quinta-feira, setembro 24, 2009

O Retorno de Sweetback, de Mario Van Peebles ***


“O Retorno de Sweetback” é a recriação dramática dos bastidores da realização de “Sweet Sweetback's Baadasssss Song” (1971), de Melvin Van Peebles, o clássico filme que deu o pontapé inicial no gênero blackexploitation. Mario Van Peebles, filho de Melvin e que participou como ator mirim em “Sweet Sweetback’s....”, narra de forma empolgante e bem humorada todas as peripécias financeiras e artísticas que Melvin fez para conseguir transformar uma produção independente e recheada de temas tabus (sexo, violência, racismo) em um grande sucesso comercial e artístico. Ao contrário da obra que homenageia, “O Retorno de Sweetback” não prima por uma linguagem experimental ou inovadora, mas sua narrativa clássica e bem ajustada oferece uma visão fascinante sobre o lado B do universo cinematográfico e honra com sensibilidade a figura fascinante de Melvin Van Peebles

segunda-feira, setembro 21, 2009

Nome Próprio, de Murilo Salles ***1/2


Confesso que nunca gostei dos escritos de Clarah Averbuck. A impressão que tenho assistindo a “Nome Próprio” (2008), produção brasileira baseada nos livros “Máquina de Pimball” e “Vida de Gato”, é que Murilo Salles também tem a mesma opinião... O interesse do cineasta não é exatamente pelo texto em si da obra literária de Averbuck, mas na conexão que se dá entre esse texto e a própria vida da autora. Vemos a vida desregrada de Camila, alter ego da escritora, e a forma com que esse caos se transforma em literatura.

Salles explora ambigüidades ao extremo. Vai do hedonismo sensual da intensa vida íntima da protagonista até momentos de profunda solidão e abandono. Camila também consegue ser selvaticamente sexy e encantadora em determinadas seqüências e em outras se converte em uma deprimente e neurótica desmiolada que enche o saco de todo mundo. A dicotomia atração e repulsa parece ser a força motriz do que Camila escreve e também é a base conceitual de “Nome Próprio”. Salles administra essa verdadeira montanha russa de sensações e sentimentos com maestria, indo do registro simples e de tons naturalistas do quotidiano atribulado de Camila até a uma busca por uma linguagem experimental, principalmente quando procura fundir cinema e literatura ao dar visibilidade às palavras sendo tecladas diretamente no que está enquadrado pela câmera. Sua narrativa é envolvente e também perturbadora: parece questionar constantemente o modus operandi de Camila, além de progressivamente, através de pequenos detalhes cênicos, confundir o próprio espectador sobre a “verdade” daquilo que estamos assistindo – será que Camila realmente viveu tudo aquilo ou é apenas ela se transformando cada vez mais em ficção??

Salles também foi particularmente feliz ao escolher Leandra Leal para o papel de Camila. A atuação da atriz é de uma dimensão quase de possessão: intensa e feroz, mas também transpirando fragilidade emocional, Leal busca a naturalidade a qualquer preço – sua expressividade não é apenas facial, mas totalmente corporal (poucas vezes se viu uma atriz ficar tanto tempo nua como se fosse algo tão natural). A impressão é que ela conseguiu ser mais Clarah Averbuck que a própria Clarah!

Por falar nela, dizem que Averbuck ficou descontente com o resultado final de “Nome Próprio”. Ora, ela devia agradecer ao Salles por ter sua obra revigorada de forma tão extraordinária!

Jacquot de Nantes, de Agnès Varda ***


Essa produção francesa de 1991 é uma criativa cinebiografia do realizador Jacques Demy dirigida pela esposa do mesmo, Agnès Varda. Concentrando-se na juventude de Demy, o filme enfoca de forma esparsa e fragmentada alguns episódios desse período da trajetória do cineasta, ao mesmo tempo que insere trechos de algumas da principais obras dele como “Os Guardas-Chuva do Amor” (1964) e “Pele de Asno” (1970), com Varda fazendo uma conexão poética entre a vida e a cinematografia de Demy. Essa relação acaba se revelando essencial no sentido em que capta a tensão artística que sempre marcou a filmografia do diretor: uma dicotomia entre o real e a fantasia, em que a música poderia irromper de forma inusitada no meio do mais corriqueiro e banal quotidiano.

