalidade. Além disso, há boas atuações em seu elenco, principalmente no trio
protagonista vivido por Catherine Deneuve, Catherine Frot e Olivier Gourmet.
Mas faltou para o filme aquela crueza formal cortante e o humanismo sem
concessões que tornam as produções dos irmãos Dardenne, por exemplo, tão memoráveis
dentro dessa linhagem de obras sócio-intimistas.
terça-feira, setembro 12, 2017
Uma mulher fantástica, de Sebastián Lelio ***
O diretor chileno Sebastián Lelio já havia demonstrado
competente domínio narrativo para o drama intimista em “Gloria” (2013). Em “Uma
mulher fantástica” (2017), ele até amplia o seu direcionamento artístico,
combinando uma temática repleta de questões tabus e uma abordagem estética que
transita com notável desenvoltura entre o realismo sóbrio e sutis elementos
fantásticos. Dentro de tal abordagem, sequências que tinham tudo para cair no
sentimentalismo excessivo ou mesmo na polêmica gratuita acabam demonstrando uma
densidade dramática perturbadora, além de revelarem uma forte riqueza simbólica
na caracterização de personagens e situações. Lelio sempre contrapõe no roteiro
do filme uma delicada visão de mundo libertária e humanista a uma postura
repressora e hipócrita de manutenção de valores patriarcais – nesse processo,
por vezes sua obra cai em um certo maniqueísmo, principalmente no que diz
respeito a uma encenação que remete ao caricatural quando entra em cena aqueles
personagens de índole preconceituosa. Ainda assim, pode-se dizer que geralmente
as ações moralistas na vida real têm uma carga de ridículo e caricatural (vide
a patética e reacionária postura de direitistas fascistas no recente fechamento
de uma exposição de temática “queer” no Santander Cultural em Porto Alegre).
Nesse contexto, “Uma mulher fantástica” ganha ainda mais ressonância artística
e existencial diante os conflitos sócio-políticos-culturais típicos da
sociedade contemporânea.
segunda-feira, setembro 11, 2017
A minha grande noite, de Álex de la Iglesia ***
O diretor espanhol Álex de la Iglesia conseguiu atingir um
feito para o cinema contemporâneo que é de estabelecer um estilo artístico
indelével, algo como se fosse uma síntese improvável entre aquelas atmosferas
bagaceiras e sórdidas típicas das primeiras produções de Pedro Almodovar com o
barroquismo distorcido que remete a algumas das obras mais delirantes de
Fellini. Nesse sentido, os primeiros momentos de “A minha grande noite” (2015)
são bastante promissores, em que as habituais brutalidade cartunesca e
comicidade escrota embalam um roteiro que versa sobre a vulgaridade e
hipocrisia da mídia e o caos social-econômico da sociedade ocidental
contemporânea. Com o desenrolar da narrativa, entretanto, as boas expectativas
não se cumprem em sua totalidade, principalmente pelo fato que não fica aquela
impressão de que Iglesia tenha levado tudo às últimas consequências, coisa que
ele já tinha realizado com propriedade em intensas obras como “O dia da besta”
(1995), “Muertos de risa” (1999) e “Balada do amor e do ódio” (2010). Por
vezes, o longa se entrega a algumas facilidades formais e temáticas, sugerindo
quase uma amena comédia romântica. É claro que há bons momentos, principalmente
pelo humor beirando o surrealismo de algumas sequências e pelas grotescas
caracterizações dos personagens, além das ótimas cenas envolvendo alucinadas e
perturbadoras batalhas campais entre policiais e manifestantes desempregados. Ainda
assim, na conclusão de “A minha grande noite” fica a constatação que Iglesia
perdeu a chance de entregar um trabalho antológico e contundente sobre os
conturbados tempos que vivemos.
sexta-feira, setembro 08, 2017
O novato,de Roger Donaldson **1/2
Não dá para chegar ao exagero de dizer que o australiano
Roger Donaldson seja um diretor que deixe marcante um traço autoral em seus
trabalhos. Ele está mais para um competente “tarefeiro” dos grandes estúdios de
Hollywood que de vez em quando acaba apresentando obras acima da média (“Sem
saída”, “13 dias que abalaram o mundo”, “Efeito dominó”). “O novato” (2003) não
se enquadra entre os momentos de maior brilho artístico de Donaldson. Sua
narrativa e formalismo até fazem com que o espectador acompanhe o longa com
algum interesse, mas a obviedade das soluções do roteiro, a canastrice
preguiçosa do elenco e a falta de uma tensão dramática mais convincente
configuram um filme que é fácil de ver e também de esquecer.
