segunda-feira, novembro 13, 2017

Vazante, de Daniela Thomas ***

Ao se assistir à “Vazante” (2017), dá para entender um pouco a polêmica que o filme de Daniela Thomas vem causando. O retrato que faz da escravidão do Brasil no século XIX causa certo teor de perturbação por uma abordagem emocional e histórica marcada pela sobriedade e ausência de uma delimitação mais clara entre o “bem” e o “mal” – ou seja, não dá para dizer que se trata de uma trama com mocinhos e bandidos. O retrato que o roteiro propõe mostra o regime escravista entranhado na sociedade como algo normal, corriqueiro. Na trama, as famílias de fazendeiros que possuem escravos não apresentam uma caracterização de sádicos ou dementes racistas, mas sim de pessoas normais, eventualmente atormentadas, que aceitam e se valem daquela situação de exploração desumana como algo normal e aceitável no seu cotidiano. Mesmo na ala dos escravizados predomina um teor de resignação, com eventuais situações de revolta. Na verdade, essa visão da escravidão como algo normal e corriqueiro é que dá a verdadeira dimensão assustadora da situação e ajuda melhor a explicar como o racismo no Brasil apresenta todo esse contexto de hipocrisia e crueldade na sociedade contemporânea. Voltando ao filme, também é um acerto o trabalho minucioso de direção de arte e fotografia em preto e branco que compõem um registro audiovisual marcado tanto pelo áspero realismo quanto por uma beleza melancólica no seu sutil registro que vai das grandes tomadas de paisagens naturais até enquadramentos e encenação de caráter intimista. O que atrapalha o longa-metragem de Thomas é que no terço final da narrativa a obra se converte num gasto melodrama envolvendo adultérios e gravidezes suspeitas que por vezes beiram o novelesco banal, ainda que guardem um simbolismo por vezes inquietante.

sexta-feira, novembro 10, 2017

Dois é bom, três é demais, de Anthony e Joe Russo **

Os créditos na direção de “Dois é bom, três é demais” (2006) até sugerem algo de promissor. Afinal, trata-se dos irmãos Anthony e Joe Russo, responsáveis por um dos melhores filmes da Marvel Studios, “Capitã América: O soldado invernal” (2014). O resultado final dessa comédia, entretanto, deixa bastante a desejar. Não chega a ser exatamente ruim – há alguns momentos daquele humor grosseiro que efetivamente rendem algumas risadas, além de uma visão mais crítica sobre questões comportamentais e mesmo intimistas dentro da sociedade norte-americana. Tais aspectos positivos, entretanto, são sufocados pelo convencionalismo excessivo e derivativo da forma com que a narrativa é conduzida, além de um roteiro bastante conservador em suas resoluções. Afinal, o que dizer de uma conclusão em que um eterno desajustado acaba se enquadrando nos padrões ao se descobrir como um excelente palestrante de autoajuda?

quinta-feira, novembro 09, 2017

Terra selvagem, de Taylor Sheridan ***

Na ainda pequena amostragem que já se teve das obras do diretor e roteirista Taylor Sheridan nas salas de cinemas, dá para dizer que ele segue uma certa linhagem autoral. Em “Sicário” (2015) e “A qualquer custo” (2016), produções que contaram com roteiros de sua autoria, pode-se perceber uma expressiva síntese entre os preceitos do cinema de ação e abordagem e atmosfera mais reflexivas, além de tramas que trazem em seus respectivos subtextos uma sutil visão crítica sobre os descaminhos morais e sociais da sociedade norte-americana contemporânea. Num contexto ainda mais amplo, são filmes que revelam ainda uma releitura contemporânea dos gêneros policial e faroeste. Em “Terra selvagem” (2017), longa-metragem de estreia de Sheridan como diretor, tais características das mencionadas obras anteriores voltam a se manifestar, sem, contudo, apresentar um foco artístico tão preciso. Há uma narrativa envolvente, a memorável fotografia que valoriza a forte beleza plástica das amplas paisagens geladas que servem de cenário para a trama, sequências de ação muito bem dirigidas (o brutal tiroteio final é particularmente antológico), encenação que por vezes cria momentos de sufocante tensão psicológica e uma adequada trilha sonora climática composta e executada por Nick Cave e Warren Ellis (ainda que dê a impressão de ser um tanto derivativa de outros temas mais consistentes que eles fizeram para filmes anteriores). O que incomoda em “Terra selvagem” é um excesso de cenas marcadas por um forçado teor contemplativo e solene e um roteiro que força a barra em diálogos filosóficos de almanaque, o que faz com que a narrativa não seja tão equilibrada quanto as de “Sicário” e “A qualquer custo”.

quarta-feira, novembro 08, 2017

Na praia à noite sozinha, de Hong Sang-soo ***1/2

Os filmes do diretor sul-coreano Hong Sang-soo apresentam elementos narrativos que são recorrentes. Não se trata de acomodação artística, mas sim de depuração de uma linguagem cinematográfica muito peculiar. Isso fica evidente em “Na praia à noite sozinha” (2017). Nessa obra mais recente, estão lá aqueles aspectos formais e temáticos que já constavam em seus filmes anteriores – os planos narrativos que se alternam entre o real e o imaginário, a encenação de fluidez insólita e cativante (evidentes, por exemplos, nas sequências em que os personagens dialogam ao redor de uma mesa jantando ou bebendo), o estilo de filmar e editar que sugere uma síntese particular entre a aparente rusticidade e a sofisticação, o roteiro que alude ao universo do cinema como um de seus principais cenários. Dentro desse conjunto estético-textual, a narrativa faz com que espectador embarque em um contexto sensorial de estranho encanto, em que as situações da trama se sucedem quase como se fosse um sonho, em que algumas soluções marcadas pelo absurdo acabam ganhando uma notável coerência existencial-artística. Assim, cenas parecem se repetir com sutis variações, assim como as próprias noções de espaço e tempo se mostram elásticas, mas o encanto de tais excentricidades é filtrado dentro de um formato de crônica cotidiana. Ou seja, parece complicado, mas no final das contas é de uma simplicidade desconcertante.

terça-feira, novembro 07, 2017

O estigma de Satanás, de Piers Haggard ***

Na época de seu lançamento, “O estigma de Satanás” (1971) já tinha um certo caráter anacrônico. Vinculado àquela escola de horror delineada pela produtora inglesa Hammer, o filme do diretor Piers Haggard traz realmente a impressão de uma obra datada, principalmente pela formatação tradicional de seu roteiro, pela fleuma de sua encenação e pela sua atmosfera entre o gótico e o pastoril. Ainda assim, esse passadismo por vezes tem algo atraente na forma com que a sua narrativa se espraia na tela, sugerindo uma síntese entre o encantador e o perturbador – é de se considerar que o longa capricha mais na violência e violência gráficas do que os trabalhos da Hammer. Algumas trucagens e mesmo detalhes da maquiagem e caracterização visual jogam o filme naquela zona nebulosa do humor involuntário, impressão essa acentuada por algumas passagens da trama excessivamente maniqueístas. Por outro lado, há uma estranha ambientação difusa e ambígua em determinadas sequências, principalmente naquelas envolvendo rituais de magia negra, além de um sutil subtexto a sugerir uma crítica a um ordenamento religioso patriarcal e opressor. Por mais que a conclusão da produção evoque a velha máxima do “bem vencendo o mal”, há um traço de melancolia amarga na forma com o representante da ordem e da moral do vilarejo interiorano reprime e esmaga o grupo de jovens e deserdados cultores do “mal”.

