Se “Hereditário” (2018) é uma reciclagem vigorosa de clichês
temáticos e narrativos do gênero horror, “The invitation” (2015) representa uma
tentativa frustrada de recriação de tais preceitos. Dá para identificar ao
longo do filme uma série de elementos que já se viu em outras produções
trabalhados com maior inspiração criativa. Culpa da direção convencional em
excesso da cineasta Karyn Kusama que se perde em um roteiro repleto de truques
manjadod, na ausência de uma efetiva atmosfera de tensão, em uma concepção
visual asséptica e em um elenco repleto de atuações canastronas.
Boa parte de amigos e conhecidos costuma dizer que as minhas recomendações para filmes funcionam ao contrário: quando eu digo que o filme é bom é porque na realidade ele é uma bomba, e vice-versa. Aí a explicação para o nome do blog... A minha intenção nesse espaço é falar sobre qualquer tipo de filme: bons e ruins, novos ou antigos, blockbusters ou obscuridades. Cotações: 0 a 4 estrelas.
terça-feira, junho 26, 2018
segunda-feira, junho 25, 2018
Hereditário, de Ari Aster ***
Não há como analisar “Hereditário” (2018) sem dissociar de
todos os comentários e expectativas que cercam o filme. Guardado às devidas proporções,
faz lembrar todo o marketing que se construiu em torno de “A bruxa de Blair” (1999)
na época de seu lançamento. E nos dois casos, o resultado final fica aquém de
toda a lenda publicitária/midiática estabelecida. No caso do filme dirigido por
Ari Aster, essa constatação não implica que que a obra em questão seja ruim.
Pelo contrário. “Hereditário” tem um cuidado formal e narrativo até acima da média
em relação ao que vem sendo feito no gênero nos últimos anos. É belamente
fotografado, encenação e trilha sonora constroem uma convincente atmosfera de
tensão, o roteiro tem uma lógica construída com rigor e o elenco apresenta
caracterizações dramáticas bem delineadas. Também é verdade, entretanto, que o
filme pouco transcende dessa linha do competente. É bastante genérico e
conservador dentro da linha de horror sobrenatural envolvendo conspirações
demoníacas. Na comparação, para ficarmos dentro dessa linhagem cinematográfica,
fica bem distante, por exemplo, da criatividade estética e do tom libertário-existencial
de “A bruxa” (2015).
quinta-feira, junho 21, 2018
Baronesa, de Juliana Antunes ****
A presença de Affonso Uchoa nos créditos como montador em “Baronesa”
(2017) não é mera coincidência. Os dois filmes dele como diretor, “A vizinhança
do tigre” (2014) e “Arábia” (2017), têm forte conexão artística e existencial
com a obra dirigida por Juliana Antunes. Estão lá a temática social e a
narrativa ficcional que emula traços documentais (isso sem falar no uso de
canções dos Racionais MC’s nas trilhas sonoras desses longas-metragens). Mas
enquanto nos trabalhos mencionados de Uchoa há uma atmosfera mais difusa e
lírica, em “Baronesa” a pegada é mais crua e direta e mesmo a trama se
desenvolve em um modelo mais linear. Isso não quer dizer, entretanto, que “Baronesa”
seja menos criativo e impactante. Pelo contrário. A encenação do cotidiano de realidade
das protagonistas Andreia e Leidiane tem uma fluidez impressionante – por mais
que o espectador saiba que aquilo que está na tela é fruto de um trabalho de
interpretação, há um ponto em que essa dramatização traz uma carga de
veracidade tão intensa que joga o filme para um limite perturbador entre o
documental e o encenado; nesse sentido, destaque para o tenebroso episódio de
abuso sexual entre os filhos de Leidiane. Colabora muito para isso a
intensidade e desenvoltura das atuações do elenco, com a cineasta extraindo
momentos antológicos na interação cênica entre esses “amadores”, com direito a
nuances desconcertantes nas variações que se estabelecem entre o cômico e o
trágico. Juliana Antunes também demonstra um senso imagético e narrativo
extraordinário, vide a direção de fotografia que valoriza tanto as sequências
mais intimistas em ambientes fechados quanto as tomadas de grandes planos
abertos nas favelas que servem de cenário para filme, além do sóbrio ritmo
narrativo que respeita a encenação minuciosa concebida pela diretora.
quarta-feira, junho 20, 2018
O caminho dos sonhos, de Angela Schanelec ***
O ascetismo estético e moral que foi a grande marca do
cinema do diretor francês Robert Bresson paira de maneira constante na
narrativa de “O caminho dos sonhos” (2016). A cineasta alemã Angela Schanelec
reduz o formalismo de seu filme ao essencial, formatando um austero conto moral
pontuado por uma bela direção de fotografia e uma montagem sóbria. Dentro desse
direcionamento artístico, não há grandes arroubos criativos ou sensoriais na
obra, o que por vezes torna assistir à produção uma experiência um tanto árida.
De qualquer, tal abordagem acaba se revelando adequada para o tom de desilusão
amarga do roteiro. Schanelec consegue estabelecer de maneira coerente e
profunda algumas ideias complexas em termos de construção psicológica das
situações e dos personagens. Por vezes, até se tem a impressão que a
aleatoriedade predomina sobre a narrativa e a trama, mas as ligações
existenciais entre os fatos e criaturas da história vão se estabelecendo de
maneira sutil. Nesses termos, até mesmo os aspectos temporais se interligam a
partir de um conceito que se defini com fluidez – é como se os dilemas sócio-políticos
em 1984, época da primeira parte do filme, tivessem recebido apenas pequenas variações
em 2014, na metade final da trama, e ao mesmo tempo todas as contradições e
perturbações pessoais que assolam os principais personagens pouco mudassem com
os passar dos anos e o avanço da maturidade. Esse fatalismo até se evidencia
como algo óbvio, mas ainda assim tem um caráter perturbador para o espectador.
Nessa contraposição entre o previsível e o incômodo reside a efetiva
transcendência artística de “O caminho dos sonhos”.
quinta-feira, junho 14, 2018
Deixe a luz do sol entrar, de Claire Denis ***
Narrativa e encenação em “Deixe a luz do sol entrar” (2017)
se mostram em sintonia com a personalidade da protagonista Isabelle (Juliette
Binoche) – enquanto essa é uma mulher de comportamento errático, entre o
volúvel e o voluntarioso, os aludidos quesitos cinematográficos possuem um
caráter artístico inconstante, como se o filme seguisse um fluxo mais nebuloso,
dentro de um formato que mais se vincula ao episódico do que propriamente a um
ordenamento coerente. Os diversos envolvimentos sentimentais de Isabelle
radiografam não apenas suas dúvidas e inseguranças amorosas, mas também a
própria sociedade francesa contemporânea (o banqueiro canalha, o ator
egocêntrico, o ex-marido inconstante, o proletário misterioso). Por vezes tais
simbologias soam um tanto óbvias e esquemáticas, mas em outros momentos
configuram um arguto subtexto. A diretora Claire Denis foge de julgamentos
morais ou mesmo de uma lógica narrativa/temática equilibrada. Filme e
personagem principal entram em uma montanha russa de sensações e soluções
estéticas/existenciais, e sem necessariamente encontrar uma conclusão que
amarre essa “confusão”. O ponto mais fascinante da produção é justamente essa
impressão constante de tudo estar sempre em aberto. Os altos e baixos de
Isabelle não implicam na certeza de um amadurecimento para personagem ou no
atingimento do seu objetivo final do encontro do amor verdadeiro. Na sequência
final, no diálogo entre ela e um místico picareta (Gérard Depardieu),
encontra-se a síntese desconcertante de Denis em sua proposta para “Deixe a luz
do sol entrar”, em que a conversa entre os personagens é prolixa e repleta de
lugares comuns, mas provida de sedutor encanto em sua cadência e nuances.
quarta-feira, junho 13, 2018
Criaturas 2, de Mick Garris ***1/2
Quando foi lançado nos cinemas, “Criaturas 2” (1988) foi
encarado por grande parte do público e a crítica como mais um derivado da
franquia “Gremlins”. O próprio diretor Mick Garris, em depoimento dado em
sessão comentada do filme em questão no XIV FANTASPOA, admitiu que foi chamado
em virtude de sua ligação artística com Steven Spielberg, um dos principais
produtores de “Gremlins”. Com o passar dos anos, entretanto, essa impressão de
mera cópia foi se atenuando até chegar um ponto em que hoje em dia “Criaturas 2”
ganhou uma categorização de pérola obscura do cinema fantástico oitentista.