Blacula, de Willian Crain ***1/2


Opiniões mais preconceituosas e rasteiras costumam rebaixar “Blacula” (1972) apenas como uma mera curiosidade trash do movimento blackexploitation, o que é na verdade um equívoco. É claro que o filme, mesmo se inspirando na figura de Drácula, está muito distante de ser um filme de horror, estando mais enquadrado no gênero comédia. E nesse estilo cômico, funciona que é uma beleza. O diretor Willian Crain domina com habilidade tanto a ação altamente movimentada de algumas seqüências quanto os momentos irônicos de tiração de sarro com clichês das obras clássicas de terror ou de estereótipos do comportamento dos blacks. E para completar, a trilha sonora movida a soul e funks faiscantes é extraordinária e já valeria por si só o preço do ingresso.

Marco Ferreri - O Diretor Que Veio do Futuro, de Mario Canele ***


Tentar enquadrar a figura de Marco Ferreri, cineasta afeito ao bizarro e ao surreal, em um simples documentário não é das tarefas mais fáceis. A produção italiana “Marco Ferreri – O Diretor Que Veio do Futuro” (2007) cumpre essa missão com considerável sucesso. O diretor Mario Canale consegue narrar a vida e a obra excêntricas de Ferreri através de depoimentos preciosos de colegas, amigos e do próprio biografado e de imagens antológicas de alguns de seus melhores filmes. Canale estabelece a conexão precisa da estranha visão de mundo e de cinema que vem das palavras de Ferreri com o resultado final de tais concepções em seus filmes. Tanto para velhos admiradores como para neófitos, o documentário é esclarecedor sobre a obra de Ferreri, assim como diverte pelo tom bem humorado de algumas seqüências.

Tandoori Love, de Oliver Paulus **1/2


Essa produção suíça de 2008 apresenta uma insólita e divertida combinação de comédia romântica tipicamente ocidental com musical desvairado de Bollywood. Por mais indigesta que possa parecer essa mistura, o filme cativa justamente pelo enquadramento da sisudez e falta de molejo tipicamente europeus em meio a uma ambientação exageradamente colorida e irreal das produções indianas, o que acaba rendendo alguns momentos hilariantes de dramas ingênuos e comicidades desajeitadas. “Tandoori Love” está longe de ser uma obra-prima, mas também transcende a simples curiosidade cultural.

A Era da Inocência, de Denys Arcand ***1/2


O cineasta canadense Denys Arcand deve ter ficado de saco cheio de ser levado tão a sério com o superestimado melodrama humanista “As Invasões Bárbaras” (2003). Em “A Era Inocência” (2007), permanece a sua visão crítica sobre a sociedade contemporânea, mas dessa vez moldada em uma forma mais irregular e sardônica. Prevalece no filme um tom que varia entre o surreal e o jocoso sobre a vida fútil e frustrante do homem moderno, geralmente pontuado também pelo gosto pelo politicamente incorreto. As melhores seqüências do filme são justamente aquelas que investem pesadamente nesse lado irônico mais ofensivo, principalmente nos delírios misóginos que o protagonista Jean-Marc LeBlanc (Marc Labrèche) tem com as mulheres que o oprimem (esposa, sua chefe executiva, suas colegas de trabalho, uma possível amante pirada que acha que é uma lady da Idade Média). O ponto fraco de “A Era da Inocência” é justamente quando Arcand ameniza a sátira para tentar passar alguma “lição de vida” para LeBlanc. Mesmo assim, é uma obra que serve como um bem vindo refresco humorado e sacana para Arcand depois daquele excessivo incensamento da crítica e do público pós-“As Invasões Bárbaras”.

A Princesa de Nebraska, de Wayne Wang ***


Aqueles que se recordam do cineasta chinês Wayne Wang pelo melodrama “O Clube da Felicidade e da Sorte” (1993) levarão um susto com “A Princesa de Nebraska” (2007). Wang abandonou o tom lacrimoso e o formato acadêmico de sua obra mais conhecida e adotou um estilo seco e uma visão mais amarga para retratar a trajetória de uma garota chinesa grávida e misteriosa percorrendo recantos sórdidos de uma cidade norte-americana. O tom granulado da fotografia e os enquadramentos simples e eficientes nas cenas reforçam a abordagem do diretor que oscila entre o real e o poético.

