A vida da intelectual russa Lou Andreas-Salomé teria tudo
para render uma cinebiografia interessante, configurando uma explosiva síntese
de feminismo, filosofia, psicanálise, erotismo e crítica sócio-comportamental
tendo como cenário principal o complexo contexto histórico da Europa do final
do século XIX e primeira metade do século XX. “Lou” (2016), entretanto, padece
dos mesmos equívocos artísticos de “O jovem Karl Marx” (2017) – o tratamento
narrativo conservador e previsível está bastante distante da ousadia artística
e existencial de sua protagonista. O roteiro se contenta a uma formatação
folhetinesca, reduzindo os principais dilemas e contradições que envolviam a
figura de Andreas-Salomé a banais conflitos melodramáticos, além de retratar de
forma simplória personagens históricos fundamentais para a cultura ocidental
como Freud, Nietzsche e Rilke. O formalismo
concebido pela diretora Kordula Kablitz-Post envereda pela mesma abordagem
destituída de originalidade e vigor, resumindo-se a truques estéticos
desajeitados e recursos narrativos executados de maneira mecânica. Dentro desse
sofrível conjunto artístico, neófitos podem ficar com a impressão de que todas
as importantes personalidades que aparecem ao longo da narrativa do filme,
inclusive a própria Lou, não passavam de adoráveis e apatetadas figuras
excêntricas.
Boa parte de amigos e conhecidos costuma dizer que as minhas recomendações para filmes funcionam ao contrário: quando eu digo que o filme é bom é porque na realidade ele é uma bomba, e vice-versa. Aí a explicação para o nome do blog... A minha intenção nesse espaço é falar sobre qualquer tipo de filme: bons e ruins, novos ou antigos, blockbusters ou obscuridades. Cotações: 0 a 4 estrelas.
segunda-feira, janeiro 15, 2018
sexta-feira, janeiro 12, 2018
O jovem Karl Marx, de Raoul Peck **
Em tempos de domínio político de ideias fascistas e
reacionárias, um filme como “O jovem Karl Marx” (2017) tem uma função cultural
e humanista bastante relevante. Há um cuidado nessa produção dirigida por Raoul
Peck em expor alguns dos principais fundamentos das teorias marxistas sócio-econômicas
de maneira mais direta e acessível, sem um excessivo verniz acadêmico, além de
contextualizar com alguma fidelidade histórica todo o contexto em que o
protagonista do filme estava inserido ao criar alguns dos seus textos mais
importantes. Peck também teve uma boa sacada ao colocar nos créditos finais
cenas documentais de fundamentais fatos que marcaram os séculos XX e XXI, evidenciando
como as ideias de Marx ainda têm forte ressonância nos dias atuais. O problema
dessa cinebiografia, entretanto, é que sua formatação artística está bem
distante do espírito libertário e de profundidade analítica que eram
característicos de seu principal personagem. O filme se vincula a estética e
narrativa excessivamente convencionais, dando a impressão em diversos momentos
para o espectador de que está vendo algum telefilme careta qualquer, na linha
dessas assépticas e derivativas minisséries globais. Até dá para entender que
essa linha artística conservadora adotada tenha por intenção tornar a obra mais
atraente para um grande público, vide ainda a caracterização idealizada da
figura de Marx no filme. É de se convir também, todavia, que tal opção da
produção lhe tira muito em termos de contundência formal e temática,
deixando-lhe léguas de distância de obras-primas do cinema político panfletário
como “O encouraçado Potenkim” (1925) ou “A batalha de Argel” (1966).
quinta-feira, janeiro 11, 2018
O código, de Boaz Yakin ***
Jason Statham é uma espécie de Stallone ou Schwarzenegger sem o teor megalomaníaco e com a
vantagem que atua melhor em termos dramáticos (mesmo que ele não se importe
muito com isso). Para ele, não interessa que na grande maioria dos seus filmes
interprete basicamente o mesmo papel – o anti-herói durão e de poucas palavras,
que no fundo é um cara legal, que sempre é levado pelas circunstâncias a
distribuir porradas ou sair a mil por hora em um carrão envenenado. Em algumas
dessas produções, o resultado final fica no medíocre ou qualquer nota, mas em
outros trabalhos até que as coisas fluem de maneira envolvente. Nesse último
caso é que dá para enquadrar “O código” (2012). O roteiro prima por premissas inverossímeis
que beiram a cretinice, mas a narrativa e a encenação concebidas pelo diretor
Boaz Yakin têm desenvoltura convincente, com o detalhe ainda sempre expressivo
de sequências de ação bem dirigidas – não custa repetir: em tempos em que Zack
Snyder é referência no gênero aventura/ação, ver cenas de lutas e perseguições
bem coreografadas no modelo tradicional acaba sendo um alento. No mais, Statham
consegue dar um certa consistência psicológica para o seu personagem sem abrir
mão da sua brutalidade habitual.
segunda-feira, janeiro 08, 2018
The square - A arte da discórdia, de Ruben Östlund ***
Apesar de sua trama se concentrar na figura do protagonista
Christian (Claes Bang), a narrativa de “The square – A arte da discórdia”
(2017) tem algo de fragmentada, com as situações do roteiro se sucedendo quase
de forma episódica, por vezes beirando uma espécie de anedotário dos absurdos e
ridículos da sociedade europeia do século XXI. A própria configuração
psicológica do personagem principal obedece a um direcionamento que sintetiza
simbolismo e caricatura – ele é o protótipo do macho branco ocidental
civilizado que por trás de uma máscara de gentileza e erudição esconde
mesquinharias e preconceitos. Nessa levada, a proposta artística-existencial do
filme dirigido por Ruben Östlund fica embretada entre uma forte veia irônica e
um viés humanista, com uma trama que se pretende a retratar os principais
dilemas políticos, sociais e culturais da Europa contemporânea. Por vezes, a
pretensão do cineasta cai em obviedades e simplificações excessivas,
principalmente na forma jocosa e conservadora com que expõe sua visão sobre as
artes plásticas e conceituais dos últimos anos. Nesse sentido, por exemplo, o
extraordinário romance “O mapa e o território” de Michel Houellebecq apresenta
um subtexto mais lúcido e aprofundado sobre o papel da arte no mundo atual. “The
square” tem seus momentos mais memoráveis quando abdica do seu tom discursivo e
embarca numa abordagem mais delirante e nebulosa, vide a antológica sequência
em que um artista emula o comportamento de um selvagem pré-histórico em um refinado
jantar para um público refinado e endinheirado, em um enlouquecido happening
levado às últimas consequências.
sexta-feira, janeiro 05, 2018
Roda gigante, de Woody Allen **1/2
Os primeiros minutos de “Roda gigante” (2017) são bastante
promissores, principalmente pelo fato de ficarem mais em evidência a belíssima fotografia
de Vittorio Storaro e uma direção de arte primorosa que combina na medida exata
realismo e estilização. Quando a encenação efetivamente começa, entretanto, o
filme de Woody Allen desanda de maneira fragorosa. A impressão constante é de
uma peça teatral a parodiar de forma involuntária grandes clássicos da
dramaturgia norte-americana, ainda que embalada por uma concepção imagética
deslumbrante. Por mais que se critique Allen de ser um cineasta que tem o
hábito recorrente de autoreciclar, a verdade é que nessa sua produção mais
recente como diretor ele frustra justamente por não apresentar os seus traços
autorais mais característicos – a narrativa é tediosa na sua falta de fluidez,
o roteiro é genérico nas caracterizações de personagens e situações e também
destituído de verve e ironia convincentes, o desempenho do elenco varia
incomodamente entre atuações inexpressivas, caricaturais ou exageradas. E a
decepção com tais equívocos artísticos fica ainda maior quando se pensa que
Allen teve alguns de seus melhores momentos da sua carreira de cineasta no
gênero dos filmes de época, vide trabalhos antológicos como “A era do rádio” (1987)
ou “Tiros na Broadway” (1994). E mesmo no nostálgico “Café Society” (2016) a
preferência por uma narrativa mais estilizada teve um resultado final bem mais
satisfatório.
