Se o documentário “Histórias que o nosso cinema (não)
contava” (2017) defende com a ardor a ideia de uma parcela do cinema brasileiro
popular setentista que apresentava um forte grau de inventividade artística e
um grande teor de crítica e ironia tanto à ditadura militar da época quanto aos
hipócritas valores morais da sociedade ocidental contemporânea, “As aventuras
amorosas de um padeiro” (1976) é um exemplar enfático dessa tendência. No único
longa-metragem dirigido por Waldir Onofre, há uma junção ao mesmo tempo
alucinada e de coerência desconcertante de diversos elementos estéticos e
temáticos que se unem em uma narrativa que em um primeiro momento evoca
preceitos formais e textuais típicos das comédias de costume da época, mas que
aos poucos vai se convertendo em algo cada vez mais deliciosamente
inclassificável. Em uma produção “normal” do gênero na época, as desventuras
sentimentais-sexuais de Rita (Maria do Rosário) rumariam para uma conclusão
moralizante e conciliadora a evocar a infalibilidade das instituições
sócio-familiares. No filme de Onofre, entretanto, tudo isso vai para o espaço,
com a formatação de conto moral e a encenação naturalista se dissolvendo em
nome de uma atmosfera delirante de musical macumbeiro, insólitas referências
eruditas, estilizado senso cênico e senso de humor entre o pastelão e o
sardônico. Essa bizarra e genial abordagem formal acolhe com sensibilidade um
roteiro de caráter libertário e contestador a dissecar sem concessões sexismo,
racismo e preconceito de classe. O resultado final desse conjunto artístico sui
generis é uma das obras “malditas” (no sentido de desafiadora) mais marcantes
da história do cinema brasileiro, ao lado de pérolas como “Os monstros de
babaloo” (1971) e “SuperOutro” (1989).
Boa parte de amigos e conhecidos costuma dizer que as minhas recomendações para filmes funcionam ao contrário: quando eu digo que o filme é bom é porque na realidade ele é uma bomba, e vice-versa. Aí a explicação para o nome do blog... A minha intenção nesse espaço é falar sobre qualquer tipo de filme: bons e ruins, novos ou antigos, blockbusters ou obscuridades. Cotações: 0 a 4 estrelas.
segunda-feira, setembro 03, 2018
sexta-feira, agosto 31, 2018
Beach rats, de Eliza Hittman ***
A crueza narrativa e cênica de “Beach rats” (2017) faz
lembrar “Kids” (1995). Mesmo a parte temática dos filmes chegam a ser bem
semelhantes, mostrando o lado obscuro da juventude norte-americana. Ou seja, a
obra da diretora Eliza Hitman está bem distante de poder ser considerada uma
grande novidade ou ruptura no cinema indie norte-americano. Ainda assim, não
deixa de ser um trabalho inquietante. A encenação é de claro teor naturalista,
mas embalada em uma bela concepção imagética, o que se mostra em sintonia no
próprio jogo de contradições da trama (jovens fotogênicos envolvidos em
situações sórdidas, hedonismo exacerbado que se choca com uma melancolia
fatalista). O roteiro traz uma sutil carga simbolista nas desventuras do
protagonista Frankie (Harris Dickinson) em meio a passeios noturnos com os
amigos em Coney Island (em sequências, aliás, que constituem os grandes
momentos da direção de fotografia), pequenos furtos e aventuras homossexuais
com caras mais velhos. Nesse último aspecto, aliás, talvez se concentre os
momentos dramáticos mais complexos e interessantes de “Beach rats”, em que tais
episódios mais revelam um caráter ambíguo do que propriamente um erotismo
escancarado – Frankie tanto parece
querer saciar seus desejos quanto ter um desejo atávico por uma figura paterna
ausente.
quinta-feira, agosto 30, 2018
Perfeitos desconhecidos, de Álex de la Iglesia ***
Os filmes mais recentes do diretor espanhol Álex de la
Iglesia estão bem distantes daquilo de melhor que ele já realizou em sua
carreira. Ele se limita a fazer reciclagens divertidas de seu próprio estilo (“A
grande noite”) ou lançar obras despersonalizadas e irrelevantes (“O bar”). “Perfeitos
desconhecidos” (2017) se enquadra no primeiro caso. Há aquela sua habitual propensão
para a comédia bizarra e grotesca e que acaba rendendo alguns dos melhores
momentos do longa. As atuações caricaturais do elenco e algumas atmosferas mais
delirantes também reforçam esse lado autoral, tirando a obra do lugar comum. Ainda
assim, para quem já conhece o melhor de sua filmografia, fica aquela constante
impressão de que Iglesia já fez bem melhor que isso. O que joga contra a
produção é um roteiro marcado por algumas obviedades incômodas (uma premissa de
um jantar entre amigos em que se acaba lavando muito roupa suja é um recurso
deveras manjado), além de soluções narrativas convencionais em excesso que
tiram muito daquele impacto que as ambíguas sínteses cômicas/dramáticas
costumavam despertar no espectador naqueles trabalhos mais memoráveis de
Iglesia. Entre acertos e equívocos. “Perfeitos desconhecidos” pode estar longe
de ser considerado uma obra marcante no currículo do cineasta, mas acaba sendo
uma boa diversão.
quarta-feira, agosto 29, 2018
Histórias que nosso cinema (não) contava, de Fernanda Pessoa ***1/2
Quando comecei a acompanhar filmes com mais afinco em minha
adolescência, em meados dos anos 1980, percebia que quando alguém se referia a
cinema nacional geralmente trazia uma carga negativa, colocando que a maioria
dos filmes era de sacanagem ou coisa que o valha. Muito dessa impressão vinha
do fato que aquilo que era considerado por público e grande parcela da crítica
como “pornochanchada”, uma espécie de variação popular e gaiata do gênero explotation,
foi bastante predominante em nossas telas na década de 70 e princípio dos 80,
período esse em que o Brasil estava sob o cabresto da ditadura militar. O
documentário “História que nosso cinema (não) contava” (2017) foca justamente
nessa relação existencial entre essa linhagem de produções com o opressor
ambiente sócio-político daquela época. Em sua abordagem estética, a diretora
Fernanda Pessoa faz lembrar o modus operandi que Eryk Rocha havia adotado em “Cinema
novo” (2016), dispensando uma voz narradora ou depoimentos contemporâneos em
prol de um minucioso trabalho de montagem que combina trechos expressivos de
alguns dos principais longas do gênero. Nessa formatação, o documentário de
Pessoa tem um efeito sensorial desconcertante e uma notável lucidez temática.
As cenas mostradas formam um impressionante híbrido de ironia entre a malícia e
o amargo, erotismo barato exacerbado e contundente violência gráfica, em um
conjunto audiovisual que expõe com crueza e cruel sarcasmo a atemporal alma de
uma nação.
terça-feira, agosto 28, 2018
Beduíno, de Júlio Bressane ***1/2
Faz alguns anos que assisti a uma palestra de Júlio Bressane
e me impressionou a sua lucidez intelectual e mesmo a sua percepção sobre a
natureza intrigante da sua própria obra. E é extraordinário como tais aspectos
conseguem se tornar visíveis em seus filmes. Só mesmo Bressane consegue fazer
com a combinação de um roteiro baseado em discussões herméticas e intrincadas
sobre a natureza da arte entre um casal e uma encenação de forte traço
antinaturalista se transforme em uma experiência cinematográfica tão
estimulante quanto em “Beduíno” (2016). Mostrando a mesma inquietação e
criatividade que marcou de maneira constante a sua filmografia, o diretor
constrói uma atmosfera delirante que tanto desconcerta quanto encanta,
utilizando-se para isso de truques estéticos complexos em termos de concepção
existencial-artística, mas que em sua execução também revelam uma simplicidade
perturbadora. E a parceria com a atriz Alessandra Negrini revela cada vez mais
uma assombrosa sintonia, o que se acaba configurando em uma interpretação que
varia com sensibilidade e precisão dramática do sensual ao francamente bizarro.
segunda-feira, agosto 27, 2018
Benzinho, de Gustavo Pizzi ***1/2
Por mais que o espectador se sinta identificado com algum
aspecto temático de “Benzinho” (2018), tentar enquadrar o filme como um retrato
da sociedade brasileira contemporânea seria algo reducionista. O filme do
diretor Gustavo Pizzi vai bem mais além do que isso. Ele está mais para um
mosaico existencial-sensorial de sentimentos e valores atávicos do ordenamento
ocidental capitalista. Por mais que a protagonista Irene (Karine Teles) e sua
família sejam de classe média baixa, todos os seus dilemas e conflitos dizem
respeito a corresponder aos anseios e desejos de um padrão de vida
pequeno-burguês. Nessa contradição sócio-econômica, é claro que a única coisa
que pode sair é uma perturbadora e constante percepção de algo que está em desiquilíbrio.