Garris não tinha a pretensão de fazer uma grande obra-prima do horror ou ficção
científica. Apenas se valeu de maneira eficiente das principais referências estéticas
e temáticas do cinema B norte-americano da época – o uso das trucagens visuais
é preciso e tem um encanto imagético perene, as atuações do elenco variam de
maneira divertida entre o caricatural e o simpático, o roteiro aparentemente
bobo e escapista esconde um subtexto de crítica sutil ao american way of life,
o grafismo violento e exagerado remente ao cartunesco, a encenação é variada e
de admirável desenvoltura tanto no quesito aventura quanto nas sequências mais
baseadas em diálogos (distante, aliás, das narrativas frenéticas atordoantes
dos blockbusters contemporâneos). Ou seja, no cômputo geral, “Criaturas 2” é um
passatempo nostálgico, beirando o anacrônico, mas que ainda assim revela alguns
agradáveis pontos criativos.
segunda-feira, junho 11, 2018
A câmera de Claire, de Hong Sang-soo ***1/2
Há elementos narrativos e temáticos que são recorrentes no
cinema de Hong Sanso-soo: a câmera que se move emulando uma filmagem caseira,
jovens mulheres que se envolvem amorosamente com homens mais velhos
comprometidos, personagens e situações ligados ao mundo do cinema, sequências
de diálogos entre o prosaico e o intimista que se desenvolvem em uma mesa para
refeições, o fluxo temporal que não obedece necessariamente a uma ordem linear.
Tudo isso está presente novamente em “A câmera de Claire” (2017) e ainda assim
a produção traz um frescor artístico encantador, como se o cineasta pudesse
extrair de tal concepção estética/textual sempre alguma surpresa sutilmente
desconcertante para o espectador. Nesse peculiar estilo de filmar, a presença
luminosa de Isabelle Hupert cai como uma luva. Sua atuação tem a medida certa
entre a leveza de seus gestos e expressões e a sutileza psicológica com que se
torna um catalizador involuntário de emoções para os demais personagens.
sexta-feira, junho 08, 2018
Han Solo: Uma história de Star Wars, de Ron Howard ***
Dentro da retomada da franquia “Star Wars”, pelo menos uma
coisa fica evidente: os spin offs da série são bem melhores que os capítulos
que dão prosseguimento à saga. Isso porque “Rogue One” (2016) e “Han Solo” (2018)
mostram narrativas, roteiros e encenações mais focadas e em sintonia
existencial-artística mais consistente com os filmes clássicos anteriores do
que “O despertar da força” (2015) e “Os últimos Jedi” (2017). Se “Rogue One”
tinha uma cara de produção B de orçamento milionário que cruzava
ficção-científica e filmes de guerra, “Han Solo” dá a impressão de um “Indiana
Jones” que se passa no espaço sideral. Esse pique de aventura oitentista é
perfeitamente compreensível – Ron Howard, nome expressivo nessa linhagem cinematográfica,
é o responsável pela direção. Ele faz tudo à moda antiga. Ainda que as
trucagens digitais deem o ar contemporâneo, o ritmo narrativo e a trama remetem
a um estilo mais tradicional de filmar, quase anacrônico, mas que se mostra
eficiente em termos de ação e suspense. Nada que chegue a ser especificamente
brilhante, Howard nunca foi um cineasta de obras-primas e de grandes arroubos
criativos, mas “Han Solo” é divertido e por vezes até mesmo cativante. E isso,
em termos de um blockbuster de ficção-científica de aventura, é um tremendo
mérito. E mesmo dentro desse caráter escapista, o filme consegue ter uma certa
densidade dramática, principalmente na caracterização de personagens e nos
dilemas éticos-morais da história. Tanto que os desdobramentos finais da trama
deixam certa curiosidade pelo destino de alguns personagens, principalmente da ambígua
Kira (Emilia Clarke) – já em “Os últimos Jedi”, por exemplo, a conclusão era
tão frouxa que a lembrança e interesse pelas figuras da trama rapidamente se
esvanecem após o término da exibição.
quinta-feira, junho 07, 2018
O maníaco, de William Lusting ****
Durante o XIV FANTASPOA, mais especificamente na sessão
comentada de “O maníaco” (1980), o diretor norte-americano William Lusting
confessou que o filme em questão era diretamente inspirado no gênero giallo.
Assistindo à referida obra, tal constatação fica bastante evidente, vide o
grafismo exagerado e escatológico das cenas de assassinatos, os temas
incidentais algo dissonantes da trilha sonora e a atmosfera entre o sombrio e o
sórdido que predomina na narrativa. Essas referências, entretanto, são
incorporadas dentro de uma visão artística bem particular por parte de Lusting.
Ao invés daquela concepção estética que emulava o operístico e o barroco que
marcou vários trabalhos de Dario Argento, Mario Bava, Lucio Fulci e tanto
outros luminares italianos, “O maníaco” apresenta um formalismo bem mais cru e
direto, ainda que rigoroso e coerente sob a direção segura de Lusting. A
encenação e o roteiro se mostram em uma impressionante sintonia na forma com
que retratam a história do psicopata assassino Frank Zito (Joe Spinell) – ao
invés da narrativa ser enquadrada dentro de um óbvio e maniqueísta conto sobre
o embate entre o bem e o mal, o que se tem é um registro aterrorizante e
desolador do cotidiano do demente homicida trucidando mulheres e se perdendo em
delírio edipianos. A tensão sufocante do filme não vem tanto do suspense em
relação à morte de suas vítimas, mas sim da progressiva desagregação mental e
moral do protagonista que o leva a um fim que se configura como um pesadelo
perturbador. É notável também como Lusting incorpora a própria cidade de Nova
York na narrativa – mais do que simples pano de fundo, a metrópole funciona
como uma espécie de extensão imagética e existencial dos delírios brutais de
Frank, entre uma efervescência de cores e barulhos e ambientações de sujeira e
ruínas.
quarta-feira, junho 06, 2018
O processo, de Maria Augusta Ramos ****
Pode-se acusar a diretora Maria Augusta Ramos de ser “parcial”
e “panfletária” em “O processo” (2017). Na forma com que a narrativa se
desenvolve, fica bem claro que a cineasta escolheu um lado. Mas isso não representa
demérito algum para o seu filme. Afinal, o documentário cinematográfico não é
equivalente a uma cobertura jornalística imparcial. E pelo menos a diretora não
cai na hipocrisia da dita “isenção” tão apregoada (e pouco praticada) pela
Globo e outros grandes grupos midiáticos. Mas o que torna “O processo” um
trabalho antológico dentro do gênero cinema-verdade é efetivamente a sua
concepção artística. Isso fica logo evidente na sua impressionante abertura –
em um grande plano-sequência panorâmico, a câmera registra as ruas em frente ao
Congresso Nacional, no dia da votação pelo impeachment por parte dos deputados federais,
divididas entre aqueles que apoiam e combatem o golpe parlamentar. O registro
imagético é a perfeita tradução de um país profundamente polarizado em termos
ideológicos.
A narrativa e o formalismo de “O processo” obedecem a uma
lógica de rigor estético e existencial por parte de sua diretora. Ela não
recorre a uma voz narradora que explique as coisas mastigadas para o espectador
e nem a uma música incidental que evoque alguma atmosfera. Nem mesmo faz
entrevistas diretas com os principais personagens da dantesca saga que
desenrola na tela. No máximo se permite a econômicos comentários escritos que
contextuam a ação e o tempo. Para o filme, basta fazer o registro audiovisual
dos atos e fatos e os encaixar dentro de uma sóbria montagem. Se tais escolhas
podem parecer espartanas, na prática são mais que suficientes para que Maria
Augusta construa uma obra repleta de sufocante tensão dramática. Por vezes, a
ambientação opressora e a sensação de fatalismo se tornam tão angustiantes que
a própria narrativa oferece certos momentos em que a tela fica escura e o som
silencia para que se possa respirar um pouco. A situação de que os senadores
esquerdistas e o advogado geral da união que defendem Dilma Houssef evocam uma
síntese de abnegação e altivez enquanto a “acusadora” Janaína Paschoal parece
uma fanática fundamentalista e senadores de direita demonstrem uma desfaçatez nada
constrangida pode sugerir algo de maniqueísta, mas também garante um forte grau
de empatia e emotividade para a obra.
O misto de austeridade e vigor com que Maria Augusta Ramos
conduz “O processo” é desconcertante na medida em que a exposição dos fatos
históricos também é marcada por um sutil subjetivismo na sua construção como
narrativa. Dentro dessa visão artística, o documentário transcende a sua
própria condição e vai se convertendo também em um verdadeiro conto de horror.