sexta-feira, dezembro 29, 2017
Top 25 2017
1)
Twin Peaks, de David Lynch
2)
Silêncio, de Martin Scorsese
3)
Z, a cidade perdida, de James Gray
4)
De canção em canção, de Terence Mallick
5)
Martírio, de Vincent Carelli, Ernesto de
Carvalho e Tatiana Almeida
6)
Na praia à noite sozinha, de Hong Sang-soo
7)
No intenso agora, de João Moreira Salles
8)
Em ritmo de fuga, de Edgar Wright
9)
A criada, de Chan-Wook Park
10)
Melhores amigos, de Ira Sachs
11)
Personal shopper, de Olivier Assayas
12)
Filha de ninguém, de Hong Sang-soo
13)
A qualquer custo, de David Mackenzie
14)
Eu, Daniel Blake, de Ken Loach
15)
Jackie, de Pablo Larrain
16)
O filho de Joseph, de Eugène Green
17)
Corpo elétrico, de Marcelo Caetano
18)
Na vertical, de Alain Guiraudie
19)
Manchester à beira-mar, de Kenneth Lonergan
20)
Mãe!, de Darren Aronofsky
21)
O ornitólogo, de João Pedro Rodrigues
22)
A morte de Luís XIV, de Albert Serra
23)
Paterson, de Jim Jarmusch
24)
Corra!, de Jordan Peele
25)
Logan, de James Mangold
quinta-feira, dezembro 28, 2017
Lucky, de John Carroll Lynch ***1/2
Um filme que lide com temas tabus como a morte e a velhice
navega em águas perigosas. Dependendo da forma com que aborde tais assuntos, poderá
cair no sentimentalismo fácil e no medíocre formato “obra edificante de lição
de vida”. “Lucky” (2017) envereda por essa temática sem cair em tais
armadilhas. Boa parte dos méritos está em algumas sábias escolhas criativas do
diretor John Carroll Lynch. Sua narrativa é seca e objetiva, com econômicos
toques oníricos, mas que se permite a algumas sequências pungentes. A
cronologia dos fatos que se sucedem no roteiro obedece a uma lógica humanista e
de complexidade psicológica, sem esquecer, entretanto, uma atmosfera que sintetiza
ironia e um imaginário icônico. As situações da trama inicialmente evocam um
teor realista, quase documental, ao evidenciar alguns sistemáticos atos do
cotidiano do protagonista Lucky (Harry Dean Stanton). Aos poucos, entretanto,
tais episódios vão adquirindo uma forte conotação simbólica, assim como as
sutis variações dessa rotina do personagem, a ilustrar uma melancólica e lúcida
reflexão sobre a decadência física e a finitude, sem cair necessariamente para
a afetação. A caracterização de Stanton no papel título também é fundamental
para a contundente concepção artística de Carroll Lynch – Lucky varia com naturalidade e coerência entre
a rudeza sincera e uma fragilidade comovente.
quarta-feira, dezembro 27, 2017
Jovem mulher, de Léonor Serraille ***
Em uma das tomadas iniciais de “Jovem mulher” (2017), há um
plano-sequência fixo onde a protagonista Paula (Laetitia Dosch) dispara um
quase monólogo confuso e raivoso, fazendo lembrar uma cena parecida do
antológico “A mãe a e a puta” (1973). O filme de estreia da diretora Léonor
Serraille não tem a excelência artística da aludida obra-prima de Jean Eustache,
mas a sequência mencionada com a personagem principal consegue traduzir de
maneira notável o espírito inquieto do trabalho de Serraille em termos formais
e existenciais. A abordagem estética da obra se vincula a uma tradicional
escola realista. A forma com que a cineasta conduz a narrativa, entretanto,
traz uma fluidez admirável no conjunto encenação e montagem, contando ainda com
um roteiro de forte subtexto irônico e contestador e com a atuação repleta de
expressivas nuances dramáticas de Dosch. A conturbada trajetória de Paula após
ser expulsa de casa pelo companheiro, marcada por explorações econômicas e
abandonos morais, corresponde a uma espécie de viagem sensorial da personagem
dentro do âmago de uma hipócrita sociedade patriarcal e excludente, ainda que
embalada como exemplo de civilidade ocidental. Apesar de marcada por um certo
teor panfletário sincero e contundente, é notável a coerência artística com que
a trama se desenvolve, principalmente pelo fato de que a redenção de Paula
venha através da aproximação com figuras outsiders, além da conclusão do filme
apresentar uma carga libertária comovente e desafiadora.
terça-feira, dezembro 26, 2017
Verão 1993, de Carla Simón ***
Em termos formais, “Verão 1993” (2017) não é uma obra que
chega a ser especialmente original. Dentro de um conjunto temático-estético
influenciado pela escola realista, entretanto, chama atenção pelo rigor e
sensibilidade com que coloca os seus preceitos em prática. Ainda que a sua
trama seja marcada por tópicos marcados por uma síntese entre o emotivo e o
intimismo, a abordagem da diretora Carla Simón é vigorosa e objetiva, não apelando
para sentimentalismos baratos. Pelo contrário – a trajetória de amadurecimento
da pequena protagonista Frida (Laia Artigas) é esmiuçada com coerência e
detalhismo que beiram o dialético ao expor a complexidade emocional que envolve
a situação sócio-cultural da garota. Os principais episódios do roteiro
envolvem perversidade infantil, a necessidade de serenidade e racionalismo por
parte de adultos diante de situações limites, a influência nociva de uma moral
irreal e repressora por parte de uma distorcida educação católica – Simón amarra
tais elementos temáticos com precisão dentro de uma história de forte teor
simbólico a retratar uma sociedade tão conservadora como a espanhola (e, por
tabela, em sintonia com outras do mundo ocidental). O filme abarca tais
questões dentro de uma narrativa sóbria repleta de detalhes expressivos como
uma direção de fotografia que registra os exuberantes cenários naturais dentro
de um olhar que preserva tanto o lado assustador das densas matas quanto o
aspecto idílico dessa mesma natureza, as densas atmosferas dramáticas pontuadas
por silêncios expressivos e discreto uso de temas musicais e as atuações
naturalistas de seu elenco (com destaque evidente para as atrizes mirins
Artigas e Paula Robles).
sexta-feira, dezembro 22, 2017
O local do crime, de André Téchiné ***1/2
Uma das obras que melhor capta o particular estilo artístico
do diretor francês André Téchiné, “O local do crime” (1986) traz aquela síntese
narrativa tão cara ao cineasta, em que texturas dos gêneros melodrama e
policial se fundem com uma naturalidade desconcertante. O roteiro é preciso na
maneira com que arroubos de romantismo e teor realista se relacionam, trazendo
um sutil subtexto de crítica sócio-familiar bastante contundente. A encenação proposta
por Téchiné se desenvolve com fluência admirável, indo de secas e vigorosas
sequências de suspense e ação e passando por atmosferas intimistas repletas de
densas nuances psicológicas. Dentro dessa rigorosa concepção estética-temática,
mostra-se fundamental o trabalho de direção de atores, com Téchiné extraindo
algumas intepretações memoráveis de seu elenco, com grande destaque para
Catherine Deneuve, em um dos seus papeis que melhor soube conciliar a sua
beleza glacial com uma caracterização sóbria e complexa.
