Por mais que “Aquarius” (2016) possa estar dividindo
opiniões e causando polêmicas variadas, um aspecto é inegável no filme do
diretor Kleber Mendonça Filho: a capacidade de captar o espírito de uma época.
É impressionante como ao longo da trama se identifica questões que trazem uma
identificação com o cotidiano contemporâneo do espectador. Estão lá o conflito
e preconceito de classes, a brutalidade verbal e física nas relações humanas, a
ambição econômica e social tomada como valor fundamental, a degradação da
concepção humanista de vida, a relação intrínseca entre religião e poder
econômico, o moralismo obtuso como máscara de interesses obscuros. Mendonça
Filho embaralha toda essa temática conturbada dentro de uma estrutura narrativa
típica de um filme de horror, envolvida em uma linguagem cinematográfica
repleta de simbologias simples e eficazes. O fato de se valer do cinema de
gênero é uma sacada estética e existencial extraordinária por parte do
cineasta, fazendo lembrar um recurso narrativo semelhante que Marco Dutra havia
articulado no impressionante “Quando eu era vivo” (2014) – ainda que a temática
se associe a um viés realista, o barroquismo formal e o exagero na encenação e
em determinadas passagens do roteiro amplificam ainda mais o mal-estar em
decorrência de uma sociedade em desequilíbrio moral e ético. Tudo na
protagonista Clara (Sônia Braga) remete ao arquétipo de uma heroína: a defesa
irredutível de seus direitos, a percepção humanista aguçada, o gosto cultural
hiper-sensível (que é um gancho genial para uma trilha sonora repleta de canções
magníficas), enquanto o seu antagonista Humberto Carrão (Diego Bonfim), um ganancioso
especulador imobiliário, recebe uma caracterização entre o odioso e o patético.
Tais elementos na composição dramática, associados a passagens da trama que
configuram um embate contundente entre o “bem” e o “mal”, podem sugerir um
aparente e simplista maniqueísmo da obra. O que evidencia na realidade,
entretanto, é uma postura artística ousada e desafiadora por parte de “Aquarius”
no questionamento de valores de uma sociedade dominada pelo mercantilismo e
exploração humana. O filme de Mendonça Filho exala uma fúria sincera e
visceral, tendo por resultado final uma catarse desconcertante e redentora.
Boa parte de amigos e conhecidos costuma dizer que as minhas recomendações para filmes funcionam ao contrário: quando eu digo que o filme é bom é porque na realidade ele é uma bomba, e vice-versa. Aí a explicação para o nome do blog... A minha intenção nesse espaço é falar sobre qualquer tipo de filme: bons e ruins, novos ou antigos, blockbusters ou obscuridades. Cotações: 0 a 4 estrelas.
terça-feira, setembro 06, 2016
segunda-feira, setembro 05, 2016
Loucas de alegria, de Paolo Virzi ***
Os responsáveis pela distribuição no Brasil da produção
italiana “Loucas de alegria” (2016) deveriam se cuidar, pois a forma a forma
escolhida para divulgar o filme em questão é pura propaganda enganosa. O cartaz
e o título brasileiro sugerem uma comédia agridoce, repleta de edificantes
lições de vida, daquelas que senhoras na terceira idade adoram para animar suas
tardes. É bem provável que as velhinhas levem um belo susto quando assistirem
de fato à obra do diretor Paolo Virzi. A trama até guarda uma estrutura típica
de melodrama, resvalando por vezes no sentimentalismo. O que prevalece na maior
parte do tempo da narrativa, entretanto, é uma encenação vigorosa e uma
caracterização bastante crua e perturbadora de situações e personagens. Por
trás do viés cômico, há um misto de sutileza e contundência ao retratar o
comportamento humano tanto por parte das duas protagonistas com distúrbio
mental quanto nos valores hipócritas daqueles que são envolvidos em suas
confusões e desventuras. O registro formal concebido por Virzi tem um certo
grau de perversidade, em que a direção de fotografia em determinados momentos
privilegia um estilo cartão-postal de enquadramentos e iluminação, para logo em
seguida enveredar em sequências de atmosfera entre o sujo e o sórdido. As
atrizes que interpretam as personagens principais também representam outro
ponto alto do filme – enquanto Valeria Bruni Tedeschi é pura exuberância
alucinada, Micaela Ramazzotti cativa na sua síntese de doçura e violência, com
a interação entre ambas apresentando uma dinâmica complexa, divertida e por
vezes até assustadora, demonstrando notável sintonia com as próprias concepções
artísticas de Virzi.
sexta-feira, setembro 02, 2016
Código das ruas, de Spike Lee **
No papel, “Código das ruas” (2004) tinha tudo para ser uma
obra memorável. A trama remete a estrutura clássica dos filmes policiais que narram
a ascensão de gângsteres, mas também se relacionando com a questão dos
conflitos de classes e etnias bastante presente na sociedade norte-americana
contemporânea. Como condutor da narrativa, está Spike Lee, já bastante calejado
na temática racial e um dos diretores contemporâneos de linguagem formal mais
apurada. É só lembrar, por exemplo, que é o cineasta responsável pela explosiva
cinebiografia “Malcolm X” (1992), obra que já apresentava uma extraordinária
síntese dos elementos acima mencionados. Ocorre, entretanto, que em “Código das
ruas” as coisas não se acertam como o esperado... O problema não é tanto o
roteiro esquemático e previsível – o grande incômodo é a direção sem brilho e
derivativa de Spike Lee. Não há aquela encenação vibrante de “Faça a coisa
certa” (1989), a ironia madura de “Febre da selva” (1991), as sutilezas
narrativas de “Crooklyn” (1994), a dramaticidade à flor-da-pele de “A última
noite” (2002), a ação lapidada à perfeição de “O plano perfeito” (2006), a
atmosfera operística e sórdida de “O verão de Sam” (1999), a tensão
perturbadora de “Irmãos de sangue” (1996). O que se tem é um produto genérico e
sem graça, que parece feito por um tarefeiro qualquer, não se podendo perceber
em qualquer instante o traço autoral característico de Spike Lee.
quinta-feira, setembro 01, 2016
A morte de J.P. Cuenca, de João Paulo Cuenca ***
Seria fácil enquadrar “A morte de J.P. Cuenca” (2014) como
uma pretensiosa e desagradável egotrip de seu diretor/roteirista/principal ator
João Paulo Cuenca. Não se trata especialmente de uma obra que traga cenas de
grande apuro estético, e por vezes a aridez de seu formalismo pode até causar um
certo enfado. Na sua mistura de elementos de encenações ficcionais e
documentais, a produção parece buscar uma brecha dimensional específica, quase como
se fosse um pesadelo se materializando de forma crua na realidade. Nessa
particular concepção artística, a crise que envolve a identidade do autor, a do
anônimo morto que tomou a sua identidade, tanto se aprofunda como uma
perturbadora crise existencial como por uma espécie de radiografia social da
degradação moral da cidade do Rio de Janeiro, cada vez mais gentrificada por
desumanos condomínios de luxo que sugerem um apartheid social. Morbidez e
ambiguidade são constantes na atmosfera do filme, fazendo com que a recriação
do real vá se dissolvendo de forma progressiva e o elemento do delírio se torne
cada vez mais presente, culminando no rito final de sexo e morte. Ainda que
esse coquetel não seja dos mais palatáveis, é inegável também a capacidade de
inquietar o espectador por parte de “A morte de J.P. Cuenca”.
quarta-feira, agosto 31, 2016
Café Society, de Woody Allen ***1/2
O cinema de Woody Allen representa uma constante reciclagem,
não só de referências alheias como também da própria filmografia do veterano
cineasta nova-iorquino. “Café Society” (2016), numa primeira visão sobre a sua
trama, logo de cara faz pensar em “Tiros na Broadway” (1994), em que o ambiente
boêmio e festivo de artistas se relacionava com naturalidade com o universo do
banditismo de gangsteres. Mas a obra mais recente de Allen vai muito mais além
no seu revisionismo, mostrando que tal aspecto é inerente ao próprio traço
autoral do diretor, ampliando o seu espectro artístico e existencial. O ótimo
roteiro conjuga habilmente elementos de gêneros diversos do cinema clássico
norte-americano, aliando diálogos cômicos espirituosos na linha irmãos Marx,
drama elegante e melancólico na linha “Casablanca”, belos números musicais, tudo
isso embalado por uma encenação primorosa, ágil edição, elenco inspirado e a
direção de fotografia monumental de Vittorio Storaro. E mesmo as sequências que
se voltam para o cinema policial surpreendem pela notável síntese de violência
e humor negro, lembrando alguns dos melhores trabalhos nessa linha de Martin
Scorsese (seria uma homenagem ao colega?). Nesse elemento de obra policial, há
um profundo subtexto sócio-político – a de que a prosperidade econômica nos Estados
Unidos é fortemente ligada a iniciativas empreendedoras de criminosos e
contraventores. E vale ainda mencionar que dos filmes mais recentes de Allen,
talvez “Café Society” seja aquele em que a sua relação de amor com a cidade de
Nova Iorque fica mais em evidência – a trajetória do protagonista nova-iorquino
Bobby Dorfman (Jesse Eisenberg) que volta para a sua cidade depois de se
desiludir em Los Angeles e acaba se tornando bem sucedido profissionalmente em
meio a festas e tiros parece guardar ressonância com a do próprio Allen que nos
últimos tempos andava ambientando suas tramas em outras cidades, inclusive
europeias, e agora volta a filmar em sua terra natal, retratando-a com notável
paixão.