Talvez essa condição se arrefeça em alguns anos, quando toda essa história se
torne um pouco mais distante e o ato de se relembrar o que ocorreu naqueles
meses 2016 não seja tão doloroso. No calor desse conturbado 2018, entretanto, “O
processo” é um potente retrato de um país despedaçado pelo fascismo de direita
e pelo impiedoso domínio sócio-político de grandes conglomerados econômicos e
midiáticos (aspectos esses diretamente ligado ao processo do impeachment/golpe
sofrido por Dilma, ligação que o filme estabelece com contundência). Tal
cenário desolador encontra a tradução perfeita na melancólica e sombria cena
final de “O processo”, em que a tela vai sendo tomada por uma densa fumaça,
oriunda da mistura entre gás lacrimogênio e fogo de um cenário de conflito
entre polícia e manifestantes de grupos sociais protestando contra as ações do
usurpador Temer no ataque a direitos trabalhistas e previdenciários.
terça-feira, junho 05, 2018
Deadpool 2, de David Leitch **
Parecia muito promissor: a continuação do divertido “Deadpool”
(2016) dirigido por David Leitch, responsável por ótimos filmes de ação
recentes (“De volta ao jogo” e “Atômica”). O resultado final, entretanto, ficou
bem aquém em relação às boas expectativas que se tinha. A fórmula narrativa que
deu certo no primeiro filme está lá – violência gráfica explícita, humor
metalinguístico e escroto, frenéticas cenas de ação. Só que tais elementos
formais e temáticos são repetidos à exaustão a um ponto que se retira qualquer
traço de tensão da obra. Isso fica bem evidente nas caracterizações de
personagens importantes como Cable (Josh Brolin), Dominó (Zazie Beetz) e
Fanático. Se nas histórias dos quadrinhos originais tais figuras têm considerável
peso dramático, no filme em questão se limitam a distribuir porrada e dizerem
algumas breves frases. A gozação indiscriminada com o universo das produções de
super-herói às vezes até rende algumas boas piadas e tem o seu grau de ousadia,
mas a repetição excessiva dessa atmosfera de farsa no final das contas deixa tudo
muito cansativo e banal. Mesmo as cenas de ação caem numa formatação derivativa
e pouco memorável. E por mais que Deadpool (Ryan Reynolds) goste de tirar um
sarro com a franquia de Wolverine, a verdade é que o filme de Leitch ficou
muito distante da classe estética e da perturbadora trama do antológico “Logan”
(2017).
segunda-feira, junho 04, 2018
Amante por um dia, de Philippe Garrel ***1/2
O cinema do diretor francês Philippe Garrel obedece a um
fluxo narrativo muito particular. Isso é bastante evidente em “Amante por um
dia” (2017). A partir de uma premissa simples de roteiro, situações e
personagens se desenvolvem de uma maneira fluída, não obedecendo a maniqueísmos
morais e fórmulas estéticas. A encenação valoriza os gestos do cotidiano, as
reações imprevisíveis, a sutil expressividade dos olhares dos atores. A
atmosfera até remete a um certo tom solene ao esmiuçar a jornada intimista dos
personagens, principalmente no que sugere a combinação de uma voz de narração
de traço e texto quase literário e os discretos e românticos temas musicais
incidentais, mas há uma ágil e moderna desenvoltura na forma com que as coisas se
desenrolam em cena. Se as sequências envolvendo diálogo revelam delicadeza e
sobriedade na sua condução e ambientação, nas ótimas cenas de sexo há uma
intensidade visceral na coreografia dos corpos, como se sugerisse uma contundente
contraposição entre a racionalidade do discurso amoroso/intelectual com a crueza
carnal do coito. Ao longo da narrativa, essa concepção artística de Garrel vai
configurando uma coerência formal e textual contundente, até chegar a uma
conclusão que desconcerta o espectador ao dispensar arroubos emocionais e
moralismos fáceis. Para Garrel, o que existe na vida e na arte é simplesmente o
destino que ignora crenças e regras sentimentais dos indivíduos que rege.
quarta-feira, maio 30, 2018
A mata negra, de Rodrigo Aragão ***1/2
Os primeiros filmes do diretor capixaba Rodrigo Aragão são marcados por
uma certa precariedade de recursos de produção, típicos de produções
independentes. Isso não quer dizer, entretanto, que tais trabalhos caíram no
amadorismo trash. Muito pelo contrário. Aragão demonstrou em filmes antológicos
como “Mangue negro” (2008) e “A noite do chupa-cabra” (2011) um considerável
domínio narrativo e fortes traços autorais em determinados elementos estéticos
e temáticos. O formalismo oscila de forma desconcertante entre o sórdido e sujo
até um requinte plástico que beira o barroquismo. Tentando resumir, é algo como
se aquele Peter Jackson em seus filmes iniciais de horror, naquela síntese enlouquecida
de humor negro e grafismo escatológico, tivesse surgido dentro de um contexto
regionalista do Espírito Santo. Nessa estranha fórmula artística, sobressaem-se
detalhes como a trilha sonora que combina temas incidentais tradicionais com marcantes
melodias e ritmos folclóricos, as atuações intensas de boa parte do elenco, os
efeitos especiais artesanais de sensorialismo imagético desconcertante e as
insanas e escrotas atmosferas de tensão sobrenatural. Todas essas qualidades se
mostram ainda indeléveis em “A mata negra” (2018), primeiro longa-metragem de Aragão
que contou com um orçamento bem mais generoso originário de uma lei de
incentivo. É claro que os efeitos digitais dão uma cara mais palatável para o
filme, mas o que fica na memória mesmo do espectador é a forma com que elementos
convencionais do gênero horror são apresentados sem que caiam na caricatura e
na mesmice. Em uma trama envolvendo magia negra, satanismo e sordidez humana, “A
mata negra” se configura como um trabalho de momentos efetivamente assustadores
e que não cai na assepsia previsível daquelas franquias de terror que grassam
nos multiplexes da vida. Seus momentos cômicos não são apenas um alívio cênico
diante de jorro de sangue e negativismo que brotam constantemente da tela – na verdade,
acentuam ainda mais o caráter perturbador do filme. E mesmo o gancho para uma
possível continuação que aparece na conclusão da história se mostra mais como
um desdobramento natural do que simples oportunismo mercadológico.
terça-feira, maio 29, 2018
O fundo do ar é vermelho, de Chris Marker ****
Considero que o melhor
equivalente artístico-existencial para o documentário “O fundo do ar é vermelho”
(1977) é a o ensaio histórico-literário “Rumo à Estação Finlândia”. Ambas as obras
procuram traçar um amplo panorama sobre a evolução do pensamento socialista no
mundo, bem como as suas concepções teóricas acabaram se cristalizando em ações.
Se o livro de Edmund Wilson é marcado pelo rigor intelectual e filosófico, o
filme de Chris Marker estrutura sua narrativa como se fosse um atordoante fluxo
sensorial e poético, em que a ordem linear dos fatos e ideias não se constrói
de forma exatamente clássica e acadêmica. O espectador entra em um vórtice de
trechos audiovisuais de origens diversas, de reportagens para a televisão a
registros amadores. A narrativa pode parecer por vezes caótica e aleatória, mas
essa impressão é enganadora – de maneira sutil, há sempre o senso de unidade e
coerência na direção de Marker. Essa sua formatação desconcertante na realidade
procura obedecer ao forte caráter emocional e ideológico que a torrente de
imagens e depoimentos extravasa com fúria e paixão, sem que se perca,
entretanto, uma lúcida visão sobre os rumos conturbados dos indivíduos e seus
ideais. Dento de tal concepção artística e temática, por vezes as sensações se
avolumam como uma montanha russa, variando da sincera admiração e carinho por
pessoas e suas convicções e atitudes até a melancolia pelas suas várias
derrotas e repressões sofridas – nesse último caso, tal percepção se aprofunda
de maneira dolorosa no terço final da narrativa. Apesar disso, “O fundo do ar é
vermelho” está muito longe do óbvio pessimismo ou da “desilusão” hipócrita. O
vigor da narrativa e dos ideais humanistas expostos é aquilo que fica efetivamente
gravado em nosso imaginário. A força das imagens finais e o belo discurso que
as acompanha reforçam esse caráter desafiador e poético do documentário de
Marker.