quarta-feira, dezembro 20, 2017
Éden, de Bruno Safadi **
A ficha técnica e a sinopse de “Éden” (2013) indicavam uma
produção bastante promissora – uma trama tendo como subtexto a influência das
igrejas evangélicas nas humildes periferias urbanas e elenco contando com nomes
expressivos do cinema brasileiro contemporâneo como Leandra Leal, João Miguel e
Júlio Andrade. O resultado final, entretanto, acaba sendo bem frustrante. Culpa
de uma narrativa frouxa que se mostra indecisa entre um sensorialismo rarefeito
e a encenação realista exagerada. Há de se considerar uma visão crítica
consistente do roteiro na forma com que expõe o caráter oportunista e
obscurantista de cultos religiosos perante a sociedade contemporânea, mas isso
acaba perdendo parte de sua força diante da árida concepção artística do
diretor Bruno Safadi.
terça-feira, dezembro 19, 2017
Star Wars: Os últimos Jedi, de Rian Johnson **
Há de se concordar com pelo menos uma coisa em relação à
mais recente trilogia “Star Wars” – há uma certa coerência artística e
existencial entre os dois primeiros capítulos. Isso porque “Os últimos Jedi”
(2017) desperta a mesma impressão que “O despertar da força” (2015): são filmes
que mais parecem uma reciclagem oportunista e sem inspiração das produções clássicas
do que obras que acrescentam algo de novo à mitologia original criada por
George Lucas ou mesmo emulem uma continuação natural da saga de ficção
científica mais famosa da história do cinema moderno. Nesse longa mais recente,
até há alguns pontos positivos, como a bela direção de fotografia, algumas
sequências de ação que remetem a uma escola clássica de cinema de aventura e
mesmo e, por vezes, a caracterização de Mark Hammil como o lendário Luke
Skywalker que impressiona por um forte caráter icônico. Tais acertos,
entretanto, representam muito pouco para salvar uma narrativa destituída de
densidade dramática convincente, uma encenação apática e um roteiro que vai do
nada para o lugar nenhum. Além disso, fica reforçada a constatação que os novos
personagens da trilogia são destituídos de interesse e carisma, com “destaque”
absoluto para o ridículo vilão criança mimada Kylo Ren (Adam Driver), enquanto
as figuras clássicas são maltratadas de maneira burra e impiedosa pela forma
apelativa com que são utilizadas. Nesse último ponto, a morte de Luke Skywalker
é absurdamente anticlimática e sem sentido, parecendo apenas visar uma
manipulação sentimental gratuita. No cômputo geral, “Os últimos Jedi” joga fora
a boa impressão causada pelo ótimo “Rogue One” (2016) e faz temer até onde essa
picaretice mercadológica pode chegar.
segunda-feira, dezembro 18, 2017
31, de Rob Zombie ***
Pelo menos com uma coisa até os detratores de Rob Zombie tem
de concordar: há uma forte coerência autoral em sua filmografia. Em grande
parte das produções que dirigiu se pode perceber uma recorrência de elementos
temáticos e narrativos – grafismo violento explícito, atmosfera sórdida e amoral,
psicopatas e assassinos em geral como personagens fundamentais nas tramas, até
a sua esposa Sheri Moon parece interpretar variações diferentes de um mesmo
papel. Tudo isso se encontra em “31” (2016), com direito inclusive a palhaços
matadores ao estilo do memorável Capitão Spalding (Sid Haig) de “A casa dos mil
corpos” (2003) e “Os rejeitados pelo diabo” (2005). O filme dá uma constante
impressão ao espectador que ele já viu tudo que aparece na tela de forma mais
convincente e impactante em outros filmes do próprio Zombie. Ainda assim, tem o
seu encanto, principalmente porque o formalismo casca grossa do cineasta e o
seu gosto por histórias sombrias e niilistas afastam “31” do lugar comum
asséptico que tomou conta do cinema de horror contemporâneo.
sexta-feira, dezembro 15, 2017
John Wick - Um novo dia para matar, de Chad Stahelski ****
Tudo aquilo que escrevi sobre “De volta ao jogo” (2014)
nesse blog se aplica novamente para a sua continuação “John Wick – Um novo dia
para matar” (2017). Cabe ressaltar, entretanto, que esse novo capítulo da
brutal saga de violência e ironia do protagonista vivido por Keanu Reeves
também não se limitar ao reciclar de uma fórmula que já havia dado bastante
certo no filme anterior. Na verdade, o diretor Chad Stahelski depura ainda mais
a narrativa e a estética, configurando encenação e atmosfera em um teor ainda
maior de estilização e barroquismo audiovisual. E se alguém ainda acha que a
melhor coisa que Reeves participou no gênero ação está na superestimada trilogia
“Matriz”, talvez devesse rever seus conceitos ao assistir às precisas e
alucinadas coreografias de lutas e tiroteios de “John Wick” ou na percepção da
divertida sagacidade de diálogos e no tom misto de cartunesco e consistente densidade
psicológica do roteiro.
quinta-feira, dezembro 14, 2017
Assassinato no Expresso do Oriente, de Kenneth Branagh **
Na função de diretor, o britânico Kenneth Branagh tem como
obras mais destacadas algumas recriações vigorosas e criativas de trabalhos de
Shakespeare como “Henrique V” (1989), “Muito barulho por nada” (1993) e “Hamlet”
(1996). Tal fato fez com que produtores o convocassem com certa frequência para
a releitura de obras e personagens clássicos de diversos meios de expressão, no
desejo de oferecer uma abordagem de maior estofo dramático e narrativo. Nesse
sentido, a produção em que melhor atingiu esse objetivo foi a bela adaptação de
“Cinderela” (2015). Em outros casos, entretanto, os resultados finais foram
decepcionantes, vide “Thor” (2011) e “Operação sombra: Jack Ryan” (2014). Sua
obra mais recente nessa vertente, “Assassinato no Expresso do Oriente” (2017),
incursão do cineasta pelo universo do mais popular livro da escritora Agatha
Christie, fica enquadrada também na categoria frustrante. Pode-se perceber um
certo requinte em termos de direção de arte e atmosfera, além de Branagh
conseguir extrair algumas atuações carismáticas de seu elenco. Mais tais
aspecto positivos são insuficientes para a apagar a má impressão de uma
narrativa amorfa, uma composição cênica/visual marcada pela assepsia e um
roteiro que resvala no melodramático excessivo, principalmente nos exageros
cafonas do terço final do filme. A opulência audiovisual concebida por Branagh
é vazia e tediosa e poucas vezes consegue trazer algum efetivo encanto para o
espectador.
terça-feira, dezembro 12, 2017
Como ser solteiro, de Rosane Svartman *
É bom deixar clara logo de cara uma constatação: “Como ser
solteiro” (1998) é uma legítima tranqueira do cinema nacional. A impressão é de
uma equação mal-ajambrada entre aquelas produções cariocas toscas e pueris da
primeira metade dos anos 80, tipo “Menino do Rio” e “Bete Balançco”, e
referências estéticas e temáticas a clássicas comédias românticas juvenis da
mesma época dirigidas por John Hughes (“Gatinhas e gatões”, “A garota de rosa
shocking”). Ainda assim, assistir a essa produção de Rosane Svartman acaba
despertando por vezes curiosidade e simpatia. Por trás de uma concepção
narrativa amorfa e um roteiro repleto de tiradas cômicas e dramáticas
rasteiras, como se fosse a junção de “Zorra total” com uma novela global das
mais chulés, há algo de uma atmosfera mista de inocente malandragem e
sensualidade à flor da pele que remete a um imaginário carioca que se perdeu
nos últimos anos – ficar de maneira deliberada nas mãos de evangélicos
obscurantistas e picaretas como Garotinho e Crivella não é uma situação pela
qual se passa incólume. Assim, mesmo um filme ordinário e ruim como esse “Como
ser solteiro” acaba despertando uma certa nostalgia perturbadora.