segunda-feira, novembro 06, 2017

Thor: Ragnarok, de Taika Waititi ***1/2

Em alguns posts que escrevi neste blog falando sobre filmes que adaptavam o universo das HQs de super-heróis para as telas, foi mencionada a necessidade das obras do gênero em questão em procurar preservar uma certa essência dos quadrinhos originais nessa transposição de uma mídia para outra visando resgatar aquilo que personagens e histórias dos “comics” têm de interessante e peculiar que justificam a sua perenidade. Pois “Thor: Ragnarok” (2017) acaba sendo um desmentido enfático dessa tese! O diretor neozelandês Taika Waititi pega figuras, conceitos e outros elementos diversos do clássico universo da Marvel e os recria num contexto diferente e algo delirante, mas sempre transparecendo uma coerência artística-existencial desconcertante. Tentando resumir, dá para dizer que esse novo capítulo das aventuras do mais famoso deus de Asgard pega toda aquela solene mitologia nórdica típica do protagonista e a enquadra numa lógica estética e temática que remete diretamente a produções de ficção científica barata dos anos 80 (impressão essa acentuada pela divertida e esquisita trilha sonora baseada em tecnopop concebida por Mark Mothersbaugh, ex-integrante da banda new wave Devo), o que coloca o filme diretamente em sintonia com a franquia de “Os guardiões da galáxia”. Tal orientação artística, entretanto, não faz com que “Thor: Ragnarok” caia na mera paródia, ainda que haja um considerável número de cenas e diálogos movidos a piadinhas infames. Na narrativa, há tudo aquilo que um bom filme de super-heróis deveria ter: cenas de ação coreografadas e encenadas com precisão e detalhismo memoráveis, concepção visual de grafismo expressivo e criativo, sequências com forte tensão dramática e personagens bem construídos e carismáticos. Ou seja, uma ótima surpresa para aqueles que tinham ficado decepcionados com a tendência para o romantismo xaroposo dos dois primeiros filmes do personagem. Já para quem conhecia o longa anterior de Waititi, a pérola cult “O que fazemos na sombra” (2014), excêntrica comédia a tirar um sarro dos clichês habituais dos filmes de vampiros, acaba não sendo uma surpresa tão grande assim, ainda que “Thor: Ragnarok” revele uma forte evolução artística por parte de Waititi.

quarta-feira, novembro 01, 2017

Meu amigo hindu, de Héctor Babendo *

O cineasta Héctor Babenco é um nome muito importante na história do cinema brasileiro. Além de ter dirigido obras fundamentais da filmografia nacional, como “Lúcio Flávio – Passageiro da agonia” (1977) e “Pixote – A lei do mais fraco” (1981), também foi o responsável por produções internacionais memoráveis como “Ironweed” (1987) e “Brincando nos campos do senhor” (1991). Dessa forma, é evidente que causa bastante frustração saber que o seu filme-testamento seja um longa-metragem tão decepcionante quanto “Meu amigo hindu” (2015). Na verdade, os trabalhos imediatamente anteriores de Babenco, “Carandiru” (2003) e “O passado” (2007), já mostravam um considerável declínio em termos de inspiração criativa, mas nada também que chegasse aos picos de ruindade do trabalho derradeiro do diretor. Resumindo, trata-se de uma egotrip narcisista e autoindulgente do diretor, concebida e elaborada sem o menor traço do cuidado estético-narrativo e da consistente densidade psicológica que eram marcantes em seus melhores filmes. É claro que dá para entender que Babenco quisesse transpor para as telas o seu drama pessoal real de um doloroso tratamento para uma grave doença e o consequente processo de desagregação de sua vida pessoal decorrente desse fato, além de mostrar também o seu reerguimento como indivíduo diante de tais circunstâncias difíceis e complexas. Um artista tem o direito de manifestar suas obsessões da forma como quiser, e no caso do diretor dá para dizer que a sua história tem um alcance universal. O verdadeiro equívoco de “Meu amigo hindu” é que essa viagem intimista ganha um tratamento formal desleixado e derivativo, acentuado ainda mais por escolhas de produção tremendamente esdruxulas – para começar, por melhor ator que seja Willem Dafoe, por que escolher um ator norte-americano para o papel de um protagonista brasileiro, numa trama que se passa no Brasil, com demais personagens vividos por um elenco brasileiro que fala em inglês? E com o complemento de que quando a história passa a se situar nos Estados Unidos aparecem novamente atores brasileiros interpretando norte-americanos com um inglês macarrônico? E a partir do momento que Bárbara Paz entra em cena interpretando a si própria, a produção toma outro rumo. E para pior, caindo no francamente ridículo, beirando a comédia involuntária.

terça-feira, outubro 31, 2017

Rendez-vous, de André Techiné ***1/2

Os filmes do diretor André Techiné geralmente parecem se configurar como sóbrios contos morais. A grande questão, entretanto, é que essa moral obedece a uma lógica ambígua e particular. “Rendez-vous” (1985) é um exemplar enfático dessa tendência do cineasta francês. Como principal mote aparente de sua trama, desenvolve-se um conturbado triângulo amoroso em meio ao cenário artístico parisiense. Só que um dos vértices de tal relacionamento é de um atormentado ator que morre logo no terço inicial do filme. Nesse sentido, a narrativa concebida por Techiné vai se equilibrando numa tênue linha entre uma ambientação naturalista e uma atmosfera fantástica, como se a convivência entre esses dois planos beirasse o prosaico. Por trás da estranheza dessa história há ainda um subtexto sutil sobre a natureza da arte – a forma com que a protagonista Nina (Juliett Binoche) amadurece entre os descaminhos de sua vida amorosa também serve como substrato da autodescoberta de suas potencialidades como atriz. As evidentes implicações psicológicas e simbólicas do roteiro recebem um tratamento formal misto de rigor e fluidez por parte de Techiné, centrando grande força no vigor de sua encenação e na estética precisa da fotografia e edição.

segunda-feira, outubro 30, 2017

O formidável, de Michel Hazanavicius ***

Em um primeiro momento, a primeira coisa que salta aos olhos ao assistir a “O formidável” (2017) são algumas brincadeiras e referências estéticas concebidas pelo diretor Michel Hazanavicius que perpassam a narrativa que evocam sequências memoráveis de produções marcantes dirigidas por Jean-Luc Godard, o protagonista da trama do filme baseada em fatos reais. Por vezes tais truques são pertinentes e engraçados, em outros momentos são apenas pueris. Também é de se destacar que a produção se estrutura quase como se fosse uma comédia romântica, com um roteiro que enfatiza situações e soluções típicas do gênero. Tais detalhes temáticos e narrativos, entretanto, representam uma superfície enganadora sobre as reais intenções da obra, pois a efetiva força de “O formidável” está no contundente subtexto do seu roteiro e no vigor de sua encenação, fatores esses ainda reforçados pele interpretação sanguínea de Louis Garrel no papel de Godard. Em meio aos desacertos, contradições e dilemas do personagem principal com as causas e consequências do maio de 1968 em Paris está uma arguta observação sobre o papel de um artista perante a sociedade em que está inserido. No meio de cobranças para se mostrar acessível para os seus admiradores, em cumprir expectativas advindas da condição de ser um gênio cinematográfico “consagrado” e também em se enquadrar nos padrões de comportamento “civilizado” de uma sociedade pequeno-burguesa, o que fica realmente estabelecido como o grande mote da trama é a necessidade de reinvenção e apreensão da realidade por parte do artista diante de um evento histórico tão complexo e perturbador quanto as revoltas estudantis da época. Nesse aspecto, o filme de Hazanavicius não facilita as coisas – Godard quase sempre é visto pelo olhar da jovem e algo ingênua esposa Anne Wiazemsky (Stacy Martin), sugerindo-se uma personalidade irascível, geniosa e arrogante por parte do cineasta, mas que sutilmente esconde um sentimento de inconformismo e da busca de preservar o seu senso humanista perante hipócritas cobranças e acusações daqueles que o cercam. A melancólica conclusão de “O formidável” sublinha com notável coerência e precisão as verdadeiras ambições artísticas e existenciais do longa-metragem de Hazanavicius.

sexta-feira, outubro 27, 2017

Mishima - Uma vida em quatro capítulos, de Paul Schrader ****

Daquela geração/cena de cineastas e roteiristas que despontaram no final dos anos 60 e se consagraram de vez na década de 1970, a chamada “Nova Hollywood”, Paul Schrader é o que teve trajetória e estilo mais singulares. Enquanto seus colegas se dedicaram a estética e narrativa que sintetizavam a linguagem clássica do cinema norte-americano da primeira metade do século XX e as inovações artísticas das correntes europeias mais prementes da época, principalmente a Nouvelle Vague, Schrader enveredou para uma releitura bastante particular do cerebralismo do Robert Bresson e do minimalismo expressivo de Yasujiro Ozu. “Mishima – Uma vida em quatro capítulos” (1985) é um exemplar enfático de tal tendência artística de Schrader. Ao invés de optar pela convencional cinebiografia estilo “resumão”, o diretor preferiu fazer um verdadeiro tratado artístico-existencial sobre o polêmico escritor japonês Yukio Mishima, relacionando alguns eventos marcantes de sua vida com trechos de suas principais obras, sugerindo uma bela e estranha simbiose entre a “realidade” do criador e o universo ficcional que criou. O resultado final é desconcertante, com Schrader conciliando com naturalidade e bizarra coerência um plano narrativo de seco corte naturalista com sequencias de tinturas entre o onírico e o alegórico, além de preservar com sensibilidade uma temática complexa em que homossexualidade, culto ao apolíneo e nacionalismo convivem em uma harmonia perturbadora.