Santos e Demônios, de Dito Montiel ***


O escritor Dito Montiel não se fez de rogado e tratou dele mesmo adaptar para o cinema algumas passagens autobiográficas de sua adolescência e da sua vida adulta, indo das confusões que se envolvia com o seu grupo de amigos delinqüentes num violento bairro novaiorquino até o seu difícil relacionamento com o pai. Montiel não cai em auto-indulgências fáceis: sua visão sobre a sua vida é crua e dramática, sem que o autor se poupe das suas responsabilidades. A forma dinâmica com que filma tanto as seqüências mais agitadas de brigas e encrencas quanto os momentos mais intimistas faz com que “Santos e Demônios” não caia num monótono e lamentoso relato sobre as agruras de um adolescente rebelde sem causa. Outro destaque da produção é o seu elenco, tanto pelas atuações vibrantes dos atores mais jovens quanto pelas interpretações sanguíneas e cheias de nuance de Robert Downey Jr., Chaz Palminteri e Diane Wiest.

Pablo e Virginia vão à Lujan, de Lilian Saura Ivachow **


Essa produção argentina de 2008 apresenta um tratamento quase documental para uma história singela e banal. Pablo e Virginia se conhecem durante uma peregrinação para a cidade Lujan, falam sobre coisas corriqueiras e sobre as suas vidas, trocam impressões pessoais, separam-se no outro dia e voltam a se encontrar no retorno a suas casas. A diretora Lilian Laura Ivachow filma com competência, a trama encanta de vez em quando pela sua simplicidade, mas o filme não tem maiores arroubos formais e aborrece em várias seqüências. No final das contas, “Pablo e Virginia vão à Lujan” vale mais como curiosidade pelas suas limitações de produção barata do que necessariamente pelas suas qualidades artísticas.

domingo, setembro 06, 2009

Terra Mãe, de Ermanno Olmi ***1/2


A primeira metade desse documentário italiano de 2009 chega a parecer quase um vídeo institucional. O veterano cineasta Ermanno Olmi concentra sua lente em fóruns, debates e entrevistas tendo por tema a questão ambiental. Isso não quer dizer, entretanto, que “Terra Mãe” é uma coletânea de aborrecidos depoimentos politicamente corretos. A dinâmica cinematográfica que Olmi consegue obter é notável, enfatizando muito a contundência da complexidade das discussões ecológicas. É na metade final do filme, contudo, que estão reservadas os melhores momentos. O diretor dispensa os diálogos e apenas enfatiza as imagens bucólicas de uma fazenda no interior da Itália. Focalizando uma natureza naquilo que ela tem de mais misteriosa e bela, num registro seco e direto, mas também apaixonado, as cenas concebidas por Olmi são a prova incontestável da verdade de todos os discursos bradados no início de “Terra Mãe”. Por mais que alguns possam acusar o documentário de panfletário ou ingênuo, a realidade é que a sua engenhosa arquitetura narrativa é cativante e eficiente na defesa do seu ponto de vista.

9 mm., de Taylan Barman ***1/2


A cena de abertura de “9 mm.” (2008) é seca e objetiva: no corredor de um prédio, a câmera focaliza uma porta de apartamento e um tiro é ouvido. A partir desse instante, a trama do filme retroage algumas horas e daí os motivos que levaram ao disparo da arma aos poucos serão esclarecidos. Essa descrição da narrativa dessa produção belga pode levar a crer que a mesma se trata de um filme policial. E é justamente aí que está um dos grandes méritos do filme: o que se assiste é um drama sobre a desintegração de uma família formatado numa estrutura de filme policial. Não há como não lembrar da declaração de Truffaut sobre Hitchcock em que ele dizia que o velho mestre inglês dirigia histórias de amor como filmes de suspense ou realizava produções de suspense como filmes de amor. O diretor estreante Taylan Barman surpreende ao conduzir sua trama com uma dinâmica tensa e meticulosa. Sua câmera é investigativa, parecendo não querer perder nenhum detalhe da trajetória descendente de seus personagens. Na maior parte dos momentos, pai, mãe e filho são apresentados em ações isoladas, mas que refletem sutilmente a relação desestabilizada entre eles. Quando interagem, a naturalidade dos seus atos é brutalmente coerente, fazendo da tragédia anunciada no início do filme a conseqüência inevitável de uma convivência degradada.