A grande sacada estética-narrativa do filme é justamente absorver essa condição
de desiquilíbrio para a sua própria formatação. Se em um primeiro momento a
abordagem da obra é a de teor naturalista, em momentos pontuais e decisivos da
trama fica evidente um tom delirante em sua atmosfera cênica, como se o
aparente realismo se convertesse em um teatro de absurdos do cotidiano,
principalmente quando uma série de situações-limites vão convergindo para uma
possível quebra da psique de Irene. Outra boa solução criativa de Pizzi,
entretanto, é afastar seu filme do previsível melodrama, dando à obra um
caráter entre o irônico e o melancólico, em que os personagens se adaptam e acomodam
com doce-amarga resignação às suas frustrações e perdas. Nessa muito peculiar
concepção de saga familiar, a atuação de Karine Teles é decisiva, com uma
impressionante atuação repleta de memoráveis nuances dramáticas.
sexta-feira, agosto 24, 2018
Other people, de Chris Kelly **1/2
Há elementos temáticos e de encenação em “Other people”
(2016) que trazem algum frescor para a obra, principalmente em relação à forma
mais libertária e madura com que aborda a questão da homossexualidade. Nesse
sentido, não há como não destacar a figura do garoto adotado gay, irmão do
amigo do protagonista David (Jesse Plemons), em sua caracterização exuberante e
exagerada de trejeitos e coreografias, sem que isso caia necessariamente no
caricatural. No mais, entretanto, essa produção dirigida por Chris Kelly pouco
se diferencia daquela linhagem de melodramas norte-americanos indies que
aparece aos borbotões. Há momentos comoventes, o elenco apresenta algumas boas
atuações, a narrativa é agradável, mas o filme também está repleto daqueles
truques estéticos e emocionais bem manjados. No saldo final, assim como é fácil
de se ver, também é fácil de esquecer.
quinta-feira, agosto 23, 2018
Sign 'o' the times, de Prince ****
A relação de Prince com o cinema sempre foi conturbada. Se o
drama ficcional “Purple rain” (1984) ajudou a consolidar o seu nome para o
estrelato, houve também obras que foram verdadeiros fiascos comerciais e
artísticos. Entre esses altos e baixos, “Sign ‘o’ the times” (1987) representa
a grande contribuição desse genial músico para a arte cinematográfica. Se o
álbum de mesmo nome era marcado por uma musicalidade descarnada em termos de
arranjos e produção, beirando o minimalismo, seu equivalente fílmico investiu
em uma opulência barroca e luxuriante. Com o próprio Prince na direção, a obra
se alterna em abordagens diferentes, ainda que o predomínio seja a formatação
de um filme-concerto. Há espaço para encenação estilizada e trechos videoclipeiros,
mas sempre preservando uma noção de unidade conceitual, em que música e
coreografia evidenciam um erotismo irônico e intenso que se contrapõe a uma
atmosfera entre o sombrio e o sórdido, reflexo claro de uma época em que a AIDS
avançava de forma impiedosa e as noções de desejo e culpa voltavam a se
contrapor (ainda que na visão de Prince tal embate passe por um viés
sarcástico). As canções de “Sign ‘o’ the times” se sucedem obedecendo a um rigoroso
e notável senso cênico e narrativo, em que a concepção imagética da obra
valoriza as nuances rítmicas e melódicas das performances de Prince e banda. Daria
até para dizer que assistir ao filme é uma experiência interessante até para
quem não gosta de Prince, mas confesso que acho difícil que algum ser humano
com um mínimo de sensibilidade não goste pelo menos um pouco da musicalidade
exuberante do cara.
quarta-feira, agosto 22, 2018
O animal cordial, de Gabriela Amaral Almeida ***
Ainda que a sua narrativa seja banhada por muito sangue e
violência, “Um animal cordial” (2017) está mais para uma simbólica obra de teor
sócio-político do que para um tradicional filme de horror e suspense. Cada
personagem da trama parece representar aspectos diversos das classes sociais no
Brasil, enquanto as situações do roteiro evocam um caráter alegórico. A
produção dirigida por Gabriela Amaral Almeida não se limita, entretanto, a dar lição
de sociologia. A cineasta consegue criar atmosferas de forte tensão
psicológica, por vezes enveredando para o francamente delirante, bem como tem
considerável senso cênico em sua concepção imagética. Nessa última
característica, inclusive, apresenta pelo menos uma sequência antológica,
aquela em que Inácio (Murilo Benício) e Sara (Luciana Paes) transam cobertos de
sangue, de um grafismo audiovisual doentio e perturbador. Por vezes, a
narrativa do longa se mostra um tanto irregular, principalmente quando a
diretora abusa de uma estilização de linguagem que chega a beirar o publicitário.
Além disso, a atuação de Murilo Benício como protagonista cai com frequência na
canastrice histriônica. Ainda assim, “O animal cordial” não perde seu caráter
instigante e envolvente. Afinal, num cenário nacional como o nosso na
atualidade, em que um fascista de pendores militaristas tem a forte
possibilidade de se tornar presidente da república com o apoio fundamental de
uma classe média alienada e ressentida, um personagem como Inácio, um
cidadão-psicopata “de bem”, acaba sendo bem representativo.
terça-feira, agosto 21, 2018
Irmãs, de Jason Moore ***
O que torna “Irmãs” (2015) um filme bem divertido não é
alguma grande ousadia temática ou narrativa. Pelo contrário. A produção
dirigida por Jason Moore abusa de truques cômicos corriqueiros e mesmo de um
tom moralista, elementos esses fortemente presentes nas comédias
norte-americanas nos últimos anos. O que dá um toque diferencial na história de
duas irmãs quarentonas imaturas emocionalmente que resolvem dar uma festa de
arromba para relembrar (ou exorcizar) a juventude está na boa sacada de Moore
em concentrar a narrativa nas atuações histriônicas do trio de atrizes
veteranas de Saturday Night Live Amy Poehler, Tina Fey e Maya Rudolph. Elas
conseguem dar credibilidade tanto para as sequências mais
escrotas/escatológicas quanto para aquelas com uma queda para o melodrama
familiar. Assim, “Irmãs” consegue se afastar daquela assepsia típica de boa
parte do que se faz no gênero na atualidade e oferecer alguns momentos hilários
memoráveis.
segunda-feira, agosto 20, 2018
Eu não sou um homem fácil, de Éléonore Pourriat *1/2
No papel, “Eu não sou um homem fácil” (2018) até aparenta
ser promissor. Uma comédia no gênero fantástico envolvendo realidades
alternativas, a dicotomia machismo/femininos, papéis sexuais e dominação
sócio-econômica. E a origem francesa também pode sugerir uma maior profundidade
na abordagem de tais temáticas complexas. O resultado final da obra dirigida
por Éléonore Pourriat, entretanto, joga por terras as boas expectativas. A
formatação da narrativa é excessivamente convencional, a encenação se perde no
caricatural e o roteiro abusa de soluções simplórias e óbvias.
sexta-feira, agosto 17, 2018
A festa, de Sally Potter **1/2
O tipo de proposta temática/narrativa de “A festa” (2017)
não chega a ser exatamente uma novidade, mas de vez em quando costuma render
alguma coisa de interessante: no ambiente fechado de uma pequena reunião
social, revelações e outras situações-limites levam os personagens a exporem
seus segredos sórdidos, preconceitos e hipocrisias, fazendo com que a linha
entre a civilidade e a selvageria se mostre muito tênue. No caso do filme de
Sally Potter, há também a preocupação em expor alguns dos principais dilemas e
conflitos da sociedade contemporânea (feminismo, machismo, arrivismo
sócio-econômico, alienação, famílias disfuncionais). Vale mencionar ainda que a
diretora contou em sua produção com um elenco de nomes expressivos no panorama
cinematográfico atual. O resultado final de sua obra, entretanto, é frustrante.