quinta-feira, outubro 26, 2017

Quatro amigas e um casamento, de Leslye Headland **

As comédias norte-americanas contemporâneas que enveredam para a temática do retrato comportamental de gerações diversas (jovens, adultos e afins) parecem sempre andar no fio da navalha. Por vezes, aparecem algumas produções que realmente trazem uma visão lúcida sobre contradições e dilemas típicos dos tempos que vivemos, em meio aos habituais episódios de piadas grosseiras e escatológicas, tendo um resultado final artístico bem memorável – nessa linha, daria para citar alguns trabalhos mais recentes dos irmãos Farrelly. E também há o caso de um número considerável de filmes que caem na mais pura irrelevância. “Quatro amigas e um casamento” (2012) fica no meio caminho. Na primeira metade do longa, a narrativa até insinua uma visão sarcástica, por vezes até amarga, sobre os desencontros sentimentais e alguns padrões morais hipócritas da sociedade ocidental, com algumas cenas interessantes em termos de encenação e boas situações cômicas. Na parte final do roteiro, entretanto, tudo se formata em soluções convencionais e mesmo moralistas, em meio a um formalismo derivativo, frustrando as expectativas promissoras iniciais.

quarta-feira, outubro 25, 2017

Bom comportamento, de Ben e Joshua Safdie ***1/2

Por vezes, principalmente em seu terço inicial, a estrutura narrativa e a trama de “Bom comportamento” (2017) sugerem um derivado do gênero suspense-policial naquela linha de uma história envolvendo um grande plano de roubo ou golpe semelhante. Com o desenrolar da narrativa, entretanto, a verdadeira natureza do filme dirigido por Bem e Joshua Safdie vai se manifestando de maneira contundente e perturbadora. A trajetória do assaltante Connie (Robert Pattinson) para tentar libertar o irmão Nick (Ben Safdie) após este ter sido preso durante a fuga de um roubo à banco frustrado mais tem a ver com uma crônica sardônica sobre desajustados do que propriamente com um thriller de ação. Ainda assim, a forma com que os Safdie conduzem a produção privilegia a tensão e a encenação frenética. A uma certa altura da trama, fica evidente que as escolhas de Connie na busca do seu objetivo obedecem a uma lógica aleatória e equivocada, típica de um habitual perdedor. Quando entra em cena o esquisito marginal Ray (Buddy Durress), o roteiro e atmosfera de “Bom comportamento” ficam ainda mais configurados dentro de uma síntese que oscila entre o melancólico e o delirante – não à toa, Connie e Ray embalam suas correrias e mancadas com doses generosas de álcool e LSD, fazendo com que o espectador embarque em um amargo e longo pesadelo com direito a desconcertantes toques cômicos. O formalismo articulado pelos diretores acentua com precisão essa ambientação marcada pela crueza e por um sutil humor negro – há uma clareza imagética que realça cada gesto e expressão dos personagens, amplificando tanto a assustadora brutalidade gráfica de algumas cenas quanto a densidade psicológica e a frieza emocional de outras sequências. Além disso, conta-se com alguns detalhes cênicos que revelam notável sintonia com o espírito da obra, como as vigorosas interpretações de Pattinson e Duress e a trilha sonora que combina timbres oitentistas e nuances eletrônicas.

terça-feira, outubro 24, 2017

Cacaso na corda bamba, de José Joaquim Salles e PH Souza **1/2

Os mais ranhetas podem implicar com a prolífica relação que se estabeleceu no cinema nacional nos últimos anos entre o gênero documentário e a temática relacionada à história da música brasileira, principalmente pelo fato de que boa parte das produções que se originaram de tal relação não é marcada por grandes ousadias formais e narrativas. O que ocorre é que o universo do cancioneiro nacional é tão amplo que se torna um assunto praticamente inesgotável pela riqueza de artistas de relevo com quem o país conta ou já contou, tanto em nomes conhecidos e consagrados quanto daqueles mais obscuros. Nessa última vertente, enquadra-se Antônio Carlos Brito, o biografado de “Cacaso na corda bamba” (2016). Em um primeiro momento, confesso que a figura desse poeta e letrista me soava desconhecida. Ao assistir ao filme dos diretores José Joaquim Salles e PH Souza, entretanto, constatei que lá para o meu imaginário cultural particular ele era alguém próximo, sendo coautor de canções ao lado Edu Lobo e Francis Himes que estavam lá coladas na minha memória. O formato narrativo do documentário é aquele mesmo que se está acostumado, com entrevistas e imagens de arquivos se entrelaçando de maneira correta e nada mais, mas o teor de tal material é tão interessante e de forte caráter humanista que o espectador acaba se envolvendo com a história contada e por vezes mesmo encantado com o singular talento de Cacaso, além de também ficar comovido com o fato de sua morte precoce. Essa gama de sensações já torna “Cacaso na corda bomba” uma experiência mais que válida.

segunda-feira, outubro 23, 2017

Logan Lucky - Roubo em família, de Steven Soderbergh ***

Parece que aquela síntese entre os gêneros policial e ação envolvendo uma trama relacionada a grandes roubos e falcatruas afins é a praia favorita do diretor norte-americano Steven Soderbergh. “Logan Lucky – Roubo em família” (2017) é a sua mais nova incursão a esse estilo de filme, com uma estrutura narrativa que remete diretamente à franquia de “Onze homens e um segredo”, só que com adicional de cenários e personagens remeterem ao universo de caipiras sulistas. Se os filmes anteriores tinham uma atmosfera irônica e sequências de caráter cômico, “Logan Lucky” acentua ainda mais o caráter jocoso, com momentos que beiram a paródia. O roteiro é bem menos lapidado e a condução da narrativa em certo momentos evidencia uma certa frouxidão. Dá a impressão de que Soderbergh e elenco estavam mais a afim de se divertir fazendo o filme do que propriamente interessados em uma produção bem-acabada. Esse desleixo fica evidente na meia-hora inicial do longa, que cai com frequência na indulgência e na pura chatice. Mas é quando a trama começa a esboçar os preparativos para o grande assalto que é o mote principal do roteiro que a obra diz a que veio. Daí sim podemos sentir a habitual habilidade narrativa de Soderbergh de transformar clichês formais e temáticos em algo envolvente para o espectador. A encenação fica bem mais precisa, a montagem apresenta uma dinâmica sedutora, as atuações do elenco se configuram com mais nuances dramáticas e cômicas. De bônus, há uma interessante abordagem mista de sacanagem e carinho com os valores sulistas e uma sensacional trilha sonora cancioneira. Ou seja, no final das contas Soderbergh não entrega uma obra-prima na linha de “Irresistível paixão” (1998), mas ainda se mostra capaz de gerar um trabalho bastante divertido e memorável.

quinta-feira, outubro 19, 2017

Detroit em rebelião, de Kathryn Bigelow ***

A combinação parecia infalível: a diretora de “Guerra ao terror” (2008) e “A hora mais escura” (2012), obras antológicas na síntese de cinema de ação e realismo dramático, filmando uma revoltante história real envolvendo brutalidade policial durante conflitos raciais na Detroit de 1967. O resultado final de “Detroit em rebelião” (2017), entretanto, fica aquém das altas expectativas. A junção de elementos dos gêneros de thriller e drama de tribunal com alguns elementos de técnicas documentais, além da inserção de registros de arquivos da época, não soa tão orgânica. A diretora Kathryn Bigelow cai em alguns momentos numa encenação de tendências excessivamente melodramáticas e convencionais e mesmo a direção de arte soa um artificialismo estilizado incômodo. Tais ressalvas, entretanto, não implicam necessariamente em um mau filme. Pelo contrário – em suas quase duas horas e meia de duração, a produção consegue apresentar uma narrativa envolvente, ainda que sem maiores arroubos criativos. As longas sequências em que um grupo de policiais sádicos tortura psicológica e fisicamente um grupo de jovens negros num hotel apresentam uma tensão dramática quase palpável em seu detalhismo cênico, na sua atmosfera fatalista e na sua brutalidade gráfica explícita. Vale mencionar ainda a coerência sombria e melancólica da forma com que o roteiro se desenvolve, em que ao invés de se buscar conclusões moralizantes ou conciliadoras, evidencia-se uma visão crua e pessimista sobre a possibilidade de uma convivência racial pacífica nos Estados Unidos.