quarta-feira, maio 23, 2018
Guarnieri, de Francisco Guarnieri ***1/2
Nos anos 60, os atores
Paulo José e Gianfrancesco Guarnieri contracenaram juntos em peças importantes
da história do teatro brasileiro. Por uma dessas coincidências da vida, “Todos
os paulos do mundo” (2018) e “Guarnieri” (2017), documentários que focam a vida
desses dois artistas, acabaram tendo estreia nacional nos cinemas praticamente
na mesma época. Mas enquanto o primeiro filme tem um enfoque primordial na
figura de seu protagonista como homem de cinema, na obra dirigida por Francisco
Guarnieri, neto do cinebiografado em questão, o conceito é outro. Logo no
início da narrativa, é estabelecida a relação entre o Gianfrancesco Guarnieri
ator/diretor/dramaturgo/letrista/ativista político com a contraparte desse
mesmo homem como pai de família. No desenvolvimento do filme, sutilmente, essa
ideia sempre estará presente. Nos primeiros momentos, há uma percepção de um certo
ressentimento emocional por parte do diretor pelo fato de Gianfrancesco nunca
ter correspondido a um certo padrão idealizado do que deveria ser um pai e avô
ativo e presente. Aos poucos entretanto, a partir de uma concepção artística que
beira o dialético na forma com que vários trechos de imagens de arquivo de
peças, filmes, novelas e entrevistas que trazem Gianfrancesco em cena se
entrecruzam com os depoimentos dos filhos Paulo e Flávio, essa visão de mágoa
familiar vai se esvanecendo, principalmente na constatação natural e fluida que
se passa a ter da tremenda riqueza cultural e pessoal que irradiava da figura
de tal patriarca. A vida e obra de Gianfrancesco Guarnieri refletiam não apenas
alguns dos mais relevantes episódios artísticos do Brasil da década de 50 até
hoje, como também alguns dos mais emblemáticos dilemas sócio-políticos da nação
que reverberam ainda na atualidade. Diante da efervescência de um cenário como
esse e da própria postura humanista de Gianfrancesco, fica claro para o neto
cineasta, filhos e o espectador de que tentar encaixar tal indivíduo a partir
de critérios moralistas e maniqueístas seria simplista e vazio. O próprio personagem
principal do documentário afirma em um determinado momento que não consegue se
encaixar nesse tipo de definições. O ponto mais fascinante de “Guarnieri” está
justamente na forma com que uma inquietação intimista acaba se convertendo de
maneira sensível e precisa na exposição contundente e apaixonada do enorme legado
artístico e existencial de um homem singular.
segunda-feira, maio 21, 2018
Todos os paulos do mundo, de Gustavo Ribeiro e Rodrigo Oliveira ***
Para o documentário “Todos
os paulos do mundo” (2018) há um ponto primordial a ser expor em sua narrativa:
a de mostrar a trajetória do ator Paulo José como homem de cinema. Sua fase
inicial no teatro, de relevante papel histórico e existencial na sua formação
dramática, é evidenciada como um preparativo para aquilo que desenvolveria em
sua plenitude na grande tela. Seus trabalhos na televisão dão a impressão de
uma circunstância profissional necessária em períodos que o cinema nacional se
encontrava em dificuldades. Mesmo a vida pessoal não chega a ser detalhada de
maneira minuciosa, limitando-se com sensibilidade a oferecer pequenos e
expressivos recortes sobre romances, amizades e outros tipos de afetos. Em
termos formais e narrativos, os diretores Gustavo Ribeiro e Rodrigo Oliveira
usam recursos simples e eficazes, juntando uma ágil edição a expor trechos
antológicos de alguns dos principais filmes em que Paulo José atuou, sem se
apegar a um sentido linear cronológico, com textos de impressões e reminiscências
pessoais escritas pelo próprio ator e narrados por ele e convidados. Esse
conjunto estético-temático acaba construindo um contundente panorama não
somente da vida de seu protagonista como do próprio cinema nacional e de seus
principais realizadores nos últimos 50 anos, indo de obras-primas de Domingos
de Oliveira e Joaquim Pedro de Andrade, passando por produções expressivas de
Luís Sérgio Person e Murilo Salles, abarcando mesmo a retomada dos trabalhos
nativos na década de 90 e chegando a filmes nacionais desse século. Por vezes
essa fórmula narrativa chegar a soar cansativa e acomodada, caindo até para um
certo sentimentalismo excessivo, mas ainda assim “Todos os paulos do mundo”
consegue oferecer um retrato fiel e entusiasmado de um artista inquieto e
também de algumas das principais realizações culturais brasileiras nas últimas
décadas.
sexta-feira, maio 18, 2018
Viagem fantástica, de Richard Fleischer ***1/2
Há uma diferença fundamental
entre o anacrônico e o clássico? Um filme como “Viagem fantástica” (1966) acaba
suscitando esse tipo de dúvida. Dentro do gênero aventura fantástica, a
produção dirigida por Richard Fleischer se formata por elementos praticamente
em desuso no cenário contemporâneo. O ritmo da narrativa parece quase
contemplativo diante da dinâmica frenética, por exemplo, dos filmes de
super-heróis da Marvel ou da DC, as trucagens baseadas em coloridos cenários e
seres de isopor e afins estão distantes do hiper-realismo dos efeitos digitais
proeminentes nos dias de hoje e a encenação tem um caráter entre o canastrão e
o ingênuo que nada lembra o naturalismo exacerbado daquilo que é considerado “moderno”
pelos lançamentos do mês. No conjunto geral de tais escolhas artísticas,
entretanto, há um considerável grau de encanto sensorial que faz com o
espectador até se sinta dentro de uma espécie de nostálgico delírio onírico.
Por mais que algumas ideias do roteiro e mesmo da concepção visual do filme
possam parecer estapafúrdias, quase infantis, há um toque de elegância e
sobriedade na direção de Fleischer que dá à “Viagem fantástica” uma notável
coerência artística-existencial.
quarta-feira, maio 16, 2018
Desejo de matar, de Eli Roth **1/2
De certa forma, pode-se dizer que a refilmagem de “Desejo de matar”
(2018) é bastante daquilo que se poderia esperar da junção das pessoas e
elementos envolvidos na produção. Há o viés fortemente conservador do roteiro
na defesa do cidadão que se arma e faz justiça com as próprias, o gosto pela
plasticidade brutalista explícita beirando o gore que o diretor Eli Roth tanto
aprecia, a propensão de Bruce Willis para papéis de durão (ele até tenta capengamente
no início dar alguma densidade dramática para o protagonista, mas só engrena
mesmo quando reencarna o John McClane de “Duro de matar”). E é claro que essa
combinação casca-grossa recebe um verniz de “modernidade” em termos narrativos
e estéticos para deixar tudo mais palatável para as plateias contemporâneas. Ou
seja, ao invés da atmosfera e formalismo sóbrios e quase reflexivos do filme
original de 1974, há aquele ritmo frenético e ambientação barulhenta típicos da
escola “Velozes e furiosos”. O real problema dessa nova versão não está
propriamente na tentativa de atualização ou mesmo no caráter ostensivamente
fascista e maniqueísta com que expõe suas convicções e dilemas. O que impede
que a obra atinja um patamar artístico parecido com o clássico de Michael
Winner é simplesmente o fato de que todos os elementos que eram para serem
renovadores ou que pretensamente tinham um viés de insólito ou mesmo original
não são efetivamente desenvolvidos e trabalhados até o fim. Tudo fica pelo meio
do caminho. Tanto que as melhores cenas são aquelas em que Roth faz lembrar o violento
barroquismo gráfico da franquia “O albergue” (ainda o seu grande momento
criativo nas telas). No restante, o novo “Desejo de matar” soa genérico como um
tanto de produções no gênero que aparecem com considerável frequência nos
multiplexes da vida.
terça-feira, maio 15, 2018
Raw, de Julia Ducornau **1/2
A diretora Julia Ducornau busca em “Raw” (2016) uma
aproximação ao terror antropológico repleto de simbologias, mas procurando
aproveitar alguns preceitos narrativos tradicionais do gênero horror. Algumas
ideias do roteiro são interessantes, relacionando o canibalismo da protagonista
Justine (Garance Marillier) com fundamentos atávicos e mesmo a toques de
feminismo. Essa pretensão de crítica à sociedade patriarcal, entretanto, acaba
se diluindo em uma abordagem narrativa e estética marcada por um certo tom “clean”.