Culpa de uma certa mão pesada de Potter na condução de sua narrativa. A encenação
se mostra emperrada por uma verborragia excessiva, as atuações se perdem em
caracterizações caricaturais e o roteiro fica indeciso entre evocar alguma densidade
psicológica ou privilegiar um tom anedótico. Por vezes, “A festa” até insinua
um tom mais perturbador na forma com as frustrações e desejos dos personagens
são expostos em cena, mas no final das contas isso apenas serve para mostrar
que o filme poderia ter sido bem melhor. Aliás, faz até imaginar o que um
artista como Roman Polanski, por exemplo, mestre nesse tipo de trama, poderia
ter extraído de tais elementos narrativos.
quinta-feira, agosto 16, 2018
Você nunca esteve realmente aqui, de Lynne Ramsay ****
Na premissa de seu roteiro, “Você nunca esteve realmente
aqui” (2017) faz evocar algo como um cruzamento entre “Taxi driver” (1976) e “O
profissional” (1994). Entre o pesado drama psicológico e o franco thriller de
aventura, a diretora Lynne Ramsay faz o seu filme se localizar em um estranho
universo híbrido disso tudo e também muito particular. Sua dissecação da ação
cinematográfica nas sequências envolvendo brutalidade gráfica e atmosferas de
tensão tem um caráter bastante elíptico – tiros, marteladas e outros atos
violentos afins na maioria das vezes não são filmados de forma exatamente
direta, havendo uma preferência mais pela sugestão e pela exposição das
consequências de tais ações. Não se trata exatamente de poupar a suscetibilidade
do espectador, pois há sangue e carne dilacerada em profusão na narrativa. Na
verdade, essa maneira de registrar a violência é até mais perturbadora do que
se a preferência fosse pela mais tradicional de filmar. Nessa abordagem
imagética da cineasta há o sentido de complementar a psique atormentada do
protagonista Joe (Joaquin Phoenix), em constante conflito entre traumas difusos
do passado e um presente marcado por uma perseguição inclemente de uma
organização política-criminosa-sexual. Na saga do personagem principal, há um
tom quase fabular, em que no meio desse cenário de destruição, degradação e
melancolia brota de maneira insólita momentos de teor poético desconcertante (o
assassino que morre cantando uma melosa balada pop, o funeral aquático da mãe
de Joe, o seu imaginário e luminoso suicídio). Nesse conto de vingança de brilhante
e bizarra encenação se destacam ainda a atuação de pura possessão de Phoenix e
a etérea trilha sonora de Jonny Greenwod.
quarta-feira, agosto 15, 2018
O Babadook, de Jennifer Kent ***
São recorrentes comentários na internet de que “O Babadook” (2014)
e um dos filmes mais aterrorizantes dos últimos tempos. Se isso é fruto de
alguma engenhosa campanha marqueteira ou apenas da opinião de alguns
espectadores facilmente impressionáveis, o fato é que essa produção australiana
dirigida por Jennifer Kent está bem longe de ser considerado um marco no gênero
horror. É apenas uma obra que recicla vários clichês narrativos e temáticos
dessa linhagem de filmes. É fato também, entretanto, que faz isso com razoável
competência. O elenco apresenta algumas atuações convincentes (o garoto Noah
Wiseman é especialmente interessante na sua caracterização alucinada de um
pentelho irrequieto), as caracterizações imagéticas das trucagens têm um certo
frescor (a figura da monstruosa criatura do título, por exemplo, é memorável) e
Kent consegue extrair genuínas atmosferas de tensão dramática em algumas
sequências. Ou seja, nada que vá mudar o rumo do mundo, mas que pelo menos
garante uma sessão divertida no Netflix (aliás, coisa que não é tão frequente
assim no canal).
terça-feira, agosto 14, 2018
Ela quer tudo, de Spike Lee ****
Em um primeiro momento, pode-se dizer que o longa-metragem
de estreia do diretor norte-americano Spike Lee, “Ela quer tudo” (1986),
funcionou como uma espécie de laboratório de ideias que foram desenvolvidas de
forma mais amadurecida em produções posteriores do cineasta. É evidente também
um certo charme amador em algumas passagens, muito mais fruto dos recursos de
produção mais modestos do que propriamente por descuidos formais de Lee. Ainda
assim, esse filme continua a ser um dos trabalhos mais fulgurantes e singulares
do diretor, assim como um dos marcos fundamentais do cinema independente dos
Estados Unidos nos anos 80 ao lado de obras como “Estranhos no paraíso” (1984) e
“Gosto de sangue” (1984). Narrativa e estética são caracterizadas em uma
original síntese de hiper-realismo e estilização, sendo que tal abordagem artística
está em notável sintonia com um roteiro de expressivo teor libertário e
humanista e que também tem como ponto forte um sutil e cortante senso de
ironia. Já a encenação concebida por Lee a sua direção de atores apontam um
rumo muito particular e ousado, no sentido de se mostrar distante de mofados clichês
dramáticos de atmosfera e interpretação. Essa liberdade criativa recebe um
complemente preciso nos belos temas harmônicos e melódicos da trilha sonora de
Bill Lee. No cômputo geral, “Ela quer tudo” é um exemplar enfático daquela
linhagem de obras em que a economia de recursos acaba por extrair o máximo de
suas potencialidades artísticas.
segunda-feira, agosto 13, 2018
Dores de amores, de Raphael Vieira *1/2
Pelo menos em suas intenções artísticas, “Dores de amores”
(2012) poderia sugerir algo de promissor. A narrativa procura uma síntese entre
o realismo e atmosferas estilizadas/delirantes, o roteiro investe em um viés
crítico e irônico sobre as relações amorosas/sexuais, o elenco traz alguns dos
nomes mais expressivos do cinema brasileiro dos últimos anos. O problema do
filme dirigido por Raphael Vieira é que a junção disso tudo não dá liga. A
encenação é over é afetada, descambando com frequência para um incômodo tom de
empostação teatral. E mesmo as situações de suposta ousadia da trama se perdem
em soluções óbvias e simplórias. Além disso, alguns detalhes pictóricos como a
inserção de cenários grafitados soam como meros adereços imagéticos, não tendo
uma efetiva ligação com a narrativa. Ou seja, as altas pretensões
estéticas/temáticas da produção ficaram bem longe de se concretizar diante de
uma execução tão equivocada.
sexta-feira, agosto 10, 2018
Verónica, de Paco Plaza *1/2
Adolescente brinca com uma tábua de ouija, desperta alguns
demônios e passa a ser atormentado por eles. Quanto filmes já foram realizados
com essa premissa? Pois é, vários e que se até confundem na lembrança. O que
essa produção espanhola se diferencia em relação às outras? Só a língua, e olhe
lá. Mais uma das tantas produções irrelevantes que o Netflix gosta de ostentar
em seu catálogo de recomendações.
quinta-feira, agosto 09, 2018
Nico, 1988, de Susanna Nicchiarelli ****
Filmes sobre apocalipse praticamente representam um subgênero
na história do cinema. Na maioria das vezes, são obras no gênero fantástico que
mostram as consequências para o mundo de um hipotético evento-cataclisma que
destrói a ordem civilizada e expõe a sociedade a situações extremas de barbárie
e sobrevivência. Mas o que ocorre quando um filme retrata o apocalipse como
sentimento e não como um fato específico? Pois é justamente isso que retrata “Nico,
1988” (2017), produção biográfica que tem como protagonista a cultuada cantora
que participou do primeiro disco do Velvet Underground em 1967e depois
desenvolveu uma carreira solo marcada tanto pelo caráter artístico peculiar
quanto pela obscuridade em termos comerciais e de reconhecimento de um grande
público. Ao invés de fazer uma acadêmica e óbvia reconstituição resumida de
toda a vida de sua personagem principal, a obra prefere focar nos últimos dois
anos de carreira (e vida) da artista. Escolha muito acertada da diretora
Susanna Nicchiarelli: ao delimitar esse compacto espaço temporal, a narrativa
consegue evidenciar com sensibilidade e contundência a força abrasiva da música
muito particular de Nico bem como os dilemas e contradições pessoais que
marcavam a sua personalidade, além de revelar o traço do indissociável entre a
vida pessoal e a arte da cantora. A estética sombria e o roteiro muito bem
depurado formatam um conceito artístico e existencial de notável coerência e perspicácia,
o que se pode perceber em nuances extraordinárias como a sequência de abertura,
em que em sua infância Nico presencia de longe Berlin sendo devastada pelos
aliados. Em sua rotina de viagens e shows pela Europa na parte final de sua
carreira, percebe-se os estertores finais da Guerra Fria, e se estabelece com
sutileza a ponte entre a arte de Nico e tais eventos históricos de grandes
conflitos armados, em que canções e arranjos se mostram como a efetiva trilha
sonora de um século marcado por banhos de sangue e os sentimentos de paranoia e
mal-estar diante de um possível holocausto nuclear. O sóbrio formalismo adotado
por Nicchiarelli para “Nico, 1988” se encaixa de maneira precisa dentro dessa
conceituação artística, valorizando tanto um caráter realista da história da
cantora em sua abordagem quanto enfatizando um tom de imaginário estilizado sobre
a sua figura, principalmente quando retrata as conturbadas apresentações ao
vivo de Nico, o que dá ao filme uma atraente atmosfera misteriosa, típica de
uma época pré-internet em que informações sobre determinados artistas “malditos”
traziam um certo tom nebuloso.