quarta-feira, outubro 18, 2017

Especialista em crise, de David Gordon Green **

O diretor norte-americano David Gordon Green não é exatamente um grande inovador em termos de linguagem cinematográfica. No melhor de sua filmografia, entretanto, mostrou-se como um cineasta de talhe clássico na elaboração de narrativas sóbrias, no formalismo preciso e em roteiros bem delineados. Assim, uma obra tão genérica e sem inspiração como “Especialista em crise” (2014) causa frustração. Em um primeiro momento, o longa-metragem em questão até parece promissor ao evidenciar uma trama que sugere uma crítica às hipocrisias do marketing político típico da sociedade ocidental, ao mostrar um duelo de dois consultores políticos dos Estados Unidos numa eleição de um país latino-americano fictício. Os desdobramentos do roteiro vão desbotando essa boa impressão ao apresentarem caracterizações simplórias e ingênuas de situações e personagens, sempre embalado por estética e narrativa preguiçosas e sem graça. Tal resultado final frustrante faz pensar que Gordon Green aceitou meio de má vontade um projeto de encomenda...

terça-feira, outubro 17, 2017

Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve **1/2

Se a continuação de um filme marcante só aparece 35 anos após o lançamento da obra original é de se presumir que tal “demora” seja justificada por um tremendo cuidado artístico em sua concepção e realização. Assistindo-se a “Blade Runner 2049” (2017), entretanto, não é essa a impressão que salta aos olhos. Há elementos na produção que realçam algo de diferente – a bela trilha sonora que sintetiza com bizarra harmonia melodias e dissonâncias, a direção de arte que concilia estilização e realismo sórdido, a fotografia de requintada sobriedade imagética e mesmo a composição dramática precisa de Ryan Gosling no papel do protagonista K/Joe. O problema é que a junção dessas partes não resulta em um todo convincente, principalmente pela narrativa irregular e por um roteiro que resvala por várias vezes no simplório. Se a obra-prima de 1982 dirigida por Ridley Scott foi um verdadeiro marco da ficção científica, ao juntar aspectos fundamentais e singulares do gênero mencionado com preceitos de cinema noir e influenciando uma série de filmes na linha futurista distópica ou apocalíptica, essa continuação dirigida por Denis Villeneuve mais parece um pálido derivativo dessas obras herdeiras do longa-metragem original. Não há aquela atmosfera enigmática, a ambientação algo imprecisa, os personagens ambíguos, a sensualidade insólita, as econômicas e antológicas sequências de brutalidade. O que fica em “Blade Runner 2049” é a necessidade contemporânea de amarrar todas as pontas da trama para deixar tudo mastigado para o espectador, as cenas de ação marcadas pelo banal tom apoteótico, os clichês mal ajambrados do roteiro, o tedioso tom solene da narrativa. Isso sem falar que a atuação de Harrison Ford mais faz lembrar um Han Solo aposentado e canastrão do que um Rick Deckard amadurecido e amargo.

segunda-feira, outubro 16, 2017

Quanto mais quente melhor, de Billy Wilder ****

Assim como vários outros clássicos norte-americanos da época do Star System dos grandes estúdios, “Quanto mais quente melhor” (1959) foi realizado com a intenção primeira de divertir as platéias, mais até do que se tornar uma obra de grande expressão cultural. Só que a genialidade do diretor Billy Wilder na concepção e execução da narrativa do filme teve também como resultado final um longa-metragem que pode ser considerado grande arte. Isso fica evidente em expressivos detalhes como um elegante formalismo baseado em sutis nuances imagéticas, encenação perfeitamente coreografada que sintetiza precisão e desenvoltura alucinada, roteiro engenhoso no desenvolvimento de hilários quiproquós e na elaboração dos sagazes diálogos e direção de atores que extrai atuações inesquecíveis de todo o elenco principal e de boa parte dos coadjuvantes. 

sexta-feira, outubro 13, 2017

Cícero Dias, o compadre de Picasso, de Vladimir Carvalho ***

Na filmografia de documentários do cineasta Vladimir Carvalho se pode perceber a busca por uma síntese narrativa-existencial a traçar a particular trajetória histórica-cultural do Brasil na exposição de eventos marcantes ou de figuras de relevo na história do país. Em seu longa-metragem mais recente, “Cícero Dias, o compadre de Picasso” (2016), o diretor mantém a sua habitual abordagem artística ao contar a história do pintor Cícero Dias. A obra não mostra maiores arroubos criativos e dramáticos, estando longe da força estética e temática de trabalhos antológicos como “Conterrâneos velhos de guerra” (1990) e “Rock Brasília – A era de ouro” (2011). Ainda assim, é um documentário acima da média na maneira envolvente e didática com que consegue conciliar os aspectos intimistas da vida do biografado com o contexto sócio-político-cultural que o cercava. Em tempos que a iniciativa de reacionários e fascistas em determinar o fechamento de exposições que desafiam o moralismo hipócrita e oportunista é vista como algo normal e louvável, é saudável assistir a uma obra que exalta a sensibilidade e a ousadia de um artista que buscou em sua atividade criativa transcender o óbvio e as concepções repressoras daquilo que é considerado “belo”.

segunda-feira, outubro 09, 2017

Polícia em poder da máfia, de John Hillcoat ***

Em alguns de seus filmes anteriores, o diretor australiano John Hillcoat se mostrou um criativo recriador do cinema de gênero, enveredando com resultados extraordinários pelo faroeste (“A proposta”), pela ficção científica (“A estrada”) e pelo policial de época na linha gangster (“Os infratores”). Assim, ao se saber que o seu projeto seguinte, “Polícia em poder da máfia” (2016), trilharia o gênero policial contemporâneo, as expectativas só poderiam ser altíssimas. O resultado, entretanto, ainda que competente, acaba soando frustrante. O elenco é carismático (ainda que Kate Winslet abuse da canastrice), algumas sequencias de ação são bem executadas e a narrativa é até envolvente, mas o filme está longe da marcante fúria sensorial e da estética mista de crueza casca grossa e requinte visual dos celebrados trabalhos pregressos de Hillcoat. Parece mais uma eficiente produção genérica de um diretor tarefeiro de Hollywood do que a obra de um cineasta de talento singular.

sexta-feira, outubro 06, 2017

De volta ao jogo, de David Leitch e Chad Stahlski ***1/2

Pelo menos em termos de blockbusters, o gênero do cinema de ação contemporâneo, com algumas honrosas exceções, dá a impressão que se converteu em um grande vídeo game genérico. Coreografias de lutas e perseguições dependem de recursos óbvios de efeitos digitais e câmeras lentas que por vezes beiram o estático, por outras se aproximam de vídeos publicitários. O resultado final de tais obras acaba sendo enfadonho, ainda que o espectador não consiga dormir devido à barulheira excessiva que predomina em tais narrativas. “De volta ao jogo” (2014) é uma obra que se coloca na contramão de tal tendência. Os diretores David Leitch e Chad Stahelski conseguem para o filme uma convincente síntese entre violência cartunesca e uma certa densidade dramática, sabendo dosar com precisão sequências brutais e cenas que valorizam diálogos e uma tensa interação psicológica entre os personagens. Com essa abordagem artística, de certa forma, até fazem lembrar alguns trabalhos clássicos do cineasta francês Jean Pierre Melville. A encenação é outro dos grandes trunfos de “De volta ao jogo” – pode-se perceber tantos nas sequências mais frenéticas quanto naquelas de caráter reflexivo uma atenção acurada em nuances imagéticas e na fluidez do movimento cênico. Nesse sentido, até dá para dizer que há algo de nostálgico nessa visão sobre o cinema de ação, fazendo lembrar alguns longas marcantes dos anos 80, mas sempre conseguindo evidenciar também um traço contemporâneo na concepção estético-temática da obra. E é claro que há o mérito inquestionável de conseguir extrair de um notório canastrão como Keanu Reeves uma forte e carismática atuação.