terça-feira, agosto 30, 2016
Pets - A vida secreta dos bichos, de Yarrow Cheney e Chris Renaud ***1/2
As duas melhores animações norte-americanas de 2016 têm pelo
menos algo em comum: suas tramas giram em torno de animais, com a personalidade
de suas principais figuras se relacionando com as características dos bichos
que a inspiraram. Mas se “Zootopia” é uma fantasia com animais
antropomorfizados evocando também personalidades humanas e temática pertinente
e mais complexa, em “Pets – A vida secreta dos bichos” as criaturas são e agem
como animais de estimação (é claro que com a licença poética de que conversam
entre eles) e a história apresenta uma premissa mais simples, a de que cães,
gatos e outros seres afins fariam em casa enquanto seus donos vão trabalhar,
acrescentando ainda na trama uma dose de aventura com seus protagonistas percorrendo
um grande e agitado centro urbano (no caso, Nova Iorque). A partir desses
elementos básicos, os diretores Yarrow Cheney e Chris Renaud conseguem criar
uma obra divertida e emocionante, e que se permite ainda algumas ousadias. Para
começar, a dimensão psicológica dos personagens é convincente e variada,
combinando emoções e índoles diversas (fidelidade, ciúme, ressentimento,
melancolia) e com o aspecto fantástico delineado com criatividade (o cachorro
de raça que ouve heavy metal quando o dono está fora de casa, o passarinho que
gosta de jogar vídeo game, o coelho alucinado que lidera uma rebelião de
rejeitados), criando uma forte empatia com o espectador (principalmente com
aqueles que tem animais de estimação, obviamente). As nuances emocionais do
roteiro interagem de maneira natural e coesa com os momentos de ação frenética.
Aliás, nesse último quesito, também é de se destacar o belo trabalho gráfico de
“Pets”, tanto pela beleza do traço quanto no detalhismo da ambientação da
história (é de se reparar, por exemplo, o visual assustador dos esgotos da
cidade). E por falar em ambientação, é interessante como Nova Iorque se torna
uma personagem com vida própria no filme, pois se num primeiro momento o
registro visual da metrópole dá a impressão de um grande cartão-postal, com o
desenvolvimento da trama a cidade vai ganhando um caráter mais obscuro e
misterioso na caracterização e tipos e situações, fazendo lembrar “Depois de
horas” (1985), a clássica comédia de humor negro de Martin Scorsese que mostra
o “wild side” da Grande Maçã.
segunda-feira, agosto 29, 2016
Na ventania, de Martti Helde ***
O grande atrativo da produção estoniana “Na ventania” (2014)
este no recurso estético da combinação de uma encenação “estática” por parte de
atores e uma direção de fotografia que se desenvolve em longos
planos-sequência, dando a impressão ao espectador de estar assistindo a uma
narrativa formada por um encadeamento de “quadros vivos” com sutis variações de
movimento. Tal formalismo revela um grau forte de ousadia e por vezes seduz
pela beleza plástica de algumas tomadas. É de se considerar que esse estilo
adotado pelo cineasta Martti Helde não se resume somente ao exercício de
experimentação de linguagem, guardando uma sintonia existencial com a própria
temática da obra. A trama conta a história real de uma mulher que vê sua
família se desintegrar ao serem mandados pela União Soviética para campos de
trabalhos forçados na Sibéria e lá ela passa por uma série de privações. A
sacada narrativa é de que o imobilismo cênico dos personagens estaria ligado ao
sentimento de impotência do indivíduo diante da fúria opressiva do Estado.
Ocorre, entretanto, que a aposta contínua em tal fórmula artística por vezes
também é capaz de causar um certo enfado pela repetição, além do fato do
roteiro apostar num convencionalismo melodramático excessivo em algumas
passagens.
sexta-feira, agosto 26, 2016
Dias de trovão, de Tony Scott ***1/2
Durante boa parte de sua carreira, o diretor britânico Tony
Scott foi acusado de vídeo-clipeiro, cineasta comercial ou de mero profissional
tarefeiro de Hollywood. O passar dos anos, entretanto, permitiu uma revisão
mais sensata por parte de público e crítica e se pode constatar que ele foi um
dos grandes profissionais do gênero cinema de ação das últimas décadas. Claro
que não era sempre que ele acertava a mão, mas quando tudo dava certo saíam
algumas obras antológicas: “Fome de viver” (1983), “O último boy scout” (1991),
“Amor à queima-roupa” (1993), “Chamas da vingança” (2004), “Deja vu” (2006). Na
linha de filmes memoráveis também dá para colocar “Dias de trovão” (1990). A
partir de um roteiro simples envolvendo pilotos de stock car e de alguns
clichês narrativos, Scott se esbalda em algumas ótimas cenas de corridas, além
de construir uma convincente atmosfera casca-grossa a exaltar a virilidade e
coragem dos corredores. É interessante observar que alguns elementos formais
contextualizam bem a época em que a produção foi realizada – nas sequências de
provas de stock car não se recorrem a truques digitais, a fotografia estilizada
remete ao realismo “neon” típico dos anos 80. Tais truques estéticos podem
parecer datados, mas também é inegável que ainda guardam uma parte considerável
de seu charme e impacto sensorial.
quinta-feira, agosto 25, 2016
Julien Donkey-Boy, de Harmony Korine ***1/2
Como já foi dito num post anterior, pode-se dizer que o
diretor norte-americano Harmony Korine é uma espécie de cronista de uma
juventude perdida. Mas não se trata apenas de uma garotada chafurdando em
questionamentos existenciais ou à procura de um lugar na sociedade. As jovens
criaturas que vagam nas histórias de Korine são reflexos distorcidos (ou
reais?) dos modelos comportamentais mais caros da sociedade ocidental,
localizados entre uma síntese de hedonismo desesperado e embrutecimento
cultural. Em “Julien Donkey-Boy” (1999), o protagonista do título (Ewen
Bremner) é um pobre diabo esquizofrênico envolto em um cotidiano perturbador e algo
delirante, em que incesto e loucura estão presentes quase como se fossem algo
banal. Ainda que não atinja o mesmo pico criativo de “Gummo” (1997), obra de
temática parecida, Korine constrói uma narrativa fragmentada e inquietante, em
que mais importante do que mostrar um roteiro linear é o fato de se criar uma
atmosfera que se alterna de maneira contundente entre o realismo áspero e o
surrealismo sinistro.
quarta-feira, agosto 24, 2016
Francofonia, de Alexander Sokurov ****
A linha narrativa de “Francofonia – Louvre sob ocupação”
(2015) parece obedecer a uma lógica estética e existencial bastante particular –
é como se o espectador fosse jogado dentro de um fluxo de consciência do
diretor russo Alexander Sokurov. Tal descrição pode sugerir que o filme em
questão esteja ligado a uma mera egotrip artística, mas na verdade a obra de
Sokurov vai muito mais além disso. Trata-se de uma reflexão fílmica sobre a
guerra, a arte e os valores ocidentais em que o cineasta se vale de recursos e
referências diversos para engedrar um estilo único, algo que ele já tinha
delineado em “A arca russa” (2002) e que nesse trabalho mais recente se
consolida de forma ainda mais radical. Nessa peculiar e desconcertante
concepção formal, recriação dramática, linguagem documental, ensaio filosófico
e digressões pessoais se combinam com uma naturalidade impressionante, causando
um efeito por vezes hipnotizante na sua síntese narrativa que casa registro
histórico e encenação entre o realismo e o sutil delírio onírico. Sokurov se
vale de tais recursos não apenas como um exercício de virtuosismo e
experimentação da linguagem, mas também para aprofundar a dimensão humanista
que oferece ao retratar o período em que o museu do Louvre ficou sob o domínio
nazista durante a ocupação alemã na França durante a 2ª Guerra Mundial. O
diretor rompe com os preceitos típicos do gênero do cinema de época: mais
importante que a pretensa fidelidade histórica relativa à recriação física do
ambiente e dos indivíduos, é primordial o resgate de uma atmosfera cultural e
social da época e que se estende para a ligação intrínseca entre caracterização
psicológica de determinadas pessoas e o contexto político que as cerca. Se num
primeiro momento “Francofonia” se apresenta como um insólito exercício de
revisionismo histórico, com o seu desenrolar as soluções criativas de Sokurov
configuram uma obra que também procura e sugere respostas que para o nosso
conturbado presente.