Home, de Ursula Meier ****

“Home” (2008) é uma verdadeira jornada dentro da loucura humana. A trama é altamente insólita: uma família de desequilibrados e que tinha tudo para ser disfuncional vive isolada em estranha harmonia em uma casa que fica à beira de uma auto-estrada abandonada. Jogando hockey no asfalto deserto, tomando banhos coletivos ou com a filha mais velha se bronzeando nua no jardim, nada parece perturbar a rotina do esquisito grupo. No momento, entretanto, que a auto-estrada em questão é reativada, a desordem mental de todos parece aflorar. Incapazes de abandonar a residência, começam a entrar em eternas discussões e conflitos. Chega-se ao ponto de emparedar todas as aberturas da casa para evitar o contato externo. A cineasta Ursula Meir adota o tom certo na direção, criando uma atmosfera de demência que vai se tornando progressivamente sufocante. A fotografia se alterna vertiginosamente entre a luminosidade ensolarada das belas paisagens bucólicas onde a casa está encravada até os interiores escuros e opressores da residência. Isabele Huppert mostra uma variação interpretativa impressionante no papel da matriarca, indo da serenidade contemplativa até o comportamento maníaco assustador, enquanto o notável elenco juvenil envereda por atuações similares.

Absurdistão, de Veit Helmer ***


“Absurdistão” (2008) tem as características típicas daquelas produções “artísticas” que alguns cinéfilos tanto gostam: paisagens exóticas, realismo mágico, narrativa alternada entre a fábula e a comédia. Mas apesar dos clichês, o filme é realmente envolvente e tem o seu encanto. Reciclando a velha história mitológica da greve de sexo das mulheres de Atenas, transposta para um vilarejo de um país imaginário, o filme tem uma eficiente direção de fotografia que valoriza as inóspitas paisagens áridas que pontificam como cenários. Além disso, a trama é marcada por um humor ora ingênuo ora malicioso em perfeita sintonia com o caráter irreal da narrativa.

sábado, agosto 29, 2009

Vacuum, de Maria Tereza Curzio **1/2


Esse documentário de 2008 sobre a ditadura militar no Uruguai durante o período de 1974 a 1984 não traz nenhuma novidade para o gênero. A diretora Maria Tereza Curzio se prende a todos os macetes mais genéricos, fazendo a velha combinação de depoimentos com imagens de arquivo. Mesmo assim, é inegável a força narrativa e emocional do filme. Curzio conseguiu obter uma interessante dinâmica cinematográfica, sendo que se acompanha com interesse a dolorosa busca de desaparecidos e seus descendentes por parte de parentes e a evocação das duras lembranças de torturas e perseguições durante àquela época de totalitarismo. Por mais que para alguns o filme possa parecer panfletário demais, dificilmente não se fica impressionado com tais relatos.

Pequeno Crime, de Christos Georgiou **1/2


Uma co-produção entre o Chipre e a Grécia não é o tipo de filme que se assiste seguidamente. Mas “Pequeno Crime” (2008) consegue transpor o mero interesse de curiosidade geográfica. Num misto de comédia, policial e a singela crônica de costumes, a obra se sustenta no roteiro bem humorado, na bela fotografia que focaliza as bucólicas paisagens de uma ilha cravada no meio do Mar Egeu e no exotismo dos costumes e línguas dos personagens. No final das contas, não é nada de parar o trânsito, mas consegue distrair na boa o espectador por uma hora e meia.