quarta-feira, agosto 08, 2018
Missão impossível: Efeito fallout, de Christopher McQuarrie **1/2
É um argumento razoável colocar que os momentos mais
dramáticos/intimistas de “Missão impossível: Efeito fallout” (2018), aqueles
envolvendo mais a tensão psicológica e mesmo sentimental entre os personagens,
teriam um caráter secundário para o filme e serviriam apenas de pretexto para
as vertiginosas sequências de ação da produção dirigida por Christopher
McQuarrie. É verdade também, entretanto, é que tais momentos mais “calmos”
também contribuem na construção da narrativa e dessa forma ajudam a expor a própria
configuração artística/existencial da obra em questão. E nesse sentido, acabam
por revelar as fraquezas desse novo capítulo das aventuras de Ethan Hunt (Tom
Cruise). Se no extraordinário primeiro filme de 1996 concebido pelo mestre
Brian De Palma se tinha um longa preciso e exato na coreografia de sua ação
aliado a roteiro e atmosfera que remetiam a reconstrução do tom farsesco das
antigas aventuras de espionagem, nesse filme mais recente a ênfase é em um derivativo
caráter de gigantismo e exagero das inúmeras cenas de perseguições em terra e aéreas, embates físicos e tiroteios que têm como suporte uma trama repleta de
sentimentalismo barato beirando o infantil e simplificações éticas e
ideológicas duvidosas. Ver Luther (Ving Rhames) com cara de choro falando
seguido da conturbada vida sentimental de Hunt, por exemplo, chega a ser
constrangedor. E a simbologia de um protagonista algo truculento auxiliado por
dois geeks tecnológicos a combater terroristas e “anarquistas” que desafiam a
ordem sócio-econômica-política é perfeitamente coerente com o tempo que vivemos,
mas incomoda pelo teor conformista e defensor do establishment. É claro que a
maioria absoluta do que sai dos grandes estúdios no gênero nos últimos tempos
também adota essa postura narrativa, mas pelo alguns deles fazem com mais
sutileza, ironia ou mesmo alguma ousadia.
terça-feira, agosto 07, 2018
Anjos da noite, de Wilson Barros ***
Há filmes que são quase que indissociáveis da época em que
foram realizados. A produção brasileira “Anjos da noite” (1987) é um desses
casos. Nos anos 80, havia uma vertente no cinema nacional, principalmente
oriunda de São Paulo, que trazia uma urgência em colocar em prática um conjunto
estético-temático que se mostrasse em sintonia com um ideal artístico
pós-moderno, necessidade essa fruto provável do período obscurantista dos anos
de chumbo da ditadura militar. Se no Rio de Janeiro diretores e produtores
enveredavam por obras “praieiras” de caráter festivo-hedonista, em São Paulo o
foco estava numa ambientação noturna estilizada com tramas envolvendo figuras “outsiders”
(artistas, pequenos marginais, prostitutas, michês, gangsteres) em narrativas
que abarcavam tanto a encenação naturalista quanto atmosferas oníricas/delirantes
típicas do cinema fantástico e dos musicais e tons metalinguísticos. O filme de
Wilson Barros tem tudo isso, por vezes esbarrando em uma narrativa irregular e na
ingenuidade suas pretensões, em outros momentos trazendo algum encanto em sua
trama mosaico de vários personagens, como se fosse uma simpática versão nativa
do clássico da estilização cinematográfica oitentista “O fundo do coração”
(1982).
segunda-feira, agosto 06, 2018
Rei, de Niles Atallah ****
A relação conturbada entre o homem branco ocidental
colonizador e povos nativos/colonizados representa uma temática recorrente no
cinema, de clássicas obras-primas como “Aguirre, a cólera dos deuses” (1972) e “Apocalypse
Now” (1979) até extraordinários filmes mais recentes do quilate de “Z, a cidade
perdida” (2016) e “Zama” (2017). Nessa instigante tradição, inscreve-se também
a produção chilena “Rei” (2017). A formatação concebida pelo diretor Niles
Atallah faz lembrar o teor delirante do longa brasileiro “Ex-isto” (2010),
também de temática semelhante, mas com uma narrativa ainda mais estilizada.
Atallah insere alguns momentos de uma encenação realista. O efetivo foco
artístico de “Rei”, entretanto, está no romper com o naturalismo, em que o olhar
histórico sobre o episódio do aventureiro francês Antoine de Tounens (Rodrigo
Lisboa) que tentou construir um reino próprio nas regiões da Araucaria e da
Patagônia em meados do século XIX é perpassado por um viés mágico e subjetivo.
Para isso, Atallah se vale de recursos estéticos e narrativos variados –
utiliza bitolas antigas para filmar, encena com preceitos teatrais as
sequências de julgamento do protagonista, abusa de trucagens artesanais de
beleza pictórica desconcertante para enfatizar o caráter onírico de algumas
cenas. Esse insólito barroquismo de “Rei” não se limita ao mero efeito
experimental ou exótico, estando em perfeita sintonia existencial com o próprio
caráter ambíguo do roteiro, que tanto evidencia um fascínio com o modus
operandi alucinado e romântico de Tounens na busca de seus objetivos quanto um
teor crítico sobre as ações exploradoras/opressoras em relação aos povos
nativos da América do Sul.
sexta-feira, agosto 03, 2018
8 mulheres e meia, de Peter Greenaway ***1/2
Pode-se dizer que “8 mulheres e meia” (1998) é uma variação
dos preceitos estéticos e temáticos que o diretor britânico Peter Greenaway
tinha colocado em prática em outros de seus filmes com resultados mais
satisfatórios. Ainda assim, uma obra menor de Greenaway é sempre bem mais
interessante que a grande maioria dos filmes que estão em cartaz. Na produção
em questão, há aquela combinação habitual do cineasta – barroquismo delirante,
atmosferas carregadas de erotismo mórbido, caracterizações estilizadas de
personagens e situações, roteiro repleto de simbolismos diversos. Por vezes os
exageros formais e o cerebralismo que permeiam o longa, assim como o tom lúdico
e intrincado do roteiro a versar sobre opressão machista/econômica, deixam a
narrativa um tanto irregular e cansativa, mas em boa parte das sequências há
aquele impacto imagético/sensorial que deixa o espectador tanto desconcertado
quanto encantado com esse cinema muito peculiar de Greenaway.
quinta-feira, agosto 02, 2018
Custódia, de Xavier Legrand ***
Na sua construção formal-narrativa, “Custódia” (2017) parece
uma variação dos preceitos artísticos de alguns dos principais filmes dos
irmãos Dardenne. Há aquela sóbria abordagem estética a embalar uma trama de
forte conteúdo intimista-social. Ainda que tenha esse aspecto derivativo, o
filme do diretor francês Xavier Legrand consegue ter um considerável impacto
sensorial para as plateias. O conjunto encenação, edição e fotografia configura
uma forte atmosfera de tensão sufocante na história da conturbada relação entre
um homem violento e perturbado e a ex-mulher e filhos. Há um tom quase
documental por vezes na narrativa, em que até detalhes burocráticos e
administrativos de um processo judicial de separação litigiosa, por exemplo,
são expostos em suas minúcias justamente para caracterizar uma ambientação de
opressão machista e econômica sobre aqueles mais fragilizados (mulheres,
crianças, pobres) perante esse sistema sócio-econômico. Legrand não se vale de
artifícios de fácil manipulação sentimental, como música melosa ou
caracterizações caricatas – seu filme tem uma objetividade e secura que realçam
com precisão e sensibilidade alguns tormentos existenciais típicos da sociedade
contemporânea, além de um elenco cujas composições dramáticas à flor-da-pele se
mostram em notável sintonia com tal proposta.