terça-feira, agosto 23, 2016
Um belo verão, de Catherine Corsini **1/2
Obras recentes como “Azul é a cor mais quente” (2013), “Boi Neon” (2015) e “Mãe só há uma” (2016) sugerem uma abordagem estética-existencial renovada dentro do panorama cinematográfico para a questão da sexualidade, em um sentido em que rótulos e preconceitos a determinadas posturas comportamentais que fogem da ortodoxia se tornam cada vez mais obtusos perante uma dinâmica intensa e libertária de parte considerável da sociedade. Dentro de um contexto de produções questionadoras e inquietantes como essa, o estilo convencional e passadista de “Um belo verão” (2015) acaba soando um tanto defasado. O filme da diretora francesa Catherine Corsini até apresenta alguns pontos sedutores: a fotografia é bonita nos registros campestres e mesmo de uma Paris de ambiência nostálgica, as cenas de sexo entre as protagonistas Carole (Cécile de France) e Delphine (Izïa Higelin) têm uma intensidade memorável, algumas sequências apresentam uma composição cênica eficaz em termos de desenvoltura. Ocorre que tais aspectos positivos esbarram numa narrativa mofada e que se prende a um roteiro recheado de dilemas previsíveis e melodramáticos em excesso, beirando o novelesco. A maioria das soluções formais e temáticas encontradas por Corsini consiste em truques baratos e caretas, vide o uso abusivo de uma trilha sonora sentimental e solene e de uma direção de arte artificiosa na sua recriação da atmosfera setentista. Ao invés de se contentar com tal visão asséptica, seria mais interessante que a obra de Corsini se deixasse contaminar pelo espírito desafiador do período focalizado e entregasse um resultado final mais espontâneo e contundente.
segunda-feira, agosto 22, 2016
São Paulo em Hi-Fi, de Lufe Steffen **
O grande problema do documentário “São Paulo em Hi-Fi”
(2013) não é muito difícil de resumir: a sua estrutura narrativa convencional e
excessivamente mecânica não se encontra em sintonia com a sua temática complexa
e irreverente. O diretor Lufe Stefren tinha uma matéria prima bastante rica
para construir uma obra memorável ao mostrar a trajetória das casas noturnas
gays da noite da capital paulista nas décadas de 60, 70 e 80 – depoimentos reveladores
e emocionados de entrevistados que vivenciaram o período em questão, imagens de
arquivo em profusão, temática bastante interessante. Ocorre que o espírito
libertário do assunto que aborda não contaminou sua concepção formal
excessivamente burocrática. A narrativa não consegue ter uma desenvoltura
efetivamente capaz de prender a atenção do espectador. O padrão de encadeamento
das cenas é cumprido com uma previsibilidade entediante: é sempre depoimento
seguido de filmagens de apresentações na época, por vezes entremeado com
algumas fotografias. Não há aquela narrativa dinâmica e ambientação apaixonada
de “Geraldinos” (2015) ou aquele lirismo libertário à flor-da-pele de “Yorimatã”
(2014). Faltou uma montagem mais criativa que combinasse todos esses elementos
de uma maneira ágil e ousada, em que a estética complementasse a atmosfera
mista de alegria, sordidez e nostalgia que emana da história contada. É claro
que para efeitos históricos “São Paulo em Hi-Fi” é até uma experiência válida
por retratar fatos um tanto obscuros para a grande maioria das pessoas. Como
experiência cinematográfica, entretanto, é frustrante por suas escolhas
artísticas bem comportadas.
sexta-feira, agosto 19, 2016
Mister Lonely, de Harmony Korine ***
O diretor Harmony Korine é uma espécie de cronista da
podridão da sociedade norte-americana. Seus filmes representam crônicas
distorcida do american way of life. Dentro de uma estética que privilegia o
estranho e o mau gosto, mas que esconde uma abordagem formal sofisticada e um
subtexto entre o poético e o libertário, destacam-se em sua filmografia pelo
menos duas obras extraordinárias: “Gummo” (1997) e “Spring Breakers” (2012). “Mister
Lonely” (2007) não atinge o mesmo grau de impacto artístico das produções
mencionadas, mas ainda assim é capaz de impressionar em algumas sequências pela
esquisitice de sua trama e força das imagens, mostrando que Korine tem uma
forte coerência autoral na forma com que expõe suas obsessões existenciais e
estéticas. Numa sociedade como a norte-americana/ocidental que tem uma certa
obsessão mórbida com celebridades mortas e/ou trágicas, faz todo sentido Korine
mostrar uma história composta basicamente por indivíduos que vivem de imitar
tais celebridades. A simbologia presente no roteiro é intrincada, e dentro de
uma narrativa fragmentada, parecem compor um painel onírico entre o
desconcertante e o desengonçado. Ainda que irregular como resultado final, “Mister
Lonely” é a prova de que Korine mesmo em seus momentos menos inspirados é um
diretor sempre capaz de surpreender, encantar e/ou perturbar sua plateia.
quinta-feira, agosto 18, 2016
Esquadrão Suicida, de David Ayer *
Lá pela primeira metade da década de 90, foi publicada no
Brasil a revista da Liga da Justiça que em seu mix apresentava a fase mais
marcante do Esquadrão Suicida, grupo de supervilões que trabalhavam para o
governo norte-americano em troca de abrandamento de suas penas. Nesse período,
as histórias eram escritas por John Ostrander e desenhadas por Luke McDowell,
mostrando uma ótima síntese entre ação empolgante e convincente caracterização
psicológica de personagens e situações. As principais figuras do grupo tinham
uma dimensão humana bem desenvolvida em suas complexidades, as tramas fugiam de
obviedades e se podia perceber uma atmosfera constante de sordidez e amargura
na narrativa gráfica. No filme “Esquadrão Suicida” (2016) se pode perceber
referências a essa fase áurea do grupo nas HQs, trazendo até em determinado
momento uma homenagem explícita para Ostrander, que tem o seu nome impresso nas
telas intitulando um edifício. Isso, entretanto, não consegue fazer com que a
obra dirigida por David Ayer seja uma produção digna de nota. Por vezes, até dá
para sentir que dentro de algumas concepções havia alguma ideia interessante,
principalmente no que diz respeito à ambiguidade do mote principal do roteiro
(vilões que devem agir como heróis) e no desenvolvimento de alguns personagens.
Tudo isso acaba enterrado em nome de hipócritas regras de mercado que servem para
amenizar o teor adulto e violento do conceito original e deixá-lo mais
palatável em termos comerciais para o grande público composto de geeks, nerds e
simples mortais. Não há uma efetiva tensão que envolva o espectador, a
narrativa é picotada, os personagens são rasos e desinteressantes, o roteiro é
superficial e não desenvolve à contento os personagens e situações, as
sequências de ação são burocráticas. Num contexto geral, é como se Ayer e seus assessores
tivessem incorporado tudo aquilo que deu certo em outros filmes de super-heróis
(a trilha sonora rock and roll/pop de “Guardiões da Galáxia”, a violência e
escrotidão de “Deadpool”, as piadinhas bestas de “Homem de Ferro”, a
ambientação sombria de “Batman – O cavaleiro das trevas”) e misturasse tudo sem
muitos critérios estéticos e temáticos como se isso por si só fosse garantia de
sucesso. É claro que apesar de todos esses equívocos “Esquadrão Suicida” fará
muito dinheiro, afinal, conta com uma invejável aparelhagem marqueteira. E pelo
menos saia algo de bom disso – talvez alguma editora brasileira se disponha a
lançar um encadernado com a já mencionada fase de ouro do Esquadrão Suicida da
dobradinha Ostrander/McDowell. Mas no geral, o que prevalece é a decepcionante sensação
de picaretagem gananciosa de outras adaptações cinematográficas recentes do
universo da DC Comics (“Superman – O Homem de aço” e “Batman versus Superman).
quarta-feira, agosto 17, 2016
Nahid - Amor e liberdade, de Ida Panahandeh ***
O formalismo adotado pela diretora Ida Panahandeh em “Nahid –
Amor e liberdade” (2014) é marcado pela sobriedade e simplicidade, não havendo
as inquietações estéticas de outros nomes do cinema iraniano Abbas Kiarostami e
Jafar Panahi. Por outro lado, essa abordagem da cineasta acaba se revelando
bastante adequada para a história narrada. Focando-se em um drama familiar que
se estende por questões sociais e religiosas inerentes ao Irã da atualidade, o
filme apresenta uma encenação precisa que dispensa truques melodramáticos,
fazendo com que a caraterização de situações e personagens tragam crueza e
complexidade necessárias para que a narrativa se torne envolvente para o
espectador. As questões intimistas e mesmo as típicas do cotidiano ganham uma
dimensão humana contundente, não caindo no banal. A forma com que Pananhandeh
conduz a narrativa dá à sua obra um alcance universal ao evidenciar os absurdos
e hipocrisias de uma sociedade patriarcal moralista e preconceituosa que não é “privilégio”
somente de países influenciados pela religião muçulmana.