segunda-feira, dezembro 11, 2017
Waiting for B., de Paulo Cesar Toledo e Abigail Spindel ***
O documentário brasileiro “Waiting for B.” (2015) tem por
ponto de partida uma premissa até bem simples: o retrato do cotidiano de alguns
jovens que se encontravam acampados a dias em frente ao Estádio Morumbi para o
show que a cantora Beyoncé deu no local em 2013. Em termos existenciais, alguns
aspectos unem esses garotos – a maioria é de origem humilde em termos
econômicos e são homossexuais, com uma trajetória de vida com vários episódios
de preconceito e discriminação. O filme, entretanto, passa longe do simples
retrato sociológico ou da pura reportagem. Os diretores Paulo Cesar Toledo e
Abigail Spindel conseguem elaborar uma narrativa cativante, alternando diversas
ambientações e situações de maneira fluente e coesa, indo das conversas bem-humoradas
e as sessões de coreografias dos fãs da cantora nas filas, passando pela crueza
do registro do dia-a-dia de alguns deles com a família e no trabalho e
concluindo com o frenesi e tensão do dia da apresentação de Beyoncé. Diante
desse quatro estético-temático, o resultado final é uma obra de forte caráter
libertário na forma com que consegue conciliar em sua abordagem tanto a
contundência de seu discurso comportamental desafiador quanto uma certa leveza
no teor de ironia sagaz que perpassa o filme quando os seus protagonistas estão
em cena.
sexta-feira, dezembro 08, 2017
A cidade onde envelheço, de Marília Rocha ***
Em um primeiro momento, a narrativa de “A cidade onde
envelheço” (2016) aparenta uma certa aridez que pode parecer um pouco incômoda.
Os silêncios são enfatizados com vigor, a atmosfera tem algo de documental a
partir do registro seco da lente da diretora Marília Rocha, a trama realça
aspectos de um cotidiano simples e por vezes tedioso dos personagens. São em
algumas sutilezas estéticas e nas nuances existenciais do roteiro que o filme
vai despertando um insólito encanto para o espectador. Arroubos emocionais e
viradas espetaculares na história são dispensados em nome de uma fluência
narrativa natural e serena, em que motivações e maiores explicações sobre as
atitudes das protagonistas Tereza (Elizabete Francisca Santos) e Francisca
(Francisca Manuel) dão lugar a um teor instintivo e mesmo misterioso sobre o
comportamento errático de tais figuras. A forma com que Rocha faz com que o
filme acompanhe a trajetória das personagens evidencia um olhar poético sobre
as agruras e a pequenas delícias de suas rotinas, valorizando ainda detalhes
cênicos notáveis como a intensa interação dramática entre as atrizes principais
e mesmo o sedutor sotaque português das intérpretes.
quinta-feira, dezembro 07, 2017
Pai em dose dupla 2, de Sean Anders ***
O diretor Sean Anders atinge uma proeza considerável em “Pai
em dose dupla 2” – fazer com que uma sequência não se caracterize como
meramente oportunista e que consegue ainda ser melhor que o primeiro filme.
Essa continuação explora basicamente as mesmas questões temáticas e
direcionamento narrativo da produção anterior, mas de uma maneira mais
alucinada e sentimental (por mais contraditório que isso possa parecer). Anders
privilegia com maior intensidade os aspectos grosseiros e exagerados da comédia
física, com forte ênfase nesse lado para cenas envolvendo constrangimentos e
desastres com o personagem apatetado Brad (Will Ferrell), ao mesmo tempo que o
lado de crítica de costumes se harmoniza com bizarra fluência com um insólito e
até bem sacado tom de lições edificantes de vida. A direção de Anders dá uma
fluência admirável na conciliação desses diferentes polos da narrativa e que se
mostra em sintonia com o mote principal do roteiro – o confronto entre a imagem
idealizada de durão do típico macho norte-americano com a tendência para a
emotividade derramada típica do cidadão de classe média. Complementando essas
belas sacadas criativas da direção, há um elenco bastante inspirado, do
quarteto principal de atores até o elenco infantil, e a excelente utilização
das canções natalinas da trilha sonora (destaque para a memorável sequência dos
personagens acampados dentro de um cinema).
quarta-feira, dezembro 06, 2017
Um senhor estagiário, de Nancy Meyer *
Ok, a gente pode ter boa vontade e pensar que um filme como “Um
senhor estagiário” (2015) pode oferecer alguma reflexão sobre a questão da
velhice na sociedade contemporânea ocidental. E até lembrar que o protagonista Ben
Whittaker é interpretado por Robert De Niro, um ator cujo currículo tem tantas
obras marcantes que se a gente for citar pelo menos parte delas vai acabar
ocupando mais que a metade do parágrafo desse comentário. Assistindo ao filme
da diretora Nancy Meyer, entretanto, todas essas nossas considerações vão por
água abaixo e só se pode concluir que De Niro aceitou participar de algo tão
medíocre, reacionário e brega porque o cachê realmente devia ser muito bom. A
abordagem temática superficial e esquemática, o roteiro repleto de clichês
vagabundos e um formalismo mofado e tedioso resultam num filme difícil de
aguentar até o fim.
terça-feira, dezembro 05, 2017
Gabriel e a montanha, de Fellipe Barbosa ***
Se em “Casa grande” (2015) o diretor Fellipe Barbosa
oferecia um retrato pálido e esquemático sobre a decadência moral e econômica
da burguesia nacional neste século, em “Gabriel e a montanha” (2017) o seu
discurso artístico-existencial se mostra melhor focado e por vezes até beirando
o poético. O grande acerto em suas abordagens narrativa e temática está na
forma com que o protagonista Gabriel Buchmann (João Pedro Zappa) é colocado em
cena – se no início da trama o personagem possui uma certa aura santificada,
idealizada, na maneira com que interage com as figuras que encontra em suas
andanças pela continente africano, aos poucos essa impressão vai se mostrando
enganosa, quando o que fica evidenciada é a ambiguidade das intenções e da
personalidade de Gabriel. A entrada em cena de Cris (Caroline Abras), namorada
dele, é fundamental nessa dissecação existencial. Em trechos de conversas e
mesmo na tensão amorosa entre o casal fica esboçado de maneira sutil as
possíveis razões que levaram Gabriel a realizar a sua jornada. Nas frustrações,
angústias e desejos do protagonista ficam sintetizadas um conjunto de valores e
ambições de uma jovem geração movida a arrivismo e insensibilidade. Quando Cris
volta a ficar ausente da narrativa, essa passa a se tornar mais rarefeita, a
atmosfera do filme envereda para algo entre o realismo e o etéreo e mesmo o
roteiro e estética privilegiam uma forte carga de simbologias textuais e
visuais. As escolhas de Gabriel se tornam bizarras, seu comportamento ainda
mais errático. Seu trágico fim deixa a fascinante interrogação – um suicídio
dissimulado ou apenas o resultado de escolhas cretinas? Fellipe Barbosa embala
essa história intrincada com algumas escolhas formais adequadas e, em
determinados momentos, até encantadoras, principalmente pela fluência cênica do
seu elenco (inclusive os nativos “amadores”), pela forma com que as belas
paisagens africanas são aproveitadas na direção de fotografia e nos expressivos
temas musicais étnicos da trilha sonora.
segunda-feira, dezembro 04, 2017
Snuff - Vítimas do prazer, de Cláudio Cunha ***1/2
A parceria entre Cláudio Cunha na direção e Carlos
Reichenbach no roteiro em “Snuff –Vítimas do prazer” (1977) tem como resultado
final justamente aquilo que se poderia esperar de uma união dessas – uma síntese
muito bem delineada entre inventividade artística e ambientação sórdida
exploitation, combinação habitual naquilo de melhor que o cinema da Boca do
Lixo produziu. Roteiro e narrativa obedecem aos preceitos básicos dos gêneros
horror e suspense, mas também conseguem criar um subtexto e atmosfera repletos
de nuances irônicas e dramáticas, além de uma vigorosa simbologia visual e
textual. Dentro de tal concepção artística, há detalhes cênicos antológicos,
como a forma insólita em que a música clássica se insere em sequências marcadas
pela escatologia, o grafismo violento de algumas cenas, o erotismo misto de galhofeiro
e sensual e as composições dramáticas viscerais e cheias de verve de boa parte
do elenco.
