quarta-feira, novembro 10, 2010

Alô Alô Terezinha, de Nelson Hoineff ***1/2


Não vou bancar o cool e dizer que sempre gostei de Baby Consuelo. Na verdade, foi só na década de 90 que fui escutar Novos Baianos e perceber que a Baby era, provavelmente, uma das três melhores cantoras que o Brasil já teve. O problema, entretanto, é que a primeira vez que a vi/ouvi foi nos anos 80, quando ela já havia virado paródia de si mesma e tinha uma carreira solo pouco louvável, imersa em breguice e misticismo picareta, além de ostentar um vestuário que oscilava entre o espalhafatoso e o francamente ridículo. Pois é justamente essa Baby pouco recomendável que surge no esplendor de sua cafonice em “Alô Alô Terezinha” (2008), documentário que focaliza os bastidores de programas de auditório comandados por Abelardo Barbosa, também conhecido como Chacrinha. Ainda no campo das reminiscências, também devo confessar que eu não era muito fã de tais programas. Talvez para a minha mentalidade de criança/adolescente de classe média aqueles momentos eram excessivos demais: cantores e cantoras despejando canções de romantismo açucarado insuportável, uma platéia histérica, jurados extravagantes, as chacretes executando coreografias dignas de bordéis e, a cereja nesse bolo de gosto duvidoso, a figura do Velho Guerreiro, um homem que parecia estar constantemente em possessão alucinada comandando todo aquele caos. Revendo tudo isso em “Alô Alô Terezinha”, todavia, tive uma impressão diferente daquela confusão bufona e colorida. Não foi apenas um ataque de nostalgia, mas também uma compreensão de que aquilo captava com perfeição boa parte das contradições que permeiam a alma coletiva brasileira.

Cabe ressaltar que “Alô Alô Terezinha” não tem a ambição de biografar Chacrinha. Pelo contrário: de certa maneira, parece até reforçar o mistério e a aura de mito sobre a sua pessoa. O diretor Nelson Hoineff concentra a sua narrativa em imagens de arquivos montadas de forma aparentemente aleatória e em depoimentos de pessoas que gravitavam em torno do apresentador – músicos, calouros, jurados, profissionais da produção do programa e, é claro, as inevitáveis chacretes. Aliás, o elemento sexual é muito forte na composição do roteiro – discute-se quem transou com as chacretes, com quais delas Chacrinha tinha caso, o impacto que elas tinham sobre o imaginário nacional. O que poderia ser apelativo, contudo, na realidade é essencial para termos uma idéia aproximada do clima fortemente erótico e exuberante que emanava daqueles programas de televisão. E nesse sentido, faz-se a conexão do pernambucano Chacrinha com artistas mambembes que percorrem o sertão com espetáculos musicais e de variedades que utilizam um humor erótico que varia entre o ingênuo e o malicioso.

Hoineff faz das chacretes uma espécie de fio condutor da narrativa. Além de revelarem detalhes, picantes ou não, do que acontecia por trás dos panos, elas ganham uma dimensão inesperada ao exporem suas vidas pós-Chacrinha, impressionando pela sinceridade e contundência ao falarem de desejos, frustrações e saudades. Para mulheres que eram admiradas por sua beleza física e sensualidade, é difícil não encarar o envelhecimento biológico como uma amarga decadência. Para ressaltar essa visão, Hoineff obtém seqüências preciosas como aquelas em que consegue fazer uma das chacretes, já bem mais rechonchuda, vestir um dos maiôs da época do programa, ou quando convence a veterana Índia Potira a ficar pelada.

As idéias de decadência e do grotesco são chaves na concepção formal e temática de “Alô Alô Terezinha”, pois realçam o gosto pelo extremo de Chacrinha. O que vem delas também é o tom de melancolia nostálgica que está presente no olhar da maioria daqueles que deram seus depoimentos para o filme. Todos têm a consciência que havia algo de sórdido nos programas, que Chacrinha humilhava os calouros e insultava chacretes e demais colegas, que os gritos vindo das “macacas de auditório” eram insuportáveis, que boa parte das apresentações musicais eram marcadas por canções medíocres e artistas pouco talentosos. Mesmo assim, há neles a consciência de que tudo aquilo tinha uma forte espontaneidade e um carisma que são praticamente ausentes na televisão hoje em dia, quando besteirois como Faustão, novelas, Big Brother e quetais são levados a sério.

“Alô Alô Terezinha” também soa como uma resposta a uma série de produções que trazem um ideal de uma cultura brasileira marcada pela autenticidade e bom gosto. “Coisa Mais Linda” (2005) evoca uma elitista bossa nova, “Vinicius” (2005) idealiza seu biografado como o letrista e poeta ideal, “Loki” (2008) entroniza os Mutantes como os mais revolucionários do nosso rock, “Um Homem de Moral” exalta o samba bem articulado de Paulo Vanzolini (2009). Já o documentário de Hoineff traz à tona artistas como Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Nelson Ned e Agnaldo Timóteo e faz deles legítimos representantes da cultural popular, independentes dos mesmos atenderem ou não aos padrões parnasianos dos cadernos culturais. Por sinal, o antológico depoimento de Timóteo sobre João Gilberto pode ser exagerado, mas, no contexto do filme, tem quase a força de um desafio.

O mais fascinante em “Alô Alô Terezinha” é o fato de que Hoineff, ao retratar um período e personagens específicos da nossa história cultural, conseguiu fazer uma extraordinária radiografia do próprio Brasil, confrontando épocas diferentes e constatando que há um povo que progressivamente perde sua identidade, tanto pela imposição de padrões estéticos assépticos como pela influência obscurantista de igrejas evangélicas – não a toa, o documentário mostra algumas chacretes e os já mencionados Baby Consuelo e Nelson Ned que se converteram na fase descendente de suas carreiras.

No mais, não sei se a intenção de Hoineff era realmente promover essa recuperação de uma parte da cultura brasileira que costuma ser ignorada ou simplesmente esquecida. Da minha parte, pelo menos, até comecei a ver de uma outra forma aquela Baby Consuelo oitentista...

2 comentários:

pseudo-autor disse...

Uma palavra para resumir esse documentário: nostálgico! E pra quem teve a honra de assistir, na época, o Cassino do Chacrinha, ele se torna um instrumento ainda mais poderoso. Estou querendo ver o Caro Francis, também do Hoineff. O cara é um bom documentarista!

Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

André Kleinert disse...

O "Caro Francis" é bem inferior na comparação com este documentário do Chacrinha. Nem parece que é do mesmo diretor.