terça-feira, agosto 16, 2016
Amor & amizade, de Whit Stillman **
Fazer um filme de época baseado em original literário de
Jane Austen não implica necessariamente numa obra mofada e careta. A versão de “Orgulho
e Preconceito” (2005) dirigida por Joe Wright, por exemplo, é um exemplar
expressivo de como traduzir um clássico literário para uma linguagem
cinematográfica moderna e que também preserva a essência do livro original. E “Amor
e amizade” é o caso típico em que essa transposição se torna frustrante. A
direção de Whit Stillman é desprovida de vida e criatividade – tudo soa tão
mecânico e artificial que o texto de Austen parece desprovido de sua habitual
argúcia e ironia. A própria atuação de Kate Beckinsale no papel da protagonista
Lady Susan Wernon é reflexo das equivocadas concepções artísticas da produção,
com a atriz limitando a sua interpretação a um eterno ar blasé que não traz
qualquer alteração de nuance dramática (demais membros do elenco se contentam
em ficar com uma expressão abobalhada durante toda a projeção). “Amor &
amizade” não chega a ser um desastre total e frustrante devido à qualidade da
história e dos diálogos originários do livro de Austen. Mesmo assim,
dificilmente o filme de Stillman consegue se prende ao imaginário do
espectador.
segunda-feira, agosto 15, 2016
De longe te observo, de Lorenzo Vigas Castes ***
O fato de ser uma produção venezuelana contemporânea não
passa em branco na concepção artística e temática de “De longe te observo”
(2015) – sua rigorosa e elegante estrutura narrativa é uma moldura adequada
para uma visão amarga sobre o conflito de classes dentro de uma sociedade
conturbada. A relação que se estabelece entre o protético homossexual de uma
burguesia endinheirada Armando (Alfredo Castro) e o jovem pobre e marginal
Elder (Luis Silva) é repleta de nuances e tem uma carga simbólica de uma
interação que envolve exploração, intolerância, revolta e indiferença. A
abordagem emocional e estética do diretor Lorenzo Vigas Castes não se rende a
facilidades melodramáticas, captando com expressiva fidelidade a complexidade
da relação entre os dois personagens principais. Além disso, sua encenação é
elaborada com precisão tanto na valorização de silêncios e gestuais quanto no
vigor contundente de algumas cenas (as sequências da festa de 15 anos e de sexo
entre os dois protagonistas são exemplares dessa característica). “De longe te
observo” só não atinge uma transcendência artística maior pela insistência, por
vezes, numa ultrapassada atmosfera dramática de culpa na forma com que retrata
a questão da homossexualidade de Armando, em que esse aspecto sempre é
relacionado a traumas não bem explicados em sua biografia pessoal. Nesse
sentido, por exemplo, falta um senso de autoironia que tornavam obras-primas
como “Morte em Veneza”(1971) e “Festa em
família” (1998), obras que também traziam tal matéria em suas tramas, filmes
melhores resolvidos em termos existenciais.
sexta-feira, agosto 12, 2016
O jogador, de Robert Altman ****
O diretor norte-americano Robert Altman foi responsável pela
realização de um número expressivo de títulos importantes na cinematografia de
seu país (“Mash”, “Quando os homens são homens”, “Nashville”, “Cerimônia de
casamento”, “Short Cuts”, entre outros). Apesar disso, seu relacionamento com
produtores e estúdios sempre foi conturbado, principalmente pelo fato de seu
gênio artístico nunca ter se adequado às exigências comerciais da indústria de
cinema de Hollywood. “O jogador” (1992) tem uma forte carga amorosa em relação
ao cinema como meio de expressão cultural, com direito a citações e referências
a clássicos (a sensacional abertura em plano-sequência, por exemplo, é
homenagem direta a recurso semelhante utilizado na obra-prima “A marca da
maldade”). Mas o que realmente prevalece é uma atmosfera cáustica de farsa a
satirizar a vulgaridade e o arrivismo de Hollywood. Nessa diatribe particular
de Altman, seu habitual e criativo senso narrativo está em ponto de bala, com o
cineasta construindo um painel formal e temático desconcertante, em que
metalinguagem irônica, paródia de cinema noir e sutil comicidade se entrelaçam
com uma naturalidade impressionante. Como cereja do bolo, no papel do
protagonista Griffin Mill, um produtor escroque e almofadinha, Tim Robbins tem
a interpretação de sua vida, combinando histeria e maquiavelismo nas medidas
exatas.
quinta-feira, agosto 11, 2016
The Beach Boys - Uma história de sucesso, de Bill Pohland ***1/2
O título “The Beach Boys – Uma história de sucesso” (2014) é
enganador em relação àquilo que representa o filme em questão. Não se trata de
uma obra que focaliza toda a trajetória dos Beach Boys – a trama se concentra
basicamente em dois momentos fundamentais da carreira do principal compositor
da banda, Brian Wilson. Na segunda metade dos anos 60, quando Wilson (Paul
Dano) se dedicou a compor, arranjar e gravar os mais complexos e influentes
discos da banda (os álbuns “Pet Sounds” e “Smile” e o single “Good Vibration”),
e nesse processo acabou entrando num progressivo processo de desintegração
mental; e em meados dos anos 80 quando ele (John Cusack) se encontrava sob os
cuidados e vigilância do tirânico psiquiatra Eugene Landy (Paul Giamatti). A
narrativa é convencional, por vezes beirando até o melodrama tradicional, mas o
fato do roteiro se concentrar em épocas bastante específicas permite uma
caracterização de personagens e situações muito mais rica em termos de
profundidade psicológica e densidade dramática. A parte musical é bastante
valorizada, sendo que os detalhes de gravações dos mencionados discos dos Beach
Boys são repletos de nuances musicais e detalhes informativos que são um prato
cheio para fãs das antigas e neófitos.
quarta-feira, agosto 10, 2016
Fome, de Cristiano Burlan ***1/2
Pode parecer em um primeiro momento que entre a rusticidade
formal do documentário “Mataram meu irmão” (2013) e a narrativa mais estilizada
do ficcional “Fome” (2014) haja uma grande distância. Em ambas as obras do
diretor Cristiano Burlan, entretanto, prevalece o mesmo sentido existencial e
estético, a da sensação de incômodo e contestação tanto em relação aos ditames
bem comportados do cinema comercial convencional quanto com as hipócritas regras
sociais e culturais do status quo político. Nessa obra mais recente, uma maior
sofisticação em termos de fotografia e edição não representa apenas um
refinamento visual – na verdade, amplia ainda mais o significado das concepções
artísticas e visão de mundo particulares de Burlan. É de se reparar, por
exemplo, em uma das primeiras sequências de “Fome” quando o protagonista
mendigo (Jean-Claude Bernardet) se espreguiça ao sol da manhã tendo ao fundo
uma majestosa igreja católica. É como se tal cena sugerisse um certo tom solene
e religioso, quando na verdade o que fica evidente é a indiferença da religião
instituída perante os reais desvalidos. O discurso da obra é de desconstrução
dos valores pequeno-burgueses e místicos da sociedade contemporânea ao mostrar
a trajetória do personagem principal que vagueia por uma metrópole opressiva e
nada acolhedora. Por mais que boa parte dos moradores de rua mostrem alguma
crença divina na sua recuperação ou redenção espiritual e moral, o cruel
desnudar dos mecanismos de preconceito e seleção da sociedade mostra que não há
possibilidade de qualquer mudança ou transformação. Nesse discreto épico entre
o intimista e o universal carregado de pessimismo e desilusão, Burlan sempre
deixa como marca indelével um humanismo contundente em que não há espaço para
maniqueísmos ou simplificações banais, compondo um mosaico de referências
diversas (citações culturais, toques oníricos, elementos documentais, encenação
naturalista e espontânea) que ganham coerência e unicidade impressionantes com
a sensibilidade e senso narrativo acurados do cineasta.
terça-feira, agosto 09, 2016
O caminho para Berlin, de Sergei Popov **
A trama do drama de guerra “O caminho para Berlin” (2015)
faz lembrar bastante o argumento do clássico de mesmo gênero “A glória de um
covarde” (1951). O foco principal dos roteiros de ambas as obras está na
trajetória de redenção de militares que diante de uma batalha se acovardam e
depois em outras oportunidades de combate acabam se redimindo perante os
companheiros e sua própria consciência. A perspectiva existencial dos dois
filmes é semelhante, buscando mais o viés humanista de questionamento dos
ideais de coragem e patriotismo do que exaltar o heroísmo e o nacionalismo. Em
seus resultados finais, entretanto, as produções se mostram bem destoantes.