sexta-feira, dezembro 01, 2017
Elvis & Nixon, de Liza Johnson **1/2
O encontro real entre Elvis Presley e Richard Nixon foi um
evento histórico que trouxe uma carga simbólica muito forte: o rei do rock, o
ícone máximo de um gênero musical e mesmo comportamental que teve no DNA de sua
formação um forte caráter de rebeldia, se declarou disposto a colaborar com um
dos líderes políticos mais conservadores do século XX. Ou seja, a riqueza de
aspectos contraditórios e complexos de mais de uma geração da sociedade
ocidental estava sintetizada na reunião desses dois homens. Diante de tais
circunstâncias, a produção norte-americana “Elvis & Nixon” (2016) se
mostrava bastante promissora ao propor a recriação dramática desse fato
controverso. Ocorre, entretanto, que a abordagem da diretora Liza Johnson passa
bem distante tanto de uma maior profundidade temática quanto de uma narrativa
mais inquietante. Roteiro e encenação privilegiam um viés cômico e superficial,
sem sugerir maiores leituras sociais e culturais sobre o significado de premissa
maior da trama. A cineasta enfatiza mais uma caracterização caricatural a
sugerir o ridículo de algumas situações e personagens, num direcionamento que
por vezes até chega a ser levemente divertidos, mas nada que vá muito além
disso, impressão essa acentuada nas atuações cartunescas e carismáticas de
Michael Shannon e Kevin Spacey nos papeis principais.
quinta-feira, novembro 30, 2017
Invasão zumbi, de Yeon Sang-ho ***1/2
Filmes sobre apocalipse zumbi se tornaram bastante
recorrentes nos últimos anos. E é claro que o excesso de obras no gênero
provocou uma exaustão criativa a um ponto que poucas produções realmente se
destacaram por trazer algo de efetivo interesse. Dentro dessas exceções, dá
para citar o longa sul-coreano “Invasão zumbi” (2016). Aa rigor não há grandes
novidades na forma com que o diretor Yeon Sang-ho conduz a sua narrativa. O que
diferencia o filme é uma encenação muito bem azeitada, que combina na medida
certa sequências de ação frenéticas e coreografadas com precisão e momentos
intimistas entre o contemplativo e o melodrama, além da caracterização visual
dos zumbis e da direção de arte de tons pós-apocalipticos comporem um todo
imagético de forte impacto sensorial. A concepção estética e temática engendrada
por Sang-ho foge daquele padrão asséptico de horror ocidental destinado para
grandes plateias. Ou seja, pela sua atmosfera sórdida e pessimista, “Invasão
zumbi” se mostra mais em sintonia com os trabalhos referenciais de George
Romero do que com produções despersonalizadas e inexpressivas como “Guerra
mundial Z” (2013).
quarta-feira, novembro 29, 2017
Câmara de espelhos, de Dea Ferraz ***1/2
O discurso do senso comum, ou da “sabedoria popular” como
preferem alguns, é fortemente influenciado por uma opressora doutrinação
machista-patriarcal. Nessa vertente de “pensamento”, teorias duvidosas e
filosofia de botequim se incorporam no imaginário popular como verdades quase
inatacáveis. Uma das mais frequentes delas diz, naquelas generalizações
obscurantistas que muita gente adora, que a mulher tem um modo de agir tomado
pela emoção e intuição, enquanto o homem seria aquele cujas atitudes revelariam
uma maior racionalidade. O grande mote artístico-existencial do documentário “Câmera
de espelhos” (2016) é a ácida dissecação desse ideário sócio-cultural, em que a
visão crítica da diretora Dea Ferraz não se limita na exposição de sua temática
contestatória, mas também no próprio método estético concebido pela cineasta.
Não é à toa que em algumas passagens do filme são explicitados as técnicas
formais e o próprio direcionamento de conteúdo da obra. É como se Ferraz
quisesse evidenciar o seu cartesianismo de maneira contundente, elaborando uma
obra tanto marcada pelo rigor de sua execução narrativa quanto pela clareza de
suas ideias sobre a política dos sexos. A precisão no delinear de tal concepção
narrativa e filosófica, com sutis toques de psicodrama, se contrapõe de maneira
brilhante com a hipocrisia e preconceito dos diálogos entre os “personagens” do
seu filme. Há algo de perverso e mesmo manipulador na forma com que a diretora
extrai algumas perturbadoras constatações dos depoimentos que colhe ao longo do
filme, mas tal método se mostra legítimo e eficaz quando se percebe a
capacidade de “Câmara de espelhos” revelar com sensibilidade e lucidez uma
verdade que a sociedade e a mídia procuram dissimular com revoltante
desfaçatez.
terça-feira, novembro 28, 2017
Linha de frente, de Gary Felder **1/2
Filmes de ação com Jason Statham, com raras exceções,
praticamente se tornaram um subgênero. Narrativa e trama geralmente obedecem a
preceitos básicos e manjados – o protagonista interpretado por Statham é um
sujeito meio sorumbático que guarda alguns mistérios em seu passado, algo que
tem a ver com o fato dele ser na real um cara muito durão e que manda muita
porrada quando incomodado, e o roteiro se desenvolve com as premissas
previsíveis que farão com que distribua bordoadas e tiros para quem lhe
incomodar. Por vezes, tal receita até dá certo e rende alguns filmes acima da
média, mas na maioria das vezes a fórmula cai na mesmice. E esse é o caso de “Linha
de frente” (2013). A produção dirigida por Gary Felder insinua em alguns
momentos uma caracterização de situações e personagens mais perturbadoras,
principalmente quando o vilão vivido por James Franco está em cena. No final
das contas, entretanto, são pequenas nuances que aos poucos vão perdendo
importância em nome das convenções habituais do gênero mencionadas
anteriormente.
segunda-feira, novembro 27, 2017
O melhor professor da minha vida, de Olivier Ayache-Vidal ***
Que o pessoal responsável por fazer as versões de títulos de
filmes estrangeiros para português no Brasil tem alguns critérios questionáveis
já é mais do que sabido. Mas no caso de “O melhor professor da minha vida”
(2017) eles realmente se puxaram. O título escolhido tanto pode atrair ou
repelir possíveis espectadores e nos dois casos pela ideia equivocada que dá da
abordagem dessa produção francesa dirigida por Olivier Ayache-Vidal, além de
estar distante do tom mais sutil e poético do original “grandes mentes”. Em
síntese, o longa em questão não se filia aquela linhagem de obras edificantes que
mostram professores superando todas as dificuldades em uma sala de aula e dando
lições de vidas para os alunos e, por consequência, para a plateia. O filme de
Ayache-Vidal está mais vinculado em termos estéticos-temáticos à escola
realista da obra-prima “Entre os muros da escola” (2008). O roteiro não
apresenta soluções mágicas dentro da trama em que o arrogante professor
François Foucault (Denis Podalydès), proveniente de uma escola elitista de
Paris, se vê obrigado a dar aulas em um colégio da rede pública da capital. A
visão artística e existencial da obra sobre a relação ensino e meio social é
marcada pela lucidez amarga, ainda que permita de maneira coerente vislumbrar
saídas a partir de uma perspectiva humanista de educação. A concepção formal
para contar essa história é simples e tradicional, não tendo o mesmo grau de
inventividade e dinâmica estéticas da aludida obra de Laurent Cantet, mas não
se rende a truques baratos e consegue se mostrar como uma moldura contundente
para as intenções de Ayache-Vidal, com destaque para uma encenação de notável
fluidez e para as atuações vigorosas do elenco.