quarta-feira, agosto 01, 2018
Giselle, de Victor Di Mello ***
Expressivo exemplar do exploitation brasileiro, “Giselle”
(1980) é uma obra que tem até alguns aspectos datados em termos narrativos, mas
que mesmo assim consegue impressionar nos dias de hoje. Certas nuances
temáticas e estéticas remetem muito ao cinema intimista de Walter Hugo Khouri,
só que com uma preponderância ainda maior para o erótico e o grotesco. Sugerem
ainda uma espécie de leitura sócio-política da época, principalmente no que diz
respeito à repressão do regime militar e os conflitos ideológicos, além de uma
visão irônica sobre os costumes da burguesia nativa. Por vezes, tais pretensões
artísticas existenciais trazem um caráter perturbador para a obra, em outros
momentos apenas resvalam no superficial e no oportunista. O que fica de
memorável realmente nesse longa dirigido por Victor Di Mello é no acentuado
fator de violência e sexualidade gráficas que inundam a tela em algumas
sequências. Pode-se acusar o filme de várias coisas, até de um certo apelo
preconceituoso que seria quase impensável no cinema contemporâneo, mas pelo
menos não se pode dizer que caia em concepções imagéticas e narrativas
assépticas. Por mais desagradável e vulgar que sejam algumas de suas cenas, “Giselle”
é o tipo de obra que se instaura de forma insinuante no imaginário do
espectador.
terça-feira, julho 31, 2018
O terceiro assassinato, de Hirokazu Kore-eda **1/2
A maioria dos filmes dirigido pelo diretor japonês Kirokazu
Kore-eda é formada por sóbrios melodramas familiares. “O terceiro assassinato”
(2017) representa, em um primeiro momento, uma insólita mudança de gênero
cinematográfico para o cineasta, enveredando para a área do suspense policial.
A trama gira em torno das misteriosas motivações de um brutal assassinato de um
homem por parte de um ex-empregado seu. Ocorre, entretanto, que no desenvolver
da narrativa se pode perceber que Kore-eda procura se distanciar dos clichês
temáticos e estéticos inerentes a esse tipo de produção, procurando adequar a
trama dentro de seus habituais preceitos artísticos. Assim, o foco é mais
acentuado nos dilemas intimistas dos personagens (investigadores, suspeito,
familiares da vítima) e também em se realizar uma espécie de crítico panorama moral
da sociedade japonesa contemporânea. As ambições do diretor são interessantes
nessa formatação, mas a verdade é que o resultado final acaba deixando a
desejar. O motivo principal para essa frustração está justamente naquilo que
sempre foi o forte nas obras dirigidas por Kore-eda – a encenação. O que geralmente
era preciso e minucioso em outros filmes do cineasta, agora parece
descompassado e enfadonho em “O terceiro assassinado”, fazendo com que até
mesmo o próprio roteiro do longa se mostre por vezes banal e perdido em
excessos sentimentais.
segunda-feira, julho 30, 2018
Alguma coisa assim, de Esmir Filho e Mariana Bastos ***
Há uma certa conexão existencial-artística entre as
produções brasileiras “Gabriel e a montanha” (2017) e “Alguma coisa assim” (2018)
- além, é claro, de compartilharem a atriz Caroline Abras em seus respectivos
elencos. Os dois filmes são retratos de uma classe média contemporânea
aprisionada em uma bolha de alienação e hedonismo. Se na produção dirigida por
Felipe Gamarano Barbosa o protagonista Gabriel (João Pedro Zappa) interage com
africanos pobres como se esses fossem apenas atrativos de suas viagens ou
motivos de teses sócio-econômicas distanciadas, na obra conduzida por Esmir
Filho e Mariana Bastos os personagens principais Mari (Abras) e Caio (André
Antunes) parecem viver em uma universo à parte de uma ampla realidade
brasileira, com uma fotogênica e descolada rotina em que se sugere que São
Paulo e Berlin pouco se distinguem (ok, a primeira tem umas pichações a
mais...). Mas tal aspecto temático é apenas um dos elementos na narrativa, em
que o foco principal está mais no aspecto intimista da relação entre Mari e
Caio. Há recursos formais e textuais bem interessantes em cena, desde o fato de
que o filme foi sendo realizado ao longo de mais de 10 anos (as primeiras
filmagens datam de meados da década passada), para ter uma captação mais
realista e profunda do processo de amadurecimento emocional dos personagens,
até a uma abordagem que valoriza uma narrativa atmosférica e sensorial e uma
excelente trilha sonora baseada em temas eletrônicos e canções de forte traço
melancólico. A estética de “Alguma coisa assim” é inconstante, fluida, variando
do realismo até um tom onírico e chapado, o que acaba se mostrando coerente com
um roteiro que realça as ambiguidades dos seus personagens e situações e que se
evidencia ainda numa fluidez erótica por vezes desconcertante e mesmo nas
soluções insólitas dos dilemas da difusa história de amor e amizade entre Mari
e Caio.
sexta-feira, julho 27, 2018
Ilha dos cachorros, de Wes Anderson ****
Tem coisas que só Wes Anderson consegue fazer. A combinação
parecia improvável em “Ilha dos cachorros” (2018) – animação em stop-motion,
parábola política, fábula moral, homenagem/paródia ao gênero aventura com
samurais. Na ótica particular do cineasta norte-americano, entretanto, todos
esses elementos se entrecruzam com uma lógica e coerência artísticas
extraordinárias, além de perpassados por uma síntese bizarra de ironia
sardônica e pungência insólita (na realidade, uma abordagem que já era marca de
Anderson em seus filmes anteriores). Ao invés daquela estética clean que é
característica de Pixar e Disney, Anderson busca uma concepção imagética mais “suja”
e expressiva, fazendo lembrar muito o estilo de Bill Plympton, ainda que sem
todo aquele tom delirante. Sua evocação da cultura japonesa na trama não é
meramente aleatória, pois a pegada mais reflexiva e contemplativa da narrativa
remete a uma forma de filmar que é tradicional da escola clássica do cinema
nipônico (os amplos planos de cenários ermos, por exemplo, fazem lembrar
clássicas aventuras de Akira Kurosawa). Em outros momentos, a intensidade da ação
cinematográfica traz aquele senso cartunesco que era marca registrada de uma
animação norte-americana de décadas atrás. Todas essas nuances de influências
formais se sintonizam de maneira precisa com um roteiro que tanto valoriza a
carga sócio-política de cenas cruciais como preserva o aspecto de diversão e
mesmo sentimental de forte carga humanista de outras passagens importantes da
trama. Nesse expressivo conjunto criativo, “Ilha dos cachorros” reforça ainda
mais o nome de Wes Anderson como uma espécie de amoroso cronista “fílmico” dos
desajustados e esquisitões.
quinta-feira, julho 26, 2018
Para o outro lado, de Kiyoshi Kurosawa ***1/2
A vinculação do diretor japonês Kiyoshi Kurosawa com o
cinema fantástico é forte, mas não de uma forma tradicional (ou pelo menos com
aqueles direcionamentos estéticos-temáticos que nós espectadores ocidentais
estamos acostumados). Em seus filmes, o elemento metafísico está sempre
presente, incorporando-se com fluidez a uma narrativa de ambientação naturalista.