Enquanto a obra-prima de John Huston era uma narrativa compacta, de
caracterização psicológica complexa e com memoráveis sequências de ação, o
filme mais recente do russo Sergei Popov traz uma concepção melodramática e
convencional em excesso, em que mesmo as cenas de violência trazem uma execução
sem maiores ousadias e brilho.
segunda-feira, agosto 08, 2016
Mostre a língua, moça, de Axelle Ropert ***
Em um primeiro plano narrativo, “Mostre a língua, moça”
(2012) aparenta ser um melodrama convencional, com uma trama centrada em um
triângulo amoroso envolvendo dois irmãos médicos e uma bela mãe solteira com
uma filha diabética. O que faz a real diferença nessa produção francesa
dirigida por Axelle Ropert para que ela se torne uma experiência
cinematográfica memorável é um formalismo atípico, num misto de rigor emocional
na caracterização psicológica de situações e personagens e encenação que evoca
uma estranha solenidade, quase como se fosse um filme de época. Alguns momentos
do roteiro e uma certa fluência da narrativa sugerem uma atmosfera de ironia,
ainda que um tanto amarga. Na tradição de uma linhagem do cinema francês, não é
um filme que invista num arrebatamento sensorial, mas sim numa contida e
coerente construção de suas figuras em cena, numa ambientação que sugere algo
como um velho conto de costumes e em uma particular e cerebral estética.
sexta-feira, agosto 05, 2016
A lenda de Tarzan, de David Yates ***
A essa altura do campeonato, talvez mais um filme trazendo a
figura de Tarzan como protagonista poderia parecer um tanto anacrônico. Diante
de algumas circunstâncias culturais e sociais contemporâneas, entretanto, esse “A
lenda de Tarzan” (2016) acaba ganhando inesperadas ressonâncias. O fato do
diretor David Yates ser o responsável por esse novo capítulo da saga do antigo
herói pulp é bem sintomático, pois o cineasta foi o realizador de alguns
episódios da franquia “Harry Potter” e nessa nova produção com Tarzan dá para
perceber que houve uma espécie de readequação do personagem dentro dos
preceitos formais e narrativos típicos das produções de aventura fantástica desse
século, tanto no uso expansivo de efeitos digitais quanto na profusão de
sequências alucinadas de ação. É claro que pelo uso de tais recursos por vezes
o filme soe um pouco derivativo (em alguns momentos, há a impressão de que
Tarzan está fazendo parte do cinematográfico universo Marvel), mas também é
fato que Yates apresenta uma direção segura no sentido de conseguir manter uma
tensão dramática efetiva, um cuidado visual expressivo e uma atmosfera de
violência e exotismo que garante interesse para o espectador. Também é curioso
como o subtexto político do roteiro, mostrando as desumanas práticas
colonialistas de países europeus no continente africano em séculos passados,
ganha uma sintonia contundente com o presente conturbado cenário sócio-político
mundial envolvendo terrorismo, racismo e xenofobia.
quinta-feira, agosto 04, 2016
Tudo sobre Vincent, de Thomas Salvador ***
A máxima do Homem-Aranha/Peter Parker, “com grandes poderes
vêm grandes responsabilidades”, na verdade é uma espécie de preceito
existencial para a grande maioria dos super-heróis ocidentais e que traz dentro
de si a função desse tipo de figura – a de contribuir para manter um status quo
sócio-político-econômico. Assim, quadrinhos e filmes no gênero vão trazer um
modelo padrão de trama e narrativa (origem em que o protagonista adquire seus
poderes e habilidades, tomada de consciência de seu papel na sociedade e ação
efetiva contra criminosos e outros tipos de transgressores). Dentro dessa
lógica, a produção francesa “Tudo sobre Vincent” (2014) representa uma saudável
e desconcertante exceção. No filme do diretor Thomas Salvador, o protagonista
Vincent (também interpretado por Salvador) é um pacato zé-ninguém que vive de
pequenos bicos no interior da França. Ao descobrir que adquire poderes de
superforça quando está molhado, simplesmente decide usar tais dons para
facilitar alguns trabalhos braçais e se divertir nadando sozinho em lagos e
rios, tendo o cuidado para que outras pessoas não saibam desse fato insólito
(com exceção da namorada). Não há desejos megalomaníacos de ser adorado ou
dominar o mundo, não existem supervilões ou grandes dilemas dramáticos que o
atormentem. Vincent quer apenas ter uma vida tranquila e sem preocupações. A
abordagem formal de “Tudo sobre Vincent” se mostra em sintonia com o espírito
franciscano do protagonista, prevalecendo uma concepção estética e nuances
emocionais sóbrias, não descambando para excessos épicos. Mesmo no terço final,
quando Vincent acaba involuntariamente expondo seus poderes e passa a ser
perseguido pelas autoridades, com direito inclusive a discretas cenas de ação, esse
estilo contido de narrativa é preservado, o que reforça ainda mais o caráter
humanista e desafiante da obra de Salvador.
quarta-feira, agosto 03, 2016
O bom gigante amigo, de Steven Spielberg ***1/2
Em um primeiro momento, pode-se pensar que “O bom gigante
amigo” (2016) represente uma espécie de volta para uma zona de conforto
criativa por parte de Steven Spielberg. Afinal, está dentro daquele gênero no qual
ele teve um reconhecimento artístico e comercial mais amplo, o da aventura
fantástica com toques sentimentais. Ainda assim, essa sua obra mais recente
mostra que o diretor é ainda capaz de surpreender sua plateia. O grafismo
expressivo e requintado dos efeitos digitais convivem de maneira harmoniosa com
um senso narrativo preciso, típico das melhores produções dirigidas por
Spielberg. Por vezes, o uso de tais trucagens é tão intenso que se tem a
impressão de se assistir a uma animação digital, mas o que vale mesmo é aquilo
que fica registrado no nosso imaginário, e nesse sentido “O bom gigante amigo”
traz algumas sequências antológicas, principalmente aquelas em que o protagonista
(Mark Rylance) corre entre o mundo real e àquele ao qual pertence. Spielberg
consegue extrair também uma interação cativante entre o personagem principal e
a garotinha Sophie (Ruby Barnhill), atingindo em determinados momentos uma
carga dramática convincente e encantadora. A caracterização dos gigantes oponente
de BGA é outro ponto forte da obra, conseguindo-se uma bela síntese entre o
assustador e o engraçado. Num contexto geral, é um filme que valoriza a
construção de uma atmosfera original e inquietante entre a fábula moral e a
galhofa grotesca que valoriza o roteiro de tons infantis, mostrando que
Spielberg está bem longe de apenas requentar clichês narrativos e temáticos.
segunda-feira, agosto 01, 2016
Geraldinos, de Pedro Asbeg e Renato Martins ***
O documentário “Geraldinos” (2015), em termos existenciais,
faz lembrar a produção norte-americana “A grande aposta” (2015) na leitura do
subtexto de suas respectivas tramas, no sentido de que ambas trazem à tona a
seguinte indagação: o que realmente move a sociedade contemporânea? A comparação
pode soar um tanto esdruxula, no sentido de que o filme brasileiro tem como
tema a paixão pelo futebol enquanto o trabalho dirigido por Adam McKay foca o
ambiente da especulação financeira e imobiliária. Mas na conclusão das duas
obras fica evidenciado que a verdadeira religião no mundo atual é o
capitalismo, pois é ele que motiva tanto que uma ala popular (e barata) do
Maracanã que abarcava milhares de torcedores humildes fosse destruída em nome
do lucro de algumas poucas corporações como a derrocada econômica de milhões de
trabalhadores para que alguns especuladores e rentistas faturassem alguns
milhões de dólares a mais. Esse discurso melancólico e raivoso de “Geraldinos”
é embalado por uma eficiente síntese formal que preserva a forte emotividade
inerente ao assunto e lhe dá uma dinâmica narrativa envolvente na sua
combinação de depoimentos (de torcedores, jornalistas, políticos e tecnocratas),
imagens de arquivos antológicas e mesmo uma “encenação” espontânea e vibrante
da rotina de personagens anônimos e folclóricos do mundo do futebol brasileiro,
com direito, inclusive, a uma sequência particularmente memorável: aquela que
mostra o ritual de preparação, de ida para o estádio e do ato de torcer de
torcedores “geraldinos” do Fluminense e do Flamengo no dia do último Fla-Flu
disputado no Maracanã antes da demolição da geral, tudo isso ao som de
afro-funk endiabrado do grupo Bixiga 70.
sexta-feira, julho 29, 2016
Muscle Shoals - Um lendário estúdio de rock, de Greg Camalier ***
O subtítulo nacional de “Muscle Shoals – Um lendário estúdio
de rock” (2013) é quase autoexplicativo em relação à obra em questão. É
impreciso, porém, porque o estúdio em questão abarcou outros gêneros musicais,
estendendo-se também para o pop, o reggae e, principalmente, para o rhythm and
blues e o soul. Nesses últimos gêneros, aliás, revela um dado curioso e
fascinante – o fato de que a grande maioria dos músicos de apoio que fizeram
algumas das bases rítmicas mais balançantes e memoráveis da cancioneiro
norte-americano eram brancos! O documentário se concentra em dois itens
básicos: é bastante informativo e revela imagens de arquivos preciosas. Além, é
claro, de mostrar algumas das gravações mais emblemáticas que o estúdio
produziu. A mitologia do rock, do rhythm and blues e do soul apresenta muitos
casos de figuras obscuras que foram responsáveis por vários momentos
antológicos em álbuns e compactos, mas que ficaram relegados em notas de
rodapés por não serem figuras carismáticas ou chamativas. Nesse sentido, “Muscle
Shoals” consegue trazer à tona alguns desses importantes músicos, mostrando
suas biografias atribuladas e a importância que tiveram na concretização do
imaginário musical norte-americano das últimas décadas, o que faz dessa
produção um programa obrigatório tanto para aficionados de primeira hora quanto
para neófitos.