sexta-feira, novembro 24, 2017
Carmen, de Carlos Saura ***1/2
A premissa principal da trama de “Carmen” (1983) é algo
manjada, quase apelativa no seu teor melodramático: nos bastidores de uma
adaptação flamenca da ópera “Carmen” de Bizet, desenvolve-se um enredo
envolvendo paixão e ciúme entre o diretor-coreógrafo e sua principal atriz, em
paralelo com a história de temática semelhante da ópera encenada. Na verdade,
tal roteiro serve apenas como um pretexto para o diretor Carlos Saura expor na
tela aquilo que realmente lhe interessa – as sanguíneas coreografias flamencas,
a fusão exuberante dos temas originais de Bizet com o virtuosismo de Paco de
Lucía, o rigoroso formalismo baseado no detalhismo cênico e em composições
imagéticas exuberantes. Em se tratando de Saura, é claro que se prefere a sua
fase setentista baseada na síntese entre crônica intimista-política e narrativa
de teor delirante, mas dentro de sua filmografia voltada para a música, “Carmen”
é um de seus trabalhos mais contundentes.
quinta-feira, novembro 23, 2017
Crime desorganizado, de Jon Favreau ***
Na trajetória de Jon Favreau como diretor, pode-se perceber
uma certa linha conceitual em suas concepções narrativas, mesmo quando atua
dentro do esquema dos blockbusters dos grandes estúdios – a de buscar uma
releitura vigorosa dos modelos tradicionais do “cinemão” incorporando um viés
sardônico típico das produções independentes de onde despontou inicialmente. “Crime
desorganizado” (2001) representa uma obra de transição na filmografia do
cineasta – trata-se de um longa-metragem no gênero comédia policial ainda da época
em que Favreau era mais atuante dentro do universo “B” do cinema norte-americano,
sendo que alguns anos depois se tornou o diretor responsável pelo megassucesso “Homem
de ferro” (2008). “Crime desorganizado” centra a sua trama no ambiente de
picaretas e bandidos pé-de-chinelo, com um roteiro que privilegia a comédia de
erros, situações absurdas, diálogos sardônicos e alguns momentos de violência
entre a crueza e o cartunesco. Nada de muito original, Scorsese e Tarantino já
fizeram tudo isso de forma bem mais impactante, mas ainda assim a dinâmica
narrativa engendrada por Favreau consegue ser envolvente, extraindo ainda
caracterizações carismáticas de seu elenco (com destaque para o próprio Favreau
e para o habitual parceiro Vince Vaughn).
quarta-feira, novembro 22, 2017
Liga da Justiça, de Zack Snyder *
Se “Mulher Maravilha” (2017) representou um certo raio de
esperança para que as adaptações cinematográficas dos quadrinhos da DC pudessem
engrenar em algo minimamente convincente, “Liga da Justiça” (2017) prova que as
coisas continuarão na mesma. Estão lá todos os elementos habituais do padrão
Zack Snyder de produção: a ausência de uma narrativa fluente, sequências de
ação medíocres, concepção visual derivativa, roteiro beirando o simplório e
repleto de diálogos cretinos, caracterizações de personagens entre o
inexpressivo e o constrangedor (Ben Affleck passa a constante sensação de que gostaria
de estar em outro lugar). Ou seja, nada muito diferente das porcarias
anteriores “Superman – O homem de aço” (2013), “Batman vs. Superman: A origem
da justiça” (2016) e “Esquadrão suicida” (2016). É visível que a parceria
Warner/DC quer emular algumas das estratégias artísticas e comerciais dos
Estúdios Marvel, mas faz isso de maneira descuidada e puramente oportunista.
Assim, se o espectador quiser ver algum filme interessante no gênero aventura
de super-heróis, é bem melhor ficar com “Thor: Ragnarok”, que ainda está em
cartaz e é bem mais divertido, consistente e ousado do que essa tranqueira
chamada “Liga da Justiça”, obra que não faz jus à importância do supergrupo da
DC na história dos “comics” (para aqueles que duvidam disso, recomendo fases
sensacionais da Liga escritas por Keith Giffen e Grant Morrison).
terça-feira, novembro 21, 2017
O outro lado da esperança, de Aki Kaurismäki ***
O que diferencia “O outro lado da esperança” (2017) de
outras produções dirigidas pelo finlandês Aki Kaurismäki é o fato de ser a obra
do cineasta com a trama mais escancaradamente sócio-política. Vários detalhes
do roteiro apresentam forte ressonância com alguns dos principais temas que
dominam a sociedade europeia – a crescente xenofobia cultural, a cada vez mais
intensa migração de árabes para o continente em virtude de conflitos bélicos em
seus países natais, a onda de desemprego que joga a economia na informalidade e
na precariedade. Há um forte tom panfletário de crítica social na abordagem de
Kaurismäki, mas sem que isso afete o estilo habitual do diretor. Pelo contrário
– tais aspectos se complementam com bastante naturalidade e coerência. Dessa
forma, estão lá na narrativa sempre presente a comicidade baseada numa
encenação austera, a idiossincrasia ascética na caracterização de situações e
personagens, a empatia que brota de econômicos truques narrativos, os belos
números musicais que irrompem de maneira insólita, a atmosfera entre o realismo
e o poético que por vezes desconcerta o espectador. A conjunção de tais
aspectos artísticos acaba gerando alguns momentos memoráveis, principalmente na
ambígua sequência final, em que o trágico e o tom esperançoso convivem em uma
estranha harmonia.
segunda-feira, novembro 20, 2017
A conexão francesa, de Cédric Jimenez **1/2
Parecia promissor: “A conexão francesa” (2014) tem como base
principal de sua trama a recriação dos fatos reais que inspiraram o clássico “Operação
França” (1971). As boas expectativas, entretanto, ficaram só na intenção. A
produção dirigida por Cédric Jimenez é uma obra no gênero policial que fica
sempre no campo do derivativo – é bem feito e por vezes até envolve o
espectador, mas está muito longe da criatividade e ousadia estéticas da
obra-prima de William Friedkin. Encenação e montagem são excessivamente
convencionais, com uma atmosfera que por diversos momentos recai no melodrama
banal. A decepção é ainda maior quando se lembra que o cinema policial francês
contemporâneo já apresentou trabalhos bem mais memoráveis como “36” (2004) e “Inimigo
público nº 1 – Risco de morte” (2008).
sexta-feira, novembro 17, 2017
Diabo no corpo, de Marco Bellocchio ***1/2
Em boa parte da filmografia do diretor italiano Marco
Bellochio, sexo e política se ligam por conexões complexas e indissociáveis.
Por vias ora tortuosas, ora de sutil delicadeza, o erotismo adquire tanto
contorno libertários quanto de um discurso ideológico difuso. Tudo isso fica
evidente em “Diabo no corpo” (1986) – a encenação precisa e descarnada e a
crueza dos embates sexuais acentuam uma concepção artística e existencial
marcada por uma visão entre o amargo e o irônico dos dilemas e descaminhos da
política italiana nas últimas décadas do século XX. Assim, sexo beirando o
explícito e a temática espinhosa do terrorismo político parecem caminhar lado a
lado com uma naturalidade bizarra e por vezes até encantadora.
quinta-feira, novembro 16, 2017
Condado macabro, de Marcos DeBrito e André de Campos Mello *
Onde está o caminho para o horror nacional? Bem, algumas
produções até indicaram caminhos interessantes, vide obras como “Mangue negro”
(2008), “Quando eu era vivo” (2014) e “O diabo mora aqui” (2015), que buscaram
uma síntese entre fatores estéticos e temáticos tradicionais do gênero com
singulares elementos regionais e culturais. Ou seja, houve em tais filmes a
procura de uma linguagem própria que extravasasse o simples reciclar sem
imaginação de clichês narrativos. Pois “Condado macabro” (2015) vai justamente
na direção oposta dos longas mencionados – os diretores Marcos DeBrito e André
de Campos Mello parecem dispostos apenas em copiar/homenagear alguns de seus mestres
ou influências preferenciais (Rob Zombie, “O massacre da serra elétrica”, slasher
movies oitentistas, torture porn contemporâneo, palhaços escrotos, referências
pop a la Tarantino) na cara-de-pau e com um formalismo desleixado de dar nos
nervos. Pode ser que alguns truques estilísticos e uma certa atmosfera irônica
indiquem uma obra que não se pretende levar tão a sério, mas isso acaba soando
apenas como desculpa esfarrapada para justificar uma realização tão indulgente.