quinta-feira, outubro 05, 2017

Lamparina da aurora, de Frederico Machado **

Parece ser uma tendência no cinema contemporâneo filmes que procuram uma síntese entre o horror e o alegórico carregado de simbolismos, procurando subverter alguns dos principais preceitos do cinema de gênero. Nessa perspectiva, destacam-se obras memoráveis como “Quando eu era vivo” (2014), “A bruxa” (2015) e “Mãe” (2017). A produção brasileira “Lamparina da aurora” (2017) trilha por caminhos artísticos parecido, mas seu resultado final é bem frustrante. Roteiro e composição imagética até revelam ousadia na forma com que buscam uma narrativa atmosférica baseada em metáforas visuais e temáticas. Falta para tal narrativa, entretanto, ritmo e consistência para envolver o espectador no que deveria ser uma espécie de vórtice sensorial perturbador e desconcertante. Do jeito que ficou, o filme mais induz ao sono do que a uma tensão consistente.

quarta-feira, outubro 04, 2017

Kingsman: O círculo dourado, de Matthew Vaughn **

O escritor escocês Mark Millar é um nome fundamental para se entender não só o cenário dos quadrinhos contemporâneos como também a cada vez mais intensa relação que se estabelece entre as indústrias das HQs e do cinema. Millar é o roteirista de algumas das principais obras dos comics nos últimos 25 anos, além do fato de que boa parte dos títulos que fazem parte do seu selo Millarworld já recebeu versões para a tela grande – sem contar que os filmes dos Vingadores se baseiam em conceitos que Millar desenvolveu na série “Os supremos” (no caso, os Vingadores do alternativo universo Ultimate da Marvel). A franquia cinematográfica “Kingsman” é originária de uma minissérie da MIllarworld, com um detalhe a mais: esse “Kingsman: O círculo dourado” (2017) é uma continuação para os cinemas, mas que ainda nem se efetivou nos quadrinhos! A curiosidade de tais dados estatísticos e comerciais exemplificam como os quadrinhos se tornaram uma inesgotável fonte de estratégias de marketing e lucro para as grandes corporações midiáticas, mas, no final das contas, não são garantia de que o filme em questão será relevante como narrativa cinematográfica. E nesse último quesito, o longa-metragem dirigido por Matthew Vaughn deixa bastante a desejar. Para começar, os principais motes dramáticos da trama da obra original de Millar são explorados de maneira superficial. Se na minissérie havia uma certa ambiguidade na atmosfera e uma visão crítica sobre o dilema político do conflito segurança versus liberdade, tema esse recorrente nos quadrinhos de Millar, em “O círculo dourado” praticamente tais características se perdem em meio a uma concepção estética e textual bastante esquemática e superficial, com um roteiro que escancara um discurso sócio-político maniqueísta e conservador. Mesmo no quesito de aventura escapista o filme de Vaughn é frustrante, perdendo-se numa encenação e ritmo narrativo que mais remetem a um vídeo game genérico. Vaughn até procura dar uma certa credibilidade para a obra ao inserir algumas referências à cultura pop e um tom galhofeiro em algumas sequências, mas tudo isso acaba soando estéril ou forçado diante do convencionalismo inexpressivo das suas escolhas formais e do desenvolvimento do roteiro. E a sensação de decepção fica ainda mais reforçada quando vem à lembrança de que se trata do mesmo cineasta de trabalhos memoráveis como “Nem tudo é o que parece” (2004), “Kick ass” (2010) e “X-Men: Primeira classe” (2011).

terça-feira, outubro 03, 2017

Filha de ninguém, de Hong Sang-soo ***1/2

Há um detalhe narrativo em “Filha de ninguém” (2013) que sintetiza de maneira contundente as particulares concepções artísticas do diretor sul-coreano Hong Sang-soo – em algumas cenas do filme, o personagem do professor (Lee Sun-kyun) com o qual a protagonista Haewon (Jeong Eun-Chae) tem um caso fica ouvindo uma canção instrumental em um pequeno aparelho eletrônico, com tal áudio sendo reproduzido diretamente em cena, sem truques de edição de som. O que poderia parecer um recurso que beira o amadorismo na verdade tem um efeito estético e dramático bastante desconcertante. Por toda a narrativa do longa predomina essa noção de desconstrução formal que oscila entre o estranhamento e o encantador que se mostra em notável sintonia com o roteiro que evidencia um universo que abarca com naturalidade a realidade, o onírico, banalidades do cotidiano e noções de parábola moral. Nesse sentido, para Hong Sang-soo não parece haver muitas diferenciações entre as caracterizações de uma abordagem naturalista e de uma estilização que evoque o delirante, com tais planos de realidade se misturando como se fosse um registro único entre o documental e o caseiro. Dentro dessa singular linguagem cinematográfica também entra uma encenação marcada pela fluidez e por insólitas nuances cômicas (a sequência em que Haewon e seu referido amante encontram por acaso seus colegas de faculdade em um restaurante, por exemplo, é antológica em sua dinâmica e ironia). Assim, ao invés de apelar para óbvios arroubos de virtuosismo técnico ou de grandes viradas dramáticas em sua trama, “Filha de ninguém” conquista pela lenta e hipnótica sedução do espectador ao propor um despojado e original conjunto existencial-formal.

segunda-feira, outubro 02, 2017

Psiconautas - As crianças esquecidas, de Pedro Rivero e Alverto Vásquez ****

Na animação “A crise carnívora” (2007), o diretor espanhol Pedro Rivero investia numa equação narrativa insólita baseada em grafismo sujo, humor negro, violência, escatologia e alegoria política. Voltando ao gênero animação em “Psiconautas – As crianças esquecidas” (2015), Rivero, junto ao quadrinista Alberto Vásquez, refina a estética e a temática de seu trabalho anterior e entrega uma obra memorável. O roteiro combina de maneira natural e poética aventura pós apocalíptica, uma visão sombria sobre a dependência química e simbolismos diversos, sempre sob uma perspectiva humanista e complexa. No desenvolvimento e resolução da trama, não há espaço para o simples maniqueísmo ou moralismo fáceis, havendo uma exposição crua e amarga das hipocrisias e preconceitos típicos da sociedade ocidental contemporânea. Rivero e Vásquez investem num formalismo personalíssimo – ao invés da perfeição realista ou da estilização padrão de boa parte das animações dos grandes estúdios, há a valorização de um traço de bizarra beleza pictórica, repleta de nuances imagéticas plenas de lirismo e sagacidade. Repare-se, por exemplo, na figura do protagonista Birdboy, cuja caracterização visual remete a uma estranha síntese de pássaro e criatura gótica. Aliás, a própria concepção dos personagens do filme reflete as ideias desconcertantes de “Psiconautas”, em que aparentemente “fofinhos” seres antropomorfizados são inseridos em situações e cenários desoladores e sórdidos. No conjunto geral das escolhas artísticas da produção, fica a impressão de um contundente trabalho a evidenciar um mundo se desagregando em meio a um cenário de obscurantismo místico e exploração econômica, reflexo não muito distante de nossa realidade.

sexta-feira, setembro 29, 2017

Bellini e o demônio, de Marcelo Galvão *

É de se elogiar a pretensão do diretor Marcelo Galvão pela concepção do que deveria ter sido “Bellini e o demônio” (2008), algo como uma releitura abrasileirada do misto de cinema noir e horror sobrenatural do clássico “Coração satânico” (1987), com direito ainda a toques da estética metafísica-delirante de David Lynch. As bem sacadas referências da obra, entretanto, não encontram uma execução à altura de suas intenções artísticas. O filme padece de uma narrativa trôpega e encenação vacilante, além da canastrice irremediável do elenco e do roteiro estapafúrdio. Diante de tais equívocos formais e temáticos, o resultado final é de uma ruindade constrangedora que por vezes acaba caindo na comicidade involuntária – no final das contas, isso até faz com que assistir ao filme de Galvão até seja uma experiência divertida!

quinta-feira, setembro 28, 2017

Joe, de David Gordon Green ***

No melhor de sua filmografia, o diretor norte-americano David Gordon Green se mostrou um inspirado reciclador de preceitos narrativos clássicos de gêneros como o melodrama (“Prova de amor”), policial (“Contra corrente”) e comédia (“Segurando as pontas”). “Joe” (2013) não está no mesmo nível artístico das obras mencionadas, mas ainda assim é uma obra eficiente como drama no estilo realista. O roteiro cai em alguns recursos óbvios em termos de estruturação de situações e personagens, o que é compensado pelo vigor da encenação concebida por Green. Além disso, há alguns detalhes que dão um realce diferenciado para a produção, como a sombria trilha sonora e as sóbrias composições dramáticas do elenco – nesse último quesito, Nicolas Cage surpreende por sair daqueles registros entre a preguiça e o exagero de boa parte de suas recentes atuações.