quinta-feira, julho 28, 2016
Ricky, de François Ozon ***
O diretor François Ozon tem se mostrado como uma espécie de
cronista/cineasta dos costumes da sociedade francesa nesses últimos anos,
conseguindo por vezes revelar alguma inventividade em termos temáticos e
formais. Em “Ricky” (2009), o cineasta consegue obter uma interessante síntese
narrativa ao combinar drama realista e uma ambientação fabular. Dá para dizer
que na metade inicial do filme se tem uma áspera atmosfera naturalista ao
mostrar o relacionamento entre um homem e mulher que trabalham como operários
numa fábrica, mostrando o cotidiano duro da classe média baixa na França. Na
segunda metade da narrativa, entretanto, a produção envereda aos poucos e com
sutileza para o universo fantástico, quando Ricky, o filho nascido da união
entre os protagonistas, se revela um ser alado. Ao contrário de uma obra
norte-americana no gênero fantasia de um grande estúdio, a história não se
vincula à aventura ou ação, ganhando mais um caráter reflexivo e simbólico em
relação à figura do bebê voador. É na forma como o fato inusitado em questão
afeta o cotidiano e mesmo o equilíbrio existencial e psicológico da família que
reside o estranho encanto de “Ricky”, revelando uma dimensão humanista
fascinante.
quarta-feira, julho 27, 2016
O ajudante de satã, de Jeff Lieberman ***
Para quem está cansado das fórmulas assépticas da maioria
das produções de horror que aparecem nos últimos anos no cinema, talvez dar uma
garimpada em locadoras de DVDs ou mesmo pela internet possa ser uma saudável
solução. Nessa procura, vale à pena dar uma conferida em “O ajudante de satã”
(2004). O filme está longe de ser uma obra-prima e os recursos de produção são
limitados. É inegável também, entretanto, que o diretor Jeff Lieberman tem criatividade
e competência suficientes para entregar uma obra perturbadora e divertida. O
roteiro é repleto de situações com combinam com naturalidade tensão e ironia,
há uma atmosfera constante de sordidez, o grafismo das sequências de violência
e escatologia impressiona pelo seu detalhismo brutal. O resultado final dessas
boas sacadas narrativas é um memorável conto de horror perverso e sardônico, e
por vezes até surpreendente nas soluções de sua trama que fogem dos moralismos
fáceis.
terça-feira, julho 26, 2016
Dois caras legais, de Shane Black ****
Tudo é meio esquisito em “Dois caras legais” (2016).
Tentando encaixar as coisas num conceito aproximado mais fácil de entender,
seria algo como se um típico filme de ação dos anos 80 dirigido por Tony Scott,
Richard Donner ou John McTiernan tivesse uma trama ambientada numa estilizada
segunda metade da década de 70, pontuada por uma atmosfera cômica que transitasse
entre sutis tiradas bem humoradas nos diálogos e sequências de pura violência
cartunesca, além de um desconcertante subtexto niilista no roteiro. As
lembranças de cineastas casca-grossa oitentistas não vem ao acaso, pois o
diretor Shane Black foi roteirista de obras emblemáticas do gênero como “Máquina
mortífera” (1987), “O último boy-scout” (1991) e “O último grande herói” (1993).
Dentro dessa estranha fórmula, o próprio Black já havia elaborado tal síntese
no ótimo “Beijos e tiros” (2005). Mas em “Dois caras legais” ele avança para um
outro patamar em suas particulares concepções formais e temáticas. Saltam aos
olhos o grafismo alucinado e muito bem executado de coreografias de
pancadarias, tiroteios e perseguições – logo na sequência de abertura, há um
acidente automobilístico que chega a ser poético na sua mistura de ironia e
brutalidade. Ou seja, um bálsamo para os olhos já cansados das picaretagens
digitais dos “Velozes e furiosos” da vida ou mesmo das produções do “visionário”
Zack Snyder. Mas mais fascinante ainda na obra de Black é como essa ação
frenética se encaixa dentro de um extraordinário trabalho de direção de arte na
recriação da estética setentista e num roteiro repleto de inesperadas nuances
existenciais e que até mesmo questiona os moralismos do gênero cinematográfico
em questão. Diante de uma sociedade marcada pela corrupção inerente do poder
político e econômico dominante, em que a única possibilidade de desmascarar uma
grande corporação poluidora seja denunciá-la através de um filme pornô, para o
detetive Holland March (Ryan Gosling) parece coerente enveredar por um método caótico
de investigação em que é natural ficar constantemente bêbado, enganar senhoras,
atirar-se de ribanceiras, dormir ao volante com o carro em movimento,
interrogar pseudo-sereias em aquários gigantes e mesmo levar a filha menor de
idade em suas andanças em busca de pistas. Ainda mais inesperado, entretanto,
que essa lógica se configure como a possibilidade de redenção moral para brutal
caçador de recompensas Jackson Healy (Russell Crowe). É notável como Shane
Black consegue em “Dois caras legais” formatar todos esses elementos diversos e
excentricidades dentro de uma narrativa coesa e fluida, capaz tanto de divertir
o espectador quanto de deixá-lo ao final do filme perturbado pela sua atmosfera
entre o melancólico e o sardônico.
segunda-feira, julho 25, 2016
Mãe só há uma, de Anna Muylaert ****
Tudo aquilo que era
insinuado, difuso ou excessivo em “Que horas ela volta?” (2015), o filme
anterior da diretora Anna Muylaert, se concretiza de forma clara e precisa em seu
longa-metragem mais recente, “Mãe só há uma” (2016). A partir de um roteiro enxuto
e de uma narrativa concisa, a cineasta faz um demolidor inventário
sócio-intimista da sociedade brasileira contemporânea. A abordagem emocional e
formal de uma trama que abarca a sexualidade na adolescência e os preconceitos
de classe foge de estereótipos, maniqueísmos e demais facilidades – o filme de
Muylaert transpira ao mesmo tempo raiva e sensibilidade extremas, com a
diretora recorrendo a truques narrativos simples e eficazes. É de se reparar,
por exemplo, como ela contrapõe a encenação fluida e
naturalista do mundo de sexo, drogas e rock and roll que envolve o garoto
Pierre (Naomi Nero) com a pesada ambientação caricata e opressora da sua
família biológica que o acolhe/sequestra. Muylaert ainda se permite recursos
inusitados, que beiram o surreal, como o fato do papel da mãe biológica de
Pierre ser interpretado pela mesma atriz (Dani Nefussi) que também atua como a
mãe adotiva que o sequestrou quando bebê, evocando uma jogada narrativa de
Buñuel em “Esse obscuro objeto de desejo” (1977) – por coincidência, Almodóvar
fez algo parecido no recente “Julieta” (2016). Na realidade, tal recurso
narrativo reforça aquele que talvez seja o grande ponto chave existencial de “Mãe
é só uma” – a ambiguidade, que se reflete tanto na sexualidade livre de Pierre
quanto no questionamento sobre a moralidade hipócrita de uma sociedade que se apega
de maneira ferrenha a leis frias e costumes tacanhos em oposição a uma
perspectiva mais humanista sobre a vida.
sexta-feira, julho 22, 2016
Lugares escuros, de Gilles Paquet-Brenner ***
É provável que aqueles que apreciaram o extraordinário “Garota
exemplar” (2014) de David Fincher possam ficar curiosos com “Lugares escuros”
(2015), pois ambos os filmes se baseiam em romances da escritora Gillian Flynn.