No mais, prevalecem detalhes patéticos como escolhas equivocadas no elenco (o
que dizer de atores e atrizes trintões interpretando adolescentes?) e um
roteiro desconjuntado e repleto de situações absurdamente cretinas (destaque
maior para o momento quando a turminha de “jovens” descobre o primeiro
assassinato e na hora da fuga perde longos minutos arrumando as malas!).
terça-feira, novembro 14, 2017
No intenso agora, de João Moreira Salles ***1/2
Em “Santiago” (2017), o documentarista João Moreira Salles
construía uma narrativa intimista vinculada a uma temática de caráter bastante
pessoal a partir de registros concebidos e realizados originários de filmagens
próprias. Já em “Últimas conversas” (2014), o derradeiro longa-metragem de
Eduardo Coutinho, Salles foi responsável por fazer os arremates finais no
material coletado por Coutinho, principalmente no que diz respeito à montagem,
tendo em vista a morte desse último. De certa forma, “No intenso agora” (2017)
parece evocar um cruzamento entre os dois filmes mencionados anteriormente: a
partir de registros audiovisuais e imagens exclusivamente de terceiros, o
cineasta constrói a sua narrativa marcada pelo subjetivismo e pessoalidade. O
trabalho de edição é engenhoso e delicado – filmagens amadoras, trechos de
documentários, passagens de produções de caráter institucional, partes de reportagens,
tudo vai se juntando e relacionando tendo como princípio uma visão artística e
existencial delimitada com sensibilidade. Essa visão se personifica na narração
de própria voz de Salles. O tom monocórdio da locução e o texto que sintetiza
relato histórico e reminiscências pessoais formam um conjunto perturbador e
ambíguo que dá um sentido particular desconcertante para as imagens e sons que
brotam da tela. A impressão sensorial é de um longo devaneio de Salles que
mistura melancolia, desilusão, nostalgia, ironia amarga e uma sutil e vaga
noção de deslumbramento. Pode-se argumentar que há um tom vacilante e difuso na
narrativa que sugira um direcionamento ideológico, mas a verdade é que “No
intenso agora” não tem um propósito primordial de convencer alguém de alguma
coisa. Está mais para a tentativa de materialização fílmica de determinados
sentimentos e desejos que talvez nem o próprio Salles saiba direito do que se
trata. E é nessa imprecisão nebulosa de intenções que reside o encanto de seu
documentário.
segunda-feira, novembro 13, 2017
Vazante, de Daniela Thomas ***
Ao se assistir à “Vazante” (2017), dá para entender um pouco
a polêmica que o filme de Daniela Thomas vem causando. O retrato que faz da
escravidão do Brasil no século XIX causa certo teor de perturbação por uma
abordagem emocional e histórica marcada pela sobriedade e ausência de uma
delimitação mais clara entre o “bem” e o “mal” – ou seja, não dá para dizer que
se trata de uma trama com mocinhos e bandidos. O retrato que o roteiro propõe
mostra o regime escravista entranhado na sociedade como algo normal,
corriqueiro. Na trama, as famílias de fazendeiros que possuem escravos não
apresentam uma caracterização de sádicos ou dementes racistas, mas sim de
pessoas normais, eventualmente atormentadas, que aceitam e se valem daquela
situação de exploração desumana como algo normal e aceitável no seu cotidiano.
Mesmo na ala dos escravizados predomina um teor de resignação, com eventuais
situações de revolta. Na verdade, essa visão da escravidão como algo normal e
corriqueiro é que dá a verdadeira dimensão assustadora da situação e ajuda
melhor a explicar como o racismo no Brasil apresenta todo esse contexto de
hipocrisia e crueldade na sociedade contemporânea. Voltando ao filme, também é um
acerto o trabalho minucioso de direção de arte e fotografia em preto e branco que
compõem um registro audiovisual marcado tanto pelo áspero realismo quanto por
uma beleza melancólica no seu sutil registro que vai das grandes tomadas de
paisagens naturais até enquadramentos e encenação de caráter intimista. O que
atrapalha o longa-metragem de Thomas é que no terço final da narrativa a obra
se converte num gasto melodrama envolvendo adultérios e gravidezes suspeitas que
por vezes beiram o novelesco banal, ainda que guardem um simbolismo por vezes
inquietante.
sexta-feira, novembro 10, 2017
Dois é bom, três é demais, de Anthony e Joe Russo **
Os créditos na direção de “Dois é bom, três é demais” (2006)
até sugerem algo de promissor. Afinal, trata-se dos irmãos Anthony e Joe Russo,
responsáveis por um dos melhores filmes da Marvel Studios, “Capitã América: O
soldado invernal” (2014). O resultado final dessa comédia, entretanto, deixa
bastante a desejar. Não chega a ser exatamente ruim – há alguns momentos daquele
humor grosseiro que efetivamente rendem algumas risadas, além de uma visão mais
crítica sobre questões comportamentais e mesmo intimistas dentro da sociedade
norte-americana. Tais aspectos positivos, entretanto, são sufocados pelo
convencionalismo excessivo e derivativo da forma com que a narrativa é conduzida,
além de um roteiro bastante conservador em suas resoluções. Afinal, o que dizer
de uma conclusão em que um eterno desajustado acaba se enquadrando nos padrões
ao se descobrir como um excelente palestrante de autoajuda?
quinta-feira, novembro 09, 2017
Terra selvagem, de Taylor Sheridan ***
Na ainda pequena amostragem que já se teve das obras do
diretor e roteirista Taylor Sheridan nas salas de cinemas, dá para dizer que
ele segue uma certa linhagem autoral. Em “Sicário” (2015) e “A qualquer custo”
(2016), produções que contaram com roteiros de sua autoria, pode-se perceber
uma expressiva síntese entre os preceitos do cinema de ação e abordagem e
atmosfera mais reflexivas, além de tramas que trazem em seus respectivos
subtextos uma sutil visão crítica sobre os descaminhos morais e sociais da
sociedade norte-americana contemporânea. Num contexto ainda mais amplo, são
filmes que revelam ainda uma releitura contemporânea dos gêneros policial e
faroeste. Em “Terra selvagem” (2017), longa-metragem de estreia de Sheridan
como diretor, tais características das mencionadas obras anteriores voltam a se
manifestar, sem, contudo, apresentar um foco artístico tão preciso. Há uma
narrativa envolvente, a memorável fotografia que valoriza a forte beleza
plástica das amplas paisagens geladas que servem de cenário para a trama,
sequências de ação muito bem dirigidas (o brutal tiroteio final é
particularmente antológico), encenação que por vezes cria momentos de sufocante
tensão psicológica e uma adequada trilha sonora climática composta e executada
por Nick Cave e Warren Ellis (ainda que dê a impressão de ser um tanto
derivativa de outros temas mais consistentes que eles fizeram para filmes
anteriores). O que incomoda em “Terra selvagem” é um excesso de cenas marcadas
por um forçado teor contemplativo e solene e um roteiro que força a barra em
diálogos filosóficos de almanaque, o que faz com que a narrativa não seja tão
equilibrada quanto as de “Sicário” e “A qualquer custo”.