quarta-feira, setembro 27, 2017

Zoolander 2, de Ben Stiller **1/2

Pode-se dizer que a trajetória de Ben Stiller como cineasta é bem mais interessante do que na função de ator. Se interpretando ele se mantém dentro de uma linha linear entre dramas realistas e previsíveis comédias “família”, com algumas exceções, quando assume a direção os rumos artísticos que toma são mais ousados, vide o humor delirante de obras memoráveis como “Zoolander” (2001) e “Trovão tropical” (2008). Dentro desse contexto, “Zoolander 2” (2016) acaba parecendo bem frustrante em seu resultado final. Stiller requenta piadas e maneirismos do primeiro filme, por vezes até acaba obtendo algumas sequências memoráveis em termos de comicidade nonsense, mas está bem longe daquela antológica atmosfera alucinada de seus melhores longas. 

terça-feira, setembro 26, 2017

Mãe!, de Darren Aronofsky ***1/2

Quem for assistir a “Mãe!” (2017) achando que se trata de um filme de terror tradicional vai dar com os burros n’água. O filme do diretor Darren Aronofsky está mais para uma equação bizarra: imagine alguma obra típica de Lars Von Trier, como “Anticristo” (2009) ou “Melancolia” (2011), refilmada por James Cameron. O resultado dessa combinação aparentemente improvável pode não ser exatamente uma obra-prima, mas ainda assim é um trabalho perturbador e fascinante em seus exageros de encenação e na sua intrincada simbologia. Ao contrário de “O lutador” (2008) e “Cisne negro” (2010), longas anteriores de Aronofsky marcados por uma narrativa mais equilibrada e concepção estética mais sutil, “Mãe!” se aproxima dos delírios barrocos e do ritmo narrativo irregular de “Fonte da vida” (2006). Tal opção artística do cineasta não é gratuita ou acidental, pois o que o diretor faz é jogar o espectador direto na mente caótica e fervilhante de ideias e concepções megalomaníacas de um escritor (Javier Barden) para fazer um cortante retrato existencial sobre o patriarcalismo e opressão religiosa na sociedade ocidental. O contraponto que se estabelece entre o protagonista e sua esposa (Jennifer Lawrence) se manifesta num primeiro momento como de caráter intimista e aos poucos vai ganhando contornos cada vez mais épicos e complexos, com o roteiro recheando várias sequências com metáforas visuais e mesmo textuais desconcertantes que transformam “Mãe!” em uma sombria parábola moral que se conecta com uma linhagem recente de filmes como “A bruxa” (2015) e “O ornitólogo” (2016) que questionam de maneira ácida a pérfida e indissociável relação entre obscurantismo religioso e os mecanismos de dominação político-social.

sexta-feira, setembro 22, 2017

It - A coisa, de Andy Muschietti ***

A figura do escritor Stephen King não se restringe apenas ao âmbito literário. O alcance de sua obra se estendeu a outras mídias, fazendo com que o autor se configurasse numa espécie de universo cultural próprio, tornando-se uma referência no imaginário popular ocidental, principalmente no que diz respeito na caracterização das referências estéticas e temáticas dos anos 80, época em que alguns dos seus principais livros e filmes baseados em seus originais foram lançados. Nesse sentido, a nova versão cinematográfica de “It – A coisa” (2017), um de seus livros mais conhecidos, é um exemplar expressivo dessa síntese entre King e anos 80. O filme do diretor Andy Muschietti evoca na sua estrutura narrativa e no seu roteiro uma combinação da exaltação da amizade na adolescência de “Conta comigo” (1986), da aventura juvenil escapista de “Goonies” (1985) e do terror sobrenatural explícito da franquia oitentista “A hora do pesadelo”. Ou seja, pura nostalgia divertida reciclada com os efeitos especiais contemporâneos. Dentro de tal concepção, é uma obra que até surpreende por doses de violência gráfica maiores que o habitual nesse tipo de produção, por vezes beirando até o escatológico. A trama evoca em determinadas passagens questões espinhosas como racismo, pedofilia, incesto e opressão religiosa, mas sempre de forma mais sutil, com a narrativa privilegiando a ação e o grafismo sangrento. Tal direcionamento acaba fazendo com que “It” resvale por vezes no convencionalismo excessivo, quando justamente as melhores passagens da obra estão naquelas sequências que valorizam um horror mais atmosférico e perturbador que se relaciona com os segredos e medos obscuros de uma cidadezinha interiorana típica do “american way of life”.

quinta-feira, setembro 21, 2017

Feito na América, de Doug Liman ***

Pelo menos em termos da concepção e realização de seus filmes, dá para dizer que o diretor Doug Liman é um grande admirador da obra de Martin Scorsese. “Swingers” (1996), um de seus primeiros longas e talvez o seu melhor trabalho como cineasta, fazia uma explícita homenagem à “Os bons companheiros” (1990), uma das mais expressivas obras-primas de Scorsese, na sequência em que um grupo de amigos atravessava as portas de serviços de um restaurante para demonstrar o seu poder de influência. Em “Feito na América” (2017), recente produção dirigida por Liman, essa aproximação com a aludida influência se mostra novamente evidente. Roteiro e estrutura narrativa remetem diretamente a filmes como “Os bons companheiros” e “O lobo de Wall Street” (2013) – tramas baseadas em histórias reais mostrando as conturbadas trajetórias pessoais de protagonistas que atingiram grandes picos de riqueza econômica ao transitarem em um tênue limite entre a livre-iniciativa e a franca bandidagem, em abordagens que trazem em seu subtexto uma visão crítica e irônica sobre a relação intrínseca entre capitalismo e ilicitudes. No caso da obra de Liman, a biografia do piloto de avião Barry Seal (Tom Cruise), misto de agente da CIA e traficante de drogas, também traz à tona segredos obscuros da política internacional dos Estados Unidos na era Reagan. Liman não tem o mesmo nível artístico de Scorsese, que transformou seus citados filmes em vertiginosas viagens sensoriais sobre a ambição humana e degradação ética – Liman é mais tradicionalista e previsível na condução de sua narrativa. Ainda assim, “Feito na América” tem momentos memoráveis, principalmente nas sequências de ação e na boa caracterização de Cruise no papel principal. Aliás, em termos de ação cinematográfica, não há como não fazer uma outra associação com Scorsese na obra em questão nas divertidas cenas em que Seal aterrissa seu avião no meio de uma cidadezinha do interior, evocando uma cena parecida em “O aviador” (2004).

terça-feira, setembro 19, 2017

Cauby - Começaria tudo outra vez, de Nelson Hoineff ***

A partir do surgimento da bossa nova no final dos anos 50, a música brasileira sofreu um processo de polarização que perdura até hoje, em que em uma visão simplificadora e reducionista, e por isso mesmo equivocada, foi estabelecida uma divisão entre aquilo que é considerado “de qualidade” e outro que é determinado como “brega”. O cantor Cauby Peixoto, que surgiu alguns anos antes da bossa nova, foi um artista que, diante de tal concepção restritiva, encontrou dificuldades em ser catalogado. Dessa forma, sua importância e talento, localizados numa insólita área entre o popular e o sofisticado, nunca tiveram um reconhecimento mais amplo por público e crítica. Esse dilema existencial-artístico é captado com notável sensibilidade e perspicácia pelo diretor Nelson Hoineff no documentário “Cauby – Começaria tudo outra vez” (2013). Na concepção narrativa do longa, a vida pessoal e a trajetória profissional do biografado se entrelaçam de maneira indissolúvel como uma coisa só – o estilo misto de técnica impecável e exageros maneiristas de Cauby se relaciona com sua personalidade sedutoramente ambígua. O roteiro passeia com naturalidade e conhecimento de causa tanto pelos “causos” e fofocas que marcaram a biografia de Cauby, sem parecer apelativo ou gratuito, como pela sua evolução como intérprete. Nesse último aspecto, sintetiza exemplarmente detalhes e singularidades de seus principais discos e canções, realçando a beleza atemporal da arte do cantor para admiradores de primeira hora e neófitos.