“Para o outro lado” (2015) é exemplar enfático dessa particular concepção
artística, com uma trama em que fantasmas e vivos coabitam um mundo com
naturalidade, não havendo maiores explicações sobre o fenômeno e nem a
necessidade de uma atmosfera de suspense ou mistério. A história do marido
falecido que retorna depois de anos para viajar com a sua viúva apresenta como
tônica preponderante um caráter entre o simbólico e o intimista. Os aspectos
bizarros do roteiro aos poucos se insinuam no imaginário do espectador com uma
desconcertante coerência onírica/existencial, valorizados por uma encenação
sóbria e pungente.
quarta-feira, julho 25, 2018
Infância, de Domingos Oliveira *1/2
A filmografia de Domingos Oliveira parece ser um eterno “Amarcord”
– são obras que se desenvolvem em torno das memórias e obsessões sentimentais
do cineasta. Se por um lado isso é admirável no sentido de configurar uma
coerência autoral muito particular dentro da história do cinema brasileiro, por
outro faz com que os filmes de Oliveira se mantenham em uma linha tênue entre o
memorável, o razoável e o francamente ruim. “Infância” (2014) se enquadra nessa
última categoria. O longa se equilibra de maneira irregular em polos opostos de
abordagem artística – por vezes o cineasta busca uma encenação mais solta,
plena de verborragia excêntrica e com uma ambientação até pretensamente
delirante; em outras oportunidades, procura se adequar aos preceitos de um
cinema acadêmico de época. Em nenhuma dessas abordagens se mostra satisfatório
e nessa tensão narrativa a produção acaba se mostrando autoindulgente e esquemática,
bem distante da criatividade estética/temática esfuziante e divertida de filmes
antológicos como “Todas as mulheres do mundo” (1967) e “BR183” (2016). Há até
sequências em “Infância” que remetem a uma comicidade bem típica de Oliveira,
principalmente de um lado mais picaresco dos personagens, e que sugerem que o
filme poderia ter ficado bem mais interessante em seu resultado final se o
diretor tivesse acertado a mão na narrativa.
terça-feira, julho 24, 2018
É apenas o fim do mundo, de Xavier Dolan **
A força dos filmes mais significativos do diretor canadense
Xavier Dolan está no vigor da encenação. Os roteiros tinham um direcionamento
básico de melodrama familiar, com poucas variações, mas embalados em uma desconcertante
dinâmica cênica. Em “É apenas o fim do mundo” (2016), justamente aquilo que
diferenciava a concepção artística de Dolan acaba caindo por terra em nome de
uma desgastada formatação teatral. Sai a crueza naturalista e entra em seu
lugar uma estilizada narrativa que em momento algum consegue convencer. O
roteiro acentua ainda mais essa impressão – parece uma variação pouco
imaginativa e sentimental em excesso das peças mais conhecidas de Tennessee
Williams. O que salva um pouco as coisas são algumas composições dramáticas
intensas de parte do elenco. Insuficientes, entretanto, para tirar o filme do
enfadonho.
segunda-feira, julho 23, 2018
A garota desconhecida, de Luc e Jean-Pierre Dardenne ***
Em seus filmes, os irmãos Dardenne obedecem a uma rigorosa
fórmula temática-estética-narrativa. Sãos obras que se configuram como sóbrios
contos morais a versarem sobre dilemas intimistas dentro de um contexto social
conturbado embalados num severo formalismo que dispensa artificialismos fáceis
e palatáveis, remetendo a escolhas artísticas herdadas da escola neorrealista. “A
garota desconhecida” (2016) não altera em nada desse habitual estilo fílmico
dos Dardenne. Não tem a mesma intensidade artística e existencial de “O garoto
da bicicleta” (2011) e “Dois dias, uma noite” (2014) e o sabor de deja vu
excessivo por vezes fica mais latente. Mesmo assim, por vezes, sua crueza estilística
e o humanismo a flor-da-pele da trama têm aquela síntese incômoda entre caráter
perturbador e encanto que marcou boa parte da filmografia dos cineastas.
sexta-feira, julho 20, 2018
Jason Bourne, de Paul Greengrass *
É claro que é compreensível produtores e demais executivos
quererem retomar uma franquia cinematográfica lucrativa. Afinal, é mais fácil
trazer de voltar uma fórmula narrativa já testada e aprovada pelas grandes
plateias do que procurar algum novo filão criativo/comercial. Em alguns casos,
essa reciclagem, além da grana fácil para quem investiu na ideia, pode render
alguma coisa relevante em termos narrativos/artísticos. Não é o caso de “Jason
Bourne” (2016). A impressão final que se tem ao assistir à obra em questão é
que tudo aquilo que poderia haver de interessante e divertido em relação ao
personagem e seu universo se esgotou em “A supremacia Bourne” (2004) e “O ultimato
Bourne” (2004). O roteiro é um mero compêndio de ideias requentadas, o diretor
Paul Greengrass se limita a repetir de maneira irritante e cansativa todos os
seus habituais maneirismos estéticos/cênicos e Matt Damon nem se esforça muito
em sair de um registro dramático inexpressivo. Assim, não poderia haver outro
resultado final que não fosse enfadonho e perfeitamente esquecível.
quinta-feira, julho 19, 2018
Uma casa à beira-mar, de Robert Guédiguian ****
Há muitos anos que o diretor francês Robert Guédiguian filma
praticamente da mesma forma. Sua narrativa é de estrutura clássica, a encenação
é um misto de fluidez e rigor, a temática sempre sintetiza intimismo com olhar
crítico sobre as mazelas sociais e políticas. Ele até pode ser previsível em
seus preceitos artísticos-existenciais, mas sempre os coloca em prática de forma
vigorosa. Em algumas oportunidades o resultado final não chega a ser tão
memorável, mas quando ele acerta a mão de verdade, a impressão que resta é de
um forte impacto emocional para o espectador. “Uma casa à beira-mar” (2017) é
um desses pontos altos da carreira do cineasta. O roteiro traz uma série de
elementos bastantes caros para a sociedade na atualidade: descontentamento com
a globalização econômica massacrante, a perseguição a refugiados e imigrantes,
a nostalgia por um passado mais humano. A visão expressa pelo filme sobre tais
temas tem um forte caráter panfletário, por vezes beirando a ingenuidade e o
anacronismo, só que Guédiguian formata tudo isso com uma convicção e uma
lucidez contundentes em sua narrativa que acaba encantando pelo humanismo sem
concessões de tal abordagem. As simbologias imagéticas e textuais são simples,
diretas, mas altamente eficazes na delicadeza e precisão de sua execução. Mesmo
a forma com que o cenário natural em que a história se passa, a de uma bela vila
de pescadores no interior da França, foge da simples caracterização “cartão
postal” e se configura como um pequeno e complexo universo a refletir as
contradições e dilemas da Europa contemporânea. No mais, “Uma casa à beira mar”
também representa uma impressionante depuração das melhores qualidades de
Guédiguian como realizador – a direção de atores extrai nuances dramáticas magníficas
das atuações do elenco, a atmosfera do filme varia de maneira natural entre a
dureza realista e uma doçura quase fabular, o discurso humanista alia
melancolia e esperança nas doses exatas. A sensacional sequência final da
produção, de um lirismo pungente à flor-da-pele, coroa com perfeição as
coerentes soluções autorais de Guédiguian para a sua obra.
quarta-feira, julho 18, 2018
Jack Reacher: Sem retorno, de Edward Zwick **
O diretor norte-americano Edward Zwick está bem longe de ser
alguém de forte traço autoral em seus filmes ou dado a grandes arroubos de
originalidade. Está mais para aquela ala de “tarefeiros” de Hollywood que pegam
sem pestanejar os projetos sem pestanejar muito os projetos que os grandes
estúdios lhes mandam. Nessa linhagem, entretanto, pode ser considerado um
cineasta competente com algumas obras memoráveis no currículo, principalmente
no gênero ação, como “O último samurai” (2003) e “Diamante de sangue” (2006).