quarta-feira, novembro 08, 2017
Na praia à noite sozinha, de Hong Sang-soo ***1/2
Os filmes do diretor sul-coreano Hong Sang-soo apresentam
elementos narrativos que são recorrentes. Não se trata de acomodação artística,
mas sim de depuração de uma linguagem cinematográfica muito peculiar. Isso fica
evidente em “Na praia à noite sozinha” (2017). Nessa obra mais recente, estão
lá aqueles aspectos formais e temáticos que já constavam em seus filmes
anteriores – os planos narrativos que se alternam entre o real e o imaginário,
a encenação de fluidez insólita e cativante (evidentes, por exemplos, nas
sequências em que os personagens dialogam ao redor de uma mesa jantando ou
bebendo), o estilo de filmar e editar que sugere uma síntese particular entre a
aparente rusticidade e a sofisticação, o roteiro que alude ao universo do cinema
como um de seus principais cenários. Dentro desse conjunto estético-textual, a
narrativa faz com que espectador embarque em um contexto sensorial de estranho
encanto, em que as situações da trama se sucedem quase como se fosse um sonho,
em que algumas soluções marcadas pelo absurdo acabam ganhando uma notável
coerência existencial-artística. Assim, cenas parecem se repetir com sutis
variações, assim como as próprias noções de espaço e tempo se mostram elásticas,
mas o encanto de tais excentricidades é filtrado dentro de um formato de
crônica cotidiana. Ou seja, parece complicado, mas no final das contas é de uma
simplicidade desconcertante.
terça-feira, novembro 07, 2017
O estigma de Satanás, de Piers Haggard ***
Na época de seu lançamento, “O estigma de Satanás” (1971) já
tinha um certo caráter anacrônico. Vinculado àquela escola de horror delineada
pela produtora inglesa Hammer, o filme do diretor Piers Haggard traz realmente
a impressão de uma obra datada, principalmente pela formatação tradicional de
seu roteiro, pela fleuma de sua encenação e pela sua atmosfera entre o gótico e
o pastoril. Ainda assim, esse passadismo por vezes tem algo atraente na forma
com que a sua narrativa se espraia na tela, sugerindo uma síntese entre o encantador
e o perturbador – é de se considerar que o longa capricha mais na violência e
violência gráficas do que os trabalhos da Hammer. Algumas trucagens e mesmo
detalhes da maquiagem e caracterização visual jogam o filme naquela zona
nebulosa do humor involuntário, impressão essa acentuada por algumas passagens
da trama excessivamente maniqueístas. Por outro lado, há uma estranha
ambientação difusa e ambígua em determinadas sequências, principalmente
naquelas envolvendo rituais de magia negra, além de um sutil subtexto a sugerir
uma crítica a um ordenamento religioso patriarcal e opressor. Por mais que a
conclusão da produção evoque a velha máxima do “bem vencendo o mal”, há um
traço de melancolia amarga na forma com o representante da ordem e da moral do
vilarejo interiorano reprime e esmaga o grupo de jovens e deserdados cultores
do “mal”.
segunda-feira, novembro 06, 2017
Thor: Ragnarok, de Taika Waititi ***1/2
Em alguns posts que escrevi neste blog falando sobre filmes
que adaptavam o universo das HQs de super-heróis para as telas, foi mencionada
a necessidade das obras do gênero em questão em procurar preservar uma certa
essência dos quadrinhos originais nessa transposição de uma mídia para outra
visando resgatar aquilo que personagens e histórias dos “comics” têm de
interessante e peculiar que justificam a sua perenidade. Pois “Thor: Ragnarok”
(2017) acaba sendo um desmentido enfático dessa tese! O diretor neozelandês
Taika Waititi pega figuras, conceitos e outros elementos diversos do clássico
universo da Marvel e os recria num contexto diferente e algo delirante, mas
sempre transparecendo uma coerência artística-existencial desconcertante.
Tentando resumir, dá para dizer que esse novo capítulo das aventuras do mais
famoso deus de Asgard pega toda aquela solene mitologia nórdica típica do
protagonista e a enquadra numa lógica estética e temática que remete
diretamente a produções de ficção científica barata dos anos 80 (impressão essa
acentuada pela divertida e esquisita trilha sonora baseada em tecnopop
concebida por Mark Mothersbaugh, ex-integrante da banda new wave Devo), o que
coloca o filme diretamente em sintonia com a franquia de “Os guardiões da
galáxia”. Tal orientação artística, entretanto, não faz com que “Thor: Ragnarok”
caia na mera paródia, ainda que haja um considerável número de cenas e diálogos
movidos a piadinhas infames. Na narrativa, há tudo aquilo que um bom filme de
super-heróis deveria ter: cenas de ação coreografadas e encenadas com precisão
e detalhismo memoráveis, concepção visual de grafismo expressivo e criativo,
sequências com forte tensão dramática e personagens bem construídos e
carismáticos. Ou seja, uma ótima surpresa para aqueles que tinham ficado decepcionados
com a tendência para o romantismo xaroposo dos dois primeiros filmes do
personagem. Já para quem conhecia o longa anterior de Waititi, a pérola cult “O
que fazemos na sombra” (2014), excêntrica comédia a tirar um sarro dos clichês
habituais dos filmes de vampiros, acaba não sendo uma surpresa tão grande
assim, ainda que “Thor: Ragnarok” revele uma forte evolução artística por parte
de Waititi.
quarta-feira, novembro 01, 2017
Meu amigo hindu, de Héctor Babendo *
O cineasta Héctor Babenco é um nome muito importante na
história do cinema brasileiro. Além de ter dirigido obras fundamentais da
filmografia nacional, como “Lúcio Flávio – Passageiro da agonia” (1977) e “Pixote
– A lei do mais fraco” (1981), também foi o responsável por produções
internacionais memoráveis como “Ironweed” (1987) e “Brincando nos campos do
senhor” (1991). Dessa forma, é evidente que causa bastante frustração saber que
o seu filme-testamento seja um longa-metragem tão decepcionante quanto “Meu amigo
hindu” (2015). Na verdade, os trabalhos imediatamente anteriores de Babenco, “Carandiru”
(2003) e “O passado” (2007), já mostravam um considerável declínio em termos de
inspiração criativa, mas nada também que chegasse aos picos de ruindade do
trabalho derradeiro do diretor. Resumindo, trata-se de uma egotrip narcisista e
autoindulgente do diretor, concebida e elaborada sem o menor traço do cuidado estético-narrativo
e da consistente densidade psicológica que eram marcantes em seus melhores
filmes. É claro que dá para entender que Babenco quisesse transpor para as
telas o seu drama pessoal real de um doloroso tratamento para uma grave doença
e o consequente processo de desagregação de sua vida pessoal decorrente desse
fato, além de mostrar também o seu reerguimento como indivíduo diante de tais
circunstâncias difíceis e complexas. Um artista tem o direito de manifestar
suas obsessões da forma como quiser, e no caso do diretor dá para dizer que a
sua história tem um alcance universal. O verdadeiro equívoco de “Meu amigo
hindu” é que essa viagem intimista ganha um tratamento formal desleixado e
derivativo, acentuado ainda mais por escolhas de produção tremendamente esdruxulas
– para começar, por melhor ator que seja Willem Dafoe, por que escolher um ator
norte-americano para o papel de um protagonista brasileiro, numa trama que se
passa no Brasil, com demais personagens vividos por um elenco brasileiro que
fala em inglês? E com o complemento de que quando a história passa a se situar
nos Estados Unidos aparecem novamente atores brasileiros interpretando
norte-americanos com um inglês macarrônico? E a partir do momento que Bárbara
Paz entra em cena interpretando a si própria, a produção toma outro rumo. E
para pior, caindo no francamente ridículo, beirando a comédia involuntária.
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