Há algumas sequências dominadas por uma interessante plasticidade brutal e
sangrenta. Ou seja, os melhores momentos do filme é quando afunda o pé na jaca
do terror gore. Quando envereda pelo lado do suspense psicológico é que as
coisas descambam – nesse último quesito, faltou uma caracterização de situações
e personagens mais aprofundada e menos superficial em termos de densidade
dramática.
segunda-feira, maio 14, 2018
O presente, de Joel Edgerton **
Você já viu esse filme diversas vezes, e em algumas oportunidades
ele era bem melhor... Talvez o certo destaque que “O presente” (2015) ganhou
venha do fato de ser a estreia na direção de um longa do ator Joel Edgerton,
daí como ele seguiu direitinho o manual do suspense contemporâneo acabou gerando
uma boa impressão. Há até uns bons sustos em alguns momentos, mas o filme não
vai muito além do óbvio e previsível. As viradas dramáticas do roteiro obedecem
a uma mecânica engessada, a encenação nada se afasta do naturalismo sem graça e
a atmosfera e concepção visual são marcadas pela assepsia. Por vezes, há uma
sugestão de leve “transgressão” por apresentar uma discreta crítica ao superficialismo
e arrivismo existenciais do homem branco ocidental. Mesmo isso, entretanto,
perde-se em uma conclusão moralista e machista. Para quem se interessa pelo
gênero e temática cinematográficos em questão, recomenda-se a versão porrada de
Martin Scorsese para “Cabo do medo” (1991), um exercício brutal, exagerado e
brilhante de suspense no cinema.
sexta-feira, maio 11, 2018
Morrer aos trinta anos, de Romain Goupil ****
A temática relativa ao maio de 1968 é um ponto em comum
entre os documentários “Morrer aos trinta anos” (1982) e “No intenso agora”
(2017). Tanto que esse último cita explicitamente em imagens o primeiro. Mas há
fortes diferenças existenciais e artísticas entre tais produções. Se na brilhante
obra brasileira dirigida por João Moreira Salles a narrativa se baseia
exclusivamente em imagens de arquivo filmadas por terceiro e apresenta um olhar
desencantado e subtexto sutilmente conservador, no filme francês dirigido por
Romain Goupil o enfoque é praticamente o oposto – grande parte do que é
mostrando em termos de imagens vem de filmagens próprias de Goupil e sua visão pessoal
sobre os eventos tem expressivos traços melancólicos, mas sem perder uma certa
verve de entusiasmo e carinho por todos aqueles fatos nos quais teve uma
participação direta. E aí está justamente um dos grandes pontos de fascínio em
seu longa-metragem, em que o intimismo e a ambientação sócio-política parecem
se entrelaçar como se fosse uma coisa só. A dinâmica dos fatos mostrados em
tela não tem apenas o caráter histórico de situações que estão congelados hoje
em dia no tempo e no espaço para estudos. Na concepção de Goupil toda aquela
engrenagem ainda está em movimento, ou melhor, já estava em franco
desenvolvimento antes mesmo do maio de 1968. Assim, “Morrer aos trinta anos”
não é um simples relato histórico. Também é a expressão, mista de emotividade e
racionalismo, de uma série de sentimentos, desejos, utopias e frustrações,
elementos esses que se configuram intensamente na trajetória pessoal de Michel
Recanati, o real protagonista do documentário, agente ativo do maio de 68 e
seus desdobramentos ao longo dos anos e que teve um fim precoce ao cometer
suicídio. Na obra-prima de Goupil, não cabe explicações prontas para as
atitudes de Recanati e seus companheiros ou precisos julgamentos morais para os
fatos mostrados na tela. No final das contas, o que resta para o imaginário do
espectador é o fascínio e o mistério diante de personagens que desafiaram um
ordenamento sócio-político marcado pela opressão e pragmatismo desumanos.
quinta-feira, maio 10, 2018
Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans ****
Se em “A vizinhança do tigre” (2014) o diretor Affonso Uchoa
criava uma fascinante síntese entre o documental e a encenação, em “Arábia”
(2017), codirigido com João Dumans, ele parte para uma concepção narrativa
aparentemente mais tradicional, que se formata como drama ficcional. Ainda
assim, é uma obra que ainda se vincula a um conceito de “cinema verdade”,
afinal boa parte do roteiro é diretamente inspirada nas memórias do ator
Aristides de Souza, ator que dá vida a Cristiano, protagonista da obra em
questão. Esse filme mais recente parece continuar de onde o anterior parou – se
“A vizinhança do tigre” era um flagrante do cotidiano de brincadeiras e
contravenções de um bando de garotos da cidade mineira de Contagem, em “Arábia”,
um jovem delinquente desiste da vida de pequenos crimes na mesma cidadezinha e
resolve percorrer o interior de Minas Gerais em busca de trabalho e de alguma
estabilidade social e emocional em sua vida. Os caminhos estéticos e textuais
de Uchoa e Dumans para narrar esse pequeno conto existencial até obedecem a
critérios de linearidade e atmosfera realista, mas apresentam alguns desvios
marcados pelo insólito, pela sutileza e pelo mistério. O verdadeiro começo da
trama vem na exposição de uma rotina de privações econômicas e emocionais de um
garoto (Murilo Caliari) que por acaso descobre o diário de Cristiano, falecido
recentemente. A partir desse momento, a narrativa é conduzida pela voz do
protagonista a ler o seu diário a expor diversos percalços e poucas alegrias e
paz de espírito. O ritmo da narrativa é sóbrio, sem sobressaltos, dando a
impressão da marcha inexorável rumo a um fim melancólico. Na jornada de
Cristiano, está presente tudo aquilo que é comum na biografia de milhões de
semelhantes ao personagem principal – exploração sócio-econômica,
invisibilidade perante a uma sociedade alienada, o progressivo embrutecimento e
desesperança. “Arábia” não cai no discurso e nas armadilhas do sentimentalismo
fácil. Subtexto e recursos narrativos realçam mais o lado de surda revolta e
desilusão perante um sistema que vende a ilusão de uma sociedade que permite a
ascensão de todos pelos próprios méritos, quando na verdade massacra
impiedosamente os despossuídos e qualquer um que ouse se rebelar contra a
perversidade e hipocrisia de tal status quo. A dureza nas constatações do
filme, entretanto, não impede que se evidencie uma pungência comovente na sua
abordagem artística.
quarta-feira, maio 09, 2018
Vingadores: Guerra infinita, de Joe e Anthony Russo ***1/2
A forte mortandade de personagens em “Vingadores: Guerra
infinita” (2018) pode impressionar os neófitos do Universo Marvel nos
quadrinhos. Afinal, nas histórias originais das HQs, alguns dos principais
heróis, vilões e coadjuvantes importantes sucumbirem de forma dramática não
chega a ser algo exatamente raro. Mesmo porque é bastante provável que algumas
edições depois de tais “mortes” as mesmas figuras apareçam ressuscitadas mediante
explicações estapafúrdias. Então, é quase certo que na continuação a ser
lançada em 2019 todo mundo que morreu reapareça vivinho sem maiores
consequências. Isso, entretanto, retira os méritos dessa obra mais recente dos estúdios
Marvel? A resposta é não. E até pelo contrário. Talvez o mais fascinante nesse
filme dirigido pelos irmãos Russo esteja na capacidade de envolver o espectador
em sua narrativa frenética mesmo que abuse de certo clichês temáticos e
formais. O fato de ter de conciliar várias tramas paralelas na mesma narrativa
por vezes torna o ritmo dessa um tanto irregular, além do roteiro ser
claudicante em qualquer cena que envolva uma atmosfera, digamos, mais intimista
(com exceção para a dinâmica que se estabelece entre Thanos e Zamora). Tirando
tais deslizes compreensíveis, afinal se trata de um blockbuster que obedece a
uma fórmula criativa bem delimitada pelo estúdio e até pelo mercado consumidor,
“Vingadores: Guerra infinita” consegue reproduzir com fidelidade e convicção
boa parte dos encantos que as sagas espaciais dos Vingadores traziam em alguns
de seus maiores clássicos (incluindo aí também algumas histórias escritas pelo
mestre Jim Starlin para Capitão Marvel, Warlock e Thanos). A combinação entre
aventura épica e tiradas humorísticas é bem dosada, gerando algumas sequências
de ação memoráveis (nesse sentido, destaque absoluto para as cenas protagonizadas
pela trinca Thor, Rocket Raccoon e Groot). E Thanos (Josh Brolin) tem uma
caracterização impressionante em termos imagéticos e de densidade psicológica,
disparado o melhor vilão no universo fílmico da Marvel. Para quem tinha se
decepcionado com o brochante “Era de Ultron” (2015), “Guerra infinita”
representa uma bela retomada criativa para a franquia e dá um considerável
gostinho de quero mais para a continuação.