Feliz Natal, de Selton Mello ***1/2


Se como ator Selton Mello consegue ser irritante em alguns dos seus maneirismos, no seu lado como cineasta ele consegue ser bem mais fluente e interessante. “Feliz Natal” (2008), seu de estréia na direção, é a prova natural disso. Logo nas primeiras cenas já se fica surpreendido com a paixão de Mello pela imagem cinematográfica: as tomadas do ferro velho, com enquadramentos magníficos sob iluminação naturalista e saturada, têm um impacto fortíssimo. Esse gosto pelas imagens, e não palavras, que traduzem idéias e concepções paira por todo o filme. O estilo de filmar pode ser seco e objetivo, mas também tem um corte elegante: não se cai na armadilha fácil de câmeras que tremem ou que ficam fora do foco da ação principal. A lente do diretor é contemplativa e curiosa. Acompanha de forma detalhada a desintegração psicológica e emocional da família do protagonista Caio (Leonardo Medeiros), com a câmera investigando toda a sordidez e falta de esperança que emanam das situações e dos personagens. Mello, todavia, não esquece de pingar sobre a trama um pouco de um senso de humor agudo e perverso. Nesse sentido, é inesquecível a cena em que o cunhado bonachão e desempregado fica devorando pernil e farofa durante a ceia de Natal enquanto patriarca e matriarca (Lúcio Mauro e Darlene Glória) discutem da forma mais áspera e bagaceira possível.

Outro ponto alto de “Feliz Natal” são as atuações dramáticas que Selton Mello consegue extrair do seu elenco. Leonardo Medeiros atinge o seu auge como ator ao compor sutilmente um Caio imerso em fragilidade e culpa. Lúcio Mauro, de rosto pétreo e gestos econômicos, é o retrato perfeito da amargura, enquanto Darlene Glória oferece uma interpretação completamente over mas adequada a uma idosa mergulhada na loucura e no alcoolismo. Já Paulo Guarnieri surpreende ao caracterizar uma imensa melancolia apenas no seu olhar triste e apagado. Graziella Moretto sai do seu registro cômico habitual e oferece o retrato muito bem delineado da mulher frustrada em todos os sentidos.

Mesmo não sendo uma obra-prima, “Feliz Natal” é aquele tipo de produção que cria uma tremenda expectativa sobre o que seu autor pode oferecer no futuro, além de dar vontade de pedir ao Selton Mello que largue a carreira de ator e se concentre só em fazer filmes (tudo bem, estou exagerando: em “Lavoura Arcaica” e “O Cheiro do Ralo” ele teve atuações extraordinárias).

Jardins de Outono, de Otar Iosseliani ***


Essa produção francesa de 2006 é uma bela reciclagem do cinema surrealista de Luis Bunuel. Apesar de não ter a mesma excelência artística do velho mestre espanhol, o cineasta Otar Iosseliani elabora com habilidade uma estranha e agradável atmosfera onírica que reveste uma trama cômica sobre políticos corruptos e mazelas familiares. O espectador se sente envolvido por um tom nostálgico e bucólico, como se sentisse saudade de algo indefinível, obscuro, mas ao mesmo tempo vagamente reconhecível, numa sensação típica de devaneio.

quarta-feira, agosto 19, 2009

Breton é um Bebê, de Arturo Sotto ***


Nesse documentário de 2008, o diretor Arturo Sotto e sua equipe percorrem o interior de Cuba na intenção de fazer um registro do imaginário mágico do país. O resultado é uma obra perturbadora, em que a visão pretensamente objetiva que se poderia ter sobre o assunto se dissolve no olha fascinado sobre os rituais de religiões afro-americanas que prevalecem na nação. A violência dos ritos e a fé dos devotos são retratados num formato cru e sem concessões, mas ao mesmo tempo há um tom entre o onírico e o surreal que tornam estranhamente atraentes tais práticas.

terça-feira, agosto 18, 2009

California Dreamin', de Cristian Nemescu **1/2


Essa produção romena de 2007 é uma sátira política que oscila entre a ironia e a ingenuidade. A trama, que mostra um pelotão norte-americano em missão internacional preso numa cidadezinha romena pela burocracia estatal, tem um caráter evidentemente simbólico, trazendo uma crítica ao velho imperialismo ianque e ao caráter corrupto e subverniente dos países de terceiro mundo. O problema do filme é que o seu lado farsesco é tão acentuado que acaba tirando o impacto dramático de algumas seqüências que pretendiam um tom mais sério. No mais, “California Dreamin’” é envolvente e simpático, sendo que os seus melhores momentos se concentram nas engraçadas cenas do baile oferecido pela cidade aos soldados, que na verdade estão loucos para transar com as mais belas garotas da localidade. Como se pode observar, as metáforas no filme são mais que óbvias...