Diante desse cenário, “Jack Reacher: Sem retorno” (2016) acaba sendo uma
considerável decepção, pois consegue ser ainda mais genérico e sem graça que o
primeiro longa da franquia, “Jack Reacher: O último tiro” (2012). Zwick conduz
a narrativa de maneira mecânica e asséptica, adjetivos que também poderiam se
aplicar com exatidão para a atuação de Tom Cruise no papel-título. E o pior é
que nem dá dizer que o filme está em sintonia com o que vem sendo feito no
gênero nos últimos anos, pois a franquia “John Wick”, por exemplo, vem
comprovando que ainda pode haver muita criatividade nas produções de ação e
aventura.
terça-feira, julho 17, 2018
Gente de sorte, de Neil Burger **1/2
Filmes que retratam à volta para casa de combatentes de uma
guerra já representam uma certa tradição no cinema norte-americano. Alguns dos
principais conflitos nos quais o Estados Unidos esteve envolvido tiveram obras
marcantes a mostrar o difícil processo de readaptação de veteranos em solo
nativo, vide obras nesse sentido referentes à 2ª Guerra Mundial (“Os melhores
anos de nossas vidas”) e o conflito do Vietnã (“Amargo regresso”). “Gente de
sorte” (2008) adequa essa temática para a invasão do Iraque pelos
norte-americanos na primeira década do século XXI. O filme do diretor Neil
Burger se mantém em uma linha tênue entre o ufanista e uma perspectiva mais
crítica sobre a situação dos personagens. Na verdade, prefere se manter dentro
de uma estrutura narrativa que oscila entre o ameno melodrama e o discreto teor
cômico. Por vezes é agradável, em outros momentos beira a insipidez. Ou seja,
cabe ao espectador esperar que um dia saia uma obra mais contundente sobre o
tema em questão.
segunda-feira, julho 16, 2018
Hannah, de Andrea Pallaoro ***
O diretor italiano Andrea Pallaoro exerce em “Hannah” (2017)
um rigoroso exercício de estilo estético/existencial. A premissa do roteiro é
objetiva e quase espartana em seus desdobramentos – a austera rotina de Hannah
(Charlotte Rampling) a partir da prisão de seu marido. O crime e as suas circunstâncias
que levaram à condenação de seu companheiro são expostos ao longo da narrativa
em sutis nuances de gestos, expressões faciais e econômicos diálogos. Para
Pallaoro, além da exposição do cotidiano desolador da protagonista, há um
interesse primordial na forma com que os elementos da trama se apresentam ao
espectador. É quase como se fosse um desafio contemplativo do cineasta em
relação ao seu público – o entendimento pleno do que se viu na tela vem apenas
na conclusão do filme, e mesmo assim sem um tom de grande revelação dramática.
A “solução” para os aparentes mistérios sugeridos na trama é simples, ainda que
perturbadora. Não há julgamento moral sobre as atitudes dos personagens, apenas
uma atmosfera resignada de fatalismo e inexorabilidade no destino dos
indivíduos. Fica estabelecida uma relação simbiótica entre os ascetismos da
vida de Hannah e do formalismo sem concessões de Pallaoro. Nessa cerebral concepção
artística, ainda que coerente com o aludido exercício de estilo do diretor, não
há muito espaço para grandes arroubos sensoriais. A fresta de maior
transcendência que se abre é uma poderosa interpretação dramática da atriz
principal. Charlotte Rampling domina toda a narrativa com uma sensacional
atuação marcada pela contenção de sentimentos e que por vezes explodem em
violentas manifestações emocionais. É como se observássemos um prédio ruindo em
câmera lenta.
sexta-feira, julho 13, 2018
Encontro de casais, de Peter Bilinsgley **
A parceria entre os atores Vince Vaughn e Jon Favreau já
rendeu alguns filmes memoráveis, com evidente destaque para o sensacional “Swingers
– Curtindo a noite” (1996). “Encontro de casais” (2009) talvez seja o ponto
mais baixo dessa parceria. Em seu início, o filme até sugere uma interessante
visão irônica sobre as agruras do casamento na sociedade contemporânea. Aos
poucos, entretanto, a narrativa se rende a trivialidades banais em seu roteiro
e a uma encenação insípida. Tudo se formata em soluções temáticas e formais
conservadoras e previsíveis. Há sequências com alguma graça eventual, mas é
muito pouco para tirar o longa dirigido por Peter Bilinsgley do limbo das
nulidades cinematográficas.
quinta-feira, julho 12, 2018
Homem-Formiga e a Vespa, de Peyton Reed ***
Em termos conceituais-narrativos, na comparação com “O
Homem-Formiga” (2015), o diretor Peyton Reed pouco mudou em “Homem-Formiga e a
Vespa” (2018). A fórmula é aquela mesma, aventura escapista com toques de
melodrama familiar e um monte de piadinhas bestas (algumas até bem engraçadas).
A narrativa e o roteiro demoram um pouco a engrenar, principalmente pelo
excesso de explicações pseudocientíficas e de dilemas sentimentais dos
personagens. Na metade final do filme, entretanto, prevalece um ritmo de ação
mais frenético, por vezes quase desgovernado, e daí as coisas melhoram
bastante. Até os momentos engraçadinhos ficam bem mais funcionais. Há um
casamento eficaz entre a criatividade dos efeitos digitais com a ótimas
coreografias de lutas e perseguições automobilísticas e que acaba gerando
algumas sequências memoráveis. Além disso, a caracterização do mundo quântico é
repleta de excelentes sacadas visuais, deixando aquele gostinho de quero mais
(aliás, uma interessante possibilidade criativa de histórias para os Estúdios
Marvel, como comprova uma das cenas pós-créditos), e as atuações do elenco têm
uma forte empatia cênica (destaque para o carisma boa-praça de Paul Rudd e as
boas tiradas cômicas de Michael Peña). Na comparação com outras produções do
universo cinematográfico Marvel, “Homem-Formiga e a Vespa” não tem a
perturbadora densidade dramática de “Os Vingadores: Guerra infinita” (2018) ou
a combinação insana de brutalidade e ironia de “Thor: Ragnarok” (2017), mas é
mais empolgante que o correto “Pantera Negra” (2018) e mesmo que o primeiro
filme de 2015. Ou seja, por mais que todas as estratégias de marketing dos
estúdios Marvel possam encher o saco, se eles continuarem entregando produções
divertidas como essa é provável que toda essa onda de filmes de super-heróis
ainda vá muito longe...
quarta-feira, julho 11, 2018
Donnie Darko, de Richard Kelly ***
O título de grande referência cult
cinematográfica que se atribui à “Donnie Darko” (2001) tem algo de exagerado.
No cômputo geral, o filme dirigido por Richard Kelly é uma espécie de colcha de
retalhos de influências das principais vertentes estéticas e temáticas do
cinema independente norte-americano das últimas décadas. Estão lá a crítica
entre o agridoce e o sarcástico aos valores do american way of life das
principais obras de Sofia Coppola, o formalismo bizarro dos clássicos de Tim
Burton, as ambientações delirantes características de David Lynch. Isso sem
falar da esperta trilha sonora recheada de marcantes canções oitentistas pop e
rock. Falta para esse trabalho de estreia na direção de Kelly uma pegada
artística/narrativa mais ousada – as aparentes esquisitices que pairam sobre a
encenação e roteiro aos poucos se formatam de maneira “redonda” demais,
esvanecendo bastante do clima de mistério e estranhamento que predomina na
metade inicial do filme. Ainda assim, “Donnie Darko” é uma obra que tem o seu
lado cativante, principalmente em termos de caracterização de personagens e
situações da trama. Mesmo que não seja especialmente original como um todo, a
fluência da narrativa e algumas soluções visuais sardônicas (destaque para
aquele coelho gigante escroto) oferecem para o longa alguns momentos
memoráveis.
terça-feira, julho 10, 2018
Os incríveis 2, de Brad Bird ***1/2
Quando “Os incríveis” (2004) foi lançado nos cinemas,
faltavam ainda alguns anos para que o universo dos Estúdios Marvel se
configurasse de maneira plena no cenário cinematográfico (ideia essa que depois
foi imitada pelo conjunto DC/Warner). Naquele cenário, a animação da Pixar
dirigida por Brad Bird talvez fosse a melhor tradução de diversos conceitos
inerentes às aventuras de super-heróis das HQs. Havia até uma influência muito
bem filtrada de elementos temáticos do “Watchmen” de Alan Moore (coisa, aliás,
do qual a medíocre adaptação concebida pelo nefasto Zack Snyder passou longe). Ainda
que não traga o mesmo grau de criatividade do filme original, “Os incríveis 2”
(2018) consegue lograr em alguns momentos uma inspiração temática/estética
semelhante. O roteiro é bastante previsível em seus desdobramentos, mas sabe
valorizar uma interessante interação dramática/cômica entre os personagens e
apresenta contundente coerência em suas viradas e na caracterização de
situações e personagens. A qualidade gráfica é excepcional, com evidente destaque
para as sequências envolvendo as luzes esfuziantes quando o vilão hipnotizador
está em cena, e aliada a coreografia frenética e precisa das cenas de ação acaba
resultando em uma narrativa envolvente. Nesse cenário fortemente consolidado de
produções de super-heróis, a franquia da Pixar perde aquele caráter de novidade
da década passada, mas também se mostra em relevante sintonia com o atual
contexto histórico/artístico – está no nível do melhor que os Estúdios Marvel
já lançou e está bem adiante de tudo que a DC/Warner tem apresentado.