terça-feira, maio 08, 2018
O roubo da taça, de Caito Ortiz ***
É interessante como às vezes um filme aparentemente
despretensioso e escapista pode ser muito mais revelador do espírito de uma
época do que muitas produções ditas sérias. Esse é justamente o caso de “O
roubo da taça” (2016). A trama ficcional usa elementos de fatos reais,
principalmente ligados ao célebre roubo da taça Jules Rimet no início dos anos
80, tendo uma narrativa que remete a clássicos elementos de comédias de erro e
chanchadas, abordagem essa que é ainda mais acentuada pela ótima e debochada
atuação de Paulo Tiefenthaler no papel do protagonista Peralta. A atmosfera do
filme tem um forte caráter caricatural, até em excesso em algumas situações,
mas consegue evidenciar um dos lados mais tenebrosos do período da ditadura
militar no Brasil – a síntese de bagunça, brutalidade e completo desrespeito ao
estado de direito por parte do conjunto militares, policiais e demais
colaboradores do regime. A simples falta de método e ordem para investigar um
crime, usando como critérios únicos a violência e a ocasional sorte, reflete um
país que parecia resistir a qualquer custo a ter como base elementos essenciais
para qualquer nação como o humanismo e o racionalismo. Os azares e equívocos de
Peralta em meio a um ambiente marcado pelo absurdo político-existencial que
beira o kafkaniano tem algo de tragicômico, e que de certa forma dá uma
impressão ainda mais perturbadora para o espectador quando esse percebe que as
coisas não mudaram muito nos dias presentes.
segunda-feira, maio 07, 2018
Psicopata americano, de Mary Harron ***
O grande mérito de “Psicopata americano” (2000) é o fato
dele sair do lugar-comum ao tratar de sua temática – ao invés da típica
formatação dos gêneros suspense e horror a versarem sobre assassinos seriais, a
produção dirigida por Mary Harron prefere a abordagem de uma comédia de humor
negro em tons algo delirantes e repleta de simbologias sobre as relações de
poder na sociedade contemporânea. Por vezes, essa carga de metáforas visuais e
textuais se mostra um tanto óbvia e explícita na forma com que relaciona o
desejo insaciável por violentos homicídios do protagonista Patrick Bateman (Christian
Bale) com a sua rotina competitiva e vazia em termos existenciais como
executivo bem-sucedido financeiramente e frequentador das altas rodas sociais
na vida noturna nova-iorquina. O fato da trama se situar nos anos 80, período
de ascensão e auge dos yuppies, acentua ainda mais esse lado de crítica ao
consumismo desumano e desenfreado a se refletir no sadismo sem limites do
personagem principal. Esse lado de fábula moral previsível, entretanto, é
compensado por algumas sequências memoráveis na sua síntese de comicidade
insólita e exagerada brutalidade gráfica. A atuação de Bale é outro ponto alto,
conciliando fúria alucinada e senso de humor canastrão com uma naturalidade
admirável.
sexta-feira, maio 04, 2018
O melhor lance, de Giuseppe Tornatore *
A filmografia do diretor italiano Giuseppe Tornatore sempre
andou em um frágil equilíbrio entre um respeitável academicismo
formal-narrativo e uma atmosfera mista de solene e banal, com roteiros com forte
tendência para o novelesco sentimental. Por vezes, tal concepção artística
rendeu alguns bons filmes sem grandes sobressaltos criativos (“Cinema Paradiso”,
“Estamos todos bens”), mas nos últimos tempos ela vinha desandando em uma série
de obras esquecíveis. “O melhor lance” (2013) é o fundo do poço para Tornatore.
Todos aqueles preceitos estéticos e temáticos que por vezes soavam incômodos em
trabalhos anteriores agora soam simplesmente odiosos. Tornatore aparentemente
domina uma técnica, mas de maneira estéril, sem vida, às vezes até resvalando no
rococó ridículo. O tom operístico da narrativa tem a pretensão de uma
grandiosidade barroca – no resultado final, o que fica na cabeça do espectador é
uma narrativa marcada por uma opulência brega e vazia. Se o diretor tivesse
conduzido o filme como uma intencional grande paródia megalomaníaca talvez
pudesse criar algum ponto de interesse para o espectador minimamente exigente.
O problema é que ele faz tudo a sério mesmo, inclusive querendo dar uma
patética dimensão épica para um roteiro ridículo e descerebrado. Nem a novela
mexicana mais vagabunda seria tão equivocada.
quinta-feira, maio 03, 2018
Gênios do crime, de Jared Hess ***
O diretor norte-americano Jared Hess conseguiu um feito
considerável ao mostrar uma concepção narrativa renovadora para o gênero
comédia nos filmes “Napoleon Dynamite” (2004) e “Nacho Libre” (2006). Em “Gênios
do crime” (2016), ele se mostra mais adaptado a convenções em termos formais e
temáticos, mas ainda assim consegue oferecer uma produção acima da média. Sua
encenação tem uma fluidez notável, principalmente em termos de interação entre
os personagens, valorizando as nuances entre o sórdido e o cômico presentes no
roteiro. É claro que os tradicionais clichês narrativos desse tipo de produção
estão presentes. Contudo, eles por vezes até são pervertidos em nome de uma
visão ácida sobre a breguice e o arrivismo de uma parte expressiva da sociedade
norte-americana, além da propensão para o humor negro e algo escatológico de
algumas sequências. Hess extrai ainda boas atuações de seu elenco (mesmo os
habituais exageros pretensamente cômicos de Zach Galifianakis se mostram
eficientes em cena). Nesse contexto geral, “Gênios do crime” acaba soando como
uma paródia escrota do melhor que os irmãos Coen fizeram dentro daquela síntese
entre comédia e suspense. E isso é um elogio!
quarta-feira, maio 02, 2018
Mecânica das sombras, de Thomas Kruithof ***
Em termos formais e temáticos, não há nada de especialmente
original na produção franco-belga “Mecânica das sombras” (2016). Não quer
dizer, entretanto, que o filme dirigido por Thomas Kruithof não tenha os seus
atrativos. É um eficiente thriller que se destaca pela sua sóbria narrativa, as
boas composições dramáticas do elenco e pelo pertinente subtexto sócio-político
de seu roteiro. No meio das triviais reviravoltas da trama, a figura do
protagonista Duval (François Cluzet) sintetiza com sensibilidade a figura do
cidadão europeu de meia-idade contemporâneo, assombrado pelo fantasma do
desemprego e pelas estruturas alienantes e kafkanianas do poder repressivo e
tecnocrático – nesse último quesito, o sombrio personagem Clément (Denis
Podalydès) também carrega um forte sentido simbólico.
segunda-feira, abril 30, 2018
Imagens do Estado Novo - 1937 a 1945, de Eduardo Escorel ***1/2
A parceria do diretor e montador Eduardo Escorel com João
Moreira Salles nos documentários “Santiago” (2007) e “No intenso agora” (2016),
em que Escorel foi responsável pela edição, parece ter deixado influências expressivas
em “Imagens do Estado Novo – 1937 a 1945” (2016). Assim como nos filmes
citados, há a presença decisiva em termos artísticos e existenciais de uma voz
narradora que expressa um aparente e desconcertante distanciamento emocional.
Nesse contexto, o conjunto voz e imagens afasta o filme do mero registro
histórico-jornalístico (ainda que o filme traga um riquíssimo acervo de imagens
e informações). Para Escorel, o que interessa é colocar em prática em
contundente exercício dialético na contraposição entre o discurso e os fatos.
Na narrativa, há um embate constante entre a grande profusão de filmagens de
origem oficial, ou seja, proveniente de fontes institucionais do governo do
período em questão, com oportunas filmagens de época oriundas de registros de
famílias, propagandas comerciais, longas-metragens de ficção e matérias
jornalísticas, tudo temperado pelos comentários sócio-políticos da mencionada
voz narradora. Nessa síntese entre a ambientação pública do Estado Novo com a
história da vida privada, prevalece uma certa visão ambígua sobre os reais
significados da passagem de Getúlio Vargas como o líder totalitário de uma
nação. Ao mesmo tempo que há uma pouca disfarçável repulsa por atos e medidas
autoritárias e repressivas do governo, há também o reconhecimento por uma postura
sócio-econômica até então inédita de construção de um projeto de nação e também
pela atenção às condições de vida do trabalhador popular. A ambiguidade da
abordagem também se faz necessária diante das contradições nas atitudes das
autoridades, políticos e cidadãos na época do Estado Novo. Nesse sentido, o
ponto da narrativa que melhor deixa claro esse direcionamento de Escorel é a
postura de Vargas, militares e da própria sociedade brasileira diante da
situação em que o país deveria escolher de que lado ficar na Segunda Guerra
Mundial, dos aliados ou do Eixo – o que hoje soaria como uma opção
inquestionável em termos morais na época se mostrou como um dilema político de
resolução tortuosa e complexa. As opções narrativas e intelectuais de Escorel
em “Imagens do Estado Novo” têm justamente como principal mérito a valorização
das complexidades daquele contexto espaço-temporal sem apelar para maniqueísmos
simplórios e equivocados, procurando ressaltar as singularidades de uma nação e
seu povo, evidenciando que escolhas e rumos tomados à época reverberam até os
dias de hoje, constatação essa reforçada pelo duríssimo epílogo do
documentário.