No caso da versão de Fincher, entretanto, a força da obra se residia no
tratamento formal rebuscado e na atmosfera irônica com que o diretor envolvia
uma trama repleta de clichês novelescos e absurdos. Já na concepção artística
de “Lugares escuros”, o diretor Gilles Paquet Brenner está bem distante do
gênio estético de Fincher, fazendo com que a sua produção enverede por uma
narrativa bem mais tradicional e se conforme a reproduzir as viradas rocambolescas
do roteiro. Ainda assim, consegue manter uma tensão e um clima sombrio
envolventes, com direito inclusive a uma visão bastante sardônica da atração da
sociedade ocidental pelo sensacionalismo macabro de assassinatos e demais casos
escabrosos. Há uma certa ambientação de influências góticas que relaciona com
alguma criatividade os truques habituais do gênero suspense e uma temática de
teor naturalista que evoca com discrição questões sociais e econômicas. Pena
que a conclusão da trama peque pelo excessivo apego às convenções desse tipo de
produção.
quinta-feira, julho 21, 2016
Caça-fantasmas, de Paul Feig **1/2
Antes de mais nada, é bom deixar claro que essa nova versão
de “Caça-fantasmas” (2016) está longe de ser um manifesto feminista. Não que a
questão do gênero das protagonistas não tenha um peso importante no remake,
pois algumas das nuances na construção das situações e personagens da trama
passam por um viés feminino. Aliás, é responsável justamente pelos pontos mais
interessantes do filme – as quatro atrizes protagonistas são bastante convincentes
e carismáticas, além da bela sacada do roteiro da relação que se estabelece
entre elas e o secretário-burro-sexy Kevin (Chris Hemwworth, numa atuação
cômica surpreendente). Tirando tais aspectos, o remake dirigido por Paul Feig é
muito mais representativo de uma tendência do cinema de aventura contemporâneo,
em que o abuso de efeitos especiais e uma narrativa frenética deixa tudo com
uma certa atmosfera histriônica e pouco imaginativa. Mesmo o fato de procurar
fazer uma paródia dos clichês do cinema de horror moderno acaba soando um tanto
redundante pela constatação de que boa parte das produções do gênero na
atualidade já parece uma caricatura. Assim, ao invés do charme ingênuo e
bem-humorado do filme original de 1984, o espectador fica com a sensação de uma
obra genérica e pouco memorável.
quarta-feira, julho 20, 2016
Ralé, de Helena Ignêz ***
Em sua filmografia como diretora, Helena Ignêz tem se
mostrado como uma espécie de herdeira existencial de Rogério Sganzerla. Se “Luz
nas trevas” (2010) era uma continuação declarada de “O bandido da luz vermelha”
(1968), em sua obra mais recente, “Ralé” (2015), ela cita diretamente outras
duas obras emblemáticas do genial cineasta underground, “Copacabana Mon Amour”
e “Sem essa, Aranha”, ambas de 1970. Tais citações, entretanto, não se limitam
apenas a uma homenagem. Elas se inserem dentro de um espectro maior nessa
produção que se configura como um filme-ensaio de Ignêz, em que dentro de uma
trama fragmentada e metalinguística a cineasta dá vazão a suas obsessões
estéticas e temáticas, num conceito de cinema em que a narrativa tradicional e
outros aspectos da linguagem cinematográfica clássica se relativizam. Nessa
estranha e experimental concepção artística, elementos de outras artes como o
teatro, a literatura e a música se inserem com naturalidade. Além disso,
permeia a obra um discurso político, ecológico, cultural e mesmo sexual que
serve como uma declaração de princípios da diretora, o que faz com que por
vezes o filme pareça um tanto ingênuo no seu texto e encenação. Ainda assim, o
que predomina em “Ralé” é uma atmosfera delirante e libertária, e que prende o
espectador pela sensualidade e fluidez da interação de seu elenco e pelo
descompromisso com o formalismo realista, fazendo com que a pungência e
humanismo de algumas sequências antológicas, com destaque para a cena em que
Barão (Ney Matogrosso) e seu marido banham e limpam um idoso músico (José Celso
Martinez Correa), causem um misto de perturbação de encantamento.
terça-feira, julho 19, 2016
Julieta, de Pedro Almodóvar ****
Quando o nome do diretor espanhol Pedro Almodóvar surgiu no
panorama do cinema mundial, ali entre o final da década 70 e início dos anos
80, havia um forte caráter emblemático na sua arte e na sua própria figura.
Afinal ainda eram os primeiros anos após longas décadas da ditadura franquista
na Espanha, marcada pela repressão política, cultural e moral, e os primeiros
filmes de Almodóvar, divertidos e anárquicos, representavam um desafogo desse
período sombrio de seu país. Agora corte para o corrente ano de 2016: há uma
Europa tomada por conflitos políticos e culturais envolvendo xenofobia,
moralismos e demais discursos de uma direita profundamente reacionária e
preconceituosa. Nesse contexto histórico bem diferente daquele em que despontou
inicialmente, Almodóvar entrega uma obra que demonstra uma sintonia contundente
com os tempos conturbados que vivemos. “Julieta” (2016) é uma libertária
declaração de princípios que vem formatada numa estrutura narrativa que combina
melodrama clássico e trejeitos de cinema noir, síntese estética essa que já
havia sido trabalhada da maneira extraordinária em “A má educação” (2003) e “A
pele que habito” (2011). No universo autoral de Almodóvar, sempre predomina uma
tênue fronteira entre a elegância formal e uma abordagem sentimental
despudorada, em que a tensão entre esses limites é o que torna as narrativas
arrebatadoras. Em “Julieta” isso não é diferente, só que os detalhes
rocambolescos do roteiro e a pungente encenação ganham um significado ainda
mais complexo. Em meio a uma trama que envolve conflitos familiares, sexo e
morte, há nuances na caracterização de personagens e situações que apresentam
uma simbologia desconcertante, em que a protagonista Julieta (Emma
Suárez/Adriana Ugarte) representa o humanismo e o conhecimento assediados pela
repressão moral e religiosa da doméstica Marian (Rossy de Palma) e da própria filha
Antía (Blanca Parés). É fascinante como os desdobramentos dessa história se
apresentam de maneira apenas insinuada, fazendo com que muitas das ações mais
importantes se manifestem no imaginário do próprio espectador, num exercício
memorável de sutileza narrativa, com direito, inclusive, a citações da
obra-prima “Esse obscuro objeto de desejo” (1977), o genial canto do cisne de
Luis Buñuel.
segunda-feira, julho 18, 2016
Florence: Quem é essa mulher?, de Stephen Frears **1/2
Nas décadas 1980 e 1990, o diretor britânico Stephen Frears
se mostrou como um dos mais versáteis e talentosos nomes do cinema mundial.
Ofereceu uma nova perspectiva para o gênero policial em “The Hit” (1984) e “Os
imorais” (1990), dirigiu dramas naturalistas memoráveis como “Minha adorável
lavanderia” (1985) e “O amor não tem sexo” (1987), fez comédias agridoces
notáveis como “Herói por acidente” (1992) e “A grande família” (1993). Nas
últimas décadas, entretanto, acabou entrando num decepcionante comodismo criativo,
enveredando por obras acadêmicas e previsíveis que por vezes até rendem algumas
indicações ao Oscar, mas que estão longe de colar no imaginário
cinematográfico, vide produções como “A rainha” (2006) ou “Philomena” (2013). “Florence:
Quem é essa mulher?” (2016) mostra que Frears continua nesse marasmo. A
história real da personagem título até tem uma conotação interessante pela
carga simbólica de revelar as hipocrisias sociais e culturais do circuito
artístico da Nova Iorque dos anos 40. Mas o tratamento que Frears dá para
narrativa é tão mecânico e superficial que poucas vezes o filme chega perto de
causar alguma empolgação. É claro que dá para perceber boa parte da habitual
elegância formal do cineasta, principalmente na sequência em que St. Clair
(Hugh Grant) dá uma festinha regada a jazz e álcool em seu apartamento. Além
disso, há a ótima atuação de Nina Arianda fazendo com que a sua personagem
coadjuvante Agnes Stark sempre roube a cena quando aparece na tela. Mas esses
eventuais rasgos positivos acabam sendo muito pouco para alguém com uma
filmografia tão expressiva quanto Frears.
sexta-feira, julho 15, 2016
Que viva Eisenstein!, de Peter Greenaway ****
Com o passar dos anos, o diretor britânico Peter Greenaway
se mostra cada vez mais insatisfeito com os rumos contemporâneos da linguagem
cinematográfica. Isso fica evidente tanto em suas declarações como nos seus filmes.
Nesse último caso, “Que viva Eisenstein!” (2015) é um atestado enfático de suas
inquietações artísticas. Para começar, Greenaway usa como protagonista aquele
cineasta que talvez seja o nome-chave na consolidação do cinema como expressão
artística própria – o russo Sergei Eisenstein, que em obras-primas como “O
encouraçado Potemkin” (1925) e “Outubro” (1928) estabeleceu um estilo de
filmagem e edição que se tornou referência fundamental para a narrativa e a
estética cinematográficas. O foco principal do roteiro se concentra no período
em que Eisenstein esteve no México para realizar “Que viva México!”, obra que
resultou inacabada. Só que o fato de usar figuras e situações “reais” não
significa necessariamente que Greenaway tenha se vinculados aos moldes
convencionais de uma cinebiografia. Na verdade, o diretor usa a perspectiva
histórica como um elemento a mais dentro de uma concepção de cinema que se
interliga com outros meios culturais (teatro, pintura, literatura,
antropologia, tecnologia). Essa concepção multimídia do que seria um filme
recebe um trato formal que prima pela coerência e o rigor sem que se perca o
seu caráter libertário artístico. Greenaway não se limita apenas a reproduzir
fatos históricos. O que ele faz é jogar o espectador dentro da mente
fervilhante de criatividade e ávida por experiências e conhecimento de
Eisenstein. Para isso, emula o estilo de montagem característico do seu
biografado, intercala com trechos documentais e de sequências de alguns dos
trabalhos mais célebres de Eisenstein e conecta tudo com a encenação virtuosa e
repleta de nuances simbólicas que são típicas do próprio Greenaway. Esse choque
de truques e recursos diversos resulta em um mosaico narrativo erudito e
fascinante, que relaciona de maneira intrínseca arte, política, história, poder
e sexo.
quinta-feira, julho 14, 2016
Ave, César!, de Ethan e Joel Coen ****
A filmografia dos irmãos Coen remete a uma espécie de
inventário do imaginário cultural-histórico dos Estados Unidos, em que as
produções que compõem esse conjunto fílmico sugerem se comunicar de maneira
sofisticada e coerente. “Ave, César!” (2016) não foge da tradição desse
particular projeto cinematográfico. Os roteiristas comunistas que sequestram o
astro canastrão Baird Whitlock (George Clooney) parecem parceiros de copo e
debates do dramaturgo enredado pelos ditames de Hollywood em “Barton Fink”
(1991). Já a narrativa e o formalismo fortemente estilizados e de tons retrô demonstram
sintonia com semelhante linha artística proposta em “A roda da fortuna” (1994).