quarta-feira, setembro 06, 2017
Atômica, de David Leitch ***1/2
O diretor David Leitch é uma avis rara no panorama
cinematográfico contemporâneo – é um cineasta que conseguiu imprimir um traço
autoral trabalhando dentro do gênero do cinema de ação. Os longas “De volta ao
jogo” (2014) e “John Wick – Um novo dia para matar” (2017) estabeleceram um
estilo personalíssimo baseado em uma narrativa estilizada, roteiro baseado numa
insólita síntese entre tensão dramática e brutalidade cartunesca e sequências
de ação coreografadas com requinte e fluência em tiroteios, perseguições
automobilísticas e inúmeros confrontos físicos. Tal abordagem artística é
retomada na obra mais recente de Leitch, “Atômica” (2017), com um resultado
final notável. O fato da trama se desenvolver na Berlin do final dos anos 80,
nos últimos dias do famigerado muro que separava os lados oriental e ocidental,
faz com que o diretor se sinta à vontade em colocar em prática as suas
obsessões estéticas. O trabalho de composição imagética e de reconstituição de
época formam um conjunto audiovisual que mais se vincula a recriação de um
imaginário do que à reconstituição realista. Os anos 80 representaram o período
final da paranoia nuclear estimulada pela Guerra Fria, e um dos grandes méritos
de “Atômica” é justamente realçar com sutileza e criatividade esse clima de
suspense e fragilidade existencial de um mundo que sempre parece no limite de
uma queda inexorável. Essa ambientação sombria e sórdida se mostra em perfeita
sintonia com uma trama repleta de reviravoltas e personagens ambíguos. Os
elementos típicos da época são inseridos com naturalidade e sensibilidade, o
que se verifica no trabalho de direção de arte que alterna sobriedade e delírio
e na forma com que clássicas canções rockers e eletrônicas da época se inserem
na narrativa. A conclusão do filme, muito inclinada para clichês habituais e
forçados de filme de espionagem, até acaba soando um tanto frustrante. Ainda
assim, “Atômica” consegue se manter como um trabalho memorável e reforça o nome
de Leitch como um dos grandes nomes do cinema dessa década.
terça-feira, setembro 05, 2017
Sexta-feira em apuros, de F. Gary Gray **
A ascensão artística do diretor Spike Lee nos anos 80 marcou
também o renascimento do cinema negro norte-americano. Ao contrário do panorama
setentista blaxploitation, mais voltado para uma revisão radical do cinema de
gênero, esse novo cenário se concentrou em dramas e comédias de formato mais
tradicional que abordavam em suas respectivas temáticas, em maior ou menor
grau, questões sociais inerentes à população negra nos Estados Unidos. Foi
justamente nesse contexto que apareceu “Sexta-feira em apuros” (1995), produção
cômica que trazia em sua narrativa elementos-chaves para aquela cultura:
roteiro que apresenta situações cotidianas nos bairros de predominância black,
trilha sonora recheada de hip-hop, uma atmosfera lúdica movida a maconha e
piadas sexistas. E no meio de tal concepção artística bastante vinculada à
diversão escapista, havia rasgos de crítica social sobre criminalidade,
preconceito racial e opressão estatal. A junção de todos esses aspectos
estéticos e temáticos por vezes soava um tanto forçada, ficando evidente uma
encenação ingênua e truncada, além de um roteiro esquemático em demasia. Ainda
assim, é uma obra que acaba tendo um inesperado encanto pelo tom nostálgico de
ser o retrato de uma época. E é curioso saber que o diretor F. Gary Gray
décadas depois foi o responsável pela vigorosa cinebiografia “Straight Outta
Compton – A história do N.W.A.” (2015), longa que contou a história da banda do
cantor e ator Ice Cube, que interpretou o papel de protagonista em “Sexta-feira
em apuros”.
segunda-feira, setembro 04, 2017
Um instante de amor, de Nicole Garcia ***
O título em português e o cartaz de “Um instante de amor”
(2016) podem sugerir aqueles rotineiros e mofados melodramas exacerbados
típicos de uma certa linguagem previsível de produções francesas de “qualidade”.
Na prática, entretanto, ainda que o filme dirigido por Nicole Garcia tenha uma
narrativa marcada por um classicismo acentuado, existem determinados fatores
artísticos no longa que o afastam do estigma da irrelevância. Por trás de uma
trama que valoriza elementos característicos dos melodramas românticos, há
também uma arguta e sutil visão crítica sobre como a concepção de amor
romântico pode ser opressor e alienante paras os indivíduos. Tal direcionamento
existencial se vale de um engenhoso jogo de simbologias, além de uma abordagem
emocional bastante sóbria e de uma atmosfera mista de ironia e morbidez. A
caracterização de personagens e situações é muito bem delineada – nesse sentido,
é fascinante como a construção dos três principais personagens da história se inter-relacionam
com notável e fluida coerência, servindo como metáfora precisa do espectro
sócio-político-cultural da Europa da primeira metade do século XX. Mesma o
aparente tom novelesco do filme guarda em sua essência uma melancólica e
resignada constatação sobre as relações humanas dentro de um contexto de
hipócrita idealização romântica e preconceito social.
sexta-feira, setembro 01, 2017
Cheech e Chong atacam novamente, de Tommy Chong ***
Não é preciso estar exatamente chapado para apreciar “Cheech
e Chong atacam novamente” (1980). É até provável que estando em um estado de
consciência alterado algumas pessoas poderão curtir a “viagem” melhor, mas a
verdade é que o filme foge dos padrões comportados do que seria considerado “aceitável”
em termos de uma comédia norte-americana comercial contemporânea. Dentro da
concepção artística da obra, elementos temáticos e estéticos vão sendo jogados
na narrativa de uma maneira que beira o aleatório – encenação por vezes
beirando o mambembe, paródia de ficção científica, comicidade que sintetiza
ingenuidade e escrotidão. Dentro de tal concepção narrativa que simula
amadorismo há uma certa coerência artística-existencial que joga o espectador
em uma espécie de universo paralelo movido à maconha e a um muito particular
senso de humor. No cômputo geral, uma produção deliciosamente anacrônica de
estranho encanto.
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