sexta-feira, abril 27, 2018
Já não me sinto em casa nesse mundo, de Macon Blair **
O Netflix queria produzir um filme dos irmãos Coen. Os brothers
não toparam e daí a Netflix resolveu pegar um diretor qualquer que procurasse
imitar da forma mais barata possível o estilo dos Coen. Essa historinha fictícia
(ou não) me veio à cabeça quando assisti a “Já não me sinto em casa nesse mundo”
(2017). Por vezes, essa obra dirigida pelo também ator Macon Blair consegue ser
até divertida, principalmente quando investe numa brutalidade gráfica que beira
o cartunesco. No mais, entretanto, a sensação é de um amontoado de clichês
narrativos típicos daquela síntese de comédia de erros e humor negro que
obras-primas como “Gosto de sangue” (1984) e “Fargo” (1996) fizeram colar em
nosso imaginário cinematográfico, mas que no filme de Blair é apenas jogado na
tela sem critérios e inspiração.
quinta-feira, abril 26, 2018
Os Meyerowitz: Família não se escolhe, de Noah Baumbach **
Famílias disfuncionais parecem representar o grande tema
favorito na filmografia do diretor Noah Baumbach. Seu melhor filme, “A lula e a
baleia” (2005), inclusive, versa com contundência sobre o assunto. “Os
Meyerowitz: Família não se escolhe” (2017) é mais uma produção do cineasta a pisar
nesse território temático, só que bem distante do melhor que Baumbach já
realizou. Tudo no longa parece cansado e mofado: os manjados dilemas do
roteiro, as atuações maneiristas do elenco, a narrativa enfadonha, os truques
formais “indies” requentados. Baumbach sacaneou legal o Netflix: entregou para
a plataforma com exclusividade o pior filme de sua carreira, tirando uma onda
ainda de grande obra autoral.
quarta-feira, abril 25, 2018
As duas faces de um crime, de Gregory Hoblit ***
Em um primeiro momento, a produção norte-americana “As duas
faces de um crime” (1996) pode parecer apenas mais uma produção derivativa no
gênero misto de policial e suspense. Afinal, estão lá a narrativa convencional,
as manjadas viradas “dramáticas” de roteiro, a estética de caráter asséptico na
concepção visual do filme. Por vezes, a direção de Gregory Hoblit até deixa o
filme com uma dinâmica narrativa envolvente para o espectador. O que realmente
dá uma dimensão mais transcendente para a obra é a atuação sanguínea de Edward
Norton na pele de um assassino com transtorno de personalidade. A variação de
gestuais e expressões de Norton impressiona pela desenvoltura e carisma. Foi a
estreia do ator no cinema e poucas vezes ele conseguiu igualar tal desempenho
nos filmes que participou posteriormente.
terça-feira, abril 24, 2018
Ex-machina: Instinto artificial, de Alex Garland ***
“2001: Uma odisseia no espaço” (1968) foi um marco para
ficção-científica no cinema porque tirou definitivamente o gênero daquele
universo puramente aventuresco e escapista e lhe deu uma abordagem artística de
maior densidade dramática e até de forte profundidade psicológica. Em maior ou
menor grau, a partir da obra-prima de Stanley Kubrick foram várias as obras que
surgiram inspiradas nesse caráter mais sério e destinado a refletir sobre a
humanidade perante o inexorável avanço tecnológico. “Ex-machina: Instinto
artificial” (2014) é um claro exemplar dessa tendência. O longa dirigido por
Alex Garland, nome bastante vinculado à ficção científica ao atuar como roteirista
em outros trabalhos no gênero (“Sunshine – Alerta solar”, “Não me abandone
jamais”, “Dredd”), apresenta uma trama que expõe com alguma sutileza os dilemas
e contradições da relação entre humanos e autômatos dotados de inteligência
artificial. É uma obra de narrativa sóbria, de certa criatividade na concepção
de suas trucagens e com algumas sequências memoráveis em termos de tensão
dramática, mas está bem distante da contundência estética e mesmo filosófica de
outras produções que versaram sobre essa mesma temática, como “Blade Runner – O
caçador de androides” (1982), “Inteligência artificial” (2001) e “Ela” (2013).
O trabalho de Garland peca por um certo excesso na assepsia imagética e por
convencionalismos na encenação em determinadas passagens da narrativa. Ainda
assim, “Ex-machina” é um produto acima da média dentro do que vem sendo feito
no gênero e reforça que Garland é um nome a se guardar quando se trata dessa
escola cinematográfica.
segunda-feira, abril 23, 2018
O dia depois, de Hong Sang-soo ****
A ordenação cronológica das situações da trama em “O dia
depois” (2017) não obedece a uma ordem linear. Nada, entretanto, que torne o
entendimento das situações do roteiro confuso para o espectador. Na realidade,
essa opção artística do diretor sul-coreano se vincula ao próprio sentido
existencial que o cineasta quer dar para sua obra. As idas e vindas temporais
evidenciam o caráter narcisista e algo patético do protagonista Kim Bongwan
(Hae-hyo Kwon) diante os descaminhos de sua vida sentimental. A forma com que o
personagem se relaciona com as mulheres que o rodeiam (esposa, amante,
empregada), enredando-as em uma teia de mentiras e manipulações, revela com
sutileza os próprios mecanismos de dominação machista na sociedade
contemporânea. Esse drama intimista vai se formatando de maneira insólita
dentro dos preceitos narrativos de uma comédia de erros. Hong Sang-soo se vale
de seus habituais truques estéticos com precisão e sensibilidade
impressionantes, trocando cortes óbvios da montagem por longos planos-sequência
de leves zigue-zagues no movimento da câmera e valorizando uma encenação que
privilegia intensos e desconcertantes diálogos. Estão lá também em “O dia
depois” as recorrentes, filmografia do diretor, cenas de conversas à mesa, onde
se tem a constatação que as efetivas viradas dramáticas da história e as contundentes
verdades de seus personagens se explicitam com crueza e lirismo perturbadores.
sexta-feira, abril 20, 2018
Baseado em fatos reais, de Roman Polanski ***
Se em “A pele de Vênus” (2015) o diretor Roman Polanski
investia em um memorável delírio estético e narrativo que por vezes beirava de
maneira brilhante o metalinguístico, em “Baseado em fatos reais” (2017) ele
volta ao terreno confortável de algumas escolhas artísticas que ele já havia
trabalhado com mais vigor criativo em outros títulos de sua filmografia. Estão
lá aquelas nebulosas atmosferas em que o real e o onírico se entrecruzam de
maneira sutil e perversa, a tensão entre o psicológico e o metafísico que se
estabelece em ambientes fechados, a atormentada personagem principal que se
rende aos ambíguos apelos sensuais/opressivos de uma amante/antagonista, e até
mesmo as irônicas referências ao universo literário contemporâneo. Essa
constante impressão de uma certa reciclagem por parte do cineasta acaba
recebendo o incômodo complemento de um roteiro que por vezes se mostra inócuo
em algumas obviedades – até porque o mote principal do que era para ser o
mistério central da trama, o fato de que a escritora Delphine (Emmanuelle
Seigner) e sua assistente obsessiva Elle (Eva Green) são a mesma pessoa, é tão
mal dissimulado em alguns truques baratos do filme que o que era para ser
surpreendente acaba parecendo até anticlimático. Por mais que “Baseado em fatos
reais” sugira uma certa preguiça de Polanski, entretanto, a elegância na
condução da narrativa, a atraente ambientação que entrecruza o sensual e o
assustador e as belas composições imagéticas de algumas cenas dão ao filme um
forte caráter sedutor para o espectador.
quinta-feira, abril 19, 2018
Em pedaços, de Fatih Akin ***
A condição de filho de
imigrantes sempre foi um fator existencial-artístico preponderante na
filmografia do diretor alemão Fatih Akin. E não apenas em termos temáticos – em
seus filmes mais expressivos, o conjunto de formalismo e roteiro apresentava um
vigor renovado, como se abarcassem o melhor de mundos diferentes, tanto em um
rigor estético típico do cinema europeu quanto no exotismo e vivacidade das
influências étnicas inerentes à cultura oriental, permitindo-se ainda a claras
referências e citações da cinematografia norte-americana. Ou seja, um cinema
deliciosamente mestiço. Em pedaços (2017)
é fruto dessa concepção autoral de Akin, mas dessa vez a narrativa se mostra
mais presa dentro de uma formatação convencional e previsível. Se Soul Kitchen (2009) era uma recriação
particular, frenética e divertida de clichês de diversas vertentes da comédia
(pastelão, romântica, de erros), temperada por um sutil prisma sócio-político,
essa produção mais recente envereda por uma insólita junção de preceitos
narrativos de melodrama, thriller “de vingança” e filme de tribunal. A ligação
entre os gêneros cinematográficos não é fluente, e por vezes a rigidez da
encenação e os lugares comuns da trama induzem ao enfadonho. Entretanto, ainda
que esteja distante de representar um ponto alto na carreira de Akin, Em pedaços tem os seus pontos positivos
que mostram que o cineasta ainda é um nome acima da média. Isso fica evidente
na sequência em que a protagonista Katja (Diane Kruger) tenta o suicídio aos
cortar os pulsos na banheira, de uma mórbida e perturbadora beleza imagética.