No conjunto geral, a visão do documentário sobre o seu protagonista traz em seu subtexto uma espécie de radiografia da alma popular do brasileiro, com todas as suas grandezas e contradições, coisa que Hoineff já havia feito também com muitos acertos em “Alô, alô, Terezinha!” (2009).

segunda-feira, setembro 18, 2017

As duas Irenes, de Fábio Meira ***

Os dois longas-metragens que mais ganharam prêmios e chamaram à atenção na edição de 2017 do Festival de Gramado, “Como nossos pais” e “As duas Irenes”, têm em comum o fato de que as premissas básicas de sua trama versam sobre a oprimida condição feminina perante uma sociedade patriarcal, além dos seus respectivos subtextos também indicarem possibilidades de reação diante desse quadro. Se no primeiro filme há elementos temáticos de modernidade que acabam se perdendo por vezes em uma narrativa que caem em alguns apelativos truques melodramáticos, na obra dirigida por Fábio Meira a abordagem artística-existencial se mostra mais sóbria e universal. O acabamento formal da produção é tradicional e não mostra grandes arroubos estéticos, mas a edição e fotografia formam um conjunto narrativo de ritmo sereno, quase contemplativo, que se mostra em perfeita sintonia com o espírito de sutil e ácida contestação presente no roteiro. A encenação valoriza a síntese de vigor e delicadeza nas composições dramáticas das duas garotas protagonistas, além de realçar os aspectos contraditórios da figura paterna dominadora e carismática de Tonico (Marco Ricca). Em alguns momentos, Meira até brinca com alguns clichês narrativos, como se insinuasse um caminho mais previsível e conciliador para a trama do filme. Em seu terço final, entretanto, “As duas Irenes” se direciona para caminhos mais libertários e questionadores, com uma conclusão que evoca um desconcertante misto de desafio e ironia.

sexta-feira, setembro 15, 2017

Billi Pig, de José Eduardo Belmonte *

A intenção do diretor José Eduardo Belmonte é até louvável em “Billi Pig” (2011) – reciclar o gênero comédia na linha pastelão/chanchada sob uma perspectiva autoral e com forte viés sócio-cultural. De certa forma, é o que ele fez posteriormente dentro do gênero policial com o sofrível “Alemão” (2013), logrando resultado artístico semelhante. Falta para o filme uma maior convicção na execução de sua proposta. A encenação não tem fluência, o elenco se perde em desempenhos caricaturais e o roteiro trabalha clichês sem maiores inspirações. No conjunto geral, trata-se de uma obra bem distante dos melhores momentos de Belmonte como cineasta, vide trabalhos memoráveis como “A concepção” (2005) e “Se nada mais der certo” (2008).

quinta-feira, setembro 14, 2017

Como nossos pais, de Laís Bodanzky **1/2

De todos os meios de expressão artístico-cultural, a música popular é aquele formato que melhor traduziu as alegrias, mazelas, dilemas e contradições da nação brasileira, ou seja, a alma de um povo. Há um infindável número de artistas expressivos e canções antológicas que formaram esse rico panorama histórico e existencial. Dentro desse contexto, dois nomes que certamente se destacam é Belchior e Jorge Mautner. O primeiro na articulação de um cancioneiro marcado pela rebeldia estética-comportamental em boa parte de seus temas, o segundo pela configuração de uma síntese de musicalidade e poesia que une filosofia libertária, lirismo desconcertante e a fusão insólita entre o erudito e o popular. Assim, a presença de Belchior e Mautner dentro da concepção do longa “Como nossos pais” (2017) não é gratuita. É como se a diretora Laís Bodanzky quisesse transpor o ideário artístico de tais figuras para o subtexto de seu filme. Para isso, há uma premissa básica até bastante engenhosa na sua trama: ao anunciar para a filha Rosa (Maria Ribeiro) que essa na verdade é filha de outro homem e de que também estaria com câncer terminal, a personagem Clarice (Clarisse Abumjara) pretende detonar um processo de mudança na vida de Rosa para que ela saia de um limbo marcado pelo marasmo profissional e pessoal. Ocorre, entretanto, que iniciado tal processo, ele foge do controle dos padrões desejados por Clarice – Maria passa a questionar todos os aspectos que regem a sua vida, principalmente no que diz respeito aos seus relacionamentos pessoais. O que era para ser um pequeno ajuste dentro de um ordenamento pequeno-burguês, acaba caindo num mergulho no caos. Se tal pretensão temática pode até soar radical, na prática as coisas não são bem assim. O maior equívoco de Bodansky é que por vezes a produção cai numa formatação narrativa previsível e formulaica, quase como se fosse um manual dos sofrimentos da mulher moderna. Em termos sociológicos, isso pode até funcionar, no sentido de fazer com que a plateia masculina crie uma empatia com o universo feminino (ainda que restrito dentro de um padrão classe média). Como cinema, entretanto, o resultado final é falho porque o formalismo da obra se mostra conservador diante da proposta libertária do seu subtexto. A presença xamânica de Mautner no elenco é prova desse problema de abordagem estética de “Como nossos pais” – sempre que está em cena, ele rouba atenção justamente porque sua composição dramática foge do previsível e do linear. Aliás, em termos de atuações, justiça seja feita, a interpretação de Maria Ribeiro também é de se destacar pela fúria e vigor que expressa. No mais, “Como nossos pais”, a canção de Belchior evocada pelo título do filme, é um tema que versa sobre amargura e irresignação diante da capitulação final perante a ordem pequeno-burguesa, e não uma ode ao conformismo geracional conforme sugere a sequência em que a música é tocada ao piano. Mas ainda que o longa de Bodansky seja equivocado em boa parte de suas soluções narrativas, é de se louvar a inquietude criativa de suas intenções, o que fica bem evidente na contundência das suas sequências finais.

quarta-feira, setembro 13, 2017

O reencontro, de Martin Provost **1/2

Se em “Violette” (2013) o diretor francês Martin Provost conseguiu estabelecer uma narrativa marcada pelo classicismo sóbrio para contar uma história real que refletia de forma vigorosa alguns dos principais dilemas e conflitos artísticos-existenciais do século XX, em “O reencontro” (2017) ele envereda pelo gênero do melodrama de maneira bem menos contundente. A trama de caráter intimista até evoca um certo viés sócio-político no retrato de uma sociedade europeia cada vez mais desumanizada e vinculada a um regime sócio-econômico excludente e individualista. Por outro lado, Provost se rende a truques sentimentais um tanto apelativos e a soluções narrativas bastante formulaicas, ainda que a sua encenação guarde uma interessante síntese entre rigor e naturalidade. Além disso, há boas atuações em seu elenco, principalmente no trio protagonista vivido por Catherine Deneuve, Catherine Frot e Olivier Gourmet. Mas faltou para o filme aquela crueza formal cortante e o humanismo sem concessões que tornam as produções dos irmãos Dardenne, por exemplo, tão memoráveis dentro dessa linhagem de obras sócio-intimistas.

terça-feira, setembro 12, 2017

Uma mulher fantástica, de Sebastián Lelio ***

O diretor chileno Sebastián Lelio já havia demonstrado competente domínio narrativo para o drama intimista em “Gloria” (2013). Em “Uma mulher fantástica” (2017), ele até amplia o seu direcionamento artístico, combinando uma temática repleta de questões tabus e uma abordagem estética que transita com notável desenvoltura entre o realismo sóbrio e sutis elementos fantásticos. Dentro de tal abordagem, sequências que tinham tudo para cair no sentimentalismo excessivo ou mesmo na polêmica gratuita acabam demonstrando uma densidade dramática perturbadora, além de revelarem uma forte riqueza simbólica na caracterização de personagens e situações. Lelio sempre contrapõe no roteiro do filme uma delicada visão de mundo libertária e humanista a uma postura repressora e hipócrita de manutenção de valores patriarcais – nesse processo, por vezes sua obra cai em um certo maniqueísmo, principalmente no que diz respeito a uma encenação que remete ao caricatural quando entra em cena aqueles personagens de índole preconceituosa. Ainda assim, pode-se dizer que geralmente as ações moralistas na vida real têm uma carga de ridículo e caricatural (vide a patética e reacionária postura de direitistas fascistas no recente fechamento de uma exposição de temática “queer” no Santander Cultural em Porto Alegre). Nesse contexto, “Uma mulher fantástica” ganha ainda mais ressonância artística e existencial diante os conflitos sócio-políticos-culturais típicos da sociedade contemporânea.