Mesmo a ambientação noturna em que o protagonista Edward Mannix (Josh Brolin)
se embrenha em alguns momentos se liga às influências do noir que já haviam
sidos recriadas de forma extraordinária em “Gosto de sangue” (1984) e “O homem
que não estava lá” (2001). E o teor alucinado das antigas comédias amalucadas
da primeira metade do século XX também guardam conexão com “Arizona nunca mais”
(1986) e “Queime depois de ler” (2008). É de se deixar claro, entretanto, que
“Ave, César!” não se trata de mera reciclagem de ideias e referências. Os
irmãos Coen pegam suas tradicionais obsessões estéticas e temáticas e as
remodelam sob uma perspectiva ainda mais madura e idiossincrática. No ambiente
fictício de filmagens de produções nos estúdios da Capitol Pictures, os gêneros
cinematográficos mais emblemáticos dos anos 40 e 50 (bíblico, faroeste,
musical, melodrama) são recriados em engenhosos pastiches, mas essa
caracterização exagerada de situações e personagens se expande para aquilo que
seria o universo “real” do roteiro, onde o produtor Mannix tem de lidar com um
cotidiano disfuncional de astros tendo chiliques, diretores querendo ver
prevalecer suas ideias artísticas, problemas familiares, ofertas de emprego e
mesmo uma conspiração comunista. Nesse jogo que beira o metalinguístico no
choque entre a fantasia e a realidade, os Coen destilam perversa ironia não só
contra o Star System dos grandes estúdios, mas também contra o ideário moral e
os medos do norte-americano médio. Para isso, valem-se de um formalismo de
registro entre o operístico e o delirante, de uma encenação precisa e do elenco
com algumas atuações maneiristas antológicas (destaque para Alden Ehrenreich como
um boa praça e hilário astro de faroestes). Ou seja, é como se estivéssemos
diante de uma insólita e desconcertante síntese entre Howard Hawks e Fellini.
quarta-feira, julho 13, 2016
Procurando Dory, de Andrew Stanton e Angus MacLane ***
Em se tratando de animações originárias do estúdio Pixar,
sempre dá para esperar um padrão de qualidade diferenciado – um grafismo
requintado na combinação de realismo e estilização, narrativas que permitem o
entrecruzamento fluente entre toques cômicos e leve dramaticidade (por vezes,
até beirando o efetivamente sombrio), roteiros bem delineados e com personagens
de caracterização carismática. Em “Procurando Dory” (2016), estão presentes todos
esses preceitos, resultando numa obra divertida e envolvente (ainda que boa
parte do terço final soe um tanto histérico e desnecessário). É evidente
também, entretanto, que o filme não vai muito além disso, soando como uma
variação competente e sem maiores ousadias de “Procurando Nemo” (2003), podendo
soar frustrante para quem esperava algo mais transcendente na linha dos
extraordinários “Os incríveis” (2004) e “Wall-E” (2008). Parece que depois do
fiasco comercial que foi o brilhante e alucinado “John Carter: Entre dois
mundos” (2012) o diretor Andrew Stanton preferiu apostar numa fórmula artística
segura. Ou seja, no cômputo geral, “Procurando Dory” é diversão garantida, mas
dessa vez quem leva a melhor como animação mais impactante da temporada é a Disney
com “Zootopia”.
terça-feira, julho 12, 2016
Janis: Little girl blue, de Amy Berg ***
Há um fato bastante emblemático na vida da cantora
norte-americana Janis Joplin no qual o documentário “Janis: Little girl blue”
(2015), que trata da trajetória pessoal e artística de sua protagonista, se
detém com bastante ênfase: o fato dela no auge do seu sucesso ter “demitido” a
sua banda Big Brother and The Holding Company pelo motivo do grupo não ser o “profissional”
suficiente para acompanha-la numa fase de sua carreira onde as expectativas
seriam maiores. Na visão do filme, e de muitos apreciadores de rock, tal decisão
da cantora foi equivocada pelo fato da Big Brohter ter sempre apresentado a
sintonia artística e existencial ideal com Joplin. Após esse rompimento, a
cantora nunca mais teria apresentado a mesma intensidade em seu trabalho e teve
uma derrocada considerável em sua vida particular que acabou culminando numa
overdose fatal de heroína. Tal teoria encontra uma ressonância simbólica na
própria relação entre o documentário em questão e a sua biografada. Ainda que
respeitável na sua combinação de farto material de arquivo entre preciosas
imagens de apresentações de Joplin e depoimentos reveladores de parentes,
amigos e parceiros de música, a produção dirigida por Amy Berg é de um
formalismo correto e sem maiores ousadias, bem ao contrário da arte esfuziante
e visceral de Joplin, um misto azeitado e muito particular de blues, rock e
soul. Falta aquela centelha criativa que Martin Scorsese mostrou com
brilhantismo em obras-primas como “O último concerto de rock” (1978) e “Bob
Dylan: No direction home”. Ainda assim, “Janis: Little girl blue” não deixa de ser
um retrato interessante tanto sobre uma artista fundamental do século XX como
dos fascinantes e conturbados anos 60.
segunda-feira, julho 11, 2016
Certo agora, errado antes, de Sang-soo Hong ***1/2
Se em “A visitante francesa” (2012) o diretor coreano
Sang-soo Hong dividia a narrativa em múltiplas frentes para oferecer diferentes
perspectivas sobre a mesma trama, em “Certo agora, errado antes” (2015) ele
aprofunda a sua particular concepção artística. Num primeiro momento, as duas
metades que compõem o roteiro do filme parecem oferecer as visões diferentes
sobre os mesmos fatos dos dois protagonistas, um homem maduro e uma jovem que
entram num jogo de flertes e sedução. Aos poucos, entretanto, esse jogo
narrativo vai se mostrando cada vez mais complexo e fascinante. O contraponto
que se faz entre as duas diferentes narrativas adquire significados diversos e
que mesmo na conclusão do filme não deixa claro qual seria a intenção real da
relação que se estabelece entre as histórias. Assim, entra também em cena os
desejos dos personagens (poderia a segunda metade ser uma espécie de projeção
mais idealizada do que deveria ter sido a primeira?), a subjetividade do olhar
(na narrativa final são mostrados os detalhes cênicos e textuais que escaparam
na primeira visão), as diferenças na construção da atmosfera da obra (se na
primeira parte predomina uma ambientação mais contida, na segunda se adota um
tom de comicidade discreta que por vezes até beira o fabular). Ainda dentro desse
processo sutil de desconstrução da narrativa, o cineasta adota um insólito
estilo de filmar que evoca a fronteira entre o documental e o registro caseiro,
o que acentua ainda mais o estranho encanto da produção.
sexta-feira, julho 08, 2016
Kaos, de Paolo e Vittorio Taviani ****
O cinema dos irmãos Taviani sempre manteve uma forte ligação
com a literatura. “Kaos” (2013) representa um dos grandes pontos altos dessa
relação. Adaptando contos escritos por Luigi Pirandello, os cineastas extraem
uma síntese narrativa extraordinária e uma forte coesão artística. A ligação
que se dá entre os episódios é quase tênue em termos textuais, mas a atmosfera
é sempre a mesma, uma estranha e encantadora combinação de encenação
naturalista e ambientação fantástica, algo como se a tradição do neorrealismo italiano
passasse por um filtro estético muito particular, por vezes com a impressão de um
delírio onírico filmado com traços documentais. Não se trata apenas de transpor
um texto literário para um âmbito imagético, mas também de o recriar a partir
de uma linguagem nova, a um ponto que essa ligação se torne intrínseca. Assim,
a majestosa direção de fotografia e encenação repleta de nuances dramáticas e
cômicas consegue traduzir toda aquela gama de sentimentos e sensações atávicos
e místicos das histórias de Pirandello dentro de uma experiência audiovisual
que cola no imaginário do espectador como se fosse uma velha lenda.
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