Além disso, a narrativa tem uma atmosfera de notável sobriedade emocional,
impedindo que tudo caia no sentimentalismo barato. O expressivo conteúdo
humanista do roteiro também cria uma forte empatia com a plateia, fazendo com
que seja difícil ficar indiferente ao filme. De certa forma, a impressão geral
é que Akin quis fazer a sua versão pessoal de Desejo de matar, ainda que a sua queda para um tradicionalismo
narrativo mais acessível tenha impedido seu longa de atingir maiores voos
criativos.
quarta-feira, abril 18, 2018
Severina, de Felipe Hirsch ***
Você já foi ao bairro Cidade Velha em Montevidéu? Na capital
uruguaia, talvez seja o local mais importante em termos históricos, turísticos
e culturais. Há um número considerável de pequenos museus e livrarias, praças,
igrejas, restaurantes, além do Mercado do Porto. Por mais que haja uma presença
de um comércio “moderno” (McDonalds, agências bancárias, lojas de souvenires),
também é um lugar que dá uma certa impressão de ter parado no tempo, tanto pelo
aspecto óbvio da grande maioria dos prédios ser de construções bem antigas como
pelo fato que não há aquela preocupação em deixar um visual asséptico para
turista ver. Pelo contrário – há bastante pichações, a pintura de algumas casas
está envelhecida, por vezes o visual é de pura ruína. Não é à toa que o diretor
brasileiro Felipe Hirsch escolheu a Cidade Velha como cenário primordial para a
trama de “Severina” (2017). A impressão do bairro como uma localidade fora do
tempo e do espaço casa muito bem com a atmosfera entre o realismo melancólico e
o delirante que impregna toda a narrativa da obra. Em certos momentos, o
roteiro até insere alguns elementos contemporâneos (inclusive, com a menção do
golpe jurídico-parlamentar no Brasil), mas o que efetivamente prevalece é a sensação
de uma história inserida em um universo paralelo, típica da escola do realismo
fantástico tão cara às manifestações artísticas da América Latina. Se tal
recurso artístico pode parecer manjado, é verdade também que Hirsch usa
tradicionais recursos estéticos e temáticos com sobriedade e precisão. A
história do livreiro que se apaixona por uma bela mulher viciada em literatura
e em roubar livros vai bem além do mero sentimentalismo romântico, enveredando
mais para um lado de perversa ironia e mesmo de morbidez perturbadora. As
filmagens preferenciais nos sombrios ambientes fechados de livrarias ou em
cenários externos em horas noturnas ou crepusculares acentuam mais a sensação
do espectador estar dentro de um tardio e fascinante conto gótico.
terça-feira, abril 17, 2018
Antes que tudo desapareça, de Kiyoshi Kurosawa ***1/2
Os alienígenas em missão de reconhecimento de “Antes que
tudo desapareça” (2017) têm um poder extraterreno bastante peculiar: para que o
aprendizado sobre os costumes de uma raça a ser dominada seja completo eles
podem extrair conceitos das mentes dos indivíduos. Esse detalhe da trama é
simbólico da própria concepção artística do filme do diretor japonês Kiyoshi
Kurosawa. Há no filme alguns dos principais elementos narrativos e temáticos
inerentes às produções de ficção-científica contemporâneas. Tais aspectos,
entretanto, manifestam-se com sutileza e de maneira econômica (ainda que sempre
impactante). Estão lá os discretos efeitos especiais, a encenação que remete ao
thriller e à aventura (com direito a uma memorável sequência que homenageia o
clássico “Intriga internacional” de Alfred Hitchcock), o roteiro que evoca o
embate entre o militarismo da humanidade e os conhecimentos misteriosos de uma
raça alienígena. Por outro lado, todo esse lado tradicional do gênero
cinematográfico em questão é submetido a um conceito existencial mais obscuro e
poético. A interação entre os personagens, as cenas que se desenrolam em um
ritmo que beira o contemplativo e o diálogos repletos de nuances filosóficas e
humanistas caracterizam uma obra também reflexiva e de forte densidade
dramática-psicológica, ainda que permeada quase sempre por uma atmosfera de
estranha leveza. A ligação que se se dá entre uma estrutura narrativa de filme
de ação e ambientação intimista é fluida e natural, reforçando a impressão de
que Kurosawa é um dos nomes mais originais dentro do panorama do cinema
fantástico contemporâneo.
segunda-feira, abril 16, 2018
A quadrilha, de John Flynn ****
O personagem literário Parker, criado pelo escritor Richard
Stark e protagonista de vários livros do autor, apareceu em algumas marcantes
produções cinematográficas. A mais conhecida e prestigiada foi no clássico “À
queima-roupa” (1967), de John Boorman. A caracterização mais complexa e
humanizada do personagem, entretanto, encontra-se em “A quadrilha” (1973). Pode
parecer um contrassenso isso, afinal a interpretação de Robert Duvall no papel
principal é quase minimalista em termos de diálogos, expressões e gestual.
Ocorre que essa atuação se afasta dos estereótipos do tradicional anti-heróis
de produções policiais, e mais enfatiza uma brutalidade inerente a uma condição
existencial dessa figura. O pragmatismo inabalável, o rígido senso de honra de
bandido e as atitudes violentas representam um modo de agir que é único
conhecido pelo protagonista, e não uma condição para se mostrar cool diante das
situações extremas de perigo. Nesse sentido, a própria compleição física em
cena de Duvall foge do habitual para esse tipo de personagem. Esse dado sobre a
figura de Parker em si (na verdade, no filme seu nome é Macklin) revela muito
da própria concepção conceitual que o diretor John Flynn coloca em prática no
filme – a narrativa é descarnada, reduzida a uma essência de encenação e
formalismos marcada pela crueza e precisão, e que aliada a uma atmosfera amoral
e desolada configurou um traço artístico fundamental no melhor que o cinema
policial setentista produziu.
sexta-feira, abril 13, 2018
The silenced, de Lee Hae-Young *
Ok, o cinema sul-coreano realmente tem apresentado algumas
das obras mais interessantes nos últimos anos, sendo que no gênero fantástico
vieram do país asiático em questão algumas produções antológicas. “The silenced”
(2015), entretanto, é prova concreta que mesmo de lá vem também filmes ruins e
derivativos. Imagine uma boa parte dos clichês narrativos e temáticos associados
ao horror asiático e é provável que estará nesse longa dirigido por Lee
Hae-Young. A encenação inexpressiva e a concepção visual irritantemente clean
acentuam ainda mais a frustração do espectador.
quinta-feira, abril 12, 2018
O bar, de Álex de la Iglesia **
O grande barato no cinema do espanhol Álex de la Iglesia
sempre foi a sua síntese muito particular entre tensão dramática, brutalidade
gráfica e um senso de humor perverso, por vezes quase beirando o escroto. Essa
particular concepção artística rendeu algumas obras memoráveis, mas parece que
começa a apresentar um certo desgaste criativo. Essa é a impressão que se tem
ao assistir a “O bar” (2017). O início do filme é promissor, com os habituais
elementos narrativos característicos na filmografia do cineasta se pondo em
cena de maneira bastante contundente. Aos poucos, entretanto, a narrativa vai
ficando cada vez mais convencional e frouxa, aliada a um roteiro que se limita
a revolver de maneira mecânica clichês temáticos típicos do gênero
ficção-científica apocalíptica. Mesmo aquela ironia sardônica que o espectador
está acostumado de outras produções dirigidas por de la Iglesia vai se tornando
rarefeita, quase inexistente. Em um contexto geral, é como se a indelével marca
autoral do cineasta houvesse sumido!
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