segunda-feira, julho 09, 2018
As boas maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra ****
Em dupla ou a solo, a filmografia em conjunto de Juliana
Rojas e Marco Dutra configura uma estranha e fascinante síntese entre o gênero
fantástico, o arguto intimismo e a sutil crítica social. Tal concepção
artística já havia se estabelecido de maneira contundente em “Trabalhar cansa”,
“Quando eu era vivo” e “A sinfonia da necrópole” e novamente se cristaliza com
expressivo impacto em “As boas maneiras”. Nessa produção mais recente, o
fabular e o horror sobrenatural se integram com naturalidade dentro de um
cenário urbano e contemporâneo “realista”, construindo simbologias imagéticas e
textuais desconcertantes na eficácia e simplicidade de seus recursos visuais,
na engenhosidade estética e no roteiro preciso na sua combinação de sóbria
dramaticidade e humor mórbido. A figura do lobisomem que paira sobre a
narrativa, na ambiguidade da contraposição entre o humano civilizado e a fera
selvagem, também reflete na marca da dualidade que se estabelece em vários
momentos do filme – a metrópole moderna e cosmopolita (e seus “castelos”) e a
periferia (o “vilarejo”) fortemente vinculada à pobreza e a raízes regionais separadas
por uma ponte, o cotidiano hedonista e vazio de Ana (Marjorie Estiano) e a
rotina austera de privações de Clara (Isabél Zuaa) que colidem a partir do
choque erótico entre as duas personagens, a atmosfera de silenciosa tensão
psicológica da primeira parte da narrativa e o ritmo mais acentuado de aventura
e horror explícito do segundo momento do filme. Pontuando com sensibilidade
essa concepção formal-temática há detalhes cênicos memoráveis como os belos
números musicais que remetem a tragédias gregas e cantigas folclóricas, a
direção de fotografia que emula uma ambientação fabular no seu jogo de
enquadramentos e iluminação, as interpretações entre o visceral e o delicado do
elenco e os efeitos especiais que alternam com criatividade e fluência
trucagens animatrônicas, digitais e de maquiagem. Coroando essas soluções
artísticas de Rojas e Dutra vem um “gran finale” capaz de ficar muito tempo
colado no imaginário do espectador pela sua carga catártica e melancólica.
sexta-feira, julho 06, 2018
Aterrorizados, de Demián Rugna ***
Há algo de desequilibrado em “Aterrorizados” (2017). Por
vezes a encenação parece um tanto truncada, parte do elenco envereda por um tom
canastrão em suas interpretações, o roteiro fica especialmente confuso em
algumas passagens. Ocorre, entretanto, que tais “defeitos” também ajudam a dar
um charme especial para essa produção de horror dirigida pelo argentino Demián
Rugna, afastando a obra daquele caráter asséptico que grassa em boa parte do
que vem sendo feito no gênero nos últimos anos. Rugna evoca muito do melhor do
cinema do diretor italiano Lucio Fulci – há aquelas ambientações sujas e
sórdidas, o grafismo violento e perturbador e o tom obscuro na narrativa que
permearam obras clássicas como “Zombi 2” (1979) e “Terror nas trevas” (1981). É
claro que Rugna não tem a mesma classe artística de Fulci, mas ainda assim
consegue oferecer um filme de horror bastante eficaz em termos de tensão
dramática e teor imagético de forte impacto sensorial.
quinta-feira, julho 05, 2018
Ex-pajé, de Luiz Bolognesi ***1/2
Por mais que se fale que “Ex-pajé” (2018) seja um
documentário e que o filme em questão tenha participado de festivais do gênero,
a efetiva percepção que se tem da obra dirigida por Luiz Bolognesi é de uma contundente
recriação dos principais preceitos do neo-realismo italiano – estão lá a
temática de forte cunho social, o uso de um elenco de amadores, o
aproveitamento de recursos naturais e externos. Nesse contexto, a narrativa se
formata em termos de encenação e atmosfera praticamente como um conto fabular,
revelando ainda uma rigorosa decupagem. Essa concepção artística revela uma
coerência existencial notável com o subtexto repleto de nuances do roteiro.
Nesse sentido, é de se reparar na forma com que a direção de fotografia capta
as imagens da floresta onde vivem os índios Pater Saruí, principais personagens
da história, em que esses cenários refletem um caráter misto de beleza e
mistério e complementam o forte teor místico da trama. Com sutileza, fica
estabelecido um embate marcante que paira sobre toda a narrativa: a força
opressora da cultura branca, na síntese entre os madeireiros brancos que
invadem as terras indígenas e o opressor missionarismo evangélico que
estabelece um processo de aculturação na tribo, e a discreta resistência mística/cultural
do lado silvícola promovida pelo pajé “aposentado” Perpera Surui e pelo seu
sobrinho ativista virtual Ubiratan Surui. Bolognesi evita uma abordagem
espetaculosa desse conflito, preferindo um ritmo narrativo contemplativo, quase
plácido, que acentuam com vigor e sensibilidade elementos cênicos fundamentais
para a obra, como os sons da natureza, a impenetrável beleza da floresta e os
gestos e expressões de seus principais personagens. Nesse sentido, a sequência
final de “Ex-pajé” tem um impacto sensorial memorável: Perpera Surui observa a
floresta de maneira e serena, como se ambos fossem uma única entidade.
quarta-feira, julho 04, 2018
Auto de resistência, de Natasha Leri e Lula Carvalho ***1/2
No gênero documentário, muito se fala sobre os limites entre
a captação daquilo que é efetivamente “verdade” e a realidade encenada. Em “Auto
de resistência” (2018), assim como em “O processo” (2017), o questionamento vai
mais além – e se a nossa própria realidade não é uma encenação mal disfarçada?
No filme de Natasha Leri e Lula Carvalho, a narrativa se foca em boa parte nos
ritos processuais judiciais de ações penais que apuram os assassinatos de
jovens dos morros e periferias do Rio de Janeiro por parte de policiais em
serviço. Nessa abordagem que combina um certo caráter investigativo com um
forte lado de dramático discurso sócio-existencial, a obra se vale da captação
própria de cenas envolvendo os depoimentos de familiares e amigos das vítimas e
daqueles que os apoiam em sua cruzada e de audiências de algumas dessas ações
judiciais, além de usar filmagens de terceiros que geralmente são provas
escancaradas da brutalidade homicida da polícia. O registro de todos esses
momentos é de um detalhismo minucioso que vai do incômodo ao francamente
perturbador. A saga por busca de alguma justiça em relação às ações violentas
do aparelho estatal de segurança vai se revelando cada vez mais quixotesca,
além de escancarar o abismo sócio-econômico entre as partes envolvidas – jovens
pobres e negros são executados por policiais também pobres e negros e são
analisados de maneira indiferente e mecânica por um aparelho institucional-jurídico
composto por profissionais brancos e burgueses. Cumprir os ritos processuais
mais parece a necessidade da imposição de uma teatralização hipócrita do que do
que propriamente oferecer justiça. Na conclusão de uma audiência, ao proferir
uma sentença condenatória, uma juíza discursa que o resultado final pouco
alento trará para a sociedade e mais tem a função do cumprimento de um preceito
legal. Nessa assertiva entre o melancólico e o cinismo reside a razão de ser de
um sistema opressor e injusto tão bem dissecado em “Auto de resistência”.
terça-feira, julho 03, 2018
Un + une, de Claude Lelouch **
O cinema do diretor francês Claude Lelouch parece que vai
ser tornando cada vez mais autorrefencial. “Un + une” (2015) é um exemplar
enfático dessa tendência. Trama e atmosfera evocam aquela mistura de romantismo
exacerbado e homenagens ao universo cinematográfico já delineada em outros
longas-metragens do cineasta, sempre tendo como pano de fundo um cenário marcado
pelo exotismo e mistério. Se em outros filmes tal fórmula artística rendeu
alguns momentos memoráveis, na obra em questão o resultado final é banal e por
vezes enfadonho, ainda que a sua competência formal possa soar agradável em
algumas passagens. Com toda a sua fotogenia e amenidade narrativa, “Um + une” é
uma produção fácil de ver e mais fácil ainda de esquecer.
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