segunda-feira, setembro 11, 2017

A minha grande noite, de Álex de la Iglesia ***

O diretor espanhol Álex de la Iglesia conseguiu atingir um feito para o cinema contemporâneo que é de estabelecer um estilo artístico indelével, algo como se fosse uma síntese improvável entre aquelas atmosferas bagaceiras e sórdidas típicas das primeiras produções de Pedro Almodovar com o barroquismo distorcido que remete a algumas das obras mais delirantes de Fellini. Nesse sentido, os primeiros momentos de “A minha grande noite” (2015) são bastante promissores, em que as habituais brutalidade cartunesca e comicidade escrota embalam um roteiro que versa sobre a vulgaridade e hipocrisia da mídia e o caos social-econômico da sociedade ocidental contemporânea. Com o desenrolar da narrativa, entretanto, as boas expectativas não se cumprem em sua totalidade, principalmente pelo fato que não fica aquela impressão de que Iglesia tenha levado tudo às últimas consequências, coisa que ele já tinha realizado com propriedade em intensas obras como “O dia da besta” (1995), “Muertos de risa” (1999) e “Balada do amor e do ódio” (2010). Por vezes, o longa se entrega a algumas facilidades formais e temáticas, sugerindo quase uma amena comédia romântica. É claro que há bons momentos, principalmente pelo humor beirando o surrealismo de algumas sequências e pelas grotescas caracterizações dos personagens, além das ótimas cenas envolvendo alucinadas e perturbadoras batalhas campais entre policiais e manifestantes desempregados. Ainda assim, na conclusão de “A minha grande noite” fica a constatação que Iglesia perdeu a chance de entregar um trabalho antológico e contundente sobre os conturbados tempos que vivemos.

sexta-feira, setembro 08, 2017

O novato,de Roger Donaldson **1/2

Não dá para chegar ao exagero de dizer que o australiano Roger Donaldson seja um diretor que deixe marcante um traço autoral em seus trabalhos. Ele está mais para um competente “tarefeiro” dos grandes estúdios de Hollywood que de vez em quando acaba apresentando obras acima da média (“Sem saída”, “13 dias que abalaram o mundo”, “Efeito dominó”). “O novato” (2003) não se enquadra entre os momentos de maior brilho artístico de Donaldson. Sua narrativa e formalismo até fazem com que o espectador acompanhe o longa com algum interesse, mas a obviedade das soluções do roteiro, a canastrice preguiçosa do elenco e a falta de uma tensão dramática mais convincente configuram um filme que é fácil de ver e também de esquecer.

quarta-feira, setembro 06, 2017

Atômica, de David Leitch ***1/2

O diretor David Leitch é uma avis rara no panorama cinematográfico contemporâneo – é um cineasta que conseguiu imprimir um traço autoral trabalhando dentro do gênero do cinema de ação. Os longas “De volta ao jogo” (2014) e “John Wick – Um novo dia para matar” (2017) estabeleceram um estilo personalíssimo baseado em uma narrativa estilizada, roteiro baseado numa insólita síntese entre tensão dramática e brutalidade cartunesca e sequências de ação coreografadas com requinte e fluência em tiroteios, perseguições automobilísticas e inúmeros confrontos físicos. Tal abordagem artística é retomada na obra mais recente de Leitch, “Atômica” (2017), com um resultado final notável. O fato da trama se desenvolver na Berlin do final dos anos 80, nos últimos dias do famigerado muro que separava os lados oriental e ocidental, faz com que o diretor se sinta à vontade em colocar em prática as suas obsessões estéticas. O trabalho de composição imagética e de reconstituição de época formam um conjunto audiovisual que mais se vincula a recriação de um imaginário do que à reconstituição realista. Os anos 80 representaram o período final da paranoia nuclear estimulada pela Guerra Fria, e um dos grandes méritos de “Atômica” é justamente realçar com sutileza e criatividade esse clima de suspense e fragilidade existencial de um mundo que sempre parece no limite de uma queda inexorável. Essa ambientação sombria e sórdida se mostra em perfeita sintonia com uma trama repleta de reviravoltas e personagens ambíguos. Os elementos típicos da época são inseridos com naturalidade e sensibilidade, o que se verifica no trabalho de direção de arte que alterna sobriedade e delírio e na forma com que clássicas canções rockers e eletrônicas da época se inserem na narrativa. A conclusão do filme, muito inclinada para clichês habituais e forçados de filme de espionagem, até acaba soando um tanto frustrante. Ainda assim, “Atômica” consegue se manter como um trabalho memorável e reforça o nome de Leitch como um dos grandes nomes do cinema dessa década.

terça-feira, setembro 05, 2017

Sexta-feira em apuros, de F. Gary Gray **

A ascensão artística do diretor Spike Lee nos anos 80 marcou também o renascimento do cinema negro norte-americano. Ao contrário do panorama setentista blaxploitation, mais voltado para uma revisão radical do cinema de gênero, esse novo cenário se concentrou em dramas e comédias de formato mais tradicional que abordavam em suas respectivas temáticas, em maior ou menor grau, questões sociais inerentes à população negra nos Estados Unidos. Foi justamente nesse contexto que apareceu “Sexta-feira em apuros” (1995), produção cômica que trazia em sua narrativa elementos-chaves para aquela cultura: roteiro que apresenta situações cotidianas nos bairros de predominância black, trilha sonora recheada de hip-hop, uma atmosfera lúdica movida a maconha e piadas sexistas. E no meio de tal concepção artística bastante vinculada à diversão escapista, havia rasgos de crítica social sobre criminalidade, preconceito racial e opressão estatal. A junção de todos esses aspectos estéticos e temáticos por vezes soava um tanto forçada, ficando evidente uma encenação ingênua e truncada, além de um roteiro esquemático em demasia. Ainda assim, é uma obra que acaba tendo um inesperado encanto pelo tom nostálgico de ser o retrato de uma época. E é curioso saber que o diretor F. Gary Gray décadas depois foi o responsável pela vigorosa cinebiografia “Straight Outta Compton – A história do N.W.A.” (2015), longa que contou a história da banda do cantor e ator Ice Cube, que interpretou o papel de protagonista em “Sexta-feira em apuros”.

segunda-feira, setembro 04, 2017

Um instante de amor, de Nicole Garcia ***

O título em português e o cartaz de “Um instante de amor” (2016) podem sugerir aqueles rotineiros e mofados melodramas exacerbados típicos de uma certa linguagem previsível de produções francesas de “qualidade”. Na prática, entretanto, ainda que o filme dirigido por Nicole Garcia tenha uma narrativa marcada por um classicismo acentuado, existem determinados fatores artísticos no longa que o afastam do estigma da irrelevância. Por trás de uma trama que valoriza elementos característicos dos melodramas românticos, há também uma arguta e sutil visão crítica sobre como a concepção de amor romântico pode ser opressor e alienante paras os indivíduos. Tal direcionamento existencial se vale de um engenhoso jogo de simbologias, além de uma abordagem emocional bastante sóbria e de uma atmosfera mista de ironia e morbidez. A caracterização de personagens e situações é muito bem delineada – nesse sentido, é fascinante como a construção dos três principais personagens da história se inter-relacionam com notável e fluida coerência, servindo como metáfora precisa do espectro sócio-político-cultural da Europa da primeira metade do século XX. Mesma o aparente tom novelesco do filme guarda em sua essência uma melancólica e resignada constatação sobre as relações humanas dentro de um contexto de hipócrita idealização romântica e preconceito social.

sexta-feira, setembro 01, 2017

Cheech e Chong atacam novamente, de Tommy Chong ***

Não é preciso estar exatamente chapado para apreciar “Cheech e Chong atacam novamente” (1980). É até provável que estando em um estado de consciência alterado algumas pessoas poderão curtir a “viagem” melhor, mas a verdade é que o filme foge dos padrões comportados do que seria considerado “aceitável” em termos de uma comédia norte-americana comercial contemporânea. Dentro da concepção artística da obra, elementos temáticos e estéticos vão sendo jogados na narrativa de uma maneira que beira o aleatório – encenação por vezes beirando o mambembe, paródia de ficção científica, comicidade que sintetiza ingenuidade e escrotidão. Dentro de tal concepção narrativa que simula amadorismo há uma certa coerência artística-existencial que joga o espectador em uma espécie de universo paralelo movido à maconha e a um muito particular senso de humor. No cômputo geral, uma produção deliciosamente anacrônica de estranho encanto.